segunda-feira, 28 de setembro de 2026

À LUPA

Lido no jornal A Bola:

11 filhos, 7 mulheres e 160 milhões perdidos: a vida 'louca' do ex-jogador Roberto Carlos

O antigo internacional brasileiro Roberto Carlos revelou ter perdido a totalidade dos ganhos acumulados ao longo da sua carreira desportiva, uma fortuna estimada em cerca de 160 milhões de euros. Aos 53 anos, o antigo lateral-esquerdo confessou ter ficado sem dinheiro na sequência de manobras de falsos amigos, agentes desonestos e familiares, que lhe esvaziaram por completo as contas bancárias.

Revelação feita durante o Portugal Football Summit.

OLHAR AS CAPAS


 Ensaios

Tomo II

Publicações Europa-América, Lisboa, Maio de 1957

António Sérgio

Considera todavia, que nem neste volume nem nos outros te requero adesão a qualquer teoria, qualquer partido, a qualquer fé. Só busco excitar o teu pensamento: porque pensar, como sabes não é crer; crer na maioria dos casos, é até a melhor maneira de não pensar.

Mas é de honestidade que me entendas primeiro, não me lendo a dormir. Como tantos outros.

ÚLTIMA FLOR

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo, que, na ganga impura,
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço e o teu aroma
De virgens selvas e de oceanos largos!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!"


Olavo Bilac 

domingo, 27 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.

António Lobo Antunes

Legenda: imagem de Paul Bçow/The Guardian

NESTE DIA


È um domingo de 1968, mais precisamente, 30 de Setembro.

Para conversas com o grupo que, na Madeira, fazia o Comércio do Funchal, Mário Sacramento viaja até à Madeira.

Regressou a Lisboa e foi até à redacção do Diário de Lisboa.

Para saber do andamento das coisas que envolviam a doença de Salazar e olhou as provas já montadas para saírem quando o ditador bater a bota.

Escreve Mário Sacramento no seu Diário: 

MÚSICA PELA MANHÃ

E continuamos com a minha selecção de canções de domingo.

Estre disco da Elsa Quarta foi comprado e, 23 de Julho de 1966

Por mera curiosidade copio um pormenor da contra capa.


Colaboração de Aida Santos.





sábado, 26 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Bíblia: um livro religioso inventado.

Barbara Reis

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Volta e meia há que ir ao Outro Lado das Estantes, e nem sempre acontece.

Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que, rigorosamente não sabia o que estava a vender.

Uma colecção, ainda, não lida, apenas folheada, mas a que há que voltar.

Assim irá acontecendo.

OLHAR AS CAPAS


O Tibete

Michael Willis

Tradução: Ana Maria Pinto da Silva

Capa. José Neves

Colecção: Cultura e Civilizações

Círculo de Leitores, Lisboa, Julho de 2005

O Tibete alarga uma cultura riquíssima e ancestral que tem sido objecto de muitas influências formativas. Entre elas, o nosso ambiente natural e acalentou um espírito forte de liberdade e flexibilidade no carácter tibetano.

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ


O rapaz extraordinário chamado Jorge Palma deixou-nos.

Não há muitos, quase nenhuns, como ele.

Marcou um tempo, o nosso tempo.

Já não vai andar por aí mas ficam os concertos, os poemas, as músicas e é isso que não podemos esquecer!





sexta-feira, 25 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Porque a morte é uma libertação desta vida.

Maria Filomena Molder

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO

81ª Assembleia Geral da ONU.

Antes do discurso de Netanyahu, foram apresentadas na Assembleia Geral as declarações do Presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, que tiveram de ser previamente gravadas, já que os Estados Unidos rejeitaram os pedidos de vistos feitos por si e pela sua delegação, pelo segundo ano consecutivo.

Netanyahu leu o seu discurso perante aquela enorme quase sala completamente vazia e acabou a dizer que Israel tem o exército mais mural do mundo.

Fora do edifício da ONU decorreram largos protestos, convocados por grupos judaicos e israelitas contra a governação de Netanyahu e apelando a que seja responsabilizado pelos crimes cometidos à luz do direito humanitário internacional.

Cerca de uma centena de manifestantes foram detidos pela polícia e nesse grupa estava a actriz Susan Sarandon:

«Netanyahu, não podes esconder-te, acusamos-te de genocídio e nenhum de nós é livre até que todos sejamos livres.»

À LUPA

O líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, protagonizou um dos momentos do debate desta quinta-feira, na Assembleia da República, sobre o aumento do custo de vida, na Assembleia da República. O social-democrata acusou o líder daquela coisa, de ser um “aldrabão”.

Em podcast, jornalistas do Público admitem que, perante um deputado chamar aldrabão a outro, uma linha vermelha foi ultrapassada ou é apenas o 'novo normal' no Parlamento?

SONETO À MANEIRA DE CAMÕES

Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Com certeza que já vos aconteceu ouvir uma voz que chama pelo vosso próprio nome. Dizem as pessoas simples que é uma alma que tem saudades vossas e que vos comunica a proximidade da morte.

Gogol

RETRATOS


Nome: Vinicius. Por quê?
O Quo Vadis, saído em 13
Ano em que nasci.

Sobrenome: de Moraes
De Pernambuco, Alagoas
E Baía (que guardo em mim).
Sou carioca da Gávea
Bairro amado, de onde nunca
Deveria ter saído.

Fui, sou e serei casado
E apesar do que se diz
Não me acho tão mau marido.

Filhos: três e um a caminho

Altura: um metro e setenta
Meão, pois. O colarinho
Trinta e nove e o pé quarenta.

Peso: uns bons setenta e três
(precisam ser reduzidos…)

Dizem-me poeta; diplomata
Eu o sou, e por concurso
Jornalista por prazer
Nisso tenho um grande orgulho
Breve serei cineasta
(Activo). Sou materialista.

Deito mais tarde que devo
E acordo antes do que gosto.

Fui auxiliar de cartório
Censor cinematográfico
Funcionário (incompetente)
Do Instituto dos Bancários.

Actualmente sou segundo
Secretario de Embaixada.

Formei-me em Direito, mas
Sem nunca ter feito prática.

Infância: pobre mas linda
Tão linda que mesmo longe
Continua em mim ainda.

Prefiro vitrola a rádio
Automóvel atrem, trem
A navio, navio a avião
(De que já tive um desastre).

Se voltasse a vida atrás
Gostaria de ser médico
Pois sou um médico nato.

Minhas frutas predilectas
Por ordem de preferência:
Caju, manga e abacaxi.

Foi com meu pai, Clodoaldo
de Moraes, poeta inédito
Que aprendi a fazer versos
(Um dia furtei-lhe um
Para dar à namorada).

Tinha dezanove anos
Quando estreei com meu livro
O Caminho para a Distância
Meu preferido é o último:
Poemas, Sonetos e Baladas.

Toco violão, de ouvido
E faço sambas de bossa
Garoto, lutei jiu-jitsu
Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabina
Sou quase perfeito. As coisas
Que mais detesto: viagens
Gente fiteira, fascistas,
Racistas, homem avarento
Ou grosseiro com mulher.

As coisas que mais gosto:
Mulher, mulher e mulher
(Com prioridade da minha)
Meus filhos e meus amigos.

Ajudo bastante em casa
Pois sou um bom cozinheiro
Moro em Paris, mas não há nada
Como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz
(E infeliz). Desde os 7 anos
Venho fazendo versinhos
Gosto muito de beber
E bebo bem (hoje menos
Do que há dez anos atrás).
Minha bebida é o uísque
Com pouca água e muito gelo.
Gosto também de dançar
E creio ser essa coisa
A que chamam de boémio.

Em Oxford, na Inglaterra
Estudei literatura
Inglesa, que foi
Para mim fundamental.

Gostaria de morrer
De repente, não mais que
De repente, e se possível
De morte bem natural.
E depois disso, ao amigo
João Conde nada mais digo.

Vinicius de Moraes

Nota do Editor:

Em 1956, João Condé, criador dos “Arquivos Implacáveis”, pediu a Vinicius de Moraes que escrevesse algo sobre si.

O poeta atendeu-o com o Auto-Retrato que aqui se publica e encontrado nas badanas O Operário em Construção e Outros Poemas.

Legenda: desenho original de André Carrilho, tirado de “Cinema” de Vinicius de Moraes.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Uma vereadora em Lisboa diz que “dinheiro fácil” do Volta põe em causa trabalho social

O “dinheiro fácil” do sistema de embalagens Volta veio comprometer o trabalho dos técnicos sociais, afirmou  a vereadora com o pelouro das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo na Câmara de Lisboa.

«O Volta o que veio também trazer é que, muitas vezes, o trabalho que é feito pelos técnicos no terreno é posto em causa sempre que existem mecanismos de dinheiro fácil, porque não se trata da inexistência de respostas, trata-se naturalmente de um acompanhamento personalizado que tem que haver de acordo com a vulnerabilidade”, defendeu Maria Luísa Aldim (CDS-PP), na reunião da Assembleia Municipal de Lisboa».

Carlos Moedas, o presidente da Câmara de Lisboa, insurge-se porque os apanhadores de garrafas, quando remexem os caixotes, deixam a rua cheia de lixo. Mesmo antes do Volta, Lisboa sempre foi uma cidade suja e nunca se viram grandes preocupações por parte do autarca, mais interessado em unicórnios e outras variedades.

O governo está intransigente e diz que, com o Volta, estão a cumprir-se medidas/exigências da União Europeia.

FUZILARAM UM HOMEM NUM PAÍS DISTANTE

Hoje proíbo as rosas de nascerem diante de mim!
Proíbo as deusas de dançarem nos olhos das crianças
proíbo os corpos das mulheres de terem outro destino que a morte!

Sim, proíbo!
E (baixinho, em sonho) aos gritos no mundo
ordeno aos homens
que venham para a rua descalços
para sentirem nos pés nus
o silêncio da terra
e o terror de viverem num planeta
onde os fuzilados não ressuscitam,
nem os malmequeres protestam com flores de luto
contra este sol que continua a fabricar primaveras mecânicas
e este cheiro tão bom a mulheres novas nas árvores com cio!

José Gomes Ferreira em Poesia III

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Estou farto de céu e quero mundo! Quero Morte! Quero dor! Quero tabernas.

José Gomes Ferreira

SOLTAS

O lavagante, dizem, é o Rei dos Crustácaeos, Homarus gammarus é uma espécie de crustáceo decápode marinho da família Nephropidae, vivendo no nordeste do Oceano Atlântico, Mar Mediterrâneo e parte do Mar Negro.

É o título de uma novela do José Cardoso Pires, escrita em 1963 e apenas publicada em Fevereiro de 2008, decorria o 10 aniversário da sua morte.

O dono do Lanterna, o melhor bar de praia, a atirar par o carote, sabia alguma coisa da vida dos lavagantes, mais saboroso que a lagosta e Cardoso Pires, deixou no livro, os conhecimentos que então ouviu sobre lavagantes:

«Contei-lhe como ele serve o safio que está nas tocas submersas levando-lhe comida a todas as horas, e como a sua existência anda presa a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. 'Nesse momento fica sabendo, o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.»

1.

«Os jornais noticiaram há dias, que um homem pobre e doente, falecido no hospital d S. José, deixara como última vontade, a de ser enterrado vestindo a camisola do Benfica, e se possível, debaixo da águia que identifica o Estádio da Luz. Apenas a primeira parte do desejo pôde ser satisfeita. As posturas municipais modernas são rigorosas e cada vez se percebe menos de mortos».

José Cutileiro em O Tempo e o Modo nº 25/26, Março/Abril de 1965

2.

Portugueses, calculados em 2,7 milhões, têm gatos como animais de companhia.

Há velhotas, de parcos rendimentos, que no supermercado, gastam mais em comida para animais do que na sua própria alimentação.

Não saberá nunca das razões que levam escritores, cantores, artistas vários, a gostarem de gatos, a deixarem-se fotografar junto a gatos. A Assírio & Alvim tem uma antologia de poesia de felinos a que chamou Assinar a Pele».

3.

«Que Deus dê as nozes a quem não tem dentes, ainda é o menos; o mal é que Ele as dá quase sempre em demasia, a quem os tem.»

José Rodrigues Miguéis

OS PÁSSAROS VOLTARÃO EM MARÇO


Assistir à chegada do Outono e entramos por ele dentro com temperaturas de 30 graus.

Faz calor e se não fossem as noites chegarem cada vez mais cedo,  diríamos que os dias eram outros.

Nos meus tempos, as aulas começavam no dia 1 de Outubro, apresentação no ginásio do Liceu Gil Vicente: alunos, pais, o reitor, os professores, o comissário da Mocidade Portuguesa.

As aulas da Primária começavam a 7 de Outubro.

Já se andava de camisolas de gola alta, gabardines e sobretudo.

Chovia quase todos os dias.

Agora as aulas começam no meio de Setembro e chegamos a Outubro envergando as roupas de Verão.

Quando Outubro começava já a minha avó tinha feito o doce de tomate e tudo aquilo que gira em volta dos marmelos: a marmelada, a geleia, marmelos cosidos aos quartos com açúcar que se guardavam em grandes frascos de vidro.

Outubro quente traz o diabo no ventre.

Em Outubro pega tudo.

Outubro sisudo recolhe tudo.

Quem planta no Outono, leva um ano de abono.

Vindima em Outubro, que S. Martinho to dirá.

E como alguém diria: os pássaros voltarão em Março.


Legenda: fotografia de Lia Faria

HAIKAI DE OUTONO

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mário Quintana

terça-feira, 22 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Que o 25 de Abril não se torne uma memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe.

Jorge Palma

LIVROS AUTOGRAFADOS


Comprei O Secreto Adeus num qualquer alfarrabista. ou num qualquer vão de escada de bairro que já desapareceram.

Dois escritores que estimo: Baptista-Bastos e Eduardo Valente da Fonseca. 

Amiúde encontrava-os no Bar Expresso no Largo da Trindade.

A estranha sensação de como este exemplar oferecido ao Eduardo, aparece perdido por aí. 

Alguém se desfez da biblioteca do Eduardo?

 O livro foi roubado?

Ou emprestado e nunca devolvido?

Frases sublinhadas:

«A democracia é um mito inventado por políticos falhados».

«Todos sabemos o que se tem praticado em nome da ordem».

«Então, porque bebo? «É o medo de estar lúcido.»

Palavras do poeta José Gomes Ferreira na contra capa do livro:

«Testemunho ardente que veio desvendar-me as razões fundas por que certa juventude – por certo a mais consciente e digna – vive afogada, dir-se-ia que provisoriamente, numa desregra de exageros sexuais. Afinal, segundo revelação perturbadora deste depoimento em forma de romance, essa juventude sofre de «saudade de heroísmo impossível».