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sábado, 10 de abril de 2021

AVISO


O homem que nasceu de uma mentira

o homem que cresceu numa sombra de medo

o homem que jantou com o silêncio à mesa

o homem que dormiu entre os braços da angústia

o homem que escreveu o nome na parede do cárcere

o homem que gritou sem que ninguém o ouvisse

o homem que trazia inocência e solidão apenas

o homem que devorou sua própria pureza

o homem que cuspiu desesperado na rosa

o homem que bateu desesperado nos filhos

o homem que beijou desesperado a mulher

o homem que ficou sem cova junto ao muro

o homem que trocou por um ovo um amigo

espera-te       ainda te espera

António Rebordão Navarro em Notícias do Bloqueio nº3, Dezembro 1957 

domingo, 24 de janeiro de 2021

CARTA DO TEMPO TRISTE PARA A MARIA VIRGÍNIA


Eu bem queria não te dizer apenas
que, na cidade, são sete horas precisas
e os eléctricos conduzem gente
circunspecta e cansada.

Eu gostaria de dizer-te
que coisas sublimes tinham acontecido
ou, pelo menos, falar-te
de pequenos mas raros sucessos.

Se tudo fosse tão simples e sereno
como a descuidada juventude dos pássaros,
a todos os momentos eu poderia
enviar palavras naturais e frescas
ao teu coração aberto e vasto.

Difícil, então, só seria o silêncio
e dizendo teu nome estabeleceria
o rompimento absoluto com as estreitas,
agrestes e de sempre palavras sem futuro.

Poderia depois dizer-te coisas brandas
na universal linguagem 
que tornasse concordes pássaros e estrelas
com a circulação ritmada do teu sangue.

Poderia falar-te de coisas que não estas,
de outra gente, não esta que ora segue
sonolenta e resignada pelas ruas.
Esta gente que não tem um sonho a embalar,
mas filhos, muitos filhos,
esta gente sem gritos nem revoltas,
mas sorrisos humildes e postiços,
esta pobre gente para quem são sete horas
irremediavelmente.

Ah! Maria Virgínia, pudesse eu
dizer-te francamente: «Não há perigo,
nada importam as horas,
vamos calmos e felizes pela cidade,
e o tempo não marca porque tudo é perfeito.»

Sim, eu queria dizer-te só palavras
harmónicas e novas.
Sim, eu queria que o tempo fosse
o mesmo dos insectos e dos peixes,
dos seres simples mas donos dos seus dias.
Exactamente o propício tempo
para te enviar as mais belas notícias
que tu guardarias juntamente
com a mais pura alegria.

Ah! pudesse eu dizer-te
o que dirão os homens
 livres para sempre destas amargas horas

António Rebordão Navarro em Poesia Portuguesa do Pós-Guerra 

sábado, 16 de janeiro de 2021

AS MULHERES DE SÁBADO


                                                                   Ao Urbano Tavares Rodrigues

Possuirei as mulheres de sábado.

O amor começa nesse dia,

o mundo acaba nesse dia

lembrando-me de sábado gastarei a semana.

 

Possuirei as livres mulheres de sábado,

as agrestes mulheres que perfumam as ruas,

as que trazem no corpo a Primavera,

as que serenamente, respiram alegria.

 

Amarei nos cinemas as mulheres de sábado,

beijá-las-ei em todos os bares.

Esquecer-me-ei que resisti seis dias

para as ter nos meus braços.

 

Com as sabáticas mulheres

descobrirei jardins novos à cidade,

despedir-me-ei, sorrindo, dos eléctricos,

dos livros, dos cafés, das lojas semanais.

 

Deixarei sobre a mesa os cigarros.

Os inacabados poemas,

os tristíssimos lenços

que me acompanharam de domingo a sexta.

 

Beberei cerveja, tomarei champanhe

nas bocas abertas das mulheres de sábado.

Nadarei, feliz, com as doces mulheres,

falarei apenas de coisas bem fáceis.

 

Ou nem falaremos para não erguer

as sombras pesadas de toda a semana.

comeremos frutos, deitados na areia

sem olhar estrelas nem nuvens longínquas.

 

Sem esforço destruiremos o mundo,

triste pobre mundo dos homens reais.

e, amando-nos, sonharemos que o domingo

não virá nunca mais.

 

António Rebordão Navarro

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O NATAL DOS POETAS


Numa noite em que nasciam
crianças aos milhares
e outras morriam sem assistência médica
e outras morriam brincando com bombas
e outras morriam esmagadas
por fugitivos automóveis;
numa noite de Inverno,
numa noite de névoa
sobre os barcos sem equipagem junto ao rio;
numa noite de ruas desertas e casas fechadas
aos que andavam perdidos e sozinhos,
três poetas sentaram-se a uma mesa
e decretaram a paz e a alegria.

E decretaram a paz
para os que, cabelos soltos nas mãos das noites frias,
viviam na cidade onde agora estavam,
respiravam o mesmo ar
e liam as mesmas notícias dos jornais.
E decretaram a paz
para os que tinham
os olhos riscados pelos dedos do medo.

E decretaram a paz
para os que traziam
a angústia dos dias misturada no sangue.
E decretaram a alegria
para as crianças que estavam nascendo em todo o mundo.
E decretaram a alegria
para as jovens que sentiam os seios despontar.
e decretaram a alegria
para as mulheres que eram mães.
E decretaram a alegria
para todos os seres.

Foi então que Jesus Cristo
nascido há quase mil
novecentos e sessenta anos,
sorriu no céu que cobria a mesa
onde três poetas se tinham sentado
para decretar a paz e a alegria.

António Rebordão Navarro em Natal… Natais

Legenda: pintura de Matthias Stomer

sábado, 7 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 7


Direcção literária: Egito Gonçalves, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Desenhos: Domingos Pinho
Porto, Março de 1960

Soneto

Sonetos garantidos por dois anos.
E é muito já, leitor que mos compraste
Para encontrar a alma, que trocaste
Por rádios, frigoríficos, enganos ...
Essa tristeza sobre pernas faz-te
Temeroso e cruel e tonto e traste.
Nem pior nem melhor que outros fulanos,
Não vês a Bomba e crês nos marcianos   ...
E é para ti que escrevo, é para ti
Que um verso lanço — O mão! — como o destino,
e nele ponho mesura, desatino,
Rasgo, invenção, lugar-comum, protesto?
Antes para soldado ou para resto,
Escroto de velho, ronco de suíno ...

Alexandre O’ Neill

quinta-feira, 22 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 3

Direcção literária: Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Xilogravuras: Altino Maia
Porto, Dezembro de 1957

Aos Homens Que Virão
Trad. M.D.E.

Nós, que haveis de entender, no futuro, o trabalho
como o doce sabor da desejada festa,
quando ele for para vós arte, paixão, vitória,
- quando o poeta vê no seu próprio poema –

pensai, então, em nós com carinhosa estima;
em nós que, trabalhando como bestas de carga,
entregues a tarefas monótonas, iguais,
deixamos que a tristeza marcasse o nosso olhar.

Ah!, como vós – sabei – nós amamos a vida
e, apesar disso, deste inferno, não quisemos
chorar lágrimas vãs, deixar morrer a esperança.

Ah, sim! Profundamente amamos a alegria,
como vós – as pequenas e grandes alegrias
de que a maior foi abrir-vos o caminho.

Poema de Guillevic