domingo, 23 de agosto de 2026

AVISO À NAVEGASÇÃO


Por uns breves dias, iremos lagartear por aí.

Voltaremos a 1 de Setembro.

Apareça também!

Legenda: pintura de Georges Seurat


SÍTIOS POR ONDE ELES ANDARAM


Setúbal.

Mais propriamente a Livraria Uni Verso do editor, poeta, alfarrabista João Carlos Raposo Nunes.

Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ


Agosto a terminar, o Outono a bater à porta, e por Agosto, vou buscar um lindíssimo poema de José Carlos Ary dos Santos, cantado por Simone de Oliveira num Festival da Eurovisão, que melhor sorte não teve por ao tempo a ditadura de Salazar imperar e as democracias europeias vincavam, não votando em Portugal, esse pormenor.   

O que mais me entusiasma na canção é quando se canta que por Agosto «quem faz um filho fá-lo por gosto».

A canção chegou a ter Madalena Iglésias como indicada para intérprete, mas só aceitaria

se retirassem «Quem faz um filho fá-lo por gosto»

Claro que Ary dos Santos mandou-a dar uma volta ao bilhar grande!

Colaboração de Aida Santos.

sábado, 22 de agosto de 2026

SOLTAS


Por um deslize imperdoável, com o devido destaque, não foi referida a morte de Maria do Carmo Vieira, professora, ensaísta e voz crítica do acordo Ortográfico de 1990.

Servimo-nos da notícia do Público:


«Nascida em Lisboa, em 1952, Maria do Carmo Vieira desenvolveu grande parte da sua carreira como professora do ensino secundário, distinguindo-se pelo trabalho em defesa do ensino da língua portuguesa e pela reflexão sobre a literatura, a arte e a obra de Fernando Pessoa. Destacou-se “pela coragem, pela capacidade de tomar partido, pela sensibilidade ao sofrimento, pelo humor, pela análise aos disparates que o acordo ortográfico fez acontecer a um ritmo alucinante”, recorda ao PÚBLICO a sua irmã, a também professora e filósofa Maria Filomena Molder.

“Era um espírito compassivo, muito atento e muito exigente. Nunca esperava que lhe dissessem como devia agir. Queria mudar o mundo e isso foi muito visível com o acordo ortográfico, uma causa de que nunca desistiu. Nunca deixou de combater essa decisão tão errada, tão absurda e tão penosa para a língua portuguesa na sua ortografia.”»

1.

Dois irmãos, de 3 e 15 anos, foram abandonados pela mãe, há alguns dias, em Braga. Ambos foram resgatados pela PSP, na madrugada desta quarta-feira, e transportados ao Hospital Central de Braga, onde foram avaliados. A mulher já foi localizada pela PSP e constituída arguida pelo crime de exposição e abandono de menores.

Jornal de Notícias, 19 de Agosto

2.

O Hotel Cascais Miragem vai avançar com o despedimento de 177 trabalhadores, na sequência da realização de obras de remodelação que encerrarão a unidade hoteleira durante dois anos.

«Em causa está o despedimento coletivo de 142 trabalhadores efetivos e de 35 contratados a termo, num universo de 182 pessoas que trabalham na unidade hoteleira do concelho de Cascais (distrito de Lisboa), disse à agência Lusa Luís Batista, do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Hotelaria, Turismo, Restaurantes e Similares do Sul.

De fora deste processo deverão ficar os cinco trabalhadores que desempenham funções administrativas.

"A fundamentação da empresa é que terá de despedir estes trabalhadores porque decidiu investir numas obras de luxo no hotel, onde prevê gastar 80 milhões de euros. Como não quer assegurar o pagamento dos salários, nem manter os postos de trabalho, tenta aqui utilizar uma figura jurídica, que é a figura de suprimento coletivo, para deixar de ter responsabilidades perante estes trabalhadores", apontou.

Segundo Luís Batista, o despedimento que a administração do Cascais Miragem pretende levar a cabo "não cumpre os pressupostos previstos no artigo 359.º do Código de Trabalho", argumentando que "não existe um nexo causal entre a realização das obras e a necessidade de despedir os trabalhadores".

"Não estamos perante uma empresa que tenha dificuldades económicas. Não estamos perante uma empresa que vai mudar o ramo de atividade ou que vai deixar de precisar de trabalhadores", apontou.»

3.

Médicos reformados a trabalhar no SNS batem recorde e mais de metade são médicos de família.


 Enviado da Sardenha pela Angelika e o Hans-Martin.

Colaboração de  Aida Santos.

UM CERTO GOSTINHO A AVENTURA

Talvez fosse um capricho estúpido, mas o que é certo é que dei por mim no Sud-Express, a caminho de Coimbra. Estava , ao mesmo tempo, furioso e admirado. Tinha-me deixado convencer? Acho que, subitamente, esta expedição tinha adquirido um certo gostinho a aventura. No fundo, não devia esperar senão isso. Tudo me encantava naquele comboio: os forros de caju do corredor, o cabedal dos compartimentos, o brilho das placas de cobre que, em três línguas, me lembravam que não devia debruçar-me para fora do comboio. A paisagem mudava: ora colinas pedregosas, vestidas de oliveiras, ora pequenos prados, dum belo verde brilhante. O tempo estava magnífico, e o comboio atravessava, uivando, as estações caídas, provocando o pasmo de algumas camponesas de lenço preto que, com a cesta no braço, ali esperavam o autocarro.

Pierre Kyria em A Morte Branca  

NOTÍCIAS DO CIRCO


«Relatório final sobre o acidente do elevador da Glória derrapa para o primeiro trimestre de 2027

O relatório final ao acidente do elevador da Glória que estava previsto para 3 de Setembro, um ano depois do sinistro, só deverá estar concluído no primeiro de trimestre de 2027, comunicou o GPIAAF – Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários.

Relatório final sobre o acidente do elevador da Glória derrapa para o primeiro trimestre de 2027
A entidade justifica o adiamento pelo facto de decorrer em paralelo uma investigação do Ministério Público (MP) que obrigou a uma articulação e realização conjunta de peritagens que incluem testes “destrutivos e irrepetíveis”. São, além dos mais, testes caros, pelo que, em nome da “optimização de recursos e eficiência na despesa pública” houve necessidade dessa estreita articulação “sem prejuízo da independência e fins distintos de cada uma das investigações”.

Relatório final sobre o acidente do elevador da Glória derrapa para o primeiro trimestre de 2027
O GPIAAF procura descobrir falhas de segurança para emitir recomendações e evitar que os acidentes se repitam; o Ministério Público procura eventuais responsabilidades criminais na origem do acidente.»

Artigo de Carlos Cipriano no Publico de hoje.

Nada do que se lê no artigo de Carlos Cipriano,não é estranho, antes uma velha atitude portuguesa de enfrentar acidentes trágicos. 

Jane Birkin morreu em Paris no dia 16 de Julho de 2023.

Em 1965 o compositor John Barry, seu primeiro marido, convenceu Birkin a despir-se numa cena do filme Blow-Up de Michelangelo Antonioni. A imprensa inglesa ficou de olhos em bico. Divorcia-se de Barry, zarpa para Paris e envolve-se com Serge Gainsbourg, não tardando muito que apareça a cantar «Je t’aime… moi non plus. A canção de Serge escrevera-a para Brigitte Bardot, tiveram um leve caso amoroso, que a gravou. Mas Brigitte era casada com o milionário Gunter Sachs que terminantemente proibiu a divulgação.

Jane Birkin cai como sopa no mel e grava, com assinalável êxito o dueto.

O Vaticano condenou a canção, em Portugal esteve proibidíssima.

A canção não faz parte dos gostos da casa, mas se pedirem que emita uma opinião, dirá que gosta mais da versão de Jane Birkin.


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


 É necessário sair da ilha, não nos vemos se não saímos da ilha.

José Saramago

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


 Cinema.

 O Eduardo Guerra Carneiro, poeta, jornalista, era um tipo culto.

O cinema merecia especial atenção. Tem um livrinho publicado, em Maio de 1999, pela Teorema, a que chamou Outras Fitas, pequenas histórias, memórias de fitas e outras gentes.

«Um tom mais vago me dizes para ter. Mais poético? As palavras? As cartas dizias? Talvezal à noite com o Oliveira a assobiar de mansinho para disfarçar, a grande produção de sessenta e quatro em Março estávamos, os dias de fuga. Ou a política, o regresso, a prisão? Mais ambiguidade? Talvez a digressão com o teatro, as longas cartas do Zé Carlos, os empregos, os livros, as lâminas, Outubro de sessenta e cinco no átrio de um cinema. Quem estava lá?»

Quem estava no tal átrio de cinema?

Lembra-se de um copo de cerveja clara, junto à barra mansa do British-Bar, enquanto esperava pela Bacall, dita a magricela.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


 

António Lobo Antunes em Livro de Crónicas

Legenda: imagem tirada daqui.

VALSA VIENENSE

Porque és o retrato dos meus olhos
Onde as fontes do sol vêm beber
Este mar de setembro azul perfeito
Que nas pedras acaba de morrer.
Porque na noite clara do teu peito
A lua é só um pássaro ferido
E as palavras nascem dos meus dedos
Carregadas de sonho e de sentido.
Porque és a cor dos rios em cada fonte
No silêncio da terra desvelada
Lágrima orvalho pétala horizonte
Onde se abre verde a madrugada.

António Lobo Antunes em Livro de Poemas

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A dúvida é o começo da sabedoria.

Aristóteles

OLHAR AS CAPAS


O Operário em Construção e Outros Poemas

Vinicius de Moraes

Selecção e Prefácio de Sérgio Buarque De Holanda

Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1979

 

Poema dos Olhos da Amada

 

                       Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ó minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

VELHOS RECORTES


 A Gazeta Musical e de Todas as Artes nº 125, Agosto de 1961, registava a morte de Hemingway, ocorrida a 2 de Julho de 1961.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Lê-se no Público de hoje:

«Portugal é a 26.ª democracia do mundo, mas qualidade está a descer
A democracia recuou 50 anos no plano global, tendo regressado “a níveis semelhantes a 1978". Portugal resiste a esta tendência, mantendo uma posição elevada no índice de democracia liberal do projecto internacional Variedades da Democracia. Mas há sinais de alerta: a qualidade da democracia tem vindo a baixar nos últimos dez anos, fruto do crescimento da extrema-direita ou da "politização da administração pública».

Pelo seu lado, o governo de Luís Montenegro arrasta-se pelos gabinetes.

António Lobo Antunes em tempos lembrou que George Steiner comentou com ele «que nenhum dos bons alunos de Cambridge ia para a política: só os medíocres vão para a política.»

O mesmo António Lobo Antunes queixava-se do autoritarismo dos governos e acima de tudo queixava-se da arrogância e da falta de diálogo dos governantes.

NÃO HÁ NENHUMA LEI PARA O DIA DE HOJE

Não há nenhuma lei para o dia de hoje.
Os momentos são teus. As tuas bicicletas.
Podes ama no cinema com a boca
colada à tela gigante.
Perguntar pelo poeta Rilke no silêncio
branco das sentinas públicas
ou no silêncio cinza
das outras sentinelas.
Podes voar desesperadamente de encontro
Aos automóveis e lá no fundo sobre o riso do óleo
descobrir um anjo infecto a lamber o asfalto. Desliga
devagar as luzes assassinas.
Destila rápido as frases recortadas
do magarefe e da prostituta
do alfaiate e da pianista que se espraia
louca sobre refinados jogos aquáticos.
O céu hoje é uma triste ciência
de judeus errantes.
O mar, distante, um curso adiado
de linguística, uma malha na meia,
as bocas ferocíssimas do metro
em plena cheia.

 
Armando Silva Carvalho de Armas Brancas em O Que Foi Passado a Limpo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Sonhar é acordar-se para dentro.

Mário Quintana

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS


A revisão que hoje fazemos, incide sobre um texto de Maria João Martins, publicado na revista Ler s/d, editada pelo Círculo de Leitores, e envolve Lisboa e dois escritores que a sentiram intensamente: José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires.

«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é um itinerário de saudades».

Três livros de Miguéis podem ser destacados como o itinerário dessa saudade: A Escola do Paraísos, Léah e Outras Histórias, O Milagre Segundo Salomé.

«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é esta – a da saudade inconformista que lamente alto e bom as modificações urbanas, os prédios desaparecidos e depressa substituídos por outros, vazios de memórias e vivências, para, timidamente, dizer também da morte dos vizinhos a que nos habituámos, Em comum com todos os que vociferam contra a delapidação do património das suas cidades, o escritor tem o sentimento de que era esta ou aquela demolição são apenas o princípio de um redemoinho maior e mais forte em que ele próprio e os seus serão levados.»

Maria João Martins, a determinado ponto do texto, lembra a frase de José Cardoso Pires:

«Uma parte importante da cidade perdeu a cor quando acabaram com os cafés e com as tabernas.»

No que a Rodrigues Miguéis toca, os cafés marcaram-lhe a vida, o convívio, os amigos queridos: José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, outros mais.

E o seu exílio nos Estados Unidos, para além de tudo, o que o desgosta e torna inconsolável é a falta dos cafés de Lisboa.

É Camila Miguéis, viúva do escritor, que lembra a angústia de José:

« Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»

Conta-se que, na década de 30, sentado a uma mesa de A Brasileira, escreveu as primeiras páginas de O Milagre Segundo Salomé.

Ainda Miguéis e A Escola do Paraíso:

«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? E para onde?»

Voltamos ao texto de Maria João Martins para dar a fala a Cardoso Pires:

«Na zona da Almirante Reis passei grande parte da minha infância. No Jardim Constantino havia uma biblioteca e ali pude ler os primeiros livros. Mais tarde, ali me iniciei na literatura com os escritores que vieram a ser os surrealistas (Mário Cesariny, O’Neil e Vespeira). Frequentámos muito um café chamado Herminius que, mais tarde, deu lugar a uma agência funerária»

O café Herminius já não uma agência funerária, é um Centro Acústica Médica.

O texto do José Cardoso Pires pertence à crónica Café Des Artistes e faz parte do livro de crónicas ACavalo no Diabo:

«Hoje o Café Hermínius está transformado em agência funerária – quere-se maior ironia? Talvez que, numa noite em que eu passe por lá, me apareça no vidro da montra o eco dos rostos duma juventude que ali criou uma parte da sua visão do mundo para lá do real imediato, a sua libertação; e que por trás desse vidro, deposta sobre um chão de violetas, esteja a cabeça da Dona Sol, rodeada de coroas funerárias e iluminada por um sorriso de ternura».

Para além dos cafés, outra referência de Cardoso Pires debruça-se sobre as grandes tabernas que eram frequentadas pelos condutores e cobradores da Carris, que ali faziam as suas rendições: «ali havia tudo, peixe frito a choco, sandes, bom vinho.»

Lembro duas dessas tabernas: uma no Campo Pequeno, outra, a Cova Funda na Praça do Chile.

Cardoso Pires refere ainda o Miradouro do Monte Agudo, na Penha de França, «onde ninguém vai».

Abertura de Lisboa, Livro de Bordo, de José Cardoso Pires:

« Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não  me admiro sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até  a brisa que corre me sabe  a sal.  Há ondas de  mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado  num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração e Aida Santos.

OLHAR AS CAPAS

Guia de Portugal

Raúl Proença

1º Volume

Generalidades, Lisboa e Arredores

Apresentação e Notas de Sant’Anna Dionísio

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Fevereiro de 1983

Lisboa é servida por 108,5 Km de linhas eléctricas, que ligam os principais pontos da cidade, e são explorados pela Comp.ª Carris de Ferro de Lisboa. Os carros são asseados e confortáveis, alguns deles fechados e com assentos cómodos assentos de junco, mas em número hoje insuficiente para as necessidades da população.

CORAÇÃO SEM IMAGENS

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho

terça-feira, 18 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A sociedade está-se a borrifar para os deficientes. Não são pessoas.

Eduardo Sá

COMEÇOS DE LIVROS


Começo de O Que Diz Molero de Dinis Machado.

«Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe. «Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, ator e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projetasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»

 

Teremos que pegar num artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular de 5 de Março de 1977, para percebermos o que é O Que Diz Molero.

O assombro está logo no título do texto:

«Descobri um autor: Dinis Machado».

Há que ter em atenção que a Pachecal Figura era um exímio crítico do que por aqui se escrevia e muito pouco dado a lambidelas de botas:

« Um livro-bomba. Uma obra referenciada para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum, o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).

Podiam ser frases publicitárias. Quem ler «O Que Diz Molero», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará que não: é que é mesmo assim, como eu digo.Fiquei banzado. Para já, para já, não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado, se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.»

E a terminar:

«Repito e finalizo: um livro-bomba, uma obra d’arromba.»

VELHOS RECORTES


O semanário Notícias da Amadora foi uma das grandes vítimas da sanha que os capitães-censores-inculto-analfabetos impuseram aos livros, jornais e revistas que, durante 48 anos, nos impuseram.

Antes de ter fechado portas, o semanário publicou umas separatas em que pudemos constatar o que a censura cortou aos escritos que se pretendiam publicar e que já por aqui apresentámos, em Velhos Recortes, alguns exemplos.

Aqui fica mais um, e voltamos a lembrar palavras de Mário Castrim:

«Porque neste País houve uma censura. Às imagens, ao pensamento. E a propósito: estes censores que mutilaram, castraram, destruíram, odiaram, onde estão eles agora? Em que lugar do Estado? Com que votos? Que espécie de democracia estarão a levantar? Que direitos humanos estão a defender?»