Lembrar que, 3 vezes
por semana, ás vezes mais porque eles comiam vorazmente, ia de casa até perto
do Cine-Oriente buscar folhas de uma enorme amoreira que, por ali existia, para
alimentar os meus bichos-da-seda.
Os miúdos, hoje em dia,
de volta dos seus, ou alheios, telemóveis sabem lá o que são bichos-da-seda,
tê-los em casa, assistir ao evoluir até aos casulos que metia numa caixa de
sapatos que guardava na despensa.
Os
bichos-da-seda nascem geralmente no início da Primavera (por
volta de Abril), coincidindo com o aparecimento das primeiras folhas da
amoreira, que servem de alimento. Em regiões mais quentes, a eclosão pode
estender-se até maio ou junho.
Não que Patti Smith
fale de bichos-da-seda no seuPão de Anjos, mas pelas muitas memórias da
infância que ela transporta para o livro: «Deus sussurra através de uma prega
no papel de parede, uma gota de água a estalar como uma equação. A luz cai na
floresta. Um ancião sentado num barril canta Encontrei uma moeda de ouro num
campo, quem ma trocará» Uma criança responde-lhe. Talvez a minha boneca quando
a encontrar. Ela tem uma mala cheia de moedas», lembrei-me dos meus bichos-da-seda.
O maxilar de Samuel Spade era comprido e ossudo, o
queixo era um V saliente e sob o V mais flexível da boca. As narinas desciam
recortando outro V mais pequeno. Os olhos cinzentos amarelados abriam-se
horizontalmente. Espessas sobrancelhas que emergiam de duas rugas paralelas ao
cimo de um nariz adunco formavam novo V e o cabelo castanho adensava-se, a
partir de têmporas altas e lisas, no cimo da testa. Tinha o ar agradável de um
demónio loiro.
Será
tempo de dizer que gosto mais da escrita de Patti Smith do que das suas
músicas, canções.
Suponho
que isto deverá incomodar algumas gentes mas é o que me ocorre e cada vez, à
medida que a velhice avança, estou mais surdo, mais dado a disparatar.
Mas
é a própria Patti Smith que, numa entrevista disse: «reafirmei para mim mesma o
desejo de escrever — mais do que cantar, gravar, fazer shows. Ser uma escritora
é a coisa mais importante para mim. É o que me dá mais prazer e, também, me
exige mais esforço.»
«Tudo em nosso redor são destroços e, contudo,
avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele
primordial».
Uma
outra citação:
«Com a minha mãe e o
meu pai a trabalhar e os meus irmãos longe, ficava deitada sozinha com os meus
livros, bem aconchegada, a telefonia sintonizada na estação de música clássica
que o meu pai preferia. Por vezes, ouvia alguma coisa que me enchia de uma
emoção sem nome. Certa manhã, ouvi uma voz tão bela que me senti transportada
para outro reino. Anotei o nome da canção, uma ária da Madame Butterfly, e
escutava atentamente a telefonia, na esperança de tornar a ouvi-la.»
O livro, citado na badana, tem um feitiço poderoso, escreveu um crítico no The Guardian e eu apresso-me a concordar.
Que valor tem o sangue em comparação com as
necessidades de uma criança faminta? Onde se situam os nossos esforços na
balança do valor? O pergaminho desenrola-se, os anjos guiam a minha pequena
barcaça. Arrasto uma rede e retiro o casaco descartado, a pele, os amores,
células moribundas das marés do corpo de água. Vejo-me na tal varanda do Hotel
Suisse, uma simples escritora de férias, vestida de branco, a contemplar
fixamente uma mancha triangular no centro da baía. A vaga comichão regressa. O
que devo escrever e juntar? Prometo ser boa. Escreverei sobre uma rapariga que
encontra um pequeno espelho de mão pousado na relva. Gesticula na direcção
dessa mancha, tão distante porém tão próxima. Saltita alegremente, suspensa no
ar, e depois aterra, de braços estendidos. Bem-vinda, bossa rebelde, grita ela.
Eu sou tu.
A
pesca da sardinha reabre hoje após quase cinco meses encerrada, mas com um
limite de 33.446 toneladas para a frota portuguesa, confirmou o Ministério da
Agricultura e Mar.
«Cada vez que o Estado
falha, faz um plano. Cada vez que esse plano falha, faz outro plano. Quando
esse falha, faz-se um plano para coordenar os planos anteriores. Uma matrioska
de planos.»
Mariana
Leitão, líder parlamentar da Direita Liberal sobre o PTRR.
Pelos idos de
67, o Em
Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito,
enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no
programa.
O prémio consistia
numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a
realização do programa feito por nós e dito por mim.
Por esses
tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber,
quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico
Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.
Esgalhei um
arrazoado sobre essas músicas.
Os rapazes
gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.
Lamentavelmente,
perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda
está por aqui, como peça de museu.
Foi um belo
pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido
feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo
eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele
seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e
mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.
Como convidado,
alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas,
hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The
Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson
Airplane.
Disseram-me que
aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.
Numa das
conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para
apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a
maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.
Falei-lhe,
então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar uma
sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também
participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.
Acertámos em ir
falar com o Adriano.
Assistimos ao
concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns
queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa
serena com o Adriano.
Só que o Adriano
era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António
Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava
num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia
dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano
esqueceu a conversa.
Nada havia a
fazer.
Eu, o João e a mulher
regressámos a Lisboa no seu Carocha.
Não houve mais
oportunidade de voltar ao assunto.
Poucas semanas
depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.
É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a
ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em
valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos
Messias do oportunismo e da mistificação.
Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular
portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.
Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos
para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua
transmissão através de "Em Órbita" acarretam.
Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um
português tocado e cantado por portugueses.
Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo,
focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e
vocais.
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente
inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma
história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros,
desenfeitados.
Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular,
pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do
nosso país.
É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.
Nunca soube de
como se chegou ao Quarteto 1111.
Uma coisa é
certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.
Legenda: a capa
do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.
Milhares
de mães não desculpam a Igreja por ter passado o Dia da Mãe de 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição,
para o primeiro domingo de Maio.
Segundo
o Instituto Nacional de Estatistica, o
número de crianças nascidas em Portugal aumentou 3,7% no ano passado, para
87.764, sendo que cerca de um terço dos bebés são filhos de mães estrangeiras.
anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).
«O meu ponto é apenas chamar a atenção para um facto
chocante. Há quatro anos, convocados a escolher entre Montenegro e Moreira da
Silva para liderar o PSD, 26.975 militantes não hesitaram e votaram
massivamente no agora primeiro-ministro. O resultado foi claro: 72,5% para
Montenegro e uns curtos 27,5% para Moreira da Silva.
Há um fosso que separa Moreira da Silva de Montenegro: um tem carreira
profissional, percurso internacional (na Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico e, agora, na Organização das Nações Unidas) e
experiência governativa; o outro tem um passado apenas tribunício,
complementado, sabemos agora, pela promoção de uma empresa familiar com uma
carteira de clientes intimamente ligada ao seu percurso partidário regional.
Porque escolheram, então, os militantes do PSD Montenegro? Não foi certamente
por questões de posicionamento ideológico: Montenegro opunha-se a Rio, mas
escolheu para coordenar a sua moção o autor da moção do anterior líder, o agora
ministro Miranda Sarmento. Os motivos são outros. No que é uma lei de ferro, os
partidos de poder fecharam-se, desligaram-se da sociedade, não estão
interessados em líderes com percursos autónomos, e os critérios que organizam
as escolhas internas dependem de uma teia de cumplicidades irrelevante — quando
não perniciosa — para a governação, mas decisiva para conquistar o aparelho.
O desfecho não poderia ser outro: entre Moreira da Silva e Montenegro, a
escolha foi clara. Não surpreende, depois, que os resultados sejam os que se
veem — sobre Gaza, sobre Trump e Putin, e na governação do país.»
Será Bella Ciao,
ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda
Conta a
Wikipédia:
«"Bella
Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino
global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani
contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a
letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que
antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»
A provável letra original da canção tem como
tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:
Stamattina mi
sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato
I'invasor!
A lavorare
laggiù in risaia
Sotto il sol che
picchia giù!
E tra gli
insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi
tocca far!
Il capo in piedi
col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a
lavorar!
Lavoro infame,
per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a
consumar!
Ma verrà il
giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in
libertà!
Tradução em
português
Esta manhã, eu
me levantei, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, esta manhã, eu me levantei
e encontrei um
invasor!
Para trabalhar
lá no arrozal, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal
Sob o sol que
nos derruba!
E entre os
insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,
Um trabalho
pesado que tenho que fazer!
O chefe está de
pé com uma vara, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! O chefe está de pé com uma vara
E nós curvados a
trabalhar!
Trabalhe infame,
por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro
E tua vida a
consumir!
Mas chegará o
dia em que todos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,
trabalharemos em
liberdade!
A versão
partigiana
Stamattina mi
sono alzato,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi
sono alzato,
ed ho trovato
l'invasor.
O partigiano,
portami via,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano,
portami via,
ché mi sento di
morir.
Se io muoio da
partigiano,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da
partigiano,
tu mi devi
seppellir.
E seppellire
sulla montagna,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire
sulla montagna,
sotto l'ombra di
un bel fior.
E le genti che
passeranno,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che
passeranno,
Ti diranno «Che
bel fior!»
«Questo fiore
del partigiano»,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore
del partigiano,
morto per la
libertà!»
Tradução em
português
Nesta tradução,
a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe
a um invasor externo ou a um exército de ocupação.
OS
MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE
Se
agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria
que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra
bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25
não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de
Maio.
Dirá
então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer -
obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava.
Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de
miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias
luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.
Já
foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os
pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em
Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem
diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos
políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores
querem voltar e pedem amnistia,
Tomás
e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras
brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.
Neste
dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os
portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de
Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.
Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o
assinalar,
se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra
bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.
De repente, recordo-me
de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha
maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava
em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.
É
o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.
Ultimamente
tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma
Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.
Conhece-lhes
a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as
dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o
ímpeto de escrever como fuga à morte.
Correndo
atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro
livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me
interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais
devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha
eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a
eternidade de cada um de nós».
Liberdade e Paixão começa assim:
«Faz
com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a
ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a
rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o
cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as
roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência
de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo
do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas
nos caminhos».
Marguerite
Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura
fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.
«Não lhe interessam os
aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos,
ignorantes.»
«Aí está! Morrerei
cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados
gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também
me ensinaram que não valho quase nada.»
Das
dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias,
Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.
Yourcenar
conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios
extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito
nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir.
Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta
teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»
Há
gentes assim, repletas de loucas magias.
Lembro
o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em
mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».
Um
dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:
«Na América vivia numa
casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à
água.»
Tempo
de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:
«A partir de certa
idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os
apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»
Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.
Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo,
variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador
e uma capacidade sempre esfomeada por livros.
O actor Jimmy Kimmel,
dois dias antes dos disparos no Hotel Hilton contra Trump & Cª, no seu
programa televisivo de humor, fez uma piada ao casal Trump.
O monólogo do comediante teve um sketch em que se simulava a presença do
Presidente e da primeira-dama no Jantar de Correspondentes da Casa Branca, e
nele o humorista saudou ficcionalmente a beleza da primeira-dama dizendo —“Sra.
Trump, tem um brilho como uma viúva de esperanças, ou se quiserem viúva
expectante".
No dia seguinte
ao interrompido jantar, Melania Trump escreveu no X que Kimmel é “cobarde” e
que a ABC devia tomar medidas, por seu turno Trump na sua rede TruthSocial que a piada de
Jimmy Kimmel foi um "apelo à violência", rematando que deveria ser
imediatamente despedido pela Disney e pela ABC.»
Jimmy Kimmel respondeu ao casal Trump esclarecendo que a piada pré-tiroteio “não
foi um apelo ao assassinato e eles sabem”
“Obviamente, era uma piada sobre a diferença de idades entre eles e a expressão
de alegria que vemos no rosto dela sempre que estão juntos. Era uma brincadeira
leve sobre o facto de ele ter quase 80 anos e ela ser mais nova do que eu. Não
era — de todo — um apelo ao assassinato."
Trump para além
de inculto e estupido, é um tipo indecente que nem sequer tem uma pontinha que
seja de sentido de humor.
Abençoados
cidadãos norte-americanos que presentearam o mundo com semelhante aberração!
«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O
Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume destes Cadernos. Melhor do que
outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter
compreendido porquê e para quem ando eu a escrever estas sinceridades. Ao
postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção
de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça
o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando
os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver
com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em
Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de
literatos marginais e de escritores malditos que nem chegam aos calcanhares
do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes
expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado permanece desconhecida
fora das fronteiras.»
«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa,
talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo
aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são
certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido por Luís Pacheco é ser vacinado contra o
grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a
metro para os prémios e outros afins.
Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e
do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito
sendo muito feliz.»
João Carlos
Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos
«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»
Luiz Pacheco
numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005