Companhia
Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981
- Madame Chèbe!
- Senhor noivo…
-Estou contente…
Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do
nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e
pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção
ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir
subitamente em lagrimas.
Fromont Junior e Risler Senior
Alphonse Daudet
Tradução Pedro
dos Reys
Companhia
Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981
- Madame Chèbe!
- Senhor noivo…
-Estou contente…
Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do
nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e
pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção
ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir
subitamente em lagrimas.
«Milhões
de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do
gasóleo do que com a morte de uma centena de crianças no bombardeamento de uma
escola.»
Ao
que parece Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, entendeu que
a presença de Mário Centeno como funcionário Banco, não ajudava no seu trabalho, seria uma sombra a baralhar-lhe os números...
Tentou-se
a colocação de Centeno como vice-presidente do Banco europeu, mas a coisa
correu mal.
Restava
a Santos Pereira a saída de Centeno do Banco de Portugal com uma oferta
tentadora: através do regime de aposentação ao abrigo do fundo de pensões
existente no banco central, após um acordo entre as duas partes, passa a
auferir uma reforma de cerca de 10 mil euros brutos mensais.
Álvaro Santos Pereira
terá agora de ir ao Parlamento explicar a negociata!
«O meu futuro está em aberto» disse Mário Centeno ao Diário de Notícias...
É preciso merecer as
viagens, tê-las desejado anos. Também é (mais) a juventude que formas as
viagens. Porque as verdadeiras viagens não formam a juventude: surgem delas.
Penetrei em muitos países, mas aos países que penetraram em mim (são menos)
senti sempre o desejo de lhe dizer aquela frase estúpida e verdadeira que se
diz às mulheres amadas: «Parece-me que te conheci sempre.»
No dia 4 de Setembro de 1970 houve no Chile eleições presidenciais nas
quais o candidato da esquerda obteve a mais alta votação. Isto significou a
nacionalização e posterior expropriação de todas as empresas norte americanas
que havia no Chile.
Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos
Quando
por nós descobrimos algo que nos agrada e acompanha pela vida, isso tem outro
valor, um valor superlativo.
Jorge
Luís Borges dizia que a existir um paraíso, teria a forma de uma biblioteca.
No
seu Último Caderno Saramago deixou escrito:
«Continuarei a dizer
que a literatura não muda o mundo, mas cada vez maisb vou tendo razões para
acreditar que a vida de uma pessoa pode ser transformada por um simples livro».
Como
é que Saramago descobriu as palavras?
Em
livros, em entrevistas deixou expresso como aconteceu essa descoberta.
Na longa conversa que manteve com a Juan Arias, disse:
«Não
tive um livro meu até os dezoito anos e, mesmo assim, os livros que tive,
os que comprei, comprei com o dinheiro que um colega mais velho que eu me
emprestou. Creio que foram uns trezentos escudos, o que equivaleria a um
euro e cinquenta centavos. Com isso pude comprar alguns livros.(1) Antes,
eu já havia lido muitíssimo nas bibliotecas públicas, lia de noite. Depois
de jantar ia andando, apesar de ficar longe de casa, até a Biblioteca do
Palácio Galveias, e até a hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma
orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era muito ou pouco para
mim. Lia tudo o que me parecia interessante. Os nossos autores eu conhecia
pelas aulas, mas tudo o que tinha a ver com autores de outros países,
nada, não tinha a menor ideia, mas depois você vai se dando conta de que
existe um senhor que se chama Balzac e outro Cervantes, et cetera. Pouco a
pouco ia entrando por esse bosque e encontrava frutos que depois fui
assimilando, cada um à sua maneira».
Não chegou à
Universidade, mas as respostas encontrou-as nos livros em que tinha começado
a estudar, e quando trabalhava, como serralheiro mecânico numa oficina de
reparação de automóveis, utilizou o período nocturno da Biblioteca de Galveias
para uma procura de respostas às perguntas que. no dia-a-dia lhe ocorriam.
Como deixou escrito em
A Caverna:
«Felizmente, existem os
livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los ao pó e às
traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em
cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente,
fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento
que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro?
Que ensinava a cozer os barros, e o livro finalmente convocado, aparece, está
aqui nas mãos de marta enquanto o pai e o livro, finalmente convocado, aparece.»
«Um esquema criminoso
para gerir vários refeitórios hospitalares lesou o Estado em mais de 1,2
milhões de euros. Entre os 13 acusados pelo Ministério Público no processo
'Pratos Limpos' está, de acordo com a CNN Portugal, Carlos Galamba de
Oliveira, atual vice-presidente da Administração Central do Sistema de Saúde,
precisamente a entidade pública responsável por gerir os recursos do hospitais
do SNS e de supervisionar as despesas destas unidades. Carlos Galamba de
Oliveira foi nomeado pela ministra Ana Paula Martins há dois anos, quando já
estava sob investigação da Polícia Judiciária, e desde maio de 2025 que está
acusado de um crime de abuso de poder no âmbito deste processo.»
2.
«A Polícia Judiciária do
Porto deteve quatro pessoas, esta terça-feira, na sequência de uma das maiores
operações de sempre visando pelo menos 10 câmaras municipais. Estão a decorrer
buscas em várias autarquias e sabe o CM que a autarquia de Lisboa
está entre os alvos da PJ, assim como as câmaras de Tavira, Lamego e Maia.
Investigam-se crimes de corrupção ativa e passiva, participação económica em
negócio, abuso de poder e associação criminosa, relacionados com o
fornecimento e instalação de iluminações de Natal.
Os anos a seguir à guerra foram bestiais para os
detectives particulares, Nunca od houve melhores, nem antes nem depois. Ninguém
acreditaria quantos soldados contactaram olhos vivos para descobrir no mais
confidencial dos segredos o que é que as suas mulherzinhas teriam andado a
fazer para se entreterem durante a guerra. DE manhã à noite os bares de Nova
Iorque estavam apinhados de soldados cheios de importância contando a
interlocutores simpatizantes como as miúdas francesas os tinham afrancesado, as
miúdas alemães os tinham blitizado e as miúdas inglesas lhes tinham palmado os
pacotes de chá. Depois, quando saíam, iam a correr para telefonar para gajos
como eu, subitamente receosos de que as esposas e as noivas tivessem como eles
aproveitado a guerra para explorar um pouco da cor local.
Quando
o antigo dono do British Bar passou a casa aos empregados, levou o relógio que
mostrava as horas ao contrário.
As
tentativas do Silva para ficar com o relógio, não resultaram.
Mas
não descansou enquanto não pediu a um marinheiro dinamarquês que lhe trouxesse
um relógio, que há-de aparecer em A Cidade Branca do Alain Tanner.
A
actriz Teresa Madruga, é o escritor Eduardo Lourenço que
recorda, diz ao actor Bruno Ganz “que andar ao contrário é uma forma como
outras de medir o tempo”.
E não é? O relógio do British Bar enganou-nos outra
vez. E, como sempre, é ele que está certo.
Uma verdadeira
personagem de romance é aquela de quem o leitor sabe ou julga saber tudo o que
fez e o que vai fazer, o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Conhecemos
melhor Madame Bovary, Ana Karénine ou Rastignac que a nossa mulher, a nossa
filha ou o nosso irmão.
Para a solidão nascemos. Outras vozes
nos chamam e invocam, outros corpos
se perfilam radiosos contra a noite.
Nós não somos daqui. Num intervalo
de campanhas esquecidas nos dizemos,
abrindo o coração aos de passagem.
Mas quando a manhã chega nós partimos,
mais livre o coração, longa a viagem.
Fotografia de
Benoit Terrier da Reuters, publicada no Público,:navios ancorados no estreito
de Ormuz vistos a partir de Muscat, em Omã, a arma dos iranianos com que o
presidente louco, apoiado por loucos, eleito por outros loucos, parece não ter
contado.
1. «A questão que se coloca com cada vez mais pertinência é simples: os Estados
Unidos avaliaram todas as consequências da guerra contra o Irão antes de
lançarem o ataque conjunto com Israel que entra hoje no seu 16.º dia?
Provavelmente, esperavam uma rendição ou destruição do regime mais rápida.
Provavelmente, não avaliaram a capacidade de resistência do regime, preparada,
não ontem, mas há muito tempo. Provavelmente, a pressão de Israel foi decisiva.
Já ouvimos Donald Trump dar as mais variadas explicações sobre os objectivos da
guerra e a sua oportunidade. Todos os dias, promete bombardeamentos ainda mais
fortes para o dia seguinte. O Irão resiste. Continuamos sem ter uma perspectiva
sobre a duração desta guerra. Mas há uma coisa que já sabemos — as suas
consequências para a economia global serão enormes. Porque os países do Golfo
fornecem mais de 20% da energia consumida no mundo. Porque a produção desses
países está a ser alvo de drones e mísseis iranianos. Porque o Estreito de
Ormuz, por onde passam os navios que abastecem o mundo inteiro de petróleo e gás,
está bloqueado. Praticamente nenhum navio o atravessa neste momento. As imagens
de satélite são impressionantes.»
Teresa de Sousa no Público
2.
«Quase duas semanas
depois do início da guerra da aliança EUA/Israel ao Irão, o que sobra? Os
factos são claríssimos. O regime iraniano não caiu e o povo, por um misto de
medo e orgulho nacional, não se revoltou. Os dois maiores exércitos e secretas
do Mundo não conseguiram, sequer, manter a navegabilidade do estreito de Ormuz.
O choque petrolífero,
por causa disso, está a capturar o Mundo inteiro, incluindo a América, numa
armadilha económica que ameaça arrastar o cenário de crise por demasiado tempo.
A subida do custo de vida, dos juros, da energia, agita a sombra tenebrosa da
estagflação, essa velha mistura entre inflação e ausência de crescimento
económico. Nos EUA, o galão de gasolina já bate nos 4 dólares e Trump
arrisca-se a ficar enredado na sua própria política.
São também muito claras
as contradições políticas e militares entre os dois aliados. Os EUA a tentarem,
de forma incipiente, construir uma narrativa de saída do vespeiro iraniano, e
Israel a assumir que ainda vai demorar uns tempos a bombardear o Líbano e o
Irão. A União Europeia reage a várias vozes, em torno da ideia de medidas
preventivas de defesa, mas, no essencial, avulta a ausência de liderança em
Bruxelas. Com os caminhos que tudo isto leva, quem precisa de inimigos, se tem
aliados como Trump e Netanyahu?!»
Eduardo
Dâmaso no Corrreio da Manha
3.
«Ele acrescentou que os jactos norte-americanos sobre o Irão estão “a
controlar os céus, a atingir alvos” e a trazer “morte e destruição do céu,
durante todo o dia”.
Pete Hegseth,
chefe do Pentágono (palavras citadas em vários jornais, no dia 3 de Março)
Não se espera que a linguagem da guerra seja macia e benevolente. Mas devemos
notar que em relação às guerras anteriores a que assistimos, desde a guerra dos
Balcãs, nunca este tipo de linguagem tinha sido utilizada. “Viva la muerte”
é um grito que vem da Guerra Civil de Espanha e que permaneceu silenciado
durante bastante tempo. Ressurgiu agora de uma maneira ainda mais cruel, sob a
forma não de uma palavra de ordem, mas de um regozijo indisfarçável. Não falo
do lugar de um pacifista; falo do lugar em que me sinto arrepiado por esta
linguagem, sabendo que ela é performativa: traz a morte ao ser proferida e
dissemina-a por toda a terra, e não apenas pelo território onde caem as
bombas».
António Guerreiro no
Público
4
«A frase sobre o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão não foi dita por
um crítico do Presidente norte-americano. Foi proferida nesta semana por um dos
maiores podcasters do mundo, Joe Rogan, um reconhecido apoiante de Donald
Trump.
Não é fácil, a quem quer se seja, encontrar uma racionalidade nesta guerra, até
porque para Trump ela já foi um pouco de tudo. Num dia, o que está em causa é a
mudança de regime, no outro dia só quer destruir a capacidade militar do Irão.
Num dia, nunca haverá tropas no terreno, no outro dia já é possível que isso
aconteça. Hoje, Trump quer ter uma palavra na escolha do novo líder iraniano,
amanhã quer que todas as lideranças pereçam. Num dia, está aberto a
negociações, no dia seguinte pede “uma rendição incondicional”.»
Era
uma mulher fascinante. A primeira vez que fui ao Porto, ela estava à entrada de
uma livraria qualquer e disse-me: “Venho dar-lhe as boas-vindas em nome do
Porto.” O Porto era ela!
Tinha Imensas coisas em comum... Quer dizer, ela tinha uma alegria de viver que
eu não tinha: um imenso sentido de humor. Ela dizia: “Sou tão feliz com o meu
marido que nos deviam chamar Casal Garcia.” Tinha muita graça. O Eduardo
Lourenço, de quem sou muito amigo, dizia que lhe chamava rainha Vitória. Não
era uma mulher fácil. Quando não gostava podia ser arrasadora. Para ela, havia
muito pouca gente com talento. Nem sei como é que ela escrevia. Não fazia
emendas. Deitava as folhas para o chão, que o marido, que era um santo, apanhava.
Ela tinha qualquer coisa, muito bebida no Camilo, e o Camilo andou a beber nas
fraldas do Filinto Elísio. Mas ela tem qualquer coisa que os outros não tinham.»
Estamos
no dia 3 de Novembro de 1992 com a Conta-Corrente, último volume, de Vergílio
Ferreira, que o próprio autor chama «Caixote do Lixo» e de facto assim é.
Quando é que acaba com isso, perguntava-lhe o Eduardo Lourenço.
José
Saramago e António Lobo Antunes têm entradas sombrias, algumas a cheirar a
desprezo por todas as letras da prosa.
Porque
há pouco nos deixou, deixo aquio que
Vergílio Ferreira, nesta terça-feira de Novembro, deixou sobre o Lobo Antunes,
em que volta a falar do Nobel da Literatura porque nunca esqueceu o que Mário
Soares um dia lhe disse: que o Nobel lhe ficaria muito bem.
“Não tenho a certeza de nada, mas a visão das estrelas faz-me sonhar.”
Dentro da minha ignorância sobre tanta coisa,
pintura incluída, Van Gogh é o meu pintor.
Lembro-me, desde miúdo, ver, na biblioteca do
meu pai, um livro da correspondência trocada entre Van Gogh e o irmão Theo.
O livro não tinha imagens, era uma edição
inglesa, e nunca saberei como esse livro me chamou a atenção e esse olhar me
acompanhou pela vida, ao ponto de ainda hoje lhe saber as cores da capa.
Procurei na internet as edições das cartas de Van Gogh, são muitas, mas nenhuma
é o que via em casa do meu pai.
Ainda faltavam alguns anos para saber quem
era Van Gogh e conhecer os quadros, e mais anos faltavam para ouvir Vincent,
uma lindíssima canção que Don McLean escreveu, como homenagem ao pintor, depois
de ter lido um livro sobre a atribulada vida do pintor.
Noite estrelada
Pinta os teus quadros de azul e
cinza
Olha os dias de Verão
Com olhos que sabem da
escuridão da minha alma.
A 20 de Maio de 1890, Vincent Van Gogh desceu
de um comboio em Anvers-sur-Oise, aldeia um pouco a norte de Paris. Alugou um
quarto no albergue mais barato e pôs-se a trabalhar febrilmente. Em 70 dias
pintou 72 quadros. A 27 de Julho, um domingo, foi pelos campos em redor e deu
um tiro no peito. Voltou ao albergue sem avisar ninguém. O proprietário
encontra-o moribundo. No dia seguinte chega o irmão.
Não obstante os cuidados do Dr. Gauchet e seu irmão, Van
Gogh morrerá nessa noite. As suas últimas palavras terão sido: “A tristeza durará sempre.”
Tinha 37 anos.
Meia dúzia de pessoas estiveram no funeral.
Quantos quadros, em vida, Van Gogh, conseguiu
vender?
Hoje são disputados e valem milhões.
«Há girassóis entre as flores
amarelas lançadas sobre a sua campa.»
Nas últimas cartas que, de Auvers-sur-Oise,
escreveu ao irmão, há uma constante que marca quase todos os começos: preciso
de algum dinheiro:
Se lá para o fim-de-semana me
pudesses enviar dinheiro… pois o que tenho chegará até então, mas não por muito
mais tempo. (21.05.1890).
Obrigado pela tua carta, que
recebi esta manhã, e pelos 50 francos que a acompanhavam
(25.05.1890).
Muito obrigado pela tua carta
de anteontem e pela nota de 50 francos que ela continha.
(17.06.1890)
Esta manhã chegou a tua carta,
a qual te agradeço assim como a nota de 50 francos que ela continha.
(30.06.1890).
Muito obrigado pela tua carta
de anteontem e pela nota de 50 francos que ela continha.
(17.06.1890)
Obrigado pelo envio das cores,
da nota de 50 francos e do artigo sobre os Independentes.
Desta vez o meu dinheiro não me
durará muito tempo, pois no meu regresso tive de pagar as despesas das bagagens
de Arles (10.07.1890)
Obrigado pela tua carta de hoje
e pela nota de 50 francos que ela continha. (24.07.1890)