sábado, 5 de setembro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ



Dolly Parton morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80 anos.

David Pontes, no editorial do Público, deixou bem vincado:

 «O mundo era melhor com Dolly Parton».


“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country, mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que, tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.

Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis” (na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e, quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram a perda.

Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que, “se agora aceitasse, estaria a fazer política”.

Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles: dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre, estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência. Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.

Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de que o mundo anda tão falho.»

Quando deixei de poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:

 

ADEUS POR UM CASACO

 

«É tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.

Pela Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.

Comprei-o na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.

Quando senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um outro semelhante, mas nunca consegui.

Olhava-os mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.

Nos últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.

A minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal vestido.

Tentei explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela mandou-me um tá bem abelha!

O próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.

Não sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.

Também a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.

Pelo andar da carruagem, débil esperança…

Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»


 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida.

António Lobo Antunes

SOLTAS

Hoje, para abrir, detemo-nos numa frase de Karl Marx, citada por Ana Cristina Leonardo na crónica das sextas-feiras no suplemento ípsilon do Público:

 

         PRIMEIRO A TRAGÉDIA, DEPOIS A FARSA

 

1.

Portugal é o 3.º país da UE com maior índice de envelhecimento: um rácio de 182 idosos por cada 100 jovens.

2.

António Guerreiro, na sua crónica no Ipsilon do Público, aborda o populismo. 

Há uma grande conveniência em que seja lida:

«A noção de populismo, que surgiu nos anos 80 do século XX, tornou-se actualmente um conceito vazio, uma palavra que significa tudo e não significa nada, como aquelas a que Lévi-Strauss, lendo Marcel Mauss, chamou “significantes flutuantes”. Sob essa condição vazia, o populismo não passa de uma “coisa”.
Originalmente, ele foi designado como uma ideologia fraca, sem espessura (uma “
thin ideology”, dizem os teóricos de língua inglesa), caracterizada pelo apelo de um chefe carismático a um antagonismo político e moral, eminentemente maniqueísta, entre dois campos: de um lado, o “povo”, simples e puro; do outro, as “elites” maléficas e corruptas. O populismo, na sua acepção primeira, é um fascismo em potência: tem alguns traços do fascismo, mas evita deslizar completamente até aí. Tal como o fascismo, ele participa de uma metafísica; e tal como o fascismo, opera através da mobilização reaccionária de um povo que ele próprio fabrica.»

3.

Limite de voos nocturnos em Lisboa só foi cumprido em duas semanas de 2026.

4.

O governo, a uma só voz, defende o ministro Luís Neves. O mesmo não acontece nas sedes do PSD, em que pelos corredores, em surdina, ou não, se critica largamente o ministro.

5.

A frase da secção Escrito na Pedra do Público, de hoje, pertence a Simone de Beauvoir.

«O homem sério é perigoso, pode transformar-se em tirano».

6.

«DANÇAR È REZAR COM AS PERNAS».

HERBERTIANAS


A Biblioteca da Casa não é apenas depositária de livros e discos, também de uma série numerosa de diversos dossiers respeitantes a escritores e artistas que merecem a nossa atenção.

É o caso de Herberto Helder.

Do dossier de Herberto Helder tiramos, hoje, uma entrevista-relâmpago feita pela escritora Maria Teresa Horta, e publicada no suplemento literário de A Capital de  10 de Abril de 1968.

Maria Teresa Horta foi uma das suas amigas e confidentes.

Na biografia de João Pedro George, pode ler-se na página 309:

«Era uma daquelas noites em que Herberto, depois das suas caminhadas pelas ruas de Lisboa, acabava em casa de Maria Teresa Horta. Passou-se provavelmente no último semestre de 1962 e Herberto apareceu-lhe com um manuscrito, algo que tinha começado a escrever no estrangeiro, entre a Bélgica e a Holanda, passando por França e outros países, e que foi continuando a compor em Lisboa e em Santarém. Luiz Pacheco lembrava-se, inclusive, de o ter ouvido ler alguma partes de Os Passos em Volta.»


CONVERSANDO

Se os viajantes deste Cais gostam de biografias, mais ainda do poeta Herberto Helder, não poderão deixar de ler a Biografia do Herberto que João Pedro Jorge levou cerca de oito anos a fazer, a detectivar, a escrever.

«Alguém que está a esconder alguma coisa exerce um fascínio enorme sobre o público».

Assim era Herberto Helder.

E é preciso perceber «o inesgotável e enigmático Herberto Helder».

Estas 895 páginas de Se Eu Quisesse Enlouquecia, ajuda-nos a essa tarefa.

Em Março de 2025 o meu amigo António Abaladas ofereceu-me a Biografia doHerberto.

Fui folheando, lendo aqui e ali, apenas isso.

A leitura atenta e necessária ocorreu nos breves dias da semana passada.

O livro ficou largamente sublinhado, com comentários nas margens, sei lá mais o quê, um livro de que poderia dizer «lido à antiga».

Apercebi-me, então, que talvez fosse interessante mostrar aos viajantes o como foi a minha leitura à antiga, se isso é possível.

Vou tentar.

A todas essas intervenções, chamar-lhe-ei Herbertianas.

Começam hoje.

Legenda: pormenor de uma Carta a M.R. sobre «Photomaton  & Vox», escrita por Luna Levi e publicada num suplemento literário do Diário Popular s/d, talvez no ano de 1979.

NÃO HÁ FESTA COM ESTA!

Já vão 50 anos.

Só uma vez, não se realizou.

Sempre o tempo de se dizer que: «Não Há Festa Como Esta!»

Hoje, já se pode ir jantar à Festa e conviver!

«Eu tinha passado anos a dizer: “Vou à Festa do Avante!” Até compreender que talvez tivesse dito a frase errada durante todo aquele tempo. Porque Avante nunca foi, para mim, apenas um lugar para onde se vai. Avante é uma direção. Avante é aquilo que fazemos quando o medo diz: recua. Avante é cantar quando nos aconselham silêncio. Avante é continuar humano quando o mundo tenta convencer-nos de que o outro é nosso inimigo. Avante é não permitir que ninguém pense por nós.»

Dino d’Santiago, na revista Visão

A CIDADE ADORMECIDA

Foi decretada a mobilização geral.
Bom,   isso   não   teve   importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.

Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi   decretada   a  mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.

Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.

 

Mário-Henrique Leiria

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

A arte é a forma mais elevada de esperança.

Gerhard Richter

SOLTAS


No Público de 27 de Agosto, Manuel Carvalho chama a atenção que o que está em causa é muito mais do que uma lei e o aviso do alto-comissário da ONU, obriga a uma discussão séria.

1.

A Jugoslávia de Tito: seis repúblicas, quatro línguas, três religiões e duas escritas.

2.

O maior pesadelo é ter de aturar os gajos todos que falam nas televisões e só dizem mentiras em que o povo continua a acreditar.

3.


Começar o dia, sentir que lhe falta fôlego, um sentir desconhecido que prenuncia que um qualquer fim está próximo.

Começar o dia, sentir que lhe falta fôlego, um sentir desconhecido que prenuncia que um qualquer fim está próximo.

Os avisos não têm sido persistentes, mais ou menos fugazes.

Avisos que a memória lhe tem enviado, não lhe permitem saber se já o disse aqui, ou em outro lado. Repete-se: não tem telemóvel e a isso deve a relativa felicidade em que vive. Já o disse aos amigos, aos filhos, aos netos, olham-no como alguém que tenha aterrado por aqui, vindo de uma qualquer galáxia. Mas há 80 anos que vive numa Lisboa que amanhece, como canta o Sérgio. Há uns anitos atrás viu-se aflito para encontrar um fogão a gás. Apenas conseguiu um com bicos de gás, mas forno electrico. E nunca deitou fora o radiozinho de pilhas em que, no tempo em que os animais falavam, ouvia os relatos do Benfica.

4.

O autor chamou-lhe Prioridade aos Pategos. 

Está na Antologia do Esquecimento:

«O que significa prioridade aos nossos? Que entre a Rosa Grilo e um imigrante nepalês vocês escolhiam a Rosa, que entre o Pedro Dias e um santo do Bangladesh vocês escolhiam o Pedro, que entre o Manuel Palito e um refugiado sírio vocês optavam pelo Palito, que entre o Joe Berardo, o Luís Filipe Vieira, o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou outro qualquer a quem andaram os portugueses a lamber as botas e um imigrante que faz por ganhar a vida vocês não hesitariam na escolha: votavam no trafulha. Porquê? Por ser português. Ora, é precisamente esta mentalidade que faz de nós um relógio atrasado pela Inquisição, denunciou-o o Cavaleiro de Oliveira no século XVIII e  a coisa não mudou. Somos o que somos, uns pategos. Portanto, prioridade aos pategos.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Corria o Natal de 1970 e encontrava-me na Livraria Portugal à procura de um livro para oferecer a mim mesmo.

Herberto Helder apenas o conhecia de nome, referido nos suplementos literários que, uma vez por semana, os jornais publicavam.

A capa colorida da 3ª edição de Os Passos emVolta de Herberto Helder, publicado pela Editorial Estampa, chamou-me a atenção.

Peguei-lhe e os olhos caíram logo nas palavras iniciais.

Gosto imenso de começos de livros. Nem todos ficam para a minha história.

Este ficou.

- Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade enorme de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio.

Curioso que o título que João Pedro George fez de Herberto Helder tenha o título   «Se Eu Quisesse Enlouquecia».

Herberto não dava entrevistas, não se deixava fotografar, recusava prémios, tinha um imenso mau-feitio.

A biografia de João Pedro Jorge são mais de 800 páginas.

João Pedro George:

«Trabalhei cerca de oito anos, a fazer muitas entrevistas, a fazer muito trabalho. Este não é um livro sobre a poesia de Herberto, é a sua biografia.

Devo dizer, no entanto, que o desapego dele não era total. Antes pelo contrário. Movia-se nos bastidores e influenciava o que os críticos diziam dele e chegava a ajudar a escrever esses textos.

Consultei a correspondência com o Luís Amaro, da Colóquio-Letras, que é abundante e demonstra essa atenção. E também há várias cartas dele para o Jornal de Letras, a pedir que o deixassem em paz. Ora, alguém que se dá ao trabalho de escrever missivas a dizer isto, está naturalmente, a chamar a atenção sobre si e a sua obra.»

Alexandra Lucas Coelho:

«A cada ano dei por mim a começar o ano com aquele aviso que Herberto escreveu numa entrevista há quase 50 anos, o de que há que estar disponível para desiludir as expectativas porque desiludir é garantir o movimento e ninguém viverá a nossa aventura por nós.»

Tempo de dizer que a biografia de Herberto, escrita por João Pedro George, é um livro notável, mesmo para quem não aprecie a sua obra.

Por ali se fica a saber que profissionalmente foi um homem de dezenas e dezenas de empregos, a maior parte de curta duração: jornalista, editor, delegado de propaganda médica, publicitário, meteorologista, cortador de legumes, guia de marinheiros em busca de prostitutas, funcionário das bibliotecas da Gulbenkian.

Ou seja: a importância misteriosa de existir.

«Sou um neurótico, um egoísta. Deixei-me. Não vou amar o mundo. Estou-me nas tintas. Apetece-me estar só. Comer aqui e ali em pequenos restaurantes, e, no quarto, acordar à noite, fumar um cigarro à janela, folhear um tratado de arqueologia.».

OLHAR AS CAPAS


 Se Eu Quisesse Enlouquecia

Biografia de Herberto Helder

João Pedro George

Capa: Rui Rodrigues

Contraponto, Lisboa, Maio de 2025

Não se pode falar da obra de Herberto Helder sem referir as condições que o poeta teve para escrever. Se não tivesse tido uma mulher como Olga, provavelmente não teria escrito as coisas que escreveu. Talvez tivesse escrito menos ou diferente.

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

DE PROFUNDIS AMAMUS


Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

 

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

 

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os    costumes

O público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

 

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


Mário Cesariny de Vasconcelos


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Não evoluo, viajo.

Fernando Pessoa

SOLTAS

Em Julho de 2014, a Câmara de Lisboa, presidida por António Costa, noticiou que iria demolir o mais moderno quartel de bombeiros da cidade, junto ao Centro Comercial  Colombo, que, em 2003 custara mais de 12 milhões de euros, para expansão do Hospital da Luz.

Passaram-se 10 anos e há notícias de que o substituto do edifício demolido será reerguido em Carnide, provavelmente junto à Casa do Artista, mas não há datas e a Câmara informou que ainda vão começar a fazer projectos, mas não existem datas para avançar, tão pouco a obra está orçamentada.

1.

Recorte do jornal Público.

2.

Diz quem sabe:

«A CP precisa de comboios e de ferroviários. Não de privatizações.»

3.

CRONICANDO POR AÍ


A primeira vez que conheci  Fernando Hedgar da Silva, impressionou-me. Há cerca de 13 anos, eu e os meus colegas do PÚBLICO estávamos na Guiné-Bissau para contar publicamente, pela primeira vez, a história dos filhos que os militares portugueses fizeram com mulheres guineenses, angolanas e moçambicanas durante a Guerra Colonial (1961-1974) e que deixaram para trás — órfãos de pais vivos. Desde então, conheci mais de uma centena de filhos como Fernando, mas ele deixou uma marca. Impressionou-me muito a sua inteligência, a sua clareza de raciocínio, a sua combatividade, mas também a enorme mágoa e raiva que carregava em si.

Até à juventude, Fernando viveu convencido de que o pai português — um ex-militar que tinha estado na Guiné-Bissau durante a guerra — se chamava Furriel, que furriel era nome próprio, como António ou Luís; era o que a mãe, que não sabia ler, lhe transmitira. E era quase tudo o que sabia sobre o tal português que passou toda a vida a tentar descobrir, que queria a todo o custo conhecer para lhe dizer, cara a cara, que “um pai não abandona um filho”, e ele sabia-o, era pai de 13. Do tal militar também sabia que estivera colocado no quartel de Teixeira Pinto (hoje chamada Canchungo) e que, como ele próprio nascera em 1968, tinha de estar lá colocado pelo menos nove meses antes; a mãe, a guineense Sabadozinha Mendes, vivia numa casa nas traseiras do quartel.

Fernando, que era camionista, teve um AVC no ano passado, ficou com sequelas, morreu aos 58 anos, no Hospital de Canchungo. A sua morte prematura é mais a regra do que a excepção num país onde poucos chegam a velhos. Segundo a Organização Mundial de Saúde, só 4% ultrapassam os 65 anos.

A sua morte pôs-me a pensar no que conseguiu e no que não conseguiu. Foi dele a ideia de dar forma a uma espécie de família informal, criando, em Bissau, a Associação Filho de Tuga, da qual era presidente, onde todos se dizem sentir irmãos, filhos do mesmo pai: o longínquo Portugal. "Filho de tuga" é o nome colectivo pelo qual continuam até hoje a ser conhecidos na Guiné-Bissau; por vezes, há até quem os chame de "restos de tuga".

Encontrei insultos parecidos com este nas viagens que entretanto fiz para contar esta mesma história em Moçambique e Angola; também aí estes homens e mulheres, filhos de mãe africana e pai português, são até hoje vistos como “sobras” do colonialismo português, os últimos filhos mestiços do império. Ainda lhes chegam aos ouvidos frases como "volta para a tua terra" ou "vai para a terra do teu pai". Hoje sei que há milhares de homens e mulheres como Fernando.

Por iniciativa dele, todos os anos, no dia 1 de Novembro, os filhos da associação guineense organizam o que ele quis que se ficasse a chamar Cerimónia de Homenagem ao Pai Desconhecido. Nesse dia, deixam colectivamente uma coroa de flores junto às campas dos militares portugueses mortos durante a Guerra Colonial que nunca foram trazidos para Portugal, abandonados também eles. Fernando explicou-me que, simbolicamente, aqueles homens mortos sempre foram o mais próximo que todos eles estiveram dos pais portugueses vivos. O Cemitério Militar de Bissau foi, para muitos deles, o primeiro sítio onde foram procurar o pai e é lá que alguns deles continuam a ir para sentir essa proximidade.

Lamento não ter feito mais por Fernando, além de contar a sua história no meu livro Furriel não É nome de pai e na série documental da RTP1 Filhos de tuga. Ele queria mais, queria que eu o trouxesse para Portugal. O seu grande sonho era, além de procurar o seu pai sem nome em todos os arquivos possíveis, passar os dias sentado pacificamente em frente da Assembleia da República portuguesa, com um cartaz a dizer "Eu sou Filho de Tuga. Sou português", até lhe darem a ele e aos seus o direito de, ao menos, verem o sofrimento e discriminação de uma vida compensado pela nacionalidade que sempre foi usada para os insultar. Fernando queria ser “tuga” por inteiro. Os seus “irmãos” continuam a querê-lo.

Catarina Gomes, Público 24 de Agosto.

OBSERVAÇÃO DO INVERNO

Àrvores de janeiro sem o dom

da folhagem: os seus ramos são linhas

de espessura variável

umas com

 

outras delas saindo, espinhas

dum peixe irregular ao qual o frio

deixouy

somente os ossos finos,

 

e bada noutras folhas se renova

não há cura

para o tempo, ele será o ramo

de folhas diferentes

 

Gastão Cruz em Resumo: a poesia em 2011

terça-feira, 1 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Por motivos óbvios penso na mão que subiu pela saia da Mona Lisa e lhe ensinou aquele sorriso.

Digo Vaz Pinto 

SOLTAS

«Doía-lhe ver todos os anos o Nobel ir para escritores que considerava menores que ele»

Revista Sábado, 11 de Março de 2026.

1.

Os diários generalistas estão a vender menos em banca. O mercado perdeu 6611 exemplares por dia, uma quebra de 12,1% entre Janeiro e Junho.

2.

Lisboa é a oitava cidade com maior densidade de turistas, com cerca de  1793 turistas por cada 100 residentes; a Baixa de Lisboa perdeu 23% dos residentes em dez anos.

Numa década, Portugal perdeu quase 88 mil alunos.

3.

Num retrato feito pelo Banco de Portugal, 2024, conclui-se que os trabalhadores por conta de outrem, com nacionalidade estrangeira recebem menos, mas são mais qualificados do que os portugueses: 67% dos imigrantes têm ensino secundário ou superior completo, face aos 60% de portugueses na mesma situação. O fosso salarial é de 133 euros para os menores de 35 anos e de 164 euros para os mais velhos.

4.


Público,  25 de Agosto.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Ainda estou a subir a Rua do Carmo e a encontrar o Luiz Pacheco, a subir ou a descer, calças pela meia canela, saco de plástico cheio de papelada, um enfizema pulmonar debaixo de um casaco sem botões, mais a velha senha «dá cá vintes!» e um qualquer folheto, edição da Contraponto, estendido.

Escritor de ódios e paixões, sem papas na língua na língua ou no bico da pena, poucos ainda terão lido os seus livros, a quantidade enorme de escritos que deixou em qualquer casa, a mandar vir com a puta da vida.

Estamos perante um volume que reúne inéditos do Pacheco, e os seus autores/organizadores dizem que há muito e muito mais por aí e nas mãos do filho Paulocas.

É volumoso o dossier que a Biblioteca da Casa possui sobre Luiz Pacheco.

Há dias, encontrei um recorte de um artigo do Vergílio Ferreira sobre o Pacheco, publicado no jornal-cor-de-rosa Comércio do Funchal, datado de 14 de Janeiro de 1968:

«Luiz Pacheco é um escritor ácido, mordaz, violento, mas duma altíssima qualidade e de certeza que podemos confiar no que tem para nos dar num futuro próximo». 

OLHAR AS CAPAS


Textos Avulsos, Inéditos e Dispersos

Luiz Pacheco

Edição de Rui Sousa e Sofia A. Carvalho

Com apoio à edição de Pedro Meneses e Sofia Casaleiro Roque

Capa: P. Serpa

Edições Tinta-da-China, Junho de 2026

Há só mar e sol no meu país. O Senhor fez as contas todas e deu‑ -nos isto: mar e sol. Nos mais pobrinhos (para o abençoarmos), piolhos para catar e muita ignorância e muita paciência que o tempo sobra. Saio à rua de manhã quando o sol já aquece. Sabe tão bem um calorzinho destes! (obrigado). Coisa maravilhosa: ao fundo no largo enorme canta um menino, o menino do cego. Sou positivo: nunca dou esmolas a cegos, por mais cegos, que toquem mal, assim como assim ser cego-tocador é uma profissão como outra e requer duas coisas: Ser cego (secundária, basta a aparência e a gente comove-se que aquilo podia ser conosco); tocar (essencial, pago a música donde ela me vier). Ora, coisa maravilhosa: aquele cego guitarreava estupendamente e a criança cantava um fadinho com a sua vózita de menina, mas tão pura nos seus agudos e tão entoada. Venham os tais os que duvidam do povo: estava toda a gente enlevada no cego com o menino, estava toda a gente diferente. E para fechar o quadro, só mais isto: veio o vèlhote e disse: — Então tu não cantas a tua cantiguinha? (era a altura do menino receber as esmolas e o vélhote viera atrasado). Mas o menino iria repetir o fadinho logo ali na outra esquina. A rua encheu-se outra vez de beleza. Que tudo isto aconteceu.

VELHOS RECORTES


Mais um exemplo do que a censura cortou ao semanário Notícias da Amadora.

Antes de ter fechado portas, o semanário publicou umas separatas em que pudemos constatar o que a censura cortou aos escritos que se pretendiam publicar e que já por aqui apresentámos, em Velhos Recortes, alguns exemplos.

NOVA MENSAGEM

Construí-a

irreal

transparente

lúcida     esguia     um mar

                            interior na barriga

   correias de transmissão nos cabelos

 

 

Os anéis de Saturno são a força centrí-

      fuga centrípeta que lhe agita os braços

      no espasmo amoroso

 

Halley o metropolitano

 

75 milhões de anos-luz atravessam-na da cabeça

                                                      à cauda

 

deito-me com ela todas as noites na via láctea

 

                                                            1949

Pedro Oom, copiado da Intervenção Surrealista

domingo, 23 de agosto de 2026

AVISO À NAVEGAÇÃO


Por uns breves dias, iremos lagartear por aí.

Voltaremos a 1 de Setembro.

Apareça também!

Legenda: pintura de Georges Seurat

SÍTIOS POR ONDE ELES ANDARAM


Setúbal.

Mais propriamente a Livraria Uni Verso do editor, poeta, alfarrabista João Carlos Raposo Nunes.

Colaboração de Aida Santos.