sexta-feira, 1 de julho de 2022

AH!, SIM, O COMEÇO DE LIVROS


 O livro de José Carlos Barros, Um Amigo Para o Inverno é, segundo se pode ler na capa «a revisitação de uma história verdadeira mas quase desconhecida, do nosso passado recente», que também nos oferece episódios e palavras que marcam vidas. No capítulo I, página 13, determina-se: «Talvez seja verdade: quando tememos perder uma coisa é como se já a tivéssemos perdido» e a partir daqui arranca-se para a leitura que falará de algo que sempre me apaixonou: começos de livros:

«Miguel haverá de alertar-me para a importância das primeiras frases. Tantos os casos conhecidos. Os Cem Anos de Solidão e a fabulosa descoberta do gelo. O Quixote e o lugar de cujo nome o Autor não quer lembrar-se. A Ernestina e o binóculo capaz da transfiguração do olhar. Ninguém lê romances que começam com descabidas preocupações de estilo, a armar. Isso foi chão que deu uvas.»

Gosto de bons começos de livros.

Já comprei livros pelos começos, assim de repente lembro-me de A Morte é Um Acto Solitário do Ray Bradbury:

«Veneza, na Califórnia, tinha, nos velhos tempos, muito que a pudesse recomendasse a quem gostasse de estar triste. Era o nevoeiro quase todas as noites, e era, ao longo da costa, o gemer das máquinas nos poços de petróleo, e o bater da água suja nos canais, e o zumbir da areia a roçar as vidraças, quando o vento assobiava à volta das praças e ao longo das ruas desertas.

Era no tempo em que o pontão de Veneza, a cair aos bocados, morria no mar. E podia ver-se então gigantesca ossada de dinossauro, a montanha-russa, a coberto ou a descoberto, com o vaivém das marés.

No fim de um longo canal, viam-se as caravanas de um circo, decrépitas, para lá atiradas e abandonadas. E quem olhasse para as jaulas, à meia-noite, veria que lá dentro havia vida – peixes e camarões de ´+agua doce, que andavam ao sabor da maré. E tudo isto, afinal, era o circo do tempo, feito ruína, desfazendo-se em ferrugem.

O pai do Gin-Tonic deliciava-se com o começo de Thais de Anatole France:

«En ce temps-là le désert etait peuplé d’anachorètes.»

Maria Gabriela Llansol escreveu um livro, Na Casa de Julho e Agosto que começa assim:

«O começo de um livro é precioso. Muitos começos são preciosíssimos. Mas breve é o começo de um livro – mantém o começo prosseguindo. Quando este se prolonga, um livro seguinte se inicia. Basta esperar que a “decisão da intimidade” se pronuncie.»

Dinis Machado começa assim Reduto Quase Final:

«Abertura com a mais velha estação de comboios do mundo»  e acrescenta: «Qualquer maneira de começar é uma boa maneira de começar».                 

Poderia ainda falar do fabuloso começo de O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago:

«Aqui o mar acaba e a terra principia. Chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas de barro, há cheia nas lezírias. Um barco escuro sobe o fluxo soturno, é o Highland Brigade que vem atracar ao cais de Alcântara. O vapor é inglês, da Mala Real, usam-no para atravessar o Atlântico, entre Londres e Buenos Aires, como uma lançadeira nos caminhos do mar, para lá, para cá, escalando sempre os mesmos portos, La Plata, Montevideo, Santos, Rio de Janeiro, Pernambuco, Las Palmas, por esta ou inversa ordem, e, se não naufragar na viagem, ainda tocará em Vigo e Boilogne-sur-Mer, enfim entrará o Tamisa como agora vai entrando o Tejo, qual dos rios o maior, qual aldeia. Não é grande embarcação, desloca catorze mil toneladas, mas aguenta bem o mar, como outras vezes se provou nesta travessia, em que, apesar do mau tempo constante, só os aprendizes de viajante oceânico enjoaram, ou os que, mais veteranos, padecem de incurável delicadeza do estômago, e, por ser tão caseiro e confortável nos arranjos interiores, foi-lhe dado, carinhosamente, como ao Highland Monarch, seu irmão gémeo, o intimo apelativo de vapor de família. Ambos estão providos de tombadilhos espaçosos para sport e banhos de sol, pode-se jogar, por exemplo, o cricket, que, sendo jogo de campo, também é exercitável sobre as ondas do mar, deste modo se demonstrando que ao império britânico nada é impossível, assim seja a vontade de quem lá manda. Em dias de amena meteorologia, o Highland Brigade é jardim de crianças e paraíso de velhos, porém não hoje, que está chovendo e não iremos ter outra tarde. Por trás dos vidros embaciados de sal, os meninos espreitam a cidade cinzenta, urbe rasa sobre colinas, como se só de casas térreas construída, por acaso além de um zimbório alto, uma empresa mais esforçada, um vulto que parece ruína de castelo, salvo se tudo isto é ilusão, quimera miragem criada pela movediça cortina das águas que descem do céu fechado.»

E ainda o estonteante. galopante começo de Trabalhos e Paixões de Benito Prada do Fernando Assis Pacheco:

«Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé.

O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado.
«Caramba», disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, «é à segoviana!»
«Mas não lhe pões o dente», cortou o outro.
Entretanto o mais novo, regressado já do Pereiro, aonde fora avisar o Padre Mestre, manifestou desejos de capar Manolo Cabra. O do meio olhou muito sério para o Padeiro Velho. Este cuspiu enojado e decretou:
«É tudo para os cães. E agora tragam-me lá a roupa do fiel defunto, que já não tem préstimo senão no inferno.»
Se perguntassem ao Padeiro Velho o que mais queria naquele momento, teria respondido:
«Assar-lhe até a memória.»

Mas agora terei de abandonar a prosa : «tenho um javali ao lume».

quinta-feira, 30 de junho de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

Alguém acredita que o ministro Pedro Nuno Santos anunciou a decisão sobre o futuro do aeroporto de Lisboa sem ter consultado António Costa?

É possível que o Primeiro-Ministro tenha sido apanhado de surpresa?

Pode ser que sim, mas não acredito.

Claro que o direitista que é director do Público, já determinou, em editorial, que o governo está transformado numa associação de estudantes e alerta: ou o ministro se demite ou Costa o demitirá.

OLHAR AS CAPAS


Crónica dos Bons Malandros

Mário Zambujal

Capa: José Cândido

Livraria Bertrand, Lisboa, Maio de 1980

«Profissão?»

As duas mulheres trocaram olhares, a mais velha e gorda deu um passo em frente como se quisesse ir entregar a resposta em mão. Entregou, baixinho:

 «Putas...»

O subchefe da Polícia fez uma careta de desagrado, abanou tristemente a cabeça e censurou: “Então isso diz-se assim?” A mulher, a mais velha e gorda, não compreendeu que diabo queria o subchefe da Polícia, ficou calada, a pensar, pensou que talvez não tivesse sido respeitosa o suficiente. Emendou: “Putas, senhor subchefe.” O subchefe da Polícia ficou em silêncio, só levantou os olhos e os braços ao céu a pedir a ajuda ao Altíssimo. Não tinha nascido para aquela vida, era homem de esmerada educação, frequência de seminário, muita teologiazinha, mas também romances policiais, às escondidas, sua paixão e seu pecado, Agatha Christie contra Nossa Senhora, Ellery Queen a puxá-lo dos braços de S. José, ele um menino que fugia do presépio, adeus seminário. Trocou a roupa negra de futuro pastor pela farda cinzenta da corporação - azul nos feriados -, o crucifixo pelo pistolão, o rosário pelo cassetête, o missal pelo livro de registo dos que iam entrando no xelindró. Foi uma opção que o fez sofrer. Longo tempo levou a sossegar a consciência, explicando a si próprio que era também uma forma de combater o pecado, havia antecedentes, a História cheia deles, o Santo Condestável, os cruzados, e outros, tantos, o importante era estar do lado justo e bom.

Mas agora o subchefe estava cansado, havia muita fadiga e desânimo na sua voz ao recomendar à detida uma linguagem menos feia de ouvir:

 «Meretrizes, queria a senhora dizer...»

«Pois sim, senhor subchefe, também pode ser isso. Meretrizes.»

«Nomes?»

A meretriz abriu a mala preta de plástico, remexeu em chaves e papéis, tirou um documento e foi depositá-lo sobre a secretária do subchefe da Polícia.

«Ora aí tem. Evelina de Sousa, mais conhecida por Lina Despachada, ao seu dispor. É uma forma de dizer, está claro. Quarenta e quatro anos feitos em Fevereiro, podia ser mãe do senhor subchefe, com o devido respeito. Aqui a minha amiga está muito aflita, o senhor subchefe há-de desculpar, a miúda é nova nisto, tem dezoito anos só. Olha, agora está a chorar, cala-te lá ó garota, não morreu ninguém. É a Adelaide, senhor subchefe, uma joinha, coitada, andava para aí aos tombos, fui eu quem lhe deu a mão, temos de ser uns para os outros.»

Voltou-se para acalmar os soluços assustados da amiga, enquanto o subchefe da Polícia, com um gesto de esferográfica, chamava um guarda de serviço.

«Manda entrar os queixosos.»

Tinha havido uma queixa. Dois cidadãos, pessoas de respeito, como muito bem se verificava no trajar e nos documentos exibidos, haviam solicitado à autoridade a detenção das duas mulheres “às vinte e três e trinta e cinco do dia 9 de Março, no Campo dos Mártires da Pátria, sob a acusação de lhes terem furtado, dois dias antes, 7 de Março, um alfinete de gravata e um isqueiro, tudo avaliado em seiscentos e cinquenta escudos”, assim rezava o relatório.

«Foram elas! », afirmaram, peremptórios, os dois, sem dúvida nenhuma. O subchefe da Polícia fitou as presas e ficou à espera. Então, Lina Despachada voltou a abrir a mala preta de plástico, tirou um alfinete e um isqueiro, mostrou-os bem na mão espalmada e desafiou:

«São estes?»

Aparvalhados, os queixosos mais não fizeram do que sim com as cabeças e já a acusada se virara para o subchefe da Polícia, cada vez mais desgostado da cruzada que escolhera na vida.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

POSTAIS SEM SELO


Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde de mais.

Joseph Conrad

OLHAR AS CAPAS


O Mercenário

Mickey Spillane

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 221

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Abriu os olhos, recuou e sorriu-me, apesar das dores que sentia.

Viu o vulto caído de Massley, ao fundo da sala, e murmurou, com firmeza:

- Aquele homem não era o meu pai, Phil.

- Tens razão, Terry. Era apenas outro bandido. Tinha um estratagema que supunha capaz de te levar a conduzi-lo a qualquer coisa… mas está morto.

- E o meu pai?

- Morreu há muito tempo, querida. Nunca o conheceste.

Beijei-a outra vez e murmurei:

- Vamos para casa.

E fomos.

terça-feira, 28 de junho de 2022

CONVERSANDO

Li hoje no Largo da Memória algo que tenho vindo a reter há longo tempo:

«O mundo como o conhecíamos morreu.»

 Quando o tempo era muito mais lento e até a chuva caía de maneira diferente.

 Havia o sossego da casa, o sol a bater levemente na cortina, um certo sentido de paz e de silêncio.

 O tempo em que se dizia: são assim as mais pequenas histórias do mundo, coisas tão simples e há em tudo isto nisto uma estranha amargura.

segunda-feira, 27 de junho de 2022

OLHAR AS CAPAS


 O Lugar e o Tempo

Crónicas

Rui de Brito

Sagitário, Lisboa s/d

É desta cidade que eu gosto. Desta cidade de colinas ao sabor romântico, onde a única hipótese é sonhar das coisas belas. Cidade, em que o pobre é só rico de céu azul e rio antigo. Cidade, em que o rico é pobre de céu azul e rio antigo.

Cidade perfeita, cheia de limites em invisível arame farpado. Cidade apoplética de sinos de Igreja e padres de olhos baixos. Cidade latente de pregões de ardinas sub-alimentados. Cidade traduzida em música de cegos profissionais e desafinados.

OLHARES

Café Império.

O seu desaparecimento esteve anunciado, os trabalhadores, os velhos clientes, juntaram-se, a Câmara ajudou, e o que era uma ameaça do fim de mais um café da cidade, não se concretizou.

O piano está à esquerda de quem entra e fica por esse piso.

Os pianos tocam sozinhos?

Não, não senhor, o piano é que está bêbado tal como no cantar calmo de voz de alcatrão do Tom Waits, a quem o madeirense-tripeiro JoséViale Moutinho dedicou um poema.

Sim, o piano está à esquerda de quem entra e fica por esse piso.

Mais que uma vez, entro café dentro e olho o glamour daquele piano.

«Toda a gente gosta de música; o que tu realmente queres é que a música goste de ti.», uma grande verdade expressa pelo senhor Tom Waits.

PIANO BAR

                             a Tom Waits

 é dos bares com piano      estamos mo porto

deuses depois das duas horas      com vinho

sangue e versos e sinos e um videotape

em vez de teatro com cerveja e programas

o músico com asas quer fá bulas e cigarros

erguem-se aos beijos e aos abraços      por baixo

ah os pássaros apenas estes somos nós

 

um blue de brancos      uns trocos de sangria

um cubo de pedra com gaivotas de metal

sobre a fonte romana na praça do século XVIII

aprende-se música comenta de longe o pianista

as palavras entrecortadas à faca nas suas teclas

o amigo fabulosos e cheio de virtudes exige

mais ruas estreitas e mais longas noites

cruel…… faz os seus cigarros      fuma-os      ó fogo

de isqueiros e morte com tédio e gelos

 

bebem assim tantos os homens de tanta sede

a actriz despede-se      todos se encontram

sobre as mesas entre os corpos copos e garrafas

amadeo de souza cardoso ou modigliani

reservo o álcool para os olhos mortos comigo

 

cravo de horto      a frente tão maciça      força

quantas bandeiras se enovelam por aqui

sangrenta a mão abre      quatro uísques para

esta mesa      a salvação é o menos rápido

eis o pintor da mesa do canto      as chamas

a açucena das pequenas leituras e dos cinemas

havia de morrer logo após a meia-noite

 

arde a carne      a gordura acesa      a pele estala

e estes sapatos de cinza pelo chão correm

reconheço que nunca nos vimos no porto

desaperta a gravata     enforca-se com a gravata


José Viale Moutinho em Piano Bar

domingo, 26 de junho de 2022

OLHAR AS CAPAS



Homenagem ao Caracol e Outras Cerimónias

SAM
Capa:Vitorino Martins

Numar Edições, Lisboa 1981

Deveria ter uns 60 anos de idade. O rosto magro, desenhado com vigor, o olhar macio, o cabelo grisalho, descuidado. Levemente curvado, caminhava sem pressa dentro de um comprido casaco cinzento usado de muitos anos. Subiu a escadaria e entrou no amplo e luminoso «hall» cheio de gente. À sua frente espreguiçava-se um longo balcão onde se alinhavam os «guichets» numerados e os cotovelos das pessoas que esperavam a vez de serem atendidos. Dirigiu-se ao «guichet» mais próximo: - Para recomeçar a vida, se faz favor…?

- «Guichet» número um  - foi a resposta do funcionário.

Colocou-se na bicha e aguardou. Algum tempo depois, atingiu o balcão. Baixou o tronco e a cabeça e disse ao funcionário que, do outro lado, da legalidade, se prontificou para o ouvir: - Queria recomeçar a vida.

O homem estendeu-lhe alguns impressos e uma pequena brochura, enquanto, displicente, ia explicando com a voz arrastada:

- Terá de preencher estes impressos. Deve justificar os motivos. É essencial. Este papel é para as testemunhas. Só gente importante, claro. Sem testemunhas, nem vale a pena cá voltar. Será bom que reconheça os seus direitos e deveres. Está tudo neste livrinho. Quando voltar com isso preenchido dirige-se ao «guichet» número dois. Depois espera uma primeira decisão, que lhe será comunicada no prazo máximo de seis meses. Boa tarde.

DITOS & REDITOS


O ofício de olhar gaivotas.

Quanto mais choras, menos mijas.

Cultivar a utopia é fundamental para mudar o mundo.

O caos provoca sentimentos mistos.

A cidade pode ter turistas, mas os turistas não devem ter a cidade.

A alegria física dos encontros.

Aprender a ver é aprender a compreender.

O momento estranho que antecede a chegada.

sábado, 25 de junho de 2022

POSTAIS SEM SELO


O mais certo é um dia arrepender-me de acreditar nas pessoas.

José Carlos Barros em Um Amigo para o Inverno

Legenda: fotografia de Luís Eme

AS FOTOGRAFIAS DO VIAJANTE


Agosto por Cabanas de Tavira.

Trinta euros, por pessoa, para ver os golfinhos.

Agarrados aos caprichos dos ventos, das marés, os golfinhos podem não aparecer.

A história está um tanto ou quanto mal contada.

Deveria existir um desconto no preço do passeio se os golfinhos não quisessem mostrar-se à plateia do Dolphin Tour.

O viajante não embarcou.

OLHAR AS CAPAS


Um Amigo Para o Inverno

José Carlos Barros

Capa: Rui Garrido

Casa das Letras, Lisboa, Junho de 2013

A camioneta corre por estradas sinuosas como se o levasse a um lugar distante que lhe pertencesse. Porque todos temos um lugar que julgamos pertencer-nos. E, no entanto, somos nós que pertencemos aos lugares: às suas ruas ou casas, nascentes ou árvores, largos, tanques, muros, sombras dos muros. É verdade que uma paisagem é quase sempre o resultado do que fizemos dela: do modo como desviámos ou represámos águas, arroteámos florestas, cortámos pedra e erguemos paredes. Mas é a força dos lugares (mesmo depois do primeiro olhar de um homem sobre as encostas e os vales, mesmo depois da primeira mão modeladora, mesmo quando do que eram ficou um irreconhecível retrato) o que prevalece e se impõe sobre a obstinação e a vontade, o esforço e a audácia de procurar afeiçoar a um corpo o que vem de mais longe do que a mão e a ideia de construir uma casa e um terraço virado aos dias de Verão.

JUST A SWEET COUNTRY DREAM


Este texto é dedicado ao meu Amigo João Pedro, que há cinquenta anos atrás, sempre que me queria “picar” acerca do meu - mau, segundo ele… -  gosto pela “Folk Music” me atirava à cara a cantora índia canadiana Buffy Sainte-Marie. Não sei se ele alguma vez a ouviu cantar, embora suspeite que não. Dar-lhe-ei, agora, uma nova oportunidade…  

Nos tempos em que os portugueses se pareciam preocupar muito com a Covid, lembro-me de ter lido no “Público” uma reportagem acerca do desejo de abandonar as grandes cidades e ir viver para o campo, que se teria instalado em muito boa gente.

Ar puro, produtos naturais, vida mais barata, menos trânsito, menor “stress”, maior descanso e muito mais tempo livre para cada um dedicar a si próprio é à Família… 

Com as televisões por cabo e a Internet, a ligação ao mundo dito “civilizado”, para quem quisesse ou tivesse necessidade de o fazer, não seria problemática.

Estar-se-ia com um pé num universo e o outro pé noutro completamente distinto, à medida dos desejos de cada um.

Toda esta mistura parecia ser suficientemente atrativa para alguns dos nossos compatriotas, garantia o “Público”, que se deu ao trabalho de ir ao encontro de alguns deles. Lembro-me que uns trocaram Lisboa por Portalegre, pelo simples facto de ter pensado para com os meus botões que Portalegre seria um dos sítios onde, certamente, nunca me apanhariam a viver…

Mas cada um sabe se si e aqueles que deixaram as grandes cidades tinham, seguramente, boas condições materiais para isso, porque não acredito que o tivessem feito apenas à custa dos “magníficos apoios” atribuídos pelos sucessivos governos deste País como incentivo à deslocalização para o interior.

Este sonho pelo campo não é coisa dos tempos de hoje. É uma atração antiga e surge de forma recorrente, à medida em que a evolução das Sociedades vai impondo maiores constrangimentos à vida nas grandes cidades.

Agora é a Covid mas antes já era o custo da habitação, o trânsito caótico, as dificuldades de estacionamento, a proliferação de “tuk tuks” e turistas, e por aí fora...  

Na Literatura este tema deu pano para mangas, pelo menos a partir de Rousseau e do seu mito do bom selvagem, a que Henry Thoreau e tantos diversos autores do Romantismo deram sequência.

Como tudo o que é humano não é estranho à Folk Music, não é de admirar que, ao longo dos tempos,  há muito ela tenha deixado correr este tema por muitas das suas canções.

Como não vos quero maçar muito mais, deixo-vos aqui quatro exemplos, acompanhados das respetivas “letras”. 

A mais antiga data do último quartil do Séc. XIX, mais propriamente do início da década de 1870, uma vez que a sua data precisa parece ser muito duvidosa e John Lomax, no seu livro “Folk Song USA” que já aqui citei por diversas vezes, até admita que ela possa ser ainda mais antiga 

Começou por se chamar “My Western Home” e foi escrita, enquanto poema, por um tal Brewster M. Higley, ao qual, mais tarde, um seu amigo (Daniel E. Kelley) haveria de acrescentar a música.

Tendo fugido da mulher (é Alan Lomax, no seu livro “Folksong USA”, quem o afirma…) e ocupado terra no Kansas, ao obrigo das Leis federais que procuravam fomentar a ocupação do interior dos Estados Unidos, Higley terá ficado extasiado com aquilo que os seis olhos viam e a inspiração para o poema ter-lhe-á surgido, naturalmente. Parece que a cabana onde se instalou ainda por lá está e é considerada Monumento Nacional.

Como sempre sucede com a Folk Music, a letra foi sofrendo pequenas alterações ao longo dos tempos e esta música passou a ser conhecida como “Home on the Range”, tendo sido publicada em papel pela primeira vez em 1925 em Santo António, no Texas, por Oscar J. Fox.

Com o tempo, tornar-se-ia uma das mais conhecidas cowboy songs da América, entrou em muitos filmes e em 1947 foi designada como canção oficial do Estado do Kansas. 

Porque tinha de ser um cowboy, das centenas de versões que existem escolhi a de Gene Autry, gravada nos anos 40.

A letra é a seguinte:

HOME ON THE RANGE 

“Oh, give me a home, where the buffalo roam
Where the dear and the antelope play
Where seldom is heard, a discouragin' word
And the skies are not cloudy all day

Home, home on the range
Where the dear and the antelope play
Where seldom is heard, a discouragin' word
And the skies are not cloudy all day

How often at night, when the heavens are bright,
With the lights from the glitterin' stars,
Have I stood here amazed, and asked as I gazed
If their glory exceeds that of ours?

Home,home on the range

…………………………….

Oh, give me a land, where the bright diamond sand
Flows leisurely down the stream
Where the graceful white swan goes gliding along
Like a maid in a heavenly dream
Then, I would not exchange my home on the range
Where the dear and the antelope play”

Fica este exemplo icónico mais antigo e vejamos exemplos mais recentes.

A partir de meados dos anos 60, com a marretada final dada por Bob Dylan naquela célebre noite de 25 de Julho de 1965 no Festival de Newport, a “Folkmania” então existente nos Estados Unidos viria a perder gás, progressivamente.

Os bares Folk de Greenwich Village não encerraram as suas portas  de um momento para o outro, mas deixaram de ter as enchentes do passado e trabalhar em Nova York deixou de ser rentável para muitos folksingers dessa época, alguns deles até sem grande paciência para a música “eletrificada” que começava a ser adorada pelos mais jovens, sobretudo a partir da altura em que os Beatles aterraram na América.

Muitos deles - que nada tinham a ver com o ideário “hippie” - deixaram Nova York e instalaram-se não muito longe, nas montanhas de Woodstock, para onde Bob Dylan também iria uns tempos mais tarde, instalando-se, com os seus amigos da “The Band”, na célebre “Pink House”.

Outros, mais interessados em cavalgar essa nova onda da “Pop Music”, foram para a Califórnia, que era o que estava a dar, e instalaram-se ao longo de Laurel Canyon, talvez também com essa ilusão de que viviam no campo e desceriam à cidade quando tivessem necessidade.

Não é, assim, de estranhar que o tema “fuga para o campo” viesse a surgir, de forma mais ou menos explícita, em muitas das canções desse tempo.

É o caso desta “Just a Country Dream”, escrita em finais dos anos 60 por Eric Andersen, que também viveu em Woodstock entre meados das décadas de 70 e de 80, antes de partir para a Europa e se instalar na Noruega por uns tempos.


JUST A COUNTRY DREAM 

“There was Bob on the banjo and Dave on the old mandolin

And somebody cried out oh won’t you play that again

Oh what a joy just to hear that ole music again

 Being close by your friends

 

Just sittin’ there talking and thinking bout the places we’ve been

Then someone starts singing and strumming a sad melody

And the words tell a story bout someone like you and like me 

Livin lovin and a highway where a man can be free

Goes so easily 

Just to remind us how simple this old life could be

Like David and Susan who decided to follow their dreams

About leaving the city and going to the country it seems

Out to a valley where the waters flow peacefully

Just a sweet country dream

 

Where stars shine so bright and the air always smells so sweet and so clean

Or bout Lou’s restless just thinking about goin out west

Till the day that he died his life was the family he lead

It’s been hard on the kids but I hear that she’s doing her best

I venture this guess 

She’s living and growing and learning like all of the rest

 

There was Bob on the banjo and Dave on the old mandolin

And somebody cried out oh won’t you please play that again

Oh what a joy just to hear that ole music again

Those times with your friends

Just sittin’ there talking and thinking bout the places we’ve been”

A música que se segue foi composta por John Prine com o nome “Spanish Pipe Dream”, e faz parte do seu glorioso primeiro álbum, lançado em 1971. Mas eu ouvia-a, pela primeira vez, na voz do John Denver e com outro título: “Blow Up Your TV”, que faz parte do álbum “Aerie”, também de 1971.

Não me cansarei de agradecer a John Denver e a Ian Mathews a maneira como eles me deram a conhecer tantos e tão bons folksingers daqueles anos 60/70. Tal como sucedeu com o Jerry Jeff Walker de texto recente, também só cheguei a John Prine por intermédio de Denver e por isso seria mais que justificável pôr aqui a sua versão. Mas o pobre Prine morreu há pouca mais de dois anos e eu nem uma palavrinha lhe dediquei, embora tivesse chegado a pensar nisso. Assim sendo e a título excecional, dar-vos-ei a ouvir ambas as versões. 

Ouvindo a música e lendo a sua “letra”, perceberão que a ironia de John Prine está a léguas do lirismo de Eric Andersen… 


SPANISH PIPE DREAM / BLOW-UP YOUR TV

“She was a level-headed dancer
On the road to alcohol
And I was just a soldier on my way to Montreal

Well, she pressed her chest against me
About the time the juke box broke
Yeah, she give me a peck
On the back of the neck
And these are the words she spoke

"Blow up your TV
Throw away your paper
Go to the country
Build you a home
Plant a little garden
Eat a lot of peaches
Try an' find Jesus on your own"

Well, I sat there at the table
And I acted real naive
For I knew that topless lady
Had something up her sleeve

Well, she danced around the bar room
And she did the hoochie-coo
Yeah, she sang her song all night long
Tellin' me what to do

"Blow up your TV
Throw away your paper
Go to the country
Build you a home
Plant a little garden
Eat a lot of peaches
Try an' find Jesus on your own"

Well, I was young and hungry
And about to leave that place
When just as I was leavin'
Well, she looked me in the face

I said, "You must know the answer"
She said, "No, but I'll give it a try"
And to this very day, we've been livin' our way
Here is the reason why

We blew up our TV
Threw away our paper
Went to the country
Built us a home
Had a lot of children
Fed 'em on peaches
They all found Jesus on their own

O terceiro e último exemplo será “I’m Gonna Be a Country Girl Again”, que a canadiana Buffy Sainte-Marie compôs e que faz parte do seu álbum com o mesmo nome, lançado em 1968.

Quando se refere ao campo, Buffy sabe bem do que fala porque nasceu na reserva índia de Saskatchewan, no Canada (lembram-se do filme do Raoul Walsh…?) e, não obstante ter vindo muito cedo para os Estados Unidos com os seus pais adotivos, casou com um índio e sempre permaneceu ligada a essa comunidade durante toda a vida.


I’M GONNA BE A COUNTRY GIRL AGAIN    

“The rain is falling lightly on the buildings and the cars
I've said goodbye to city friends, department stores and bars
The lights of town are at my back, my heart is full of stars
And I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again

I spent some time in study, oh, I've taken my degrees
And memorized my formula, my A's and B's and C's
But what I know came long ago and not from such as these
And I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again

I've wandered in the hearts of men looking for the sign
But here I might learn happiness, I might learn peace of mind
The one who taught my lesson was the soft wind through the pines
I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again

Oh yes, I'm gonna be a country girl again
With an old brown dog and a big front porch and rabbits in the pen
I tell you, all the lights on Broadway don't amount to an acre green
And I'm gonna be a country girl again”


And that’s all, folks…!

Não vou maçar-vos com mais comentários acerca destas músicas, já que elas falam perfeitamente por si.

Todas estas músicas me parecem ser muito bonitas, mas já se sabe que eu só gosto de “músicas de passarinhos”…! 

(Não é, Querido João…?)

Oiçam-nas ao mesmo tempo que leem as “letras”, porque, se for caso disso, vos facilitará a compreensão. 


Texto de Luís Miguel Mira

sexta-feira, 24 de junho de 2022

POSTAIS SEM SELO


O coração humano, tal como a civilização moderna o modelou, está mais inclinado para o ódio do que para a fraternidade.

Bertrand Russell

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Cada português fará o esforço para não estar doente em Agosto.»

Marcelo Rebelo de Sousa, comentando uma declaração de Graça Freitas.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

WE''LL MEET AGAIN


Poucas canções nos surgem tão coladas a um tempo e a um contexto histórico como “We’ll Meet Again”, que os compositores ingleses Ross Parker e Hughie Charles escreveram em 1939 e Vera Lynn cantou em 1942 e voltaria a cantar no ano seguinte no filme com o mesmo nome, realizado por Philip Brandon. 

A sua letra é a seguinte: 

“We'll meet again,
Don't know where, don't know when,
But I know we'll meet again
Some sunny day.
Keep smiling through,
Just like you always do,
'Till the blue skies drive the dark clouds far away.

So will you please say hello
To the folks that I know,
Tell them I won't be long.
They'll be happy to know
That as you saw me go,
I was singing this song

We'll meet again,
Don't know where,
Don't know when,
But I know we'll meet again,
Some sunny day.”

 Numa Europa já espezinhada pela barbárie nazi e numa Inglaterra que tinha acabado de atravessar talvez os tempos mais dramáticos da sua História coletiva (o “Blitz”), esta música era um grito de esperança em relação ao futuro. Não era hora para grandes choros nem para profundas lamentações. Pelo contrário, haveria que erguer a cabeça e continuar a lutar mantendo um sorriso no rosto, porque as nuvens escuras passariam, o céu voltaria a ficar azul e, por muito tempo que isso pudesse levar, aqueles que agora partiam para a Guerra iriam regressar e todos se encontrariam juntos, de novo, num radioso dia de Sol.

Não foram só os discursos de Churchill… Não foi, apenas, com o sangue, o suor e as lágrimas… Coisas como esta também contribuíram - e muito… - para forjar a resistência de toda uma nação. 

Refiro-me mais à canção do que ao filme, claro está, porque este é muito pobrezinho e quase só existe para se aproveitar dela, embora se revista de um inequívoco interesse histórico.

 No filme - muito pouco visto por estas bandas -  Vera Lynn é Peggy, uma jovem bailarina que, numa noite em que os espectadores do teatro onde trabalha são obrigados permanecer no interior das instalações para se protegerem do “blitz”, é levada a cantar para os entreter, e, embora o faça a contragosto, demonstra tal qualidade que, passado pouco tempo, a veremos já  como grande vedeta da BBC a cantar para as tropas do seu país.  

Todas as canções do filme seguem a mesma linha temática de “We’ll Meet Again”.

“After de Rain”, que é uma das mais repetidas, já se percebe no que irá dar… Depois da chuva surgirá, certamente, um céu azul e um sol radioso…

“Sincerely Yours” é a explicitação da devoção de Vera Lynn aos soldados e ao esforço de guerra. Por si só, é todo um programa:

“When life seems a dull December

And you need sympathy

A smile and a kind word or two will always help you through

And so I promise you

I’m yours sincerely

I want you to know I’m really forever sincerely yours

Should cares betide you

You know I’ll be there beside you

Forever sincerely yours

If you need a someone

To help you along with a smile and a song

I’m your sincerely

Whatever befalls

I’m really forever sincerely yours” 

 E até uma pequena canção de embalar se transforma, no filme, num hino à esperança.

O filme termina com a cena que vos mostro, onde se vê  já não Peggy, mas claramente Vera Lynn a cantar “We’ll Meet Again”para uma imensidão de soldados da RAF.

E foi isto que, na realidade, Vera Lynn fez durante os anos que se seguiram, como também já o havia feito antes. Cantou para os soldados ingleses um pouco por todo o Mundo, em África, na Ásia, na Oceânia... Ficaria, para sempre, nos corações de gerações e gerações de ingleses, sobretudo os veteranos da guerra (por isso lhe chamavam “Forces Sweetheart”…) e viria a receber as mais altas condecorações atribuídas a cidadãos britânicos.

A 18 de Junho, dois anos que faleceu, com a bonita idade de 103 anos, não sem que antes lhe tenha sido concedida uma nova e significativa honraria: ter sido eleita, no ano 2000, a cidadã britânica que melhor encarnou o espírito do Séc. XX.  

Em 1979 os Pink Floyd evocaram-na no duplo álbum “The Wall” com uma curta canção (chamemos-lhe assim…) chamada “Vera”, que surge imediatamente colada a outra que se chama, apropriadamente, “Bring the Boys Back Home”, naquela que é uma evocação desses tempos de Guerra por parte de Pink, que parece ser um alter-ego de Roger Waters nesse concept album. Não lhe acho muita graça e só o refiro aqui a título de curiosidade, para que se perceba a que ponto chegou a importância de Vera Lynn no imaginário coletivo dos ingleses.

Mas curiosidades é coisa que não falta em torno de “We’ll Meet Again”…  

Oitenta anos mais tarde esta canção seria de novo evocada em Inglaterra pela própria Rainha,  numa clara mensagem de esperança,  a propósito da necessidade de toda a Nação se unir para superar um novo e assustador perigo coletivo: a Covid...

Muitos anos antes, no auge da Guerra Fria, parece que esta terá sido uma das gravações que a BBC guardou a sete chaves em subterrâneos para que pudesse, posteriormente, voltar a insuflar ânimo àquela parte da população que viesse a sobreviver a um ataque nuclear…

E talvez até tenha sido por ter ouvido falar nisso que, em pleno rescaldo da Crise dos Mísseis de 1962, Stanley Kubrick, que nunca foi muito de ver o Mundo a cor-de-rosa, utilizou esta mesma canção para simbolizar, já não a esperança, mas o medo de um conflito nuclear, que é, precisamente e por muito que não queiramos nisso acreditar, o que paira no nosso horizonte nos dias de hoje. 

Com efeito, foi “We’ll Meet Again” a canção que ele escolheu para concluir o seu “Dr. Strangelove”, de 1964, enquanto no ecrã passam as imagens de um desastre nuclear. Não poderia haver maior ironia e maior contraste…

Em 1965, em pleno início da Guerra do Vietname, também os Byrds recorreram a esta música, numa das mais estranhas e intrigantes opções de todo o seu vasto repertório, transformando-a, com as suas rajadas de guitarras elétricas,  num sucesso do Pop/Rock. De novo o medo da guerra e a esperança em dias melhores, ou mera reação oportunista ao filme do Kubrick do ano anterior…?   


Quem também a interpretou, na última sessão de gravações que fez pouco tempo antes de falecer, foi Johnny Cash.

Mas aí tenho a certeza de que ele não estava a pensar em soldados e na guerra, nem, tão pouco, em qualquer possível desastre nuclear.

O velho e católico Johnny Cash não poderia adivinhar que a sua muito amada mulher, June, lhe iria desaparecer poucos meses depois e que ele próprio poucos tempo mais lhe iria sobreviver. Mas quando pediu aos membros da sua Família para se juntarem a ele na gravação dessa canção, aposto que estaria a pensar que seriam eles e, acima de tudo, a sua querida June, quem ele tinha a certeza de que iria voltar a encontrar nesse tal dia de céu azul e de muito Sol.

 Como é que eu sei…? 

Porque ele se descaiu e, na parte final declamada, diz: “So Honey keep smilin’thou just like you always do…”. Esse “Honey” não existe em lado nenhum na letra da música nem em nenhuma das muitas versões que conheço. Foi ele que o introduziu, deliberadamente… Porque é para June que está a fala, nessa derradeira e pública declaração de Amor… 

E quanto a nós…?

Veremos algum dia as nuvens negras passar…?

Will we ever meet again…?

CONVERSANDO

Camus e Sartre nunca se entenderam, nunca se compreenderam.

Os horizontes de Camus viviam das paisagens áridas, das gentes  da Algéria, nunca dos cafés de Paris onde se discutiam algo que estava muito longe do mundo de Camus.

 «Sei o que é o domingo para um homem pobre que trabalha. Sei sobretudo o que é o domingo à noite e se eu pudesse dar um sentido e uma figura ao que sei, poderia fazer de um domingo pobre uma obra de humanidade», escreve Camus nos seus Cadernos  

Sartre numa carta a Camus:

 «Nossa amizade não era fácil, lamento-o. Se hoje é quebrada, certamente é porque isso teria que acontecer. Muitas coisas nos aproximaram, poucas nos separaram. Mas esse pouco é muito: a amizade, ela também, tem tendência para ser totalitária; o acordo sobre tudo é necessário, e as mesmas indeterminações tornam-nos militantes de partidos imaginários.»

 Parece fácil perceber porque Albert Camus me interessou mais que Jean-Paul Sartre.

 Num estudo que vem em O Mito de Sísifo, escreve Liselotte Richter:

 «Para Camus não há transcendência. Também a liberdade é absurda. A liberdade de existir não existe. Existe a morte para acabar com tudo. Depois dela nada existe. Não há amanhã. Todos os objectivos burgueses são ilusão e preconceitos.»

quarta-feira, 22 de junho de 2022

OLHAR AS CAPAS


O Santo e as Importações Ilegais

Leslie Charteris

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Lima  de Freitas

Colecção Vampiro nº 302

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Provavelmente nunca se descobrirá a identidade de um passageiro que deixou o jornal da tarde, em certo táxi londrino, num soturno dia de Setembro: só passou por este mundo uma vez e é possível que, durante a sua permanência, não tenha feito mais nada capaz de afectar de qualquer modo a posteridade. O que importa é que o jornal ainda se encontrava no banco do táxi quando Simon Templar o mandou parar na Jermyn Street, nas traseiras de Fortnum & Mason’s, em cujo epicurista supermercado acabava de concluir uma transacção relacionada com vários milhares de ovas de esturjão. Portanto o referido jornal tem o direito de ser considerado o ponto de partida desta aventura. 


URSULA VON DER LEYEN PENSA MESMO EM DEMOCRACIA?

Fui ler a entrevista coletiva que a presidente da Comissão Europeia deu a vários órgãos de comunicação social.

Logo na terceira frase, reproduzida pelo jornal Público, a senhora dispara esta pérola: "Tem de haver apoio militar (à Ucrânia) e estamos a fazer a nossa parte com cerca de 2000 milhões de euros canalizados pelo Mecanismo de Apoio à Paz".

A análise a esta frase de Ursula von der Leyen suscita-me algumas questões e permite-me retirar várias informações e ilações curiosas:

1 - A União Europeia tem um sistema de apoio às guerras que, hipocritamente, se chama de "apoio à paz".

Que belo conceito de paz tem Ursula von Der Leyen!

2 - A União Europeia, segundo esta declaração, já gastou com a Ucrânia dois mil milhões de euros em armas, a que se acrescentam as quantias que cada país europeu gasta por iniciativa própria... e os Estados Unidos, e a Inglaterra, e sei lá que mais!

3 - O ano passado o texto da Decisão do Conselho Europeu 2021/509, de 22 de março de 2021, dizia que este "Mecanismo de Apoio à Paz" só podia gastar 540 milhões de euros durante 2022. O valor apontado por Ursula von der Leyen é 3,7 vezes superior e resulta de uma sequência de decisões do Conselho Europeu tomadas entre 28 de fevereiro e 23 de maio, após a invasão russa.

4 - Para além da compra de armas para a Ucrânia, este "Mecanismo de Apoio à Paz" anda a financiar operações nos Balcãs, no Corno de África, na Somália, no Mali, na República Centro-Africana, na Líbia e em Moçambique. Em algumas destas operações há militares portugueses envolvidos.

5 - Na Líbia, como denunciou recentemente uma reportagem da revista New Yorker, para além de outras tarefas, este "Mecanismo de Apoio à Paz" serve também para impedir indiretamente a entrada de imigrantes na Europa, que acabam por ser levados para prisões em condições miseráveis na Líbia, sujeitos ao arbítrio de guardas violentos, corruptos e de traficantes de escravos.

Que belo conceito de direitos humanos tem Ursula von Der Leyen!

6 - O demérito da operação na Líbia (onde ocorre, na realidade, um crime contra a humanidade, ao nível dos crimes de guerra que estão a ser perpetrados na Ucrânia e do qual a União Europeia é, pelo menos, cúmplice por omissão) não invalida o eventual mérito das outras missões... Vou ser caridoso e admitir que sim.

7 - Com este dinheiro para armar a Ucrânia, retirado ao "Mecanismo para a Paz", há uma questão para a qual não encontrei resposta: se esta verba é diminuída ao valor total deste fundo (até 2027 podia gastar-se, em fatias repartidas ano a ano, um total de 5,7 mil milhões de euros), não vai faltar dinheiro para as outras missões?

8 - Em alternativa à pergunta anterior, surge-me esta: se os dois mil milhões são adicionados ao dinheiro que já existia no fundo, de onde é que vem essa nova quantia?

Que bela informação aos cidadãos europeus presta Ursula von der Leyen!

9 - Já agora, gostaria também de saber que parte dos meus impostos está a ser usado para comprar armas para a guerra na Ucrânia e, como o dinheiro é finito, em que áreas os meus impostos deixaram de ser usados para a Ucrânia poder ter estas armas?

Que belo conceito de transparência política tem Ursula von Der Leyen!

10 - Admitindo que é boa ideia dar armas ao governo de Zelensky (quem quiser discutir isto, hoje em dia, é logo cuspido e estou farto de ter de lavar a cara), gostava de saber, pelo menos, o seguinte: a quem se compram essas armas? Quem as fabrica? Que tipo de armas são? São armas novas ou em segunda mão? Há algum controlo para impedir a sua utilização contra civis? A informação que há sobre isto está dispersa e é contraditória.

Que belos negócios estão a passar-se sob o olhar de Ursula von der Leyen!

Mais à frente, nessa entrevista, a presidente da Comissão Europeia tem outra saída, brilhante, sobre os critérios para admitir a Ucrânia na União: o país, diz ela, "tem uma democracia parlamentar funcional".

Sim, realmente a Ucrânia tem um Parlamento que talvez funcione, pelo menos vão lá umas pessoas de vez em quando. Mas não tem lá, por exemplo, o nome do partido "Plataforma da Oposição - Pela Vida", que tinha eleito 47 deputados e acabou de ser proibido. É um entre onze, todos acusados de serem pró-russos, o que observadores independentes, em relação a grande parte deles, contestam.

Por acaso os partidos proibidos são é todos partidos eurocéticos, o que deve deixar Von der Leyen a sorrir com tão bom funcionamento institucional na Ucrânia. Tão bom, tão bom que, aliás, já em 2014, antes desta guerra, proibira todos os partidos comunistas!...

Que belo conceito de democracia tem Ursula von der Leyen!

Pedro Tadeu no Diário de Notícias de hoje.

terça-feira, 21 de junho de 2022

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Logo nas primeiras palavras do longo e excelente prefácio de João Pedro George, lê-se

«Luiz Pacheco sofria de compulsão epistolar.»

Sou um velho  apreciador de correspondência entre escritores.

Acresce que em tempos idos, enquanto subia/descia o Chiado, fiz parte daqueles a quem o Pacheco esticava um livreco e dizia: «Dá cá vintes!»

Mais tarde entrei na longa lista de assinantes da Contraponto para bebeficiar do envio das edições de livros que o Pacheco fazia e que não chegavam às livrarias.

Se tiverem paciência para isso, vejam nas etiquetas deste blogue: «Luiz Pacheco» e «Luiz Pacheco Editor», as minhas aventuras com a pachecal figura.

Num velho artigo no suplemento Ipsilon do Público, Luís Miguel Queirós conta quem é Laureano Barros:

 «Grande bibliófilo, matemático e intelectual anti-fascista Laureano Barros (1921-2008), que reuniu na sua quinta da Fonte da Cova uma das mais extraordinárias bibliotecas privadas portuguesas da segunda metade do século XX.

 Quem frequentou os velhos alfarrabistas do Porto, alguns ainda em actividade, sabe que se referiam sempre a Laureano Barros com um respeito muito próximo da veneração. E não apenas por ser um proveitoso cliente, mas porque lhe reconheciam um vastíssimo saber na sua própria área de especialidade, consultando-o a pretexto de dúvidas bibliográficas, ou pedindo-lhe até que lhes recomendasse o preço adequado a pagar por qualquer raridade que lhes era proposta. E admiravam-lhe também essa intransigente rectidão moral que, logo aos 26 anos, em 1947, o lançou no desemprego. Assistente de Ruy Luís Gomes, na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, protestou contra a prisão de uma aluna pela PIDE, o que bastou para ser impedido de leccionar no ensino público. Viveu os 20 anos seguintes a dar explicações, com alguma contribuição paterna a arredondar os proventos, já então maioritariamente investidos na aquisição de livros.

A sua biblioteca, leiloada após a sua morte pela Livraria Manuel Ferreira, era tão extensa e tão valiosa que foi preciso organizar um leilão em três partes, com meses de intervalo entre elas. Laureano Barros era um coleccionador exaustivo de Pessoa ou Sá-Carneiro, mas também, por exemplo, de Eugénio de Andrade, Luiz Pacheco ou Herberto Helder. E este seu particular interesse pela literatura portuguesa do século XX convivia com outras predilecções, entre as quais se contava a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, da qual conseguiu reunir todas as dez primeiras edições.

É claro que é preciso algum dinheiro para construir uma biblioteca deste nível, e Laureano Barros tinha até reputação de manter alguns hábitos não apenas dispendiosos, mas um pouco excêntricos, como o de levar regularmente os trabalhadores da quinta a almoçar ao reputado restaurante do Hotel do Elevador, no Bom Jesus de Braga. Mas o coleccionador também teve períodos difíceis. Num dos mais interessantes testemunhos recolhidos por Paulo Pinto no seu filme, o histórico livreiro da Académica, Nuno Canavez, então ainda empregado do fundador da casa, Joaquim Guedes da Silva, recorda que Laureano Barros recorreu a dada altura ao seu patrão para vender a biblioteca que por essa altura já reunira. O livreiro ainda tentou, em vão, emprestar-lhe dinheiro, mas acabou mesmo por lhe comprar a colecção. Ou seja, a biblioteca que veio a ser leiloada era já a segunda.»

 O matemático bibliófilo foi também amigo e correspondente de vários escritores, incluindo Luiz Pacheco ou Eugénio de Andrade, que passava temporadas regulares na quinta da Fonte da Cova. Em Laureano Barros, Rigoroso Refúgio vê-se o exemplar que o poeta ofereceu ao amigo do seu raríssimo (e rejeitadíssimo) livro de estreia, Narciso (1940). No final do volume, Eugénio escreve: “Reli isto, Laureano. Que horror! Para que diabo quer você esta porcaria?”. Quando a biblioteca foi leiloada, este mesmo exemplar foi arrematado por quatro mil euros.

Pena que  «O Grilo na Varanda» não reúna a parte da correspondência que Laureano Barros enviava a Luiz Pacheco  «escritor até aos ossos» tal como o descreve João Pedro George:

E, no entanto, apesar das óbvias diferenças, a correspondência revela a consideração de Pacheco por Laureano Barros, uma estima que se pressupõe mútua. “Pressupõe”, porque as cartas aqui apresentadas são apenas as que Pacheco escreveu a Laureano; e nem mesmo essas são todas as que haverá, como adverte JPG. As cartas que acabam de ser editadas foram arrematadas no leilão portuense, e foi apenas a essas que JPG teve acesso.

A aproximação entre ambos deu-se pela bibliofilia de Laureano, que contactou Pacheco em busca de espécimes bibliográficos da Contraponto e de Pacheco. Muita da correspondência que se seguiu, ao longo de 35 anos, versaria, naturalmente, sobre edições levadas a cabo por Luiz Pacheco. Mecenas tão discreto quanto fiável, Laureano financia empreitadas editoriais e salva bastas vezes Pacheco dos seus infindáveis padecimentos de saúde, da falta de fundos e de todo um sortido crescente de tribulações: com a justiça, com credores, com a vida que lhe ia acontecendo.»

Legenda: contra capa de O Grilo Falante