Dolly Parton
morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80
anos.
David Pontes, no editorial do Público, deixou bem vincado:
«O mundo era melhor com Dolly
Parton».
“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly
Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste
diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o
jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country,
mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que,
tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.
Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical
qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente
que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em
todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis”
(na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e,
quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram
a perda.
Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem
impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela
seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes
Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da
covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de
seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que,
“se agora aceitasse, estaria a fazer política”.
Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os
bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles:
dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades
marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável
programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a
crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre,
estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência.
Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter
surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de
dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.
Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de que o mundo anda tão falho.»
Quando deixei de
poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:
ADEUS
POR UM CASACO
«É
tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu
velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.
Pela
Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns
farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.
Comprei-o
na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da
Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.
Quando
senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um
outro semelhante, mas nunca consegui.
Olhava-os
mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.
Nos
últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de
lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.
A
minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal
vestido.
Tentei
explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela
mandou-me um tá bem abelha!
O
próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.
Não
sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo
agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.
Também
a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.
Pelo andar da carruagem, débil esperança…
Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»


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