sexta-feira, 24 de abril de 2026

A PARTIR DESSE DIA

 A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários, os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da exclusiva claridade que há nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.

Amadeu Baptista em Poemabril 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

POSTAIS SEM SELO


O tempo é a minha memória.

Carlos Drummond de Andrade

OLHAR AS CAPAS


Causas da Decadência dos Povos Peninsulares

Antero de Quental

Colecção Tempo Social nº 15

Capa: Mário Andrade

Padrões Culturais Editora, Lisboa, Novembro de 2011

Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencível horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! Uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia.

REOLHARES

VELHOS RECORTES

O que aqui se publica, é uma Carta ao Director do Público enviada pelo leitor José da Cruz Santos que, quando o 25 de Abril fez 50 anos, num qualquer momento de inquietação, de desesperança, entendeu que outros leitores do jornal, deveriam conhecer o que lhe ia no pensamento.

Passou um ano.

Que pensará o leitor José da Cruz Santos? 


À LUPA

O regresso com estrondo de Pedro Nuno Santos ao Parlamento, após uma derrota eleitoral que, em tese, recomendaria uma longa travessia do deserto, está aí para mostrar os inegáveis atributos políticos do ex-líder socialista. Mas demonstra também a sua desadequação a um partido com as características históricas do PS. O regresso estrondoso de Pedro Nuno Santos
Por agora, o interesse que gerou este regresso e o tom das reações que provocou são um bom barómetro, e demonstram que Pedro Nuno Santos estará para o PS como no passado Pedro Santana Lopes esteve para o PSD. Um enfant terrible que não deixa ninguém indiferente, concentra as atenções e revela gosto pelo combate político.

 Pedro Adão e Silva no Público

POEMA DA DESPEDIDA

Não saberei nunca

dizer adeus

Afinal,

só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,

só nós não podemos ser

Talvez o amor,

neste tempo,

seja ainda cedo

Não é este sossego

que eu queria,

este exílio de tudo,

esta solidão de todos

Agora

não resta de mim

o que seja meu

e quanto tento

o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra

alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,

Escrevo.


Mia Couto

quarta-feira, 22 de abril de 2026

OLHAR AS CAPAS


 Édouard Boubat

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Em fotografia há sempre uma dimensão que ultrapassa a aparência. É o que eu chamo o invisível ou, se preferir, a atmosfera.

QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta

Continuará o jardim, o céu e o mar,

E como hoje igualmente hão-de bailar

As quatro estações à minha porta.

 

Outros em Abril passarão no pomar

Em que eu tantas vezes passei,

Haverá longos poentes sobre o mar,

Outros amarão as coisas que eu amei.

 

Será o mesmo brilho, a mesma festa,

Será o mesmo jardim à minha porta,

E os cabelos doirados da floresta,

Como se eu não estivesse morta.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen 


terça-feira, 21 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


De adiamento em adiamento, Donald Trump vai mostrando ao mundo que se meteu numa guerra com o Irão sem cuidar que aquela gente, quando acossados, é capaz de tudo e não é o constante despejar de misseis e drones que os fazem recuar.

Poucas horas antes do findar da actual trégua, Trump avisou que os militares norte-americanos estavam desejosos para entrarem em acção.

Através da sua rede social, Truth Social, o Presidente dos Estados Unidos anunciou que prolonga o período de cessar-fogo, que terminaria dentro de poucas horas, "até que os líderes e representantes do irão consigam chegar a uma proposta".

Entretanto as autoridades militares norte-americanas pediram hoje o investimento de dezenas de milhares de milhões de dólares no próximo ano fiscal em drones, sistemas de defesa aérea e caças, que têm sido peças-chave na guerra com o Irão.

No âmbito da iniciativa do Presidente Donald Trump para aumentar as despesas com a defesa para 1,5 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros, à taxa de câmbio actual) no orçamento de 2027, o Pentágono quer triplicar as despesas com drones e tecnologias relacionadas para mais de 74 mil milhões de dólares e investir mais de 30 mil milhões de dólares em munições mais críticas, incluindo interceptores de mísseis, cujos stocks se tornaram criticamente baixos durante a guerra com o Irão.

As autoridades militares afirmaram que o plano de despesas foi desenvolvido antes do conflito no Médio Oriente. Também não discutiram quanto irão solicitar em fundos adicionais para a guerra, o que seria um acréscimo ao aumento das despesas de defesa já solicitado pela Casa Branca para o próximo ano fiscal.


OLHAR AS CAPAS


O Verão Quente de 1944

Andrew Bergman

Tradução: Carlos Leite

Capa: João Botelho

Colecção: Série Negra nº 6

A Regra do Jogo, Lisboa, Setembro de 1980

Naquela manhã de quinta-feira eu só tinha que ir bebendo café por um copo de plástico e estar à janela a ver os empregados dos escritórios em frente baralharem os papéis todos. Ia começar a brincar com um dente molar quando ouvi abrir-se a porta de fora do escritório. Voltei-me para ver uma rapariga loura, aí duns vinte anos, que fechava a porta e ia sentar-se por baixo do poster dos Bónus de Guerra, na sala de espera.

- Pode entrar para qui – chamei. – A maior parte dos clientes já foi embora.

Ela levantou-se, alisou a saia e entrou rapidamente. Era alta e de aspecto tranquilo, com os olhos azuis que ardiam através dum excesso de pintura, uma boca pequena e um nariz perfeito, absolutamente perfeito.

- É Jack LeVine?

Sentou-se em frente de mim.

- Até agora, tenho sido.  

RETRATOS


               O humor é uma coisa muito séria.

                Penso que é uma das maiores e mais antigas riquezas nacionais

                que devem .ser preservadas a todo o custo.

                                                    James Thurber

A coisa mais negligente, para não dizer a mais feia, que podemos fazer, é descobrirmos um tesouro e não badalarmos logo esta descoberta a amigos e conhecidos, para que dela também possam beneficiar. É tão criminoso como descobrir o chocolate e ficar calado. Não se faz! O que é bom é para repartir.

Dei com a Ana Cristina Leonardo, quando o meu filho João Luís me ofereceu o seu pícaro e fabuloso romance O CENTRO DO MUNDO, que desafia a imaginação do mais pintado. Depois, apareceram as suas crónicas no suplemento ´IPSILON, do PÚBLICO, de tal modo cintilantes de inteligência, verdadeira cultura e humor sonso, fininho e manhoso (os ingleses chamam-lhe humor “sly”, que talvez se possa também traduzir por sacaninha), que achei francamente ranhosa a periodicidade com que eram publicadas. Resmunguei com os meus botões: “Se o PÚBLICO desse conta do valor destas crónicas, publicava-as semanalmente.” Acontece que o PÚBLICO ou deu conta ou ouviu o meu resmungo enviado para o éter.

E passámos a ter, todas as semanas, à sexta feira, o prazer e o privilégio de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, que são sérias, da maneira mais séria e competente que há de o ser: recheadas daquele humor que os lusíadas cultivam tão pouco, com excepção de gente (pouca) com o talento de um José Sesinando.

Dos humoristas tem-se dito muita coisa, mas o mais frequente – e tem um fundo de verdade – é dizer-se que não são, em geral, uma tribo feliz. O notável crítico e ensaísta literário britânico, Cyril Connolly, autor do muito conhecido ENEMIES OF PROMISE, punha a coisa nestes termos: ” Os humoristas não são homens felizes. Como Beachcomber e Saki e Thurber, eles ardem enquanto Roma toca violino.” 

Ser humorista é uma profissão de alto risco, sobretudo se exercida num milieu de gente com pouca vocação para o humor e que mais depressa afina do que ri. É precisa uma grande arte, para gozar fininho, todo o tempo, com o parceiro, e sair incólume desse exercício. Era isso mesmo que avisava George Bernard Shaw, quando dizia: “Mark Twain e eu estamos muito na mesma posição. Temos de pôr as coisas de tal maneira, que levem as pessoas que, normalmente, nos teriam enforcado, a acharem que estamos só a brincar.”

Ana Cristina Leonardo exercita-se, da maneira mais culta e atrevida, nesta arte de ensinar, divertindo-nos com o seu finíssimo senso de humor e pisando galhardamente a fronteira do risco. E quem não gosta de arriscar-se é melhor não se meter nestas andanças.

Se, como sugere Connolly, ela também pertence à tribo dos infelizes, não sei, porque não tenho o privilégio de a conhecer pessoalmente. Mas sempre direi que, quando leio o seu discurso recheado de ensinamentos e humor sacaninha, prefiro pensar que talvez ela desminta o aforismo do autor de ENEMIES OF PROMISE.

 

Eugénio Lisboa, Novembro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

Quando a altivez pode destruir o trabalho de uma câmara.

Quando o oportunismo dos rapazes e raparigas «daquela coisa», é o sinal agudo de gente que não se lava todos os dias.

RENÚNCIA

Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.

Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura...

A vida é vã como a sombra que passa…
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer tua desgraça.

Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...

Manuel Bandeira em Obras Poéticas 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

POSTAIS SEM SELO


- Será que um dia ainda seremos ricos, Tio Donald?

- Qual nada! Como diz o Tio Patinhas: “Quem nasce para tostão nunca chega a milhão!”

Legenda: fotografia de Dorothea Lange

REOLHARES

UM VIVA A REPÚBLICA EM CASA DE RESPEITO

Um tasco em Almoçageme, no dia 5 de Outubro de 1966.

Mais tarde, esse tasco daria lugar à adega «Toca do Júlio», sucesso e sucesso, mais tarde mudou-se para a Estrada do Rodízio a caminho da Praia das Maças, o mesmo sucesso, mas a perca de certo aconchego que num tasco é coisa fundamental.

Mas voltemos àquele 5 de Outubro.

Entramos no tasco e antes de se pedirem os copos, o Helder Pinho lança um sonoro «VIVA A REPÚBLICA!»

Lança-se o tasqueiro numa corridinha ao longo do balcão e com cara de mau a dizer ao Helder, futuro D. Pipas:

- Aqui não se admitem coisas dessas, isto é uma casa de respeito.

À LUPA

 Conceição Ramos, a “criada de servir” que fundou um sindicato, morreu nesta segunda-feira, confirmaram amigos ao PÚBLICO. A octogenária estaria internada nos cuidados paliativos do Hospital de Chaves há cerca de um mês.

Cansada de ser explorada como “criada”, Conceição Ramos fundou um sindicato.

A ideia de defender os direitos das empregadas domésticas surgiu na Juventude Operária Católica, grupo que Conceição Ramos liderava, ainda antes do 25 de Abril de 1974. Mais tarde viria a fundar o Sindicato do Serviço Doméstico.

Nasceu em 1941 e, desde então, passou por várias casas, onde acumulou más experiências que não queria ver repetidas com as outras trabalhadoras domésticas. Sabia que eram "milhares a passar o mesmo", como contou ao Público em 2024. 

AS PALAVRAS LENTAS DE UMA CANÇÃO


Que elas, cadentes estrelas dos bairros de sombra, soltem cabelos e rendas e falsas joias porque a vida é apenas este comboio sem destino nem estações, gritando com esta música sobre as cabeças trepidantes. Já poucos se demoram na contemplação de uns olhos que traziam o mistério dos bosques e dos lagos, ninfas e duendes que perseguiam um homem até aos labirintos da insónia. Agora, quase tudo se desprende e não posso, é verdade, não posso prender os meus dedos nos teus, não posso murmurar as palavras lentas da minha canção. Não posso perguntar: qual é o teu nome, a tua casa, a tua história? Não posso perguntar nada, fazer nada. Sei que de trago em trago vou abrindo uma clareira de medos onde só a minha sombra vai medindo os passos do Sol. Vejo, para trás dos ombros que se desarticulam, um rosto perplexo entre as nuvens de fumo. Soubesses tu, rosto perdido, as raízes do meu desastre e não virias aqui, a esta hora, balbuciando uma prece ou uma maldição. Mas não sabes. Não conheces o fulgor que me abandona, os nervos rebentando à medida das marés que nos empurram para os portos nocturnos, no derradeiro naufrágio. Não conheces o impulso que nos atira contra os recifes quando já não somos mais do que um velho que perdeu o Norte, um porão vazio que os fantasmas do mar que é esta vida visitam com enormes letreiros luminosos: «Foste príncipe, adorador, amante. O Tempo passou. Os teus olhos ficam. Elas giram à tua volta. O teu corpo fica. Já não se move.»

José Agostinho Baptista, de uma crónica na Ler, Novembro de 1997.

ESTE HOMEM QUE ESPEROU

Este homem que esperou
humilde em sua casa
que o sol lavasse a cara
ao seu desgosto

Este homem que esperou
à sombra duma árvore
mudar a direcção
ao seu pobre destino

Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra

António Ramos Rosa em Obra Poética  Vol.I

domingo, 19 de abril de 2026

A SUA MISSÃO DIZIA RESPEITO AOS VIVOS


 - Minha gente – disse o Dr. Copeland, sem expressão, e depois houve uma pausa. E as palavras acudiram-lhe de repente:

É este o décimo nono ano em que nos reunimos nesta sala para celebrar o Dia de Natal. Foi uma época sinistra, aquela em que o nosso povo ouviu falar pela primeira vez do nascimento do Nosso Senhor. Os negros escravos eram vendidos na praça do tribunal desta mesma cidade. Desde então, temos ouvido e contado a história da Sua vida um sem-fim de vezes. Assim, hoje a nossa história vai ser outra.

Há cento e vinte anos, outro homem nasceu num país conhecido pelo nome de Alemanha… longe, do outro lado do oceano Atlântico. Este homem compreendia, tal como Jesus Cristo. Mas os seus pensamentos não estavam dominados pela ideia de céu, ou do destino dos mortos. A sua missão dizia respeito aos vivos. À grande massa de seres humanos que labutam e sofrem, e mourejam até à morte. Às pessoas que ganham a vida a lavar roupa, a cozinhar para os outros, a colher algodão, a trabalhar com as tinas de tinturas escaldantes nas fábricas. A sua missão dizia-nos respeito a nós, e o seu nome era Karl Marx.

Karl Marx era um homem de senso, um sábio. Estudou e trabalhou e compreendeu o mundo em que vivia. Disse ele que a humanidade estava dividida em duas classes, os pobres e os ricos. Por cada rico havia mil pobres que trabalham para o tornar mais rico. Não dividiu o mundo em negros e brancos ou chineses: segundo Karl Marx, ser um dos milhões de pobres, ou um dos poucos ricos, era mais importante para um homem do que a cor da sua pele. A missão da sua vida era tornar todos os homens iguais, e repartir as grandes riquezas do mundo de tal forma que não houvesse mais ricos nem mais pobres, e que cada qual recebesse a sua quota-parte dos bens do mundo. Eis um dos mandamentos que Karl Marx nos deixou: «De cada um segundo a sua capacidade, a cada qual consoante as suas necessidades.»

Carson McCullerrs em Coração Solitário Caçador

REOLHARES


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO

Por vontade própria, o meu pai reformou-se tarde.

Já tinha, há algum tempo, passado os 65 anos, quando colocou um ponto final na carreira de jornalista-gráfico, como gostava de se considerar.

Passámos, então, a ter um tempo que até aí não existira e, pelo menos, uma vez por mês, arrancávamos para uma jantarada, mais regada do que o resto, que terminava sempre com conversas “non-sense”, que iam desde o marxismo-leninismo ao carrapito da D. Aurora, do Benfica às pernas da Cyd Charisse.

Por vezes a jantarada era antecedida de sessão de cinema.

Juntos, vimos, no Fórum Picoas. as Recordações da Casa Amarela do João César Monteiro, - e o que nos divertimos! -, juntos também, (não) vimos no Londres a adaptação cinematográfica da Insustentável Leveza do Ser. Ao fim de vinte minutos de filme, olhou para mim e disse: vamos embora!.

Apanhámos um táxi para Alcântara e aterrámos no Cuidado Com o Degrau, um restaurante que, penso, já não existe.

Marxista-leninista convicto, gostava particularmente de Sartre e, e lia-o em francês. O livreiro Carvalho, da Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, ao lado do então Cinema Eden, , conseguiu arranjar-lhe os seis primeiros volumes de Situations e sempre disse:

Mais vale estar errado com Sartre do que ter razão com Aron.

Não admira as cócegas que sentiu vendo o filme saído do livro do Milan Kundera. 

Pelo meu lado li Sartre, As Palavras é um livro que marcou muito os meus passos, mas sempre fui mais Albert Camus.

Há dias, ao rever Peggy Sue Casou-se, um filme mal-amado, ou melhor dito: pouco citado,  de Francis Ford Coppola, dono e criador de obras inescapáveis, topei com o diálogo de uma maravilhosa Kathleen Turner com o avô:

- Avô!

Sabe, quando o senhor e a avó morrerem a família morre convosco. Não voltarei a ver os primos.

- O “strudel “da tua avó é que mantém esta gente unida.

- Se pudesse voltar a fazer tudo de novo, avô, que faria de modo diferente?

- Trataria melhor dos meus dentes

Este tratar melhor dos dentes, mandou-me para idênticas palavras do meu pai  (estaria a citar Coppola? Não sei!), numa das jantaradas,  quando a conversa  terá entrado pelo velho beco do se eu soubesse o que sei hoje, se voltasse atrás, blá,blá,blá, e ele muito peremptório a afirmar que faria tudo, mas mesmo tudo, o que fizera, com uma única excepção: 

Trataria melhor dos meus dentes."

(Texto publicado por aqui em 20 de Setembro de 2011).

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


O meu pai foi um marxista-leninista. 

Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia por fundamental, até porque, mais tarde, o João César Monteiro apareceu a dizer que no Marx está tudo, Lenine é que foi muito pouco. 

Este Manual de Marxismo-Leninismo, de diversos autores, - 2 volume num total de 739 páginas - foi comprado pelo meu pai no Festival Internacional do Livro e do Disco, realizado no Centro Cultural de Belém em 1977, traduzido por Carlos Grifo, revisto por Manuel Gusmão, editado por Novo Curso Editores, em Setembro de 1975, Venda Nova/Amadora:

«Só uma classe determinada, os operários urbanos e, em geral, os operários fabris, industriais, está em condições de dirigir todo o conjunto de trabalhadores e explorados na luta para derrubar o jugo do capital, no momento em que este é derrubado, na luta para manter e consolidar a vitória com o objectivo de criar um regime social novo, socialista, e em toda a luta pela total supressão das classes». Lenine, citado na página 239 do 2º volume.

Livros apenas folheados porque, como a carne é fraca, li mais Raymond Chandler, mas retive que, como ensinavam os clássicos do marxismo-leninismo,  a  revolução socialista leva os trabalhadores ao poder, dirigidos pela classe operária.

MÚSICA PELA MANHÃ

Antes de chegarmos a outros lugares, as músicas que o rádio nos trazia eram portuguesas, francesas, espanholas, italianas, brasileiras.

Aos domingos, com música pela manhã, iremos bater a essas portas, também a outras, é um tempo para recordarmos o que, ao longo da vida, fomos ouvindo.




sábado, 18 de abril de 2026

POSTAIS SEM SELO


O Mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos.

Papa Leão XIV

À LUPA

Expansão da Linha Circular do metro de Lisboa, que devia ter sido concluída em 2023, vai custar mais 48 milhões, totalizando agora 380 milhões euros.

OLHAR AS CAPAS



 

Cozinha para Homens

Alfredo Saramago

Colares Editora

Capa. Irene Buarque

Colares Editora. Colares s/d

Este livro é para os homens que gostam de cozinhar e bem comer, sabendo que a diferença é grande entre alimentação sobrevivência e cozinha para regalo do paladar.

É para os homens que desejam experimentar receitas que as sua mães, mulheres ou amantes nunca souberam fazer, ou sabendo, já esqueceram e que por falta de tempo, de meios ou de gosto, nunca ensaiaram.