quinta-feira, 16 de julho de 2026

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Um texto de José António Barreiros sobre a Seara Nova:

Não sei se é uma tristeza ou uma vergonha. Aqui fica o aviso, avisei-me a mim próprio esta tarde. Daqui a pouco começa a quietude do entardecer. Naquele tempo, aos sábados, talvez por ser a hora da tristeza, eu lia. Hoje, que escrevo, não sei se o meu mundo estará melhor.

Apesar da negritude cultural em que a ditadura de Salazar mergulhou o país, apesar do cinzetismo que foi a ditadura de Marcelo Caetano, esse estranho equivoco que deu pelo nome de primavera marcelista, existiam pequeninos faróis que serviam de porta-aviões onde fomos descortinando algo, principalmente nas entrelinhas. Apesar de tudo havia uma oferta cultural que fez algumas diferenças, só possíveis à teimosia e coragem de alguns intelectuais. Jornais e revistas conseguiram furar o cerco da ignorância, da solidão, do despotismo, do medo, sobretudo do medo.

Do Sótão tirou algumas dessas revistas que lhe acompanharam os dias daqueles tempos. Começa pela “Seara Nova”, uma revista fundada em Lisboa em 1921. O primeiro número saiu em 15 de Outubro desse ano, por iniciativa de Raul Proença a que se juntou um naipe de intelectuais portugueses onde, entre outros, pontificavam António Sérgio,, Câmara Reys, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão. Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos. Recusaram ser partido político apenas pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.

Apesar das vicissitudes resultantes da censura e das dificuldades financeiras que o projecto atravessou, publicou-se regularmente até 1989. O seu último número corresponde aos meses de Outubro/Novembro desse ano e tem o número 1596/1597. Custava 30$00 e o seu director era Ulpiano do Nascimento.

No editorial deste último número regular da Seara Nova, já se dava conta que a revista abandonara a sus periodicidade e vivia as dificuldades sentidas por milhares de pequenas e médias empresas ao mesmo tempo que se estudavam medidas tendentes a sanear financeiramente a empresa, de forma a poder viabilizar-se o projecto patriótico e humanista que a Seara Nova se impôs.
Não foi possível. A ditadura nunca conseguiu calar a voz à “Será Nova”, os novos tempos democráticos permitiram-no.

Este é o número mais antigo da “Seara Nova “ que possui, referente aos meses de Novembro/Dezembro de 1957 e com os números 1345/1346. Era director Câmara Reys e custava 5$00. A meio da primeira página pode ler-se “VISADO PELA COMISSÃO DE CENSURA” e, entre outros, regista colaboração de Fernando Piteira Santos, João de Barros, Victor de Sá, Mário Sacramento, Lilia da Fonseca, José-Augusto França. aso números 1345/1346
Porque é um documento histórico transcreve-se a Declaração de Princípios, publicada no primeiro número da revista:

“O GRUPO SEARA NOVA:
- não lisonjeará nenhuma classe da sociedade
- não dará a nenhum dos seus aderentes qualquer beneficio de ordem pessoal
- não pretende o poder, mas preparar as condições necessárias de todo o verdadeiro poder
- quer a Revolução mas não aplaude as revoluções
- quer semear em proveito colectivo, e não colher em proveito próprio
- não se limita a prosternar-se perante as glórias passadas da Pátria: quer criara para a Pátria uma nova glória
- não olha o passado, marcha resolutamente para o Futuro.
- não se limita a glorificar os mortos heróis: quer que apareçam os heróis vivos.
- não fará festas, nem lançará morteiros. Dirige todos os esforços para a acção, e para a preocupação do dia de hoje e de amanhã.”

Legenda: 1º número da Seara Nova , imagem tirada da Internet.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


A Biblioteca da Casa possui, devidamente encadernados, os números da Seara Nova desde o nº 1400 (Junho de 1962 até ao nº 1597 (Novembro 1979), um total de 8 volumes.

Os primeiros dois volumes foram encadernados com o amadorismo do meu avô, os restantes foram encadernados por um grupo de reformados da Companhia Nacional de Navegação, que assim ocupavam os seus tempos livres, e completavam, com uns escudos, as baixas reformas.

Dados tirados da Wikipédia:

«A Seara Nova é uma revista fundada em Lisboa, no ano de 1921, (15 de Outubro de 1921) por iniciativa de Raul Proença e de um grupo de intelectuais portugueses da época.

Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos.

O grupo de intelectuais reunidos em torno do projeto editorial definiram-na como "de doutrina e crítica", tendo como objetivo, como se lê no editorial do N.º 1, datado de 15 de outubro de 1921, ser de poetas militantes, críticos militantes, economistas e pedagogos militantes.

Com a publicação pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.

Depois da implantação da Ditadura Nacional surgida da Revolução Nacional de 28 de Maio de 1926, o grupo da Seara Nova, a que atualmente se usa atribuir a designação de seareiros, não obstante a censura e as dificuldades financeiras, assumiu-se como um dos grupos mais ativos no combate ideológico contra o salazarismo.

Nos seus anos iniciais o projeto reuniu alguns dos principais nomes da intelectualidade do tempo, com destaque para Jaime Cortesão, Raul Proença e António Sérgio, mas também, entre outros, Raul Brandão, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, António Ferreira de Macedo, Cabral do Nascimento e Augusto Casimiro. Após estas vicissitudes e múltiplas entradas e saídas de colaboradores, a revista perdeu o prestígio de outrora e já pouco significa enquanto movimento social atuante.

Desde 2015, o seu nome está consagrado na toponímia de Lisboa através da Rua Seara Nova, que foi inaugurada em maio de 2017 na Urbanização Nova Amoreiras (antiga Quinta do Mineiro), na freguesia de Santo António.

A revista prosseguiu com a sua publicação, embora nem sempre regularmente, até ao ano de 1979, atingindo então o número 1598/1599. A partir daquele ano, passou a publicar apenas um exemplar anual para assegurar que, face à lei portuguesa, o título não caducasse, assim se mantendo até ao ano de 1985, quando reapareceu com uma nova série. Agora como revista trimestral, a partir da edição do Verão de 2004 a publicação retomou a anterior numeração, incorporando posteriormente todas as edições entretanto feitas.»

Nem sempre a encontro, mas quando isso acontece, compro.

Três revistas completaram o curso cultural e político da casa: a Seara Nova, a Vértice e O Tempo e o Modo (esta apenas esporadicamente).

OLHAR AS CAPAS


 Seara Nova

Nº 1775/Julho 2026

Director: João Luiz Madeira Lopes

Capa: Óleo sobre tela de Artur Bual

Seara Nova Editores, Lisboa Julho de 2026

E, todavia, vale a pena ter um Tribunal Constitucional. Não porque seja o tribunal dos direitos que imaginámos, mas pelo que ele verdadeiramente é: o Guardião da integridade objectiva da Constituição, um árbitro que impede que a maioria do momento disponha livremente do pacto de abril. Num tempo em que, por toda a parte, se elegem democraticamente os que corroem a democracia por dentro, ter um órgão que vincula o poder ao texto fundamental, que barra o arbítrio e obriga à fundamentação, não é supérfluo, é uma defesa importante.

Mariana Canotilho

NOTÍCIAS DO CIRCO

Governo a dois tons: Montenegro acusa professores, Fernando Alexandre pede desculpa
A polémica em torno do processo de classificação digital dos exames nacionais tem levado a mudanças de tom no Governo. Luís Montenegro apontou o dedo, na terça-feira, à "resistência" de alguns professores ao processo de digitalização. Um discurso que contrasta com o do ministro da Educação, que, nesta quarta-feira, voltou a pedir desculpa aos docentes, e que é diferente do utilizado pelo próprio primeiro-ministro nas primeiras intervenções sobre o caso, quando procurava tranquilizar as famílias, prometendo o empenho do executivo. Também Fernando Alexandre mudou o tom: se agora pede desculpa, começou por falar em "imprudência" de pais e criticar quem desde o início do processo já antecipava um desfecho negativo.


Joana Mesquita no Público

LEDA SERENIDADE DELEITOSA

Leda serenidade deleitosa,
que representa em terra um paraíso;
entre rubis e perlas doce riso;
debaixo de ouro e neve cor-de-rosa;

presença moderada e graciosa,
onde ensinando estão despejo e siso
que se pode por arte e por aviso,
como por natureza, ser formosa;

fala de que ou já vida, ou morte pende
rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
repouso na alegria  comedido:

Estas as armas são com que me rende
e me cativa Amor; mas não que possa
despojar-me da glória de rendido.

Luís de Camões em Sonetos

quarta-feira, 15 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão.

Gabriel Garcia Márquez 

TRUMPALHADAS

A jornalista Jean Carroll recebeu uma indemnização de cerca de cinco milhões de dólares atribuída num processo contra o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mais de três anos depois de um tribunal o ter considerado responsável por abuso sexual e difamação.

O montante, depositado numa conta de garantia do tribunal enquanto decorriam os recursos apresentados por Trump, foi entretanto transferido para os advogados de Carroll. Segundo os documentos judiciais, o pagamento totalizou 5.625.005,48 dólares (cerca de 4,9 milhões de euros), com juros.

OLHAR AS CAPAS


 Man Ray

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

 «A fotografia é uma maravilhosa descoberta dos pormenores que, sem ela. A noss retina nunca poderia registar».

\

NOTÍCIAS DO CIRCO

O que se está a passar com Luís Neves, ministro da Administração Interna, é uma aberração.

Como é que se podem cometer erros tão primários?

Poderão admitir-se coisas destas ao Zé da esquina, nunca a um homem que passou tantos anos a trabalhar na Polícia Judiciária e, agora, é um ministro de que se esperava outros sinais, não o quase imitar o desastre da Spinumviva do Luís, agora sem dar palavra do que quer que seja, aparentemente perdido no meio de teias futebolísticas.

Tudo isto resulta em mais um prego no caixão dos «políticos são todos iguais!...»

VEJO PASSAR OS BARCOS

Vejo passar os barcos

sob a chuva

 

Sentado sobre a ausência

 

Nenhuma boca

pronuncia o

nome

 

De mãos vazias

vejo passar

os barcos

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha

terça-feira, 14 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Desde que há mundo que os políticos têm dificuldade em compreender o jornalismo.

Bárbara Reis

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Um livro, quase, inédito de poemas de António Lobo Antunes, que o escritor, que sempre lamentou não ter sido poeta foi escrevendo ao longo da vida, foi publicado em Junho pelas Publicações Dom Quixote.

António Lobo Antunes, poeta?

Não na exacta palavra, mas são versos, versinhos, coisinhas, chamava-lhe “letrinhas de cantigas” que, no dizer de Vitorino, foram escritos, a BIC, nas toalhas dos restaurantes que, que uma vez por semana, visitavam com incidência primeira nos Moínhos da Funcheira:

 «E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?

Quando digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por

- Meu querido

nos traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes

Com pena da gente a empregada diz

- Meus queridos

e  soma-nos a conta na toalha».

Adianto já que, algumas crónicas do António Lobo Antunes, são verdadeiros poemas. 

Leiam-nas, por favor!

OLHAR AS CAPAS


Livro de Poemas

António Lobo Antunes

Prefácio: Vitorino Salomé

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2026


Este Fio de Ouro

 

Este fio de oiro ao pescoço

É sinal de que me amas

Mesmo que queira não posso

Ir atirar-me a um poço

Só porque tu não me chamas.

Se chamares talvez eu venha

Ou talvez fique parada

Que o amor é um perde-ganha

E por mais sorte que eu tenha

Ainda não ganhei nada.

Perder sim sei o que é

E no entanto estou aqui.

Vou continuando de pé

Mesmo que a vida me dê

Razões para fugir de ti.

Este fio de oiro afinal

Não é um sinal nenhum

Por meu bem ou por meu mal

Não sou pitada de sal

Que tu tomes em jejum.

E portanto meu amigo

Decide a tua vidinha:

Se és homem fica comigo

E se não ficares te digo

Que me sinto bem sozinha. 

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS

Mais Greguerías de Ramón Gómez de la Serna: 

Quando o comboio acaba de passar ao sol-pôr, dá ao rabo alegremente

Mexia nas chaves de dentro do bolsos para chegar a casa mais cedo.

Quando a navalha do barbeiro apara a nuca, o cliente guarda um minuto de silêncio.

No bilhete de ida e volta, receamos que nos furem a volta em vez da ida, obrigando-nos a voltar às avessas, começando por ir outra vez para de novo voltar.

Ressonar é comer ruidosamente sopa de sonhos.

Quando sentimos um pé frio e outro quente, suspeitamos que um dos dois não é nosso.

Há casais que dormem de costas para não roubarem um ao outro os sonhos ideais.

O que define as mulheres é pensarem que todos os homens são iguais, enquanto que o que perde os homens é crerem que todas as mulheres são diferentes.

Falar ao telefone: fumar cachimbo pelo ouvido.

As recordações encolhem como as camisolas.

O cinema nasceu quando as nuvens paradas das fotografias se puseram a mexer.

S não fôssemos mortais, não podíamos chorar.

AMANTES

sem casa um beco de vento os chama

céus seus a solidão o silêncio o

segredo tremendo que boca de incêndio

os traga

e solta na noite irrestrita vasta

 

céus seus a inconvenção a demora

o denodo furtado ao mito denso

de que o amor se faz—e é—agora

alegre

trilo mútuo sopro recomeço

 

stacatto em loop ao fio do disco

céus seus o risco o riso o raio aí

acaba

a língua rompida cantando o atrito

veloz tristitia do fruto aberto

 

selo

a tenra polpa soluçante ao grito

céus seus o sismo a fita telepática

tão impante falta que falo nihil

placet inestimável nu abjeto

belo

 

ó Paixão rasgo impérvio e lasso

ato

espelhado com colapso sedutor

à escarpa—de onde raro em rigor

se morre ou se tanto só no palco

a luz a paga

 

e cobra

que ávida no tal morro se contrai

morderá sarará escalada dobra

céus seus o susto a vista a vertigem

se se cai

e se resvala céus seus a corda


 Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto

segunda-feira, 13 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Não concebo a vida sem humor; até quando sou eu o motivo de riso.

Inês Meneses

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 A pacata vida intelectual portuguesa funciona entre os artistas como vasos comunicantes. Somos uma pequena banheira e entre editores e escritores há uma troca habitual de favores.

Neste Somos Livros, Francisco José Viegas debruça-se sobre um livro de Gerald Murnane publicado pela Relógio d’Água. Apenas conheço o autor de nome e o que li levou-me a interessar-me pelo livro e debrucei-me sobre o catálogo da Relógio d’Água:

Sobre As Planícies, de Gerald Murnane

 «Aos 87 anos, Gerald Murnane continua a ser o mais provável candidato australiano a juntar-se ao panteão do Nobel, onde já está o seu compatriota Patrick White, vencedor em 1973. […]

Murnane é um autor das vastas extensões australianas, de onde na verdade nunca quis sair. “As Planícies”, de 1982, provavelmente a sua obra-prima e texto mais conhecido, prova-o à saciedade. Trata-se de uma narrativa estranha, esquiva, sempre a deslizar-nos nas mãos, sobretudo quando pensamos que finalmente a agarrámos. […]

O prodígio de “As Planícies” está na forma como Murnane consegue arrancar tanta coisa de quase nada.» José Mário Silva no Expresso de 10 de Abril de 2026.

«Nos seus vastos terrenos, as famílias proprietárias das planícies preservaram uma cultura rica e singular. Obcecadas pelo próprio habitat e pela sua história, contratam artesãos, escritores e historiadores para registarem, com o máximo pormenor, todos os aspetos das suas vidas e da natureza das suas terras.

Um jovem cineasta chega às planícies, na esperança de dar o seu contributo para a elaboração dessa história. Numa biblioteca privada, começa a tomar notas para um filme e escolhe a filha do seu mecenas para o papel principal. Vinte anos mais tarde, inicia o relato da sua inquietante história de vida nas planícies.                                                                  

«O maior escritor vivo da língua inglesa de que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.» [The New York Times]

«Murnane, um génio, é um herdeiro digno de Beckett.» [Teju Cole]

«A convicção emocional é de tal intensidade, o lirismo sombrio de tal forma comovente, a inteligência por detrás das frases lapidadas tão inegável, que suspendemos toda a incredulidade.» [J. M. Coetzee]

«Como em Proust, a especificidade das imagens que persegue e cataloga proporciona um prazer próprio. Mas o efeito da sua escrita reside menos nas imagens em si e mais na forma como o pensamento funciona na mente humana.» [The Guardian]

Gerald Murnane, nascido a 25 de fevereiro de 1939, é um romancista, contista, poeta e ensaísta australiano. Sobretudo conhecido pelo romance As Planícies, publicado em 1982, conquistou reconhecimento pela sua prosa distinta que explora a memória e a identidade, frequentemente esbatendo as fronteiras entre ficção e autobiografia.»

Sobre o livro e o autor retenho uma frase de Francisco José Viegas:

«O estilo tardio e descarnado de Murnane não tem enredo, nem personagens, só memórias e reflexões do narrador. E não pretende mostrar o mundo como ele é, mas como ele nos “parece”, neste caso “lhe parece”, o mundo através da mediação das mente e da memória.»


OLHAR AS CAPAS


 Somos Livros

 Nº 43 - Verão de 2026

Revista da Bertrand Livreiros

Periodicidade: Trianual.

Revista gratuita

Ultimamente estamos a apanhar com um tsunami Valter Hugo Mãe.

Entrevistas numa série de jornais de que não anotei as procedências, as datas.

Alguma coisa me está a falhar… mas também nunca li qualquer livro de Hugo Mãe…

No mesmo número da revista um outro rapaz aparece: Francisco José Viegas. Também surge por todo o lado, é director da revista Ler do Círculo de Leitores, editor da Quetzal, escreve uns postais no Correio da Manhã, também assessor cultural do Presidente José António Seguro.

Faz uma abordagem ao livro do escritor australiano Geral Murnane e o seu livro As Planícies, publicado pela Relógio D’Água.

Sobre o escritor:

«Não vê televisão. Nunca andou de avião. Nunca saiu da Austrália. Não vê cinema. Escreve à mão e usa uma velha Monarch com mais de 60 anos».

À LUPA

No melhor pano cai a nódoa?

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, quebrou este domingo  o silêncio sobre a polémica que envolve as obras na sua propriedade privada em Odemira.

Tanto quanto se ouviu, apareceu mal preparado e sem colocar qualquer ponta de luz no túnel destas coisas extravagantes que acontecem qundo os governantes se colocam a jeito, sabe-se lá do quê.

Lembre-se o recente caso de Luís Montenegro ainda a percorrer o caminho das pedras.

NOTÍCIAS DO CIRCO

O Governo de Luís Montenegro nomeou, nos últimos dias, 14 dirigentes de topo para os centros distritais do Instituto da Segurança Social (ISS), a maioria dos quais tem ligações ao PSD. Estas nomeações acontecem na sequência da reestruturação do ISS, o que levou à cessação automática das comissões de serviço que estavam em vigor.

OS NOMES

 

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
— Tantos gestos, palavras, silêncios —
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer "Meu Deus, valei-me".

Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.
Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas


domingo, 12 de julho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Quando My Fair Lady foi um estrondoso êxito em exibição no esplendor do Cinema Monumental, apareceu este EP com versões de quatro canções do filme nas vozes de Simone de Oliveira e António Calvário.
As canções tiveram uma constante divulgação na rádio, mas nunca tive este disco.
Os parcos tostões não davam mesmo para tudo. 
Melhor dito: não davam para nada.
Encontrei o disco na Loja do Nuno Potes e coloco-o aqui.
Acho a capa uma delícia.
Simone e Calvário são acompanhados pela Orquestra de Jorge Costa Pinto e do Conjunto Sem, e cantam: 

A Rua Onde Mora Meu Bem - Eu Dançaria Assim - O Rei De Roma - Um Bocadinho Só.

Colaboração de Aida Santos





 

DITOS & REDITOS

Que ninguém trabalhe de sol a sol.

Não basta quereres ter a lua, mas não há outra forma de um dia ela ser tua.

Aquele que sabe, não fala; aquele que fala, não sabe.

O pior exemplo que os adultos podem dar aos mais novos: nada é para cumprir.

Descuidar os idosos, ignorar os deficientes.

Seria racista pensar que os estrangeiros não têm direito a ser parvos.

Cada caso é um caso.

A pensar na morte da bezerra.

Legenda: fotografia de Luís Eme

sábado, 11 de julho de 2026

SOLTAS


«Diziam que este ia ser o mundial de futebol da vergonha, e é, por causa dos presidentes do EUA e da FIFA. Nem vale a pena recordar as razões. Personagens como Trump e Gianni Infantino, ou o nosso cruzado André Ventura, são tão coiso que todas as palavras que possamos usar acabam por sair prejudicadas na sua dignidade e importância. Vale mais recorrer ao cartoon, como o do ilustrador Vincent L'Epée para a revista satírica suíça Vigousse, em que o rosto do Presidente americano aparece em forma de sanita aberta. O tampo é dourado, como o seu cabelo.»

Pedro Garcias no Público

1.

A água é um bem precioso, quase ninguém o considera ou protege.

Falta água em Almada.

O jornal coloca em título:  

«O Governo não pode esconder-se atrás da incompetência da autarca»

O Correio da Manhã publicou uma crónica:

«Foi tudo lamentável no maldito baile de máscaras ocorrido ontem em Almada. Claro que a responsabilidade por uma situação tão grave quanto a falta de água é necessariamente da autarquia. A presidente da câmara fica na galeria dos piores autarcas da democracia ao sujeitar a população a viver semanas sem água, sem qualquer plano para evitar o pior, sem a mínima noção do que é preciso fazer, pelos vistos com o drama ainda longe do fim. Mas a forma como o Governo procurou desligar-se do problema, endossando a culpa ao poder camarário, dessa forma partidarizando o drama da falta de água, não foi bonito. A saída de cena da ministra do Ambiente, quando Inês de Medeiros procurava fugir às perguntas dos jornalistas, abandonando a presidente da câmara à sua sorte, não foi uma cena edificante. Naquela circunstância, exigia-se trabalho de equipa, um plano de contingência imediato. As torneiras vão continuar sem água à espera de obras, muito bem. E o abastecimento de emergência? E o pedido de ajuda aos bombeiros para distribuírem água à população? E a solidariedade inter-regional, a articulação de um sistema de transporte de líquido de outras paragens? Até no Algarve, no pico da seca, entretanto minimizada pelas chuvas, e com a pressão do turismo no máximo, foi possível criar abastecimentos de emergência. O Governo não pode esconder-se atrás da incompetência da autarca de Almada. É sua máxima responsabilidade o bem-estar das populações.»

2.

«O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, admitiu numa entrevista ao Financial Times que o rearmamento europeu é uma excelente notícia para os EUA, uma vez que sustentará 195 mil empregos na indústria bélica americana.»

Lido em Abril,Abril

 

Legenda: fotografia de Luís Eme 

MÚSICA PELA MANHÃ


 Bonnie Tyler: uma bela voz e grandes canções.

Morreu aos 75 anos e são dela as canções desta manhã.