quinta-feira, 5 de março de 2026

O ACENDER DAS LUZES

Quem ordena estes sonhos

coordena, conduz

os tractores cuidadosos

do ocaso; êmbolos

com frio; quando lavram

o seu frágil fio de fogo

nas árvores, na memória.

 

E mais lentas ainda

as turbinas: turbilhão

que perturba vagarosamente

a ordem interior das coisas

que se deixam sonhar. Com

a polpa dos dedos

colhe-se a demora

para ver melhor. Nenhuma

colagem sublimar;

nem linhas de lume,

chispas, flechas.

 

Adormece talvez

quem ordena; se as lâmpadas

vagueiam e explodem

entre ramagens excessivas;

estes sonhos.


Carlos de Oliveira em Trabalho Poético 2º volume

quarta-feira, 4 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS

 

A Águia

N.º 52, 53, 54 – Abril, Maio e Junho de 1916

Director: Teixeira de Pascoaes

Teófilo Braga, Gomes Leal, Raul Proença, Jaime Cortesão, Marcelino Mesquita, João de Barros, Leonardo Coimbra, Augusto de Castro,  Augusto Gil, Augusto Casimiro, entre outros

Renascença Gráfica, Porto



NOTÍCIAS DO CIRCO

Passos Coelho ex-primeiro ministro e Sérgio Sousa Pinto, ex-deputado, são amigos de longa data e preparam um estudo sobre bloqueios da economia abrangendo reformas estruturais, seja lá o que isso for, a convite da Associação Comercial do Porto e com a colaboração da Faculdade de Economia da Universidade nortenha.

Miguel Relvas diz que Passos é o “navio almirante” da direita, sobre Sousa Pinto nada adiantou.

Que pensará Luís Montenegro – ele pensa!?... – e seus companheiros de governo?

CONVERSANDO


Saiu o último livro do Julian Barnes e é mesmo o último.

Li apenas O Papagaio de Flaubert e gostei. 

Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».

Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de 46, eu nasci em Março de 45.

Deveria ter lido os restantes livros de Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida, que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram. Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros que me querem oferecer.

Neste momento, Barnes, luta contra um cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

A Quetzal, que edita o livro, publicita:

«Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas expressões da vida. E despede-se deles.

Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco».

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Uma despedida elegante de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review

«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal

«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»

Na crítica que Helena Vasconcelos fez para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes

Partida, o romance em que Julian Barnes nos diz adeus.

Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.


Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.

Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.

PARÁBOLA

Que dúvida tinhas que o fogo passaria por ti?

Bastava ficares em silêncio, aguardares a passagem do vento

a crueldade das flores acesas, outras luzes ao sul.

 

O tempo passou, como a carroça dos ciganos a fechar a feira.

Aqui só ficaram as tendas mais pobres e escuras.

Ainda acreditas que o fogo passará por ti?


Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

terça-feira, 3 de março de 2026

TRUMPALHADAS

1.

Sem alguns assassinos como Maduro e Khameney o mundo fica melhor.

Sem o Trump, o Netanyahu, o Putin, e mais alguns espalhados por aí, o mundo ainda ficaria melhor.

Mas… a morte de toda esta gentalha não trás a paz e a democracia.

O actor Robert de Niro disse há dias:

«Trump nunca vai sair. Temos de o obrigar a sair»

Trump classificou-o:

«É um doente e demente!»

2.

A utilização da Base das Lages é um negócio há longos anos nascido,

Nas letras pequeninas do contrato deverá estar o como e o quando os Estados Unidos a poderão utilizar.

Paulo Rangel, ministro dos negócios estrangeiros de Luís Montenegro, gagueja nas explicações.

Quando, por hipótese, os Estados Unidos invadirem a Gronelândia, bater três vezes na madeira, quais serão as explicações que o ilustre ministro dará?

3.

«Israel e EUA atacaram o Irão no intervalo de negociações (que o mediador classificara como positivas), sem provas de que o país constituía um ameaça nuclear (que os bombardeamentos de Junho teriam eliminado de vez) e sem enquadramento legal (um grande contributo para destruir o direito internacional). Badr al Busaid, ministro das Relações Exteriores de Omã, mediador das negociações entre Washington e Teerão, observou que o ataque “não beneficia os interesses dos EUA nem a causa da paz mundial” e instou os norte-americanos a “não se deixarem arrastar mais: esta não é a sua guerra”. Esta é a guerra de Israel.

Israel não tem interesse em negociar a paz com iranianos ou palestinianos e sabota qualquer hipótese de isso acontecer. O que move Benjamin Netanyahu é a destruição do Irão e aliados. O primeiro-ministro israelita e o seu Governo messiânico convivem bem com a permanência da guerra.»

Amilcar Correia no Público

4.

«A morte de Ali Khamenei na primeira vaga de bombardeamentos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel encerra um ciclo de quase quatro décadas de poder absoluto no Irão. Mas abre outro, potencialmente mais perigoso, e mostra que a guerra lançada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, mais do que responder a uma ameaça iminente demonstrável, visou acima de tudo o derrube do regime iraniano.»

 Tiago Luz Pedro

5.

«Donald Trump arrisca-se a envolver os EUA num conflito prolongado, altamente destrutivo e com potenciais danos significativos nos seus meios militares e aliados do Médio Oriente.»
José Pedro Teixeira Fernandes

6.

Zalenski admitiu esta estar preocupado com uma possível escassez de munições para os sistemas de defesa aérea ucranianos, cruciais para neutralizar os ataques russos, caso a guerra no Médio Oriente se prolongue.



Um artigo desta extensão sobre este tema e nem uma palavra sobre o genocídio dos palestinianos. Mais de 75 mil mortos e as cidades de Gaza arrasadas - nem uma palavra. Como se Netanyahu não tivesse a menor participação no que está a acontecer a esta hora no Irão e em todo o Médio Oriente. Sem Netanyahu este ataque não teria metade da eficácia que demonstra. Mas arranjou espaço para mais uma festinha no lombo do Estado Novo. A menos de 2 meses de se completarem 100 anos sobre a instauração da ditadura em Portugal. Não há acasos.

 

 


«Donald Trump arrisca-se a envolver os EUA num conflito prolongado, altamente destrutivo e com potenciais danos significativos nos seus meios militares e aliados do Médio Oriente.»
José Pedro Teixeira Fernandes

O OUTRO LADO DAS CAPAS

O livro está repleto de calão.

Não é que algum desse calão não fosse perceptível,  mas um glossário sempre ajuda a compreender melhor a atmosfera. Foi isso a que se dedicou, para além de tradução, o Mário Henrique-Leiria.

Se bem que as traduções, por aqueles tempos, não fossem bem pagas, mas esperemos que lhe tivesse dado para umas cigarradas e uns bons gins tónicos.



OLHAR AS CAPAS


Rififi

Auguste le Breton

Tradução: Mário-Henrique Leiria

Prefácio: Marcel Sauvage

Capa: Zé Paulo

Colecção Alibi nº 2

Edições 70, Lisboa s/d

Os arredores, Paris, o pesadelo, as ruas, os fantasmas…

Quando a barraca do Sueco ficou à vista, tirou o pé do acelerador e, num último reflexo, arrumou o carro junto ao passeio.

Foi meia hora depois que dois pasmas de giro encontraram o carro. O garoto continuava a dormir. Tony, o tísico, estava caído sobre o volante. Os braços tinham escorregado para o assento. As suas tripas formavam um avental sangrento, sobre as galdinas.

RETRATOS


«E cá voltamos nós ao modo josé. O modo josé, pelos vistos, é a pederneira dos poetas quando vêm para o espelho.

Rememoras e futuras, o mal é esse.

José, na pastelaria da esquina há um pide a fazer horas, e acolá, como veio anunciado na imprensa, à hora xis o burro Canário desce à cidade transportando uma bomba em forma de miosótis, enfiada no cu. Claro, tu já nem pestanejas. Chegas-te ainda mais ao espelho, fechas-te com ele, de ti para ti. Com raiva.

Os censores?, perguntas daí a nada ao espelho. Não dão sinal , os censores?

Não te preocupes. Não te ouvem por enquanto, têm outras vidas.

De resto quem te ouve? Quem dá crédito à tua liberdade? Vamos, fuma, José. Pensa bem esse cigarro. Mede e golpeia a memória, repisa nos teus avisos enquanto o cabelo te embranquece. Olha, é entardecer. E está tão claro.

Aí, nesse espelho, há um não sei quê de pobre diabo no cidadão que te faz frente, aferrado a um orgulho de pataco. Orgulho? Pior para ele, que pouco fez para mudar. Razão? Vigilância? Está bem, deixa-o dizer.

Deve andar nos cinquenta, mais ano, menos ano, e se calhar é por isso que sonda com tamanha inclemência. Cinquenta, meio século de vislumbrada malícia de si mesmo e de nicotina. Cancro apalavrado, ai coitadinho. De quando em quando noto-lhe talvez um perpassar de ironia a traquinar-lhe no rosto, mas se o tem é luz breve e para mais magoada. Não dá sequer para temperar o ar endurecido que há nele e que provém mais do desalinho e do à-balda que doutra coisa. No resto, pouco a acrescentar. Visagem martelada, máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar – e disse. Acta est fabuka, se assim me posso exprimir.

É este o homem que te contempla, José. Que te fuma. Que te duvida.»

José Cardoso Pires em E Agora, José?


DOCE SONHO, SUAVE E SOBERANO

Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,
se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

 

Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 2 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que não nos mata, só fortalece.

Nietzsche

NOTÍCIAS DO CIRCO

Como o outro, ele também anda por aí!

Lido no Público:

«Passos Coelho diz que não anda “à procura de nada em particular”.

Em entrevista ao jornal digital Eco, diz estar bem “com a política, o país” e ainda que não tem “desforras para fazer” nem “necessidade de querer provar ou mostrar o que quer que seja”.


No entanto, à pergunta sobre “o que o motiva, afinal?”, Passos Coelho dá uma resposta que pode estar mais próximas das especulações sobre um eventual regresso que têm dominado a discussão política nos últimos tempos. Diz o ex-primeiro-ministro: “As pessoas, no fundo, acham que eu contraí algumas obrigações que não se esgotaram no meu mandato de Governo. Eu compreendo que seja assim e sinto que seja assim”. Passos Coelho não falou em “vaga de fundo”, mas a ideia das “obrigações que não se esgotaram”, sentidas por outros e por si mesmo, abrem margem para várias interpretações.»

Em suma: «Quando quiser candidatar-me, candidato-me e anuncio»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Não havia televisão.

O meu avô paterno era um leitor compulsivo e lia os autores franceses no original.

Durante um tempo, exercitava as traduções e deixou, em cadernos, a tradução de dois livros de Anatole France: Thais e A Ilha dos Pinguins.

Uma letra muito bem desenhada, a caneta de tinta permanente, ainda não tinha chegado o tempo das esferográficas, e os eventuais enganos eram apagados com borracha de tinta.

O meu avô era um simples caixeiro de praça do J. Português da Silva, estabelecimento na esquina na esquina da Rua dos Fanqueiros e percorria Lisboa de eléctrico a vender os Da Senhora da Hora

O meu avô, Mário de seu nome, que, orgulhosamente, se apresentava como republicano histórico, benfiquista e anticlerical, foi toda a sua vida um simples caixeiro caixeiro-de-praça do J. Português da Silva, na Rua da Betesga, esquina com a rua dos Fanqueiros, percorria as lojas dos bairros lisboetas vendendo, linhas meias. lenços e panos de cozinha da Fábrica da Senhora da Hora.

Ganhava uma miséria e, de segunda a sábado, transportava uma enorme mala com as amostras da fábrica da Senhora da Hora.

Mas o meu avô traduziu:

«Apesar da diversidade de distrações que parecem atrair-me, a minha vida só tem um objectivo. Uma grande tendência para o acabamento de um grande desejo.

Escrevi a historiados Pinguins. Trabalhei nelka assiduamente, sem me deixar desanimar pelas dificuldades frequentes, que algumas vezes me pareceram insuportáveis.»

 

 

OLHAR AS CAPAS


A Ilha dos Pinguins

Anatole France

Tradução: Sampaio Marinho

Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 176

Publicaçõs Europa-América, Lisboa s/d

Mael, oriundo de uma família real da Câmbria, foi mandado aos nove anos para a Abadia de Yern, a fim de de aí estudar as letras sagradas e profanas. Aos catorze anos renunciou à sua herança e fez voto de servir o Senhor. Repartia as suas horas, segundo a regra, entre o canto dos hinos, o estudo da gramática e a meditação das verdades eternas.

EM NOME DOS QUE CHORAM

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo

 

José Carlos Ary dos Santos

domingo, 1 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


 A democracia é um sistema horrível, mas melhor do que os outros.

Winston Churchill

TRUMPALHADAS

1.

Donald Trump vangloria-se do “sucesso” que tem tido no Irão, mas há dúvidas sobre se terá um plano para o dia seguinte. Encurralada, a cúpula do poder iraniano escolhe um novo líder e a acontecer será mais radical que Khamenei.

2.

Este domingo, Donald Trump descreveu toda a situação como uma vitória: “Está a movimentar-se de forma rápida, ninguém acredita no sucesso que temos tido. Quarenta e oito líderes iranianos foram-se de uma vez”, disse à Fox News.

3.

Em declarações à The Atlantic, Donald Trump pareceu convicto de que existe uma solução: a liderança iraniana está pronta para falar – pelo menos, a que resta. “A maioria destas pessoas já foi. Algumas das pessoas com quem falávamos já foram, porque foi um golpe grande”, afirmou. “Deviam ter chegado a um acordo mais cedo.”

4.

Donald Trump é de opinião que a intervenção no Irão deverá durar 4 semanas e insta os Guardas da Revolução do Irão a “pousarem as armas ou enfrentarem morte certa”
O Presidente norte-americano, Donald Trump, publicou este domingo um vídeo na rede Truth Social onde exortou os Guardas da Revolução do Irão: "Pousem as armas e recebam imunidade total ou enfrentem morte certa. Não vai ser bonito”.

5.

Receando o desenrolar do conflito no Médio Oriente, Israel vai convocar 100 mil soldados na reserva.

RETRATOS


 «Andar no cinema para ser contaminado por gravíssimos defeitos de carácter não é coisa que se faça a um velho católico e apostólico romano. Não acredito que se possam fazer bons filmes em pecado mortal e, por isso, espanta-me que a cólera do Senhor não se tenha ainda abatido sobre mim. É certo que o Senhor conhece a extrema pobreza em que vivo e, não obstante os caminhos da perdição serem infinitos, tem-me guiado certeiramente no exercício da minha arte.»

João César Monteiro

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Os estranhos livros de Marguerite Duras.

As longas e estranhas confissões de Duras.

Dois homens, uma mulher, um desencontro. É o ponto de partida para uma história de amor terrível.
Memória infernal daquilo que não acontece.

«É a história de um amor, o maior e mais terrível sobre que me foi dado escrever. Eu sei-o. Qualquer um pode ficar a sabê-lo por si.
Trata-se de um amor que não é nomeado nos romances e que também não é nomeado por aqueles que o vivem. De um sentimento que de certo modo não tem ainda o seu vocabulário, os seus hábitos e rituais. Trata-se de um amor perdido. Perdido como perdição.
Leiam o livro, leiam-no mesmo que de início o detestem. Já nada temos a perder, nem eu dos leitores, nem os leitores de mim. Leiam tudo. Leiam todas as distâncias que vos são indicadas, as dos corredores que rodeiam a história e a acalmam e nos concedem o tempo de os percorrer. Continuem a ler e de súbito terão atravessado a história, os seus risos, a sua agonia, os seus desertos.
Sinceramente vossa.»
Duras

Apresentação do livro feita pelo Público:

«Dois homens, uma mulher, um desencontro. É o ponto de partida para uma história de amor terrível.
Memória infernal daquilo que não acontece.

Dizia Marguerite Duras: “Se não houvesse nem mar nem amor, ninguém escreveria livros.” Ainda bem que os há — porque, se tal não acontecesse, “Olhos Azuis, Cabelo Preto” deixaria de existir e de ficar gravado na memória de quem o lê.
Publicada em 1986, dez anos antes da sua morte, é a segunda obra que Duras produziu depois do êxito em torno de “O Amante”. E é um livro intenso, misterioso, que encerra em si mesmo uma verdade pouco reproduzível em palavras, de um amor que é e não é ao mesmo tempo. No final, permanece o mais absoluto de todos os silêncios. Palavras, para quê?
Mas tentemos. Comecemos pelo princípio da narrativa. “Uma noite de Verão, diz o actor, estaria no centro da história.” Uma jovem mulher, de “corpo longo e flexível”, aguarda no átrio de um hotel de praia e, pouco depois, encontra-se com um estrangeiro, igualmente alto e jovem, de olhos azuis e cabelo negro. Simultaneamente, um outro homem observa a cena através de uma janela e, atraído pela beleza do estrangeiro, não vê o rosto da figura feminina. Mais tarde, ao cruzar-se com essa mulher num café perto do mar, ela já está só, mas o homem ignora que se trata da jovem que estava com o estrangeiro. Este é o ponto de partida do livro — uma cena de equívoco, de encontro e de desencontro, de espera e de lágrimas.
Uma terrível história de amor. “Talvez o amor possa viver-se assim, de uma maneira horrível.” Impossível, aterrador, apodera-se de tudo, além das forças, além da vida, uma memória infernal daquilo que não acontece. Atravessa e percorre aquele quarto onde tudo existe. Para se perder para sempre.
O resto é apenas literatura. E, como diria Jean-François Josselin, jornalista do “Nouvel Observateur”, a literatura, em Marguerite Duras, é justamente tudo.»

Tal como a vida. A literatura é feita de encontros.

«Uma noite de Verão, diz o actor, estaria no centro da história.» 

OLHAR AS CAPAS


Olhos Azuis, Cabelo Preto

Marguerite Duras

Tradução: Teresa Coelho

Colecção Mil Folhas nº 18

Público, Lisboa, Agosto de 2002

Ele agarra-lhe nas mãos, segura-as encontadas ao rosto.

Pergunta-lhe se são os olhos azuis que a fazem chorar. Ela diz que é isso, sim, acontece que é isso, que pode dizer-se assim.
Deixa-o pegar-lhe nas mãos.
Ele pergunta quando foi.
Hoje.
Ele beija-lhe as mãos como se fosse o rosto, a boca.
Ele diz que ela tem o perfume leve e doce do fumo.
Ela dá-lhe a boca para beijar.
Diz-lhe que a beije, ele, esse desconhecido, diz: Beije o corpo nu, a boca, a pele inteira, os olhos.
Choram até de manhã o desgosto mortal da noite de Verão.

MÚSICA PELA MANHÃ


27 de Fevereiro de 2026.

Aos 86 anos, Neil Sedaka deixou-nos.

Muitos de nós pensávamos que ele era eterno mas estará sempre na Juke Box da Esplanada do Marques na praia da Lourdes na Trafaria.

A sua paixão pela colega de liceu Carole king, não era correspondida, e nasceu Oh Carol.

Carole acabou por casar com Gerry Groffin que, em jeito de brincadeira, escreveu Oh Neill que Carole cantará e por mera curiosidade se inclui nas canções desta manhã.

Daqueles velhos tempos, ainda restam Paul Anka (84 anos) e Pat Boone (91 anos).






sábado, 28 de fevereiro de 2026

TRUMPALHADAS

Sempre a falar de paz, Donald Trump atacou seis países desde o início do mandato.

Com justificações diferentes, Trump encara o uso da força como um elemento central da sua presidência: Irão, Venezuela, Nigéria, Síria, Iémen e Somália foram os seus alvos. Outros estarão em agenda como Colômbia, Cuba, Gronelândia.


Além dos países que de facto atacou, somam-se as ameaças a outros que, por enquanto, escaparam a Trump: Colômbia, Cuba ou a Gronelândia são exemplos.

A ofensiva ilegal de Israel/Estados Unidos sobre o Irão denomina-se «Operação Fúria Épica» foi levada a cabo com Trump a ignorar o Congresso, os conselheiros militares, e até J.D. Vance se manifestou céptico de intervenções militares.

É entendimento geral que não se pode fazer uma mudança, assim do pé para a mão, de regime no Irão, será mesmo uma missão impossível.

Mas Trump, qual louco a voar pelo mundo de que se diz único dono, é taxativo:

«Eu posso ficar com aquilo tudo ou acabar com isto em dois ou três dias».

SOLTAS

Faleceu Vítor Dias.

É com profundo pesar que o Secretariado do Comité Central do PCP informa que faleceu Vítor Dias, com 80 anos, recordando a sua intervenção destacada na actividade do Partido, onde desempenhou importantes tarefas e responsabilidades.

Vítor Dias, empregado de escritório, aderiu ao PCP em 1973 sendo funcionário do Partido desde 1976.

Tendo integrado diversas associações culturais e desportivas do concelho de Vila Franca de Xira, foi dirigente da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa em 1966/1967 e membro da direcção da Cooperativa Livreira e Cultural “DEVIR”. A partir de 1969 integrou diversas estruturas da CDE de Lisboa, pelo qual foi candidato na batalha política aquando da farsa eleitoral fascista de 1973 e dirigente do MDP/CDE até 1976. Militante antifascista, integrou a luta pela democracia e a liberdade tendo sido preso a 6 de Abril de 1974 e libertado com a Revolução de Abril.

Membro do Comité Central desde o IX Congresso, Vítor Dias integrou a Comissão Política do Comité Central do PCP de Maio de 1990 até 2008. Assumindo diversas tarefas, foi responsável pelo trabalho de Informação e Propaganda Central, autor de inúmeros textos na imprensa do Partido e activo participante nas diversas batalhas eleitorais a que o Partido foi chamado. Foi ainda membro da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira no primeiro mandato autárquico de 1976/1979. Nos últimos anos manteve uma atenção à situação do País e do Mundo intervindo com a sua opinião a partir do blogue Tempo das Cerejas de que era autor.

1.

Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, apenas ultrapassado pela Itália.

2.

A procura turística por Portugal continua em alta e os próximos tempos esperam-se animadores para o setor hoteleiro. Há mais de 70 hotéis que vão abrir portas durante este ano, acrescentando mais de 3800 quartos ao mercado. A maioria é em Lisboa, no Algarve e no Porto.

3.

«A comparação é cruel, justa e conduz inevitavelmente à conclusão de que os protagonistas políticos são hoje, de um modo geral, bastante medíocres e fazem deslizar para a mediocridade o discurso e toda a circunstância política».

4.

Todos nos enganamos.

Uns mais do que outros.

Todos acreditamos.

Uns mais do que outros.

Zita Seabra

Militante do PCP desde os 15 anos, passou à clandestinidade com 17 anos. Participou nas lutas estudantis até ao 25 de Abril, sendo responsável pela criação da União dos Estudantes Comunistas.

Dirigente comunista e Deputada à Assembleia da República de 1975 a 1988 pelo PCP e pela APU, foi expulsa do PCP em 1988.

Foi deputada eleita pelo Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na X Legislatura. Foi, ainda, vice-presidente do PSD em 2009.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual. Aderiu ao Partido Social Democrata  e, nessa condição, Eleita pelo PSD no círculo de Coimbra em 2005, foi deputada na X legislatura e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República até outubro de 2007. Nessa legislatura, destacou-se pelas posições que tomou contra a legalização do aborto, de que havia sido uma das mais acérrimas defensoras nos tempos de militância comunista. No XXX Congresso do PSD, em 2007, passou a ser uma dos seis vice-presidentes da Comissão Política Nacional deste partido, cargo que desempenhou até maio de 2008.

Cadernos de Lanzarote 2º volume de José Saramago:

Entrada do dia 8 de Janeiro de 1994:

« Chegaram-me ecos do desastre que terá sido a participação de Zita Seabra no programa de Manuela Moura Guedes. Entristece-me verificar como afinal valia tão pouco, intelectual e eticamente falando, alguém a  quem os acasos e  as necessidades políticas colocaram em funções e confiaram missões de responsabilidade dentro e fora do Partido. Que Zita Seabra se tenha desempenhado delas, nesse tempo, com coragem e dignidade, não pode servir para disfarçar nem desculpar o seu comportamento actual. Zita Seabra é hoje o exemplo perfeito e acabado do videirinho, palavra suja que significa, segundo os dicionários e a opinião da gente honrada, «aquele que para chegar aos fins não olha aos meios nem hesita em humilhar-se e cometer baixezas». Ouço, leio, e chego a uma conclusão: esta mulher vai acabar mal.»

OLHAR AS CAPAS

América, Nixon, Etc…

Diversos Autores

Capa: Fernando Felgueiras

Novos Cadernos D. Quixote nº 1

Publicações Dom Quixote, Lisboa s/d

Nos Estados Unidos, todos os negócios que não são tratados pelo telefone são-no em relação com o álcool ou com a gastronomia, muitas vezes em condições de embriaguez avançada.

ATAQUE COORDENADO CONTRA O IRÃO


O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciou, num vídeo publicado no X, que Israel e os Estados Unidos lançaram uma "operação conjunta" contra o que classificou como a "ameaça existencial" representada pelo Irão.

 “Ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo-vos que a hora da vossa liberdade está a chegar. Abriguem-se, não saiam de casa, é muito perigoso, bombas vão cair em todo o lado. Quando terminarmos de derrubar o vosso Governo, ele será vosso para o ocuparem”, afirmou Donald Trump no final de um vídeo de oito minutos, publicado na sua Truth Social, em que anuncia o ataque militar.

"Esta será provavelmente a vossa única oportunidade durante [várias] gerações", afirmou. "Durante muitos anos, pediram a ajuda da América, mas nunca a obtiveram. Nenhum Presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer esta noite. Agora têm um presidente que vos está a dar aquilo que querem, por isso vejamos como respondem."