domingo, 15 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS

Os Escritores e a Literatura

Madeleine Chapsal

Entrevistas

Tradução: Serafim Ferreira e Armando Pereira da Silva

Capa: Homero Amaro

Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 1967

Se o escritor não se encontra ligado aos problemas da sua época, nada tem a contar. Mesmo que queira, não se pode encerrar numa torre de marfim. Não existe qualquer torre de marfim. O homem que se fecha, não poderá contar-se a si mesmo indefinidamente e, como não fará nada, terá muito pouco para dizer de si próprio… De outro modo, reflecte-se eternamente a si mesmo, reflectindo-se. O escritor, como homem, está necessariamente comprometido com qualquer coisa, mesmo quando não acredita.

À CONVERSA

No Ípsilon, semanário do Público de 6 de Fevereiro, Màrio Laginha, dá uma entrevista muito interessante. 

Aqui fica um pedaço da conversa que manteve com Sérgio C. Andrade: 

Voltando um pouco atrás: foi agora desafiado a abordar Mozart, depois de o ter feito já com Bach. Qual deles prefere?

É uma resposta facílima: Bach. Mesmo se também adoro Mozart. O seu talento para compor era um absurdo de facilidade. Uma pessoa vê isso quando ouve algumas sonatas e outras coisas do seu reportório, mas também percebe que aquilo era a música pop da época: melodias bastante simples, sempre tudo bem orquestrado, podia-se dançar, eventualmente. Era uma música que comunicava com muita facilidade. O Mozart soa-me sempre a festa, a salão... É claro que o Requiem é outro universo. Já o Bach remete-me para uma ideia de divino. E isto, dito por um ateu, não tem menos força. Oiço aquela música e muitas vezes penso: “Se Deus existe, ele passou por aqui”. Bach eleva-nos sempre, e isso é fascinante. Um dia destes, estava a falar disso com o Pedro [Burmester]: “O Bach é uma música que nunca, nunca, nunca me/nos cansa”.

E Beethoven? Já o abordou na sua música?

Dessa forma, não. Considero-me um músico de jazz. Também tirei o curso de piano, mas não sou daqueles pianistas que viram imenso reportório. Temos de fazer opções, e a minha foi tomada aos 20 e poucos anos. Não queria ser um intérprete de música clássica. Mas há tanta música maravilhosa e, de vez em quando, arranjo um pretexto, e um deles é tocar com o Pedro aquele reportório, que é sempre uma experiência especial.

E Keith Jarrett?

Keith Jarrett, agora oiço menos do que as pessoas possam imaginar. Quando comecei, não fazia mais nada: ou estudava piano ou ouvia Keith Jarrett. Não era jazz, era Keith Jarrett. Isso, entretanto, mudou. Vou contar uma história passada com um guitarrista que sempre adorei, e que morreu há poucos dias [18 de Janeiro], o Ralph Towner [1940-2026], que gravou muito para a ECM, e com quem toquei no disco da Maria João Fábula [1996], para o qual também compus. Estivemos cinco dias em estúdio, também havia o Ricardo Rocha com a guitarra portuguesa, o Manu Katché, na bateria, o Kay Eckhardt, no baixo... Era uma banda incrível. Gravámos o disco em Colónia [na Alemanha], correu incrivelmente e, depois, até tivemos um convite para o importante Festival de Jazz de Berlim. Decidimos, na altura, lançar o barro à parede e convidar o Ralph Towner, uma supervedeta que tinha mais que fazer, a tocar connosco, e ele veio, em dois concertos. Neles, havia um momento em que eu ficava a tocar a solo. No final do primeiro dia, o Ralph veio ter comigo e disse: “O teu solo foi incrível!”. Fiquei nas nuvens. No dia a seguir, voltei a fazer o solo, mesmo se não foi igual. Ele voltou a vir ter comigo: “Gostei muito. Mas tem cuidado, percebe-se muito bem a influência do Keith Jarrett. Tens sempre de ser tu, porque as pessoas querem ouvir o original, não uma imitação”. Eu tinha 30 e tal anos. De vez em quando, nos meus solos, as influências eram tão óbvias... Mas o que o Ralph Towner me disse foi importante, e acho que aprendi a lição.

POSTAIS


 Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ


O filho sempre foi um entusiasta dos Cowboys Junkies.

O Luís Miguel Mira também.

A arrumar prateleiras encontrou os discos que gravou dos Cds do filho.

Não resistiu a reouvir algumas músicas que ficam como as músicas desta manhã.

A história diz que os Cowboys Junkies são uma banda canadiana, formada em Toronto em 1985 por três irmãos da família Timmins mais Alan Anton e Margo Timmins, a extraordinária voz do conjunto, sempre se afirma como guardiões da canção americana.

Por Novembro de 2012 actuaram no Centro Cultural de Belém, o bilhete do espectáculo deve estar a fazer de marcador (velha mania) de um qualquer livro da Biblioteca.




sábado, 14 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Aprendamos a viver em conjunto como irmãos, senão vamos morrer em conjunto como uns idiotas.

Martin Luther King

OLHAR AS CAPAS

A Religiosa

Diderot

Tradução e prefácio: João Grave

Colecção Lusitânia

Livraria Chardon, Porto, s/d

Estou acabrunhada de fadiga, cêrca-me o terror, e o descanso foge-me.

Estas memórias, escritas à pressa, acabo de as ler, e reparo que, sem que o projectasse, mostrei-me, em cada linha, na verdades tam infeliz como era, mas muito melhor do que sou.

- Será porque julgamos os homens menos sensíveis à pintura dos nossos desgostos que a imagem dos nossos encantos? Porque esperamos seduzi-los mais facilmente que sensibilizá-los? Conheço-os tam pouco que não os consegui estudar bastante para o saber…

À LUPA

«Quase todos os anos contamos os mortos por incêndios e as duas últimas semanas de tempestades mostraram, mais uma vez, com o custo direto ou indireto de, pelo menos, 15 mortes, milhares de desalojados e a destruição de milhões e milhões de euros em bens, a fragilidade das defesas do país perante ataques ambientais - e como não investimos seriamente no seu combate e prevenção. Mas, ao que parece, vamos gastar 5% do nosso PIB para nos defendermos de um improvável ataque russo...

Ah! Há uma coisa em que somos bons: demitimos um ministro de vez em quando, para acalmar a população.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Família Amorim, grupo Jerónimo Martins, Grupo José de Mello, Sonae, Grupo Pestana e BA Group vão disponibilizar milhões dos seus lucros anuais para apoio às famílias e a reconstrução das áreas afectadas pelo alfabeto de depressões que ameaça afundar o país na lama. A Conferência Episcopal Portuguesa agradece e promete missas grátis em honra de todos os milionários benfeitores, com lugar no céu garantido à direita do Senhor.»

hmbf na Antologia do Esquecimento

MÚSICA PELA MANHÃ

A América de Trump é o inferno.

Sabemos o que Trump já fez, está a fazer, irá fazer.

Mas dos infernos não sabemos tudo, apenas o que nos chega pelos jornais, pelas televisões.

Num qualquer recente sábado, Bruce Springsteen compôs, gravou e cantou “Streets of Minneanapolis», uma canção de protesto contra a ICE, a agência anti-imgração, imposta por Donald Trump que está a espalhar o caos e o pânico nas ruas das cidades democratas dos Estados Unidos.

Como dedicatória, escreveu Bruce Springsteen:

«Canção dedicada  ao povo de Minneapolis, aos nossos vizinhos imigrantes inocentes e em memória de Alex Pretti e Renee Good, cidadãos americanos mortos pelos agentes do ICE.

 Fiquem livres.

Bruce Springsteen.»

 

«Através do gelo e do frio do inverno

Pela Avenida Nicollet

Uma cidade em chamas lutou contra o fogo e o gelo

Sob as botas de um ocupante

O exército privado do Rei Trump, do Departamento de Segurança Interna

Armas presas aos casacos

Chegaram a Minneapolis para fazer cumprir a lei

Ou assim dizem


Contra o fumo e as balas de borracha

À luz da aurora

Cidadãos levantaram-se em busca de justiça

As suas vozes ecoando pela noite

E havia pegadas de sangue

Onde deveria haver misericórdia

E dois mortos, deixados a morrer nas ruas cobertas de neve

Alex Pretti e Renée Good

 

Oh, nossa Minneapolis, ouço a tua voz

Cantando através da névoa sangrenta

Nós nos levantaremos por esta terra

E pelo estranho no nosso meio

Aqui em nossa casa, mataram e vaguearam

No inverno de 1926

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis

 

Os capangas federais de Trump espancaram

O seu rosto e o seu peito

Depois ouvimos os tiros

E Alex Pretti jazia morto na neve

A alegação deles foi legítima defesa, Sr.

Só não acredite no que os seus olhos vêem

É o nosso sangue e ossos

E estes apitos e telefones

Contra as mentiras sujas de Miller e Noem


Oh, nossa Minneapolis, ouço a tua voz

Chorando através da névoa sangrenta

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis


Agora dizem que estão aqui para fazer cumprir a lei

Mas eles espezinham os nossos direitos

Se a sua pele é preta ou castanha, meu amigo

Pode ser Interrogados ou deportados à vista

Nos nossos cânticos de "ICE fora agora"

O coração e a alma da nossa cidade persistem

Através de vidros partidos e lágrimas de sangue

Nas ruas de Minneapolis


Oh, nossa Minneapolis, ouço a tua voz

Cantando através da névoa sangrenta

Aqui em nossa casa, mataram e vaguearam

No inverno de 1926

Nós posicionar-nos-emos por esta terra

E pelo estrangeiro no nosso meio

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis

Lembrar-nos-emos dos nomes daqueles que morreram

Nas ruas de Minneapolis

ICE fora

ICE fora

ICE fora

ICE fora

ICE fora»

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

La Condition Humaine, de André Malraux, é sem dúvida um dos grandes livros do nosso tempo, e ouso dizer que uma duradoura obra-prima da literatura universal.

Jorge de Sena

Legenda: André Malraux

OLHAR AS CAPAS


A Condição Humana

André Malraux

Tradução e prefácio: Jorge de Sena

Capa: Bernardo Marques

Colecção Dois Mundos nº 40

Livros do Brasil, Lisboa s/d

- A única coisa que eu amava foi-me tirada, não é verdade, e quer que eu permaneça o mesmo. Julga que o meu amor não valeu o que vale o seu para si, cuja vida nem sequer mudou?

- Como não muda o corpo de um vivo que se torna um morto…

Ele pegou-lhe na mão:

- Conhece a frase: «São precisos nove meses para fazer um homem, e um só dia para o matar». Nós soubemo-lo tanto quanto se pode saber, um e outro… May, ouça; não são precisos nove meses, são precisos cinquenta anos para fazer um homem, cinquenta anos de sacrifícios, de vontade, de… tantas coisas! E quando esse homem está feito, quando nada mais há nele da infância, nem da adolescência, quando, verdadeiramente, ele é um homem, nada mais resta senão morrer.

À LUPA

No desespero da tempestade as promessas foram diversas e interessantes.

Passados os dias, o governo passou a notar que, também nas promessas das ajudas, isto e aquilo, feitas algumas contas, concluíram que puseram a pata na poça.

Lê-se no Público de hoje:

«O Governo recuou e, ao contrário do que tinha sido prometido, os trabalhadores abrangidos pelo layoff simplificado vão receber apenas dois terços do salário bruto em vez de 100%. Além disso, a Segurança Social só paga 80% desta despesa nos primeiros 60 dias de redução do tempo de trabalho ou de suspensão dos contratos e, daí em diante, essa percentagem baixa para 70%.»

Como dizia a minha avó:

«Quando a esmola é demais, o santo desconfia».

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Parte da A1 junto ao nó de Coimbra Sul abateu na sequência da ruptura de um dique do Rio Mondego. Miguel Pinto Luz já disse que «o compromisso do Governo é de absoluto comprometimento», puxando a responsabilidade do arranjo para o Estado e não para a Brisa, empresa responsável pela auto-estrada.

Sucessivos projectos para concluir a obra hidroagrícola do Baixo Mondego, apresentados no Parlamento, foram sendo chumbados pelos votos do PS, PSD/CDS, IL, PAN e Livre, com abstenções do CH. Dique voltou ontem a romper.

Há várias décadas que se trava uma batalha pela conclusão da obra hidroagrícola do Baixo Mondego. A intervenção está num limbo – sucessivos Governos PS e PSD/CDS-PP alternam entre si, ora apoiando a intervenção na oposição, ora bloqueando-a assim que assumem a pasta.

Os avanços (sem aplicação na prática) e os recuos do PSD/CDS

O mais recente caso é o do executivo liderado por Luís Montenegro, que horas depois de uma nova rotura no dique do Mondego (que provocou também o colapso de uma secção da A1), anunciou a necessidade de rever e readaptar a muito esperada «obra hidrográfica do Mondego».

As afirmações de Montenegro são um verdadeiro volteface. Há apenas três meses, no âmbito da discussão do Orçamento do Estado para 2026, PSD, CDS-PP, Iniciativa Liberal e PAN juntaram-se para chumbar uma proposta do PCP para a conclusão da obra hidroagrícola, contando ainda com a abstenção do PS, Chega e Livre.»

Copiado de Abril Abril

MENSAGEM PELA MANHÃ

Caro Cliente,


Esperamos que se encontre bem, assim como a sua família e aqueles que lhe são próximos. A recente tempestade deixou impactos significativos em várias regiões do país e, mesmo que não tenha sido diretamente afetado, sabemos que pode ter alguém próximo a enfrentar desafios.
Num momento marcado por incerteza para muitas famílias e empresas, queremos assegurar-lhe que pode continuar a contar connosco.

O novobanco acredita que recomeçar é possível. Por isso, disponibilizamos medidas de apoio destinadas a quem precisa de maior estabilidade financeira nesta fase.

Está disponível a Moratória Extraordinária para Crédito à Habitação Própria e Permanente, criada pelo Governo, que permite aos clientes elegíveis suspender temporariamente o pagamento das prestações, sem custos adicionais e com extensão automática do prazo do contrato.

Criámos também uma linha especial de Crédito Hipotecário Multisoluções, até 100 milhões de euros, com condições mais favoráveis, para apoiar a reparação e reabilitação de imóveis e negócios nos concelhos de calamidade.

Para aderir a estas soluções, poderá dirigir-se a um balcão ou contactar o seu gestor por email. Todos os detalhes estão disponíveis no site do novobanco.

Neste momento difícil, reafirmamos o nosso compromisso em apoiar as famílias e empresas ao longo da sua vida.
Estamos consigo.

Cumprimentos


novobanco

O DIA TEM 24 HORAS

 o dia tem 24 horas

 
os canais de televisão
em conjunto
fazem delas perto de 100
 
a banca
para organizar
os seus assaltos súbitos
à bolsa
e vice-versa
trabalha em conjunto ou em separado
mais de 300 horas por dia
que depois
podem render
mais de cem mil salários anuais
de cem mil trabalhadores
 
os curso de balística
do exército e da polícia
ocupam entre todos eles
muitas centenas de horas
por dia
a treinar
a fatalidade e o erro científicos
 
para derrotarem o adversário
em décimas de segundos
ou menos
os atletas treinam
sem trégua
milhares de horas por ano
durante vários anos da sua vida
 
o homem aproveita
engenhosamente
o tempo
e nos intervalos
produz os novos escravos
do novo tempo
 
os donos dele
sucedem-se
 
o tempo tem dono
e é hereditário

Alberto Pimenta em Resumo: a poesia em 2012

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Na sua Viagem a Portugal, quando José Saramago passou por Aveiro, quis ir comer ao Palhuça, onde tinha comido uma sopa de peixe que lhe ficou na memória.

Assim Saramago nos conta:

«Quando ao viajante dá o apetite do almoço, vem dos confins da memória uma recordação. Em Aveiro comeu ele, há muitos anos, uma sopa de peixe que até hoje lhe ficou na retentiva do olfacto e das papilas da língua. Quer verificar se os milagres se repetem, e vai perguntar onde é o Plhuça, quwe assim se chama a casa de pasto onde se dera a aparição. Já não há Palhuça está agora a cozinhar para os anjos, ou talvez para a princesa Santa joana, a sua patrícia, acima deste cinzento céu. Baixa o viajante a cabeça, vencido, e vai comer a outro lado. Não comeu mal, mas nem a sopa era do Palhuça, nem o viajantes era o mesmo: tinham passado muitos anos.

O que terá levado, sem dar qualquer palha, Saramago a ir comer a outro lado. Para além da ausência do Palhuça, que desagrado sentiu o viajante? 

Ele esteve por Aveiro há uns três anos, andou à procura do Café Trianon, onde Mário Sacramento reunia com amigos e camaradas, mas o café deu lugar, como um pouco por toda a parte, a um banco.

Pelos inícios dos anos 60, esteve a passar férias, em casa de avós, no Fontão, e lembrava uma caldeirada de enguias comida em Angeja, a cor amarelada, o sabor do açafrão.

Foi o que pediu: caldeirada de enguias à moda de Aveiro.

A juntar à má cara do dono do Palhuça, que queria que os clientes se despachassem para dar lugar aos que na rua esperavam por lugar, a caldeirada estava um desastre.

Uma aguada amarelada repleta de batata (pouco saborosa, diga-se,  a receita pede batata “olho de perdiz”), 4 enguias, nenhum golpe de vinagre, nenhuma tira de pimento, um verdadeiro desconsolo!...

Tal como escreveu Saramago: deveria ter ido comer a outro lado.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Vasco Granja, em tempos de ditadura, foi um dos que lutaram pela liberdade.

Por essa luta foi perseguido, esteve preso nas masmorras da PIDE.

O livro, justíssima homenagem no centenário do nascimento de Vasco Granja, foi-me oferecido pelo Rui Ornelas, meu companheiro de luta, a viver no 4º andar direito.

Eu moro no 2º andar, também direito

Com o meu filho mais velho, após o 25 de Abril, assisti aos extraordinários, únicos, desenhos animados dos países ditos de leste, apresentados na televisão pelo Vasco Granja.

Como escreve sua filha Cecília Granja:

«Emergindo do interior das nossas memórias, parece que o estamos a ver, no pequeno ecrã a preto e branco, mais tarde a cores, numa qualquer tarde de sábado, aconchegados no sofá da nossa sala pequeno ecrã  a preto e branco».

Nos anos 50 Vasco Granja era militante do Partido Comunista Português, participa nas actividades clandestinas da célula dos partidos, organiza passeios culturais, convive com as populações camponesas e operárias, pinta palavras de ordem nos muros das ruas de Lisboa, distribui o jornal Avante e demais propaganda.

Este pormenor da vida de Vasco Granja, traz-me à memória que, já depois do 25 de Abril, às quintas-feiras, vendia o Avante na Estação de Comboios do Cais do Sodré e não raro me lembrava de O Rival, romance de Roger Vailland:


« Tem entrevista marcada? 

- Não.

- Então faça o favor de preencher uma ficha.

Mignot escreveu:

NOME: Fréderic Mignot

FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido Comunista Francês.

- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para escada.

Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.

- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a bater com força.

«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.

Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.

«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»

 

Vasco Granja, às quartas-feiras no República coordenava o suplemento Bastidores sobre cinema, banda desenhava, outras secções da cultura.

No Diário de Lisboa-Juvenil, para além da poesia, do conto, da fotografia, existia «Panorama», um registo de de recortes de jornal, de livros.

Numa dessas leituras dos Bastidores, encontrámos o artigo do escritor brasileiro Rubens F. Lucchetti com o título «As Histórias de Quadradinhos Criam o Hábito da Leitura» e comentámos:

A nota provocou uma polémica em que entraram, pela parte dos Bastidores: Vasco Granja, Lauro António, Vitor Silva Tavares, Jorge Silva Melo e um estudante, leitor do suplemento, de nome António Armando Costa que, entre outros disparates, que pouco, ou nada, tinham a ver com o assunto em discussão, sugeria ao Mário Castrim que nos expulsasse do Juvenil e intimava a que o tratássemos com dignidade que lhe era devida como universitário!!!

À parte de quem tinha razão sobre as tais histórias em quadrinhos, depois misturadas, desnecessariamente, com banda desenhada, eram tempos, apesar de todas as nuvens negras, bem interessantes.

Um gosto muito grande de lembrar Vasco Granja, um nome incontornável na nossa cultura, um lutador pela liberdade e pela Justiça.

OLHAR AS CAPAS

Vasco Granja

Edição comemorativa no centenário do nascimento

Prefácio e organização: Cecília Granja

Edições Avante, Lisboa Novembro de 2025

A 16 de Novembro de 1954, é detido pela PIDE na sequência da apresentação do filme italiano neo-realista O Caminho da Esperança de Pietro Germi (1950), exibido no cinema Capitólio. A detenção resulta de uma denúncia, pois a receita da sessão destinava-se a apoiar os movimentos de resistência antifascista e as famílias dos presos políticos. A PIDE invade a sala, bloqueia a entrada, apreende o dinheiro e identifica várias pessoas. 

NOTÍCIAS DO CIRCO

Um país destruído.

Sem sequer sabermos quando acabará o pesadelo.

Ainda por algum tempo se falará da demissão de Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna.

A todos os títulos interessante o artigo de opinião de Manuel Carvalho no Público: O que a demissão da ministra nos diz sobre a política

«Não se discute que a ministra não tinha condições mínimas para continuar, mas o momento em que escolheu demitir-se, em plena crise no Tejo ou no Mondego, prova que ela o fez tanto por falta de condições políticas como por desespero pessoal. O céu ficou escuro com tantos instintos necrófagos e ela não resistiu.
Custa a perceber por que foi convidada; e ainda mais por que aceitou. »

DÊEM-LHE O QUE PEDIR

Dêem-lhe o que pedir – a mão aberta como

uma ave deitada no seu peito, estancando a dor;

e beijos, muitos, pequenos goles de água na sua

boca triste. Levem-no para a luz e acendam

fogueiras nos seus olhos, pois esteve cego para

o amor. E cantem-lhe ao ouvido fados que o

tempo não possa desmentir, dêem-lhe o que pedir –

 

sol, uma razão, os vossos dedos mil vezes no seu

corpo, os meus dedos cortados par despertar

um sonho na sua pele. Rasguem-lhe as ligaduras

que nunca foram laços e livrem-no dos vermes

que pastam nas suas feridas. Deitem-no na neve

dos lençóis e encostem-lhe aos lábios bagas de

sumo vermelho, leite, e um pão que seja um seio

de mulher – o meu seio amputado, se ele o pedir.

 

Segurem-lhe o rosto com as mãos e soprem-lhe

os brancos do meio dos cabelos. Protejam-no

da escuridão absurda da noite roubando estrelas

e calem o silêncio chamando o seu nome

devagar. Porém, não o molestem nunca com

palavras – deixou a meio demasiados livros e

há-de morrer exausto do que não sabe; mas não,

não o deixem morrer mais uma vez, levem-no

convosco aonde forem e dêem-lhe o que pedir –

 

tempo, uma razão, o vosso riso explodindo

mil vezes nos seus lábios, as minhas lágrimas

cansadas para lavar a terra dos seus olhos. Não

o amem em vão, nem jurem amá-lo até ao fim,

porque, depois do fim, não saberão o que fazer de

tanto amor. Guardem-no, por isso, do bafo da

morte e dêem-lhe, simplesmente, o que pedir –

 

o vosso sangue mil vezes derramado nas suas

veias, o meu coração arrancado para lhe bater

no peito, a minha vida – sem ele ma pedir.

 

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

À LUPA

Carlos Moedas já tinha sido um mau presidente da Câmara de Lisboa contudo, nas últimas eleições, voltou a ganhar a Câmara, mas não conseguindo atingir a maioria.

O jornalista Samuel Alemão informa-nos, hoje, no Público que Carlos Moedas chegou a acordo, atribuindo-lhe pelouros, na área da saúde, desperdício alimentar, com Ana Simões Marques, ex-vereadora do Chega, que, em Janeiro, invocando “incompatibilidades políticas intransponíveis” com o chefe camarário «daquela coisa», disse não querer ser vereadora “meramente decorativa” e tornou-se vereadora independente.

Com um despudorado oportunismo, Carlos Moedas declarou à cidade que, com Ana Simões Marques, atingiu a ansiada maioria estável na Câmara.

Perente a notícia comentário de um leitor do Público: 

« E pronto, foi isto que Lisboa ganhou quando a vereadora da CDU não foi eleita por um voto. Perdeu-se a Ana Jara, alguém com uma reconhecida capacidade de trabalho e conhecimento dos problemas da cidade e capaz de confrontar Moedas, para eleger um capacho do presidente.»

O escritor Mário de Carvalho tem toda a razão: o povo não é sábio, ao contrário do que políticos de última gaveta, bastante medíocres, por aí dizem.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Maria Lúcia Amaral demite-se de ministra da Administração Interna.

Marcelo Rebelo de Sousa aceitou o pedido de demissão.

A ex-ministra disse a Luís Montenegro «já não ter as condições pessoais e políticas indispensáveis ao exercício do cargo».

Diga-se que nunca deveria ter aceite o cargo para o qual não tinha condições nenhumas.

Não existindo substituto, Montenegro assume a pasta.

O primeiro-ministro não tem condições para continuar a governar o país. 

Pela política neo-liberal, ou o que lhe quiserem chamar, pelos ministros que escolheu para o governo, pelo candidato a Presidente da República que entendeu apontar.

Um verdadeiro desastre.

É lamentável, mas teremos que ir novamente a eleições.

Talvez de pouco sirva, mas não se avista outra qualquer solução.

CASTELO DO BODE

Naquele verão fomos uma espécie de tribo.
À tarde, quando o sol ardia, a barragem era
o mundo inteiro feito de água, havia uma
jangada que avançava, lenta, por entre os
limos e nós éramos náufragos. Naquele verão
fizemos equipas e gincanas, bebi 12 colheres
de óleo de fígado de bacalhau – umas atrás
das outras – e apaixonei-me secretamente
por uma monitora que lia romances de
espionagem e passava tardes na esplanada a
beber ginger ale. Naquele verão as raparigas
ficaram belas e enigmáticas, assim de repente.
Dormiam nas tendas delas e nós, nas nossas,
adivinhávamos histórias para os sons da noite.
Naquele verão as coisas ficaram mais nítidas
E aprendemos que a adolescência é um território
confuso, um país a atravessas sem mapa de estradas.

 

José Mário Silva

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Quando havia antes um antigamente havia uma esperança.

António Ramos Rosa

Legenda: pintura de Cipriano Dourado

OLHAR AS CAPAS


Visão

Vários jornalistas em luta pelo direito a informar

Nº 1718

5/2 a 11/2/2026

Capa: André Carrilho

«O primeiro-ministro não se tem dado bem com as comunicações em tempos de tragédia e acaba por dizer as coisas erradas na hora errada. No mês passado, quando várias pessoas morrerem à espera de ambulância, chamou-lhe “percepção de caos”. Agora, depois de dar as condolências às “famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida” – como aquelas pessoas que se enganam e dão os parabéns num funeral -, acabou por dizer que “foi feito aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão atempadamente para enfrentar uma adversidade que não era antecipável por ninguém”. Mas foi antecipada, sim, a protecção civil até enviou SMS aos cidadãos. Talvez Leitão Amaro. Ministro da presidência, possa esclarecer melhor, ele que esteve de mangas arregaçadas num gabinete de crise a deixar-se filmar para as redes sociais.»