Apesar do amor que
tinha ao avô (ou devido ao amor que lhe tinha), um dos momentos mais marcantes
da infância de António foi quando o avô descobriu que o neto escrevia poema. “Quando
soube que escrevia poemas tinha eu 8 ou 9 anos, chamou-me e perguntou-me: “Ouve
lá, tu és maricas?”
O cérebro, tal como o resto do corpo, deve ser
exercitado para se manter em forma, ativo e saudável por muitos e bons anos.
Este guia reúne um conjunto de jogos que visam estimular diferentes capacidades
cognitivas, como a memória, o raciocínio e a concentração.
Será pelas 14h46 que o
equinócio da Primavera marcará a sua chegada.
Para já o sol faltou ao
encontro, mas sabemos que o clima está em farrapos.
Por finais de Fevereiro
já as podemos ver a cruzar os nossos ares.
Anunciam a chegada da
Primavera.
Diz-se que uma andorinha não faz a Primavera.
A razão do provérbio é
que as andorinhas migram em bandos.
Mas também se pode dar
a volta ao texto e dizer que por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.
Daí que Frederico de
Brito tenha feito versos para uma canção do Carlos do Carmo:
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera
Como vês, não estou
mudado
E nem sequer descontente
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado.
Eu já estava habituado
A que não fosses sincera
Por isso eu não fico à espera
Duma ilusão que eu não tinha
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distante.
Horas, minutos instantes
Seguem a ordem austera
Ninguém se agarra à quimera
Do que o destino encaminha
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera!
Quando era miúdo, as
varandas das ruas do bairro onde nasci, raro era a que não tinham andorinhas de
barro.
Catarina Portas há uns
anos nas suas lojas, recriou essas andorinhas de barro e explicou:
« As andorinhas
são muito mais do que um objecto decorativo são um símbolo tão português,
associado à casa, ao regresso e ao amor pelo lugar de onde se vem.
Criadas por Rafael
Bordalo Pinheiro no final do século XIX, as andorinhas de cerâmica ganharam as
paredes de tantas casas portuguesas, tornando-se um dos ícones mais queridos da
nossa cultura.»
Também deixou uma crónica no Público de 8 de Março de 2008:
«Tenho andado de cabeça
no ar, olhos levantados para o céu, verificando o horizonte com ansiedade. Mas
nada, só pombos nos beirais e gatos pretos nos telhados. Porém, gente de sorte
já me mensajou que, sim, que as avistaram, que elas estão a chegar. Vislumbrar
a primeira andorinha do ano é uma alegria inexplicável, como o deslumbre de um
dia sair à rua e descobrir os jacarandás em flor ou aquele prazer raro de
trincar as primeiras cerejas do calor. Agora, cerejas já as há todo o ano,
vindas daqui e dali, mas como as andorinhas ainda não se dão em estufa e só
arribam quando muito bem lhes parece, esta ainda é uma daquelas felicidades
inteiras que o ciclo anual das estações nos traz. Extraordinário, pois é sempre
certa esta improbabilidade de avezinhas do tamanho de uma mão conseguirem
percorrer milhares de quilómetros, de África até aqui, e acertarem tantas vezes
com o lugar de onde partiram seis meses antes. Este país gosta de andorinhas.
Estão protegidas por lei (316/89 e 75/91) e foram iconizadas pelo povo. Sempre
me intrigou o costume de pendurar reproduções de andorinhas, em barro pintadas,
pelas varandas e fachadas das casas portuguesas. Um dia, dei-me ao trabalho de
andar a perguntar a historiadores, antropólogos e museus a origem do costume.
Não fomos muito longe, que nestas manias populares de três vinténs os registos
não abundam. Mas cheguei à conclusão de que as mais antigas que alguém tinha
para exibir eram aquelas que Rafael Bordalo Pinheiro, entre couves e restante
bestiário, lhe deu para moldar em finais do século XIX - como aquelas que em
1891 pendurou nos fios telefónicos que decoram a maravilhosa Tabacaria Mónaco,
ainda hoje no Rossio em Lisboa (e alçando o olhar, no tecto já enevoado pelos
anos, há também um bando delas
pintadas a voar). Se terão sido criação original
ou apenas recriação de luxo de outras que já por aí andavam é coisa que
provavelmente nunca saberemos, mas certo é que estes ornamentos de exterior
caíram no goto do povo e espalharam-se alegremente pelo país ao longo do século
XX (sorte a nossa, há nações desgraçadas a quem isto aconteceu com anões
atrozes, de jardim). Dizem que a moda prosperou nas décadas da emigração, pelos
anos 60 e 70, numa identificação simples entre gente e aves viajantes. E contam
ainda que, no Brasil, uma casa com andorinhas de cerâmica na parede é casa de
portugueses, certo e sabido.
Ao contrário do galo de Barcelos, que apesar das origens populares se tornou
emblema nacional redesenhado e imposto pelo regime, as andorinhas alcançaram o
estatuto de ícones adoptados e amados pelo povo. Quiséramos nós ser andorinhas,
aves negras de um país onde o negro é cor (como dizia uma publicidade antiga do
vinho do Porto em França), asas valentes, viajantes, saudosas, trabalhadoras,
alegres, belas, doidas e livres. Como escreveu Alexandre O"Neill: "Um
país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços
meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria!"
O
realizador francês François Ozon, depois de Luchino Visconti em 1967, adapta O
Estrangeiro de Albert Camus.
Numa
entrevista ao suplemento Ípsilon do Público, publicada em 13 de Março, François
Ozon diz:
«Em
França ainda temos medo de O Estrangeiro. O passado argelino ainda é uma coisa
complicada».
O
filme de Visconti nunca me convenceu que teve problemase Visconti teve de viver com vários
problemas, um deles a presença da viúva de Camus que tudo vigiava para que o
texto fosse respeitado com todas as suas vírgulas.
Terei
que ir ver o filme de Ozon, partindo sempre do principio que se há romances que
não podem dar filmes, o romance de Camus, é um deles.
Pretexto
para voltar a pegar na minha velhinha edição da Colecção Miniatura nº 48,
tradução de António Quadros, capa de Bernardo Marques.
Um
dos mais memoráveis começos de livros:
«Hoje,
a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua
mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.»
E
também um grande final:
«Para
que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar
que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me
recebessem com gritos de ódio.
O
livrinho está largamente sublinhado.
«A
mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz».
A
partir do dia em que entra na prisão, Meursault conclui: « a minha casa era a minha cela, e
que a vida parava aí. No dia em que prenderam, fecharam-me primeiro num quarto
onde havia muitos detidos, a maioria deles Árabes. Ao verem-me, começaram a
rir. Depois perguntaram-me o que é que eu tinha feito. Disse que tinha morto um
Árabe e eles calaram-se todos.»
A Biblioteca da Casa tem uma participação a
partir de uma série de livros que o meu avô levou para casa do meu pai onde, a
partir do divórcio, passou a viver e que se juntaram aos que o meu pai já possuía.
A
Biblioteca continua aqui e este deverá ser o livro mais antigo (1891) que possui
e era um dos tais livros do avô Mário.
Na
contracapa ressalta a designação que o livro pertence à «Biblitheca
Economica Para Ricos e Pobres, o mais extraordinário succeso em Editora!!!»
O
custo de cada volume era de 100 réis e enviado para a província custava 120 réis.
Companhia
Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981
- Madame Chèbe!
- Senhor noivo…
-Estou contente…
Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do
nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e
pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção
ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir
subitamente em lagrimas.
Fromont Junior e Risler Senior
Alphonse Daudet
Tradução Pedro
dos Reys
Companhia
Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981
- Madame Chèbe!
- Senhor noivo…
-Estou contente…
Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do
nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e
pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção
ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir
subitamente em lagrimas.
«Milhões
de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do
gasóleo do que com a morte de uma centena de crianças no bombardeamento de uma
escola.»
Ao
que parece Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, entendeu que
a presença de Mário Centeno como funcionário Banco, não ajudava no seu trabalho, seria uma sombra a baralhar-lhe os números...
Tentou-se
a colocação de Centeno como vice-presidente do Banco europeu, mas a coisa
correu mal.
Restava
a Santos Pereira a saída de Centeno do Banco de Portugal com uma oferta
tentadora: através do regime de aposentação ao abrigo do fundo de pensões
existente no banco central, após um acordo entre as duas partes, passa a
auferir uma reforma de cerca de 10 mil euros brutos mensais.
Álvaro Santos Pereira
terá agora de ir ao Parlamento explicar a negociata!
«O meu futuro está em aberto» disse Mário Centeno ao Diário de Notícias...
É preciso merecer as
viagens, tê-las desejado anos. Também é (mais) a juventude que formas as
viagens. Porque as verdadeiras viagens não formam a juventude: surgem delas.
Penetrei em muitos países, mas aos países que penetraram em mim (são menos)
senti sempre o desejo de lhe dizer aquela frase estúpida e verdadeira que se
diz às mulheres amadas: «Parece-me que te conheci sempre.»
No dia 4 de Setembro de 1970 houve no Chile eleições presidenciais nas
quais o candidato da esquerda obteve a mais alta votação. Isto significou a
nacionalização e posterior expropriação de todas as empresas norte americanas
que havia no Chile.
Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos
Quando
por nós descobrimos algo que nos agrada e acompanha pela vida, isso tem outro
valor, um valor superlativo.
Jorge
Luís Borges dizia que a existir um paraíso, teria a forma de uma biblioteca.
No
seu Último Caderno Saramago deixou escrito:
«Continuarei a dizer
que a literatura não muda o mundo, mas cada vez maisb vou tendo razões para
acreditar que a vida de uma pessoa pode ser transformada por um simples livro».
Como
é que Saramago descobriu as palavras?
Em
livros, em entrevistas deixou expresso como aconteceu essa descoberta.
Na longa conversa que manteve com a Juan Arias, disse:
«Não
tive um livro meu até os dezoito anos e, mesmo assim, os livros que tive,
os que comprei, comprei com o dinheiro que um colega mais velho que eu me
emprestou. Creio que foram uns trezentos escudos, o que equivaleria a um
euro e cinquenta centavos. Com isso pude comprar alguns livros.(1) Antes,
eu já havia lido muitíssimo nas bibliotecas públicas, lia de noite. Depois
de jantar ia andando, apesar de ficar longe de casa, até a Biblioteca do
Palácio Galveias, e até a hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma
orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era muito ou pouco para
mim. Lia tudo o que me parecia interessante. Os nossos autores eu conhecia
pelas aulas, mas tudo o que tinha a ver com autores de outros países,
nada, não tinha a menor ideia, mas depois você vai se dando conta de que
existe um senhor que se chama Balzac e outro Cervantes, et cetera. Pouco a
pouco ia entrando por esse bosque e encontrava frutos que depois fui
assimilando, cada um à sua maneira».
Não chegou à
Universidade, mas as respostas encontrou-as nos livros em que tinha começado
a estudar, e quando trabalhava, como serralheiro mecânico numa oficina de
reparação de automóveis, utilizou o período nocturno da Biblioteca de Galveias
para uma procura de respostas às perguntas que. no dia-a-dia lhe ocorriam.
Como deixou escrito em
A Caverna:
«Felizmente, existem os
livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los ao pó e às
traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em
cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente,
fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento
que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro?
Que ensinava a cozer os barros, e o livro finalmente convocado, aparece, está
aqui nas mãos de marta enquanto o pai e o livro, finalmente convocado, aparece.»
«Um esquema criminoso
para gerir vários refeitórios hospitalares lesou o Estado em mais de 1,2
milhões de euros. Entre os 13 acusados pelo Ministério Público no processo
'Pratos Limpos' está, de acordo com a CNN Portugal, Carlos Galamba de
Oliveira, atual vice-presidente da Administração Central do Sistema de Saúde,
precisamente a entidade pública responsável por gerir os recursos do hospitais
do SNS e de supervisionar as despesas destas unidades. Carlos Galamba de
Oliveira foi nomeado pela ministra Ana Paula Martins há dois anos, quando já
estava sob investigação da Polícia Judiciária, e desde maio de 2025 que está
acusado de um crime de abuso de poder no âmbito deste processo.»
2.
«A Polícia Judiciária do
Porto deteve quatro pessoas, esta terça-feira, na sequência de uma das maiores
operações de sempre visando pelo menos 10 câmaras municipais. Estão a decorrer
buscas em várias autarquias e sabe o CM que a autarquia de Lisboa
está entre os alvos da PJ, assim como as câmaras de Tavira, Lamego e Maia.
Investigam-se crimes de corrupção ativa e passiva, participação económica em
negócio, abuso de poder e associação criminosa, relacionados com o
fornecimento e instalação de iluminações de Natal.
Os anos a seguir à guerra foram bestiais para os
detectives particulares, Nunca od houve melhores, nem antes nem depois. Ninguém
acreditaria quantos soldados contactaram olhos vivos para descobrir no mais
confidencial dos segredos o que é que as suas mulherzinhas teriam andado a
fazer para se entreterem durante a guerra. DE manhã à noite os bares de Nova
Iorque estavam apinhados de soldados cheios de importância contando a
interlocutores simpatizantes como as miúdas francesas os tinham afrancesado, as
miúdas alemães os tinham blitizado e as miúdas inglesas lhes tinham palmado os
pacotes de chá. Depois, quando saíam, iam a correr para telefonar para gajos
como eu, subitamente receosos de que as esposas e as noivas tivessem como eles
aproveitado a guerra para explorar um pouco da cor local.
Quando
o antigo dono do British Bar passou a casa aos empregados, levou o relógio que
mostrava as horas ao contrário.
As
tentativas do Silva para ficar com o relógio, não resultaram.
Mas
não descansou enquanto não pediu a um marinheiro dinamarquês que lhe trouxesse
um relógio, que há-de aparecer em A Cidade Branca do Alain Tanner.
A
actriz Teresa Madruga, é o escritor Eduardo Lourenço que
recorda, diz ao actor Bruno Ganz “que andar ao contrário é uma forma como
outras de medir o tempo”.
E não é? O relógio do British Bar enganou-nos outra
vez. E, como sempre, é ele que está certo.
Uma verdadeira
personagem de romance é aquela de quem o leitor sabe ou julga saber tudo o que
fez e o que vai fazer, o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Conhecemos
melhor Madame Bovary, Ana Karénine ou Rastignac que a nossa mulher, a nossa
filha ou o nosso irmão.
Para a solidão nascemos. Outras vozes
nos chamam e invocam, outros corpos
se perfilam radiosos contra a noite.
Nós não somos daqui. Num intervalo
de campanhas esquecidas nos dizemos,
abrindo o coração aos de passagem.
Mas quando a manhã chega nós partimos,
mais livre o coração, longa a viagem.