Com
90 anos, feitos no dia de 5 de Março, morreu o jornalista e escritor Mário Zambujal.
Neste
dia, o jornalista e escritor Ferreira Fernandes deixou no Mensagem de Lisboa,
a evocação dos 90 anos do Zambujal:
«Um dia, Bernard
Pivot foi a um restaurante de província, em França, onde lhe serviram uma
soberba brandade provençal de bacalhau. Durante o último quarto do século
passado, Pivot foi o mais eficaz divulgador da literatura francesa. Os seus
programas televisivos Apostrophes e Bouillon de Culture são uma saudade (em
francês culto, diz-se “saudade”).
Apesar de também
ter gostos culinários (em português, “bouillon” diz-se caldo), não foi ao prato
que ele agradeceu. À saída do restaurante La Lavande, em Lardiers, Bernard
Pivot deu um abraço apertado aos dois tomos do dicionário Le Petit Robert, à
disposição dos clientes e expostos na sala de jantar.
Em Les Mots de
Ma Vie, As Palavras da Minha Vida, Pivot escreveu esta frase: “Amei primeiro as
palavras antes de amar os livros”. No começo da Segunda Guerra Mundial, em
casa, numa aldeia perto de Lyon, teve mais acesso ao Petit Larousse, outro
dicionário, e às Fábulas de La Fontaine, do que eu aproveitei no consumo dos
meus tantos livros infantis.
Ele dedicou-se a
descobrir, compreender e comparar o que queria dizer aquela condição de
“atraída” (a Raposa, pelo cheiro do queijo que o Corvo tinha no bico), ou
aquela coisa, a “larva” (que a esfomeada Cigarra cantadeira arrependida
implorava à Formiga trabalhadeira).
Tudo a ver com a
cerimónia que passo a celebrar. Um absoluto colega do francês, também
jornalista, sábio e generoso, o Mário Zambujal – e quase contemporâneo de Pivot
– tornou-se hoje centenário!
Sobre a
identidade profissional e cívica de ambos, lá irei, sobre as datas explico-as
já: Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 e Bernard Pivot nasceu, no mesmo dia,
dois meses depois e um ano antes do português. Centenários, ambos! Não venham
cá com as vossas pequenas aritméticas, “eh pá, estamos em 2026, ainda falta uma
década…” Minudências (ide ver ao José Pedro Machado ou ao Morais).
É interessante
que Mário Zambujal, miúdo, também tenha vivido uma guerra e até antes do
camarada francês, que só aos quatro anos viu camiões militares de cá, para lá,
na França ocupada. Já o português, logo meses depois de nascer, teve a sua
alentejana e fronteiriça Amareleja com refugiados espanhóis fugidos à guerra
civil. Havia-os acantonados no corredor comprido da sua casa. Se calhar há quem
passe todo o período da amamentação indiferente aos vizinhos do corredor, mas
há-os, outros. Como o Mário Zambujal.
Quando foi viver
para Algarve, aos 5 anos, levou com ele o Alentejo e guardou-o, a mãe fazia
migas e ensopado de borrego. Depois, foi o Bairro Alto e os jornais, onde ele
chegou para distribuir com critério e beleza o que começara e continuaria a
vida toda a colecionar – palavras.
Como disse o tal
francês, as palavras da minha vida é a minha vida com as palavras.
Quase nenhum
quiosque lisboeta pendura hoje tanto jornal quanto os títulos por onde o
Zambujal passou: A Bola, Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, O
Jornal, Tal & Qual, Se7e, Record… Estendam o rol, onde ele assentou prosa
sua, em programas de sucesso na tevê e rádio, dita por outros, como Carlos Cruz
(“Pão Com Manteiga”, na Rádio Comercial) ou Raul Solnado (“Lá em Casa Tudo
Bem”, RTP)…
É muita palavra.
Mais isto: cada uma feita com pesquisa de sinónimos e escolha da nuance certa.
Juntem um breve deitar de olho a dicionários de etimologia, saber dar pelo
flash de um calão antigo, ter dúvidas da conjugação. E o que já vos disse, a
circunstância divina de ter estado acordado, ao outro, desde miúdo. Não é
acaso, é convicção profunda de que se é ignorante esclarecido, quer dizer,
pronto para aprender.
Apesar de só nos
termos encontrado meia-dúzia de vezes (foram sete, Mário), eu conheço Zambujal
ao pormenor. Fui, sou, dele, leitor contumaz e já depois com os outros
Presidentes todos. Faltaram-me o Carmona e o Craveiro Lopes, pois Zambujal foi
publicado pela primeira vez, aos 15 anos. Isso bate em 1951, no ano em que
aqueles dois dividiram Belém, um saiu e o outro entrou. O importante foi a
primeiro texto ter sido na revista Os Ridículos. Também bate certo, só goza com
estas coisas quem leva a carreira a sério.
A editora Clube
do Autor lança hoje uma Edição Comemorativa – 90 anos – republicando três
livros de Mário Zambujal, Cafuné, Dama de Espadas e a memória coletiva e a
procura em vão em alfarrabistas ainda mais coletiva: Crónica dos Bons
Malandro.
A edição
comemorativa, já vimos, tem aquela pequena dedução formal: Mário Zambujal
nasceu em 1936, faz anos hoje, portanto, Edição Comemorativa – 90 anos…
Não, antes de
contagens especiosas, o que conta é a essência do personagem. O que é hoje
05-03-2026? Uma folha que amanhã já substituo por outro no calendário da
cozinha.
Ora, o sujeito
do assunto é o Mário Zambujal, logo, centenário. O nosso escritor, no ano
passado, se escrevesse a crónica de uma comemoração ao Senhor Coluna faria a
mesma coisa que eu faria. No ano passado, o seu xará e correligionário Mário
Coluna – o capitão glorioso do Benfica – fez 90 anos, pois nasceu em 2035. Mas
uma crónica do Mário Zambujal sobre o assunto haveria de se chamar O Centenário
do Velho Capitão.
Há gente como os
dois Mários acima mencionados para quem as datas nunca são assim-assim, como as
calendas gregas. Porque lhes acontece com eles são logo efeméride, número
redondo! Há personagens que não cabem em livros de contabilidade, onde não se
erra ao cêntimo, mas se peca no estilo. Essas pessoas são para as palavras que
tomaram o poder da imaginação. Mário Zambujal, centenário, e não se fala mais
disso.
Ou, se calhar, e
isso aplaudo, foi daqueles bons erros malandros dos Correios e até Bancos
Centrais que lançam selos e notas com um pequeno erro de edição. Recolhem a
coisa e é um ver se te avias no mercado paralelo. Os meus três livrinhos já os
fechei no cofre para a herança dos netos.»