terça-feira, 5 de maio de 2026

CONVERSANDO


Lembrar que, 3 vezes por semana, ás vezes mais porque eles comiam vorazmente, ia de casa até perto do Cine-Oriente buscar folhas de uma enorme amoreira que, por ali existia, para alimentar os meus bichos-da-seda.

Os miúdos, hoje em dia, de volta dos seus, ou alheios, telemóveis sabem lá o que são bichos-da-seda, tê-los em casa, assistir ao evoluir até aos casulos que metia numa caixa de sapatos que guardava na despensa.

Diz a Wikipésia que:

Os bichos-da-seda nascem geralmente no início da Primavera (por volta de Abril), coincidindo com o aparecimento das primeiras folhas da amoreira, que servem de alimento. Em regiões mais quentes, a eclosão pode estender-se até maio ou junho. 

Não que Patti Smith fale de bichos-da-seda no seu Pão de Anjos, mas pelas muitas memórias da infância que ela transporta para o livro: «Deus sussurra através de uma prega no papel de parede, uma gota de água a estalar como uma equação. A luz cai na floresta. Um ancião sentado num barril canta Encontrei uma moeda de ouro num campo, quem ma trocará» Uma criança responde-lhe. Talvez a minha boneca quando a encontrar. Ela tem uma mala cheia de moedas», lembrei-me dos meus bichos-da-seda.

OLHAR AS CAPAS


O Falcão de Malta

Dashiel Hammett

Tradução: Helena Domingos

Capa: João Botelho

A Regra do Jogo Edições, Lisboa Setembro de 1970

O maxilar de Samuel Spade era comprido e ossudo, o queixo era um V saliente e sob o V mais flexível da boca. As narinas desciam recortando outro V mais pequeno. Os olhos cinzentos amarelados abriam-se horizontalmente. Espessas sobrancelhas que emergiam de duas rugas paralelas ao cimo de um nariz adunco formavam novo V e o cabelo castanho adensava-se, a partir de têmporas altas e lisas, no cimo da testa. Tinha o ar agradável de um demónio loiro.

TEU ROSTO

Uma mão – de quem?,

a pele azul, as unhas vermelhas,

segura uma paleta.

Quero ser uma cara, diz a paleta.

E a mão converte-se em espelho

e no espelho aparecem teus olhos

e teus olhos tornam-se árvores, nuvens, colinas.

Um carreiro serpeia entre a fila dupla

das insinuações e alusões.

Por esse carreiro chego à tua boca,

fonte de verdades recém-nascidas.

 

Octavio Paz

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Será tempo de dizer que gosto mais da escrita de Patti Smith do que das suas músicas, canções.

Suponho que isto deverá incomodar algumas gentes mas é o que me ocorre e cada vez, à medida que a velhice avança, estou mais surdo, mais dado a disparatar.

Mas é a própria Patti Smith que, numa entrevista disse: «reafirmei para mim mesma o desejo de escrever — mais do que cantar, gravar, fazer shows. Ser uma escritora é a coisa mais importante para mim. É o que me dá mais prazer e, também, me exige mais esforço.»

O último livro de Patti Smith é, como os anteriores, uma viagem pelas memórias de toda uma vida. 

 «Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial».

Uma outra citação:

«Com a minha mãe e o meu pai a trabalhar e os meus irmãos longe, ficava deitada sozinha com os meus livros, bem aconchegada, a telefonia sintonizada na estação de música clássica que o meu pai preferia. Por vezes, ouvia alguma coisa que me enchia de uma emoção sem nome. Certa manhã, ouvi uma voz tão bela que me senti transportada para outro reino. Anotei o nome da canção, uma ária da Madame Butterfly, e escutava atentamente a telefonia, na esperança de tornar a ouvi-la.»

O livro, citado na badana, tem um feitiço poderoso, escreveu um crítico no The Guardian e eu apresso-me a concordar.

OLHAR AS CAPAS


Pão de Anjos

Patti Smith

Tradução: João Pedro Vala

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Abril de 2026

Que valor tem o sangue em comparação com as necessidades de uma criança faminta? Onde se situam os nossos esforços na balança do valor? O pergaminho desenrola-se, os anjos guiam a minha pequena barcaça. Arrasto uma rede e retiro o casaco descartado, a pele, os amores, células moribundas das marés do corpo de água. Vejo-me na tal varanda do Hotel Suisse, uma simples escritora de férias, vestida de branco, a contemplar fixamente uma mancha triangular no centro da baía. A vaga comichão regressa. O que devo escrever e juntar? Prometo ser boa. Escreverei sobre uma rapariga que encontra um pequeno espelho de mão pousado na relva. Gesticula na direcção dessa mancha, tão distante porém tão próxima. Saltita alegremente, suspensa no ar, e depois aterra, de braços estendidos. Bem-vinda, bossa rebelde, grita ela. Eu sou tu.

À LUPA

A pesca da sardinha reabre hoje após quase cinco meses encerrada, mas com um limite de 33.446 toneladas para a frota portuguesa, confirmou o Ministério da Agricultura e Mar. 

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Cada vez que o Estado falha, faz um plano. Cada vez que esse plano falha, faz outro plano. Quando esse falha, faz-se um plano para coordenar os planos anteriores. Uma matrioska de planos.»

Mariana Leitão, líder parlamentar da Direita Liberal sobre o PTRR.

QUANDO CHEGASTE

Quando chegaste, eu já tinha a morte

dentro do meu sono; e só por isso não

sentia a pedra do coração nem o corpo

quase tão frio. Tu não notaste

 

que os corvos negros carpiam já sobre

o meu telhado – e ninguém te disse que

eu estava a morrer, porque só eu sabia

que desistir é coisa de um momento.

 

Juram, porém, que ouviste o sangue

cansar-se nas minhas veias e as larvas

estrebucharem rente à terra; e que então

afirmaste, sem dominar um grito, que o

quarto te cheirava absurdamente a flores.

 

Não me contaram se chamaste por mim,

Se pela morte. Mas fui eu que acordei.


Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

domingo, 3 de maio de 2026

REOLHARES


Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.

Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.


Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.

CÂNDIDO MOTA (1943-2026)


Morreu Cândido Mota, radialista, actor de teatro.

MÚSICA PELA MANHÃ

Milhares de mães não desculpam a Igreja por ter passado o Dia da Mãe  de 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição, para o primeiro domingo de Maio.

Segundo o Instituto Nacional de Estatistica, o número de crianças nascidas em Portugal aumentou 3,7% no ano passado, para 87.764, sendo que cerca de um terço dos bebés são filhos de mães estrangeiras. anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Legenda: pintura de Giuseppe Zocchi.





sábado, 2 de maio de 2026

NORMALMENTE, O POVO VOTA MAL

 «O meu ponto é apenas chamar a atenção para um facto chocante. Há quatro anos, convocados a escolher entre Montenegro e Moreira da Silva para liderar o PSD, 26.975 militantes não hesitaram e votaram massivamente no agora primeiro-ministro. O resultado foi claro: 72,5% para Montenegro e uns curtos 27,5% para Moreira da Silva.

Há um fosso que separa Moreira da Silva de Montenegro: um tem carreira profissional, percurso internacional (na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico e, agora, na Organização das Nações Unidas) e experiência governativa; o outro tem um passado apenas tribunício, complementado, sabemos agora, pela promoção de uma empresa familiar com uma carteira de clientes intimamente ligada ao seu percurso partidário regional.

Porque escolheram, então, os militantes do PSD Montenegro? Não foi certamente por questões de posicionamento ideológico: Montenegro opunha-se a Rio, mas escolheu para coordenar a sua moção o autor da moção do anterior líder, o agora ministro Miranda Sarmento. Os motivos são outros. No que é uma lei de ferro, os partidos de poder fecharam-se, desligaram-se da sociedade, não estão interessados em líderes com percursos autónomos, e os critérios que organizam as escolhas internas dependem de uma teia de cumplicidades irrelevante — quando não perniciosa — para a governação, mas decisiva para conquistar o aparelho.

O desfecho não poderia ser outro: entre Moreira da Silva e Montenegro, a escolha foi clara. Não surpreende, depois, que os resultados sejam os que se veem — sobre Gaza, sobre Trump e Putin, e na governação do país.
»

Pedro Adão e Silva no Público

MÚSICA PELA MANHÃ


Que música para amanhã de hoje?

Será Bella Ciao, ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda

Conta a Wikipédia:

«"Bella Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»

 A provável letra original da canção tem como tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:

Stamattina mi sono alzato, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, stamattina mi sono alzato,

ho trovato I'invasor!

A lavorare laggiù in risaia

Sotto il sol che picchia giù!

E tra gli insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, e tra gli insetti e le zanzare,

duro lavoro mi tocca far!

Il capo in piedi col suo bastone, o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, il capo in piedi col suo bastone

E noi curve a lavorar!

Lavoro infame, per pochi soldi, o bella ciao bella ciao

Bella ciao ciao ciao, lavoro infame per pochi soldi

E la tua vita a consumar!

Ma verrà il giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao

Bella ciao ciao ciao, ma verrà il giorno che tutte quante

Lavoreremo in libertà! 


Tradução em português


Esta manhã, eu me levantei, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida, esta manhã, eu me levantei

 

e encontrei um invasor!

 

Para trabalhar lá no arrozal, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal

 

Sob o sol que nos derruba!

 

E entre os insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,

 

Um trabalho pesado que tenho que fazer!

 

O chefe está de pé com uma vara, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! O chefe está de pé com uma vara

 

E nós curvados a trabalhar!

 

Trabalhe infame, por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro

 

E tua vida a consumir!

 

Mas chegará o dia em que todos, adeus querida, adeus querida

 

Adeus, adeus, adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,

 

trabalharemos em liberdade!


A versão partigiana

Stamattina mi sono alzato,

 

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Stamattina mi sono alzato,

ed ho trovato l'invasor.

O partigiano, portami via,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

O partigiano, portami via,

ché mi sento di morir.

Se io muoio da partigiano,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

Se io muoio da partigiano,

tu mi devi seppellir.

E seppellire sulla montagna,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

E seppellire sulla montagna,

sotto l'ombra di un bel fior.

E le genti che passeranno,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

E le genti che passeranno,

Ti diranno «Che bel fior!»

«Questo fiore del partigiano»,

o bella, ciao! bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!

«Questo fiore del partigiano,

morto per la libertà!»


Tradução em português


Nesta tradução, a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe a um invasor externo ou a um exército de ocupação.

 

Acordei de manhã

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

Acordei de manhã

E deparei-me com o invasor

Ó resistente, leva-me embora

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

Ó resistente, leva-me embora

Porque sinto a morte a chegar.

E se eu morrer como resistente

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E se eu morrer como resistente

Tu deves sepultar-me

E sepultar-me na montanha

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E sepultar-me na montanha

Sob a sombra de uma linda flor

E as pessoas que passarem

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

E as pessoas que passarem

Irão dizer-me: «Que flor tão linda!»

É esta a flor do homem da Resistência

Minha querida, adeus, minha querida, adeus, minha querida, adeus! Adeus! Adeus!

É esta a flor do homem da Resistência

Que morreu pela liberdade



sexta-feira, 1 de maio de 2026

REOLHARES



OS MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE


Se agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25 não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de Maio.

Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer - obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava. Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.

Já foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores querem voltar e pedem amnistia,

Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.

Neste dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar. Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o

assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.

Que ao longo deste texto são relembrados.

Faltava um ano para Grande Festa.

1º DE MAIO À MINHA MANEIRA


De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

Legenda: Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.


José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

quinta-feira, 30 de abril de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO

O povo e os trabalhadores sobrevivem apertados pela inflação e o custo de vida.

Luís Montenegro, com aquele sorriso sem nome, admite, para já, que não há motivos para alarme!

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Filha de peixes sabe nadar.

É o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.

Ultimamente tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.

Conhece-lhes a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o ímpeto de escrever como fuga à morte.

Correndo atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a eternidade de cada um de nós».

Liberdade e Paixão começa assim:

«Faz com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas nos caminhos».

Marguerite Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.

«Não lhe interessam os aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos, ignorantes.»

«Aí está! Morrerei cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também me ensinaram que não valho quase nada.»

Das dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias, Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.

Yourcenar conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir. Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»

Há gentes assim, repletas de loucas magias.

Lembro o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».

Um dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:

«Na América vivia numa casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à água.»

Tempo de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:

«A partir de certa idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»

OLHAR AS CAPAS


Marguerite Yourcenar: Liberdade e Paixão

Cristina Carvalho

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Lisboa Novembro de 2025

Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.

Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo, variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador e uma capacidade sempre esfomeada por livros.  

VIVER

 Mas era apenas isso,

era isso, mais nada?

Era só a batida

numa porta fechada?

 

E ninguém respondendo,

nenhum gesto de abrir:

era, sem fechadura,

uma chave perdida?

 

Isso, ou menos que isso

uma noção de porta,

o projecto de abri-la

sem haver outro lado?

 

O projecto de escuta

à procura de som?

O responder que oferta

o dom de uma recusa?

 

Como viver o mundo

em termos de esperança?

E que palavra é essa

que a vida não alcança?

 

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 29 de abril de 2026

JOSÉ SANTA-BÁRBARA (1936-2026)


Morreu o pintor e ilustrador José Santa-Bárbara.

Entre outros trabalhos, fez algumas das  capas para os álbuns de José Afonso.

OLHAR AS CAPAS


William Klein

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Vale tudo: desordem, ordem, lixo, colisão, violência, poesia, acaso, encenação, sonho, razão, excesso, subjectivo, instantâneo, fixado na fotografia como no resto…

A INUNDAÇÃO

O mar invade Lisboa mas por dentro
enquanto o vento enfeita
as filhas dos polícias
e há um vago frio nos olhos
mais dementes
destas tardes.

As crianças vestem
coloridamente
seu mórbido e inesperado
séquito.

Mas nas ruas da Raiva
nota-se uma abundância
palpável

um rio vagamente doloroso

um mar por dentro.

Nas lojas de fazendas
na menina da caixa
no fastio amarfanhado
dos porteiros.

Gotas marítimas notavam-se
no brilho das pulseiras
de uma amante
líquido miúdo mas brilhante
até nas varizes das peixeiras.

Há quem diga do sol
um sol insólito é bem certo
mas nota-se até na cauda dos insectos
piedosas solícitas gotas de humi ( l ) dade.

O mar invade tudo mas por dentro.


Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

terça-feira, 28 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


O actor Jimmy Kimmel, dois dias antes dos disparos no Hotel Hilton contra Trump & Cª, no seu programa televisivo de humor, fez uma piada ao casal Trump. 
O monólogo do comediante teve um sketch em que se simulava a presença do Presidente e da primeira-dama no Jantar de Correspondentes da Casa Branca, e nele o humorista saudou ficcionalmente a beleza da primeira-dama dizendo —“Sra. Trump, tem um brilho como uma viúva de esperanças, ou se quiserem viúva expectante".

No dia seguinte ao interrompido jantar, Melania Trump escreveu no X que Kimmel é “cobarde” e que a ABC devia tomar medidas, por seu turno Trump na sua rede TruthSocial que a piada de Jimmy Kimmel foi um "apelo à violência", rematando que deveria ser imediatamente despedido pela Disney e pela ABC.»

Jimmy Kimmel respondeu ao casal Trump esclarecendo que a piada pré-tiroteio “não foi um apelo ao assassinato e eles sabem”
“Obviamente, era uma piada sobre a diferença de idades entre eles e a expressão de alegria que vemos no rosto dela sempre que estão juntos. Era uma brincadeira leve sobre o facto de ele ter quase 80 anos e ela ser mais nova do que eu. Não era — de todo — um apelo ao assassinato."

Trump para além de inculto e estupido, é um tipo indecente que nem sequer tem uma pontinha que seja de sentido de humor.

Abençoados cidadãos norte-americanos que presentearam o mundo com semelhante aberração!

RETRATOS


«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume des­tes Cadernos. Melhor do que outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter compreen­dido porquê e para quem ando eu a escrever estas sin­ceridades. Ao postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de li­teratos marginais e de escritores malditos que nem che­gam aos calcanhares do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado perma­nece desconhecida fora das fronteiras.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, 2º volume

«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa, talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido  por Luís Pacheco é ser vacinado contra o grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a metro para os prémios e outros afins.

Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito sendo muito feliz.»

João Carlos Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos

«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»

Luiz Pacheco numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005