Os Índios Americanos
Larry J. Zimmerman
Tradução: Ana Maria Pinto da Silva
Capa. José Neves
Colecção: Cultura e Civilizações
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de
2006
Larry J. Zimmerman
Tradução: Ana Maria Pinto da Silva
Capa. José Neves
Colecção: Cultura e Civilizações
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de
2006
Vamos, hoje, recordá-lo.
A razão pela qual a preocupação mata
mais pessoas do que o trabalho é porque as pessoas se preocupam mais do que
trabalham.
Robert Frost
O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da
cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a viagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa
iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele
O'Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras
mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe
de mais e ri-se
do que neste soneto sobre
si mesmo disse...
Alexandre O'Neill em Poemas com Endereço
A Tia Tula
Miguel de Unamuno
Tradução: Ruy de Oliveira Soares
e G. Martins de Oliveira
Colecção: Livros RTP nº 11
Editorial Verbo, Lisboa s/d
- Mas que depressa vais!... – e voltou a esforçar-se por rir.
- É que se tem de ir depressa, porque a vida é curta
- A vida é curta! Dizes isso aos vinte e dois anos!
Ano X 2ª série,
Agosto de 1961, nº 125
Proprietário e
Editor: Eduardo Nunes
Directora: Maria
Vitória Quintas
Secretário da
Redacção: João José Cochofel
Redacção e
Administração: Academia de Amadores de Música –Rua Nova da Trindade, 18, 2º
Telef. 25022
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.
Gritavam Neruda Allende
deram vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido
- o povo nunca se rende
Mesmo quando morre unido.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.
Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido.
- o povo nunca se rende
mesmo quando morre unido.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Alguns traziam no rosto
um rictus de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
uma vida à beira-mágoa.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.
José Carlos
Ary dos Santos, poema Homenagem ao Povo do Chile de O Sangue das Palavras em Vinte Anos de Poesia
«Os EUA no mundo 25 anos depois do 11 de
Setembro
Dedicamos hoje
uma parte importante da nossa primeira página, que é sempre uma espécie de
cápsula do tempo para efeitos de memória futura, aos 25 anos passados sobre os
ataques às Torres Gémeas, ao edifício do Pentágono e ao voo United 93. A 11 de
Setembro de 2001 morreram 2977 pessoas, incluindo 19 terroristas, e não se sabe
quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então.
Na sequência
do 11 de Setembro, os Estados Unidos fecharam-se ao mundo e instalou-se uma
lógica securitária motivada pelo medo, pela necessidade de proteger as
fronteiras e pela luta contra o terrorismo. Foi aprovada a Patriot Act, nasceu o Department of Homeland Security e o (agora
famoso) ICE Immigration and Customs Enforcement, o controlo de vistos foi
reforçado (sobretudo para cidadãos oriundos de países muçulmanos) e teve início
uma “caça ao homem” que só terminou quando Osama Bin Laden foi morto, em
Trípoli.»
Sónia Sanage no Editorial do Público de hoje.
Caramba! Já passaram 25 anos sobre o ataque aos Estados
Unidos.
Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol
Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?
Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?
Que estranho abjeto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?
(Um tigre humano vem
a cada esquina oculto
no rumor da manhã
saciar-se de sangue)
Daniel Filipe
Se alguém, no meio do silêncio, tropeçar
nestas páginas e encontrar nelas um fio por onde se segurar, a certeza mínima
de que não está sozinho, de que houve quem passasse por ali e continuasse,
então este texto terá feito o seu trabalho.
Fabian Figueiredo
Je laisse passer les bateaux les
nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
António Ramos Rosa de Viagem por uma Nebulosa em Obra Poética Volume I
A história já aqui foi contada, mas a ela voltamos porque, muito naturalmente, é abordada na Biografia de Herberto Helder escrita por João Pedro George.
No ano de 1994 o júri atribuiu o prémio a Herberto Helder.
«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»
Era uma pipa de massa para quem tinha, por escassez de dinheiros, uma vida muito, mesmo muito difícil.
Mas Herberto Helder recusou a distinção.
António
Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso,
tentaram demovê-lo.
Conta o António Alçada Baptista:
«O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.
Eu disse, meio a
brincar meio a sério:
- Vimos numa difícil missão...
Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.
Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:
- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...
- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...
Ele ainda acrescentou:
- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.
Sobre
o episódio do Prémio Pessoa, João Pedro Jorge coloca a viúva de Herberto, Olga
Lima, a contar a cena:
«Fiquei cheia de raiva
porque estávamos tesos, “Herberto, mas não temos dinheiro e estás armado em
vivaço!?” Aquilo não tinha jeito nenhum, O Herberto queria era que o deixassem
em sossego. Agora, os valores dos outros prémios que ele tinha recusado eram
irrisórios, mas dizer que não a sete mil contos, hoje cerca de 35 mil euros?
Nessa altura o Herberto disse-me: “Sei que querias, uma vida mais descansada mas,
desculpa lá, eu prémios não aceito. Se querias mais convívio ou mais dinheiro,
casaste com o homem errado.»
A
recusa do prémio causou um circo de prosas e opiniões, algumas tocando o
ridículo.
Mas
João Pedro George lembra:
«Luiz Pacheco, que não
se levava muito a sério, nem ele nem a estes foguetórios da cultura, adiantou
uma explicação alternativa, talvez plausível: «Ele sempre disse que nunca
receberia prémios, deram-lhe um balúrdio de um prémio, era dele, ninguém lhe
podia levar a mal mas ele disse logo: “Não quero!”. Há uma hipótese sacana: não
havia dinheiro para o prémio, então deram-no a um gajo que já sabiam que não
recebia.»
escrevo-o porque é o mais difícil
de fazer sem ti, que
foste corpo
boia às minhas mãos, bordão
torto
mas para vir à terra o
mais fiel
ferro. E se eu na pela
nem soube
do mal que me avisaram
que me fazes
e já sou mestra em largar-te
quase
tanto como a gritar
lobo
até morrer de facto,
eis o tributo
ao que passámos:
rumores de noites,
copos, cafés,
suspensões de céus
e sol manchado após o
mar ou coito
e o pasmo sobretudo
libertado
do vazio – que triste,
cigarro, adeus.
Margarida
Vale de Gato em Atirar para o Torto
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que mais oculto havia
na secreta ternura de
uma boca
que era a única boca do
seu povo
Que posso eu fazer
senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
António
Ramos Rosa
Chamava-se Vasco Gonçalves.
Este livro é algo de importante para os que esqueceram,
para os que não sabem o que foram aqueles mágicos e muito difíceis dias.
O título do livro diz tudo: «Não Pode Haver Neutros»,
todos aqueles que pensaram, que pensam, que ficar no meio é o espaço ideal para
poder ver os dois lados. Também não pode haver sacanas que, então, apareceram
em quantidade desmesurada, quando o que se podia era algo diferente:
«Nós também precisamos de aliados nesta
revolução; precisamos de pequenos empresários, médios empresários, que
compreendam esta revolução, que caminhem ao nosso lado; nós precisamos também
de alianças porque isto é uma tarefa muito grande. Mas, repito, a revolução só
comporta duas situações: ou se está com ela ou contra ela. Não há tipos que
possam dizer «eu sou neutral, não me interessa nada a política.»
Vasco Gonçalces do Discurso da Sorefame, 17 de Maio de
1975.
Naturalmente, nem tudo correu como se esperaria.
Sobre Vasco Gonçalves fica uma opinião do pintor João
Abel Manta:
Não Pode Haver Neutros!
António Amaral
Capa: V. Tavares
Edições
Tinta-da-China, Lisboa Junho 2026
Os discursos de Vasco Gonçalves devem, por conseguinte, ser abordados não apenas como reflexo dos acontecimentos, mas antes como acontecimentos doadores de sentido à «articulação política» entre orador e auditório e, sobretudo, entre estes e o processo mais amplo que colectivamente os interliga.
Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.
Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.
Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.
Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.
Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.
Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha
Em tempos não muito
distantes, as vindimas realizavam-se por finais de Setembro e iam por Outubro
dentro.
E eram uma festa!
Devido às variações climáticas provocadas pelos humanos passaram a acontecer em finais de Agosto e entram por Setembro dentro.
Pedro Garcia, em crónica no Público de 4 de Setembro, fala das vindimas no seu Douro:
«Uma vindima de velório e a maldição do carvalho grande de Joseph Wayne
1.
Um dia Benjamim
Franklin, um dos principais Pais Fundadores dos Estados Unidos, cientista,
inventor, diplomata e escritor, não esteve de modas, e disse:
«O vinho é a prova provada de que Deus nos ama e nos deseja ver felizes».
2.
Importante a opinião de
João Paulo Martins, jornalista, escritor, um apaixonado por vinhos:
«O melhor vinho que bebi não foi seguramente o melhor vinho que já
provei. O melhor que bebi foi-o porque eu estava no ambiente certo, com as
pessoas certas, no momento certo».
3.
Tragam o vinho dos vivos, o vinho dos mortos, o vinho dos amanhãs perdidos. Não entregar o coração ao infortúnio. Nada se lucra com tristezas. O melhor remédio é pedir mais uma garrafa.
4.
Saímos de cena
lembrando uma canção do filme The Young Ones, Cliff Richard com Os Shadows
«Amanhã
Por que esperar até amanhã?
Porque amanhã
Por vezes nunca vem.»
Este caso do Goulart é
sintomático: todos gostam de bater no Goulart é um dos poucos idealistas
(taradinho, com as ideais todas torcidas está visto) que andam por essas ruas.
Tem um ideal (taradinho, etc.), e luta por ele. Depois, é coxo, paneleiro,
fraco de ombros. É monárquico e católico. É um tipo com uma cultura muito acima
do vulgar e é sério. Dá ou não vontade de bater (bater com tanta facilidade)
num tipo destes? Dá. O medo que as pessoas têm de bater num polícia e a
vontade transferem-se psicaliticamente para os lombos e os bochechos do
Florentino. Vem no Freud explicado.
Luiz Pacheco, de uma Carta ao actor Fernando Gusmão em Textos Avulsos, Inéditos eDispersos.
Legenda:
Goular Nogueira
Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor como uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
Manuel António Pina em Os Livros
Há países que medem o seu desenvolvimento pelo PIB, pelos mísseis
balísticos, pelos arranha-céus, pela quantidade de milionários, de cirurgias
plásticas ou de bocas cheias de dentes de ouro. Ocorre-me outro indicador,
pouco modestamente: o Produto Interno Estendido.
Nada é mais democrático do que o estendal. Uns têm melhores varandas, quintais,
traseiras, seja o que for. Mas acabarmos todos no estendal é tão certo como
nascer e morrer. Mesmo que alguém estenda a roupa por eles, são do senhor
ministro as cuecas no estendal.
Abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco. Mas estender a roupa é fazer o
inverso: é a casa a expirar-nos e deixar o bairro respirar-nos.
E não vai mal ao mundo adivinhar a vida uns dos outros através dos estendais. O
estrangeiro recém-chegado com os seus panos. Os miúdos e as camisolas do
futebol. Os mais velhos e os seus abafos. Os estendais foram as redes sociais
antes da Internet, mas com menos filtros. Cuecas, ceroulas, combinações, junto
de lençóis, toalhas, meias com par ou desirmanadas.
Que dizer da arquitectura popular do estendal? Há estendais tímidos, escondidos
nas traseiras. Há estendais orgulhosos, de peito feito para a rua. E há os que
atravessam a rua, como se dois prédios estendessem as mãos, num aperto por cima
das nossas cabeças.
E nós? Gostamos tanto de nos estender. Nos bancos dos jardins, nas esplanadas.
E se formos à praia, nas toalhas. Num sofá ao domingo. Gente amarfanhada é como
roupa que não foi ao estendal. É bom estendermo-nos ao comprido, sem vergonha
do espaço que ocupamos, do sol que recebemos, do vento que nos seca. Nada disso
é de ninguém.
Cidades tristes? Digam quantos estendais atravessam a vossa rua e já vos digo
quanta vizinhança ainda praticam. Cidades gentrificadas? Os turistas conhecem
uma cidade pelos monumentos. Mas ela conta-se a sério nos estendais. Às vezes
basta um vestido a dançar na corda para imaginarmos uma vida inteira.
Estendais
À Barbárie
Seguem-se os Estendais é um
livro de poesia de Miguel Cardoso (&etc., 2015). O título enuncia um
programa, os versos estendem-no sem molas: “as camisas nos estendais/ a pedir
albas/ chuva, felicidade, isso”.
LADO 1
Le Show Biznesse –Leçond de Peinture – Le Train de L’Espoir – Gracias A
La Vida /(Merci L’Existence) – Serenade – La Cuisine, Le Menage Et L’Amour
LADO 2
Monologue de la Solitude – Berger d’Artiste – Messieurs Les Presidents –
L’Étoile D’Or – L’Amitie – Le Reseau
Sammy considera-o um disco fascinante.
Eu também.
"Pagani A Bobino" é o registo ao vivo de um espectáculo realizado em Paris e que Herbert Pagani repetiu em diversas cidades, Lisboa incluída, em Abril de 1980
Vítima de uma leucemia galopante, Herbert Pagani morreu a 16 de Agosto de 1988. Tinha 44 anos.
«Pelos pequenos regatos, cobertos de
espuma branca, pelos pequenos peixes, que nascem já cosidos, pelas florestas
que os nossos jornais cortam em tiras, pelo passarinho, que em vão procura o
seu ninho e pelos nossos telefones, sempre com três na Lina, nós dois e depois
um chui com os seus auscultadores, e a nossa vida vivida que é posta de castigo
dentro das tripas de aço dos vossos ordenadores e por essas cruzes gamadas,
surgidas dos anos 30 que se vêem sobre os anúncios nos quiosques e nas
estações, e por tudo o que faz um certo grupo que tenta fazer pender à direita
as jovens gerações, por esses putos que lançam granadas, pelos que financiaram
os seus campos de treino antes de os terem visto a fazer footing nos estádios,
dizemos-vos:
Bravo, senhores presidentes».
Dolly Parton
morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80
anos.
David Pontes, no editorial do Público, deixou bem vincado:
«O mundo era melhor com Dolly
Parton».
“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly
Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste
diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o
jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country,
mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que,
tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.
Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical
qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente
que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em
todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis”
(na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e,
quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram
a perda.
Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem
impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela
seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes
Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da
covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de
seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que,
“se agora aceitasse, estaria a fazer política”.
Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os
bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles:
dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades
marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável
programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a
crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre,
estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência.
Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter
surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de
dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.
Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de que o mundo anda tão falho.»
Quando deixei de
poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:
ADEUS
POR UM CASACO
«É
tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu
velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.
Pela
Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns
farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.
Comprei-o
na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da
Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.
Quando
senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um
outro semelhante, mas nunca consegui.
Olhava-os
mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.
Nos
últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de
lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.
A
minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal
vestido.
Tentei
explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela
mandou-me um tá bem abelha!
O
próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.
Não
sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo
agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.
Também
a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.
Pelo andar da carruagem, débil esperança…
Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»