segunda-feira, 19 de outubro de 2026

NOÍCIAS DO CIRCO

«Mais de mil imóveis, um valor patrimonial conjunto superior a 55 milhões de euros, mais de 807 mil euros de rendimentos prediais declarados e participações accionistas em dezenas de empresas do sector imobiliário. Assim se faz o retrato do património imobiliário dos 220 políticos que compõem o Governo e os grupos parlamentares do PSD, Chega, Iniciativa Liberal e CDS-PP. Este grupo, que conta com 41 senhorios e 31 investidores do sector imobiliário, tem vindo a aprovar uma série de medidas que beneficiam proprietários, incluindo alívios fiscais já em vigor e alterações às leis do arrendamento que estão prestes a ser votadas na Assembleia da República.»

Rafaela Burd Relvas, Público

As Caixas Chinesas

António Mega Ferreira

Capa: José Teófilo Duarte

Edições Rolim, Lisboa, Lisboa, Abril, 1988

As pás da ventoinha giram lentamente, com um ruído regular, seco. Devia ser alguma mola solta, uma após outra, as pás embatiam no obstáculo, abrandavam, depois retomavam o movimento. Martinho Dante viu o criado aproximar-se. Deteve-se junto `*a mesa, com as mãos cruzadas à frente do corpo. Marinho pediu com aplicação um gin tonic. O outro repetiu, como a certificar-se de que tinha ouvido bem: “Com água tónica?”

TRUMPALHADAS

Terá que se considerar definitivo.

Trump, aos poucos, e enquanto puder, está a cortar a ajuda à Ucrânia.

Agora bloqueou diversas sanções contra a Rússia, aprovadas em Congresso e que, em Setembro, transformara em lei.

Hipocritamente, afirmou que a suspensão dessas sanções atende ao interesse nacional dos Estados Unidos!...

Putin sorri e manda descer uma garrafa de champanhe.

O HOMEM DOS PÉS DOURADOS DE BARRO

Olho para ti e fico a pensar:

“tantas coisas que se esqueceram

de te dizer e de te ensinar”.

Não sei se cresceste antes do tempo ou

se foi o tempo que não te deixou crescer

 

Sei sim, que logo no começo de tudo

surgiu o dinheiro. Muito dinheiro!

Eram muitos, muitos tostões!

Descobriste que ele servia

para comprar mais coisas,

além do pão, da manteiga e do leite…

 

Depois empurraram-te

para o território dos deuses

e tu deixaste que pensassem

que eras muito mais

que um simples mortal

 

Mas ainda não estavas satisfeito.

Nunca estavas.

Querias sempre mais, mais…

 

E quem circulava à tua volta

em vez de te trazer de regresso à Terra

continuava a alimentar o teu ego

e a chamar-te “deus maior”.

 

Fingiam-se esquecidos

de que eras apenas um ser humano,

que os bonecos de cera estavam no 

 museu da madame qualquer coisa.

E a tua estátua na Madeira,

era apenas isso, uma estátua…

 

Esqueceram-te de dizer

que ninguém é maior que o mundo,

por mais talento que tenha…

 

Luís  Eme

sábado, 17 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A noite era de uma grande e escura delicadeza.

Clarice Lispector em A Maçã no Escuro.

TRUMPALHADAS

Donald Trump afirmou não ser um grande admirador do homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, considerando que é mais difícil negociar com o líder de Kiev do que com o Presidente russo, Vladimir Putin.

“Não sou grande fã de Zelensky”, admitiu o Presidente norte-americano, sublinhando que o presidente da Ucrânia “destruiu aquele país”. As declarações foram feitas numa entrevista à estação norte-americana Newsmax, na quinta-feira, e surgem num momento de crescente tensão entre Washington e Kiev, devido às divergências sobre a estratégia para pôr fim à guerra na Ucrânia.

“Zelensky não é uma boa pessoa com quem possamos negociar”, acrescentou.

O chefe de Estado norte-americano voltou também a criticar a decisão da Ucrânia de retomar os ataques contra refinarias petrolíferas russas, alegando que estas operações contribuem para a subida dos preços internacionais da energia.

Trump classificou os ataques como uma “vergonha” e defendeu que existem outros alvos militares que Kiev poderia atingir. O Presidente norte-americano questionou ainda a vontade de Zelensky em alcançar um acordo de paz com Moscovo e voltou a defender a realização de eleições na Ucrânia, adiadas devido à lei marcial em vigor desde a invasão russa, em fevereiro de 2022.

As declarações aprofundam o afastamento entre os dois líderes, depois de Trump ter sugerido, no passado fim de semana, que a Ucrânia deveria escolher um novo Presidente capaz de negociar o fim da guerra. “Sugiro-lhes que elejam um novo líder capaz de chegar a um acordo”, afirmou perante a imprensa na Casa Branca.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Este mundo é essencialmente antidemocrático, conflitual, com exclusão do “outro”, e legitimador da violência. Os direitos constitucionais da greve, da manifestação, não valem nada. E, mesmo quando há violação da lei por parte dos manifestantes, há uma completa duplicidade em relação às violações da lei, por exemplo, por parte do Chega. O que provocaria uma fúria nestes comentadores se o que fez Rita Matias ilegalmente em Coimbra, invadindo uma estação de rádio, fosse feito por um “esquerdalho”, ou se se vier a concluir que o “alegado” assalto ao gabinete de Ventura fosse mesmo “alegado”?

Este mundo é pobre, ignorante, agressivo, violento e muitas vezes cruel. É um mundo antipatriótico, anticristão, mas encontra pouca resposta numa denúncia clara do que ele significa. É só esperar algum tempo para percebermos a metáfora do “ovo da serpente”.

José Pacheco Pereira no Público


«Mais do que a liquidação progressiva – já de si criminosa – das liberdades e dos direitos das democracias liberais, é a violência que marca a extrema-direita como anunciadora de futuros fascismos. Por mais que Milei, Trump, Bolsonaro, Abascal ou Ventura se reclamem defensores da democracia (exigindo liberdade de expressão, moralidade política, justiça anticorrupção, etc., e procurando apresentar-se como verdadeiros democratas), eles destacam-se sempre no uso desbragado da violência, no insulto, no apelo à força excessiva na aplicação das leis e, por vezes, até à supressão física – de múltiplas maneiras – dos adversários (ou melhor, dos inimigos, porque, para eles, só existem inimigos)».


José Gil no Público

À LUPA

«Um regresso de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD e a eventual aliança política de governação com o Chega podem até vir a acontecer, mas isso significará o fim do PSD, que ajudou a construir a democracia portuguesa.»

São José Almeida no Público

OLHAR AS CAPAS


Ensaios

Tomo III

António Sérgio

Renascença Portuguesa, Lisboa 1932

Revejo a minha primeira ida ao Parlamento, como uma tela acinzentada num lusco-fusco de imaginação.

MÚSICA PELA MANHÃ


 

Os velhos, perante as insónias, aconselhavam a que se contassem carneiros.

As terríveis insónias!...

Vergílio Ferreira: Comum ouvir dizer-se que os velhos dormem pouco porque sabem que não tardará o dia em que dormirão infindavelmente.

Dennis McShade. «Durmo muito pouco, três ou quatro horas em cada noite. As noites são sempre longas, estiradas, e eu fico deitado na cama como num rio de silêncio, ouvindo o marulhar do próprio coração.»

Marcelo Rebelo de Sousa dizia que lhe bastava dormir quatro horas por noite.

Já ultrapassei os 80 anos, cada vez durmo menos e o pouco que durmo é uma treta, não presta para nada.

Qualquer zumbido de mosquito, desprega-me do sono.

Estúpidas insónias acometem-me quase todas as noites.

O médico de família receitou-me um comprimidinho indutor do sono mas evito tanto quanto possível entrar no hábito rotineiro.

Resolvo as insónias lendo livros, lendo livros, lendo livros…

Há uma lenda que suporta que Bach compôs as Variações Goldberg para combater as insónias,

Abençoadas insónias!...

O extraordinário poeta Jorge de Sena tem um livro a que chamou Arte de Música.

Este é o poema a que chamou BACH: VARIAÇÔES GOLDBERG:

«A música é só música, eu sei. Não há

outros termos em que falar dela anão ser que

ela mesma seja menos que si mesma. Mas

o caso é que para falar de música em tais termos

é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem

mostrá-lo ou sem querer havê-lo visto alguma vez.

Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música

for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,

nenhum silêncio recolhido nos persiste além

de alguns minutos. E não dura na memória como

silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala

a própria música que adora. Porque a música

não é silêncio mas silêncio que

anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.

Se os sons, porém, não são de devaneio,

e sim a inteligência que no abstracto busca

ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;

se tudo se organiza como a variada imagem

de uma ideia despojada de sentido;

se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos

que os grupos, e os grandes números, e as proporções

conhecem necessários; se tudo repercute como

em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem

um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;

se tudo se acumula menos como som que como pedras

esculpidas em volutas brancas e douradas cujos

recantos de sombra são um trompe-l’oeil

para que elas mais sejam em paredes curvas;

se uma alegria é força de viver e de inventar e de

bater nas teclas em cascatas de ordem;

e se tudo existiu na música para tal triunfo

e dele descende tudo o que de arquitectura

possa existir em notas sem sentido – COMO

não proclamar que essa grandeza imensa

não se comove com íntimos segredos (mesmo implica

que não haja segredo em nada que se faça

a não ser o espanto de fazer-se aquilo),

é como que uma cúpula de som dentro da qual

possamos ter consciência de que o homem é por vezes,

maior do que si mesmo. E que nada no mundo,

ainda que volte ao tema inicial, repete

o que só foi proposto como tema para

se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,

aquele tema torna não é para encerrar

num círculo fechado uma odisseia em teclas,

mas para colocar-nos ante a lucidez

de que não há regresso após tanta invenção.

Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.

Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,

para  sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque

o virtual de um pensamento se tornou ali

uma evidência: se tronou concreto.

Um concreto de coisas exteriores – e o espanto é esse –

Igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam.

Será que alguma vez, senão aqui,

aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto

de real e virtual serem idênticos, e de nós

não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de

nós termos sido música somente?»


MÚSICA PELA MANHÃ


 As nossas músicas de domingo homenageiam Maria Guinot.

Por ser de esquerda viu sempre as suas canções recusáveis ou pouco consideradas

A canção Silêncio e Tanta Gente venceu o Festival da Canção de 1981, apresentou-se no Festival da Eurovisão, mas, entre as banalidades costumeiras ficou em 11º lugar.



sexta-feira, 16 de outubro de 2026

RETRATOS


Na secreta raiz de algum poema

tu nasceste por dentro das palavras.

 

Cantar era para ti uma viagem.

Sentias a revolta, nervo a nervo,

como um pássaro ferido.

 

Neste tempo rasteiro e abafado,

guardavas o veneno precioso.

 

Ias para longe de mais e o tempo passa:

os milhafres do nojo prosseguiam,

rasgando a carne pura do teu sonho.

 

Matavas o silêncio.

Mas na sombra do tempo houve uma pausa,

um outono mais rápido,

um inverno mais súbito.

E as pétalas da noite desabaram,

corroendo o teu nome de grinaldas perdidas.

 

Rui  Namorado

O CANTO E AS ARMAS


ORFEU - STAT 003 - 1970

FACE 1

E De Súbito Um Sino (poema dito por Ruy Mendes) - Raiz (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - E A Carne Se Fez Verbo (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - E O Bosque Se Fez Barco (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Peregrinação (Adriano Correia de Oliveira) - A Batalha de Alcácer-Quibir (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Regresso (Manuel Oliveira/Adriano Correia de Oliveira)

FACE 2

Canção da Fronteira (António Cabral/Adriano Correia de Oliveira) - Por Aquele Caminho (José Afonso/Adriano Correia de Oliveira) - Canto Da Nossa Tristeza (Manuel Alegre/Luís Colaço) - Trova Do Vento Que Passa Nº 2 (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - As Mãos (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Post-Scriptum (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira)

Capa de J. Bugalho, acompanhamento à viola de Rui Pato.

Foram dois militares que gravaram este LP num estúdio de Campolide, em Lisboa: o aspirante a oficial miliciano de Cavalaria, Rui Pato, e o alferes miliciano da Polícia Militar, Adriano Correia de Oliveira.

O LP foi gravado em duas noites de patrulha de Adriano. Com a cumplicidade dos restantes militares, o jeep andava na ronda, enquanto o alferes pousava a pistola em cima do piano: o canto e as armas.

Testemunho de Luís Colaço, autor da música de "Canto Da Nossa Tristeza":

O poema "Canto da Nossa Tristeza" faz parte do livro do Manuel Alegre "O Canto e As Armas", sendo o único poema deste disco que não foi musicado pelo Adriano.

Musiquei-o em Lisboa, quando alguns dos meus camaradas nacionalistas angolanos que estudavam em Coimbra, foram presos pela PIDE, após a Crise Académica de 1969, incluindo o meu irmão Joca Colaço (já falecido), estudante do 2º ano de Medicina (colega do Rui Pato) e que também era um bom músico pop e tocava no conjunto Os Pops.

Nessa altura tive plena consciência de que teria de rapidamente sair clandestinamente de Portugal.

Tinha obtido o livro do Manuel Alegre e o poema que mais me sensibilizou, pela tristeza combatente que transpirava e que era semelhante à que eu sentia ao ter de abandonar tudo e todos - família, namorada, amigos, o último ano do curso de engenharia civil no I.S.T, os Álamos, o Rádio Clube Português, a editora Movieplay etc. - em prol das minhas opções ideológicas e nacionalistas, foi o "Canto Da Nossa Tristeza".

Musiquei-o com esse sentimento, daí a sua harmonia nostálgica tão bem interiorizada pelo Rui Pato no seu arranjo musical para o disco, com uma bela introdução e um solo de viola sensacional.

Obrigado meu grande amigo Rui!

Soube pelo técnico de som Moreno Pinto, da Polysom, que me contactou na Movieplay, onde eu era o Chefe do Departamento de Promoção, que o Adriano iria gravar com o Rui Pato um disco baseado nos poemas do livro de Manuel Alegre.

Desloquei-me no dia anunciado para a gravação (em finais de Fevereiro de 1970, se não estou em erro) aos estúdios da Polysom, em Campolide, disse ao Adriano (que chegou ao Estúdio fardado e armado de pistola à cintura) que tinha uma composição para o "Canto da Nossa Tristeza", poema que ele não havia musicado e propus-lhe que a cantasse no disco.

O Rui emprestou-me a viola dele, cantei-lhe a música "em bruto", ele gostou bastante e depois de ouvir a opinião do Rui Pato pediu-lhe para fazer ali mesmo os arranjos musicais que eu achei óptimos, e depois das outras faixas do disco terem sido gravadas a minha música foi finalmente gravada com o acompanhamento do Rui Pato!

Só grandes músicos conseguiam fazer tal proeza, com tanta qualidade e em tão pouco tempo!

Do que me recordo, todo o disco foi gravado em menos de 24 horas! Uma obra…

Começou de manhã e só acabou alta madrugada quando todas as faixas tinham sido gravadas! E eram 13! Os arranjos musicais do Rui Pato iam sendo feitos música a música, logo seguida da respectiva gravação. Assisti a todas as gravações e no final ouvimos tudo seguido, bem cansados! Só voltei a ouvi-las 2 anos depois! Já nem me lembrava delas.

Esta gravação foi em Março de 1970 e por isso situo a gravação de "O Canto E As Armas" no final de Fevereiro de 1970. Mas, como já disse, já lá vão muitos anos…Uma coisa é certa: o disco não foi gravado em 1969 como por lapso aparece no disco.

Só ouvi pela primeira vez o disco já editado, em 1972, em Argel, nos estúdios da Radiotelevisão Argelina, onde era gravado o programa do Manuel Alegre “A Voz da Liberdade”.

Era um Long Play (LP) com a capa da “manifestação estudantil de 1969” e um pequeno texto “muito cuidadoso” do Adriano, sem falar nunca do Manuel Alegre, para não alertar a PIDE (DGS) e o disco ser confiscado.

Acompanhei pessoalmente o Adriano nessa música, pela primeira e única vez, em Luanda, em 1976, logo após a Independência de Angola, quando ele cá veio com o Zeca Afonso, por proposta minha, a convite do Governo angolano, acompanhado do Fausto.

Saí clandestinamente de Portugal em Abril de 1970, logo após ter chegado de Londres, onde acompanhei com o Bóris (Carlos Correia), o Zeca Afonso na gravação do disco "Traz Outro Amigo Também", depois de várias peripécias com a PIDE, inclusivé ter sido preso dentro do avião, minutos antes do embarque para Londres. Consegui apesar de tudo embarcar uma semana depois do Zeca e do Bóris partirem!

Já agora, um último detalhe: já fora de Portugal soube que o disco "O Canto E As Armas" ia ser corajosamente editado e pedi, a partir de França, em Agosto de 1970, ao meu amigo Magalhães Pereira, Chefe do Departamento ZIP-Música das Organizações ZIP-ZIP Publicidade, Lda, que salvaguardasse por contrato os meus direitos de autor da música.

Infelizmente nunca recebi o Contrato de Edição que me foi enviado para França, provavelmente por o correio enviado ter sido confiscado pela PIDE (DGS).

Rui Pato

Copiado de «IÉ-IÉ», blogue de Luís Pinheiro de Almeida

VERDE QUE TE QUERO VERDE

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Federico Garcia Lorca

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

GUERNICA


«Havia no País basco uma cidade santa chamada Guernica. Ao longo dos séculos, os reis de Espanha vinham, uma vez por ano, diante do velho carvalhão de Guernica, prestar juramento de respeitar as liberdades dos Bascos. Sob o carvalho de Guernica-a-Santa, os anciãos vinham fazer justiça.

Domingo, 26 de Abril de 1937, era, como todos os domingos, dia de feira em Guernica, às cinco da tarde…Os aviões eram “Heinkel 111” e “Junker 52”.

O bombardeamento durou três horas.

As vagas sucediam-se com precisão de vinte em vinte minutos.

As bombas pesavam quinhentos quilos.

Todo o centro de Guernica foi destruído.

Mil seiscentos e cinquenta e quatro mortos, oitocentos e oitenta e nove feridos.

Havia sete mil habitantes em Guernica.

O general alemão Galland, comandante da esquadrilha alemã, dirá mais atrde: »Guernica não era um objectivo militar, foi apenas um lamentável erro.»

Madeleine Chapsal em Morrer Em Madrid

Legenda: pintura de Pablo Picasso. Por ordem do pintor, a pintura só foi vista em Espanha depois da morte de Francisco Franco.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Um grupo de manifestantes, reunidos numa praça do Porto, protestavam pela habitação e o aumento do custo de vida, acabaram por ser barbaramente agredidos e perseguidos.

Imagens televisivas, e outras, mostram agressões, pontapés. algo a lembrar um tal Capitão Maltês de péssima memória.

O presidente da Câmara do Porto, o chefe das polícias. apressaram-se a dizer que os manifestantes não respeitaram as ordens policiais.

O presidente da república gaguejou qualquer coisinha, o primeiro-ministro, mais o seu sorrisozinho, pediu que não caíssemos “na tentação, por razões meramente egoísticas da sua própria acção, de importarem para Portugal climas de instabilidade, de contestação, que não tenham de facto respaldo na sociedade portuguesa”.

SÍTIOS POR ONDE OS AMIGOS ANDAM


 


A Luísa e o Rui Ornelas mandam-nos mais fotografias de Hokkaido no Japão.

HABITAÇÃO

Muito antes do chalet

Antes do prédio

Antes mesmo da antiga

Casa bela e grave

Antes de solares palácios e castelos

No princípio

A casa foi sagrada -

Isto é habitada

Não só por homens e por vivos

Mas também pelos mortos e por deuses

 

Isso depois foi saqueado

Tudo foi reordenado e dividido

Caminhamos no trilho

De elaboradas percas

 

Porém a poesia permanece

Como se a divisão não tivesse acontecido

Permanece mesmo muito depois de varrido

O sussurro de tílias junto à casa de infância

Sophia de Mello Breyner Andresen em Cem Poemas de Sopohia

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Morrer em Madrid começou por ser um documentário realizado, em 1963, por Frédéric Rossif.

A Guerra Civil Espanhola começou a 17 de Julho de 1936 e terminou a 1 de Abril de 1939.

Espanha, 1939.

Quinhentos e três mil e sessenta e um quilómetros quadrados – quase a França.

Dois milhões de prisioneiros.

Quinhenta mil casas destruídas, cento e oitenta e três cidades gravemente devastadas.

Em três anos, um milhão de mortes violentas.

Quinhentos mil exilados.

Um exército de seiscentos mil soldados.

Um partido único: a Falange.

Uma religião de Estado: a religião católica.

Um chefe único: o Caudilho.

Os salários voltaram ao nível de 1936.

Os grandes proprietários recuperaram as suas terras.

A igreja reencontra os seus grandes domínios.

OLHAR AS CAPAS


Morrer em Madrid

Madeleine Chapsal

Tradução Maria Piedade Ferreira

Capa: José Cãndido

Livraria Bertrand, Lisboa, Junho de 1975

Espanha, 1931

503 o61 Km2 – quase a França

Vinte quatro milhões de pessoas.

Neste ano de 1931, metade da população – doze milhões – é analfabeta

Há oito milhões de pobres

Vinte mil pessoas são donas de metade da Espanha.

Províncias inteiras são propriedade de um só homem.

Salário médio dos trabalhadores: de uma a três pesetas por dia.

Um quilo de pão custa uma peseta.

Vinte mil frades, trinta e um mil padres, sessenta mil religiosas e cinco mil conventos.

Quinze mil oficiais, oitocentos, um general para cada cem soldados.

Um rei, Afonso XIII, o décimo quarto soberano depois de Isabel, a Católica.

Subitamente , a 12 de Abril de 1931, os candidatos monárquicos são batidos nas eleções municipais. O rei Afonso XIII retira-se.

É a República de surpresa.

O povo descobre que existe, tem direito à palavra, direito aos discursos.

CHAVE UNIVERSAL

uma partida com o mal que se salda afinal

na dádiva do embuste. E ao mesmo tempo

um aspeto assinalável de bazar Tanta vida

 

reordenando corpos e passados: mister

rebarbativo essa arrumação, depois

a linha é ténue entre ficção e imagem

 

do arquivo. Podes podar desgostos,

esgalhar rentes sentidos, uma pista:

podes procurar onde foi omitido.

 

Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto

terça-feira, 13 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Senhor, dai-me uma santa paciência, para viver comigo mesmo: pois de contrário, como saberei viver com os outros?

José Rodrigues Miguéis

À LUPA

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu à embaixadora norte-americana em Atenas, Kimberly Guilfoyle, que apresente a demissão. A informação foi dada nesta terça-feira pela nova secretária de imprensa da Casa Branca, Katie Zacharia, no seu primeiro briefing. "Pedimos à embaixadora Guilfoyle que se demitisse. Ela foi um maravilhoso activo para a equipa e desejamos-lhe o melhor."

Uma série de escândalos, revelados pelo Wall Street Journal, levaram a Casa Branca a um ataque de nervos.

Contudo, A Lupa, atentou que, para além dos diversos escândalos em que o tráfico de influências ocupa um largo espaço, que Kimberley Guilfoyle, durante um jantar em Atenas, que os Estados Unidos podiam derrubar derrubar qualquer governo, incluindo o grego!...

MEUS PARADOXOS PREDILECTOS

Se Deus me der força e saúde, hei-de provar que ele não existe.

Aquele dono de empresa ferroviária morreu de desgosto quando o filho arranjou emprego como salva-vidas.

Ele tinha uma paixão gigantesca por uma mulher pequenina.

Era u infeliz – sofria de gota e catarata.

Já tenho idade bastante para não saber muitas coisas.

Ele só pintava mulheres de corpo escultural.

Quando o professor acabou sua conferência sobre a estratosfera, todos os cumprimentaram dizendo que ele tinha falado com muita profundidade,

Suicidou-se porque não tinha onde cair morto.

Há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos.

Em certos raros momentos temos uma opinião unânime de nós mesmos.

Millôr Fernandes em Pif-Paf