quinta-feira, 29 de outubro de 2026

COMEÇOS DE LIVROS


 O maravilhoso começo de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway:

«Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra já por oitenta e quatro noites sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente “salao”, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro»

O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta

Original é o poeta

que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta

noutro pasmo ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse um abismo

e faz um filho às palavras

na cama do romantismo.

Original é o poeta

capaz de escrever um sismo.


Original é o poeta

de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não é de lugar algum.

O que gera a própria arte

na força de ser só um

por todos a quem a sorte faz

devorar um jejum.

Original é o poeta

que de todos for só um.


Original é o poeta

expulso do paraíso

por saber compreender

o que é o choro e o riso;

aquele que desce á rua

bebe copos quebra nozes

e ferra em quem tem juízo

versos brancos e ferozes.

Original é o poeta

que é gato de sete vozes.


Original é o poeta

que chegar ao despudor

de escrever todos os dias

como se fizesse amor.


Esse que despe a poesia

como se fosse uma mulher

e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

RETRATOS

Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir n'um só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernaes lethal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) n'um só momento,
E sómente no altar amando os frades,

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Sahiram d'ele mesmo estas verdades
N'um dia em que se achou mais pachorrento.


Bocage em Sonetos

POSTAIS


 O postal não tem data, nem origem, mas tem texto:

«Olhando para o rosto dos miúdos, milagre de hoje, esperança de amanhã.»

Colaboração de Aida Santos

PEQUENOS CADERNOS

                              

Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

LÁPIDE NO FRIO DUMA PEDRA

«Morri…

E, em vez de me enterrarem na Lua,

longe da Guerra

e do Cárcere,

atiraram-me para aqui

onde o meu drama continua…

 

Pois hoje pertenço à Terra

e o planeta há-de vingar-se»

 

José Gomes Ferreira em Poesia II

terça-feira, 27 de outubro de 2026

PEQUENOS CADERNOS

Limpa-se o pó aos livros, limpa-se o pó aos discos, limpa-se o pó aos jornais.

O Outono é o tempo dessas limpezas.

Os jornais estão na arca, junto aos Pequenos Cadernos.

Nos jornais que por lá se encontram está um suplemento do Público: Fugas.

Está datado de 27 de Fevereiro de 2021.

Guardei o suplemento por mera curiosidade.

Alguns dos livros fazem parte da Biblioteca da Casa, a maior parte não estão por cá.

Entretanto fui desafiada para ir reproduzindo por aqui todos - eles disseram todos! – os livros que o Público apresentou.

Assim vai ser, e assim começo.

OLHAR AS CAPAS


O Velho Que Lia Romances de Amor

seguido de

Mundo do Sem Fim

Luís Sepúlveda

Tradução: Pedro Tamen

Círculo de Leitores, Lisboa, Abril de 1997

Com as primeiras sombras da tarde desatou-se o dilúvio, e poucos minutos depois era impossível para ver para além de um braço estendido. O velho deitou-se na rede à espera que chegasse o sono, agitado pelo violento e monocórdico murmúrio da água omnipresente.

Antonio José Bolívar dormia pouco. Quando muito cinco horas de noite e duas à sesta. Bastava-lhe isso. O resto do tempo, dedicava-o aos romances, a divagar acerca dos mistérios do amor e a imaginar os lugares onde aconteciam as histórias.

NOTÍCIAS DO CIRCO


O bornal do viajante que raramente é, está cheio, a transbordar mesmo, de gente que o desiludiu, sejam políticos, escritores, outras gentes.

Velho que já é, causa-lhe, agora, um certo engulho um tal Luís Neves, ministro da Administração Interna aqui do reino, antes polícia-mor da Judiciária do mesmo reino.

Mais ainda quando um tal Luís Montenegro, primeiro-ministro, também do reino, o mantém como horrível personagem governamental.

Conclusão básica:

O reino está ingovernável!

DIGO LISBOA

Digo: “Lisboa”

Quando atravesso – vinda do sul – o rio

E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse

Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna

Em seu longo luzir de azul e rio

Em seu corpo amontoado de colinas –

Vejo-a melhor porque a digo

Tudo se mostra melhor porque digo

Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência

Porque digo

Lisboa com seu nome de ser e de não-ser

Com seus meandros de espanto insónia e lata

E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro

Seu conivente sorrir de intriga e máscara

Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata

Lisboa oscilando como uma grande barca

Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência

Digo o nome da cidade

– Digo para ver.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


O mundo seria mais pacífico se fôssemos todos ateus.

José Saramago

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Ontem, mudou a hora no relógio da cozinha, também no velho despertador, tão velho como ele, que está na mesa de cabeceira ao lado de livros para ler.

Lembra-se que ainda não contou a história de, há muitos longos anos, não usar relógio de pulso, ou qualquer outro.

Há-de contar.

Por um destes últimos dias escreveu por aqui que os livros são muitos e após a 1ª leitura, voltamos a pegar neles, alguns para releituras, outros por circunstâncias várias.

Agora pegou em Por Saramago, por todos os motivos, um livro muito, mas mesmo muito bonito com que Anabela  Mota Ribeiro entendeu homenagear, em Novembro de 2018, o nosso único Nobel da Literatura e que começa assim: 

«Como uma pedra que faz círculos num rio de águas paradas. Uma reverberação lenta, um murmúrio longínquo e ainda assim audível. Tenho esta estranha sensação (de irrealidade) quando recupero a primeira entrevista que fiz a José Saramago. O escritor tinha 84 anos, o ponto de partida e columa da entrevista era um livro de memórias, a minha primeira pergunta apontava para uma despedida».

Lembra-se que esteve uma única vez com José Saramago, porque nunca o encontrou na rua, nunca foi a uma apresentação dos seus livros, estar na fila para um autógrafo, o encontro único aconteceu na Festa do Avante de 1977, aguardávamos vez para comer uma sandes de presunto, beber um copo de vinho da região, no pavilhão de São Pedro do Sul, terra do Carlos Carvalhas. Proveitosa conversa, apesar de curta, disse que estaria na cidade do livro para autógrafos. Já tinha todos os livros de Saramago, mas comprou O Ano de 1993, para aproveitar o registo do encontro e da conversa.

Agora vai reproduzir os sublinhados que fez no livro da Anabela Mota Ribeiro: 

 

A pergunta apontava para o que, em circunstâncias normais, comovia Saramago:

«Se for ali na rua com o seu marido, noivo, irmão, a sua mãe, e se você, ou um deles, lhe puser a mão no ombro, esse gesto tão simples pode comover-me. Não estou a afalar do abraço erótico.O abraço, os braços que rodeiam o corpo do outro, essa proximidade entre dois seres, comove-me. Comovem-me as grandes tragédias, silenciosas ou não. Sou realmente uma pessoa sensível. A gente com a idade torna-se mais frágil, está tudo à flor da pele, ao contrário daquilo que se crê, que com a idade se endurece. Pelo menos não é o meu caso.» (pág. 27).

«E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo qu escreve.” São pequenas glórias praticamente quotidianas.» (pág. 30).

«Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim ninguém me cala.

(…)

No outro dia estava na Itália e disse, com grande escândalo do Vaticano, que achou que era uma provocação infame, mais uma da minha parte, que o mundo seria mais pacífico se fôssemos todos ateus.»

(pág. 36).

«O Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: «A tua vida é um milagre.» E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.» (pág.38).

CONTINUA

Legenda: Ilda Reis, então mulher de Saramago, a filha Violante.


O IMPOSSÌVEL SONHO, ACONTECEU!


 O Brasil, após a vitória de Lula da Silva, canta nas ruas, dança, ri brinda.

É esse o tempo.

Outros se seguirão, de certeza muito complexos.

Lula da Silva disse, ontem, que irá modificar sua maneira de governar.

Esperemos que sim.

O traste Flávio Bolsonaro, vai exigir a anulação das eleições, e talvez peça refúgio em braços trumpistas!                                                                     

COMPANHEIRA TE CHAMAMOS

                                                                                  Para Maria Lamas


Porque trazes na voz a voz das companheiras
Companheira te chamamos

 

Porque no teu olhar se alargam os olhos que semeiam e vigiam
o sol a todas as alturas, o sol dos meninos e das colheitas
Porque nele se tornam mais límpidos os olhos das namoradas
Companheira te chamamos

 

Porque nele gelam as lágrimas do medo e da dor
Gelam e estalam desfeitas num pranto de calor

Porque nos teus olhos continuam acesos os olhos vendados de encontro às paredes

 

Porque trazes no peito o sopro das nossas irmãs
O sopro resoluto do trabalho, o verde e dourado sopro que branqueia o pão
O sopro das que amam
E amando crescem e envelhecem ao nosso lado
Das que amam
E amando tombam em cada dia num só momento por milhões partilhado

 

Porque caminhas na terra dividida
Por uma estrada aberta pelo esforço dos povos
Onde cada presença é um apelo e cada apelo uma conquista
Porque até o sol remoça na neve tranquila dos teus cabelos
E o vento sopra-te com a mesma força que a nós
Companheira te chamamos

 

Porque as palavras na tua boca
Têm a medida do mundo e a face dos mortais
Porque no teu ventre a fome e a vida se completam
Porque no teu rosto fala o tempo até nós
Mãe te chamaríamos
Companheira te chamamos.

Orlando da Costa

domingo, 25 de outubro de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


Algo está podre no reino da polícia portuguesa!

Títulos e palavras:

Polícia volta a avançar sobre manifestantes pacíficos em protestos pela habitação

Houve 31 detenções, 11 pessoas feridas de acordo com a PSP. Foram retiradas tendas.

Sinto vergonha do meu País: manifestante emociona-se a descrever intervenção policial durante protestos em Lisboa

31 pessoas foram detidas e pelo menos 11 ficaram feridas, na madrugada deste domingo

"O que eu vi foi força física para fazer cumprir a lei", afirma Luís Neves sobre carga policial nas manifestações pela habitação.

O presidente daquela coisa defende a intervenção da polícia nas manifestações e volta a criticar silêncio de Montenegro.

José Luis Carneiro exige ao primeiro-ministro que quebre o silêncio e que assuma "a sua responsabilidade".

O porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, defendeu que existiu proporcionalidade na resposta policial às manifestações desta madrugada pelo direito à habitação e acusou o secretário-geral do PS de irresponsabilidade e hipocrisia.

Afirmou ainda que o PSD recusa "uma falsa clivagem" entre a autoridade dos polícias e a liberdade de expressão dos manifestantes, dizendo que houve arremesso de objetos por parte dos segundos contra a polícia.

Em reação às críticas de José Luís Carneiro, que exigiu esclarecimentos ao primeiro-ministro, o porta-voz do PSD Bugalho disse que Luís Montenegro "não entra em torneios de conferências de imprensa" com deputados ou líderes partidários.

Alexandra Leitão, dirigente do PS, também pede a intervenção do presidente da República António José Seguro.

sábado, 24 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Falemos de casas como quem fala da sua alma,

Entre um incêndio,

Junto ao modelo das searas,

na aprendizagem da paciência de vê-las erguer

e morrer com um pouco, um pouco

de beleza».

Herberto Helder

SOLTAS

Brasil dividido: quando o destino de um país se decide nas redes sociais.

Chegados a isto, que mais há para dizer?!...

 

Sonhar mas um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender

Sofrer a tortura implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão

É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz

E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu, delirar e morrer de paixão

E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão

 

The Impossible Dream, versão de Chico Buarque de Holanda

 


HERBERTIANAS


Abordamos a página 15 de Biografia de Herberto Helder, em que João Pedro George aborda indícios do gosto de Herberto pela Arquitectura e copiamos:

«Talvez Herberto se tenha fixado na notícia sobre Os Arquitectos São Poetas Também, o título e o lema da exposição do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, sobre José Ângelo Cottinelli Telmo (que além de arquitecto era cineasta, bailarino, poeta e autor de banda desenhada, fotógrafo, ilustrador e músico).

Conhecendo-se a sua ligação à arquitectura (trabalhou com Tomás Taveira no atelier do arquitecto Francisco da Conceição Silva, tendo colaborado no projecto da loja Valentim de Carvalho, em Cascais, e conviveu de perto com José Trofa Real, quando vivia em Angola, e pensando na sua poesia escreveu uma «Ode aos Arquitectos.

 Herberto concordaria, decerto, com o texto que apresentava a exposição:»Cotinelli Telmo – autor do Padrão dos Descobrimentos – reclamava para os arquitectos o direito e a liberdade de afirmarem a sua subjectividade, de fintarem a racionalidade, de contornarem imposições imperialistas. E resumia o modo como entendia a arquitectura: em comunhão com todas as artes, com todas as disciplinas.»

Pensando na arquitectura, Herberto terá idealizado o poema Prefácio, primeiro poema de A Colher na Boca, publicado em 1961 que na publicação de Poesia Toda, editado pela Plátano Editora, aparece no conjunto Ofício Cantante.


É este o poema:

 

«Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder

tão firme e silencioso como só houve

no tempo mais antigo.

Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,

sorrindo com ironia e doçura no fundo

de um alto segredo que os restitui à lama.

De doces mãos irreprimíveis.

– Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,

as casas encontram seu inocente jeito de durar contra

a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta

do gosto, o entusiasmo do mundo.

Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio

admirável das fontes –

pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste

como fogo exemplar.

Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas

um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores

tenebrosas, e temos memória

e absorvente melancolia

e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,

espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos

que não viram as torrentes infindáveis

das rosas, ou as águas permanentes,

ou um sinal de eternidade espalhado nos corações

rápidos.

– Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam

pelos muitos sentidos dos meses,

dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,

para que se faça uma ordem, uma duração,

uma beleza contra a força divina?

 

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.

Alguém viera do mar.

Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.

Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,

inspirações.

– Estas casas serão destruídas.

Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente

no seu casamento solar, assim

se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,

vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos

da terra

onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos

múltiplas, as caras ardendo nas velozes

iluminações.

 

Falemos de casas. É verão, outono,

nome profuso entre as paisagens inclinadas

Traziam o sal, os construtores

da alma, comportavam em si

restituidores deslumbramentos em presença da suspensão

de animais e estrelas,

imaginavam bem a pureza com homens e mulheres

ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,

tocando uns nos outros –

comovidos, difíceis, dadivosos,

ardendo devagar.

 

Só um instante em cada primavera se encontravam

com o junquilho original,

arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres

da inspiração.

– E as casas levantavam-se

sobre as águas ao comprido do céu.

Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne

doce e obsessiva – tudo isso

está longe da canção que era preciso escrever.

 

– E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

 

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas

Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança

Nos abandona para sempre.

Casas são rios diuturnos, nocturnos rios

Celestes que fulguram lentamente

Até uma baía fria – que talvez não exista,

como uma secreta eternidade.

 

Falemos de casas como quem fala da sua alma,

Entre um incêndio,

Junto ao modelo das searas,

na aprendizagem da paciência de vê-las erguer

e morrer com um pouco, um pouco

de beleza».

Legenda: capa de A Colher na Boca de Herberto Helder, editado pelas Edições Ática em 1961, tirada da Internet.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


No fundo, no fundo, há certamente aqui alguém que escreve direito por linhas tortas. Amanhã. Viro a cabeça. Olho sobre o ombro para o horizonte. O clarão da cidade que nunca se apaga. Ou então é já o dia a anunciar, uma vez mais a sua chegada. Não sei. Tantas coisas que não sei.

Paulo Castilho em Fora de Horas

SÍTIOS POR ONDE OS AMIGOS ANDAM


 Do oriente vermelho, os amigos dizem-nos que também há pores-de-sol.

 E são lindíssimos!

CONVERSANDO

Os livros são muitos.

Após a 1ª leitura, voltamos a pegar neles alguns para releituras, outros por circunstâncias várias.

É o caso das cartas que Luiz Pacheco trocou com António José Forte: Mano Forte

Novembro de 1961, a lindíssima e genial Natália Correia, era assim referida pelo Pacheco:

«A Natália foi ontem para o Porto, com uma grande trupe de amantes dos dois sexos, parir o livro dela. É claro que eu, simples editor, fiquei com o pé no estribo e perdi a boleia em favor não sei de quem. Mas o livro sai para a semana e(espero). Assim, temos Contraponto a inaugurar a época com obras formiváveis!»

O livro da Natália Correia, é o 2º livro editado pela Contraponto: Cântico do País Emerso. O 1º foi  Comunicação em 1959.

A outra obra formidável publicada pela Contraponto, era  Poemaacto do Herberto Helder.

TRUMPALHADAS

 «A traição americana, que permite o sentimento de vitória russa, não é só perpetrada em relação à Ucrânia. A Europa que se obrigou a desistir do combustível russo também é vítima da traição..Quando se cumpriram quatro anos da invasão russa, escreveu-se aqui um editorial com o título: "A Rússia não está a ganhar." Exactamente nove meses depois, esse título está errado. Graças a diversas iniciativas norte-americanas, que, com propriedade, devem ser classificadas de “traição”, Putin tem justificadas razões para acreditar que a vitória é possível e poderá não estar assim tão longe.»

David Pontes no Público

HARMÓNIO

Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.
Trazes o harmónio,
a masculina
música roubada às fontes.
Não te esperava; só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte, que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Cantava e sacudia com um bater de asas a humidade da manhã. É absurdo, repito. Pois os mortos não escrevem.

João Miguel Fernandes Jorge

TRUMPALHADAS

Donald Trump é um ignorante nato, narcisista, mau e vingativo.

Como chegou a presidente dos Estados Unidos – duas vezes! – é caso para estudo, assim como a quantidade de adeptos e seguidores que tem pelo mundo.

Ontem, Donald Trump, voltou a insultar jornalistas ao chamar "tonta" a uma repórter da CNN e "estúpida" a outra profissional da ABC News, que lhe perguntavam sobre a libertação de um americano detido na Rússia.