domingo, 16 de agosto de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ



Hoje, retiro da prateleira da Biblioteca/Discoteca da Casa um velho disco do Charles Dumont, quando se ouviam canções francesas…

Colaboração de Aida Santos




TRUMPALHADAS

«Assim que acabarmos de derrotar o Irão, que está a sofrer uma derrota esmagadora, vou declarar, muito em breve, o Estreito de Ormuz como território dos Estados Unidos da América.»

Donald Trump, ontem, ou hoje, ninguém sabe quando.

sábado, 15 de agosto de 2026

SOLTAS


«E o pior é pensar onde havemos de arranjar forças para no dia seguinte continuar a fazer o que fizemos na véspera e ainda em tantos outros dias já passados, onde encontraremos forças para tantas diligências imbecis, para mil e um projectos que não conduzem a nada, para as tentativas de vencer uma acabrunhante necessidade, tentativas que acabam sempre por abortar, e tudo isso para nos capacitarmos uma vez mais de que o destino é imutável e que o melhor é conformarmo-nos em ter de cair todas as noites da muralha abaixo, sob a angústia desse dia seguinte, sempre mais instável e sórdido.

É talvez a idade que surge, traidora e nos ameaça com o pior. Já não existe dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está. Toda a juventude nos abandonou para ir morrer no fim do mundo, num silêncio de verdade. Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma bastante de delírio. A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a morte. Precisamos escolher: mentir ou morrer. E eu nunca consegui matar-me.»


Céline em Viagem ao Fim da Noite

1.

«Quatro em cada dez jovens de 18 anos passam pelo menos cinco horas por dia na Internet
Em Portugal, quatro em cada dez jovens de 18 anos dizem passar pelo menos cinco horas por dia na Internet, cerca de um terço do tempo em que estão acordados. O tempo de utilização tem vindo a aumentar ao longo da última década.»


Público, 15 de Agosto


2.

«Onde havia duas salas de cinema no estádio do Sporting, agora vêem-se jogos num lounge
O Sporting Clube de Portugal, proprietário do centro comercial Alvaláxia onde em Janeiro encerraram 12 salas de cinema, está já a usar duas dessas salas para exibição de jogos e espaço
lounge, ainda que sem aprovação de um pedido de desafectação dos espaços à exibição de cinema, obrigatório por lei. As outras dez salas estão totalmente vazias. Porém, a Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) está a “acompanhar” a transformação das duas salas já em novas funções, disse ao PÚBLICO fonte oficial do clube, e algo confirmado pela IGAC aos grupos de moradores que contestam o fim do cinema nos seus bairros.»

Público, 15 de Agosto.

3.

Menor confessou ter assassinado com golpe mata-leão na quarta-feira e só deu o alerta 21 horas depois. Menina de 4 anos, filha da vítima e irmã do suspeito, estava também na habitação.

Legenda: fotografia de Luís Eme

CRONICANDO POR AÍ

O Homem que lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no Público:


«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro. A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela actualidade, pelos rumores do dia.


Claro que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância, por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto vertical que não tem fim: o scrolling.

A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das “manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã, sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública racional, de um espaço público.

Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida cívica, política e cultural.

Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”, encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de “imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço. E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração daquilo a que Yves Citton  chamou médiarchie, “mediarquia”.

É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de transição.»


MÚSICA PELA MANHÃ


Ainda por Agosto fazemos uma outra visita aos Clássicos do Meu Pai que, diga-se não constavam apenas de Música Clássica, também algumas canções ligeiras de que muito gostava, como é o caso de Release me e a versão de que mais gostava era do velho Dino.

Recordemos:

«Sempre gostei de Dean Martin, o velho Dino, mesmo quando fazia de canastrão nos filmes com o Jerry Lewis.

Terei comprado este “EP” por volta de 1968.

Para além de “Chapel In The Moonlight, Little Ole Wine Drinker, Me, The Green, Green Grass of Home”, tem “Release Me”.

O meu pai adorava esta canção.

 Não há vez alguma que a Aida a ouça, que de imediato não se lembre do meu pai.

Era um excelente contador de histórias e, nas sessões de audição de música, dita ligeira, aproveitava para as contar.

Umas verídicas, outras imaginadas, outras, enfim, não se sabe bem como.

Esta é uma dessas histórias:

O velho morrera.

A família reunida na biblioteca, ouviu o advogado enumerar a relação dos bens legados.

À medida que a leitura avançava a boca dos familiares ia tomando a aforma e o tamanho de um enorme “Ah!”

-  papel e canetas para os que nunca lhe escreveram;

- tesouras de poda e mangueiras de rega para os que sempre desprezaram as suas rosas e   

  orquídeas;

- fósforos, cinzeiros e caixas de charutos para os que se irritavam e ficavam agoniados

  cada vez que puxava de um dos seus esplêndidos “Cohiba”;

 - o resto, que era tudo, para a governanta que lhe servia conhaque nas noites de Inverno.»






OLHAR AS CAPAS

Comes e Bebes

Quino

Capa: Fernando Felgueiras

Colecção: Humor Com Humor se Paga n º 3

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 1982



HOTÍCIAS DO CIRCO

Ontem, no colorido Algarve, Luís Montenegro fez a apresentação política futura aos seus apoiantes, talvez ao país.

Contudo, o Luís, que exige que o deixem trabalhar, não tinha nada para dizer.

 O trabalho esvaiu-se nas areias do oásis em que Luís Montenegro e os seus sorridentes comparsas, dizem que se vive.

Que mais nos poderá acontecer?

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

RETRATOS


 

RETRATO DE MANUEL DA FONSECA

 

Eram campos   campos   campos

abertos de humanidade

era um vento que rasgava

apenas a claridade.

 

Eram palavras jorrando

de um olhar de escaravelho

era um homem inventado

a grandeza de ser velho.

 

Era terra   fome   sede

urze   tojo   trigo   vinho

alcateia   e   almocreve

alfazema   e   rosmaninho.

 

Era um fogo aprisionado

uma explosão de romãs.

Era um menino alumbrado

entre as pernas da manhã.

 

José Carlos Ary dos Santos em Fotos-Grafias

OLHAR AS CAPAS

Fado

José Régio

Ilustrações de Stuart Carvalhais

Capa: João da Câmara Leme

Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1969

 

Fado Alentejano

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Pátria que à força escolhi!

Quando cheguei quis-te mal,

Alentejo –ai- solidão...

Julguei eu que te quis mal,

Chegava do vendaval,

Tão cego que nem te vi!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Adro de melancolia!

Tua tristeza me pesa,

Alentejo –ai- solidão...

Quanto às vezes me não pesa,

Mas fora dessa tristeza,

Pesa-me toda a alegria!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Meu Norte-Sul- Este Oeste!

Voltei ferido da guerra,

Alentejo –ai- solidão...

Faminto voltei da guerra,

Mendiguei de terra em terra,

Esmola só tu ma deste!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão, ai Alentejo,

Oceano de ondas de oiro!

Tinhas um tesouro perdido,

Alentejo –ai- solidão...

Que eu já dera por perdido,

Nos teus ermos escondidos,

Vim achar o meu tesoiro!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Convento de céu aberto!

Nos teus claustros me fiz monge,

Alentejo –ai- solidão...

Em ti por ti me fiz monge,

Perdeu-se a terra ao longe,

Chegou-se –me o céu mais perto!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Padre nosso dos infelizes!

Vim coberto de cadeias,

Alentejo –ai- solidão...

Coberto de vis cadeias,

Mas com estas com que me enleias,

Deram-me asas e raízes!

DA SOLIDÃO DA LUZ

A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –
 
Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.
 
Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.
 
Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror
 
À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.
 
Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportando e oscilando em paz.
 
Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?
 
E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.

Ana Luísa Amaral

 

 

 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A morte essa é um maravilhoso número indivisível.

Alexandre Pinheiro Torres

O QUE A CENSURA CORTOU


 

Um livro que se encontra no Outro Lado das Estantes, que apresentámos en  29 de Julho, irá servir-nos para reproduzir alguns cortes que um conjunto de censores-militares-analfabetos exerceram no jornal Expresso, bem como em outros jornais portugueses.

OLHARES


O Sol, no dia em que, por breves instantes, a Lua o escondeu, deixou-nos às 20h34m.

Legenda: fotografia tirada do sítio do costume. 

O OUTRO LADO DAS CAPAS


João Carlos Raposo Nunes, nasceu em Lisboa, em 1955 é livreiro e alfarrabista na baixa de Setúbal, perto da Câmara Municipal.

O Raposão passou a ser um dos comparsas do Luiz Pacheco e que amiúde lhe mandou, durante 13 anos bilhetes-postais, cartas, o que calhava.

Convém lembrar, se há escriba que deram largo trabalho aos Correios portugueses, Luiz Pacheco está em lugar de topo.

Segundo João Pedro George, Luiz Pacheco sofria «de compulsão epistolar.»

O próprio Pacheco escreveu:
«No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo».

Postal de Pacheco para o poeta Zé Gomes Ferreira em 14 de Abril de 1968:

«Chego a Lisboa de Albarraque e encontro um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz Pacheco a pedir-me 50 escudos.

«Encontro-me numa fase em que não me repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome. Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao Queneau.»

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Temos, pois, mais um livro de cartas do Pacheco.

Talvez coisas banais mas, acima de tudo o livro vale pelo prefácio e as notas do António Cândido Franco. 

OLHAR AS CAPAS


Cartas ao Léu

Luiz Pacheco

Correspondência de Luiz Pacheco

Para João Carlos Raposo Nunes

(1990-2003)

Edição: António Cândido Franco

Capa: Luís Henriques

Maldoror, Lisboa, Junho de 2020


2º feira, 11 de Novembro 2002

Dia de S. Martinho!


Meu caro Raposão

És capaz de já saber. No dia 23 deste mês, um sábado, é lançado aqui na Livraria Ler Devagar, no bairro Alto, um livrinho meu, um conto de Natal. Gostava que viesses. A distribuição é da Editorial Notícias. Tens crédito lá? Para mim é uma ALEGRIA. O Carlos Curto organiza uma Performance, com o actor João LAGARTO; é um BOM actor, conheço da televisão. Eu andava à rasca e talvez assim equilibre as finanças.

Esteve aqui um velho Amigo meu que mora ao lado do teu pai, na Graça. É o Benjamim Monteiro, ilusionista e grande

PÂNDEGO

Ele falou com o teu Pai. Vou escrever-lhe para ele assistir ao lançamento.

Aquele MARAU do Capêlo tem aparecido? O Carlos Dutra contou-me uma cégada em Évora com ele e com o escritor que é irmão do Orlando Vitorino (ou estarei enganado? o Telmo.

Aparece

Abraços castos do

Luiz Pacheco

APOCALIPSE

Enquanto o sol arrefece

Aproveitemos o tempo,

Pois nem sempre o que acontece

Muda o sentido do vento.

 

Abraçamos – de mãos postas –

A esperança da redenção,

Mas se há vento pelas costas

Mudamos de direcção…

 

Espada de ferro temperado

As limalhas no cinzeiro,

Como o vento moderado

Pode atrasar um veleiro…

 

A Terra tem duração,

Como embalagem perdida,

O nosso mundo é balão

Ameaçando descida…

 

Não te detenhas e esquece

O peso desta ameaça,

Enquanto o sol arrefece,

Fica no tempo que passa!

             Lisboa, 24 de Janeiro de 1997

Henrique Segurado em Resumo: a poesia em 2012

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Um livreiro é alguém que tem de ser um bom leitor antes de tudo, tem de ter alguma cultura e sabendo que é uma profissão para empobrecer alegremente. É alguém que acredita que um mundo sem livros seria um mundo muito mais pobre.

José Antunes Ribeiro

Legenda: cena do filme What´s New Pussycat? De Clive e Donner, 1965, com Woody Allen e Romy Schneider.

AO CAIR DO PANO

 

Tanta gente para, ao longo do país, olharem a lua tapar o sol.

A Maria Judite de Carvalho, num dos seus livros, diz: «Todos estamos sozinhos, Mariana; Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.».

As televisões, com a mediocridade, a banalidade habituais, com que abordam tudo o que tocam, ocuparam todo o tempo, do antes e do depois, do eclipse do sol.

cmtv colocou em «alerta»: «o eclipse está a fascinar os portugueses».

Algures, um português diz ao repórter: «a graça disto, deixa um gajo maravilhado!»

O primeiro-ministro, ainda antes do eclipse, afirmou, em Cascais, aos jornalistas:

«O governo trabalha todos os dias, 24 horas por dia, sete dias por semana", deixando ainda um pedido, uma reflexão à comunicação social sobre as suas prioridades.

E, ternamente, voltei a ouvir falar de Rio de Onor, uma aldeia com 43 habitantes, que recebeu centenas de visitantes, pois era aí que o eclipse se mostraria a 100%.

À LUPA

«Além de ser uma notícia com carga emocional positiva, é um fenómeno irrepetível para muitos de nós, pelo menos em Portugal: o último (total) foi em 1912- e o próximo será em 2144. A excepção são os caçadores de eclipses, que andam pelo mundo à procura de ver a Lua ensombrar o Sol: alguns podem ficar-se apenas pela Península Ibérica (caçadores parciais) e terão a sorte de poder assistir a três entre 2026 e 2028 — e temos alguns desses nesta redacção.

A corrida aos óculos, que a 24 horas do eclipse surgiam à venda com preços que iam dos 10 aos 100 euros em plataformas de revenda online, comprova que há um certo fascínio na escassez e que fenómenos destes são imperdíveis.

Logo à tarde, haverá milhares, quiçá milhões, de telemóveis apontados ao céu. Teremos apenas 20 segundos, um minuto ou quase dois de eclipse total, consoante o sítio onde estivermos. Numa altura em que fotografamos tudo aquilo que receamos esquecer, do mais banal prato de comida ao nascimento de um filho, deixo-vos um dilema muito contemporâneo: quanto desse (breve) tempo queremos passar a olhar para um ecrã?»

Do editorial de Sónia Sapage  no Público de hoje

CRONICANDO POR AÍ

 

Writer's block issues out of fear

– but of what?

Dawn Raffel,

The Truth about Writer’s Block

«Li no Público um conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher) continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer sentido em começar o dia.”

Enquanto reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”), confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe, felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido: a escrita da poesia.

Eu sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas, depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a minha vida e os meus projetos.

Nada há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...

Não sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na sua Metafísica, estabelece que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida, do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.

O vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou, nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.

Então será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.»

Luís Filipe Castro Mendes, crónica no Diário de Notícias

QUOTIDIANOS

Discussão entre vendedores de louro prensado na Baixa de Lisboa, acaba com homem a puxar de pistola e atirar contra rival. Falhou o alvo, mas acertou numa mulher sueca que estava a comprar pastéis de nata.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Um velho recorte de uma crónica de António Guerreiro publicada no Público de

10 de Setembro de 2021

DE UMA PARAGEM A OUTRA

Quando me sentei na mesma mesa de café

em que o pessoa tomava café, no martinho da arcada,

e o eléctrico que passava era oi mesmo

que ele apanhava para ir trabalhar, tinha

uma dúvida se não tivesse com ele algum papel

para escrever o poema que tinha na cabeça,

conseguiria escrevê-lo no bilhete, parindo

do princípio de que se consegue meter num bilhete

de eléctrico, uma ode, mesmo que não seja

tão triunfal como a outra? E apanhei o mesmo

eléctrico que ele, embora não tivesse

a certeza de que me estava a sentar

no mesmo banco em que ele se sentava,

e comecei a escrever nas costas do bilhete

uma ode inteira:

Um poema não precisa

de caber num bilhete, se um bilhete

nos levar para o poema.

Na realidade,

a ode coube no bilhete, só não sei

se o bilhete chegou para me levar

onde eu queria.


Nuno Júdice em Primeiro Poema

terça-feira, 11 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO



 

Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas.

Sérgio Godinho

Legenda: pintura de Georg Schrimpf

TRUMPALHADAS

Soube-se agora.

Donald Trump, o presidente do país mais poderoso do mundo, depois da cimeira da NATO, no mês passado, saiu de Ancara num avião secreto, numa operação simulada e desencadeada por uma alegada ameaça de assassinato por parte do Irão, avança o The Washington Post.

De acordo com informações avançadas pelo jornal norte-americano, a operação envolveu três aeronaves diferentes. Donald Trump embarcou em Ancara, para seguir para Mildenhall, no Reino Unido, num primeiro momento e diante das câmaras, no avião Air Force One, tendo depois sido transportado para uma outra aeronave militar secreta - um Boeing 757. O presidente dos EUA foi levado até à aeronave num camião de catering, geralmente utilizado para transporte e serviços de alimentação.

Ao mesmo tempo, jornalistas e funcionários da Casa Branca também embarcaram no Air Force One, acreditando que Donald Trump estava a bordo. Relatos apontam que os passageiros foram previamente instruídos a baixar as persianas das janelas. Depois de chegar a Mildenhall, como previsto, os fotógrafos registaram imagens de Trump a desembarcar do avião presidencial, sugerindo que reembarcou no Air Force One fora da vista do grupo de jornalistas que pensavam estar a viajar com ele. Em declarações aos jornalistas, Trump referiu a ameaça iraniana, mas não mencionou a troca de aviões.

Após a breve visita à base em Mildenhall, Trump embarcou no novo Air Force One para seguir viagem até Washington.

Quando questionado sobre as ameaças do Irão, Trump respondeu: "Bem, recebo ameaças a toda a hora. Sou o número um na lista deles, antes de vocês", disse.

Com Donald Trump tudo pode acontecer!