quarta-feira, 10 de junho de 2026

RETRATOS


 Relvas é um subproduto de telenovela.

Clara Pinto Correia, Expresso s/d


O OUTRO LADO DAS CAPAS

Na minha infância e adolescência passava férias na Trafaria, casa alugada a pescadores.  
Salvador Félix Martins nasceu na Costa da Caparica a 1 de Agosto de 1932 onde viveu. Foi jogador do Sport Lisboa e Benfica treinado por Otto Glória foi campeão nacional em 1954-55 e 1956-57.

Ainda o vi jogar.

De pé: Bastos, Pegado,  Calado, Alfredo,, Artur, Ângelo: em primeiro plano: Palmeiro Antunes, Caiado, Águas, Salvador e Cavém.

Quando abandonou o futebol, depois de ter sido treinador de diversas equipas, entre elas, como não poderia deixar de ser o Grupo Desportivo da Costa da Caparica, tornou-se proprietário de um quiosque de jornais na Costa da Caparica.

Foi o Mário Castrim que me chamou a atenção para o facto de o proprietário do quiosque ter sido jogador do Benfica e quando passei férias em São João da Caparica, todos os dias ia a pé à ao Quiosque do Salvador, comprar A Bola e o Diário de Lisboa.

Salvador lançou dois livros dedicados à Costa da Caparica: “Lanços do Mar Que Arde, da Costa de Caparica à Fonte da Telha", em 2001 e "Caparica Doutros Tempos", em 2004.

Faleceu no dia 23 de Abril de 2013 com 80 anos.

A fotografia acima, retirada do livro, mostra a Praça da Liberdade onde começa a Rua dos Pescadores («bússola para definir ser ali o centro de todas as conversas, e ao mesmo tempo apontar: norte. Sul, mar, rocha, mata, praia, redes e barcos, quem pescou, que pexe, foi apanhado, na Costa ou Fonte da Telha, quem foi ou não foi ao mar»), rua que vai desembocar na praia, frente ao Atlântico.

Pode ainda ver-se a velha bomba de gasolina que trabalhava à manivela, na esquina o Café Papo Seco, uma maravilha de café, com bilhares do 1º andar e na Rua dos Pescadores também havia o Restaurante Capote, antes uma taberna com o mesmo nome:

Sim, Costa da Caparica de Outros Tempos.

OLHAR AS CAPAS


 Caparica Doutros Tempos

Serafim Félix Martins

Edição de Autor, 2004

Os pescadores, têm na rede a alma do seu traço, de trigueiros e sentimentais. Amam a família e a sua terra, são religiosos, aventureiros e trabalhadores. Gostam de conviver em grupo, costumam falar alto, ciosos dos seus próprios costumes.

Vestem camisa aos quadrados, calças cinzentas ou azuis, usam boné ao alto, e tamancos ou chinelos nos pés. Na praia, costumam andar descalços. Logo pela manhã, muito cedo, vão matar o bicho, a ver o mar. Cantam o fado nas tabernas ou nas tascas. O fado, está ligado ao mar e às suas ondas de solidão. Nasce a música, como eco distante da luta dos pescadores, durante a faina da pesca.

À noite, lá pelas tantas da madrugada, era vê-los na taberna do Capote a beber um copo com os Setentas sempre a dar o mote. Comem o gordo carapau assado e a famosa sardinha, também assada, a pingar no pão, acabada de tirar do fogareiro de barro, o carvão a atear junto à porta da rua. Não abdicam da sopa de pexe, petingas de alhada, massa no caldo, pexe de azeite e vinagre, caldeirada *à pescador. Só eles conhecem o segredo na preparação desta comida deliciosa.

OH! NÃO ME FUJAS!

Oh, não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura!
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que imperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo?
O que tu só farás, não me fugindo.
 
Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que, nesses fios de ouro reluzente,
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
 
Nesta esperança te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudarás a triste e dura estrela!
E se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E se me esperas, não há mais que espere!»
 
Já não fugia a bela Ninfa tanto,
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas lhe dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso de alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.
 
Oh, que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

Excerto do Canto IX de Os Lusíadas

terça-feira, 9 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


O livro nunca vai acabar.

Bárbara Bulhosa, editora

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Ser «craque da bola» é o sonho de muitos jovens e das suas famílias, que nisso investem tempo e dinheiro. Mas poucos se tornam profissionais e só uma ínfima parte chega aos grandes clubes e às seleções.

Com base em entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e jogadores que são ou foram promessas do futebol português, este livro demonstra que talento e esforço não bastam para singrar. Há que ter a atitude certa. E a sorte é fundamental. 

Ao longo de 112 páginas, o autor cruza dados estatísticos, entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e futebolistas para analisar os fatores que influenciam o sucesso ou o insucesso de milhares de jovens que procuram chegar ao futebol profissional.

Acontece que no domingo fui ver o jogo de um dos meus netos, joga futebol de salão nos Reguilas de Tires, e o jogo era em Marvila.

As claques daqueles miúdos são os pais, as mães dos jogadores e algures não entendem que aquilo é um passar de tempo, um divertimento, e não uma luta, a roçar o palavreado violento, e provavelmente sonham que o filho poderá ser um Cristiano Ronaldo

Não é bonito, é mesmo muito feio.

Este livro de Rui Passos Rocha tenta mostrar as razões que por cada Eusébio, Ronaldo ou Vitinha, muitos jovens talentosos e tidos como futuras estrelas acabam em ligas amadoras ou no desemprego. Ser «craque da bola» é o sonho de muitos jovens e das suas famílias, que nisso investem tempo e dinheiro. Mas poucos se tornam profissionais e só uma ínfima parte chega aos grandes clubes e às seleções. Com base em entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e jogadores que são ou foram promessas do futebol português, este livro demonstra que talento e esforço não bastam para singrar.

Um amigo pintor, numa noite de bebedeira, contou ao escritor Manuel da Fonseca, que “quando chega domingo não há nada melhor do que ir para o futebol”.

Antes e depois de Abril, o futebol foi sempre uma arma utilizada pelos políticos para distrair a atenção popular, para a dividir, para lhe baixar o nível de exigência, aos políticos juntam-se os jornais, as televisões.

Durante os últimos dias, os 4 canais televisivos, por cabo, estiveram longas e longas e longas horas a discutirem a saída do treinador Mourinho do Benfica para o Real Madrid.

Gastariam todas essas horas – e não seriam necessárias tantas – a falarem de um livro, de um filme, de uma peça de teatro, de uma exposição?

Não!

Quando ouvem falar de cultura, fogem pela direita baixa.

O futebol é um espectáculo, não pode ser um mundo à parte, ou um espelho que reflicta a nossa mediocridade. 

OLHAR AS CAPAS


Promessas do Futebol

Rui Passos Rocha

Capa: Inês Sena

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, Maio de 2026

A pobreza pode levar vários atletas a alimentarem-se mal, ou obrigá-los a terem um trabalho (para além de tentarem o sonho do futebol). Podem ter de se deslocar em transportes públicos, o que afetará o seu tempo disponível, sobretudo se residirem em locais onde tais transportes sejam escassos ou demorados. Por outro lado, os jovens que vivem em casas mais pequenas e que, após as aulas, não têm atividades estruturadas ou sequer a presença de outros membros da família são aqueles que mais saem à rua nos seus bairros e mais tendem a pegar numa bola e jogar com os amigos.

TRUMPALHADAS


 Donald Trump foi assistir a um jogo da final de basquetebol.

Acabou vaiado,mas as vaias não impediram que adormecesse.

Alguém que adormece num jogo da NBA , adormece em qualquer sítio, a qualquer hora.

É o que acontecerá nas reuniões do governo, com as tragédias que, por causa disso, e não só, o mundo está a enfrentar.

Entretanto, o somali Omar Artan é um dos melhores árbitros de África nos últimos anos, estava entre os três juízes do continente para ajuizar encontros do Mundial'2026, mas não vai poder estar presente no certame que começa na próxima semana porque... os Estados Unidos lhe negaram a entrada no país.

NUM BOSQUE QUE DAS NINFAS SE HABITAVA

Num bosque que das ninfas se habitava,

Sibela, ninfa linda, andava um dia;

E, subida em uma árvore sombria,

as amarelas flores apanhava.

 

Cupido, que ali sempre costumava

a vir passar a sesta à sombra fria,

em um ramo o arco e setas que trazia,

antes que adormecesse, pendurava.

 

A ninfa, como idóneo tempo vira

para tamanha empresa, não dilata,

mas com as armas foge ao Moço esquivo.

 

As setas traz nos olhos, com que tira.

Ó pastores! fugi, que a todos mata,

senão a mim, que de matar-me vivo.


Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 8 de junho de 2026

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS

Mais Greguerías de Ramón Gómez de la Serna:

A estrela cadente é uma malha que cai na meia da noite.

Veneza e o lugar onde navegam violinos-

O relógio do capitão conta as ondas.

Trovão: queda de um baú pelas escadas do céu.

O capitalista é um senhor que, quando fala connosco, nos fica com os fósforos.

Depois de ajudar o cego a atravessar a rua, ficamos um pouco cegos e indecisos.

A lua é o espelhinho com que o sol se entretém de noite a inquietar os olhos da terra.

O gato olha para as visitas como se a conversa lhe desse sono.

O parafuso é um prego penteado com risco ao meio.

É na maneira de esmagar a beata no cinzeiro que se reconhecessem as mulheres cruéis.

O arco-íris é a fita que a natureza põe depois de ter lavado a cabeça

OLHAR AS CAPAS


As Pessoas de Minha Casa

Júlio Conrado

Capa: Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa, Novembro de 1984

Falando de homem para homem, isto ´r, de fantasma para fantasma, a massa de que eles se fazem tem que se lhe diga. No dia em que o o professor de Moral me perguntou se habitualmente fazia em privado cócegas na gaita, tinha com certeza um programa intenso: além da obrigação de assistir às aulas, poderia ter de declamar um soneto da minha autoria ou uma estrofe de Os Lusíadas, apalpar o cu à miúda da Cruz Quebrada, dizer olá, de longe, à minha querida, ouvir ressonar em inglês, jogar à bola – integrava a equipa da Linha, rival número um da de Lisboa – ouvir uma história edificante de elogio à pobreza, espreitar a vizinha, comer em pensamento, Liberta, devorar a Beta Humana, espremer-me em conformidade.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«O principal objectivo da nova PSU é rebaixar os mais desprotegidos. A medida tem uma carga moral absurda, que desestabiliza e obriga os beneficiários a trabalhar a troco de uma esmola. O Primeiro-Ministro explicou que é «para que as pessoas não se mantenham na armadilha da pobreza», e a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social continuou com o seu discurso cínico. A hipocrisia dos ricos é uma coisa atroz».

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

ESTÁ O LASCIVO E DOCE PASSARINHO

Está o lascivo e doce passarinho

co o biquinho as penas ordenando,

o verso sem medida, alegre e brando,

despedindo no rústico raminho.

 

O cruel caçador que do caminho

se vem, calado e manso desviando,

com pronta vista a seta endireitando,

lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

 

Desta arte o coração, que livre andava

-posto que já de longe destinado -,

onde menos temia, foi ferido;

 

porque o Frecheiro cego me esperava,

para que me tomasse descuidado,

em vossos claros olhos escondido.

Luís de Camões em Sonetos

domingo, 7 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Andaram por aí notícias a contar das dificuldades de o povo chegar a praias em zonas de condomínios de luxo no concelho de Grândola, mas a ministra do Ambiente de Portugal declarou que o acesso ao areal é uma das prioridades para esta época balnear.

“As praias são de todos” e “para todos” disse a ministra e isso é o mote da abertura da época balnear.

os meus verões são tão diversos como diversa tem sido toda a minha vida arroz de pimentos e pasteis de bacalhau aos domingos até algés ou cruz quebrada, o mar da infância ficava longe castelos na areia anos mais tarde dois meses na trafaria em casa alugada a pescadores, quando as férias eram grandes uma juke box na esplanada do marques o lucho gatica a cantar o moliendo café o marino marini a cantar honeymoon também um barrote espetado no meio do areal, um alti-falante no topo a ouvir-se o armando marques ferreira a apresentar o programa da manhã do rádio clube português as canções das praias de todos os anos  kanimambo pelo joão maria tudela a lenda da conchinha da celly campelo o ouro negro setembro chegou vamo-nos separar os golfinhos a percorrer o tejo a caminho da barra os bailes de despedida dos banhistas no salão de festas dos bombeiros e agora senhoras minhas meus senhores o conjunto faz um pequeno intervalo damas ao bufete um enorme alguidar de zinco cheio de gelo e garrafas de vinho branco camilo alves, cada taça vinte e cinco tostões dois para a esquerda um para a direita directrizes para o pezudo que sempre fui as férias da infância não se repetem o ruy belo que esperava pelo verão como por outra vida depois passei a odiar, o verão dou-me muito mal com o calor longe muito longe da sophia que dizia que metade da vida dela era maresia e eu a acreditar baixinho que o verão é um território do pecado, todos os pecados se confundem e de pecados fujo a sete pés e gozar que nem um perdido com a marilyn monroe num filme do billy wilder a dizer ao vizinho de baixo que se vai vestir à cozinha, o vizinho na cozinha porquê e ela a dizer que no verão anda nua pela casa e põe as cuecas no congelador o verão prestes a chegar o meu pai a dizer-me que em setembro voltamos a ser gente e sempre sempre os gatos selvagens e o verão a chegar sur la plage por fim mas não como último sinal há longos anos que deixei de passar férias e apenas sinto que as férias é que passam por mim a uma velocidade tão louca e muito longe da calma e serenidade das férias do sr. hulot ou brigitte bardot em 1955 de biquíni em saint-tropez, aquele grande sorriso e o resto que poderá ser um refresco de limão, muito gelo um dedal de gin e lembrar-me ainda que nunca usei óculos de sol




DAR-LHES CRÉDITO E VIDA


sábado, 6 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 No dia 1 de Junho de 1926, em Los Angeles, nascia Norma Jeane Mortensensen que o mundo, mais tarde, passaria a conhecer como Marilyn Monroe.

Apesar do muito e muito que se escreveu, nem tudo se sabe sobre Marilyn.

Marilyn Monroe deixou um inventário que inclui fotografias, recortes de jornais, poemas, frases, cartas, notas várias.

Os papeis e fotografias datam de 1943, e vão até aos dias que antecederam a sua morte.

Parte de todo este material foi publicado em livro. Os editores chamaram-lhe Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters.

Do mundo de lendas que sempre envolveram, e envolvem, Marilyn, conta-se que um dia, em conversa com um amigo, terá tirado do bolso, um pequeno diário de capa vermelha a que chamava o seu livro de segredos.

Nesse livrinho, entre muitas outras coisas, falava dos planos de Kennedy para matar Fidel de Castro, de testes atómicos, das relações de Frank Sinatra com a Máfia, do movimento dos negros pelos direitos de igualdade, conversas que Marilyn ouviu enquanto conviveu com os Kennedys.

Naturalmente este livro de segredos não consta de Fragments: Poems, Intimate Notes Letters.

Diz, quem já o leu, que Fragments, não é a essência da literatura,  mas permite concluir que Marilyn não foi, exclusivamente, a loura burra que que a indústria de Hollywood construiu e impingiu à opinião pública de todo o mundo.

«Um símbolo sexual torna-se um objecto. Eu detesto ser um objecto», disse a actriz.

O escritor António Tabucchi  (1943-2012), escreveu o prefácio para a edição francesa do livro,  e observa:

No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita.

Para a música desta manhã vamos buscar algumas canções de Marilyn:




sexta-feira, 5 de junho de 2026

TRUMPALHADAS

Donald Trump, o louco, queria gastar mais 862 milhões de dólares no Salão de Baile da Casa Branca.

Ao que parece, e hoje tudo nesta América Trumpiana, é noticiado no «parecer», foi retirado do projecto. O mesmo aconteceu à verba de 1,55 mil milhões de euros destinada a um fundo que Trump pretendia usar para indemnizar aliados que enfrentaram processos judiciais durante a presidência de Joe Biden.

PAUSA

Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.

Antonia Tozzi

(Tradução de Inês Dias)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Este mundo que conhecemos foi feito pelo Diabo num momento em que Deus não estava a olhar.

Bertrand Russell

O OUTRO LADO DAS CAPAS


O Partido e a guerracolonial, pág. 293 do 4º volume da Biografia de Álvaro Cunhal:

«Onde melhor poderemos lutar contra a guerra é lá onde ela se faz e junto daqueles que a fazem e junto dos milhares de jovens soldados que nessa guerra estão envolvidos. É aí, dentro dos quartéis, nos momentos de embarque e no próprio campo de batalha, que os comunistas e todos os jovens progressivos podem mobilizar os soldados para acções a atitudes objectivamente contra a guerra e neutralizar a influência e as ordens dos comandos e oficiais fascistas. Podem agir de modo que, onde as tropas fascistas poderiam obter uma vitória, tenham uma derrota». 

OLHAR AS CAPAS


Álvaro Cunhal

O Secretário-Geral

(1960-1968)

Volume IV

José Pacheco Pereira

Temas e Debates, Lisboa, Dezembro de 2015

…apesar disso, Sampaio confessou várias vezes o fascínio que a presença e inteligência de Cunhal lhe tinham suscitado.

VISITA

Fui procurar-te à última morada,
Não te encontrei. Apenas encontrei
Lousas brancas e pássaros cantando...
Teu espírito, longe, onde não sei,
Da obra na eternidade assegurada,
Sorri aos amigos, que te estão chorando.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas

quarta-feira, 3 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Ser poeta é não pertencer nem a si.

Alberto de Lacerda

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Da pág. 412 do 3º volume da Biografia de Álvaro Cunhal :

Das janelas das celas pouco se via, embora num poema de Borges Coelho se diga que «em dias claros vê-se a Nazaré.»  A presença do mar era uma constante e os poemas escritos pelos presos de Peniche fazem-lhe constante referência, quer como uma metáfora de liberdade, quer como fonte de perturbação, pelo seu ruído regular, do estado de espírito dos presos. A ambivalência de registos é ainda maior quando o texto é escrito por alguém do «exterior», como é o caso do poema de David Mourão Ferreira,

 

Abandono

 

Por teu livre pensamento

Foram-te longe encerrar

Tão longe que o meu lamento

Não te consegue alcançar

E apenas ouves o vento

E apenas ouves o mar

Levaram-te a meio da noite

A treva tudo cobria

Foi de noite numa noite

De todas a mais sombria

Foi de noite, foi de noite

E nunca mais se fez dia.

 

Ai! Dessa noite o veneno

Persiste em me envenenar

Oiço apenas o silêncio

Que ficou em teu lugar

E ao menos ouves o vento

E ao menos ouves o mar!

 

Este poema, cantado por Amália Rodrigues ficou conhecido como «Fado Peniche», e aqui o mar e o vento são vistos como sinal de vida e esperança.

OLHAR AS CAPAS


Álvaro Cunhal

O Prisioneiro

(1949-1960)

Volume III

José Pacheco Pereira

Capa: António Rochinha Diogo

Temas e Debates, Lisboa, Fevereiro de 2006

Uma «biografia política de Álvaro Cunhal não pode ser feita apenas dos eventos directamente relacionados com o prisioneiro, porque o biografado associou como poucos a sua vida pessoal com a história do comunismo português. Não há na sua visa adulta uma frase que tenha escrito, um desenho que tenha feito, um acto de que tenha sido responsável que não tivessem como interlocutor privilegiado o PCP. Por isso, não pode compreender Cunhal, mesmo nos seus anos de maior isolamento, sem relação total com o partido de que fazia parte.