quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Morrer em Madrid começou por ser um documentário realizado, em 1963, por Frédéric Rossif.

A Guerra Civil Espanhola começou a 17 de Julho de 1936 e terminou a 1 de Abril de 1939.

Espanha, 1939.

Quinhentos e três mil e sessenta e um quilómetros quadrados – quase a França.

Dois milhões de prisioneiros.

Quinhenta mil casas destruídas, cento e oitenta e três cidades gravemente devastadas.

Em três anos, um milhão de mortes violentas.

Quinhentos mil exilados.

Um exército de seiscentos mil soldados.

Um partido único: a Falange.

Uma religião de Estado: a religião católica.

Um chefe único: o Caudilho.

Os salários voltaram ao nível de 1936.

Os grandes proprietários recuperaram as suas terras.

A igreja reencontra os seus grandes domínios.

OLHAR AS CAPAS


Morrer em Madrid

Madeleine Chapsal

Tradução Maria Piedade Ferreira

Capa: José Cãndido

Livraria Bertrand, Lisboa, Junho de 1975

Espanha, 1931

503 o61 Km2 – quase a França

Vinte quatro milhões de pessoas.

Neste ano de 1931, metade da população – doze milhões – é analfabeta

Há oito milhões de pobres

Vinte mil pessoas são donas de metade da Espanha.

Províncias inteiras são propriedade de um só homem.

Salário médio dos trabalhadores: de uma a três pesetas por dia.

Um quilo de pão custa uma peseta.

Vinte mil frades, trinta e um mil padres, sessenta mil religiosas e cinco mil conventos.

Quinze mil oficiais, oitocentos, um general para cada cem soldados.

Um rei, Afonso XIII, o décimo quarto soberano depois de Isabel, a Católica.

Subitamente , a 12 de Abril de 1931, os candidatos monárquicos são batidos nas eleções municipais. O rei Afonso XIII retira-se.

É a República de surpresa.

O povo descobre que existe, tem direito à palavra, direito aos discursos.

CHAVE UNIVERSAL

uma partida com o mal que se salda afinal

na dádiva do embuste. E ao mesmo tempo

um aspeto assinalável de bazar Tanta vida

 

reordenando corpos e passados: mister

rebarbativo essa arrumação, depois

a linha é ténue entre ficção e imagem

 

do arquivo. Podes podar desgostos,

esgalhar rentes sentidos, uma pista:

podes procurar onde foi omitido.

 

Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto

terça-feira, 13 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Senhor, dai-me uma santa paciência, para viver comigo mesmo: pois de contrário, como saberei viver com os outros?

José Rodrigues Miguéis

À LUPA

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu à embaixadora norte-americana em Atenas, Kimberly Guilfoyle, que apresente a demissão. A informação foi dada nesta terça-feira pela nova secretária de imprensa da Casa Branca, Katie Zacharia, no seu primeiro briefing. "Pedimos à embaixadora Guilfoyle que se demitisse. Ela foi um maravilhoso activo para a equipa e desejamos-lhe o melhor."

Uma série de escândalos, revelados pelo Wall Street Journal, levaram a Casa Branca a um ataque de nervos.

Contudo, A Lupa, atentou que, para além dos diversos escândalos em que o tráfico de influências ocupa um largo espaço, que Kimberley Guilfoyle, durante um jantar em Atenas, que os Estados Unidos podiam derrubar derrubar qualquer governo, incluindo o grego!...

MEUS PARADOXOS PREDILECTOS

Se Deus me der força e saúde, hei-de provar que ele não existe.

Aquele dono de empresa ferroviária morreu de desgosto quando o filho arranjou emprego como salva-vidas.

Ele tinha uma paixão gigantesca por uma mulher pequenina.

Era u infeliz – sofria de gota e catarata.

Já tenho idade bastante para não saber muitas coisas.

Ele só pintava mulheres de corpo escultural.

Quando o professor acabou sua conferência sobre a estratosfera, todos os cumprimentaram dizendo que ele tinha falado com muita profundidade,

Suicidou-se porque não tinha onde cair morto.

Há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos.

Em certos raros momentos temos uma opinião unânime de nós mesmos.

Millôr Fernandes em Pif-Paf

OLHAR AS CAPAS


O Sono da Morte

Rex Stout

Tradução: Mascarenhas Barreto

Capa: A. Pedro

Colecção Vampiro nº 458

Não seria estrictamente verdadeiro dizer que Wolfe e eu não nos falámos, nessa manhã de Maio, depois do que acontecera na véspera à noite

Ao chegar a casa (entenda-se por casa o prédio de pedra castanha, na West 33ty Street que pertence a Wolfe e onde com ele coabitamos, Fritz, Theodore e eu) por volta das duas da manhã, fiquei surpreendido por Vê-lo ainda a pé, ou melhor, sentado à secretária, embrenhado na leitura de um livro.

Pelo olhar com que me prendou percebi que havia qualquer coisa a roê-lo, lá por dentro, mas atravessei o escritório, direito ao cofre, para assegurar-me que estava fechado (o que faço todas as noites), fazendo de conta que não queria interromper-lhe a leitura.

-Onde tem estado? – inquiriu de chofre.

Virei-me e arvorei uma expressão reprovativa.

- Francamente! A que propósito?

- Devia ter-lhe perguntado, mais precisamente «onde é que não tem estado». Miss Rowan telefonou cinco vezes, a primeira, pouco depois das oito, e a última, há meia hora. Se me tivesse ido deitar, não teria conseguido dormir. Como sabe, Fritz esteve esta tarde de folga.

- E ainda não veio?

- Veio mas como tem de levantar-se cedo para preparar o pequeno-almoço, não o quero amanhã mal disposto. 

TRUMPALHADAS

 «Enquanto alivia as sanções à Rússia, os EUA agravaram as retaliações ao Tribunal Penal Internacional, que condenou Ratko Mladić à prisão perpétua e cuja morte Dodik celebrou como a de um autêntico herói, horas a seguir à nomeação da ex-juíza sul-africana Navi Pillay como vencedora do Prémio Nobel da Paz. Pillay liderou a comissão da ONU que investigou o massacre de 7 de Outubro e denunciou o genocídio em Gaza.


A política externa de Trump assenta na marginalização das instituições multilaterais (como a ONU ou a NATO) e na sua substituição por relações bilaterais. Ao atacar a principal instituição de justiça global, os EUA atacam as vítimas de crimes de guerra e os países que a criaram.

O homem que queria ganhar o Nobel da Paz está em guerra com a justiça internacional e em defesa dos acusados de crimes de guerra que trata como aliados favoritos: Putin e Netanyahu.»

Amílcar Correia no Público

ALFAMA

Tens a certeza de que é tudo para continuar

exactamente assim? A laranjeira quase seca

no meio daquele pátio, a escada que leva

a um terraço onde já ninguém quer ir?

Há sítios demasiado velhos para serem

visitados por quem nunca os viu intensos

 

Não, não foi a pensar em gente como nós

que toda esta calçada envelheceu. As esquinas,

como sempre, são perguntas sem resposta. E as placas

toponímicas incapazes de fingir que nos conhecem.

Não há – já reparaste? – uma só porta

Que se abra se a olharmos fixamente.

Vítor Nogueira em Os Cem Melhores Poemas

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Bem, estas contas ainda sei fazer, é fácil, foi o senhor doutor quem me ensinou. «Governar a acas ou governar o país é a mesma coisa. É precisoi é equilibrar as receitas com as despesas.»

Maria do Céu Ricardo, fala da peça Salazar, Deus, Pátria, Maria. 

O QUE A CENSURA CORTOU

Maria do Céu Ricardo escreveu a peça Salazar, Deus, Pátria, Maria, tendo por personagem única D. Maria, e por cenário a cozinha de S.Bento em dias de Estafo Novo.

Fernando DaCosta, no final do livro, faz uma apreciação sobre a governanta de Salazar:

«Era uma mulher – convivi com ela – esperta, irónica, atenta, dura, auto-controlada, íntegra, fidelíssima. A encenação que montou à volta de Salazar (moribundo) foi cenicamente espantosa, politicamente audaz, socialmente desafiadora, espantosa, politicamente  audaz, socialmente desafiadora, psicologicamente demencial. Com vontade de ferro, impôs ao regime, à Pide, à comunicação Social, ao mundo, a espantosa ficção de um chefe de governo a dirigir semicomatosos, a governação do País.

Ela, foi, por cero, a máscara mais perturbadora de Salazar.»

Voltamos a O Que a Censura Cortou e ficamos perante Memórias, livro do embaixador Pedro Theotónio Pereira, em que ressalta a influência, o poder que a governanta de Salazar exerceu.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Josefa, avó de José Saramago, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada, para o céu de que nada sabia e por onde nunca viajaria, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disse, com a serenidade dos seus noventa anos e o fogo duma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo e disto se sabe por que Saramago estava lá nessa noite estrelada e imensa e, com ternura, deixou testemunho nas suas Pequenas Memórias.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Sustos atrás de sustos.

Pedro Passos Coelho apareceu na SIC numa entrevista a Maria João Avillez, mas quem, senão esta senhora, se lembraria do dito ex-presidente que afirma não ser candidato a nada mas vai adiantando o elogio ao presidente da «tal coisa» e se Montenegro falhar,  ele avança, pois então…

Se isto não são sustos, atrás de sustos, o que lhe poderemos chamar?...

RÉPLICA AO EPIGRAMA DE SCHILLER «DIGNIDADE DO HOMEM»


                                  O EPIGRAMA


Não me falem mais disso, por favor!

Dai-lhe de comer, dai-lhe onde morar, dai-lhe de vestir

- e a dignidade, essa, virá por si.

 

                                  A RÉPLICA

 

Deram-lhe de comer

(As grandes telas fauves das charcuteries

 

Deram-lhe onde morar

(E não só onde morar: televisões e frigoríficos…)

 

Deram-lhe de vestir

(Os nylons, as peliças, a indiferença…)

 

E a dignidade, essa

Continua habitando

Os que lutam por ela.


José Fernandes Fafe em Poesia Amável

domingo, 11 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


As palavras saltam. Se permitires, elas farão o que querem e o que precisam fazer.

Anne Carson

MÚSICA PELA MANHÃ


 A Biblioteca da Casa tem dois discos dos Agua Viva: Cada Vez Más Cerca e Apocalipsis. Sammy quase garante que existia, pelo menos, mais um do conjunto espanhol, mas aconteceu-lhe qualquer coisa…

Dos dois discos da casa, recolho canções para esta manhã, cinzenta, de domingo.






Colaboração de Aida Santos.

DITOS & REDITOS


Quem trabalha merece o melhor.

Permitem-lhe supor que tinha razão.

… como todas as afirmações de paixão, não é exacto.

Espera pela deixa.

Se não gostarmos de nós próprios, quem é que vai gostar.

Caçador furtivo não guarda troféus.

Estúpido e feliz são palavras quase sempre sinónimas.

O amor é uma longa paciência.

sábado, 10 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Às vezes sabes, sinto-me farto por tudo isto ser sempre assim.

Ruy Belo

TRUMPALHADAS


 A Pena de Morte não devia ser possível em qualquer país do Mundo.

Em 1 de Julho de 1867, foi promulgada, no reinado de D.Luís, a carta de lei que abolia a pena de morte em Portugal, o que levaria o escritor Victor Hugo a escrever à Academia das Ciências de Lisboa, em 15 de Julho de 1867:

«Realizar este progresso é dar um grande passo na civilização.Desde hoje, Portugal está à cabeça da Europa.»

Nos Estados Unidos, em alguns estados, não só é permitida a pena de morte, como a é promovida a espectáculo de circo.

Copiamos da crónica de José Pacheco Pereira, hoje no Público:

«E Trump é o padrão para toda a direita radical na Europa — sabemos bem quem andou a mexer os cordelinhos para estar lá atrás na assistência da tomada de posse de Trump —, e tem o beneplácito dos ditadores como Putin, vários pequenos e obscuros ditadores asiáticos que colocou no Board of Peace, Kim Jong-un​ e Netanyahu. Não incluo o ditador chinês Xi Jinping​ porque desse ele tem medo e inveja.
Escrevo este artigo quando Trump permitiu a execução por fuzilamento de um criminoso militar. É verdade que a pena de morte é comum nos EUA, em particular nos estados republicanos, mas, depois de um ligeiro declínio, está outra vez na moda. As cenas de crueldade com a execução falhada de uma mulher já nos tinham mostrado como a violência está inscrita na sociedade americana, antes de Trump, mas agora transformada num espectáculo nestes dias de “demónios”.
Mas a decisão de transmitir em directo o fuzilamento do militar é talvez o melhor exemplo desta banalização do mal, da transformação da morte num espectáculo para educação das massas. E o mais grave é que não tenho dúvidas sobre as audiências no dia do fuzilamento, 3 de Dezembro.
Pode ser que haja recuo, porque o único motivo para Trump é o medo eleitoral na sua base de apoio, mas o mal já está feito, a intenção de Hegseth, o gnomo da guerra de Trump, foi expressa num tom quase jocoso, e cruel. Não esqueçamos que o major criminoso tem um nome árabe e presume-se que era muçulmano, o que é hoje uma garantia da majoração da pena para educação das massas MAGA dominadas hoje pelos anjos do mal, ou seja, pelos demónios.»

MÚSICA PELA MANHÃ



Jorge Palma, num Postal Sem Selo, já noas avisara:

Que o 25 de Abril não se torne uma memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe.

O presidente António José Seguro, em discurso recente, lembrou:

No dia 16 de Outubro de 1982 Adriano Correia de Oliveira deixava o nosso convívio, era Outubro em Avintes e chovia.

 A saudade é um luto, a memória um tempo que passa e sempre alguém que diz não.

A imagem é a capa de um DVD, em que Viriato Teles recorda um tele filme que passou na RTP no ano de 2015.

Hoje, lembramos Adriano Correia de Oliveira.

Para que NUNCA MAIS!, que é o título de um dos seus álbuns, em que canta Manuel da Fonseca.




À LUPA


Navi Pillay, jurista que denunciou genocídio em Gaza, digo que o que está a acontecer lá é genocídio, é o Prémio Nobel da Paz de 2026.

A notícia foi recebida por Navi Pillay em Nuremberga, onde foi aplaudida efusivamente pelos presentes, segundo um vídeo publicado pela secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, no X. “Muito obrigada. Se continuarem a aplaudir, sou capaz de partilhar este prémio com Donald Trump, ironizou a jurista, numa referência a María Corina Machado, distinguida no ano passado e que tentou oferecer o prémio ao Presidente norte-americano.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Eu não posso fazer o que quero, porque isso era o que eu fazia.

Abel Barros Baptista

À LUPA

Chama-se Elogio das cabeças ocas a crónica de Ana Cristina Leonardo, hoje, no Público. 

Fica este pedacinho:

«E sobre os caminhos do pensamento, ocorreu-me agora uma historieta zen em que um discípulo pergunta ao mestre: “Mestre, explica-me o que é o Nirvana”. E o mestre: “Já almoçaste?” Ao que o discípulo responde: “Sim.” E o mestre, virando-lhe as costas: “Então, vai lavar a louça.”».

ANNE CARSON, NOBEL DA LITERATURA 2026


Isabel Lucas no Público:

«O que ainda temos para descobrir sobre Anne Carson, Nobel da Literatura 2026
O Nobel distinguiu uma poeta, ensaísta e classicista que reinventou a relação da literatura com os antigos, numa obra atravessada pelo desejo, pela perda e pela dificuldade de compreender o mundo.»

Terei que descobrir Anne Carson, tal como aconteceu com Wislawa Szymborska e outros.

O tempo... terei que o arranjar!... 

ANDO CANSADO

Ando cansado, amargurado, sem um sorriso, e os olhos

doem-me ao cair da tarde. Como um anjo aborrecido,

lento, aproximo-me dos livros, dos papéis e tento acender

um fósforo inutilmente. Já não conheço a literatura, meu amor.

 

A literatura não vem nos jornais, embora tropece nos silêncios,

nos degraus, nos bancos do jardim, embora tenha nascido

nocturna. Ando perdido, e nas pedras negras da costa

vejo o último atalho, a garrafa dos apelos finais abandonada.

 

José Viale Moutinho, tirado daqui