domingo, 9 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Quando eu morrer sentirei saudade de mim.

Clarice Lispector

Legenda: Clarice Lispector

NOTÍCIAS DO CIRCO


 


Lembram-se daquela gentinha que, nos tempos áureos do BES, nos dizia que iam para aComporta «brincar aos pobrezinhos»?

Sim, adeptos incondicionais do vazio, da estupidez, daquilo a que se entende chamar «estação estúpida».

Coisas e coisinhas que me colocam no limiar do vómito.

Aqui se apresentam 4 capas de revistas ditas cor-de-rosa.

Gente de que nunca ouvi falar, gente de que ouvi falar, a maior parte, por péssimas razões.

Uma tristeza muito grande.

Há muitos anos que somo assim e sem qualquer luzinha ao fundo de um túnel que nos possa dizer que vamos mudar.

Muito pelo contrário!

MÚSICA PELA MANHÃ


Deram-me a possibilidade de ficar com as músicas das manhãs de domingo, e não hesitei.

Hoje, fui buscar um EP de Mário Lanza, de que gosto muito.

Colaboração de Aida Santos.






DITOS & REDITOS

Silenciar é pior que dizer mal, é matar em vida.

A beleza não está na cara nem no corpo, mas sim no coração.

A gentileza dos desconhecidos.

Seremos sempre cúmplices do silêncio.

Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza.

Ficar a saber que ninguém tem a última palavra.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

Uma cabala nunca vem só.

 

sábado, 8 de agosto de 2026

SOLTAS

Quando Ana Cristina Leonardo, volta e meia, conta esta história do seu pai, apresto-me a reproduzi-la:
«No final da década de 40, inícios de 1950, os EUA e o sonho americano tinham mais fãs do que muitos imaginam dentro das fileiras dos que lutavam contra o regime de Salazar. Numa reunião de oposicionistas em Olhão, uma arrebatada plateia criticava a miséria portuguesa enquanto exaltava o progresso do Eldorado americano onde toda a gente tinha emprego, casa e viatura própria. E foi no meio dos gritos de “Um Cadillac para cada olhanense!” que o descansado do meu pai pediu a palavra e, tentando acalmar os ânimos, contrapôs: “Para já, uma bicicleta a pedais para cada português. Os Cadillac, logo se verá”».


1.

Estrangeiros conseguem pagar em média mais 43% por uma casa em Portugal, inflacionando o mercado imobiliário, agravando a sobrevalorização e os problemas de acessibilidade da habitação no país

Jornal de Notícias, 27 de Maio

2.-

Duplo emprego atinge máximo num mercado de trabalho instável e de baixos salários. O número de trabalhadores com com dois ou mais empregos em Portugal tem vindo a crescer e atingiu em 2025 o seu recorde com um afluxo superior a 267 mil pessoas.

Jornal de Notícias, 1 de Maio

3.

À boleia do disparo dos preços do petróleo nos mercados internacionais, a Galp Energia registou uma melhoria de 44% dos lucros nos primeiros seis meses do ano.

4.

«Portugal registou quase 700 mortes acima do esperado este Verão
Até ao momento "foram identificados três períodos onde ocorreram mortes em excesso" durante o Verão, dos quais resultaram 680 mortes acima do esperado para a época, segundo as estimativas da Direcção-Geral da Saúde e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Os valores observados "ficaram abaixo do impacto na mortalidade estimado pelo Índice Ícaro", um sistema que estima o possível impacto das elevadas temperaturas na mortalidade. Vários países europeus estão por esta altura a enfrentar novamente temperaturas excessivas, mas para já Portugal está a escapar à situação. As autoridades de saúde mantêm-se atentas.»

Público 7 de Agosto

5.

Os técnicos do INEM fizeram 365 mil horas extras  em 2025.

6.

O número de moradores da avenida da Liberdade passou de escassa meia centena de pessoas há 15 anos para cerca de um milhar hoje em dia.

MÚSICA PELA MANHÃ


Volta e meia, daremos uma saltada aos Clássicos do Meu Pai.

Hoje, ficamos com Elgar.

«Ao longo dos tempos, o meu pai foi um atento espectador das transmissões televisivas dos “Concertos para Jovens” de Leonard Bernstein, dos “Concertos Promenade”, dos “Concertos de Ano Novo.”

Dos “Concertos Promenade” gostava particularmente da última noite, onde infalivelmente, aparecem a "Marcha de Pompa e Circunstância" de Elgar, o “Rule, Britannia”, e “Jerusalem", com toda a sala a cantar em coro. Nunca conseguiu encontrar um disco, ao vivo, de uma das últimas noites dos Proms, mas ouvia, com regularidade, a “Marcha de Pompa e Circunstância”. 

Lembro-me do dia em que  telefonou a dizer que comprara o disco na “Discoteca Melodia” e que isso merecia uma garrafinha.

Comovia-se com os “Concertos de Ano Novo”, principalmente quando o maestro se dirigia ao público, na Grande Sala do Musikverein cheia de glamour e flores, e aos milhões de espectadores espalhados pelo Mundo, gritava o seu “Prosit Neujahr”, a habitual saudação de Ano Novo.

E nos anos em que, juntamente com o meu pai, vi o concerto, lá estava ele a informar que os bilhetes para o concerto do ano seguinte esgotavam logo nos primeiros dias de Janeiro.

Curiosamente, na entrevista que, em finais de Outubro, António Lobo Antunes concedeu a Ricardo Araújo Pereira, e publicada pela “Visão”, ele diz:

“Eu vejo sempre o concerto de Ano Novo, com música do Strauss, e comovo-me ate às lágrimas.”».

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Por isso, vou para casa e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

Maria do Rosário Pedreira

TRUMPALHADAS

Um tribunal federal de recurso decidiu, esta sexta-feira, que a administração de Donald Trump deve interromper a construção do salão de baile de 400 milhões de dólares na Casa Branca, alegando que o projecto não tem apoio do Congresso. O presidente já confirmou que vai recorrer para o Supremo Tribunal.

OLHAR AS CAPAS


O Autómato

Alberto Moravia

Tradução: Manuel Martins de Sá

Capa: Vítor Ribeiro

Colecção: Os Livros das Três Abelhas

Publicações Europa-aAmérica, Lisboa Novembro de 1964

- Para mim, minha irmã é como se tivesse morrido – disse inesperadamente Marco.

Mas eu não compartilhava desta sua tristeza; a inutilidade dos seus esforços fazia-me quase sorrir, como aquelas leves angústias que nunca se sabe muito bem se trazem prazer ou sofrimento. 

NOCTURNO COM AVIÕES

                                    para o Miguel Martins

Não estejas só. Tu também és

o que já foste e o que esperaste

vir a ser . A manhã que se aproxima

 

há-de passar, não importa. Para já,

os diligentes aviões da madrugada

sobrevoam o desenho das colinas

de Lisboa – e cá dentro, muito fundo,

numa redoma de música, os amigos

ainda bebem para esquecer

 

o futuro, que outro remédio

não têm, se a hora não se repete

e a vida é só espuma

Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2012

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A Ponte sobre o Tejo foi inaugurada há 60 anos.

Chamou-se Ponte Salazar até ao dia da madrugada clara e limpa, e passou a chamar-se Ponte 25 de Abril.

Oliveira Salazar nunca concordou com a obra e nem por escassas horas um dia se dignou visitar as obras.

Calcula-se que cerca de 150 mil veículos e 174 comboios passam diariamente na Ponte 25 de Abril, totalizando mais de 300 mil pessoas.

NOTÍCIAS DO CIRCO

 Ainda temos governo?

Tudo aquilo parece um KAOS.

Um ministro do governo, Rita Júdice, ministra da Justiça, ordena avaliação ao ministro da Administração Interna  enquanto ministro e enquanto director da Polícia Judiciária.

Luís Montenegro emite umas frases inconsequentes.

Luís Neves mostra-se “absolutamente tranquilo.”

O Presidente da República, em silêncio, aguarda resultados de todos os inquéritos.

Alguns portugueses estão em férias ricas, outros em férias possíveis, outros veem televisão e outros vão ao futebol.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Naquela feira de ocasião que, às quartas-feiras, se realiza no Jardim Constantino, encontrei este livro.

Achei interessante.

Não conheço o autor mas Manuel Antunes Marques, numa homenagem ao poeta António Aleixo, engendrou:

«Para continuar a obra de António Aleixo, o autor glosou algumas quadras dos seus livros, dando ao poema uma forma diferente, ao mesmo tempo que se misturam dois pensamentos políticos:

- o pensamento de António, cujo mote reflecte a sua maneira de sentir;

- as glosas que, enquadradas no mote, dão uma nova forma à poesia de António Aleixo, sem contudo a desvirtuar.».

Tão simples, e tão bonito, quanto isto!

Colaboração de Aida Santos.

OLHAR AS CAPAS


100 Poemas nos Cem Anos de António Aleixo

Manuel Antunes Marques

Capa e ilustrações de Lourenço Maria

Editorial Minerva, Lisboa Maio de 2003


A Fartura ao Pé da Fome

A fartura ao pé da fome

Raramente se dão bem

Quase sempre quem tem come

À custa de quem não tem

                António Aleixo


Casas lindas e casas feias

Ruas com nome e sem nome

Já vivem paredes meias

A fartura ao pé da fome

 

Têm uma vida diferente

Uma tem muito, outra não tem

Morando perto, esta gente

Raramente se dá bem

 

É a pobreza quem cria

O que a riqueza consome

E do pão que sobra, a fatia

Quase sempre que tem come

 

Come o rico, jejua o pobre

Como à riqueza convém

Come o pão sem que sobre

À custa de quem não tem.


Colaboração de Aida Santos

QUE DOMINGO SOLENE

Que domingo solene, ocioso e lasso!
Tão triste; o sol inunda a tarde toda,
Festivo como um guizo numa boda
Onde a noiva morreu, desfeita em espaço...

Medeia a eternidade, em cada passo
Que, sem intuito, dá quem passa; à roda
Parece dormir tudo; e incomoda,
Ponderável, no ar, um embaraço...

Toda a tristeza do domingo à tarde.
Sobe dos homens para o céu, que arde,
O apego à vida dum olhar que morre.

Sombras sugerem aflições incertas...
E das janelas sôfregas, abertas,
Morno, o silêncio como num pranto escorre...

Reinaldo Ferreira em Poemas

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Quanto mais feliz mais breve é o tempo.

Plínio 

MARCADORES DE LIVROS


Colaboração de Aida Santos.

 

TRUMPALHADAS

 O número de migrantes detidos pelas autoridades norte-americanas durante o mandato do Presidente Donald Trump atingiu em Julho o nível mais elevado, com mais de 50.000 detenções, confirmou o Departamento de Segurança Interna.

O aumento ocorre no meio de pressões da Administração republicana para aumentar as detenções de migrantes, com o objetivo de alcançar as 2.000 detenções diárias, e de uma expansão das operações do Serviço de Imigração e Alfândegas, o ICE, incluindo detenções em aeroportos.

           

Em junho, o Governo comunicou, por sua vez, cerca de 43.000 detenções, um número também recorde durante este Governo, acrescentou um alto funcionário da DHS, que pediu para não ser identificado.

Estes dados, indicados pelo funcionário à agência EFE e que ainda não foram publicados oficialmente, revelam um aumento das operações do ICE, apesar das críticas da oposição e de organizações de direitos humanos às táticas do Governo, especialmente depois de duas pessoas terem morrido baleadas por agentes de imigração em Julho.

NOTÍCIAS DO CIRCO

1.

BPI, BCP, CGD, Santander e Novo Banco registaram, no total, lucros de 2,4 mil milhões de euros este semestre. Foram 562 mil euros por hora, com a subida do crédito à habitação e as comissões a impulsionar os ganhos.

2.

Há mais de três mil doentes na lista de espera para receber cuidados continuados em unidades especializadas, obrigando muitos utentes a permanecer nos hospitais mesmo depois terem recebido alta médica.

ATÉ QUANDO

Até quando

este bosque sem fim de sombra iluminante

por onde vamos sem bem saber aonde vamos

de mudança em mudança protegidos

só da mesma incerteza de mudança?

 

As estrelas que luzem entre os troncos e os ramos

são janelas de lenhadores tranquilos gozando a segurança

da lareira e dos filhos dormindo e do pão e do vinho

a opaca segurança de nada haver à volta

de sonhador e exaltante

 

Estelas da lei contra o amor são eles

que ao só rumor deste outro fogo invisível que o mundo todo muda

acorrerão aos gritos com lampiões de raiva

e com espingardas

 

Para eles é crime

o que não há ainda


Mário Dionísio em Memória dum Pintor Desconhecido

terça-feira, 4 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê.

Platão

RETRATOS


«Há pessoas que gostam de livros. Há pessoas que vendem livros. Conheço uma única pessoa que, por amor deles, os vende, os edita, os coleciona, os lê e, coisa ainda mais incomum, não sendo rico os oferece àqueles que considera partilharem da sua paixão: chama-se José Ribeiro, José Antunes Ribeiro e tem a inocência generosa de um menino por baixo dos caracóis grisalhos, do sorriso largo, dos óculos quase tão transparentes como os olhos, do dedinho minucioso a inventariar lombadas. Fez a Assírio & Alvim, fez a Ulmeiro e tirando os momentos em que surge por acaso à superfície da terra, alegre de uma timidez enternecida, habita uma cavezinha de Benfica, três ou quatro compartimentos pequenos semelhantes a corredores, a copas, a casulos, a nichozitos de abelha onde o seu grande corpo se move numa agilidade insuspeitada entre páginas e páginas e páginas impressas, mostrando, procurando dando

- Tens isto?

- Conheces?

- Já leste?

no orgulho humilde, fraternal, de que a sua amizade é feita. Se não fosse o José Ribeiro detestava a Avenida do Uruguai.»

António Lobo Antunes em Livro de Crónicas, 1º volume, «Homenagem a José Ribeiro», página 357.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Um vagabundo perdido no meio de uma intelectualidade, em que a esmagadora maioria, não o quis compreender, aceitar.

Nos dias que correm, a Editora Tinta-da-China terá encetado um trabalho de trazer para a mesa, este quase desprezado Luiz Pacheco.

Começa a aprendizagem com a Antologia Ser Livre em Português.

A Biblioteca da Casa, em livros, em antologias, nos folhetos-dá-cá-vintes!, está bem representado, mas numa antologia, o caso de que temos vindo  a falar, há sempre qualquer coisa que vale a pena conferir e para quem ainda não o conhece, está aqui o melhor que Pacheco nos deixou e sabe-se que o filho Paulo, o Paulocas, tem em casa um baú como o do Fernando Pessoa.

Serenamente, vamos esperar.

OLHAR AS CAPAS


Ser Livre em Português

Uma Antologia

Luiz Pacheco

Edição: Rui Sousa e Sofia A. Carvalho

Com apoio è edição de Jessica Dias, Pedro Meneses e Sofia Casaleiro Roque

Capa: P. Serpa

Tinta-daChina, Lisboa Junho de 2026

Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem, casado. Lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.

EM CIMA DOS MEUS DIAS

Muita gente me tem falado a meu respeito
como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse
e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida
e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasse

Muita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece
e já nem sei ao certo quantos dias meço
Regresso com o gado contra o sol rasante
Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas
aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?

Os ciprestes os pássaros saúdam-me e eu passo
com um olho vasado transpareço o meu passado
e tudo esqueço e peço mesmo a Deus que esqueça quanto sou
além dessa medida simples onde me vasou
Sabermos nós que a face de algum mar ao pôr-do-sol pode mudar
e nenhum dia-a-dia consentir ao homem mais que a morna superfície
dos gestos por que troca a mais íntima morte que merece

Nada na minha poesia é meu
juro por Deus dizer toda a verdade
Ponho a mão na cabeça o dia é escuro e vago e eu respiro
Espero pela manhã como quem nasce
Ninguém sabe o meu nome porque
eu já perdi ao longe alguns dos olhos
e fui feliz em cafés de província onde me vi sentar

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum

É de manhã caminho nem meus passos oiço
oitenta passos diz-se que darei
Vão-se fechando os dois alinhamentos das moradas
arredonda-se o largo, alguns problemas camarários
Duvido de mim próprio: quem serei?
O carro rega coisas tão profundas como esta
Meu Deus meu Deus, que mal eu fiz?
Eu estive em Dinard e vou talvez casar
Acordo e transistorizo os dois ouvidos numa música abundante

Muita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e minguo certas vezes anoitece
Sou coisa que se molha encolhe e envelhece
tudo me aquece e tudo me arrefece
Dois pés e duas mãos, algumas pás de terra
E sabem mesmo que o meu nome é Rá, por isso me conhecem
Sou a doença e sou onde me dói
sou sítio onde se nega que se morre
Tem graça haver quem fale a meu respeito

Ruy Belo