sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


A Condição Humana

André Malraux

Tradução e prefácio: Jorge de Sena

Capa: Bernardo Marques

Colecção Dois Mundos nº 40

Livros do Brasil, Lisboa s/d

- A única coisa que eu amava foi-me tirada, não é verdade, e quer que eu permaneça o mesmo. Julga que o meu amor não valeu o que vale o seu para si, cuja vida nem sequer mudou?

- Como não muda o corpo de um vivo que se torna um morto…

Ele pegou-lhe na mão:

- Conhece a frase: «São precisos nove meses para fazer um homem, e um só dia para o matar». Nós soubemo-lo tanto quanto se pode saber, um e outro… May, ouça; não são precisos nove meses, são precisos cinquenta anos para fazer um homem, cinquenta anos de sacrifícios, de vontade, de… tantas coisas! E quando esse homem está feito, quando nada mais há nele da infância, nem da adolescência, quando, verdadeiramente, ele é um homem, nada mais resta senão morrer.

À LUPA

No desespero da tempestade as promessas foram diversas e interessantes.

Passados os dias, o governo passou a notar que, também nas promessas das ajudas, isto e aquilo, feitas algumas contas, concluíram que puseram a pata na poça.

Lê-se no Público de hoje:

«O Governo recuou e, ao contrário do que tinha sido prometido, os trabalhadores abrangidos pelo layoff simplificado vão receber apenas dois terços do salário bruto em vez de 100%. Além disso, a Segurança Social só paga 80% desta despesa nos primeiros 60 dias de redução do tempo de trabalho ou de suspensão dos contratos e, daí em diante, essa percentagem baixa para 70%.»

Como dizia a minha avó:

«Quando a esmola é demais, o santo desconfia».

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Parte da A1 junto ao nó de Coimbra Sul abateu na sequência da ruptura de um dique do Rio Mondego. Miguel Pinto Luz já disse que «o compromisso do Governo é de absoluto comprometimento», puxando a responsabilidade do arranjo para o Estado e não para a Brisa, empresa responsável pela auto-estrada.

Sucessivos projectos para concluir a obra hidroagrícola do Baixo Mondego, apresentados no Parlamento, foram sendo chumbados pelos votos do PS, PSD/CDS, IL, PAN e Livre, com abstenções do CH. Dique voltou ontem a romper.

Há várias décadas que se trava uma batalha pela conclusão da obra hidroagrícola do Baixo Mondego. A intervenção está num limbo – sucessivos Governos PS e PSD/CDS-PP alternam entre si, ora apoiando a intervenção na oposição, ora bloqueando-a assim que assumem a pasta.

Os avanços (sem aplicação na prática) e os recuos do PSD/CDS

O mais recente caso é o do executivo liderado por Luís Montenegro, que horas depois de uma nova rotura no dique do Mondego (que provocou também o colapso de uma secção da A1), anunciou a necessidade de rever e readaptar a muito esperada «obra hidrográfica do Mondego».

As afirmações de Montenegro são um verdadeiro volteface. Há apenas três meses, no âmbito da discussão do Orçamento do Estado para 2026, PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal e PAN juntaram-se para chumbar uma proposta do PCP para a conclusão da obra hidroagrícola, contando ainda com a abstenção do PS, Chega e Livre.»

Copiado de Abril Abril

MENSAGEM PELA MANHÃ

Caro Cliente,


Esperamos que se encontre bem, assim como a sua família e aqueles que lhe são próximos. A recente tempestade deixou impactos significativos em várias regiões do país e, mesmo que não tenha sido diretamente afetado, sabemos que pode ter alguém próximo a enfrentar desafios.
Num momento marcado por incerteza para muitas famílias e empresas, queremos assegurar-lhe que pode continuar a contar connosco.

O novobanco acredita que recomeçar é possível. Por isso, disponibilizamos medidas de apoio destinadas a quem precisa de maior estabilidade financeira nesta fase.

Está disponível a Moratória Extraordinária para Crédito à Habitação Própria e Permanente, criada pelo Governo, que permite aos clientes elegíveis suspender temporariamente o pagamento das prestações, sem custos adicionais e com extensão automática do prazo do contrato.

Criámos também uma linha especial de Crédito Hipotecário Multisoluções, até 100 milhões de euros, com condições mais favoráveis, para apoiar a reparação e reabilitação de imóveis e negócios nos concelhos de calamidade.

Para aderir a estas soluções, poderá dirigir-se a um balcão ou contactar o seu gestor por email. Todos os detalhes estão disponíveis no site do novobanco.

Neste momento difícil, reafirmamos o nosso compromisso em apoiar as famílias e empresas ao longo da sua vida.
Estamos consigo.

Cumprimentos


novobanco

O DIA TEM 24 HORAS

 o dia tem 24 horas

 
os canais de televisão
em conjunto
fazem delas perto de 100
 
a banca
para organizar
os seus assaltos súbitos
à bolsa
e vice-versa
trabalha em conjunto ou em separado
mais de 300 horas por dia
que depois
podem render
mais de cem mil salários anuais
de cem mil trabalhadores
 
os curso de balística
do exército e da polícia
ocupam entre todos eles
muitas centenas de horas
por dia
a treinar
a fatalidade e o erro científicos
 
para derrotarem o adversário
em décimas de segundos
ou menos
os atletas treinam
sem trégua
milhares de horas por ano
durante vários anos da sua vida
 
o homem aproveita
engenhosamente
o tempo
e nos intervalos
produz os novos escravos
do novo tempo
 
os donos dele
sucedem-se
 
o tempo tem dono
e é hereditário

Alberto Pimenta em Resumo: a poesia em 2012

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Na sua Viagem a Portugal, quando José Saramago passou por Aveiro, quis ir comer ao Palhuça, onde tinha comido uma sopa de peixe que lhe ficou na memória.

Assim Saramago nos conta:

«Quando ao viajante dá o apetite do almoço, vem dos confins da memória uma recordação. Em Aveiro comeu ele, há muitos anos, uma sopa de peixe que até hoje lhe ficou na retentiva do olfacto e das papilas da língua. Quer verificar se os milagres se repetem, e vai perguntar onde é o Plhuça, quwe assim se chama a casa de pasto onde se dera a aparição. Já não há Palhuça está agora a cozinhar para os anjos, ou talvez para a princesa Santa joana, a sua patrícia, acima deste cinzento céu. Baixa o viajante a cabeça, vencido, e vai comer a outro lado. Não comeu mal, mas nem a sopa era do Palhuça, nem o viajantes era o mesmo: tinham passado muitos anos.

O que terá levado, sem dar qualquer palha, Saramago a ir comer a outro lado. Para além da ausência do Palhuça, que desagrado sentiu o viajante? 

Ele esteve por Aveiro há uns três anos, andou à procura do Café Trianon, onde Mário Sacramento reunia com amigos e camaradas, mas o café deu lugar, como um pouco por toda a parte, a um banco.

Pelos inícios dos anos 60, esteve a passar férias, em casa de avós, no Fontão, e lembrava uma caldeirada de enguias comida em Angeja, a cor amarelada, o sabor do açafrão.

Foi o que pediu: caldeirada de enguias à moda de Aveiro.

A juntar à má cara do dono do Palhuça, que queria que os clientes se despachassem para dar lugar aos que na rua esperavam por lugar, a caldeirada estava um desastre.

Uma aguada amarelada repleta de batata (pouco saborosa, diga-se,  a receita pede batata “olho de perdiz”), 4 enguias, nenhum golpe de vinagre, nenhuma tira de pimento, um verdadeiro desconsolo!...

Tal como escreveu Saramago: deveria ter ido comer a outro lado.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Vasco Granja, em tempos de ditadura, foi um dos que lutaram pela liberdade.

Por essa luta foi perseguido, esteve preso nas masmorras da PIDE.

O livro, justíssima homenagem no centenário do nascimento de Vasco Granja, foi-me oferecido pelo Rui Ornelas, meu companheiro de luta, a viver no 4º andar direito.

Eu moro no 2º andar, também direito

Com o meu filho mais velho, após o 25 de Abril, assisti aos extraordinários, únicos, desenhos animados dos países ditos de leste, apresentados na televisão pelo Vasco Granja.

Como escreve sua filha Cecília Granja:

«Emergindo do interior das nossas memórias, parece que o estamos a ver, no pequeno ecrã a preto e branco, mais tarde a cores, numa qualquer tarde de sábado, aconchegados no sofá da nossa sala pequeno ecrã  a preto e branco».

Nos anos 50 Vasco Granja era militante do Partido Comunista Português, participa nas actividades clandestinas da célula dos partidos, organiza passeios culturais, convive com as populações camponesas e operárias, pinta palavras de ordem nos muros das ruas de Lisboa, distribui o jornal Avante e demais propaganda.

Este pormenor da vida de Vasco Granja, traz-me à memória que, já depois do 25 de Abril, às quintas-feiras, vendia o Avante na Estação de Comboios do Cais do Sodré e não raro me lembrava de O Rival, romance de Roger Vailland:


« Tem entrevista marcada? 

- Não.

- Então faça o favor de preencher uma ficha.

Mignot escreveu:

NOME: Fréderic Mignot

FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido Comunista Francês.

- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para escada.

Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.

- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a bater com força.

«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.

Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.

«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»

 

Vasco Granja, às quartas-feiras no República coordenava o suplemento Bastidores sobre cinema, banda desenhava, outras secções da cultura.

No Diário de Lisboa-Juvenil, para além da poesia, do conto, da fotografia, existia «Panorama», um registo de de recortes de jornal, de livros.

Numa dessas leituras dos Bastidores, encontrámos o artigo do escritor brasileiro Rubens F. Lucchetti com o título «As Histórias de Quadradinhos Criam o Hábito da Leitura» e comentámos:

A nota provocou uma polémica em que entraram, pela parte dos Bastidores: Vasco Granja, Lauro António, Vitor Silva Tavares, Jorge Silva Melo e um estudante, leitor do suplemento, de nome António Armando Costa que, entre outros disparates, que pouco, ou nada, tinham a ver com o assunto em discussão, sugeria ao Mário Castrim que nos expulsasse do Juvenil e intimava a que o tratássemos com dignidade que lhe era devida como universitário!!!

À parte de quem tinha razão sobre as tais histórias em quadrinhos, depois misturadas, desnecessariamente, com banda desenhada, eram tempos, apesar de todas as nuvens negras, bem interessantes.

Um gosto muito grande de lembrar Vasco Granja, um nome incontornável na nossa cultura, um lutador pela liberdade e pela Justiça.

OLHAR AS CAPAS

Vasco Granja

Edição comemorativa no centenário do nascimento

Prefácio e organização: Cecília Granja

Edições Avante, Lisboa Novembro de 2025

A 16 de Novembro de 1954, é detido pela PIDE na sequência da apresentação do filme italiano neo-realista O Caminho da Esperança de Pietro Germi (1950), exibido no cinema Capitólio. A detenção resulta de uma denúncia, pois a receita da sessão destinava-se a apoiar os movimentos de resistência antifascista e as famílias dos presos políticos. A PIDE invade a sala, bloqueia a entrada, apreende o dinheiro e identifica várias pessoas. 

NOTÍCIAS DO CIRCO

Um país destruído.

Sem sequer sabermos quando acabará o pesadelo.

Ainda por algum tempo se falará da demissão de Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna.

A todos os títulos interessante o artigo de opinião de Manuel Carvalho no Público: O que a demissão da ministra nos diz sobre a política

«Não se discute que a ministra não tinha condições mínimas para continuar, mas o momento em que escolheu demitir-se, em plena crise no Tejo ou no Mondego, prova que ela o fez tanto por falta de condições políticas como por desespero pessoal. O céu ficou escuro com tantos instintos necrófagos e ela não resistiu.
Custa a perceber por que foi convidada; e ainda mais por que aceitou. »

DÊEM-LHE O QUE PEDIR

Dêem-lhe o que pedir – a mão aberta como

uma ave deitada no seu peito, estancando a dor;

e beijos, muitos, pequenos goles de água na sua

boca triste. Levem-no para a luz e acendam

fogueiras nos seus olhos, pois esteve cego para

o amor. E cantem-lhe ao ouvido fados que o

tempo não possa desmentir, dêem-lhe o que pedir –

 

sol, uma razão, os vossos dedos mil vezes no seu

corpo, os meus dedos cortados par despertar

um sonho na sua pele. Rasguem-lhe as ligaduras

que nunca foram laços e livrem-no dos vermes

que pastam nas suas feridas. Deitem-no na neve

dos lençóis e encostem-lhe aos lábios bagas de

sumo vermelho, leite, e um pão que seja um seio

de mulher – o meu seio amputado, se ele o pedir.

 

Segurem-lhe o rosto com as mãos e soprem-lhe

os brancos do meio dos cabelos. Protejam-no

da escuridão absurda da noite roubando estrelas

e calem o silêncio chamando o seu nome

devagar. Porém, não o molestem nunca com

palavras – deixou a meio demasiados livros e

há-de morrer exausto do que não sabe; mas não,

não o deixem morrer mais uma vez, levem-no

convosco aonde forem e dêem-lhe o que pedir –

 

tempo, uma razão, o vosso riso explodindo

mil vezes nos seus lábios, as minhas lágrimas

cansadas para lavar a terra dos seus olhos. Não

o amem em vão, nem jurem amá-lo até ao fim,

porque, depois do fim, não saberão o que fazer de

tanto amor. Guardem-no, por isso, do bafo da

morte e dêem-lhe, simplesmente, o que pedir –

 

o vosso sangue mil vezes derramado nas suas

veias, o meu coração arrancado para lhe bater

no peito, a minha vida – sem ele ma pedir.

 

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

À LUPA

Carlos Moedas já tinha sido um mau presidente da Câmara de Lisboa contudo, nas últimas eleições, voltou a ganhar a Câmara, mas não conseguindo atingir a maioria.

O jornalista Samuel Alemão informa-nos, hoje, no Público que Carlos Moedas chegou a acordo, atribuindo-lhe pelouros, na área da saúde, desperdício alimentar, com Ana Simões Marques, ex-vereadora do Chega, que, em Janeiro, invocando “incompatibilidades políticas intransponíveis” com o chefe camarário «daquela coisa», disse não querer ser vereadora “meramente decorativa” e tornou-se vereadora independente.

Com um despudorado oportunismo, Carlos Moedas declarou à cidade que, com Ana Simões Marques, atingiu a ansiada maioria estável na Câmara.

Perente a notícia comentário de um leitor do Público: 

« E pronto, foi isto que Lisboa ganhou quando a vereadora da CDU não foi eleita por um voto. Perdeu-se a Ana Jara, alguém com uma reconhecida capacidade de trabalho e conhecimento dos problemas da cidade e capaz de confrontar Moedas, para eleger um capacho do presidente.»

O escritor Mário de Carvalho tem toda a razão: o povo não é sábio, ao contrário do que políticos de última gaveta, bastante medíocres, por aí dizem.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Maria Lúcia Amaral demite-se de ministra da Administração Interna.

Marcelo Rebelo de Sousa aceitou o pedido de demissão.

A ex-ministra disse a Luís Montenegro «já não ter as condições pessoais e políticas indispensáveis ao exercício do cargo».

Diga-se que nunca deveria ter aceite o cargo para o qual não tinha condições nenhumas.

Não existindo substituto, Montenegro assume a pasta.

O primeiro-ministro não tem condições para continuar a governar o país. 

Pela política neo-liberal, ou o que lhe quiserem chamar, pelos ministros que escolheu para o governo, pelo candidato a Presidente da República que entendeu apontar.

Um verdadeiro desastre.

É lamentável, mas teremos que ir novamente a eleições.

Talvez de pouco sirva, mas não se avista outra qualquer solução.

CASTELO DO BODE

Naquele verão fomos uma espécie de tribo.
À tarde, quando o sol ardia, a barragem era
o mundo inteiro feito de água, havia uma
jangada que avançava, lenta, por entre os
limos e nós éramos náufragos. Naquele verão
fizemos equipas e gincanas, bebi 12 colheres
de óleo de fígado de bacalhau – umas atrás
das outras – e apaixonei-me secretamente
por uma monitora que lia romances de
espionagem e passava tardes na esplanada a
beber ginger ale. Naquele verão as raparigas
ficaram belas e enigmáticas, assim de repente.
Dormiam nas tendas delas e nós, nas nossas,
adivinhávamos histórias para os sons da noite.
Naquele verão as coisas ficaram mais nítidas
E aprendemos que a adolescência é um território
confuso, um país a atravessas sem mapa de estradas.

 

José Mário Silva

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Quando havia antes um antigamente havia uma esperança.

António Ramos Rosa

Legenda: pintura de Cipriano Dourado

OLHAR AS CAPAS


Visão

Vários jornalistas em luta pelo direito a informar

Nº 1718

5/2 a 11/2/2026

Capa: André Carrilho

«O primeiro-ministro não se tem dado bem com as comunicações em tempos de tragédia e acaba por dizer as coisas erradas na hora errada. No mês passado, quando várias pessoas morrerem à espera de ambulância, chamou-lhe “percepção de caos”. Agora, depois de dar as condolências às “famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida” – como aquelas pessoas que se enganam e dão os parabéns num funeral -, acabou por dizer que “foi feito aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão atempadamente para enfrentar uma adversidade que não era antecipável por ninguém”. Mas foi antecipada, sim, a protecção civil até enviou SMS aos cidadãos. Talvez Leitão Amaro. Ministro da presidência, possa esclarecer melhor, ele que esteve de mangas arregaçadas num gabinete de crise a deixar-se filmar para as redes sociais.»

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


A minha primeira Gramática,  dita Elementar

1º Ciclo do Ensino Liceal

Autores: Felisberto Martins e José Gomes Branco

Aprovado oficialmente como livro único pelo «Ministério da Educação Nacional (Diário do Governo II Série, de 9-X-1953)

Preço: 12$50

A Livraria Sá da Costa tem à venda 1 exemplar desta Gramática 1.ª Edição Empresa Literária Fluminense. Lisboa, 1963 pelo preço de 20,00 euros.

Acabou de se imprimir nas Oficinas Gráficas de Livraria Cruz – Rua D. Diogo de Sousa, 127-133 em Braga no ano de 1956.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...

É uma constante dos dias, ouvirmos  que os jornais vão acabar.

Os tempos estão muito difíceis: quase ninguém compra, lê jornais. Está tudo na net.

No sábado, o tempo estava tempestuoso, e nos poucos quiosques que conseguir atingir, o Público já não havia.

- Eles mandam cada vez menos jornais…

Foi o que ouvi no último quiosque a que cheguei.

O recorte é do Diário de Notícias de 21 de Abril de 2018 e dava conta do fim de ciclo do Jornal do Fundão, um excelente jornal de província.

À LUPA

«Ventura ganhou nos países onde a emigração “é menos qualificada”, Seguro nos novos destinos

Tirando o caso da Alemanha, Ventura ganha nos destinos mais tradicionais, como França, Luxemburgo ou Suíça, que são os países onde a emigração portuguesa continua a ser menos qualificada.»

Rui Pena Pires, investigador, no Público 10 de Fevereiro

NOCTÍVAGA

Não esperem dos poetas mensagens a horas  
Não esperem dos poetas pedidos de desculpa   
Que não sejam, ao mesmo tempo, declarações de amor  
Com mais anexos do que a declaração de IRS  

Não esperem dos poetas sumo de fruta cortada na hora,   
com bastante gelo, e um relvado bem cortado,  
e umas unhas bem cortadas,   
e um coração bem cortado  

Para escrever poemas, é preciso ter o punhal de Caravaggio  
Encostado à língua: «Nem esperança, nem medo»  

Não esperem de um poeta que vos corte a língua   
O poeta quer ouvir tudo, apesar de tudo, e até de manhã   
Não esperem de um poeta que vos corte o coração  
Não sabe, não foi o poeta que cortou o dele   

Não calem o poeta, nunca calem o poeta   
Não há nada pior do que cortar a língua a um poeta     
Ele não se cala, fica tudo nos livros    

Quando não quiserem mais o poeta, devolvam-no    
Numa caixa forrada a alcatifa dos anos 70    
O poeta gosta da palavra alcatifa, apesar das alergias,    
e tem queda para se magoar a sério    
Cortem-lhe as unhas com os próprios dentes  
e, se não se importam, tirem-lhe o punhal     

Sejam amigos dos poetas     
Mesmo que a coisa fique difícil,     
mesmo que dê vontade de os encher de murros, ou de beijos       

Não esperem de um poeta uma amiga imaginária       

Esperem de um poeta uma cadela imaginária       
a que os vizinhos, por hábito, chamam            
noctívaga.

Filipa Leal

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O DIA SEGUINTE


Dias negros.

Continuam as intempérie provocadas pelas depressões Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, Marta.

Quem se seguirá?

Quase impossível trabalhar nas regiões que foram afectadas pelas depressões.

Dois dias sem olhar as pedras do Cais.

Apenas inquietação.

Somos o que somos, o que aceitamos ser, pouco ou nada do que deveríamos querer ser.

Que outras inquietações?

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A memória é outro mundo, com outras criaturas.

Teixeira de Pascoaes.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Foi necessário o país ser confrontado com a tragédia provocada pelas depressões que ainda não deixaram de aparecer, para se abrir a porta de entrada a trabalhadores imigrantes.

«A zona centro do país ficou devastada com a tempestade e não há trabalhadores suficientes sequer para ajudar a colocar lonas nos telhados. O pouco que se faz deve-se muito à entreajuda de vizinhos e à boa vontade de voluntários.»

É sobre esse problema que se debruça o editorial do Público de hoje, da autoria de  Helena Pereira e cujas palavras finais são estas:

«O país tem efectivamente um problema que só pode ser resolvido permitindo a entrada de mais cidadãos estrangeiros, por muito que custe ao Governo e à sua convivência política com o Chega. E nem sequer é um problema de difícil resolução. O Governo não pode ficar de braços cruzados.»

É um gravíssimo problema governar um país baseado em percepções! 

ALI ONDE SEM NOME A PÁTRIA

Ali onde sem nome a pátria escura

me repete onde nasce a Primavera,

ao silêncio do dia que não espera

eu dou a voz subitamente pura.

 

Horror que foge sempre e que perdura,

muro imortal amando a própria hera,

assim eu oiço o anjo além da fera,

suave luz queimando a noite dura.

 

Surge um fogo sem espanto, negro e alvo.

Dissolve‑se a montanha. Totalmente.

Alguém que me seguia já está salvo.

 

E fico só. E canto. E sigo em frente.

Ao fim da minha voz encontro o alvo

onde os deuses a ferem mortalmente.

 

20.2.1954

 

Alberto de Lacerda

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM

1.

Quando é que este mau tempo finalmente acaba?
Primeiro veio a depressão Ingrid, depois vieram as tempestades Joseph e a Kristin e, agora, estamos a braços com a chuva copiosa trazida pela Leonardo e já se anuncia a Marta – mas afinal quando é que este mau tempo vai ter fim em Portugal?

Prevê-se que melhoras de tempo que se vejam, apenas se verifiquem após o Carnaval, ou seja na última semana do mês de Fevereiro.

2.

Amanda Lima para o Diário de Notícias percorreu, após as tempestades, o interior da região de Leiria, e verificou que os habitantes continuam a sentir-se “esquecidos”: «Se falta energia elétrica, sinal de telefone e água, sobra solidariedade. Doações e voluntários chegam de todos os lados, mas a reconstrução ainda é longa».

3.

«Após a passagem da depressão Kristin, houve centros de saúde de Leiria que tiveram de fechar, não só pelos danos materiais, falta de energia e de água, mas também pela falta de profissionais, que tiveram também as suas casas destruídas, que tiveram de ficar com os filhos em casa, por não terem outra alternativa, as escolas fecharam, ou porque pura e simplesmente não conseguiam passar para chegar ao local de trabalho pelas estradas cortadas. Foi assim em Leiria como em outros locais da região centro e do oeste.

Mas, ao final da tarde de terça-feira, dia 3, os profissionais da Unidade Local de Saúde da Região de Leiria, que integra o Hospital de Santo André e centros de saúde dos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Porto de Mós, Pombal e Alcobaça ficaram a saber, através de uma circular informativa do Conselho de Administração, que as faltas teriam de ser justificadas, tendo que usar dias de férias ou horas da bolsa de compensação para não terem perda salarial.

Ana Mafalda Inácio no Diário de Notícias

4.

O especialista em proteção civil Duarte Caldeira considerou esta quinta-feira que a Proteção Civil comete os mesmos erros há 25 anos, estando as falhas "todas identificadas", e defendeu que a responsabilidade pela resposta à tempestade é nacional e local.

"A Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, no meu ponto de vista, falhou naquilo que falha normalmente sempre há 25 anos. Eu recordo-me, faz 25 anos, a queda da ponte Hintze Ribeiro [Entre-os-Rios]. Desde então, os nossos erros no sistema de proteção civil estão todos identificados e são todos decorrentes de uma praga nacional que é a ausência de vocação para o planeamento e para a ação", disse ao à agência Lusa o antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses e dirigente do Centro de Estudos e Intervenção em Proteção Civil.

5.

Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos, Pombal e Golegã avisaram a Comissão Nacional de Eleições que irão adiar a votação para a eleição presidencial, devido à situação de calamidade em que se encontram.

6.

A Autoeuropa interrompeu a produção nos turnos da noite de quarta a sexta-feira devido à falta de componentes por problemas abastecimento causados pelo mau tempo que assola o país.

7.

O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, adiantou que o Governo admite a entrada de mais imigrantes para garantir mão-de-obra na reconstrução das zonas afectadas pela tempestade Kristin, cujos prejuízos devem ultrapassar os quatro mil milhões de euros. O governante adiantou que as empresas de construção civil e obras públicas “estão disponíveis e interessadas em fazer o recrutamento de mão-de-obra do exterior”.

8.

Luís Montenegro falou ao país.

Puxou dos galões para mostrar o que está a implementar.

Esqueceu o que aconteceu nos primeiros dias da tragédia.

Para além de prolongar o estado de calamidade até 15 de Fevereiro revelou, numa clara cena de propaganda em que é especialista, que o apoio financeiro às famílias que perderam rendimento, no valor de 12.900 euros, vai chegar "no mais tardar até à próxima segunda-feira". Já as linhas de crédito para empresas, de 1.500 euros, "estão operacionais desde ontem", registando-se candidaturas de "825 empresas" para apoios de mais de "204 milhões de euros". E também os apoios aos agricultores estão "acessíveis", existindo agora "1100 candidatos" para ajudas de mais de 84 milhões.

Acentuou que a "rapidez" da resposta do Governo "não tem precedentes", algo que sublinha "para que se tenha dimensão da tarefa diante de nós". "Estamos mesmo a esgotar todas as nossas possibilidades para acorrer às necessidades" e destacou que o Conselho de Ministros aprovou um "regime excepcional para acelerar processos e decisões", que, salienta, "nunca foi experimentado". "São medidas temporárias, excepcionais para uma situação muito excepcional".

“O governo tem feito um esforço enorme para mobilizar todos os recursos.

Nós não vamos deixar ninguém para trás".

9.

Mário de Carvalho no Público

 “É um Governo que nasceu na precariedade e só sabe viver na precariedade.»

 

Fontes:

 

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

A TRETA MICHELIN


«Por regra, a essência do gosto da saudade está nas comidas de casa e da família. São as memórias dessas comidas que carregamos toda a vida e que vamos tentando passar às gerações seguintes.

Um conjunto de restaurantes pode colocar um país no mapa turístico. Porém não faz uma cozinha. Que receitas já saíram do espaço Michelin para o dia-a-dia dos povos? O melhor é darmos à cultura Michelin a importância merecida e que não é tanta como a que os chefes, críticos, influenciadores e políticos lhe atribuem»

Pedro Garcias de uma crónica no Público.