Eu não mudei, apenas os tempos mudaram.
Paulo Castilho em Fora de Horas
Legenda: Bob Dylan
Donald Trump, disse, hoje, na Casa Branca que irá proibir os órgãos de comunicação social CNN, MS NOW e Politico de entrar na Casa Branca, queixando-se da cobertura que fazem das suas actividades numa publicação nas redes sociais, acrescentando que anunciaria os nomes de outros órgãos de comunicação social em breve.
A Derradeira Palavra
Rex Stout
Tradução L. Almeida Campos
Capa: A. Pedro
Colecção Vampiro nº 448
Livros do Brasil, Lisboa 1984
- Não creio que… - Deixou a frase suspensa por
um momento, depois acrescentou: - Mas, o senhor é Archie Goldwin.
Acenei com a cabeça.
- E a senhora é Althea
Vall. Dado que não tem encontro marcado, tenho de informar o Sr. Wolfe do
assunto sobre que quer falar com ele.
-Preferia ser eu própria a dixer-lhe. É muito confodencial e muito urgente.
O mar, se acaso alguém
fechando a mão o faz como
se às praias
assim o subtraísse, o mar
ligado
por cem mil cordas ao meu
leito,
reduz-se a poucas vagas;
porque há poros
na pele por onde o espírito
goteja, há também quem
da parte envidraçada do seu
espírito
de vez em quando as veja
rebentar.
Luís Miguel Nava em Poesia
Ensaios
António Sérgio
Tomo 1
Atlântida, Coimbra,
1949
Porque se efectuou a tomada de Ceuta?
Donde proveio a iniciativa do empreendimento?
Não parece que os historiadores se tenham detido neste problema; detenhamo-nos nós, que o não somos (senão que ensaísta sobre temas de história, como o havemos sido sobre tantos outros): talvez provoquemos uma actividade crítica, talvez acertemos com uma hipótese útil. Por la boca de una sierpe de piedra sale un caño de agua.
Naqueles tempos Adriano
Correia de Oliveira cantava Manuel Alegre:
Meu
pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.
Meu pensamento
Quebrou amarras
Partiu no vento
Deixa guitarras.
Meu pensamento
Por onde passas
Estátua de vento
Em cada praça.
Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.
Foi à conquista
Do novo mundo
Foi vagabundo
Contrabandista.
Foi marinheiro
Maltês ganhão
Foi prisioneiro
Mas servo não.
Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.
E os reis mandaram
Fazer muralhas
Tecer as malhas
De negras leis.
Homens morreram
Chamas ao vento
Por ti morreram
Meu pensamento.
A
imagem que acima se reproduz, faz parte de um trabalho que, a seguir ao 25 de
Abril, a revista Cinéfilo publicou e em que mostraram como fomos censurados.
No
dia 22 de Setembro, pelas 19,30 horas, a Cinemateca apresentará um filme de
Manuel Mozos sobre cortes de cinema executados pela comissão de censura do
Estado dito Novo:
« ALGUNS CORTES: CENSURA III
de Manuel Mozos
Portugal, 2014 - 50 min
M/12
sessão apresentada por
Manuel Mozos e Margarida Sousa e seguida de conversa após projeção
A partir de várias horas de
cortes realizados pela Comissão de Censura durante as décadas de cinquenta e
sessenta conservados pela Cinemateca, Manuel Mozos assina um filme de montagem
através do qual se dá a ver a violência da censura enquanto negação da
possibilidade de olhar estas imagens.
Ao contrário do anunciado, será apresentado o terceiro filme de montagem
(de 2014), dedicado a cortes feitos de acordo com o que a Comissão estabeleceu
como critérios morais, na sua relação com os comportamentos das mulheres e com
a sua imagem, e não o primeiro (de 1999).»
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena em Poemas Escolhidos
Num tempo em que
os nossos políticos são de uma pobreza franciscana, recorde-se Vasco Gonçalves.
Não por um qualquer tique passadista – saudades, só do futuro, como
diria o Zé Gomes Ferreira – mas numa tentativa, possivelmente vã, de com Vasco
Gonçalves lembrar que, após o 25 de Abril tivemos políticos de gabarito, inteligentes,
cultos, generosos, concorde-se ou não com eles: Mário Soares, Francisco Sá
Carneiro, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Melo
Antunes, Margarida Pintasilgo, outros mais.
«Insistiram muito em que eu estaria ligado ao Partido
Comunista porque eles sabem que em Portugal fazer uma política anticomunista é
rentável, pois os sentimentos de anticomunismo estão ainda profundamente
enraizados no nosso povo.»
(entrevista de Vasco Gonçalves à revista Hebbo em Outubro de 1975.).
Não, não somos
um país decente.
Ainda há dias,
na Assembleia da República, durante um voto de censura ao governo de Luís
Montenegro, provocado por «aquela coisa», o jornalista Eduardo Dâmaso escrevia:
«Afinal, o gato encontrou uma nova vida. A metáfora de Ventura sobre Luís Neves saiu-lhe pela culatra. Neves, o gato, na retórica do Chega, saiu reforçado da audição e da moção de censura. Luís Montenegro desmanchou a estratégia do Chega dando a centralidade que lhe interessava ao debate. Levou o bónus aos pensionistas, a promessa de descer o IRS até ao 6.º escalão, falou do trabalho do governo nas várias frentes, encaixou a conversa no que interessa aos portugueses, a sua vida e a estabilidade da governação. Rebentou com o debate sobre Neves. Montenegro foi muito eficaz e esta foi a sua verdadeira ‘rentrée’ no ano político. Pelo meio, ainda ganhou, também ele, um bónus. Ficou a nu, impiedosamente, a fragilidade política do Chega, do discurso e dos seus deputados, que acabaram por mostrar-se incapazes de superar o primarismo argumentativo da comparação de Neves com traficantes, bandidos e xerifes. Como se não bastasse, a cena final, de mau perdedor, com a gritaria instalada no parlamento, mostrou ainda como os profetas da pureza originária, que querem “limpar” e “salvar” Portugal, só gostam da democracia quando ganham e podem confundir isso, sem limites, com a humilhação do adversário. Ontem, correu-lhes mal. Pelo resultado mas, sobretudo, pela exibição.»
Fernando Luso Soares
Capa: Soares Rocha
Gleba, Lisboa, Outubro de 1979
Assim direi que, tal como acontece
com a Crítica, também a História deve ser a cabeça da paixão, não a paixão da
cabeça. Por outras palavras: se a figura humana do Companheiro nos enternece,
devemos tomar, relativamente a ela, um distanciamento que elimine ou evite a
cegueira.
Momentos soltos lucilando na distância. O José
Cardoso Pires a bater-me à porta com o seu primeiro original. O Piteira a
paginar comigo, em minha casa, à noite, a Gazeta musical e de todas as artes.
A Manuela Porto foi quem primeiro declamou a
«Ode Marítima», como nunca mais ninguém faria. E, antes (ou depois?), a nossa
poesia que mal ainda despontava, no velho Salão de O Século, com uma
palestra introdutória do Armando Bacelar. Vejo-a a beijar, num pé, a minha
filha então de meses: «Posso? E um milagre!» E, a seguir, na redacção da Eva,
que ela chefiava e onde a vi pela última vez. Estava assente que eu passasse
por lá para lhe dar a senha de contacto com o MUNAF, organização ilegal a que
resolvera aderir. Era um prodígio de vontade e de coragem aquela mulher tão
frágil, delicada, toda ela poesia. Mas tinha no gabinete, inesperadamente,
alguém que não me devia ver, a directora da revista. Vem lá de dentro, à
pressa, sorridente. Traz nas mãos as Cartas a um jovem poeta. Deixa a porta entreaberta,
só o bastante para que a ouçam bem. «Desculpe não poder hoje recebê-lo. Está
aqui o livro. Gostei muito». Mímica apressada a explicar porquê o livro e
aquela conversa. Dois dias depois suicidava-se.
E vejo o Flausino também, muito mais tarde, com
o seu arcaboiço de camponês, grossa samarra de gola levantada, já a noite
caíra, à porta da sua casa de Tondela, em pleno campo, com os braços estendidos
e os olhos molhados: «Tu é que tinhas razão». Enquanto eu, durante o abraço
demorado e apertado, retomava um convívio interrompido durante anos: «E era
preciso ires tão longe?»
Regressara de Praga, depois da invasão. Passara por lá
as passas do Algarve nas mãos de uma conhecida dirigente, dessas de «antes
quebrar que torcer», que se deslocava em luxuosos automóveis de Estado, vivia
em bons hotéis por lá e anda agora por aí, nos períodos eleitorais, a fazer a
propaganda de tudo o que seja de Direita.
Exactamente a mesma. Quando, em 42, fiz a minha
conferência na Universidade Popular sobre arte moderna, essa expressão acabada
da «burguesia decadente», foi ela que comentou: «Que grande desilusão!» Mas
não se referia à qualidade da conferência. A minha grande falha ideológica é
que a deixara desolada...
Varrer o lixo. Sem descanso. Conservar o que nos foge por entre os dedos, como fumo.
Mário Dionísio em Autobiografia
Legenda: Manuela
Porto
Com fúria e raiva acuso o
demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Sophia de Mello Breyner Andresen
É disso que os amigos
falam: do que a vida poderia ter sido se não fosse a filha da puta de vida que
foi.
José
Carlos Barros
Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.
Não
há livros inúteis.
Este retrato de Marcelo Caetano deixa-nos perante aquilo, após a morte do ditador de
Santa Comba, a que se chamou «primavera», uma espécie de esperança que, como
teria que ser, durou breves fogachos de tempo.
Foi
um mito e por ali residiram frustradas expectativas liberalizantes mas Marcelo
Caetano não conseguiu, limitações pessoais acima de tudo, libertar-se da teia
de oportunistas e corruptos que constituíam
que
Salazar deixou constituir à sua volta e de que tanto necessitava.
Tudo
começou com a sua posição perante a guerra colonial:
«Portugal não pode ceder, não pode transigir na
luta que se trava no Ultramar.»
Ao
tomar posse não fez qualquer ruptura com a política salazarista, talvez por não
estar preparado ou porque não a desejar.
Fazer
depender a sobrevivência do regime com a continuação da guerra, iniciou o
caminho sem qualquer saída.
Aparentemente,
não esperava suceder a Salazar, outros serviriam para isso.
Um
dia terá confidenciado à sua filha Ana Maria Cardoso:
«A pessoa que suceder a
Salazar é para abater».
Palavras
finais do Retrato de Salazar escrito por António Araújo:
«No final da manhã de 26 de Outubro de 1980, domingo, por volta das 12,30 horas, enquanto lavava as mãos na casa de banho do seu apartamento na Rua Cruz de lima, nº 8, aguardando que a irmã Olga o chamasse para o almoço, Marcello Caetano foi acometido de uma violenta dor no peito, que em minutos o matou.»
António
Araújo
Colecção:
Retratos Políticos nº 2
Medialivre,
Lisboa, 2024
Não percebo porque é que me foram buscar. Isto não tem saída. Porque é que não foram buscar o Antunes Varela, o Franco Nogueira, esses sabem o que querem fazer… Isto não tem solução.
O deus do Eugénio
é muito mais verde
quando lido pelos teus olhos.
David Teles
Pereira
Mais um regresso às Greguerias de Ramón Gómez de la Serna:
O mau do molho de tomate é que tenta irresistivelmente o pão.
Franzimos o sobrolho porque queremos agarrar com pinças um grande pensamento que se nos escapa.
Os móveis com bicho ganham ouvido e até ouvem o que diz o silêncio.
O mais maravilhoso da espiga é como leva bem feita a trança.
Os que não querem que se fume no vagão não compreendem que, se a locomotiva não fumasse, o comboio não se movia.
Era um dia tão bom que todas as chaves foram dar um passeio.
O sofá foi feito para receber pedidos de casamento.
Os crocodilos são falsos porque nunca os ouvimos chorar.
Nas caixas de lápis guardam os meninos os seus sonhos.
O maior desejo do abre-livros é ficar perdido entre as páginas, como um peixe num aquário.
Há especialistas em pedir o único prato que se acabou na ementa.
Nome de Toureiro
Luís
Sepúlveda
Tradução:
Pedro Tamen
Capa: João
Machado
Edições Asa,
Lisboa Setembro de 1997
Deixei umas moedas em cima da mesa e, coxeando, saí do bar. A cidade continuava triste, embora fosse Verão, embora nem uma nuvem se interpusesse entre os homens e o céu, embora nenhum pássaro negro planasse sobre a minha cabeça e assim comecei a atravessar a rua, pensando, Verónica, meu amor, pensando porque é que temos tanto medo de olhar de frente para a vida, nós que já vimos as áureas cintilações da morte.
o ministério lírico, o mais grave e
equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do erro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao começo,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o córrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!
Herberto Helder de Ofício Cantante em Resumo: a poesia em 2009
Nem todos os sonhos
precisam de ser concretizados. Era isso o que o Fred costumava dizer.
Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber.
Patti
Smith em M
Train
Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem
sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que,
rigorosamente não sabia o que etava a vender.
Uma colecção, ainda, não lida, mas a que há
que voltar.
Assim irá aconrecendo.
Larry J. Zimmerman
Tradução: Ana Maria Pinto da Silva
Capa. José Neves
Colecção: Cultura e Civilizações
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de
2006