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terça-feira, 25 de junho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 José Rodrigues Miguéis: Uma vida em papéis repartida

Actas do colóquio realizado no Padrão dos Descobrimentos em 8, 9 e 10 De outubro de 2001

Coordenação: Onésimo Teotónio Almeida

e Manuela Rêgo

Intervenções: João Medina, António Reis, Guilherme d’Oliveira Martins, Ernesto Rodrigues, Paula Morão, Eugénio Lisboa, Maria de Sousa, Raúl Hestnes Ferreira, Luísa Ducla Soares, Teresa Martins Marques, Eduardo Lourenço, entre outros.

Capa: Ernesto Matos

Edição: Câmara Municipal de Lisboa, 2001

A edição das obras completas de Miguéis (13 volumes) pelo Círculo de Leitores teve 5000 compradores, pese embora o facto de em não poucos casos se tratar de encadernações que estão simplesmente a adornar estantes em novas-ricas casas.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


José Rodrigues Miguéis

Catálogo da Exposição Comemorativa

do Centenário do Escritor

Comissário: Onésimo Teotónio Almeida

Capa: Pedro Cruz

Câmara Municipal de Lisboa, Setembro de 2001

 

-Você por cá, Zé Miguéis? Julgava-o em Nova Iorque.

Abraços, essa saúde como vai? e lá vinha a explicação do costume:

- Cheguei há uma semana. Já tinha tantas saudades de Lisboa!

Mas um mês depois, principiava a roê-lo a imagem de Nova Iorque. E não tardava a partira para a América, onde o prendiam outras raízes.

Lisboa e Nova Iorque eram os dois pratos da balança instável do seu destino.

Só a uma coisa se manteve ele fiel. A língua portuguesa que amava acima de tudo e fixou em dezenas e dezenas de páginas inesquecíveis.

(De um depoimento de José Gomes Ferreira). 

domingo, 26 de novembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


As Harmonias do “ Camaleão”

Reflexões de Um Burguês – II

José Rodrigues Miguéis

Estúdios Cor, Lisboa Junho de 1974

Qualquer camponês da «charneca» alentejana, ou pastor da meseta ibérica, é mais culto, etnograficamente falando, do que esses dândis para quem a cultura não passa de uma atitude de contemplação e fruição sem contrapartida: uma desnaturação. Para me explicar melhor, pois já vejo uma vertigem de espanto nos seus olhos: Vale mais um hálito de humidade espalhado por toda essa campina, do que uma inundação no meu quintal. E está visto, as pessoas presentes estão rigorosamente excluídas.

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Onde a Noite se Acaba

José Rodrigues Miguéis

Capa: Luís Filipe Abreu

Colecção Latitude nº 39

Editorial Estúdios Cor, Lisboa, Junho de 1960

A regressar das visitas, nessa tarde, a boa Bridget foi encontrar o professor Ch. Brown já em estado de rigidez cadavérica. As janelas estavam abertas, a casa arrefecera, o gato fugira, a caixa tibetana estava hermeticamente fechada, o vento levara talvez o papelinho cor-de-rosa. E a polícia de Scotland Yard nunca pôde solver o mistério daquele minúsculo anel de cabelo loiro, encontrado entre os dedos crispados do professor Ch. Brown, Ph. D,. B.A.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

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O Pão Não Cai do Céu

José Rodrigues Miguéis

Capa: José Luís Tinoco

Editorial Estampa, Lisboa, Janeiro de 1981

Através de tudo, num ponto estavam os três de acordo: sem liberdade – de discussão, de imprensa, de organização e eleição – nada era possível fazer. O que urgia era derrubar a ditadura. Fosse qual fosse o futuro, era precisos ouvir os homens, a nação, e deixar que o povo se organizasse à vontade. Só a livre discussão podia traçara as directrizes do futuro, e determinar quais as soluções concretas a adoptar. Cada um à sua maneira, eram três cidadãos honestos, sinceros, bem intencionados. Para todos eles o homem era a medida e afinalidade de todas as coisas.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

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A Amargura dos Contrastes

José Rodrigues Miguéis

Capa: Vasco Rosa

O Independente Global, Lisboa 2004

As palavras finais de O Pobre de Pedir - «Agora estou nu diante das estrelas» - são a imagem chagalliana do Gabiru pairando sobre este nosso ghetto, um símbolo que a todos nós se aplica: renúncia aos bens terrenos, à glória, à gula, à luxúria, à avarícia; um retorno à inocência, uma purificação enfim que nos ganhe a absolvição das culpas colectivas, e a comunhão num céu aberto a todos os homens, iguais diante do Criador e do Juiz. Assim havia de expirar Raul Brandão, na paz da consciência, que é a paz com Deus e com os homens.

domingo, 28 de março de 2021

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Comércio com o Inimigo

José Rodrigues Miguéis

Capa: Armando Alves

Colecção Duas Horas de Leitura nº 21

Editorial Inova, Porto, Julho de 1973

Fico de novo só entre as vozes electónico-angélicas, em plena multidão dos vivos, eu, que sonhei ressuscitar os mortos (ou ressuscitar-me dentre eles). Recomeçar a cada instante, ou periodicamente, a vida nova: não é essa a mensagem do Santo Solstício? Por isso o festejamos. A vida que perpetuamente renasce das cinzas que somos, o Cristo dentre os mortos, o eterno devir, a esperança ou certeza do dia, quando a noite nos afoga. Mas hoje não, é tarde. Agora é tarde. Há quantos anos eu aturo isto! Tudo a recomeçar, noutro plano e talvez noutra vida, noutro mundo. Eu passo e eles ficam. (Como elas!) Deixá-los ficar. O meu Natal é outro, é outra a minha Cruz. Vou sempre em sentido contrário, incoincidente.

Desço a Quinta Avenida, a gente vai rareando, a luz e o amor decrescem, como as decorações. Até que mergulho de novo nos bairros obscuros, calados e desertos.

Afinal não me ocorreu a ideia! Paciência, talvez para o ano que vem.

Ainda não é hoje que escrevo, o Conto Alegre de Natal.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

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O Espelho Poliédrico

Crónicas

Estúdios Cor, Lisboa, Janeiro de 1973

O jornalismo foi talvez a minha única vocação revelada. Ainda joje me sinto repórter, mas ando sempre atrasado. A atmosfera dos jornais fascinava-me, de noite sobretudo, com a excitação da hora de «fechar», o cheiro das tintas e o arfar das máquinas de impressão. Meu pai levou-me um dia à Companhia Estoril, no Cais do Sodré e apresentou-me a Ribeiro de Carvalho, seu correligionário. Estreei-me na República (1922), com umas crónicas da Cidade, gratuitas, sob o título geral «Poeira da Rua». Compunha-as na cabeça, andando pelas ruas depois do jantar. Já tarde, entrava na redacção, ia direito à mesa, e escrevi-as de um jacto, com a pena de bicos tortos a raspar no papel passento – como já o ficcionei em Idealista no Mundo Real, romance gorado.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

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O Milagre Segundo Salomé

José Rodrigues Miguéis
Capa: José Luís Tinoco
Editorial Estampa, Lisboa, Abril de 1982

Caso é que - rezam solícitos correspondentes - a treze de Abril e sexta-feira, ao sol-pôr, estando pesados e plúmbeos os céus, três crianças cujos nomes são de uma «bíblica» simplicidade: Jaquina, Maria e Manel, andavam a apascentar umas ovelhas no cerro de Lapa d'Ursos, sobranceiro ao lugarejo de Meca, quando, um pouco acima delas, no alto das rochas e sob as ramarias dum velho sobreiro que ali vingou crescer e afrontar os séculos e os temporais, se aperceberam de um clarão sobrenatural. Erguendo os olhos, avistaram uma figura de radiosa beleza, na qual sem hesitar reconheceram a benta imagem da Senhora das Dores, padroeira da freguesia, fervorosamente adorada na região.
Tinha na fronte a coroa cravejada de jóias, delas tão conhecida; o manto azul flutuava de manso na brisa do entardecer, e a túnica tinha a alvura das pombas da Aleluia. As névoas do ar, em torno dela, eram como arminhos leves ou revoadas de querubins; e toda ela irradiava auréolas. Ficaram a contemplá-la, medusadas de assombro. E logo - diz a Jaquina, pelas outras confirmada - a inefável imagem lhes estendeu os braços e disse: «Filhos, vinde a mim e orai!» A tais palavras, que eram pura música celestial, os três pastorinhos, vencidos de pavor, deitaram encosta abaixo, em direcção à aldeia, clamando pelas gentes, que viessem ver a Aparecida!

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



É Proibido Apontar
Reflexões de Um Burguês – I

José Rodrigues Miguéis
Prefácio: José Rodrigues Miguéis
Capa: Manuel Correia
Editorial Cor, Lisboa, Março de 1964

Mas a liberdade da criança parece um ultraje à minha servilidade adquirida, à minha anquilose mental e afectação: como posso eu deixar que ela tenha e goze o que me falta?! Esqueço que também já fui criança, que já «amarguei» e me revoltei, e que a minha paz de hoje (se tal posso chamar-lhe) é apenas a resignação que me impuseram de fora e de cima. Como posso eu, pois, dar a liberdade, se sou escravo? Como podem escravos formar espíritos livres? E como poderá ser livre quem nunca praticou a liberdade? Se nós, adultos, não sabemos respeitar a liberdade alheia, é porque em verdade nunca nos exercitámos na própria: a liberdade que se desconhece e desconhece os seus limites redunda em tirania. Ora, é no livre jogo do mundo da infância que, com a liberdade, se aprende a conhecer a fronteira das liberdades alheias, o que dará mais tarde a justiça e a harmonia no convívio social dos homens. É mais fácil emanciparmo-nos das tiranias exteriores, formais, do que da tirania interior dos hábitos e dos prejuízos, que resistem a pregações e a revoluções, em geral de superfície, porque se tornaram parte integrante, por assim dizer vegetativa, da nossa personalidade, e, depois, dos usos e costumes da vida em sociedade.

sábado, 2 de dezembro de 2017

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O Natal do Clandestino

José Rodrigues Miguéis
Capa e desenhos: Bernardo Marques
Estúdios Cor, Lisboa, Natal de 1957

Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas do mar; onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração errante e solitário, como este apelo eterno do mar junto dos cais.
Foi a um destes molhes meio esbarrondados que o navio atracou pela manhã de 24 de Dezembro, vindo do sol, do mar aberto e azul da África e dos trópicos: era um velho cargueiro esgalgado, de alta chaminé enfarruscada, com grandes remendos no casco a desfazer-se em ferrugem, e a linha de flutuação alguns palmos acima das ondas: uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os mares do mundo, coxeando, em busca de freguês, com roupas mal lavadas a enxugar pelos cordames e alguns marujos esquálidos acotovelados nas amuradas a olhar a terra estranha. Um destes navios que podiam ter inspirado um conto triste a Joseph Conrad ou Pierre Mac Orlan.
Trazia uma carga pobre e variada: óleo de palma, cocos, bananas em mau estado, amendoim, uns fardos de algodão, e um macaco mais ou menos domesticado, que adoecera em viagem e gemia numa cama de trapos, queixoso do inverno.
Vinha a bordo, também, um passageiro clandestino de que não rezavam os livros de navegação, um só, que não pagara a passagem, entregue aos cuidados cúmplices de um ou dois marinheiros: escondido nas entranhas gemebundas do calhambeque, num cubículo sem ara e sem luz junto às carvoeiras.

terça-feira, 25 de abril de 2017

OLHAR AS CAPAS


Aforismos & Desaforismos de Aparício

José Rodrigues Miguéis
Organização e Introdução de Onésimo Teotónio Almeida
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1996

18 de Abril de 1978

Todos falam de «liberdade», como se a tivessem inventado, restabelecido ou merecido. Mas se eu não afivelar a máscara de um partido nem agitar o pendão de uma seita, serei sem demora ignorado, suprimido ou oprimido pela mais vil das armas políticas (ou fascistas!), que é o boicote ou o silêncio; pela crítica caluniosa ou degradante; ou pior que tudo isso, pela impossibilidade de publicar. Não terei jornal, nem editor, nem lugar ao sol. Cada grupo, facção ou quadrilha que se apodera dos postos de comando nas instituições públicas ou privadas onde se dispõe das vidas, carreiras e reputações dos cidadãos, exerce a seu modo, e na medida dos seus rancores, as funções que ontem cabiam ao ditador, ao censor e aos seus agentes policiais, impondo gostos, ideias, modas e ofícios.
Por isso eu me refugiei neste jornal de esquerda pluralista, onde encontro até a liberdade de escrever por vezes aquilo em que com ele não estou de acordo – porque a ninguém, nem a mim mesmo, reconheço a virtude de possuir toda a verdade. Deixei assim aos «neutros» e/ou «indiferentes», que ontem bajulavam ou serviam obedientemente os bonzos da tirania, o privilégio de passar a bajular ou servir os semideuses e mandarins do presente: servindo-se a si próprios, no processo, pela sua aptidão a serem amigos-toda-a-gente – o que os não obriga a serem amigos de ninguém.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS



O Passageiro do Expresso
Peça em 4 Cenas

José Rodrigues Miguéis
Estúdios Cor, Lisboa, Dezembro de 1960

Tenho pago em suores e agonias o mal que fiz.
E estou cada vez mais pobre e mais desgraçado. Agora tu, que não cês em Deus e frequentas a Igreja: tu, que arruinaste um sem-fim de infelizes, e fazes donativos a instituições de caridade; tu, que desprezas a Mulher, e tens gozado e explorado todas as mulheres que cobiçaste – tu, que nunca te apiedaste nem sofreste, que nunca soubeste o que era o Amor, que fizeste de mim, de todos os teus semelhantes, a escada que te levou à riqueza e ao poder – tu és cada dia mais rico e mais feliz! Não tens remorsos, não sofres, vives tranquilo! Hã? Só hoje compreendo que foste sempre um insulto à minha fraqueza e à minha miséria. Talvez a causa delas! Não foras tu, e eu teria aceitado naturalmente a vida, teria sido honrado e contente. Os teus triunfos deram-me a noção duma Injusta Imanente, fizeram de mim um revoltado. Vim aqui esta noite, contra vontade, a teu convite para aprender que se tu me desprezaste sempre te odiei como o escravo odeia as suas cadeias! Qyue dizes tu a isto? Não respondes?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Léah

José Rodrigues Miguéis
Capa: Bernardo Marques
Colecção Latitude nº 24
Estúdios Cor, Lisboa, Fevereiro de 1958

Olho cá de cima esta Avenida, que foi pacata e alheia ao mundo, e quase nem a reconheço. Se quer que lhe diga, chego a ter saudades. Antigamente havia uma 79 honestidade quase dolorosa em tudo isto, um recato nas aparências. Isto era provinciano mas sincero. Entrou aqui um fungo misterioso. Muita cara nova, outros costumes, quartos de aluguel, casas suspeitas. Mães de família com meias de nylon que saem sozinhas à tarde e só voltam altas horas, ou de madrugada, de táxi... Uma encruzilhada da desintegração. Já nem gosto de olhar. Enoja-me este ersatz barato de babilônia, esta sucursal da Baixa em dó- mesquinho. Agora os mortos vão a gasolina, sem mais ajuda de Chopin; não há cortejos, nem desfiles, nem charangas animadoras. Os Santos Populares, oficializados, tornaram-se estranhos, esquecidos. Até o luar parece outro, distante. As noites abafam, acabou-se a brisa das hortas, repelidas pelo cimento das novas construções. Obras, obras! Há quem goste disto, e até quem lhe chame Progresso. Sobe da rua um estrondo odioso, os cafés ali da Praça sempre cheios de gente pasmada a ler da bola. Ouvem-se latir altos-falantes. A cervejaria, acolá, extravasa cascas de amendoim, de tremoços, restos de mariscos, sempre cheia de gentalha, patos-bravos que só falam de negócios, traficâncias, fêmeas de comprar e vender. Onde estão os pregões, os descantes, as guitarradas, os amores, os alarmes, a inocência, a poeira de outrora? Onde estamos nós mesmos? Sim, por baixo deste manga d’alpaca promovido e desiludido, onde estou eu? Para não me perder de mim mesmo, nem perder pé na vida, ainda de vez em quando ergo o canto da cortina, e fico a olhar o que para mim, para os da velha-guarda cá do sítio (que poucos restam), foi e há de ser a Casa da Dona Genciana.


(Do conto Saudades para a Dona Genciana)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Paços Confusos

José Rodrigues Miguéis
Capa: José Luís Tinoco
Editorial Estampa, Lisboa, Setembro de 1982

Saiu dali aliviado e contente com uma descoberta que lhe vinha alargar o âmbito da pesquisa, senão confundi-la mais. Pouco a pouco iria aprendendo que não se pode falar da loucura, da angústia, da embriaguez, da doença ou da morte, durante as crises que elas determinam; e que a criação, como acto de vontade, é sempre uma rememoração ou transposição.
«E no entanto» - diria ele muitos anos depois, ao discutir com ela estes problemas - «se a idade e as circunstâncias mo permitissem, creio que recomeçaria a vida com os mesmos erros, lutas, ilusões e tormentos. São eles, afinal, que a tornam fecunda e nos reconciliam com a nossa fraqueza!»

(Citação do conto O «Breakdown»)         

segunda-feira, 6 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Uma Aventura Inquietante

José Rodrigues Miguéis
Capa: Infante do Carmo
Iniciativas Editoriais, Lisboa, Dezembro de 1958

Melhorou o trem de vida: voltou aos concertos, foi a Bruges ver o Memling, deu um passeio de autocarro às Ardenas. Mas era a gostosa monotonia de sempre: o escritório, um café, as revistas e os livros, uma conversa anónima, uma volta pelos bulevares atormentados e, sobretudo, os serões pacatos, de solteirão em pantufas, diante da mica doirada do fogão – ah, na verdade, em pouco consiste a felicidade dum homem de escassas ambições e pouco mais dinheiro! Para se colar relia os moralistas, memorizou e mandou copiar em pergaminho, com uma linda caligrafia gótica, para emoldurar e pendurar no escritório, esta frase de Frei Heitor Pinto, quase única no florilégio do pensamento português: «Quem quiser ser rico não aumente na riqueza, mas diminua na cobiça; não é pobre o que tem pouco, mas o que deseja muito.»

quinta-feira, 19 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Idealista no Mundo Real

José Rodrigues Miguéis
Prefácio de Maria Angelina Duarte
Capa: José Luís Tinoco
Editorial Estampa, Lisboa Dezembro de 1986

Sabe que eu tenho fama de jacobino e mata-frades: fui-o, quando era oportuno. E no entanto, sou dos poucos, que, nesta terra, têm a coragem de reconhecer que só os jesuítas nos podem dar lições. Há muito que aprender com eles. É preciso ser jesuíta, mas do avesso. Os jesuítas quiseram transformar o cristianismo, que era a arma dos fracos, em instrumento dos fortes. E o mesmo será preciso fazer com o socialismo. Compreende? Aliás, é o que se está dando no mundo. É bom não nos rirmos antes de tempo. Como força instintiva, colectiva, o socialismo é uma grande arma, um reservatório inesgotável de potencial. Em democracia, o povo é por definição a grande matéria-prima da opinião, do poder: mas quem é o povo? E que sabe ele, colectivamente, de economia, de governo, de leis da história? O povo é a mais volúvel das mulheres… Depois do pão e do circo, a primeira necessidade do povo é um chefe. O que é preciso é dar-lhe a ilusão embaladora de que é ele quem manda! E governá-lo. O mundo vive de ilusões, de ficções…

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

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Um Homem Sorri À Morte - Com Meia Cara

José Rodrigues Miguéis
Capa: Manuel Correia
Editorial Estúdios Cor, Lisboa, Julho de 1965

Perto dos noventa nos, a dois passos do túmulo, minha mãe, sentada um dia ao pé duma janela, voltou-se para mim e disse:
«Não é a morte que me assusta. Tenho pena de deixar tudo isto, este céu azul, estas árvores tão verdes!»
Tinha lágrimas nos olhos. Como é bela esta teimosia em persistir, este elementar, instintivo desejo de permanecer vivo e consciente, esta objecção oposta ao aniquilamento, mesmo através do cansaço, da dor da desilusão! A vida tem em si mesma um mérito, e se alguma finalidade nela podemos lobrigar é esta apenas: perpetuar-se, expandir-se, multiplicar-se.

quinta-feira, 21 de março de 2013

OLHAR AS CAPAS

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Gente de Terceira Classe

José Rodrigues Miguéis
Capa: Luís Filipe de Abreu
Editorial Estúdios Cor, Lisboa Novembro 1962

… E o Silvestre, pobre amigo, lá vai, metódico e pausado, com o seu perfil imperial romano, sonhando com o futuro-que-passou, sem perceber que só tem porvir quem tem presente, e ele nunca o teve: porque o futuro do homem está no que ele hoje semeia ou cria, no que dele cresce e frutifica, e não no que se acumula, repousa e fossiliza.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


A Escola do Paraíso

José Rodrigues Miguéis
Capa: Manuel Correia
Editorial Estúdios Cor, Lisboa, Dezembro 1960

Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dentro dele com um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? e para onde?


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.