segunda-feira, 30 de março de 2026

DO PECADO ORIGINAL

 “Lideramos a luta contra o wokismo. O CDS é o original"

Paulo Núncio, in Expresso, 19/03/2026


Se eu pudesse recrutar os bons ofícios deste destemido deputado, recrutá-lo-ia um dia para pôr ordem no meu jardim porque nele abundam as plantas hermafroditas. Aquele pequeno território não é governado pelas leis do binarismo e já várias vezes fiz esta pergunta: o que se passou no Jardim do Éden, que outros pecados nele foram cometidos para além daqueles em que caíram Adão e Eva? Terá o Jardim do Éden sido afinal a estação originária para orgulhosas manifestações do wokismo das plantas? Estamos aqui perante uma questão ideológica ou teológica? Se o CDS “é o original”, talvez o original deputado saiba muita coisa desconhecida sobre o pecado original.

António Guerreiro no Público de 27 de Março

OLHAR AS CAPAS


A Filha do Arcediago

Camilo Castelo Branco

Colecção: Livros de Bolso Europa-América nº 144

Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1977

Leitores! Se há verdade sobre a Terra, é o romance, que eu tenho a honra de oferecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de cenas, que se viram, que se realizaram, e deixaram de si vestígios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracteriza todas as cousas deste globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infalível sintoma de que o meu romance é o único verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu próximo, nem ando pelos salões atrás duma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas páginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

À LUPA

O presidenta da República convidou o escritor Francisco José Viegas para integrar a Casa Civil. Viegas, também jornalista e editor, foi, durante um ano, secretário de Estado da Cultura no Governo de Passos Coelho.

Como é sempre tarde quando se chora, entendeu que se ter metido a secretário de estado da cultura de um governo de Pedro Passos Coelhos foi uma péssima ideia.

Alguém que se diz de inteligência acima da média, evita cascas de banana nos passeios para não ter que invocar problemas de tensão arterial para evitar saídas pela direita baixa

Diz gostar de livros mas só os dos seus amigos e dos interesses livreiros dos mesmos de sempre.

António José Seguro escolheu pessimamente, ou foi mal aconselhado…

ROMANCE DE NÓS

Estou à beira do mar,
estou à beira de ti.
Ardem no meu olhar
os sonhos que não vi.
Tudo em nós foi naufrágio,
não quisemos saber:
fizemos nosso adágio
do que não pôde ser.
Que resta do amor
a quem é como nós?
Envergonha-me pôr
em verso: «somos sós;
sós como amanhecer
às avessas do mundo;
sós como podem ser
as areias no fundo;
somos sós e sabê-lo
é negar o pronome
que de nós fez novelo
e por nós se consome.

Luis Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

domingo, 29 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.

Vergílio Ferreira 

À LUPA


 Ateu que é, agradou-se com o Papa Francisco e admitiu que a bispalhada iria encontrar alguém com o sentir, com aquela luz, aquele sorriso de Francisco.

Mas não, não, não!

Arranjaram um carrancudo norte-americano, um papa à antiga, que vota no partido republicano e provavelmente amigo de Trump.

E Leão XIV, na sua primeira viagem à Europa, decidiu-se pelo principado do Mónaco, onde permaneceu nove horas.

Que faz um papa entre milionários jogadores de casinos, meretrizes, príncipes. sabe lá mais o quê?

Foi pedir esmolas para o Vaticano?

Foi pedir que ajudassem os pobres povos do mundo?

MÚSICA PELA MANHÃ

Antes de chegarmos a outros lugares, as músicas que o rádio nos trazia eram portuguesas, francesas, espanholas, italianas, brasileiras.

Aos domingos, com música pela manhã, iremos bater as essas portas.

Alguns perguntarão:

-Mas como é que estes gajos podiam ouvir estas músicas?

Ouvíamos e, que se saiba, ninguém morreu por as ouvir.

Legenda: pintura de Renoir





SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Segundo o Expresso, José Saramago pode deixar de ser obrigatório no 12.º ano; Camilo Castelo Branco passa a leitura obrigatória.

A proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, atualmente em consulta pública pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, retira a obrigatoriedade de obras de José Saramago no ensino secundário.

Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas a escolher uma obra do escritor no 12.º ano, passando a poder optar por outros autores. Atualmente, o programa prevê a leitura integral de “Memorial do Convento” ou de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A proposta prevê ainda que Camilo Castelo Branco passe a leitura obrigatória neste nível de ensino e abre a possibilidade de escolha de obras como “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho.

Segundo responsáveis da área, a revisão procura aumentar a diversidade de autores e temas trabalhados nas escolas, permitindo maior flexibilidade na escolha das obras.

A alteração, que retira da obrigatoriedade o único Nobel português da Literatura, poderá suscitar debate no meio académico e cultural.

O documento está em consulta pública até 28 de abril e poderá ser ajustado antes de entrar em vigor no próximo ano letivo.

Entretanto, o Rui Ornelas enviou-nos um texto, da autoria de Daniel Bento, publicado na NetLetter, e que passamos a apresentar:

«A vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas”. Quando se lembraram da famosa citação de José Saramago em “Memorial do Convento”, Rui Taveira, José Taveira e Sofia Oliveira não tiveram dúvidas: tinham encontrado a frase que inspiraria o projeto que tinham em mãos.

“Todas as nossas ideias começam com uma frase, geralmente de um autor que gostamos. Tentamos fazer uma ligação da arquitetura com o mundo das artes. Pode ser a literatura, o cinema ou qualquer outra área”, explicam à NiT, acrescentando que olham para o seu trabalho como “poesia materializada”.

Fiel a esta visão, o trio desenhou uma casa inovadora na ilha de Yakushima, no Japão, local classificado como Património Mundial da UNESCO. Batizada “Life could just be” — como no início das palavras de Saramago — o projeto foi criado para o prestigiado concurso internacional NOT A HOTEL Design Competition 2026.

O resultado final tornou Rui, José e Sofia parte dos 10 finalistas da segunda edição da competição, tendo-se destacado entre as mais de mil submissões de 113 países. 

Os três arquitetos decidiram participar um mês antes do fim das submissões. “Uma equipa espanhola entrou em contacto connosco para entrarmos juntos. Ainda não estávamos a par, mas respondi logo a dizer que também estávamos a concorrer”, recorda Rui, que se apressou a ligar ao irmão e à amiga para os desafiar.

Nenhum hesitou. Até porque, ao contrário dos concursos em que já tinham participado, em Portugal, “havia muito menos limitações”. A única exigência era que todos os profissionais tivessem menos de 40 anos e desenhassem um T3, com suites e piscina, em Yakushima. “A nível de criatividade, estávamos soltos.”

Os três têm valências em áreas complementares. Rui trabalha no atelier de arquitetura Frederico Valssassina, enquanto o irmão, José faz parte do estúdio de imagens em 3D uto.vz. Conheceram Sofia durante a faculdade, criativa que agora trabalha a solo. “Somos super próximos e, sempre que há uma competição, queremos participar”, confessa.

O primeiro passo foi estudar o “ambiente super específico” da região, um local tropical e com muita chuva. Através de videos e imagens, perceberam que naquele terreno, onde não havia grande envolvente, poderia haver problemas como a humidade ou a densidade da vegetação.

A solução foi a escolha de materiais que pudessem envelhecer bem e não “propostas artificiais”. Optaram por opções como o betão para que, ao longo do tempo, o musgo que pode aparecer no exterior ou manchas mais escuras “não fossem vistas como algo a evitar, mas como a casa a pertencer cada vez mais à ilha.”

Vista de fora, a habitação foi pensada como um volume mais pesado, quase como uma pedra que pertence aquele solo. “Tentámos encontrar um bom equilíbrio entre aquilo que a [plataforma japonesa de casas de férias de luxo com design de autor] Not a Hotel gosta e o que a localização pedia”, explica Rui.

Juntaram ainda uma pala na parte da frente, “como uma folha suspensa” que esconde o resto da moradia. É um “momento mais leve” que recebe a pessoa e que lhe permite “absorver o máximo possível da ilha” com relativa proteção: não estamos fechados, vemos a chuva e sentimos o vento, mas ao mesmo tempo é um espaço coberto.

Todos os detalhes foram pensados para fazer uma casa luxuosa, mas não de forma convencional. Rui, José e Sofia interpretaram o conceito do “luxo do tempo” à sua maneira, respondendo a uma questão que se colocaram uns aos outros várias vezes: o que é uma casa de férias que seja uma pausa neste ritmo frenético?

Acabaram por perceber, explicam, que “a ilha, por si só, já tinha todo o valor necessário” e que a abordagem nunca seria competir com a beleza do local. “Decidimos fazer um projeto que passasse despercebido, quase invisível. Algo que fosse aceite e que permitisse conhecer a ilha por dentro.”

Quanto à possibilidade de ver a casa construída, começam por defender que, mais do que “aos problemas do mundo real”, é a parte criativa da arquitetura que os três mais gostam de explorar. “Damos muita importância a esta parte teórica. As formas representam essa ambição criativa e poética.”

Não escondem, por isso, a felicidade de terem sido reconhecidos por um júri que incluiu nomes como Bjarke Ingels ou Sou Fujimoto. “Tentámos manter uma postura confiante, mas sabíamos que podia não dar certo. A oportunidade de fazer esta viagem, conhecer estes arquitetos é o prémio mais incrível.”

A verdade é que já se imaginam sentados num terreno em Yakushima, a segurar um malmequer, mas sem lhe arrancar as pétalas. “Por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância que descobri-las não valeria a vida de uma flor”, como termina a citação de Saramago.»

sábado, 28 de março de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

 


Cuba vive momentos muito difíceis.

Quando Fidel de Castro e seus companheiros meteram pés e mãos à empreitada, Cuba deixava de ser o quintal, o casino, a casa de putas dos Estados Unidos e um punhado de homens devolvia a dignidade a todo um povo.

 

O jornalista António Rodrigues escreveu, no Público, sobre os tempos difíceis que o Trump-das-guerras irá impor a Cuba:

 

«Perante a possibilidade de os Estados Unidos invadirem Cuba para derrubar o Governo de Miguel Díaz-Canel, depois de terem estrangulado o acesso de petróleo à ilha, deixando o país parado e às escuras, o cantor e compositor Silvio Rodríguez, nome maior da trova cubana, pediu uma espingarda para, aos 79 anos, também ele defender o seu país do ogre do Norte.

Por agora, recebeu do executivo cubano uma arma simbólica, de imitação, acompanhada de um papel que, em caso de agressão armada dos EUA a Cuba, poderá trocar em qualquer unidade militar por uma de verdade. Uma invasão que ele “vê como possível”, em entrevista ao diário espanhol El País.

Com “a grandíssima história de intervenções dos EUA, sabotagens, invasões”, não seria de admirar que Donald Trump e Marco Rubio anseiem por derrubar uma revolução que tanta água lhes tem dado pela barba desde que fez cair o deboche cubano-mafioso-norte-americano da ditadura de Fulgencio Batista. Rubio nasceu em Cuba de uma família que fugiu para a Florida ainda no tempo de Batista, mas que finge ter saído só quando Fidel Castro chegou ao poder.

Na terça-feira, a congressista norte-americana Nydia Velázquez, de origem porto-riquenha, uma política veterana que há 33 anos representa Nova Iorque na Câmara dos Representantes, apresentou uma resolução para impedir que os EUA invadam Cuba. “Enquanto ameaça ‘tomar’ Cuba, o seu bloqueio petrolífero está a piorar uma crise humanitária e a castigar o povo cubano”, escreveu no X.

“Li que em Miami houve uma manifestação de cubanos pedindo para derrubarem o Governo pela força, ou seja, praticamente pedindo uma invasão. Nem vou dizer o que penso daqueles que bombardeiem o seu país e o invadam”, disse Silvio Rodriguez. Desiludido também com os líderes da América Latina que se juntam a Washington no esforço para fazer cair Cuba: “É amargo que se tenha lutado tanto por uma unidade latino-americana e que, de repente, haja países que se vendam.”»


POEMAS AUTOGRAFADOS


 A Portugália entregou a Mário Dionísio a tarefa de escrever o prefácio para o 7º volume da Colecção Poetas de Hoje, que é Poemas Completos do Manuel da Fonseca.

Mário Dionísio foi o melhor, o mais puro historiador do neo-realismo português, tão vilmente depreciado por críticos e autores.

«Não sei compreender um poeta e a sua obra, desligando-o e desligando-a da realidade em que nasceu, de que nasceu, que ele veio, a seu modo, enriquecer e, enriquecendo, transformar.»

Alentejano, um extraordinário contador de histórias, Manuel da Fonseca escreveu poemas de uma simplicidade cativante - «Ser espontâneo dá-me muito trabalho.»

Assim como «Domingo que vem eu vou fazer as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida.» parece tão fácil, tão fácil como aquele endeusar dos tangidos bandolins, fitas violas gritos da heroica marcha Almadanim tocada pela Tuna do Zé Jacinto.

E um homem nunca é uma ilha isolada, um homem só não pode nada e «dá-me raiva ouvir seja quem for lamentar-se. Eu nunca me lamento».

Aldeia é o poema que Manuel da Fonseca deixou para seu autógrafo. E sempre o largo, que «antigamente era o centros do mundo».

   

Aldeia   

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

sexta-feira, 27 de março de 2026

DAS CITAÇÕES


 Sempre entendi que quando há quem diga as coisas melhor do que possa dizer, não hesito em fazer citações.

«"Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria! Do humor visionário
Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.

Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre jeito. De pois há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizado.»

Ana Cristina Leonardo, Público 20 de Fevereiro

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi

Legenda: Ilustração de Willard Metcaff

POEMA DA NOITE PLÁCIDA

A multidão em fúria

passeia placidamente nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

enquanto os homens que orientam placidamente

a multidão em fúria

que placidamente passeia nas ruas da cidade.,

procuram furiosamente

as soluções plácidas

que orientarão a multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

e os sábios buscam furiosamente

as fórmulas plácidas

que, placidamente,

resolverão as dificuldades da multidão em fúria

que passeia nas ruas da cidade

de mente plácida

plácida mente,

e todos, todos em suma,

placidamente,

procuram furiosamente,

de todas as formas plácidas,

atender às inquietações e aos anseios plácidos

da multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

e placidamente se assenta nos plácidos bancos das

                                                                    avenidas,

bebendo o ar plácido da noite,

e esperando, placidamente,

as soluções plácidas

para os seus anseios e inquietações furiosas.


António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

quinta-feira, 26 de março de 2026

OLHR AS CAPAS


O Adeus à Brisa

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: ilustração de Manuela Pinheiro

Colecção Contemporânea nº 6

Publicações Europa-América, Lisboa, Outubro de 1998

Doem-lhe as pernas de tanto andar. Mais ainda lhe dói o peito, opresso, de tanta humilhação que tem enxugado, tanta indiferença a repeli-lo. Lá do cimo da Ajuda, onde mora ainda com os pais (sem isso como sobreviver?) vira logo de manhã o cavalo cor-de-rosa da alvorada empinar-se sobre o Tejo, esparzindo com os cascos as suas chamas subtis. Podia ser bom sinal. Mas não. Os dias bonitos até são às vezes os mais cruéis. 

À LUPA


 1ª Página do Público de 20 de Fevereiro.

CONVERSANDO

Dizia que, para além de escrever, não sabia fazer mais nada.

Amiúde dizia que ninguém escrevia melhor português do que ele e acabou por citar um crítico do El País que lhe disse:

«que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.»

Sempre foi um tipo difícil, a idade tornou-o pior.

Numa crónica – ando a relê-las porque passaram a ser o que melhor entendia, o que mais gostava do que ultimamente publicava e lamentavelmente deixou de escrever crónicas, lamentavelmente deixaram de publicá-las em livro, falava de um almoça com amigos:

«E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?

Quando digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por

- Meu querido

nos traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes

Com pena da gente a empregada diz

- Meus queridos

e  soma-nos a conta na toalha.»

Um dia, quando, em separado, encontrei o Zé Ribeiro eo Vitorino, perguntei:

-Então já não há almoços com o António Lobo Antunes?

-Eh pá!.. Tornou-se um chato!...

O POETA DEDICADO

O poeta delicado de ascendência humilde

foi sempre um cão batido e se não o fosse

viveria mais infeliz ainda por não ser

o cão batido. É bom no fundo, amigo, leal, o dedicado.

Mas, nas entrelinhas dos sorrisos dele,

há sempre um rosnar doce de contida inveja:

é que outros a quem batem são leões ou alifantes,

porém não cães batidos. E não nasceram

nas palhas da província, embora se não escolha

onde se nasce para cão batido.

 

Jorge de Sena em Dedicácias

quarta-feira, 25 de março de 2026

TRUMPALHADAS

Os estilhaços da guerra desencadeada por Benjamim Netanyahu e com o beneplácito de Donald Trump, vão caindo no nosso dia-a-dia aumentando os riscos de um viver ainda mais difícil.

Como é que estes dois loucos não sabiam que é impossível vencer uma guerra contra fanáticos religiosos dispostos a tudo, incluindo pôr um povo a morrer em nome de Deus?

1.

«Conversações produtivas.” Assim se define a porta entreaberta por Trump quanto a um possível fim da guerra, ao suspender a vontade imperial de bombardear, arrasar, pulverizar, o Irão, com armas convencionais ou mesmo nucleares, como insinua a sua narrativa torpe e alucinada. O problema desta porta entreaberta é que ela vem de uma palavra presidencial que não vale nada. Trump, já sabemos, diz hoje uma coisa e, hoje ainda, o seu contrário. A sua conceção do mundo convocaria, na melhor das hipóteses, Dirty Harry, o justiceiro que celebrizou Clint Eastwood, mas não está sequer próxima do rastejante e traiçoeiro Tuco, protagonizado pelo genial Eli Wallach. Trump é apenas um asqueroso vilão, psicopata narcísico e corrupto. A sua fortuna triplicou num ano, está a rebentar os contrapesos da democracia americana, usa a seu bel-prazer a máquina judicial contra quem o contraria, como está a fazer com Joe Kent.

As “conversações produtivas” com o Irão são um eufemismo, de quem procura uma saída, já muito penosa, para o maior desastre norte-americano a seguir ao Vietname e ao Iraque. A sua própria base de apoio tem vindo a intensificar os sinais de que os EUA têm de sair do Irão depressa e em força. Perderam o controlo da guerra e o próprio aliado, Israel, faz o que quer. Como se Trump fosse uma marioneta nas suas mãos, depois de já se ter percebido que também o é para Putin. É este o Presidente que a América tem e de que será difícil desembaraçar-se.»

Eduardo Dâmaso no Correio da Manhã

2.

Trump em cada dia que passa diz já ter vencido o Irão mas… acabou por envia ao Irão um plano com 15 pontos destinado a pôr fim à guerra no Médio Oriente, plano foi entregue através do Paquistão.

Segundo David Pereira no Diário de Notícias as condições abrangem todos os objetivos de guerra dos Estados Unidos e de Israel, mas a estação televisiva israelita indica que Jerusalém está preocupada com o facto de Trump e a sua equipa quererem pressionar rapidamente para um "acordo-quadro, um acordo de princípio" com o Irão, em vez de insistir nestas exigências como condição para interromper a guerra.

3.

O Presidente norte-americano anunciou na segunda-feira um prolongamento de cinco dias no prazo de 48 horas que estabelecera dois dias antes para começar a atacar instalações energéticas iranianas, caso Teerão não desbloqueasse o Estreito de Ormuz.

4.

A embaixada iraniana no Paquistão considerou a oferta de negociações dos Estados Unidos como “uma farsa", negando qualquer diálogo com Washington.

"O Irão considera o pedido de negociações dos Estados Unidos como uma nova tentativa de dissimulação para se reagrupar e, encontrar brechas” com vista a “intensificar novamente os ataques", declarou na rede social X a representação iraniana em Islamabad.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou pelo seu lado na segunda-feira que o Presidente norte-americano acredita na possibilidade de “alcançar os objetivos da guerra” através de um acordo com o Irão, mas advertiu que Israel vai defender os seus “interesses vitais em qualquer circunstância”.

5.

Entretanto O Pentágono anunciou que Donald Trump está a planear enviar três mil soldados paraquedistas para o Médio Oriente, para apoiar os combates no Irão. A Casa Branca afirmou que as operações militares norte-americanas na região vão continuar. Atualizamos aqui, ao minuto, todas as informações sobre o conflito no Médio Oriente.

6.

As negociações entre os Estados Unidos e o Irão existem mesmo?

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, afirmou que não estão actualmente a decorrer negociações entre Teerão e Washington, acrescentando que a troca de mensagens através de diferentes mediadores “não significa negociações”. 

Segundo Araghchi, as principais autoridades iranianas estão a analisar as propostas de paz apresentadas, mas Teerão não tem intenção de negociar com os EUA, algo que nesta fase seria reconhecer uma derrota. O Irão prefere "continuar a resistir", para "terminar a guerra nos próprios termos" e criar condições "para que nunca mais se repita", disse o ministro à televisão estatal iraniana, citado pela agência Lusa.

Os norte-americanos falharam em alcançar os seus principais objectivos, entre eles uma vitória militar rápida e a mudança de regime no Irão, aponta o ministro iraniano, afirmando também que os EUA falharam na protecção dos seus aliados no Médio Oriente, apesar das bases militares instaladas na região, notou, insistindo que o estreito de Ormuz está "fechado apenas aos inimigos".





O OUTRO LADO DAS CAPAS

Junho de 1966.

Ou 67?

O Helder Pinho a dizer-nos: o Cine-Clube do Barreiro vai dar Ladrões de Bicicletas.

 Quem alinha?

Alinharam seis.

O Cine-Clube era dirigido pelo Cortez, militante comunista, enfermeiro e barbeiro com loja aberta na Rua Castelo Branco Saraiva, sala a abarrotar.

O neo-realismo italiano visto na margem sul, a fita não ajudava, a projecção não foi a melhor, mas oportunidade, quase única, de então ver Ladrões de Bicicletas, em sessão quase clandestina.

O último barco do Barreiro para Lisboa acontecia à meia-noite. O filme batia quase o horário do barco, mas antes, já um camarada pegara na bicicleta, e acelerara para o cais,  dizer ao pessoal de bordo que aguentassem uma migalha, que havia uma malta numerosa de Lisboa, a sair do Cine-Clube e precisava de ir para Lisboa.

Solidariamente, o mestre aguentou a migalha necessária,  e o camarada da bicicleta, ficou a ver a malta a chegar e entrar para o barco e lançou um punho no ar de adeus.

Porra! Há que dizer que estávamos na margem sul e o Barreiro eram operários das fábricas do Alfredo da Silva.

O barco traz-nos para Lisboa na noite de Primavera.

O Helder olha a cidade, diz-nos que gosta da palavra cineclube, que não há nada como o neo-realismo seja ele português, ou italiano, palavras soltas, gestos inacabados.

Ainda há cineclubes?


CINEMATECA PORTUGUESA–MUSEU DO CINEMA HISTÓRIAS DE OBJETOS, OBJETOS NAS HISTÓRIAS 15 e 18 de setembro de 2021 LADRI DI BICICLETTE / 1948 (Ladrões de Bicicletas) um filme de Vittorio de Sica Realização: Vittorio de Sica / Argumento: Cesare Zavattini, segundo o romance de Luigi Bartolini; adaptação: Cesare Zavattini, Vittorio de Sica, Oreste Biancoli, Suso Cecchi d’Amico, Adolfo Franchi, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri / Fotografia: Carlo Montuori / Direcção Artística: Antonino Traverso / Música: Alessandro Cicognini / Montagem: Eraldo Da Roma / Intérpretes: Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci), Enzo Staiola (Bruno Ricci), Lianella Carell (Maria Ricci), Elena Altieri, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Michele Sakara, Carlo Jachino, Nando Bruno, Fausto Guerzoni, Umberto Spadaro, Massimo Randisi. Produção: “P.D.S.” (Produzione De Sica) / Cópia: Leopardo Filmes, dcp, preto e branco, legendado em português, 90 minutos / Estreia Mundial: Roma, em 24 de Novembro de 1948 / Estreia em Portugal: Tivoli, em 20 de Novembro de 1950 / Reposição: Estúdio 444, em 26 de Junho de 1969. Grande Prémio Internacional do Festival Mundial do Filme e das Belas Artes, Bélgica, 1949 Prémio Social do Festival de Cinema de Locarno, 1949 Grande Prémio Saint Michel do Festival de Knokke, Bélgica, 1949 Fita de Prata, Roma, 1949 Prémio da Crítica de Nova Iorque para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949 Oscar da Academia de Hollywood para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949.


Nem o nome de De Sica, o impacto do seu filme anterior, Sciuscià, ou a nova lei do cinema que entra em vigor em 1947 e impõe a exibição de filmes italianos durante (pelo menos) 20 dias por ano em cada cinema, serviram de muito para o projecto do actor-realizador adaptar o romance de Luigi Bartolini Ladri di Biciclette. Em Itália ninguém se interessou apesar do chamado “neorealismo” estar na moda, em França também não, o que os ingleses ofereciam não chegava para mandar cantar um cego (ou confundiam já “neo-realismo” com “miserabilismo”). Será com o seu próprio dinheiro e o de um grupo de amigos, os advogados Graziadei e Bernardi, e o conde Cicogna, que De Sica poderá levar a cabo o filme que ficará como a sua obra-prima, e que durante uma década esteve na lista dos dez melhores filmes da história do cinema. Ao tempo Ladri di Biciclette causou um impacto maior que os primeiros filmes de Rossellini, tornando-se o modelo frequentemente invocado do “verdadeiro” neo-realismo, que esteve na origem dos equívocos que o rodearam, e que levariam à sua marginalização com o esgotamento da fórmula. Se o equívoco lhe deu fama foi também a sua desgraça, o que a uma revisão se afigura extremamente injusto. Ladri di Biciclette é, antes de mais, um belíssimo filme sem necessidade de adjectivos de “verismo” ou “realismo”. Não se passa nada durante o filme e, no entanto, passa-se tudo. O “fait-divers” (o roubo da bicicleta a um homem que com ela conseguira, finalmente, trabalho nos anos de crise do pósguerra em Itália) transforma-se numa história de suspense. É inegável que ele existe pois todos estamos suspensos do encontro ou não da bicicleta e o filme não é mais do que a história da sua busca, através dos mais variados lugares. E é este percurso que está na base do equívoco (aceite naturalmente, e nunca contestado, porque era um movimento de “vanguarda”) erigido em “escola” por Zavattini. A captação do “real”, com as filmagens em exteriores, actores não profissionais e uma fotografia próxima da das actualidades, são o embrulho sobre o qual se coloca a etiqueta do “neo-realismo”. Mas todo o filme de De Sica manifesta em germe a sua própria negação (a que nem o próprio Umberto D escapa, e que passa a primeiro plano em Miracolo a Milano e L’Oro di Napoli: um desejo de ficção (o tema da busca) e de encenação (a belíssima e cuidada sequência do almoço de pai e filho no restaurante, com uma fotografia mais trabalhada do que o resto do filme). Um dos tais sinais de “realismo” é, no fim de contas, uma fórmula usada com uma certa frequência no cinema em geral: captar “um rosto na multidão”(que será o título de um filme de Kazan), entre os anónimos habitantes da cidade, o que traz logo à memória as comédias e melodramas americanos do fim do mudo, em particular The Crowd e Lonesome (e já agora o genial número de Busby Berkeley para o primeiro Gold Diggers: “Remember My Forgotten Man”). E o final segue o mesmo modelo, com a multidão anónima rodeando aquele que se tornou “intérprete” de um drama colectivo, neste caso o desemprego que estava no ponto mais alto na altura da realização do filme (apesar da recuperação da economia que se começava a verificar com o apoio do Plano Marshall). E o início do filme de De Sica é ainda mais sugestivo: António Ricci não engloba a massa que se aglomera à volta do funcionário que distribui empregos ocasionais. Está à margem dela, e é preciso que um outro corra a chamá-lo para que a câmara nos mostre Ricci isolado e sentado no chão, como um homem marcado pelo destino. Destino absurdo que tem a sua dimensão kafkiana na loja de penhores, onde a trouxa de lençóis se vai misturar com milhares de outras, cruzando-se, num sugestivo plano, com a bicicleta que lhe é devolvida. Mesmo contaminado por estes momentos simbólicos, esquecidos na altura pois apenas se quis ver as suas características de “pedaços da vida”, Ladri di Biciclette é até aqui ainda um filme de forte conotação “realista” (para continuarmos a usar o chavão), com o retrato da vida do casal e da sua casa. Tudo muda, porém, no “dia seguinte”, aquele em que Ricci vai começar a trabalhar. E não deixa de ser curioso que De Sica apenas neste momento nos apresente a outra figura central do drama, Bruno, filho de Ricci que, com o pai, parte também para o trabalho. De facto, e esta é outra marca anti-“realista” do filme, a verdadeira história é a da relação entre os dois (repare-se que, durante todo o filme o garoto procura o pai com o olhar), e a pesquisa que irão fazer no outro dia, é da mesma ordem das “viagens iniciáticas” dos jovens no cinema americano. O roubo da bicicleta é o momento em que tudo vacila e tudo começa. Se serve para apresentar, de forma documental, o estado de coisas da sociedade italiana de então (a crise económica, o desemprego, a superstição, a miséria e a promiscuidade, segundo uma fórmula de testemunho que Zavattini erigirá, tardiamente, em programa em L’Amore in Città), o que mais fica desta peregrinação exemplar, quase crística (houve quem comparasse o percurso de Ricci à Via Sacra) é o que se passa entre pai e filho, testemunhado nos três momentos maiores do filme:a sequência da bofetada e a desaparição de Bruno com a angústia do pai ao ouvir os apelos de ajuda ao afogado; a sequência do restaurante, de reconciliação, a que não falta o toque de humor com o menino “bem” na outra mesa comendo a sua “pasta” com ar afectado, mas onde, pela primeira vez, no filme, o pai dá conta dos seus sonhos ao filho (sonhos que o roubo vem por em causa); e a última, que possui uma carga simbólica que o afasta da mera referência realista onde se teima em inclui-lo: António desceu ao ponto mais baixo, procurando, por sua vez, roubar uma bicicleta, mas é apanhado e humilhado. Será a mão do filho que se estende para a sua, crispada, que lhe transmitirá de novo a força. E o “fait-divers” adquire a forma de uma tragédia sobre a condição humana. 

Manuel Cintra Ferreira 

OLHAR AS CAPAS

Ladrões de Bicicletas

Luigi Bartolini

Tradução: José Serra

Capa: JuSA

E-Primatur, Lisboa Fevereiro de 2026

Viver não é mais do que recuperar o que se perdeu. Pode-se recuperá-lo uma, duas, três vezes, como eu, que por duas vezes consegui recuperar a bicicleta. Mas há-de vir uma terceira vez em que já não recuperarei nada. O mesmo se diga, repito, da existência. É uma corrida para trás, até finalmente perder tudo ou morrer. Uma corrida para trás desde a infância! Sai-se da matriz e chora-se o cómodo leito perdido; o lactente, de olhos ainda cerrados, já procura, tacteia, com o nariz cor de pétala rosa, no seio da mãe, o doce e túrgido mamilo; depois, perdido o leite, procura a mão do pai para o guiar nos primeiros passos. Procura-se demasiadas coisas antes de morrer. E eu procurarei um rosto amigo e só encontrarei o rosto da Luciana, se o encontrar: o que seria, para as minhas últimas dores, já morrer com o sol diante dos olhos.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 O recorte é tirado da revista Visão de 12 de Março.

Mas um despacho da Lusa publicado no Público de hoje, diz-nos que o Ministério Público acusou o presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, e outros 22 arguidos, incluindo vereadores e funcionários, de peculato e de abuso de poder por gastos de 150 mil euros em refeições pagas pelo município. Os factos ocorreram durante os mandatos autárquicos de 2017-2021 e de 2021-2025, totalizando nestes períodos mais de 1400 refeições pagas indevidamente com dinheiro da autarquia.

MINHA MÃE QUE NÃO TENHO

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho    de carinho    de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

terça-feira, 24 de março de 2026

VELHOS RECORTES

O semanário Notícias da Amadora deixou-nos Dossiers em que reproduziu os artigos cortados, total e parcialmente, pela Censura.

Publicamos hoje um artigo de Orlando César:

 

OLHAR AS CAPAS


Elas Não Dão Por Ela

Traduzido do americano por Boris Vian

Versão Portuguesa: Regina Louro

Capa: António S.

A Regra do Jogo Edições, Lisboa 1982

Pois bem, ao reler as minhas notas, dá-me ideia de que nem uma vez me dirão que foi um tipo que estudou quem escreveu isto. Questão de vocabulário? Não. Na minha opinião é, sobretudo, falta de citações latinas.

NESTE DIA


Tempos da adolescência em que desatei a ler desalmadamente , e sem qualquer critério, os livros da Biblioteca da Casa: Eça, Camilo, Torga, outros.

Já o disse por aqui, Miguel de Torga não me trouxe o entusiasmo que outros autores me deram. Nunca o li com aquela paixão, aquele gosto, o que lhe quiserem chamar.

Foi um homem difícil, muitas vezes desagradável com os seus pares. Não autografava os seus livros, conta-se que terá recusado fazê-lo a Mário Soares, pois não abria excepções fosse a quem fosse, mas Mário Soares terá encontrado um livro em que Torga escrevera palavras a Maria Archer e confrontou-o com isso, mas Torga não se desmanchou e respondeu-lhe que as pernas de Maria Archer não se comparavam com as suas.  

José Saramago gostava de o ter conhecido melhor, Mário Cláudio escreveu que Torga foi «um solitário voluntário, um exilado no próprio país».

Morreu a 17 de Janeiro de 1995 com 87 anos.

Hoje, pego no último volume, que é 16º, do seu Diário.

Estamos no dia 9 de Dezembro de 1993 e Miguel Torga escreve:

«Coimbra, 9 de Dezembro de 1993 – E chega ao fim, com este volume, um livro que comecei a escrever um pouco estouvadamente há sessenta anos, e acabo agora com mais assento. Como é sabido ninguém conhece o dia de amanhã, e, pelo que me diz respeito, fui um mártir dessa incerteza. E iniciei o presente tomo quase seguro de que o não terminaria. O resultado está à vista: um estendal de dúvidas e gemidos. Mesmo assim, talvez valha a pena que se junte aos outros, como seu natural remate Mais do que páginas de meditação, são gritos de alma irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à exaustão. E se despede dos seus semelhantes sem azedume e sem ressentimentos, na paz de ter procurado vê-los e compreendê-los na exata medida. E que confia no juízo da posteridade, que certamente lhe vai revelar os muitos defeitos e ter em conta as poucas virtudes. De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.»

E já que por aqui estamos, registe-se, possivelmente, o seu último poema, escrito em 10 de Dezembro de 1993:

Requiem por Mim

«Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que dele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.»

SOPROU: NÃO TE APROXIMES

Soprou: não te aproximes

dos deuses

sem te acautelares. Ampara


o que não pode

senão amassar

o oculto pão da recusa.

 

E bebe, infinitamente

bebe

 

o estrondo repetido

de cada gota

 

caindo.

 

José Carlos Soares em Resumo: a poesia em 2013