sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DE VEZ EM QUANDO

 

O mar, se acaso alguém
fechando a mão o faz como se às praias
assim o subtraísse, o mar ligado
por cem mil cordas ao meu leito,


reduz-se a poucas vagas; porque há poros

na pele por onde o espírito goteja, há também quem

da parte envidraçada do seu espírito
de vez em quando as veja rebentar.

Luís Miguel Nava em Poesia


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Um pessimista é um optimista bem informado.

Mark Twain

OLHAR AS CAPAS

Ensaios

António Sérgio

Tomo 1

Atlântida, Coimbra, 1949

Porque se efectuou a tomada de Ceuta?

Donde proveio a iniciativa do empreendimento?

Não parece que os historiadores se tenham detido neste problema; detenhamo-nos nós, que o não somos (senão que ensaísta sobre temas de história, como o havemos sido sobre tantos outros): talvez provoquemos uma actividade crítica, talvez acertemos com uma hipótese útil. Por la boca de una sierpe de piedra sale un caño de agua.

CENSURAS, SOMBRAS E RAIVAS


Durante 48 anos perseguiram, prenderam, espancaram, mataram, quem neste país queria ter liberdade de pensar.

Naqueles tempos Adriano Correia de Oliveira cantava Manuel Alegre:

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

Meu pensamento
Quebrou amarras
Partiu no vento
Deixa guitarras.

Meu pensamento
Por onde passas
Estátua de vento
Em cada praça.

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

Foi à conquista
Do novo mundo
Foi vagabundo
Contrabandista.

Foi marinheiro
Maltês ganhão
Foi prisioneiro
Mas servo não.

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

E os reis mandaram
Fazer muralhas
Tecer as malhas
De negras leis.

Homens morreram
Chamas ao vento
Por ti morreram
Meu pensamento.

A imagem que acima se reproduz, faz parte de um trabalho que, a seguir ao 25 de Abril, a revista Cinéfilo publicou e em que mostraram como fomos censurados.

No dia 22 de Setembro, pelas 19,30 horas, a Cinemateca apresentará um filme de Manuel Mozos sobre cortes de cinema executados pela comissão de censura do Estado dito Novo:

 

  « ALGUNS CORTES: CENSURA III

de Manuel Mozos

Portugal, 2014 - 50 min

M/12

sessão apresentada por Manuel Mozos e Margarida Sousa e seguida de conversa após projeção

A partir de várias horas de cortes realizados pela Comissão de Censura durante as décadas de cinquenta e sessenta conservados pela Cinemateca, Manuel Mozos assina um filme de montagem através do qual se dá a ver a violência da censura enquanto negação da possibilidade de olhar estas imagens. 
Ao contrário do anunciado, será apresentado o terceiro filme de montagem (de 2014), dedicado a cortes feitos de acordo com o que a Comissão estabeleceu como critérios morais, na sua relação com os comportamentos das mulheres e com a sua imagem, e não o primeiro (de 1999).»

CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena em Poemas Escolhidos 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Mas a história é uma série de interrogações não de respostas. respostas.

Alberto Pimenta

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Num tempo em que os nossos políticos são de uma pobreza franciscana, recorde-se Vasco Gonçalves. Não por um qualquer tique passadista – saudades, só do futuro, como diria o Zé Gomes Ferreira – mas numa tentativa, possivelmente vã, de com Vasco Gonçalves lembrar que, após o 25 de Abril tivemos políticos de gabarito, inteligentes, cultos, generosos, concorde-se ou não com eles: Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Melo Antunes, Margarida Pintasilgo, outros mais.

«Insistiram muito em que eu estaria ligado ao Partido Comunista porque eles sabem que em Portugal fazer uma política anticomunista é rentável, pois os sentimentos de anticomunismo estão ainda profundamente enraizados no nosso povo.» (entrevista de Vasco Gonçalves à revista Hebbo em Outubro de 1975.).

Não, não somos um país decente.

Ainda há dias, na Assembleia da República, durante um voto de censura ao governo de Luís Montenegro, provocado por «aquela coisa», o jornalista Eduardo Dâmaso escrevia:

«Afinal, o gato encontrou uma nova vida. A metáfora de Ventura sobre Luís Neves saiu-lhe pela culatra. Neves, o gato, na retórica do Chega, saiu reforçado da audição e da moção de censura. Luís Montenegro desmanchou a estratégia do Chega dando a centralidade que lhe interessava ao debate. Levou o bónus aos pensionistas, a promessa de descer o IRS até ao 6.º escalão, falou do trabalho do governo nas várias frentes, encaixou a conversa no que interessa aos portugueses, a sua vida e a estabilidade da governação. Rebentou com o debate sobre Neves. Montenegro foi muito eficaz e esta foi a sua verdadeira ‘rentrée’ no ano político. Pelo meio, ainda ganhou, também ele, um bónus. Ficou a nu, impiedosamente, a fragilidade política do Chega, do discurso e dos seus deputados, que acabaram por mostrar-se incapazes de superar o primarismo argumentativo da comparação de Neves com traficantes, bandidos e xerifes. Como se não bastasse, a cena final, de mau perdedor, com a gritaria instalada no parlamento, mostrou ainda como os profetas da pureza originária, que querem “limpar” e “salvar” Portugal, só gostam da democracia quando ganham e podem confundir isso, sem limites, com a humilhação do adversário. Ontem, correu-lhes mal. Pelo resultado mas, sobretudo, pela exibição.»

OLHAR AS CAPAS


Vasco Gonçalves: Perfil de Um Homem

Fernando Luso Soares

Capa: Soares Rocha

Gleba, Lisboa, Outubro de 1979

Assim direi que, tal como acontece com a Crítica, também a História deve ser a cabeça da paixão, não a paixão da cabeça. Por outras palavras: se a figura humana do Companheiro nos enternece, devemos tomar, relativamente a ela, um distanciamento que elimine ou evite a cegueira.

RETRATOS


 E outros momentos. Soltos. Deslumbrantes na opaca escuridão do que não volta mais. Cada um terá os seus, a sua história privada, a sua respira­ção. A última reunião da Comissão de Escritores do MUD, a que tinha pertencido toda a gente (fal­tavam às vezes cadeiras) e a que, por fim, já só compareciam, inutilmente renitentes, três pessoas: a Manuela Porto, o Flausino Torres, eu. Que coor­denava o sector desde a própria ideia de o formar. Como o dos artistas (arquitectos, pintores, esculto­res, desenhadores, fotógrafos, publicitários) que, a partir de 46, fizeram juntos as suas Exposições num clima de entusiasmo e unidade como nunca houvera no país nem sei se, exactamente assim, te­rá voltado a haver.

 Momentos soltos lucilando na distância. O José Cardoso Pires a bater-me à porta com o seu pri­meiro original. O Piteira a paginar comigo, em minha casa, à noite, a Gazeta musical e de todas as artes.

 A Manuela Porto foi quem primeiro declamou a «Ode Marítima», como nunca mais ninguém faria. E, antes (ou depois?), a nossa poesia que mal ainda despontava, no velho Salão de O Século, com uma palestra introdutória do Armando Bacelar. Vejo-a a beijar, num pé, a minha filha então de meses: «Posso? E um milagre!» E, a seguir, na redacção da Eva, que ela chefiava e onde a vi pela última vez. Estava assente que eu passasse por lá para lhe dar a senha de contacto com o MUNAF, organiza­ção ilegal a que resolvera aderir. Era um prodígio de vontade e de coragem aquela mulher tão frágil, delicada, toda ela poesia. Mas tinha no gabinete, inesperadamente, alguém que não me devia ver, a directora da revista. Vem lá de dentro, à pressa, sorridente. Traz nas mãos as Cartas a um jovem poeta. Deixa a porta entreaberta, só o bastante para que a ouçam bem. «Desculpe não poder hoje rece­bê-lo. Está aqui o livro. Gostei muito». Mímica apressada a explicar porquê o livro e aquela con­versa. Dois dias depois suicidava-se.

 E vejo o Flausino também, muito mais tarde, com o seu arcaboiço de camponês, grossa samarra de gola levantada, já a noite caíra, à porta da sua casa de Tondela, em pleno campo, com os braços estendidos e os olhos molhados: «Tu é que tinhas razão». Enquanto eu, durante o abraço demorado e apertado, retomava um convívio interrompido du­rante anos: «E era preciso ires tão longe?»

Regressara de Praga, depois da invasão. Passara por lá as passas do Algarve nas mãos de uma co­nhecida dirigente, dessas de «antes quebrar que torcer», que se deslocava em luxuosos automóveis de Estado, vivia em bons hotéis por lá e anda agora por aí, nos períodos eleitorais, a fazer a propa­ganda de tudo o que seja de Direita.

Exactamente a mesma. Quando, em 42, fiz a minha conferência na Universidade Popular sobre arte moderna, essa expressão acabada da «burgue­sia decadente», foi ela que comentou: «Que grande desilusão!» Mas não se referia à qualidade da con­ferência. A minha grande falha ideológica é que a deixara desolada...

Varrer o lixo. Sem descanso. Conservar o que nos foge por entre os dedos, como fumo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Manuela Porto

COM FÚRIA E RAIVA

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 15 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

É disso que os amigos falam: do que a vida poderia ter sido se não fosse a filha da puta de vida que foi.

José Carlos Barros

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Não há livros inúteis.

Este retrato de Marcelo Caetano deixa-nos perante aquilo, após a morte do ditador de Santa Comba, a que se chamou «primavera», uma espécie de esperança que, como teria que ser, durou breves fogachos de tempo.

Foi um mito e por ali residiram frustradas expectativas liberalizantes mas Marcelo Caetano não conseguiu, limitações pessoais acima de tudo, libertar-se da teia de oportunistas e corruptos que constituíam

que Salazar deixou constituir à sua volta e de que tanto necessitava.

Tudo começou com a sua posição perante a guerra colonial:

 «Portugal não pode ceder, não pode transigir na luta que se trava no Ultramar.»

Ao tomar posse não fez qualquer ruptura com a política salazarista, talvez por não estar preparado ou porque não a desejar.

Fazer depender a sobrevivência do regime com a continuação da guerra, iniciou o caminho sem qualquer saída.

Aparentemente, não esperava suceder a Salazar, outros serviriam para isso.

Um dia terá confidenciado à sua filha Ana Maria Cardoso:

«A pessoa que suceder a Salazar é para abater».

Palavras finais do Retrato de Salazar escrito por António Araújo:

«No final da manhã de 26 de Outubro de 1980, domingo, por volta das 12,30 horas, enquanto lavava as mãos na casa de banho do seu apartamento na Rua Cruz de lima, nº 8, aguardando que a irmã Olga o chamasse para o almoço, Marcello Caetano foi acometido de uma violenta dor no peito, que em minutos o matou.»

OLHAR AS CAPAS


 Marcelo Caetano

António Araújo

Colecção: Retratos Políticos nº 2

Medialivre, Lisboa, 2024

Não percebo porque é que me foram buscar. Isto não tem saída. Porque é que não foram buscar o Antunes Varela, o Franco Nogueira, esses sabem o que querem fazer… Isto não tem solução.

RECICLAGEM PARA C.

O deus do Eugénio

é muito mais verde

quando lido pelos teus olhos.

David Teles Pereira

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Sabemos como a vida imita os filmes.

Paulo Teixeira

VOLTEMOS ÀS GREGUERÌAS

Mais um regresso às Greguerias de Ramón Gómez de la Serna:

O mau do molho de tomate é que tenta irresistivelmente o pão.

Franzimos o sobrolho porque queremos agarrar com pinças um grande pensamento que se nos escapa.

Os móveis com bicho ganham ouvido e até ouvem o que diz o silêncio.

O mais maravilhoso da espiga é como leva bem feita a trança.

Os que não querem que se fume no vagão não compreendem que, se a locomotiva não fumasse, o comboio não se movia.

Era um dia tão bom que todas as chaves foram dar um passeio.

O sofá foi feito para receber pedidos de casamento.

Os crocodilos são falsos porque nunca os ouvimos chorar.

Nas caixas de lápis guardam os meninos os seus sonhos.

O maior desejo do abre-livros é ficar perdido entre as páginas, como um peixe num aquário.

Há especialistas em  pedir o único prato que se acabou na ementa.

OLHAR AS CAPAS


Nome de Toureiro

Luís Sepúlveda

Tradução: Pedro Tamen

Capa: João Machado

Edições Asa, Lisboa Setembro de 1997

Deixei umas moedas em cima da mesa e, coxeando, saí do bar. A cidade continuava triste, embora fosse Verão, embora nem uma nuvem se interpusesse entre os homens e o céu, embora nenhum pássaro negro planasse sobre a minha cabeça e assim comecei a atravessar a rua, pensando, Verónica, meu amor, pensando porque é que temos tanto medo de olhar de frente para a vida, nós que já vimos as áureas cintilações da morte.

O MINISTÉRIO LÍRICO

o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do erro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao começo,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o córrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!

Herberto Helder de Ofício Cantante em Resumo: a poesia em 2009

domingo, 13 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados. Era isso o que o Fred costumava dizer. Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber.

Patti Smith em M Train

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Volta e meia há que ir ao Outro Lado das Estantes, e nem sempre acontece.

Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que, rigorosamente não sabia o que etava a vender.

Uma colecção, ainda, não lida, mas a que há que voltar.

Assim irá aconrecendo.

OLHAR AS CAPAS


 Os Índios Americanos

Larry J. Zimmerman

Tradução: Ana Maria Pinto da Silva

Capa. José Neves

Colecção: Cultura e Civilizações

Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 2006

Quando os Europeus pisaram pela primeira vez a América do Norte, descobriram, para sua grande surpresa, que afinal o continente já era habitado por seres humanos. Na verdade, os povos indígenas prosperaram na região; a população ascendia a uns significativos vinte milhões de indivíduos e desenvolveram-se civilizações tão diversas como as que existiram em qualquer outro lugar da terra.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Há vozes quase únicas. António dos Santos é uma dessas vozes.

Vamos, hoje, recordá-lo.

Colaboração de Aida Santos.





COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Percorra os seus dedos pelas Páginas Amarelas.

Colaboração de Aida Santos.

sábado, 12 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A razão pela qual a preocupação mata mais pessoas do que o trabalho é porque as pessoas se preocupam mais do que trabalham.

Robert Frost