sábado, 20 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


PHILIPS - P 632.900 L - 1966

Lisboa, por esses anos 60, era uma cidade de um torpor quase provinciano.

Lembra-se de andar pelas ruas à noite, e de Lisboa ser um sítio acolhedor, não a ditadura.

Por um Maio de 66, mais precisamente no seu 31º dia, sem se saber muito bem como, o “TUCA - Teatro da Universidade Católica de São Paulo” aparece em Lisboa, também foram ao Porto, para apresentar, em espectáculos únicos, o poema de João Cabral de Melo Neto a que, em 1965, Francisco Buarque de Hollanda emprestara música.

Em Abril tinham ganho o Grande Prémio de Teatro Universitário de Nancy.

Mantém uma ponta de espanto de como a ditadura proporcionou, a quem o pôde ver, este belíssimo espectáculo. Ainda agora um pedaço de nostalgia se eleva do teclado onde escreve. Um verdadeiro luxo para ávida sede de conhecimento de então.

Circunstâncias pontuais, que agora não vêm ao caso, permitiram-lhe arranjar um bilhete de imprensa para o espectáculo. Nunca soube se as bilheteiras chegaram a abrir ao público.

Lembra-se dos enormes magotes de gente postados em frente do teatro, à espera de um qualquer passe de mágica que lhes permitisse assistir ao espectáculo.

Uma boa parte da sala, a rebentar pelas costuras, era constituída por agentes da PIDE.

Um espectáculo memorável, uma encenação simples, uma humildade de representação que fazia realçar todo o colectivo e em que se sentia toda a força do poema, a que a música de Chico Buarque emprestava, um viver e um sentir tão expressivos, e que a leitura do poema não permitiu, sequer, imaginar.

Passaram todos estes anos e nunca mais sentiu uma embriagues cultural como a daquela.

noite.

Ainda hoje não consegue alinhar meia dúzia de linhas decentes, apenas lhe saem banalidades.

Com o espectáculo a percorrer-lhe as veias, meteu pés por Lisboa fora, madrugada dentro, a falar sozinho ou, como dizia o José Gomes Ferreira, a falar com os fantasmas e a sua sombra.

Por um Dezembro-quase-Natal, de 1967, a descer a Rua do Carmo, viu na montra da Discoteca do Carmo, o disco de “Vida e Morte Severina”. Entrou, deparou-se com um preço-de-nota-preta.

Contou os tostões, o parco subsídio de Natal já tinha viajado para paragens outras, e os que pelo bolso viajaram, ficaram como sinal. Num ápice voltaria para finalizar o pagamento e, a certeza certa, que o resto do mês passaria a pão e água, salsichas Izidoro, mas que se lixasse: aquele gozo já ninguém lhe tirava.

Porque há coisas de que não podemos deixar passar ao lado.

Soube depois que o disco na montra era exemplar único, e já há alguns dias que por ali estava, sem ninguém nele reparar.

Por uma vez, sentiu-se um tipo com sorte!


 

Espectáculo patrocinado pelo Ministério da Educação Nacional, Ministério dos Negócios Estrangeiros e com a colaboração da Embaixada do Brasil.

 

Maio de 1966

 

O Xico nem precisa de letristas. Faz ele próprio. Mas tem graça que a primeira vez que o vi (tão menino ainda) a “letra” era do poeta João Cabral de Melo Neto. Produzia-se “Morte e Vida Severina” no Teatro Avenida. Xico, autor da música vinha integrado no TUCA (Teatro da Universitário da Universidade Católica de S. Paulo) e também representava. João Cabral, que acorrera propositadamente de Sevilha ou de Marselha para assistir (ver e dar assistência…), estava sentado a meu lado. Creio que nunca tinha visto “Morte e Vida Severina” em cena. Creio que estava a redescobrir o seu texto (pelo qual não devia já nutrir grande admiração, perfeccionista como é…) Quando, no final, os aplausos explodiram e começaram a chamar o autor ao palco, João, sem se virar, cada vez mais enterrado na cadeira, ia-me dizendo apavorado: “Não olha para mim! Não olha para mim!” Acabou por ter de ser. João Cabral foi coxia abaixo, pôs a mão no bordo da ribalta e com agilidade saltou para o palco. Abraços, agradecimentos ao público pela sua estrondosa ovação: João Cabral ao seu lugar. Digo-lhe: “V. saltou com uma facilidade!” E ele, com orgulho de rapazinho: “V. esquece que eu joguei futebol!


Alexandre O’ Neill em “Já Cá Não está Quem Falou”, Assírio & Alvim, Abril 2008.

POEMAS AUTOGRAFDOS


 Quando por aqui fizemos o registo dos poemas autografados da Colecção Poetas de Hoje, publicados pela Portugália Editora, por motivos que não consigo encontrar (?), faltaram dois volumes: um de João Cabral de Melo Neto, outro de Carlos Drummond de Andrade.

Hoje trataremos de Melo Neto, amanhã de Drummond.

É o nº 9 da Colecção Poetas de Hoje e para apresentação do poeta («apenas alguma indicações ao leitor comum»), a editora escolheu Alexandre Pinheiro Torres.

Quando Chico Buarque de Holanda, mais um grupo de universitários brasileiros, representaram em Lisboa Vida e Morte de Severina que vi no Teatro Avenida, já conhecia a peça de Melo Neto, pois faz parte desta antologia.

Diga-se que João Cabral de Melo Neto é um dos maiores poetas brasileiros, nascido em 1920 no Recife, estado de Pernambuco, que faz parte do nordeste brasileiro, e Alexandre Pinheiro Torres não hesita em dizer que Melo Neto é poeta de «génio autêntico».

sexta-feira, 19 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura.

Herberto Helder

Legenda: pintura de Silva Porto.

OLHAR AS CAPAS


 Francis Ford Coppola

Stéphane Delorme

Consultoria: Mário Augusto

Colecção Grandes Realizadores nº 7

Edição do jornal Público s/d

 

Podemos ficar parados no tempo.

Podemos ficar além do tempo.

Podemos ficar à frente do tempo.

Mas não podemos ficar sem tempo.

(…)

O tempo não espera por ninguém.

(Poema de Francis Ford Coppola tirado do seu Diário (18.09.1991).

HOJE TENHO AS TUAS MÃOS E O TEU SILÊNCIO

Hoje tenho as tuas mãos e o teu silêncio

e a livre flor por ti colhida em pleno Abril deste ano.

Tenho as árvores onde vamos pousar os mesmos olhos

e o vento que nos viaja quando estamos

sob o rumor dos pinheiros rente ao rio.

Tenho os teus olhos e a água em que se espelham

e a terra onde tocam os teus dedos.

Tenho a voz com que me falas ao ouvido

para podermos sentir ao mesmo tempo

a brisa madura do Nordeste,

e tenho quando és longe, o teres sabido

estar comigo inteira a ver a tarde

correr tal como um rio livre das horas.

Mas que terei eu de ti quando amanhã

te fores de vez embora?


Eduardo Valente da Fonseca em 71 Poemas

quinta-feira, 18 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Todos os dias logo pela manhã

as palavras. A cansada surpresa de estar vivo

as palavras

Rui Caeiro 

OLHAR AS CAPAS


Citações para Todas as Ocasiões

Rita Matos

Prefácio: Pedro Rolo Duarte

Capa: Carmen Dias

Verso de Kapa, Lisboa, Abril de 2016

As frases estão aqui, as ocasiões nunca mais serão as mesmas.

À LUPA


Somos assim: da euforia passamos ao mais negro desapontamento.

O primeiro jogo da selecção nacional mostrou-nos que temos excelentes jogadores, mas entregámos os seus destinos a um espanhol completamente ignorante que de imediato ficou enredado no governo federativo sombra de Cristiano Reinaldo/empresário Jorge Mendes e da incompetência de Pedro Proença.

Roberto Martinez já mostrara as suas debilidades quando, há uns anos atrás, espatifou uma selecção belga rodeada de excelentes jogadores.

Agora saiu-se com este disparate:

«Saímos daqui com muita autocrítica. Precisamos de crescer neste Mundial».

NOTÍCIAS DO CIRCO

A notícia, assinada por Ana Dias Cordeiro, pertence ao Público e diz-nos que a Segurança Social encerrou dez lares por mês no ano passado por falta de condições para acolherem idosos.


«O fecho urgente das casas usadas como residências ilegais para idosos em Lousada, na terça-feira, foi muito noticiado por estas casas estarem a ser alvo de uma operação policial no culminar de uma investigação a maus tratos graves, mas esta é apenas mais uma de muitas situações em que residências, por serem clandestinas ou por não terem condições de segurança, recebem ordens para fechar portas. No ano passado, 120 lares foram encerrados: são, em média, dez lares por mês, segundo os dados do Instituto da Segurança Social.

Segurança Social encerrou dez lares por mês no ano passado por falta de condições para acolherem idosos
As estatísticas não destoam das de anos anteriores: em cinco anos houve 568 lares encerrados e, destes, 119 (um quinto) foram-no com carácter de urgência, por perigo iminente para a vida dos idosos. No ano passado, o
número de encerramentos urgentes baixou ligeiramente, foi de 18, quando nos cinco anos anteriores tinha passado sempre a barreira dos 20.»

SOLSTÍCIO DE VERÃO

 Amanhã e depois

todas as tardes,

espero os grilos

que enchem ao

longe as noites

curtas, cada vez

menos curtas.

Margarida Ferra em Curso Intensivo de Jardinagem

quarta-feira, 17 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais pequeno, toda a face da Terra seria diferente.

Blaise Pascal

OLHAR AS CAPAS


 Vasco Santana

Luís Trindade

Capa: Fernando Rochinha Diogo

Colecção Fotobiografias Século XX

Círculo de Leitores, Lisboa, Novembro de 2008

«Sou do século passado. Inventou-se o cinema. o telefone, o avião… e o Vasco Santana! Foi uma bela invenção de fim de século.»

TRUMPALHADAS

«A arte de negociar de Donald Trump parece funcionar porque os objectivos da negociação são estabelecidos no fim da negociação e correspondem sempre ao que foi acordado. A julgar pelo comentário do Presidente dos Estados Unidos na sua conta na rede Truth Social, o líder da Casa Branca conseguiu desbloquear um estreito que estava aberto antes de ele iniciar uma guerra contra o Irão e de voltar a fazer fluir parte do petróleo mundial que estava a correr normalmente antes de os bombardeamentos terem começado. Portanto, Trump conseguiu negociar um acordo que deixa as coisas como estavam, mas depois de ter gasto já mais de 112,7 mil milhões de dólares na guerra, de acordo com o Iranian War Cost Tracker.

Trump não conseguiu a mudança de regime a que se propôs, não fez cair a autocracia teocrática que governa o Irão com mão de ferro, nem substituiu o líder por um outro mais disposto a cumprir os desejos dos EUA (como fez na Venezuela), não destruiu a capacidade nuclear iraniana nem sequer negociou o fim do enriquecimento de urânio (essa discussão ficou para depois).»

António Rodrigues no Público

À LUPA

E sim, o desprezível regime do Irão mantém-se de pé, porventura mais forte do que estava antes.

David Pontes no Público

DISTANTE

distante
mais distante
que a nuvem mais remota
está agora
a tua voz amor
a tua voz que um dia
um dia que já esqueceste
me falou de nós
me disse que seríamos
só um
que seríamos para sempre
como o dia e o sol
agora amor
exactamente neste momento
perdido na noite solitária
oiço apenas o eco
do que disseste
recordando a luz perdida
dos teus olhos
enquanto meus lábios
sangram
amargos
ouve amor
ouve em silêncio
este último grito
que
como um sonho perdido
vai desaparecendo ao longe
pela noite
pela solidão
ouve-o amor
ouve-o em silêncio
nunca o esqueças
com ele vão os meus olhos
com ele vai a recordação
das minhas mãos
que uma vez
foram tuas
ouve-o amor
ouve-o em silêncio…

Mário-Henrique Leiria em Poesia

terça-feira, 16 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Poeta não é gente, é bicho raro que de jaula ou gaiola se escapou e anda pelo mundo às cabriolas, aprendidas no circo que inventou.

José Saramago

OLHAR AS CAPAS


O Casamento e a Moral

Bertrand Russell

Tradução: Wilson Veloso

Companhia Nacional Editora, São Paulo, 1956

Ao caracterizar-se uma sociedade, seja antiga ou moderna, dois elementos há, que se ligam assaz intimamente, e que são da máxima importância: um é o sistema económico, o outro é o sistema familiar.

À LUPA


Campeonato do Mundo de Futebol 2022.

Começou no México a 11 de Junho, terminará nos Estados Unidos a 15 de Julho.

Há venenos próprios para o povo ter alegria.

«Deus criou o mundo e desistiu de continuar a sua obra ao sétimo dia, porque era domingo e havia um desafio de futebol».

O futebol não tem culpa de ser um belo espectáculo mas o escritor Mário de Carvalho revelou que «a maior alegria que me podiam dar era proibir a porcaria do joga da bola.».

Nestes dias, a Lupa inclinou-se para a tétrica socialite portuguesa:

Lili Caneças revela ritual insólito para ajudar a Selecção: "Ajoelho-me, rezo e espalho um sapray de água benta que trouxe de Fátima" e garante que a bola acaba  por entrar.

NUNCA SOUBE O TEU NOME

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,

por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -

um sol que de repente acrescentava cal aos muros,

um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

 

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa

como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,

antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde

bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou

de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.

 

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

segunda-feira, 15 de junho de 2026

OLHAR AS CAPAS

 

Breve Interpretação da História de Portugal

António Sérgio

Edição crítica orientada por Castelo Branco Chaves, Vitorino Magalhães Godinho, Rui Grácio, Joel Serrão e organizada por Idalina Sá da Costa e Augusto Abelaira

Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa s/d

Fadados à sina de transpor limites, tivemos um carácter universalista pela nossa a acção no mundo físico: está na índole da nossa história que o tenhamos também no mundo moral.

TRUMPALHADAS

Os Estados Unidos e o Irão chegaram a acordo para pôr fim à guerra que dura desde Fevereiro, anunciou o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na noite deste domingo, 14 de Junho. A informação foi corroborada pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que tem actuado como mediador do conflito. A televisão estatal iraniana confirmou igualmente o fim da guerra, explicando que o Irão "forçou os Estados Unidos" a aceitar o acordo de paz e avançou com a reabertura do estreito de Ormuz.

Será que o louco conseguirá sair do buraco onde Netanyahu o enfiou?

Entretanto, no outro lado do mundo, a Rússia lançou, durante a madrugada desta segunda-feira, 15 de Junho, uma vaga de ataques de mísseis e drones sobre várias regiões ucranianas, tendo provocado pelo menos 11 mortos e danos substanciais num dos principais símbolos religiosos do país: o mosteiro ortodoxo da Pecherskaya Lavra, na capital da Ucrânia.

DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

 

E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

 

- Eu faço versos como quem morre.

 

Manuel Bandeira em Obras Poéticas

domingo, 14 de junho de 2026

OLHARES

Mário Castrim: o mais brilhante crítico de televisão deste país.

Ainda morava na Rua dos Lusíadas, quase frente à estação da Carris, trabalhava noite dentro, deixava a crítica no puxador da porta, ao lado da saquinha do pão, e era ali que o motorista do Diário de Lisboa a ia buscar, às 7 da manhã.

As suas críticas eram também verdadeiros poemas, ou histórias de encantar.

É o caso deste olhar sobre um documentário sobre antílopes.




DITOS & REDITOS


O Homem pensa, Deus ri.

O que arde cura e o que aperta segura.

Não interessa se cais, é a maneira como te levantas que te define.

O que não se pode provar não existe.

A ignorância, quando bem organizada, pode parecer uma teoria.

É possível parar o tempo?

A alguns, tantos, as coisas acontecem demasiado tarde, excepto a morte.

O que foi não volta a ser.


Legenda: azulejos de Querubim Lapa na Escola Luísa de Gusmão

MÚSICA PELA MANHÃ


 Neste domingo, juntamos mais algumas canções construídas com versos de Luís de Camões e salientamos a galega Uxia cantando Verdes são os Campos.

Voltamos a lembrar as poucas manifestações de não concordância na ideia de Alain Oulman pôr artistas a cantar Luís de Camões:

«Quando, em Outubro de 1965, a cidadã Ivone Maneiras teve conhecimento que Amália Rodrigues publicara um disco a cantar Luís de Camões, escreveu uma carta ao Director do Diário Popular.

O vespertino aproveitou a carta para fazer um inquérito a algumas personalidades.

Já nos referimos à opinião de José Gomes Ferreira.


Passados todos estes anos, consigo compreender a posição do poeta mas não concordo com ela. Aliás, José Gomes Ferreira teve para com Luís Cília uma posição de desagrado com as músicas que Cília fez para poemas seus.

A talhe de foice, e por mera curiosidade, publicamos uma carta patética de um colaborador de A Voz, jornal católico, monárquico e salazarista, sobre a lírica de Camões e a voz de Amália.

O recorte pertence à edição de 16 de Fevereiro de 1966»: