quarta-feira, 8 de julho de 2020

MUSIC AND MOUNTAINS


“My home is across the Blue Ridge Mountais,
And I never expect to see you anymore”
(Tradicional)

“Almost Heaven, West Virginia
Blue Ridge Mountais, Shenandoah River,
Life is older, older than the trees
Younger than the mountains, growin’ like a breeze”
(John Denver – Take me Home, Country Roads)

“In my mind I’m going to Carolina
Can’t you see the sunshine?
Now can you feel the moonshine?”
(James Taylor – Carolina in My Mind)

Os primeiros colonizadores europeus do que viria a ser os Estados Unidos da América não foram os ingleses, mas sim os espanhóis, que em 1565 fundaram, na região da Florida, St. Augustine, que é considerada a primeira ocupação estrangeira permanente no território americano.

Algumas décadas mais tarde os franceses começaram a explorar toda a região da bacia do Mississipi, a que chamaram Louisiana, em honra de Luís XIV.

Os holandeses expulsaram os índios que aí viviam e ocuparam toda a região que corresponderá hoje a Nova Iorque e arredores (a que então chamaram New Amsterdam), antes de serem, eles próprios, expulsos pelos britânicos, em 1664.
É no início do Séc XVII que, fugindo à fome, à prisão, a perseguições políticas e/ou religiosas, ou meramente em busca da aventura e de uma riqueza fácil e repentina, os britânicos iniciam as suas primeiras tentativas sérias de colonização do território norte-americano.


A primeira ocupação permanente foi Jamestown, em 1607, numa região a que chamaram “Virgínia”, em homenagem à “Rainha Virgem” Elizabeth I. Inicialmente esta ocupação não tinha por objetivo uma instalação perene e duradoura, mas sim um fim meramente material, que era a procura de ouro e outros metais preciosos. Nem um nem outros foram encontrados, mas a mitologia não perdeu tempo a encontrar os seus primeiros heróis: o Capitão John Smith e a jovem Pocahontas!

O fracasso inicial da aventura de Jamestown levou a que fossem alterados os seus objetivos e introduzidas práticas de cultivo do solo, já numa perspetiva de sedentarização. Foi iniciado, com grande sucesso futuro, o cultivo do tabaco e esse facto foi muito importante porque conduziu à importação dos primeiros escravos  para trabalharem nessas plantações. Chegaram também, por esta altura, as primeiras vagas de mulheres a um colónia até então exclusivamente ocupada por homens. Jamestown iria entrar, mais tarde, em declínio, mas a colonização da Virgínia já estava iniciada.

Para quem se interessar, recomendo a visão ou a revisão de “New World”, o belo filme de Terence Malick que se debruça, precisamente, sobre estes tempos e estes lugares.



A colonização sistemática da costa atlântica da América continuou com a Nova Inglaterra, a que chegaram grandes vagas de populações em busca de liberdade religiosa, pertencentes a dois grupos distintos: os “Peregrinos” e os “Puritanos”. Os primeiros “Pilgrim Fathers” chegaram no célebre “Mayflower” e ocuparam, no final de 1620, uma colónia numa zona que corresponde hoje à região de Plymouth; os segundos chegaram um pouco mais tarde, em 1629, e ocuparam a região da Baía de Massachusetts.

A colonização prosseguiu ao longo de toda a costa e na região Sul, em novas colónias como Connecticut (1633), Maryland (1632) Rhode Island (1636), Delaware (1638), Pensilvânia (1643), para além da atrás referida Virgínia, já então uma colónia muito avançada, com um sistema de governo próprio e uma câmara legislativa, que fazia da exportação do tabaco para o Reino Unido a sua principal ocupação.


Em 1712 a Carolina (assim chamada em homenagem a Carlos I de Inglaterra) foi dividida em três regiões: a Carolina do Norte e a Carolina do Sul, e uma terceira região escassamente povoada, a Geórgia, que acabaria por ser povoada e transformada em colónia uns anos mais tarde, em 1733, à custa de sucessivas vagas de “indesejáveis” expulsos do Reino Unido.

Por volta de 1750 as treze colónias então existentes na América constituíam já uma realidade multicultural, e não parava de crescer o número de emigrantes que debandavam essas terras, provenientes, sobretudo, da Europa. Por outro lado, as enormes plantações de tabaco e arroz nas colónias do Sul intensificaram o recurso à mão-de-obra escrava, maioritariamente proveniente de África, estimando-se que, por essa mesma altura, para uma população total de 1,3 milhões de habitantes existiriam já 250 mil escravos. E só nas duas Carolinas a mão-de-obra escrava representaria já 60% da população total.



Isto foi, apenas, uma pequena introdução histórica para vos situar no tempo e no espaço, e agora vamos à Música de toda esta região, que é o que me trás aqui hoje.

Todos esses povos trouxeram consigo a sua “Cultura” e, naturalmente e enquanto parte integrante desta, a sua música, as suas danças, os seus ritmos e os seus instrumentos musicais. Essa música assumiu formas muito distintas mas, tendo os irlandeses, os escoceses, os ingleses e os africanos (estes à força…) sido os pioneiros desta colonização, não é de estranhar que a influência da sua música nesta região e, posteriormente, em toda a América, tenha adquirido preponderância face às restantes
Do Reino Unido, e em particular da Irlanda e da Escócia, vieram as músicas de dança instrumentais, a que hoje chamamos “reels” e “jigs”, suportadas por instrumentos tais como o violino e toda a panóplia de instrumentos de sopro que associamos à música celta. Mas também de lá vieram músicas não instrumentais, a que chamamos baladas ou “airs”, originalmente interpretadas com um suporte instrumental mais simples, como é o caso da harpa.



De África vieram diversas variedades de tambores e também um instrumento novo cuja evolução haveria de dar origem a um dos principais instrumentos utilizados na “Folk Music”: o banjo.

Da Alemanha veio o acordeão, tendo a guitarra, que só começou a ser utilizada nesta música de forma sistemática a partir de meados do Séc. XIX, vindo do Sul da Europa.

Esta música original expandiu-se, entranhou-se na terra (“all the music that falls between the cracks”, foi a feliz expressão que Mike Seeger encontrou para definir “Folk Music”….), foi transmitida de geração a geração por via oral, sendo sucessivamente transformada e incorporada em novas formas musicais localmente produzidas, sem que se saiba, muitas vezes, onde terminam umas e começam as outras.

Há, porém, regiões onde, dado o seu relativo isolamento, essas músicas se mantiveram ainda durante largas décadas na sua pureza original, tanto na forma de canto como no suporte instrumental. É o caso dos Montes Apalaches, para a música de origem anglo-saxónica, e algumas regiões do sudeste, para a música de origem afro-americana.

As estradas largas de acesso aos Apalaches só foram concluídas no final dos anos 30 do século passado. Até lá havia estradas mais estreitas para as principais povoações, mas daí para os diversos lugarejos espalhados pelas montanhas só caminhos de terra muito rudimentares. 

O acesso era, consequentemente,  muito difícil e os habitantes dessas regiões sentiam-se isolados, como bem demonstra o trecho da canção que escolhi para uma das epígrafes deste texto, que é um tradicional adaptado por A. P. Carter, popularizado, entre outros, por Joan Baez no final dos anos 60.


Mas, como refiro mais à frente, esse isolamento favoreceu-os, permitindo que não tivessem perdido a sua identidade social e musical. 

Assim, desta região dos Apalaches vieram para integrar o cancioneiro americano canções  tão conhecidas como “Amazing Grace, “Matty Groves”, “Barbara Allen”, “Pretty Saro”, “Wainfarin’ Stranger”, “The Cuckoo Bird”, “House Carpenter”, “Come All Ye Fair And Tender Ladies”, “Wildwood Flower” e tantas, tantas outras...

Para o divulgação dessa música  foi, porém, determinante o papel dos etnomusicólogos, dos quais o pioneiro foi o professor de Harvard Francis James Child, que recolheu e publicou, em 1882, uma primeira coletânea de “airs” com origem escocesa e inglesa, que então já se cantavam e tocavam  na América. 


Já em pleno séc. XX, quando se iniciaram as emissões de Rádio, a primeira das quais teve lugar através da  KDKA, em Pittsburg, em 1920, e quando, pela mesma altura, as gravações de música começaram a ter alguma qualidade de registo e reprodução, a música da região dos Apalaches começou a suscitar mais atenção.

Com efeito, Rádio e Editoras discográficas ajudam-se mutuamente. A disponibilidade de discos facilitava a atividade da primeira e a difusão dos discos na Rádio fomentava o negócio das segundas…

A Rádio começou a fazer, também, emissões “ao vivo”, não só de intérpretes isolados, mas também da chamada “barn dance”, que constitui um dos elementos fundamentais dos futuros espetáculos de “Country Music”.


“Country Music”, porém, era nome que, nessa época, ainda não existia. Na altura ainda não se sabia muito bem como designar essa música e cada Rádio e cada Editora escolhia a sua designação.  Chamaram-lhe, então,  “Old Time Southern Tunes”, “Rural Music”, “Hill Country Music”, “Oldtime Music” e até “Native American Melodies”.

Em 1922 Ralph Peer,  “caçador de talentos” da Okeh Records e nome importantíssimo na história da Música Tradicional Americana a que ainda hei-de voltar várias vezes, fez aquela que hoje se considera ser a primeira gravação com intuitos comerciais desta música rural, registando o violinista do Texas Eck Robertson a interpretar “Sallie Goodin”.

Não obstante o interesse histórico desta gravação, o seu sucesso comercial foi reduzido, mas Ralph Peer voltaria à carga no ano seguinte quando gravou, em Atlanta, o trabalhador rural Fiddlin’ John Carson, de 54 anos, outro virtuoso do violino, a cantar e a tocar “Little Old Cabin in the Lane”, que passa por ser a primeira gravação de “Country Music” a incorporar o canto. Ainda hoje pode ouvida no YouTube...


Fiddlin’ John Carson tinha, na altura, muita fama na região e um empresário local garantiu a Ralph Peer que, se o gravasse, lhe compraria, à cabeça, 500 exemplares do disco. Peer não estava muito convencido da qualidade da gravação, mas avançou e o disco vendeu-se bem.

 Em 1924, na Victor Records, Vernon Dalhart,  texano a trabalhar em Nova Iorque, obteve com “The Reck of the Old 97”, o primeiro grande sucesso deste tipo de música à escala nacional, tendo vendido um milhão de discos. Também pode ser ouvida no YouTube. 



Em 1925 Ralph Peer fez uma outra gravação com uma “string band” da Carolina do Norte liderada por Al Hopkins, que se chamavam a si próprios “a bunch of hillbillies”.
Peer achou graça à expressão, deu esse nome à banda e o enorme sucesso que tiveram levou a que muitos outros grupos adotassem também esse nome (Jess Hillard & His West Virginia Hillbillies, por exemplo) e rapidamente  essa música dos Apalaches passou a ser conhecida como “Hillbilly Music”, nome que perdurou até que a designação de “Country Music” se viesse a instalar em definitivo, em meados dos anos 40.  


No Verão de 1927, em Bristol, na fronteira entre o Tennessee e West Virginia, teve lugar um evento de crucial importância para o desenvolvimento e consolidação desta Música à escala nacional.
Tão importante ele é que tenho de lhe dedicar um texto inteirinho, dizendo-vos apenas, para vos abrir o  apetite, que Johnny Cash lhe chamou “the single most important event in the history of Country Music”…

Com a passagem dos anos o sucesso deste tipo de Música foi crescendo e, mesmo tendo em consideração os efeitos negativos da Grande Depressão, estima-se que entre 1925 e 1932 tenham sido vendidos 65 milhões de discos desta música rural maioritariamente branca

Para além daqueles interpretes de que atrás vos falei, e de outros que deixarei, propositadamente, para o próximo texto, Unce Dave Macon, Riley Pucket, Charlie Poole e Ernest Stoneman foram as principais figuras desta música nos anos 20 e inícios dos anos 30. Só este último, patriarca da Stoneman Family, a primeira dinastia da “Country Music”, gravou à sua conta mais de cem faixas.


Mas os anos foram passando, a “Country Music”, com a ajuda da Rádio e, depois, da Televisão, foi-se instalando com as suas versões mais “adocicadas” e comerciais e toda esta “old time music” foi perdendo, progressivamente, relevância. As  formas de cantar, a rudeza dos instrumentos e a natureza das próprias canções e dos seus arranjos tornaram-se incompatíveis com os gostos de um grande público que começava a ficar habituado a um som mais moderno, melódico e padronizado.

Os velhos interpretes que, com raras exceções,  nunca chegaram a ser profissionais a tempo inteiro, regressaram, então, às suas anteriores ocupações nos campos, nas minas ou na fábricas. Podiam manter, como muitos mantiveram, uma atividade musical a um nível local, mas num universo mais alargado foram também, eles próprios, caindo num relativo esquecimento. 

Mas muitos anos depois, algures em Nova Iorque, houve alguém que nunca os esqueceu.

Harry Smith, musicólogo, cineasta e artista plástico de vanguarda, colecionou esses velhos  discos dos anos 20 e 30 e em 1952, em colaboração com a  Editora Folkways, selecionou 84 dessas músicas, de diversos géneros, e incluiu-as naquilo que se iria tornar a lendária “Anthology of American Folk Music”.


O sucesso comercial não foi tremendo mas, nos anos que se seguiram, a relevância artística desta obra foi enorme todos quantos, mais tarde, foram gente grande na “Folk Music” lhe dedicaram uma enorme devoção e gratidão. Dave Van Ronk, por exemplo, chamou-lhe “our Bible” e acrescentou que “we all knew every word of every song in it, including the ones we hated”.

Naquilo a que se convencionou chamar o “Folk Revival” dos anos 50/60, e até numa perspetiva de contrariar a tendência excessivamente comercial e padronizada de que essa música se começou a revestir, sobretudo após o surgimentos dos The Kingston Trio em 1958 , da audição da “Antologia” de Harry Smith  surgiu um renovado interesse por esta música antiga e pelas suas formas de interpretação, e muito boa gente começou a andar, de microfone em punho, a subir e a descer os Apalaches na esperança de reencontra esses velhos intérpretes e voltar a gravar as suas canções, com uma qualidade acrescida tornada possível pela mais moderna tecnologia.


Encontraram alguns que fizeram parte da “Antologia”, a quem proporcionaram uma segunda carreira musical (Clarence Ashley, Roscoe Holcomb, Doc Boggs,  Furry Lewis, Bascom Lamar Lundsford, …) mas, para seu grande espanto, depararam com outros de que nunca antes tinham ouvido falar e cuja existência desconheciam. Deixo-vos apenas em exemplo, e que exemplo…!

Em 1961 o grande Doc Watson foi descoberto assim, por mero acaso, integrando a banda de Clarence Ashley…

O interesse por esta música antiga demonstrado por uma minoria da comunidade “Folk” foi tal que levou à criação de uma organização não lucrativa chamada “Friends of Old Time Music”, com o propósito de a divulgar e fomentar a organização de espetáculos com todos estes velhos intérpretes, bem como com os mais novos que foram sendo descobertos. Só em Nova Iorque foram realizados 14 espetáculos entre 1961 e 1965, mas muitos outros se realizaram noutras cidades.

A história é bonita porque os velhotes voltaram à tona de água e acabaram a sua vida musical com outro reconhecimento e com outra dignidade. Muitos deles tinham estado em Nova Iorque trinta anos antes para fazerem gravações nas editoras locais, e nunca mais lá haviam posto os pés...


A Música dos Apalaches é inesgotável e perdurou até aos dias de hoje, com novos intérpretes de elevadíssima qualidade, mas tenho de ficar por aqui porque isto já vai muito longo, não vos quero massacrar mais, mas ainda vos tenho de falar de mim.   

Os Apalaches são uma cadeia montanhosa com 3.200 km de extensão, desde a Terra Nova, no Canadá até ao Estado de Alabama.

Não tendo qualquer possibilidade de a atravessar em toda a sua extensão, optei por fazer algumas tiradas nas regiões de maior tradição musical, que são os “central” e “southern Appalachians”,, abrangendo os estados de West Virginia, Virginia, as duas Carolinas e uma parte mais limitada do Kentucky e do Tennessee.

Nas Blue Ridge Mountains, atravessei os 169 Km do Shenandoah National Park através da Skyline Drive, que é considerada uma das estradas mais bonitas dos Estados Unidos.

Mais abaixo fiz uma parte da Blue Ridge Parkway, que é a continuação das  Blue Ridge Mountains para o Sul.

Fiz toda a região de Bristol e depois também fiz, até Asheville, uma parte da Cherokee National Forest.

E mais a Sul ainda fiz uma pequeníssima parte do Great Smoky Mountains National Park, perto de Ashville.

Deixo-vos algumas fotografias, embora seja literalmente impossível captar a magia e a beleza daqueles espaços e daquelas cordilheiras a perder de vista.

Durante anos e anos aprendi a gostar da Música destas montanhas, vi filmes que  aqui se passavam, fotografias e documentários a preto e branco com esta pobre e humilde gente vestida com os seus “fatos de macaco”, sentada no alpendre das suas pobres casas de madeira com os seus instrumentos musicais ao colo, com um sorriso que irradiava alguma Felicidade.


Não, de maneira nenhuma pretendo fazer uma apologia do miserabilismo, como quem vos diz: “vejam lá, tão pobres e tão felizes que eles eram…!” 
  
O que vos pretendo dizer  é que os parcos rendimentos que tinham e o enorme isolamento que sofriam face a um mundo exterior dito “civilizado” os protegeu e não os fez criar, artificialmente, outras necessidades… Nos tempos livres não iam para os centros comerciais, para os “drive-in”, para o “bowling” ou para os estádios ver o “baseball”… Vestiam a sua roupa domingueira, pegavam nos seus instrumentos, juntavam-se à vizinhança, cantavam, dançavam e tocavam música, e talvez que isso, à falta de melhores condições de vida,  lhes pudesse trazer alguma Realização e alguma Felicidade.

Em todos os documentários que vi (há muitos no YouTube…) não me lembro de ter visto um único desses montanheses lamentar a sua sorte, mas vi alguns a dizerem, com indisfarçável nostalgia, que agora já havia por ali muita gente de fora e que as coisas já não eram o que dantes haviam sido... 



Por sorte e coincidência, durante parte desta travessia dos Apalaches tive uma pequena zanga com a minha Mulher (culpa dela, como sempre…), o que me permitiu estar largas horas entregue às minhas memórias e aos meus pensamentos, sem ter de falar com ninguém, a não ser comigo próprio, que na altura era  o que mais poderia desejar.

A velocidade máxima permitida é muito baixa (35 milhas, pouco mais que 56 Km/hora) pelo que havia vagar. 

Pela minha cabeça passavam, num ápice, coisas tão diferentes como o querido cego Doc Watson, acompanhado pelo filho Merle, a cantar “The Banks of Ohio”, a terna Jean Ritchie   “a cappella” em “Barbara Allen”, a bela Anita Carter em “Fair and Tender Ladies” e todas  essas imagens que me lembrava de ter visto em fotografia e no Cinema.

Mas não eram, apenas, essas memórias que me encantavam.



A paisagem, em si, era deslumbrante, e quando o Sol começou a descer no horizonte o verde vivo das montanhas assumia, a pouco e pouco, tonalidades de amarelo e de laranja, o azul forte do céu da manhã transformara-se, no fio do horizonte, numa belíssima combinação de verde claro, azul turquesa e de cor de rosa,  que tentei inúmeras vezes captar, sem qualquer sucesso.

Fosse eu um verdadeiro Escritor, e não um mero escrevinhador de redações, saberia escolher as palavras adequadas para vos dar conta do encanto e da emoção que me envolveram naqueles momentos.  

Assim, deixo tudo à vossa imaginação.

PS:

1) Mencionar-vos uma só fonte de informação para tudo isto que vos disse é tarefa difícil, porque são muitos anos de leituras e de gosto por esta Música.
Talvez que na reta final de elaboração do texto o mais útil tenha sido “American Roots Music”, obra coletiva coordenada por Robert Santelli, que deu origem a uma série televisiva, um livro e um CD.  

2) Como já vos falei tanto de “Blues” nestes textos, e ainda mais terei de falar, não vos contei que os Apalaches têm uma forma de “Blues” muito própria, sobretudo o chamado “Piedmont Blues”, da região do mesmo nome, tendo sido Pink Anderson um dos seus maiores interpretes. Consta que Syd Barrett gostava dessa música e que tinha na sua coleção um velho disco de Pink Anderson, acompanhado à viola por Floyd Council. Adivinhem no que isso deu...

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

VAMOS SER VELHOS


Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos Invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a

chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –

se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

terça-feira, 7 de julho de 2020

OLHAR AS CAPAS


Mr. Vertigo

Paul Auster
Tradução: José Lima
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção Grandes Narrativas nº 28
Editorial Presença, Lisboa, Março de 1997

Estou a falar do cancro na barriga. Escusamos de nos estarmos a enganar mais tempo. Tenho as tripas todas desfeitas e arruinadas e não tenho mais de seis meses de vida. Mesmo que conseguisse sair daqui, de qualquer modo estou tramado. Por isso porque não havemos de ser nós a pegar no caso? Seis meses de dores e de agonia. É ioq eu se pode esperar. Esperava lançar-te em qualquer coisa de novo antes de esticar o pernil, mas as coisas não calharam assim. É pena. É pena por uma data de coisas, mas agora fazias-me um grande favor se puxasses o gatilho, Walt. Conto contigo e sei que não me dizes que não.
- Acabou. Pare com essa conversa, mestre. Não sabe o que está a dizer.
- A morte não é assim tão horrível, Walt. Quando um homem chega ao fim do caminho, é a única coisa que realmente deseja.
- Isso não faço. Nunca na vida. Pode estar para aí a pedir-me até ao fim do mundo, que não hei-de levantar um dedo contra si.
- Se tu não o fazes, tenho que ser eu a fazê-lo. Assim vai ser muito mais difícil e sempre esperei que me poupasses a isso.
- Oh, meu Deus, mestre, largue essa pistola.
- Lamento, Walt. Se não queres ver isto, então despede-te agora de mim.
- Não despeço nada. Não me há-de ouvir nem mais uma palavra enquanto não largar essa pistola.
Mas ele já não me ouvia. Sempre com os olhos postos em mim, encostou a pistola à cabeça e levantou o cão. Era como um desafio a detê-lo, um desafio a estender o braço e a tirar-lhe a rama das mãos, mas sentia-me incapaz de qualquer movimento. Fiquei ali, sentado, a olhá-lo, sem esboçar um gesto.
A mão tremia-lhe e tinha a testa coberta de suor, mas os olhos continuavam calmos e claros. «Lembra-te dos bons tempos – disse ele. – Lembra-te do que te ensinei.» E depois, engoliu a saliva, fechou os olhos e puxou o gatilho.

ISTO É O MEU CORPO


O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.

José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 6 de julho de 2020

OLHAR AS CAPAS



O Animal Moribundo

Philip Roth
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 2010

A grande partida biológica que nos pregam é que nos tornamos íntimos antes de sabermos alguma coisa acerca de outra pessoa. No momento inicial compreendemos tudo. Inicialmente, somos atraídos para a superfície um do outro, mas também intuímos a dimensão mais plena. E a atração não tem de ser equivalente: ela é atraída por uma coisa, nós pela outra. É a superfície, é a curiosidade, mas depois, zás!, pela dimensão. É agradável que ela seja de Cuba, é agradável que a sua avó tenha sido isto e o seu avô aquilo, é agradável que eu toque piano e tenha um manuscrito de Kafka, mas tudo isso é um mero desvio no caminho para chegarmos aonde vamos. Faz parte do encantamento, suponho, mas é a parte que me faria sentir muito melhor se pudesse dispensá-lo. O sexo é todo o encantamento necessário. Os homens acham as mulheres assim tão encantadoras uma vez excluído o sexo? Alguém acha alguém de qualquer sexo assim tão encantador, a não ser que tenha comércio sexual com essa pessoa? Por quem mais nos sentimos assim encantados? Por ninguém. 

SÍTIO SORVIDO



Passada a porta passado oceano e firmamento
é o café que surge, a experimentar
quem vem de fora.

Inúmeras chávenas
menores despojos deixa a peste

Enquanto a mesa redonda põe
a minha doçura à prova

a chávena combativa
objecto a ferver
no fundo que porcaria
esconde?

É que nem tudo nem todos
são visíveis deste sítio
quer seja o oceano a porta
ou o purgatório

Luiza Neto Jorge

domingo, 5 de julho de 2020

ETECETERA



Neste domingo esteve um calor sufocante.

A semana que passou teve momentos de completo pesadelo. O desconfinamento processou-se de maneira caótica. A região de Lisboa vive momentos complicados.

Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa atropelam-se, por aí, em palavras e visitas.

A confusão é muita: a TAP, nacionaliza-se não se nacionaliza, e sabemos que  registou, no primeiro trimestre do ano, prejuízos de 395 milhões de euros, relacionados com os impactos da pandemia deCcovid-19.

Olhamos e antevemos que está a nascer um outro buraco como o do Novo Banco.

A justiça a braços com juízes corruptos. Rui Rangel é um desses casos: arrendava apartamentos em Lisboa por vários milhares de euros por mês, um almoço que custou quase 19 mil euros, utilizava a identidade de cidadãos estrangeiros para escapar a multas por excesso de velocidade e está tudo nas 348 páginas do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça e constata-se que manteve uma conduta desonesta com um vencimento que não chegava aos quatro mil euros por mês.

O governo britânico decidiu manter a quarentena obrigatória aos turistas que regressem de Portugal depois de passarem férias e a decisão afectará o turismo algarvio.

Está tudo muito confuso e a pandemia não nos dá um segundo de tranquilidade.

1.

Não concordo mesmo nada que qualquer governante seja comentador político nas televisões.

Fernando Medina, presidente da Câmara de Lisboa, disse na TVI, que com maus chefes e pouco exército não é possível ganhar esta guerra.

Admitem-se os alvos mas não se vislumbra a oportunidade. Alguém devia ter dito a Medina que combater uma pandemia não é a mesma coisa que invadir a cidade de pistas para bicicletas.

2.

O aumento de novos casos de infeção da Covid-19 na comunidade portuguesa residente no Luxemburgo está a preocupar as autoridades de saúde locais.

A notícia foi avançada este domingo que recordou que dos 325 novos casos confirmados na última semana, muitos foram identificados na comunidade portuguesa.

Na origem deste aumento de infeções no país podem estar viagens de e para o estrangeiro, festas privadas ou encontros familiares.
Uma grande parte dos portugueses que trabalham no Luxemburgo mantém planos para vir passar as férias a Portugal

2.

«A Cirque du Soleil» terá cerca de 890 milhões de euros de dívidas que se tornaram insustentáveis com a crise pandémica. Vão despedir cerca de 3.500 funcionários. 

3.

Segundo o presidente do Instituto Politécnico da Guarda oito dos alunos que testaram positivo terão ficado internados na Unidade Local de Saúde, "por não terem nos respetivos alojamentos condições para estarem em isolamento durante o período de quarentena".

Estão suspensos os exames presidenciais, a decisão foi tomada após a instituição ter tido conhecimento da existência de estudantes infetados com covid-19. Uma parte dos contágios terá ocorrido em festas covid realizadas na Guarda, à semelhança do que terá ocorrido noutras cidades com estabelecimentos de ensino superior.


4.

O apoio da Câmara Municipal de Almada às associações de Cultura e Desporto no concelho baixou de quase 700 mil euros em 2017 para 177 770 euros em 2019.

5.

«O cenário dos transportes públicos em hora de ponta é a imagem gritante da impotência. Mandam as pessoas para casa em bairros problemáticos de casas degradadas e inabitáveis, com multidões que têm que sair para sobreviver em trabalhos clandestinos. Multar e perseguir os desempregados, vagabundos da crise, deixar os alunos na rua porque as escolas não têm condições, espalhar o pânico doentio. Ignora-se o resultado de três meses de paragem dos tribunais, a desigualdade social é uma chaga, e um SNS desprezado pelos sucessivos governos é agora a medida de todas as liberdades. Agora como dantes, as ARS (administrações regionais de saúde), a DGS, o Ministério da Saúde compõem estruturas burocráticas sobrepostas e insensíveis, juntamente com a proteção civil e a segurança social, incapazes de ligação ao terreno, aos diretores dos hospitais como ponto de partida para uma ação eficaz. Criminalizar o combate à epidemia é querer parar o vento com as mãos.

O absurdo não se dissolve no azul da água, há uma culpa difusa neste clima de delação, até na inexplicável dificuldade em ter um corpo. Os efeitos do buraco negro criado com a economia parada, com a incompetência institucional, vão obrigar-nos ao maior combate das nossas vidas. Em cada facto novo há um movimento em falso.»

Maria José Morgado

6.

A CP não tem capacidade para aumentar o número de comboios em circulação na Área Metropolitana de Lisboa, afirmou o ministro das Infraestruturas, revelando que está em estudo a possibilidade de alterações de horários.

7.

Numa das suas últimas crónicas no Expresso, José Tolentino Mendonça lembra a correspondência, em tempos difíceis de guerra, que Stefan Zweig trocou com Joseph Roth e em que este escreve:

«Por fim, a amizade é a verdadeira pátria.»

8.

Por muito tempo que se viva, haverá sempre quem nunca esqueça aqueles 8 minutos e 48 segundos em que o polícia Derek Chauvin manteve o seu joelho no pescoço do negro Floyd até que ele deixasse de respirar e dos outros polícias e mirones que presenciaram a cena sem nada fazerem para evitar a morte de um ser humano.

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL

Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.

O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia. por Fátima. «apareceu» a três pastorinhos.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2017

VELHOS DISCOS


Ana Bacalhau, à conversa no Expresso, lembrou uma frase lapidar de Janis Joplin:

«Em palco faço amor com 25 mil pessoas e depois vou para casa sozinha»

Lembrou-se de Fernando Lopes Graça, numa noite de Verão, em que Olga Prats o acompanhou até  à sua casa na Parede e ouviu-o dizer:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

Num velho documentário da BBC, sobre Janis Joplin, uma voz-off diz:

 «Antes de Janis Joplin, nenhuma mulher branca cantava assim».

Para Janis Joplin sabe, tal como ouviu a Gin-tonic, que  faltam adjectivos à altura.

Há centenas de versões de “Summertime”, mas a de Janis é diferente, como também ninguém canta “Me And Bobby McGee" como ela, para não falar naquela gargalhada final em Mercedes Benz: «oh! Lord por que não me compras um Mercedes Benz?»

Janis Joplin nasceu em 1943 em Port Arthur, uma pasmaceira perdida no meio do Texas.

A mãe, como boa conservadora americana que era, queria que Janis fosse professora, casasse com um rapaz simples, tivesse filhos, que aos domingos ficasse em casa a fazer tartes de maçã.

Mas Janis descobriu que sabia cantar e passou a querer ir longe, o mais longe possível e que ninguém sabe onde fica.

Gostava de blues e cantava-os com energia, sensualidade, atrevimento, uma loucura extravagante, uma rebeldia cheia de inteligência, um verdadeiro acto de paixão.

Os colegas de universidade chamavam-lhe amante de pretos, ela esticou o dedinho e deixou-lhes um vão-se lixar! e voou para outras paragens.

Sofreu com os homens que lhe apareceram na vida, Country Joe MacDonald portou-se particularmente mal – nobody  is perfec! - mas Joplin só queria cantar e ter um pouco de paz, mas o álcool e as drogas apanharam-na na esquina mais próxima.

A mãe chegou a dizer-lhe que mais valia não ter nascido, mas estava escrito que ninguém a veria sentada no alpendre, ao cair da tarde, numa cadeira de baloiço a beber whisky e a contar histórias.

Nunca controlou os sentimentos, considerava-se o máximo – e era! – só que o fardo apresentou-se demasiado pesado.

Terá dito aos amigos: 

Nunca chegarei aos trinta anos!

A 4 de Outubro de 1970, devido a uma overdose de heroína, foi encontrada morta num quarto de hotel. Tinha 27 anos.

Era cega mas agora vejo.

A frase batida de que morre jovem quem os deuses amam.

«De que serve beber? Posso beber toda a noite e continuar triste na manhã seguinte. Dêem-me gin, bourbon, não interessa o que eu beba desde que me apague as mágoas.»

Saberia ela que as mágoas nunca se apagam?






OLHAR AS CAPAS



Rosa do Mundo

Direcção Editorial: Manuel Hermínio Monteiro
Organização: Manuela Correia
Coordenação Editorial: Sara Oliveira, Gil de Carvalho, José Alberto Oliveira
Capa e Concepçãp Gráfica: Manuel Rosa
Assírio & Alvim, Lisboa, Abril 2001

Paternidade

Homem só, diante do mar inútil,
À espera da noite, à espera da manhã.
As crianças vêm brincar, mas este homem
Não vê brincar nenhuma junto de si.
Grandes nuvens erguem um palácio sobre as águas
Que todos os dias desaba e ressurge, e põe cor
Nos rostos das crianças. Sempre haverá o mar.

A manhã fere. Sobre esta húmida praia
O sol rasteja, agarrado às redes e às pedras.
Ao sol nublado, o homem caminha junto
Ao mar. não olha as lentas espumas
Que sem descanso tentam escorrer na areia.
A esta hora as crianças dormem ainda
Na tepidez da cama. A esta hora, mulheres
Dormem nas suas camas. Estariam a fazer amor
Se não estivessem sós. O homem despe-se lentamente
E nu como as mulheres longínquas entra no mar.

Depois, à noite, quando o mar se encobre, ouve-se
O grande vazio debaixo das estrelas. As crianças
Nas casas tingidas de vermelho caem de sono,
Por vezes em lágrimas. O homem, cansado de esperar,
Ergue os olhos para as estrelas, que não ouvem nada.
A esta hora, há mulheres a despir crianças
E a adormecê-las. Também as há na cama,
Abraçadas a um homem. Pela janela escura
Entra um sopro rouco, e ninguém o escuta
A não ser o homem que conhece todo o desprezo do mar.

Cesare Pavese

Tradução: Ernesto Sampaio

sábado, 4 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

O ANNUS HORRIBILIS DE SALAZAR

O segundo ano da década de 60, é o annus horribilis da ditadura de Salazar.

Efectivamente, nesse ano, começa o caminho, longo e difícil de 13 anos que há-de culminar na madrugada do 25 de Abril de 1974.

No dia 22 de Janeiro de 1961, o paquete Santa Maria, a navegar no alto mar, é assaltado, a 4 de Fevereiro, em Angola, ocorrem incidentes que serão o rastilho do deflagrar da guerra colonial, o apelo de Salazar: para Angola, rapidamente e em força, em Março, verifica-se golpe militar do General Botelho Moniz, em Julho a República do Benim intima Portugal a abandonar o Forte de São João Baptista de Ajudá e Salazar ordena ao responsável para o incendiar, em 19 de Novembro, Palma Inácio desvia um avião da TAP, que fazia a carreira Casablanca-Lisboa, lançando panfletos sobre a capital portuguesa, a 18 de Dezembro, a União Indiana invade Goa, Damão e Diu, por fim, no último dia do ano, ocorre o assalto ao Quartel de Beja.



Faz hoje 50 anos que umas escassas dezenas de idealistas portugueses e espanhóis, comandados por Henrique Galvão e Jorge Soutomaior, apoderaram-se do paquete Santa Maria. O plano designado por Operação Dulcineia, personagem do D. Quixote de Cervantes, consistia no desvio do navio, para posterior ocupação da colónia espanhola de Fernando Pó, de onde se partiria para Angola, iniciando um levantamento insurreccional contra as ditaduras ibéricas.



Para mais uma das suas viagens regulares às Américas, O Santa Maria largara de Lisboa a 9 de Janeiro de 1961. No dia 20 fez escala em La Guaira e é neste porto venezuelano que embarca o grupo de revoltosos. A caminho de Port Everglades, na Florida, com 612 passageiros e 350 tripulantes, precisamente à 1 hora e 45 minutos da madrugada de 22 de Janeiro de1961, o grupo domina os oficiais do navio. O terceiro piloto João José Nascimento Costa ofereceu resistência aos assaltantes e foi morto a tiro. A 23 de Janeiro, o navio aproximou-se da ilha de Santa Lúcia e desembarcou, numa das lanchas a motor, 2 feridos graves mais 5 tripulantes, comprometendo assim a possibilidade de atingir a costa africana sem ser detectado. No dia 25, o paquete, que passara a chamar-se Santa Liberdade, é localizado por um avião norte-americano.


A 2 de Fevereiro, o Santa Liberdade fundeou no porto brasileiro do Recife, os passageiros e tripulantes foram desembarcados, enquanto os revolucionários entregaram-se às autoridades brasileiras, vindo, posteriormente, a obter asilo político.


Nesse dia o paquete voltou a chamar-se Santa Maria e, embandeirado em arco, a 16 de Fevereiro de 1961, entrava na barra do Tejo.

Só no dia 24 de Janeiro os jornais publicam a nota oficiosa do governo, dando conta do assalto ao Santa Maria. E os seus editoriais expressam a indignação face ao acontecimento.

Também nesse dia, a Assembleia Nacional, antes da ordem do dia, ouve as vozes de repulsa dos deputados, srs. drs. Proença Duarte e Homem de Melo (conde de Águeda).

Da intervenção do sr.dr. Proença Duarte:

«Neste momento em que a alma nacional se encontra altamente emocionada e magoada, tenho eu por certo que interpretar o sentimento de todos os portugueses de boa vontade, seja qual for o seu credo político ou religioso afirmando aqui a sua repulsa e condenação deste acto de inqualificável indignidade.»


Da intervenção do sr. Conde de Águeda:

E como há circunstâncias em que o coração carece do auxílio da inteligência para transbordar de indignação e de patriotismo, desse patriotismo que é apanágio de todos nós. É, pois, o coração, e só ele, que, num grito indignado protesto, verbera o acto de pirataria praticado no Mar das Caraíbas, contra um navio português e se envergonha por saber que o chefe dos ladrões do mar pôde um dia estar sentado nestas cadeiras, fazendo parte da representação nacional».

O editorial do “Diário de Notícias” tinha por título Crime Praticado contra Portugal e podia ler-se:

Registamos, como o faz o governo, que tais ocorrências não se passaram sem a resistência de oficiais e tripulantes, que deste modo honraram, até ao sacrifício da própria vida, as tradições da Marinha portuguesa.
A consciência dos portugueses condenará sem hesitações este crime praticado contra Portugal.

O título do editorial de O Século era Unamo-nos os de Boa Têmpera e terminava assim:


«Unamo-nos os milhões que somos contra esse escasso cento de renegados; unamo-nos os de boa têmpera, indomáveis na vontade, prontos ao sacrifício. Portugal chama-os. Responderão: Presente.»


O editorial do Diário da Manhã,  Quando o Ódio se Alucina, destacava:

«Se no aspecto pessoal, o acto cometido representa a condenação final dum crápula exibicionista, sem consciência moral, que se perdeu definitivamente nos caminhos do crime, no aspecto politico é a prova irrefutável do que são e do que não são capazes os criminosos que publicam panfletos onde é nítida a intenção comunista, desagregadora da unidade dos homens e das terras da Nação portuguesa – e acabam por cair, de forma a não deixarem dúvidas, no assalto à mão armada, no roubo, no assassínio, na prática pura e simples da pirataria.»

Título do editorial de O Primeiro de Janeiro: Absolutamente abominável, do jornal  A Voz: Preferiram cair a render-se, das Novidades: Queremos Ser um Povo que não se demite, do Diário Ilustrado: Indignação e Revolta, do Jornal de ComércioRespeite-se Portugal, do Diário de Lisboa: Acto Insólito, do Diário PopularUm Crime Inédito contra a Pátria e a Civilização, do Jornal de Notícias: Todos os Portugueses Sentem a Maior Repulsa, de O Comércio do PortoNão há Explicação nem Justificação.


Em Setembro do ano passado, estreou Assalto ao Santa Maria um filme de Francisco Manso, com argumento de João Nunes, e Vicente Alves do Ó.

Segundo Francisco Manso, o filme retrata a epopeia e a aventura quixotesca do assalto ao paquete Santa Maria envolvido por uma história de amor entre uma passageira, filha de um apoiante de Salazar, e um dos revolucionários.

Texto publicado no dia 22 de Janeiro de 2011.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

APARECIA E DESAPARECIA DE REPENTE


Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade. Pessoa cheia de contrastes e incoerências, tinha uma enorme facilidade para relacionar-se com os outros e, depois, para cortar relações. Impulsivo e inconstante, aparecia e desaparecia de repente. Capaz de prescindir de tudo e de começar do zero, durante anos viveu em pensões manhosas, de onde muitas vezes era expulso por falta de pagamento. Era um especialista em dívidas e em não as pagar, especialmente às tipografias. Mas também aos amigos, às mercearias e às empresas de gás ou electricidade.
Chegou a não ter de dormir à noite, viu-se obrigado a vaguear pelas ruas e a pernoitar em vãos de escada ou em cabines telefónicas. Conheceu a miséria, o vício e a degradação. Bebeu, viu-se metido no mundo do alcoolismo e delapidou tenazmente a sua vida entre hospitais, clínicas e sanatórios. Manteve-se muitas vezes, como Bocage, «de sucinto almoço, ceia casual, jantar incerto». Passou fome, pediu esmola, humilhou-se, mas soube tirar proveito do seu infortúnio. Movia-se com naturalidade entre os inadaptados e gostava de estar perto dos marginais e das ovelhas ranhosas, porque lhe enriqueciam a existência, porque com aqueles que não têm nada a perder conhecem-se melhor os labirintos da alma humana.

João Pedro George da introdução a Puta que os Pariu

TRAZ-ME UM GIRASSOL


Traz-me um girassol para que o transplante
no meu árido terreno
e mostre todo o dia
ao espelho azul do céu
a ansiedade do teu rosto
amarelento

Tendem à claridade as coisas obscuras
esgotam-se os corpos num fluir
de tintas ou de músicas. Desaparecer
é então a dita das ditas

Traz-me tu a planta que conduz
aonde crescem loiras transparências
e se evapora a vida como essência
Traz-me o girassol de enlouquecidas luzes.

Eugenio Montale em  A Religião do Girassol

quinta-feira, 2 de julho de 2020

ISSO É UM LIVRO?


"O Nariz de Gógol", solicitei. A rapariga era uma virago: "Isso é um livro?" O extravagante diálogo decorreu numa tarde de Abril numa livraria que já teve as suas horas, nesta cidade mesmo de Lisboa."Não vinha aqui procurar sapatos."A empregada, furibunda, avançou para o computador, gritando para uma colega: "Já ouviste falar de um livro chamado O Nariz?" A outra aconselhou a busca no computador. Lá fomos, e ainda ouvimos a voz desta segunda, perguntando: "Isso é recente?" "Sim, saiu uma edição há uns dois anos."
Velho livrariófilo (não é bibliófilo, é viciado em livrarias e estantes), desconfio destas livrarias onde os vendedores se precipitam para as máquinas à procura de stocks, não sabem o que está nas estantes, nem a cor do livro, nem me aconselham outra edição, ou mesmo outra obra ou outra ainda. Embora já o tenha, teria comprado as Almas Mortas tivesse a rapariga dito um "este saiu há menos tempo e é uma tradução do russo". E teria comprado Kafka, se me tivesse dito "são parecidos"; e então se tivesse apontado o que de Gógol há em Rodrigues Miguéis, cá trazia eu para casa mais uma Gente da Terceira Classe.
Depois da lenta consulta — e eu a querer fumar —, lá disse a assertiva jovem (também há jovens imbecis): "Isso não existe." A outra, mais simpática, trouxe-me até à porta e sussurrou: "Vá àquela ali, é melhor, nós não percebemos nada disto. "Lamentei, cá para mim, as misérias da vida que obrigam uma moça alegremente ignorante a trabalhar numa livraria e não numa lojinha de bugigangas, segui o conselho.
Pois não é que a empregada desta outra livraria, a "melhor", empregada mais antiga que fazia crochet, interrompe o passatempo e me olha, aterradora: "Isso é um livro?" pergunta. "É. E saiu há uns dois anos." "Ó Não-sei-Quantas chega aqui, conheces uma editora que se chama O Nariz?" grita para o fundo. "Não é uma editora, é uma novela, a edição é da Assírio & Alvim." "Dessa, temos umas coisas" disse, pousando o crochet e deixando-me com ténue esperança. "Não sei bem o quê, mas temos." E lá atacou o amaldiçoado computador. "Olhe, temos o Fernando Pessoa, esse temos, não quer?"
"Não, queria o Gógol" repeti, e já passara meia hora desde que me dera aquele desejo maldito de comprar uma das mais belas novelas desde sempre e jamais. "Isso é um livro?" repetiu a livreira, e foi a terceira vez que, numa livraria, me fizeram esta pergunta. Lá disse que supunha que, nas livrarias, se vendem livros (embora, para dizer a verdade, durante esta já quase hora, não tenha eu visto nem um cliente nem uma venda).

Jorge Silva Melo em Século Passado

O GATO


Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação

Guillaume Appolinaire em Assinar a Pele

quarta-feira, 1 de julho de 2020

VELHAS CANÇÕES


Canções simples
   que todos cantam
e alguém pede:
   canta-nos “Born to Lose”
e Hershorn pega
    no uquelete da filha
e todos ouvem
    as notícias

Canções simples que todos cantam
Esqueço-as depressa e abandono-as
Os hinos & as orações das pessoas solitárias

Leonard Cohen em A Chama

Legenda: pintura de Karen Offutt