CAIS DO OLHAR
quinta-feira, 28 de maio de 2026
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
TRUMPALHADAS
Que
mais há a pensar de Donald Trump?
Inculto,
ignorante, populista, demagogo.
O
mesmo espanto de sempre: como é que um povo elege um presidente disposto a acabar
com os Estados Unidos, com o Mundo?
De
uma notícia do Público assinada por Ana Brito:
«Ao fim de três
meses, Trump continua sem resolver o problema que criou no Irão
“O Irão quer muito fazer um acordo”, repete Trump todas as semanas, mas o
estreito de Ormuz permanece “encerrado” e o Médio Oriente é uma zona de alta
tensão.
Os
Estados Unidos continuam a mostrar-se incapazes de resolver o problema que
criaram há três meses, quando, ao lado de Israel, atacaram o Irão, mataram as
principais figuras do regime – incluindo o Guia Supremo da República Islâmica, o
ayatollah Ali Khamenei – fazendo com que o poder caísse nas mãos dos generais,
que controlam o dinheiro, as armas e o petróleo e têm pouco incentivo para
abrir mão do trunfo estratégico que é o estreito de Ormuz.
Esta quarta-feira, depois de a imprensa iraniana ter divulgado uma espécie de
base para um memorando de entendimento entre Irão e Estados Unidos, a que a
Casa Branca chamou uma “invenção completa”, Donald Trump voltou a dizer que
ainda não está satisfeito com o acordo que supostamente está a ser negociado
com Teerão, através da mediação paquistanesa.»
A MULHER SENTADA
Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.
(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).
Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.
João Cabral de Melo Neto em Poemas Escolhidos
quarta-feira, 27 de maio de 2026
OLHAR AS CAPAS
Revolução
Hugo Gonçalves
Capa: Luísa Cunha
Companhia das
Letras, Lisboa, Maio de 2024
Por mais companhias de dinamização cultural e acção cívica,
o povo ainda não tinha aprendido as regras da convivência. O povo – ao vivo e
aos magotes, rameloso e na disputa de um lugar sentado, com o banho por tomar
ou uma sobrecarga de perfume – era menos inspirador do que nas estilizadas
pinturas de mural com o punho no ar.
LIVROS QUE SE ESPALHAM PELO PARQUE
Abriu a Feira do Livro e por ali permanecerá até 14 de Junho.
Hei-de
lá ir pelos jacarandás, pela frescura que a noite traz, mas este Maio está a ser
terrível com um calor de ananases.
E
pelos livros também lá irei, claro!
Recordando Francisco Vale, editor da Relógio d’Água:
A frase era irónica, numa época em que os artigos sobre a crise do livro tipográfico formavam uma espécie de género ensaístico menor. Alguns anos depois tingiu-se de humor negro com o surgimento dos leitores de e-books e de uma geração habituada aos écrans e desabituada de livros.
Mas o livro impresso entrou no século XXI com inesperado vigor e as previsões sobre o avanço da edição electrónica revelavam-se apressadas.»
VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS
Em Novembro de 2015, por aqui, olhámos o livro Greguerías de Ramón Gómez de la Serna, selecção e tradução de Jorge Silva Melo.
Greguerias é uma palavra
que não significa nada, nem em castelhano, nem em qualquer outra língua, é um
género literário inventado pelo próprio autor. Jorge Silva Melo, no prefácio,
lança pistas para que possam ser aforismos, adágios, refrões, mas não é
conclusivo. Pouco importa.
O que quer que sejam,
merece que se apresentem algumas dessas greguerías, que também, por aqui, já
foram utilizadas em alguns Postais sem Selo.
Como dava beijos
lentos, duravam-lhe mais os amores.
À morte não a
ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos
Onde o tempo e a
poeira mais se unem é nas bibliotecas.
Olharam-se de janela
a janela em dois comboios que iam em direcções opostas, mas tal é a força do
amor que logo os dosi comboios se puseram a andar para o mesmo lado.
Às vezes, os beijos
são só chewing-gum repartido.
As estrelas-do-mar
são as mãos que constatam que o barco se afundou.
Sofá-cama: os sonhos
ficam em baixo a conversa em cima.
O grande problema do
gato é como dar futuro a esses seis gatinhos que vieram ao mundo de uma só vez.
Nervosismo da
cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açúcar para o café.
Amor é acordar uma
mulher e ela não se irritar.
Escrever é que nos
deixem rir e chorar sozinhos.
Quando se entorna um
copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.
Velho actor: deixou
uma dentadura que declamava Shakespeare.
Pôr as peúgas do
avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.
A gaivota rema ao voar.
NOTÍCIAS DO CIRCO
Volta e meia, Pedro Passos Coelho abandona Massamá para nos vir dizer coisas.
Ontem, na
apresentação de um livro, criticou os políticos que, para tentarem agradar a
todos ainda mais do que os populistas, se tornam postiços, comparando-os a
"prostitutos sem carácter".
PLANO DE EVASÃO
Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado
que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras
e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários
e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –
aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,
não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés
e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo
que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto
o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:
os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio
e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.
Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2012
terça-feira, 26 de maio de 2026
À LUPA
Dentro de Greguerías,
aforismos de Ramón Gómez de la Serna, encontrei um guardanapo de café ou tasco,
com esta frase de José Sócrates, enquanto ministro do Ambiente e citada do Dna
de 16 de Setembro de 2000:
«Engenheiro José Sócrates, vamos vê-lo, um
dia, primeiro-ministro?»
«Não! Primeiro, porque não tenho o talento e as qualidades que um
primeiro-ministro deve ter. Segundo, porque ser primeiro-ministro é ter uma
vida na dependência mais absoluta de tudo, sem ter tempo para mais nada. É uma
vida horrível e que eu não desejo. Ministro é o meu limite.»
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Nunca aprendemos tudo sobre despedidas.
O livro do
Julian Barnes é um livro do diabo.
Demorei algum tempo a lê-lo.
São apenas 185 páginas, «composto em caracteres da família
Caslon, inspirados na tradição holandesa do século XVII e originalmente desenhadas, em 1722, pelo
tipógrafo William Caslon (1692-1766) – um trabalho que influenciou toda a
história da tipografia moderna».
Relembro o
que por aqui escrevi, nos princípios de Março, sobre Barnes:
Saiu o último livro do Julian Barnes e é
mesmo o último.
Li apenas O Papagaio de
Flaubert e gostei.
Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A
felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».
Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de
46, eu nasci em Março de 45.
Deveria ter lido os restantes livros de
Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida,
que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram.
Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros
que me querem oferecer.
Neste momento, Barnes, luta contra um
cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer
mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:
“Será que tenho uma lista de desejos,
agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor
Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico
obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de
Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme,
excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades
europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas
nevadas de uma distância em que não sinta frio”.
A Quetzal, que edita o livro, publicita:
«Partindo da história de um casal de
namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide
tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa
deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.
Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste
balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes
americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira
com um final triste».
Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os
leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas
expressões da vida. E despede-se deles.
Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo
aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a
minha partida oficial, a minha última conversa convosco».
CRÍTICAS DE IMPRENSA
«Uma despedida elegante de um escritor
cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review
«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance
elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal
«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e
vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»
Na crítica que Helena Vasconcelos fez
para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice
colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes
Partida, o romance em que Julian
Barnes nos diz adeus.
Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.
Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.
Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.
OLHAR AS CAPAS
Partida
Julian Barnes
Tradução:
Salvato Teles Menezes
Capa: Rui
Rodrigues
Quetzal
Editores, Lisboa Janeiro de 2026
É óbvio que, como agnóstico/ateu, não vejo
muitas vantagens em estar morto.
THE NIGHT YOU SLEPT
Também a noite se parece contigo,
a noite longínqua que chora,
muda, no fundo do coração,
e as estrelas passam cansadas.
Uma face aflora uma face –
é um tremor frio, alguém
se agita e te suplica, só,
perdido em ti, na tua febre.
A noite sofre e anseia pelo amanhecer,
pobre coração que estremeces.
Ó rosto fechado, negra angústia,
febre que afliges as estrelas,
os que esperam como tu o amanhecer
sondam o teu rosto em silêncio.
Estendes-te sob a capa da noite
como um horizonte morto e fechado.
Pobre coração que estremeces,
num dia distante foste o amanhecer.
Cesare Pavese em Virá a Morte e Terá os Teus Olhos
segunda-feira, 25 de maio de 2026
NOTÍCIAS DO CIRCO
A Taça de Portugal
sempre foi uma enorme festa.
Seria mais se
a Federação, ao longo dos anos, não inventasse uns esquemas que têm o finalmente
de colocar as grandes equipas na final.
O correcto
espírito da Taça estaria no facto de logo na primeira eliminatória estarem
presentes TODAS as equipas de Portugal.
Não é bem
assim.
Mas este ano
as coisas saíram furadas aos experts da Federação.
Pela primeira vez, uma equipa de um escalão secundário venceu a Taça.
Como se lê no
blogue «zero-zero» pela pena de Guilherme Terras Marques:
«Talvez seja precisamente essa mistura
entre o sonho e a ausência de medo que tenha tornado esta equipa tão perigosa. No
final, Luís Tralhão dizia que a maior força do Torriense foi «a capacidade de
perceber que podia ganhar o jogo». Talvez essa frase explique tudo. Quando uma
equipa acredita assim durante tanto tempo, talvez deixe mesmo de existir espaço
para chamar acaso a uma conquista histórica.»
Legenda: fotografia de Luís Moreira no «zero-zero».
SENTIMENTO DO MUNDO
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Carlos Drummond de Andrade em Antologia Poética
domingo, 24 de maio de 2026
REOLHARES
Este é o cartão do associado nº 38315, de "A Voz do Operário" de Afonso Borges Correia, meu avô materno.
Funcionário
da Câmara Municipal de Lisboa, republicano histórico, era um pândego patusco,
castiço, um gozador da vida, tocava “caixa” na Banda da
Câmara.
Nos domingos em que não havia concertos, manhã cedo, saía de casa, máquina “à la minute”, ele dizia à la minuta, e arrancava para as praias, para as feiras nos arredores, para tirar fotos de “olhó passarinho”.
Dizia à minha
avó que assim fazia um dinheirinho para compor o curto ordenado de funcionário
da Câmara. Mas isso, era apenas um pedaço de treta, tirava, quando tirava, uma
ou duas, ou três fotos, o resto era copos e convívio com os amigos. Pelava-se
por polvo seco assado na brasa, na Feira da Luz, ou na das Mercês, e é fácil
imaginá-lo naqueles restaurantes de feira, mesas com toalhas de plástico,
petiscos, jarros de barro com tintol e lá fora, a máquina, em cima do tripé,
a olhar para ele, ou vice-versa.
Claro que nos domingos de concerto, também saía manhã cedo, mais petisco, mais copitos, o chegara casa, ao cair da noite, e a ouvir a minha avó: “maior fosse o dia maior era a romaria”.
Reformado da Câmara, já com pouca estaleca para transportar a la minuta, conseguiu alvará de guarda de automóveis num espaço junto à Sé de Lisboa. Um fino humor, uma figura garbosa, davam-lhe o toque de charme que cativa damas e cavalheiros das missas de domingo, das missas de fim de tarde, e as gorjetas eram cantantes.
Fumava dois maços de "Definitivos" por dia. Copos e tabaco, outras coisas, provocaram-lhe graves problemas de circulação, ao ponto de lhe terem amputado as pernas.
O médico
proibira-lhe os cigarros, o copito.
Assim, um
pouco sem jeito, ia-lhe lembrando esses cuidados, e o avô andarilho que foi,
acamado que estava, a dizer-me: “é pá! A vida são dois dias e o
qué que queres que p’raqui esteja a fazer?
Nunca hei-de esquecer o prazer com que puxava cada fumaça de “Definitivos”.
As consoadas eram preenchidas com as suas anedotas que, invariavelmente, repetia todos os anos. Recordo esta:
Um homem entra pela drogaria a pedir uma
esmola para o ceguinho..
- Mas onde está o
ceguinho? pergunta uma cliente
- Está lá fora a ver a montra!
Pelos cigarros, pelo copito, terá morrido mais cedo… mas morre-se por tantos motivos…
Foi “A Voz do Operário” que lhe tratou do funeral.
Já não lembro o que aconteceu à máquina à la minuta e ao boné com a placa de guarda de automóveis.
Do meu avô apenas guardo um relógio de pulso de marca “Invicta” e este cartão de sócio de “A Voz do Operário”.
Sou o único da família, que saiu com os olhos azuis do meu Afonso.
(Texto publicado em 29 de Setembro de 2011).
Legenda: a
imagem do fotógrafo “à la minuta” foi tirada daqui.
A outra imagem, mostra o espaço, junto à Sé, onde o meu avô foi
guarda-de-automóveis.
OLHAR AS CAPAS
Obras Escolhidas
Lénine
3 Tomos
Lénine
Edições
Avante, Lisboa, Novembro de 1977
MÚSICA PELA MANHÃ
Centenário de
Miles Davis.
Nasceu no dia
26 de Maio em Alton, Illinois.
Pedro Adão e
Silva evoca-o, hoje, no Público:
«Conta a lenda que numa receção na Casa
Branca, Miles Davis terá sido questionado pela mulher de um político
sobre o que tinha feito de importante para estar naquele jantar. A resposta foi
contundente — e podemos imaginá-la na voz singularmente rouca do músico:
"Mudei a história da música cinco ou seis vezes e não acredito que se
possa tocar apenas temas compostos por brancos." Para depois questionar:
"Diga-me o que fez de importante, além de ser branca e casada com um homem
branco?"».
Flea, o
virtuoso baixista dos Red Hot Chili Peppers: "Se és um ser humano e
ouviste Miles e não gostaste, então és um idiota."
Eduardo Prado
Coelho conta:
«Juliette Greco evoca Miles Davis, amante. Quando, anos depois, o reencontrou em Paris. Ela, alguns passos na sala, de costas, um pouco curvada, desatenta: procurar um isqueiro, encher um copo com álcool, abrir uma janela porque faz calor. E ele ri, feliz. Juliette Greco pergunta: "Estás a rir, porquê?” E Miles Davis responde: “Porque reconheceria esse movimento de ancas em qualquer parte do mundo.”».
sábado, 23 de maio de 2026
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Já mais de uma vez disse por aqui que o meu pai foi um marxista-leninista.
Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia (?) por fundamental, mais por o João César Monteiro ter escrito que no Marx está tudo.
A carne é fraca
e li mais Raymond Chandler do que os clássicos marxistas, leninistas e estarei
em condições de dizer que cheguei mais às ideias que hoje tenho lendo Sartre,
Camus, Vailland, Vittorini, Roger Martin du Gard, tantos outros, do que
clássicos da política.
«A tese de que o fim da União Soviética e
do bloco socialista europeu, entre 1989 e 1991, obrigaria os partidos
comunistas a abandonar o marxismo-leninismo – defendida a partir de 1998 pelo
malogrado Carlos Brito e que conduziu à sua ruptura com o PCP em 2000 – sempre
me pareceu partir de um pressuposto errado: o de que o marxismo-leninismo teria
como única expressão prática possível a experiência soviética.
O marxismo-leninismo, criado depois da
morte de Lénine, albergou projectos políticos muito diversos e até antagónicos.
Em Portugal, além do PCP, existiram entre 1964 e 1976 pelo menos 40
organizações que se reivindicavam marxistas-leninistas. Na própria URSS a mesma
designação serviu para fundamentar o “socialismo num só país” de Estaline, a
desestalinização de Khrushchev, apresentada como “regresso a Lénine”, e a
Perestroika de Gorbachev, descrita como renovação leninista do socialismo.
A elasticidade do conceito permitiu
ainda legitimar experiências tão distintas como o maoísmo, que deslocou o eixo
revolucionário para o campesinato em sociedades semicoloniais, ou o titoísmo
jugoslavo, que combinou socialismo, mecanismos de mercado e autogestão
operária. Na China, no Vietname, em Cuba e noutros países, o marxismo-leninismo
serviu aplicações nacionais muito diferentes.
A ideia de que a adaptação do comunismo
aos “novos tempos” exigiria a rotura com essa identidade contradiz a conceção
antidogmática defendida por Lénine. Em múltiplos textos, Lénine insistiu que a
teoria de Marx não era um “dogma morto”, nem um mapa detalhado do futuro, mas
um “guia para a acção”. Essa flexibilidade permitiu-lhe defender a participação
de comunistas em parlamentos burgueses ou criar a NEP de 1921, que reintroduziu
mercado, comércio privado e iniciativa camponesa na jovem URSS.
Os partidos que se reivindicam
marxistas-leninistas partilham alguns princípios: transição para o socialismo,
subordinação dos meios de produção ao interesse colectivo, anti-capitalismo,
anti-imperialismo, denúncia da exploração humana na democracia burguesa,
partido de massas. Mas esses princípios nunca deram origem a uma
institucionalização homogénea. Podem exprimir-se em sistemas políticos
distintos, como também o capitalismo convive tanto com ditaduras como com
democracias liberais.
A adaptação de partidos comunistas
marxistas-leninistas às instituições da democracia representativa encontra,
aliás, exemplo contemporâneo no programa do Partido Comunista Português. O PCP,
o meu partido, define o marxismo-leninismo como a sua base teórica não
dogmática. O seu projecto de “democracia avançada” para Portugal incorpora
liberdades, pluralismo de opinião e organização política, sufrágio universal,
separação e interdependência de poderes, liberdade de imprensa, direito à
formação de partidos e protecção jurídica dos direitos individuais e coletivos
dos cidadãos.
Esta compatibilidade funda-se na ideia
de que a luta pelo socialismo passa pelo aprofundamento da democracia política,
económica, social e cultural, sem renúncia ao objectivo de uma sociedade sem
exploração.
É por isso que me parece que Carlos
Brito e os camaradas que a partir de 1998 o apoiaram na reivindicação do fim do
marxismo-leninismo no PCP estavam errados: é que discutir a democracia interna
no PCP, que é um tema que deve estar sempre em cima da mesa, nada tem a ver com
o fim do marxismo-leninismo, pelo contrário.»
OLHAR AS CAPAS
Obras Escolhidas
Marx e Engels
Três Tomos
Tradução:
José Barata-Moura
Edições
Avante, Lisboa, Abril de 1982
… os
indivíduos procuram apenas o seu interesse particular, o qual para eles
não coincide com o sei interesse comunitário.
À LUPA
Ainda vamos ouvindo, uma conversa sem fim, que Israel é uma democracia.
Uma história para enteter camelos.
Ben-Gvir, ultra-ministro do ultra governo de Benjamim Netanyahu, divulgou imagens da violência com que Israel trata as pessoas que participaram na última
flotilha que foi interceptada. As imagens chocaram o mundo e Netanyahu veio
dizer que aquele tratamento “não se alinha com os valores de Israel”.
Mas
quais são os valores de Israel?
O
governo português , como em outras situações em que as sanguinárias forças de
Israel estão envolvidas, gagueja para um lá e para outro. Não só o governo
português porque nos restantes países da Europa, do mundo, não se vê uma reação
violenta contra os governantes israelitas.
Têm
medo de quê?!
MÚSICA PELA MANHÃ
Terá sido no
decorrer do campeonato do Mundo de 1990, realizado em Itália, na final a
Alemanha ganhou por 1 a 0 à Argentina, que o final da ópera Tarandot de Giacomo Puccini, cantado por Luciano
Pavarotti se tornou popular.
«A Princesa
Turandot, filha do Imperador Altum da China, odeia todos os homens, e jura que
jamais se entregará a nenhum deles; isto devido a um fato ocorrido na família
imperial que a traumatizou para sempre: o estupro e assassinato da princesa
Lo-u-Ling, quando os tártaros invadiram e conquistaram a China. Seu pai, porém,
exige que ela se case, por razões dinásticas, e para respeitar as tradições
chinesas. A princesa concorda; porém, com uma condição: ela proporá três
enigmas a todos os candidatos, que arriscarão a própria cabeça se não acertarem
todos os três, e somente se casará com aquele que decifrar todas as três
duríssimas charadas. A crueldade e frieza da princesa não fazem mais do que
atiçar a paixão do Príncipe Desconhecido, filho do deposto rei dos tártaros,
que decide arriscar a própria vida para conseguir a mão da orgulhosa princesa.
Ele consegue, após a derrota de todos os outros candidatos, até porque é o
único que compartilha da natureza sádica e egoísta da princesa, sendo capaz de
entendê-la.»
Ninguém durma! Ninguém durma!
Nem mesmo tu, ó Princesa,
No teu quarto frio,
Olhas para as estrelas
Que tremem de amor
E de esperança!
Mas o meu segredo está guardado em mim,
O meu nome ninguém saberá!
Não, não, na tua boca eu o direi,
Quando a luz brilhar!
E o meu beijo derreterá
O silêncio que te faz minha!
(Coro: O nome dele ninguém saberá! E nós
teremos, ai de nós, que morrer!)
Desaparece, ó noite!
Esvaneçam, estrelas!
Esvaneçam, estrelas!
Ao alvorecer vencerei!
Vencerei! Vencerei!







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