terça-feira, 4 de agosto de 2026

RETRATOS


«Há pessoas que gostam de livros. Há pessoas que vendem livros. Conheço uma única pessoa que, por amor deles, os vende, os edita, os coleciona, os lê e, coisa ainda mais incomum, não sendo rico os oferece àqueles que considera partilharem da sua paixão: chama-se José Ribeiro, José Antunes Ribeiro e tem a inocência generosa de um menino por baixo dos caracóis grisalhos, do sorriso largo, dos óculos quase tão transparentes como os olhos, do dedinho minucioso a inventariar lombadas. Fez a Assírio & Alvim, fez a Ulmeiro e tirando os momentos em que surge por acaso à superfície da terra, alegre de uma timidez enternecida, habita uma cavezinha de Benfica, três ou quatro compartimentos pequenos semelhantes a corredores, a copas, a casulos, a nichozitos de abelha onde o seu grande corpo se move numa agilidade insuspeitada entre páginas e páginas e páginas impressas, mostrando, procurando dando

- Tens isto?

- Conheces?

- Já leste?

no orgulho humilde, fraternal, de que a sua amizade é feita. Se não fosse o José Ribeiro detestava a Avenida do Uruguai.»

António Lobo Antunes em Livro de Crónicas, 1º volume, «Homenagem a José Ribeiro», página 357.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Um vagabundo perdido no meio de uma intelectualidade, em que a esmagadora maioria, não o quis compreender, aceitar.

Nos dias que correm, a Editora Tinta-da-China terá encetado um trabalho de trazer para a mesa, este quase desprezado Luiz Pacheco.

Começa a aprendizagem com a Antologia Ser Livre em Português.

A Biblioteca da Casa, em livros, em antologias, nos folhetos-dá-cá-vintes!, está bem representado, mas numa antologia, o caso de que temos vindo  a falar, há sempre qualquer coisa que vale a pena conferir e para quem ainda não o conhece, está aqui o melhor que Pacheco nos deixou e sabe-se que o filho Paulo, o Paulocas, tem em casa um baú como o do Fernando Pessoa.

Serenamente, vamos esperar.

OLHAR AS CAPAS


Ser Livre em Português

Uma Antologia

Luiz Pacheco

Edição: Rui Sousa e Sofia A. Carvalho

Com apoio è edição de Jessica Dias, Pedro Meneses e Sofia Casaleiro Roque

Capa: P. Serpa

Tinta-daChina, Lisboa Junho de 2026

Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem, casado. Lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.

EM CIMA DOS MEUS DIAS

Muita gente me tem falado a meu respeito
como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse
e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida
e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasse

Muita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece
e já nem sei ao certo quantos dias meço
Regresso com o gado contra o sol rasante
Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas
aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?

Os ciprestes os pássaros saúdam-me e eu passo
com um olho vasado transpareço o meu passado
e tudo esqueço e peço mesmo a Deus que esqueça quanto sou
além dessa medida simples onde me vasou
Sabermos nós que a face de algum mar ao pôr-do-sol pode mudar
e nenhum dia-a-dia consentir ao homem mais que a morna superfície
dos gestos por que troca a mais íntima morte que merece

Nada na minha poesia é meu
juro por Deus dizer toda a verdade
Ponho a mão na cabeça o dia é escuro e vago e eu respiro
Espero pela manhã como quem nasce
Ninguém sabe o meu nome porque
eu já perdi ao longe alguns dos olhos
e fui feliz em cafés de província onde me vi sentar

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum

É de manhã caminho nem meus passos oiço
oitenta passos diz-se que darei
Vão-se fechando os dois alinhamentos das moradas
arredonda-se o largo, alguns problemas camarários
Duvido de mim próprio: quem serei?
O carro rega coisas tão profundas como esta
Meu Deus meu Deus, que mal eu fiz?
Eu estive em Dinard e vou talvez casar
Acordo e transistorizo os dois ouvidos numa música abundante

Muita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e minguo certas vezes anoitece
Sou coisa que se molha encolhe e envelhece
tudo me aquece e tudo me arrefece
Dois pés e duas mãos, algumas pás de terra
E sabem mesmo que o meu nome é Rá, por isso me conhecem
Sou a doença e sou onde me dói
sou sítio onde se nega que se morre
Tem graça haver quem fale a meu respeito

Ruy Belo


segunda-feira, 3 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


 No devagar depressa dos tempos.

Guimarães Rosa

HABITAMOS AQUI

Habitamos aqui

há tão pouco tempo

e já a memória

nos serve de almofada.

 

Soubemos construir

os nossos móveis

da madeira melhor

que em nós guardávamos.

 

A chave roda

nos dedos da ternura.

Poupamos a manhã

que fecha a cicatriz.

 

Este lugar é nosso. Aqui

estudaremos lentamente

o que nos cerca e liga:

as próprias saliências do silêncio.

 

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha

domingo, 2 de agosto de 2026

VISITAS À LOJA FRENESI


JOÃO CÉSAR MONTEIRO
et alii
org. João Nicolau
grafismo de Rita Azevedo Gomes

Lisboa, 2005
Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
1.ª edição [única]
248 mm x 180 mm
640 págs.
profusamente ilustrado a negro e a cor
exemplar como novo
70,00 eur (IVA e portes incluídos)


pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089   [chamada para rede móvel nacional]

Nota do Editor:

Segundo informação da Cinemateca, o catálogo do João César Monteiro encontra-se esgotado. 

«Cin.Portugués / Realizadores JOÃO CÉSAR MONTEIRO 1ª Ed., Abr. 639 p. 460 fotos p/b e cor. Preço de Capa € 40,00. A personalidade e obra do cineasta. Estudos, depoimentos, análises de filmes, textos inéditos, recortes de imprensa e críticas. Filmografi a e fotografias. Entrevistas de João César Monteiro por Alexandra Carita, Adelino Tavares da Silva, António-Pedro Vasconcelos, Diogo Lopes, Emmanuel Burdeau, Jean A. Gili, Lauro António, Pierre Hodgson, Rodrigues da Silva. Organização João Nicolau. Textos Adriano Aprà, Ana Jotta, Bruno Roberti, Cláudia Teixeira, Dominique Païni, Edoardo Bruno, Fernando Cabral Martins, Fernando Lopes, Francisco Oliveira, Helena Domingos, Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, João Bénard da Costa, João César Monteiro, João Mário Grilo, João Nicolau, Joaquim Pinto, Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra, Luís Miguel Oliveira, Manoel de Oliveira, Manuel Gusmão, Manuel Mozos, Manuela de Freitas, Margarida Gil, Mário Barroso, Maria Andresen de Sousa, Maria Velho da Costa, Miguel Gomes, Otar Iosseliani, Paulo Branco, Philip Spinneli, Rita Azevedo Gomes, Rita Durão, Sérgio Antunes, Sidónio Paes, Thierry Jousse, Tonino de Bernardi, Vasco Pimentel, Victor Erice, Vítor Silva Tavares. Direcção Gráfica Rita Azevedo Gomes, Jorge Magalhães. » 

OLHARES


O fascínio de ver alguém a pescar na manhã de domingo.

Colocar o isco no anzol, lançar a linha e ficar à espera, olhando o horizonte, há-de sentir um puxão na cana, e talvez aconteça peixe.

Por vezes arriscam mais um passo e a tragédia acontece.

OS MEUS DOMINGOS


 «Aos domingos a seguir ao almoço visto o fato de treino roxo e verde e os sapatos de ténis azuis, a Fernanda veste o fato de treino roxo e verde e os sapatos de salto alto do casamento, subo o fecho éclair até ao pescoço e ponho o fio de ouro com a medalha por fora, a Fernanda sobe o fecho éclair até ao pescoço e põe os dois fios de ouro com a medalha e o colar da madrinha por fora, tiramos o Roberto Carlos do berço, metemos-lhe o laço de cetim branco na cabeça, saímos de Alverca, apanhamos os meus sogros em Santa Iria de Azóia e passamos o domingo no Centro Comercial.

A Fernanda senta-se atrás no Seat Ibiza, com o menino e a Dona Cinda, o senhor Borges ocupa o lugar ao meu lado, de Record no sovaco, fato completo, gravata de flores prateadas e chapéu tirolês, ajuda-me no estacionamento das Amoreiras a tirar o carrinho da mala e todos os automóveis do parque são Seat Ibiza, todos têm mantas alentejanas nos bancos, todos apresentam um autocolante no vidro que diz Não Me Siga Que Eu Ando Perdido, todos possuem uma rodela Vida Curta na guarda-lamas direito e uma rodela Vida Longa no guarda-lamas esquerdo, de todos os espelhos retrovisores se pendura o mesmo boneco de peluche, todos exibem junto à matrícula com o círculo de estrelinhas da Europa a mesma rapariga de Stetson e cabelo comprido, todos trouxeram o Record, os sogros e o filho, todos devem habitar em Alverca e todos circulam a tarde inteira no Centro de forma idêntica à nossa: adiante a Fernanda e a Dona Cinda, de

raposas acrílicas, a coxear por causa de uma unha encravada, empurrando o Roberto Carlos que esperneia, desfeito num berreiro, com a chupeta pendurada da nuca por uma corrente e o Senhor Borges e eu vinte metros atrás, preocupados com a carreira do Olivais e Moscavide que perdeu em Alhandra apesar de ter comprado um avançado cabo-verdiano ao Arrentela e que em vez de jogar à bola leva as noites a mariscar tremoços na cervejaria, de brinco na orelha, no meio dos amigos pretos, com o tampo da mesa coberto de canecas vazias.

Como a Fernanda e a Dona Cinda param em todas as montras de móveis e boutiques a bisbilhotarem quinanes e kispos, acontece enganar-me e trocá-las por outra sogra acrílica, outra mulher roxa e verde e outra criança de laço, e sucede-me passar horas num banco, sem dar pela diferença, com uma Fátima e uma Dona Deta, a planear as prestações de um microondas e de um frigorífico novo, seguir para Alverca, jantar o frango da Casa de Pasto e a garrafa de Sagres do costume, e só na terça-feira, quando vou a sair para a Junta, a minha esposa informa, envergonhada, que mora em Loures ou na Bobadela, o Roberto Carlos se chama Bruno Miguel, e deu pelo engano, há cinco minutos, porque a minha Última Ceia é de estanho e a dela de bronze. Claro que corrigimos o erro no domingo seguinte, em que volto para casa com uma Celeste e um Marco Paulo no Seat, a que juntei (será o meu Seat Ibiza?) um novo autocolante que deseja Espero Não Te Conhecer Por Acidente.

Esta semana a minha mulher chama-se Milá, o meu filho Jorge Fernando e ando a pagar um apartamento em Rio de Mouro. Como esta sempre cozinha melhor do que as outras não faço tenções de voltar às Amoreiras. Se ela gostar de telenovelas só tornamos a sair daqui a muitos anos, quando o miúdo usar um fato de treino roxo e verde, eu encontrar no armário do quarto um casaco de raposas acrílicas e um chapéu tirolês, e escutar lá em baixo, a seguir ao almoço, a buzina do Seat Ibiza da minha nora. Como nessa altura devo andar a dieta de sal por causa da tensão qualquer peixe grelhado me serve.»

António Lobo Antunes em Livro de Crónicas

MÚSICA PELA MANHÃ


Hoje, visitamos Paul Anka.

O velhíssimo EP, que ainda aqui anda pela casa, juntamente com outros sucessos de Paul, foi comprado em 1 de Fevereiro de 1960.

Colaboração de Aida Santos



sábado, 1 de agosto de 2026

SÍTIOS POR ELES ANDARAM


 

SECA ADEGAS

 

R. Sra. da Graça 1, 3500-399 Viseu.

Telefone: 918 618 909

Dizem o pior, dizem o melhor, eles gostaram bastante e entenderam o aviso:

«Restaurante com segmento de serviço exclusivo em carnes bovinas Nacionais zona Norte e importadas (Argentina, Uruguai e Australiana). Não usamos nem servimos qualquer tipo de carne Maturada.»

Fica-se a olhar a carne excelentemente grelhada e colocada em pedra, acompanhada com arroz de feijão e batatas fritas que não eram congeladas, também uma grande salada mista.

Façam uma visita e opinem.

Eles, sempre que por ali passem, voltarão.

Chamam-lhe restaurante, para eles é mais um tasco.

Legenda: a bonecada que se passeia por aqui, encontra-se na entrada.






QUOTIDIANOS

Estação do metro S. Sebastião.

Uma jovem no topo da escada, dois pombos na mesma escada, aguardando a abertura do El Corte Inglês.

Colaboração de Aida Santos

NEMÓRIA

Se algum dia tivesse de falar da memória, dar-lhe-ia uma cor. Branca, como a tela dos écrans, a margem dos livros, o olhar dos afogados. No seu vai e vem fulgurante, dar-me-ia a posse do território de ausência que é de todos o mais vasto. Aí encontraria de novo rostos, palavras, talvez mesmo nomes.

Pierre Kyria em A Morte Branca

MÚSICA

Houve tempos em que chegados a estes dias íamos buscar esta canção do Dino Meira.

Agora que tanto se diz mal dos trabalhadores migrantes de que necessitamos para os trabalhos duros, que ninguém quer fazer, lembramos os que emigrantes domos nos anos 50/60.

Colaboração de Aida Santos



sexta-feira, 31 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


E vou precisar de mais um whisky para tentar esquecer o peso demasiado simples das evidências.

Manuel de Freitas

OLHAR AS CAPAS


 A Morte Bateu à Porta

Rex Stout

Tradução: Maria Emília Ferros Moura

Capa: A. Pedro

Colecção Vampiro nº 402

Livros do Brasil, Lisboa s/d

O telefone tocou. Voltei-me e atendi.

- Residência de Nero Wolf…

- Daqui Saul, Archie. Estou…

- Um momento. – pouse o auscultador e passei ao hall e de pois à cozinha, só depois me predispondo a escutar.

-Temos companhia. Okay. Dispara.

- Vão ter mais companhia. Fui levado ao tapete. Encontrei a minha adversária. Julie Jaquette. Daria uma semana de salário para saber se você teria sido capaz de resolver a situação. O problema reside parcialmente no facto de Nero Wolfe ser uma celebridade, assim o afirma, mas o problema principal são as orquídea. Se lhes mostrar as orquídeas, está disposto a contar-lhe a contar-lhe tudo sobre Isabel Kerr. A mim não me confessa a ponta de um corno. Nada de nada.

- Bom, bom. Acho que me teria levado uns dez minutos.

- Vá-se lixar. Falei numa semana de salário. Ela…

- One está?

- Numa cabine pública em Christopher Street. A do Tem Little Indians estava ocupada. Está a trabalhar, Fica livre às oito e depois das nove e dez às dez e um quarto.

- Então é simples. Traga-a às nove e dez.

- Simples, uma ova! Ouviu-se um estalido e desligou.

NOIVA

Linda, como somente vós sabeis,

forte, como a esperança que em vós ponho,

alegre, como fostes, sois, sereis,

assim vos penso, assim vos recomponho,

curvada embora à vida e às suas leis

mas nunca libertada do meu sonho.

Fostes a noiva na manhã de Reis,

ainda hoje o sois nos versos que componho.

 

Leio Luís de Camões, o nosso poeta,

a suspirar do amor mais desgraçado

e a maldizer o dia em que nasceu.

 

Sobreponho-me à morte e à dor secreta,

o amor feliz, senhora, é o nosso fado,

cantá-lo, a chave do destino meu.

 

Odylo Costa, filho

quinta-feira, 30 de julho de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos. O diagnóstico é de James A. Robinson, Nobel da Economia, que, no estudo a que o JN teve acesso, deixa um aviso sério: sem reformas profundas, o país continuará a empobrecer face à Europa.»

Lido no Jornal de Notícias

OLHAR AS CAPAS


Quadras Populares

Fernando Pessoa

Selecção e introdução: Luísa Freire

Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 1999


Cantigas de portugueses

São como barcos no mar —

Vão de uma alma para outra

Com riscos de naufragar.

 

Todos os dias que passam

Sem passares por aqui

São dias que me desgraçam

Por me privarem de ti.


O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.

A abanar o fogareiro
Ela corou do calor.
Ah, quem a fará corar
De um outro modo melhor!

A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.

A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.

Ai, os pratos de arroz doce
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!

Tenho uma pena que escreve

Aquilo que eu sempre sinta.

Se é mentira, escreve leve.

Se é verdade, não tem tinta.


Saudades, só portugueses

Conseguem senti-las bem,

Porque têm essa palavra

Para dizer que as têm.

Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.


Rosmaninho que me deram,

Rosmaninho que darei,

Todo o mal que me fizeram

Será o bem que eu farei.

INFÂNCIA

Em Penamacor, podia tocar nas cabras e nas ovelhas dos rebanhos que passavam na rua. Eu estava convencida de que as cabras eram ásperas e as ovelhas macias. Toquei em cabras e em ovelhas. Era o contrário. As ovelhas eram ásperas e as cabras macias.

Li poemas meus na televisão quando tinha 11 anos. Foi a primeira vez que fui à televisão. Julgo que foi a 13 de Novembro de 1971. Na televisão deram-me um livro: Os Lusíadas de Luiz de Camões adaptação em prosa de João de Barros. Ainda hoje tenho esse livro.

Em criança, as pessoas em minha casa falavam muito da Avó Conceição. Gostavam muito dela. Era uma pessoa bondosa. Era minha bisavó. Não a conheci, morreu antes de eu nascer. Eu falava com ela para o Céu no telefone das bonecas. Sabia que estava morta e acreditava que estava no Céu. Não era uma brincadeira nem uma fantasia. Não falava com ela no telefone a sério. Ainda hoje sou assim. Ainda hoje faço coisas assim.

A Casimira era a empregada do consultório do meu Avô Raul. Vinha-nos visitar já muito velha. Parecia uma galinha de figo. Não estava boa da cabeça, dizia disparates e tinha visões. A Tia Paulina fazia troça da Casimira por ela estar maluca. A Tia Paulina também parecia uma galinha de figo.

Quando era pequena, batiam à campainha o cauteleiro que vendia o 13, o ceguinho que vendia sabonetes, a senhora que cheirava a chichi e que vendia agendas das missões, chamávamos-lhe a senhora do chichi ou a senhora dos rins. Não sei o nome dessas pessoas. Havia também o Sr. Amaro, que vendia ovos e queijos.

Em 1971 ou 1972, recebi um prémio literário. Foi uma bicicleta. O júri do prémio era a Fernanda de Castro. Eu tinha lido um romance dela de que tinha gostado muito, Maria da Lua. Fiquei muito contente com o prémio.

 

                                                                                                                                    30.3.13

Adília Lopes em Resumo: a poesia em 2013

quarta-feira, 29 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


A noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um útil e interessante documento sobre a censura em Portugal, publicado pelo Expresso e que assinala os 35 anos do nascimento do semanário.

A contra capa do livro assinala, quando o povo no 25 de Abril invadiu os escritórios da censura e destruíram documentos preciosíssimos sobre a nefasta censura.

A ignorância mata!

Em Portugal existiu censura: às imagens, às palavras, ao pensamento.

Em Novembro de 1945, Salazar disse:

«Declaro não ter nunca percebido esta incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga – e se descura completamente a higiene do espírito, não a aceitando para os baixos sentimentos?

Conheci a censura. Mas, não tendo gosto pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. Ainda há pouco toquei nesse terror quando reli Os Demónios – não Os Possessos – na tradução do António Pescada, a quem tão grata sou por me ter permitido ler sem desconfiança os meus romances russos. Está nele incluído o capítulo que Dostoievski se viu forçado a retirar aquando da publicação. Escreveu um outro, totalmente diferente. E a chave do enigma respeitante à personagem principal caiu no lodo. «Que nunca mais, que nunca mais isto aconteça», é o voto que faz qualquer leitor. E, no entanto, está a acontecer.

Não pela força de um poder instituído e frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado, igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma polícia da opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa.

Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte.»

Hélia Correia

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


 O Que a Censura Cortou

José Pedro Castanheira

Prefácio: Francisco Pinto Balsemão

Capa: Rui Guerra

Expresso, Lisboa Abril de 2009

“Politicamente só existe o que o público sabe que existe»

                    António de Oliveira Salazar, 1933

“Sem censura, o salazarismo não duraria um mês”

                     Mário Soares, 1972

RETRATOS


«Nunca me engano e raramente tenho dúvidas»

Cavaco Silva

Legenda: fotografia de Daniel Blaufuks

ISTO NÃO È UMA CRÓNICA, É UM VOTO DE INDIGNAÇÂO

«Não perdoo à Igreja nunca ter pedido perdão aos portugueses pela sua colaboração activa com a Ditadura e as iniquidades decorrentes dela, a sua total indulgência, desde a primeira hora, com a injustiça, a crueldade, a desigualdade, a intolerância, os campos de concentração, a monstruosa polícia política, a violência da censura, o desprezo pelas mulheres, a guerra colonial, a perseguição aos estudantes, aos operários, aos camponeses, a desavergonhada defesa dos 
ricos, as missas para as criadas, as homilias em que exortavam à obediência aos patrões, a violência para com os sacerdotes e os bispos que ousaram levantar-se contra o Estado Novo, a forma como abençoaram as centenas de milhares de rapazes mandados para África combater as aspirações dos povos colonizados, mandando capelães abençoar aquele horror, apoiar aquele horror, santificar aquele horror


(eu estava lá e vi)

em nome da luta contra o comunismo ateu, em nome da defesa dos valores cristãos, em nome da tolerância, em nome de Cristo. Porque carga de água não tem sequer a simples dignidade de pedir desculpa? Porque carga de água finge esquecer-se? Porque carga de água este silêncio? Eu sou cristão e aprendi a ser fiel até à morte como está escrito no Livro e pergunto: como tem coragem de tocar na Bíblia, como tem coragem de ser hipócrita para com o Senhor? O capelão do meu batalhão em África era um pobre jesuíta que se queixava das instruções que o obrigavam a fazer a apologia do colonialismo em nome do Deus e não tenho a menor dúvida que Jesus o cuspiu da Sua boca. Porque não pede perdão por ter afastado tanta gente da Virtude com as suas atitudes, as suas homilias, até com a utilização ignóbil das pobres crianças de Fátima a quem Nossa Senhora pediu em português

(que outra língua saberiam elas?)

para rezarem pela conversão da Rússia comunista, elas que nem sabiam o que comunismo queria dizer, manobradas sem vergonha pela hierarquia eclesiástica. O que terá sofrido o nosso capelão

(Tenho de fazer isto, tenho de fazer isto, dizia ele)

obrigado a louvar a guerra santa, obrigado a prometer o Paraíso aos nossos mortos, criaturas inocentes condenadas a dois anos e tal de um sofrimento injusto. E a Igreja, passados mais de quarenta, permanece em silêncio, completamente alheada da sua culpa. Isto entende-se? Isto aceita-se? Isto apaga-se? Claro que os filhos das classes altas não iam para a guerra. Conheço filhos dessas classes altas poupados a África com desculpas inacreditáveis. Conheço os seus nomes e conheço as desculpas, desde “incompatibilidade psicológica com o Exército” (posso citar nomes) até “incontinência urinária” (posso citar nomes), até “pé chato” (posso citar nomes), até classificações aldrabadas durante a especialidade (posso citar nomes), e é impossível que a Igreja não soubesse disto. Soube, claro, colaborou. E até hoje nenhuma voz oficial dela se ergueu, nenhuma voz oficial dela protestou, nenhuma voz oficial dela pediu perdão a Portugal, nenhuma voz oficial dela pediu perdão aos portugueses, nunca os sucessivos cardeais roçaram sequer este assunto quanto mais falar nele. Pelo contrário: abençoaram o Estado Novo que perseguiu os sacerdotes que ousaram, ainda que só timidamente, levantar a voz contra isto tudo. Perseguiram-nos, expulsaram-nos fizeram-lhes a vida negra. Nem disso a Igreja a que pertenço tem vergonha? Um bocadinho de vergonha ao menos? Limitou-se a arranjar bispos castrenses que aceitaram, apadrinharam, foram cúmplices desta situação. Não temos uma Igreja de Cristo, temos, sob muitos aspectos, uma Igreja hipócrita e complacente. Cristo não foi nunca hipócrita nem complacente: Porque é que a Igreja portuguesa o é? Tenho o maior orgulho no meu País, não tenho o menor orgulho nesta Igreja. Se Cristo aqui estivesse vomitá-la-ia da sua boca por não ser fria nem quente. Meu Deus será que nem arrependimento existe? Será que pensa que a memória dos homens é curta? Será que pensa que os portugueses esquecem? Será que não se importa de ser vendilhão do Templo? Será que acredita que vai ficar impune aos olhos do Senhor? Será que imagina que o Senhor não sabe? Será que toma Deus por parvo? Será que cuida que São Paulo, por exemplo, não a varreria? Onde estão as palavras do Senhor? Os Seus ensinamentos? 
O Seu exemplo? Ainda que em linguagem aparentemente críptica Cristo foi sempre muito claro. E quem quiser ouvir que oiça. A ditadura acabou em 1974, há quarenta e três anos portanto. E nem uma voz até hoje? Nem um simples pedido de perdão, nem uma confissão fácil

– Errei

não existe nenhuma humildade honesta neste silêncio, não existe o simples assumir de uma culpa, de um erro formidável, de um silêncio indecente. Dói-me na alma que a minha Igreja, o meu Deus sejam amesquinhados e esquecidos pelos que se dizem Seus filhos. Tenho vergonha. Tenho nojo. Tenho pena de vós que pagareis por isto. Será que um simples pedido de desculpa não alivia a alma? Parece que não. Por isso, quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. Quereria um Homem Justo. Um Homem Justo bastava-me. Onde, na hierarquia da Igreja, da minha pobre Igreja, ele estará?»

António Lobo Antunes, crónica publicada na Visão 8 de Junho de 2017