sexta-feira, 20 de março de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 Será pelas 14h46 que o equinócio da Primavera marcará a sua chegada.

Para já o sol faltou ao encontro, mas sabemos que o clima está em farrapos.

Por finais de Fevereiro já as podemos ver a cruzar os nossos ares.

Anunciam a chegada da Primavera.

Diz-se que uma andorinha não faz a Primavera.

A razão do provérbio é que as andorinhas migram em bandos.

Mas também se pode dar a volta ao texto e dizer que por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.

Daí que Frederico de Brito tenha feito versos para uma canção do Carlos do Carmo:

Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera 

Como vês, não estou mudado
E nem sequer descontente
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado.


Eu já estava habituado
A que não fosses sincera
Por isso eu não fico à espera
Duma ilusão que eu não tinha
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era

Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distante.


Horas, minutos instantes
Seguem a ordem austera
Ninguém se agarra à quimera
Do que o destino encaminha
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera!

Quando era miúdo, as varandas das ruas do bairro onde nasci, raro era a que não tinham andorinhas de barro.

Catarina Portas há uns anos nas suas lojas, recriou essas andorinhas de barro e explicou:

« As andorinhas são muito mais do que um objecto decorativo são um símbolo tão português, associado à casa, ao regresso e ao amor pelo lugar de onde se vem.

Criadas por Rafael Bordalo Pinheiro no final do século XIX, as andorinhas de cerâmica ganharam as paredes de tantas casas portuguesas, tornando-se um dos ícones mais queridos da nossa cultura.»

Também deixou uma crónica no Público de 8 de Março de 2008:

«Tenho andado de cabeça no ar, olhos levantados para o céu, verificando o horizonte com ansiedade. Mas nada, só pombos nos beirais e gatos pretos nos telhados. Porém, gente de sorte já me mensajou que, sim, que as avistaram, que elas estão a chegar. Vislumbrar a primeira andorinha do ano é uma alegria inexplicável, como o deslumbre de um dia sair à rua e descobrir os jacarandás em flor ou aquele prazer raro de trincar as primeiras cerejas do calor. Agora, cerejas já as há todo o ano, vindas daqui e dali, mas como as andorinhas ainda não se dão em estufa e só arribam quando muito bem lhes parece, esta ainda é uma daquelas felicidades inteiras que o ciclo anual das estações nos traz. Extraordinário, pois é sempre certa esta improbabilidade de avezinhas do tamanho de uma mão conseguirem percorrer milhares de quilómetros, de África até aqui, e acertarem tantas vezes com o lugar de onde partiram seis meses antes. Este país gosta de andorinhas. Estão protegidas por lei (316/89 e 75/91) e foram iconizadas pelo povo. Sempre me intrigou o costume de pendurar reproduções de andorinhas, em barro pintadas, pelas varandas e fachadas das casas portuguesas. Um dia, dei-me ao trabalho de andar a perguntar a historiadores, antropólogos e museus a origem do costume. Não fomos muito longe, que nestas manias populares de três vinténs os registos não abundam. Mas cheguei à conclusão de que as mais antigas que alguém tinha para exibir eram aquelas que Rafael Bordalo Pinheiro, entre couves e restante bestiário, lhe deu para moldar em finais do século XIX - como aquelas que em 1891 pendurou nos fios telefónicos que decoram a maravilhosa Tabacaria Mónaco, ainda hoje no Rossio em Lisboa (e alçando o olhar, no tecto já enevoado pelos anos, há também um bando delas


 pintadas a voar). Se terão sido criação original ou apenas recriação de luxo de outras que já por aí andavam é coisa que provavelmente nunca saberemos, mas certo é que estes ornamentos de exterior caíram no goto do povo e espalharam-se alegremente pelo país ao longo do século XX (sorte a nossa, há nações desgraçadas a quem isto aconteceu com anões atrozes, de jardim). Dizem que a moda prosperou nas décadas da emigração, pelos anos 60 e 70, numa identificação simples entre gente e aves viajantes. E contam ainda que, no Brasil, uma casa com andorinhas de cerâmica na parede é casa de portugueses, certo e sabido.
Ao contrário do galo de Barcelos, que apesar das origens populares se tornou emblema nacional redesenhado e imposto pelo regime, as andorinhas alcançaram o estatuto de ícones adoptados e amados pelo povo. Quiséramos nós ser andorinhas, aves negras de um país onde o negro é cor (como dizia uma publicidade antiga do vinho do Porto em França), asas valentes, viajantes, saudosas, trabalhadoras, alegres, belas, doidas e livres. Como escreveu Alexandre O"Neill: "Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria!"

É ESTE O MEU SEGREDO

É este o meu segredo –

fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.

 

Sem mover os dedos,

sem abrir os lábios,

irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se

apaga,

à beira de um rio negro,

quando o coração pára.

Serei apenas um homem sem nome,

caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade

que devora a sua luz.

 

Não quero ser mais nada.

Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro

me perdi.


José Agostinho Baptista

quinta-feira, 19 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO

Só morremos de nós mesmos.

Herberto Helder

O Q'É QUE VAI NO PIOLHO?


O realizador francês François Ozon, depois de Luchino Visconti em 1967, adapta O Estrangeiro de Albert Camus.

Numa entrevista ao suplemento Ípsilon do Público, publicada em 13 de Março, François Ozon diz:

«Em França ainda temos medo de O Estrangeiro. O passado argelino ainda é uma coisa complicada».

O filme de Visconti nunca me convenceu que teve problemas  e Visconti teve de viver com vários problemas, um deles a presença da viúva de Camus que tudo vigiava para que o texto fosse respeitado com todas as suas vírgulas.

Terei que ir ver o filme de Ozon, partindo sempre do principio que se há romances que não podem dar filmes, o romance de Camus, é um deles.

Pretexto para voltar a pegar na minha velhinha edição da Colecção Miniatura nº 48, tradução de António Quadros, capa de Bernardo Marques.

Um dos mais memoráveis começos de livros:

«Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.»

E também um grande final:

«Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.

O livrinho está largamente sublinhado.

 «A mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz».

A partir do dia em que entra na prisão, Meursault  conclui: « a minha casa era a minha cela, e que a vida parava aí. No dia em que prenderam, fecharam-me primeiro num quarto onde havia muitos detidos, a maioria deles Árabes. Ao verem-me, começaram a rir. Depois perguntaram-me o que é que eu tinha feito. Disse que tinha morto um Árabe e eles calaram-se todos.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

A Biblioteca da Casa tem uma participação a partir de uma série de livros que o meu avô levou para casa do meu pai onde, a partir do divórcio, passou a viver e que se juntaram aos que o meu pai já possuía.

A Biblioteca continua aqui e este deverá ser o livro mais antigo (1891) que possui e era um dos tais livros do avô Mário.

Na contracapa ressalta a designação que o livro pertence à «Biblitheca Economica Para Ricos e Pobres, o mais extraordinário succeso em Editora!!!»

O custo de cada volume era de 100 réis e enviado para a província custava 120 réis.

OLHAR AS CAPAS


 Fromont Junior e Risler Senior

Alphonse Daudet

Tradução Pedro dos Reys

Bibliotheca Economica nº 1

Companhia Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981

- Madame Chèbe!

- Senhor noivo…

-Estou contente…

Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir subitamente em lagrimas.

Fromont Junior e Risler Senior

Alphonse Daudet

Tradução Pedro dos Reys

Companhia Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981

- Madame Chèbe!

- Senhor noivo…

-Estou contente…

Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir subitamente em lagrimas.

À LUPA

«Milhões de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que com a morte de uma centena de crianças no bombardeamento de uma escola.»

Rui Tavares Guedes na Visão

VENTO GARRÔA


(Parque Eduardo VII, 1954)


Ouve-me tu, desta vez.

Nem cercos precários,

desvios que nunca se encontram

ou compromissos com o absoluto:

não quero mais coincidir

com o tempo,

agora que deixei de coincidir

com a minha língua.

 

Quero um amor que tenha

a lealdade de um cancro,

que alastre apenas dentro de mim

e me escolha os ossos

com dedos ligeiros mas demorados

de nódoa negra.

 

Diz-me o sentido

e seguir-te-ei,

de palavras levantadas contra o frio,

até chegar o som da espinha

quebrada como um livro

que se cansou de ser aberto.

 

Inês Dias em Resumo: a poesia em 2012

quarta-feira, 18 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O cemitério é vasto e entre nós a diferença é apenas: nós podemos imaginar ainda que a vida nos espera.

Egito Gonçalves

À LUPA

Ao que parece Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, entendeu que a presença de Mário Centeno como funcionário Banco, não ajudava no seu trabalho, seria uma sombra a baralhar-lhe os números...

Tentou-se a colocação de Centeno como vice-presidente do Banco europeu, mas a coisa correu mal.

Restava a Santos Pereira a saída de Centeno do Banco de Portugal com uma oferta tentadora: através do regime de aposentação ao abrigo do fundo de pensões existente no banco central, após um acordo entre as duas partes, passa a auferir uma reforma de cerca de 10 mil euros brutos mensais.

Álvaro Santos Pereira terá agora de ir ao Parlamento explicar a negociata!

«O meu futuro está em aberto» disse Mário Centeno ao Diário de Notícias...

PARECE-ME QUE TE CONHECI SEMPRE

É preciso merecer as viagens, tê-las desejado anos. Também é (mais) a juventude que formas as viagens. Porque as verdadeiras viagens não formam a juventude: surgem delas. Penetrei em muitos países, mas aos países que penetraram em mim (são menos) senti sempre o desejo de lhe dizer aquela frase estúpida e verdadeira que se diz às mulheres amadas: «Parece-me que te conheci sempre.»

Claude Roy

OLHAR AS CAPAS

Cuspir para o Ar

Jorge Diaz e Francisco Uriz

Apresentação de Luiz Francisco Rebello

Tradução: Maria do Céu Guerra

Versos, tradução livre de Gonçalves Preto

Capa: Miguel Flávio

Colecção Para um Teatro Actual nº 14

Prelo Editora, Lisboa 1975

No dia 4 de Setembro de 1970 houve no Chile eleições presidenciais nas quais o candidato da esquerda obteve a mais alta votação. Isto significou a nacionalização e posterior expropriação de todas as empresas norte americanas que havia no Chile.

 

TUDO

Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos

Wislawa Szymborka em Instante

terça-feira, 17 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O contrário da vida não é a morte, o contrário da vida é o esquecimento. E o contrário da morte é o encantamento.

Edgar Duvivier

VELHOS RECORTES


D. António Ribeiro 15º Cardeal Patriarca de Lisboa.

Recorte do Diário de Lisboa, 22 de Outubro de 1981.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Quando por nós descobrimos algo que nos agrada e acompanha pela vida, isso tem outro valor, um valor superlativo.

Jorge Luís Borges dizia que a existir um paraíso, teria a forma de uma biblioteca.

No seu Último Caderno Saramago deixou escrito:

«Continuarei a dizer que a literatura não muda o mundo, mas cada vez maisb vou tendo razões para acreditar que a vida de uma pessoa pode ser transformada por um simples livro».

Como é que Saramago descobriu as palavras?

Em livros, em entrevistas deixou expresso como aconteceu essa descoberta.

Na longa conversa que manteve com a Juan Arias, disse:

«Não tive um livro meu até os dezoito anos e, mesmo assim, os livros que tive, os que comprei, comprei com o dinheiro que um colega mais velho que eu me emprestou. Creio que foram uns trezentos escudos, o que equivaleria a um euro e cinquenta centavos. Com isso pude comprar alguns livros.(1) Antes, eu já havia lido muitíssimo nas bibliotecas públicas, lia de noite. Depois de jantar ia andando, apesar de ficar longe de casa, até a Biblioteca do Palácio Galveias, e até a hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era muito ou pouco para mim. Lia tudo o que me parecia interessante. Os nossos autores eu conhecia pelas aulas, mas tudo o que tinha a ver com autores de outros países, nada, não tinha a menor ideia, mas depois você vai se dando conta de que existe um senhor que se chama Balzac e outro Cervantes, et cetera. Pouco a pouco ia entrando por esse bosque e encontrava frutos que depois fui assimilando, cada um à sua maneira». 

Não chegou à Universidade, mas as respostas encontrou-as nos livros em que tinha  começado a estudar, e quando trabalhava, como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis, utilizou o período nocturno da Biblioteca de Galveias para uma procura de respostas às perguntas que. no dia-a-dia lhe ocorriam.

Como deixou escrito em A Caverna:

«Felizmente, existem os livros. Podemos esquecê-los numa prateleira ou num baú, deixá-los ao pó e às traças, abandoná-los na escuridão das caves, podemos não lhes pôr os olhos em cima nem tocar-lhes durante anos e anos, mas eles não se importam, esperam tranquilamente, fechados sobre si mesmos para que nada do que têm dentro se perca, o momento que sempre chega, aquele dia em que nos perguntamos, Onde estará aquele livro? Que ensinava a cozer os barros, e o livro finalmente convocado, aparece, está aqui nas mãos de marta enquanto o pai e o livro, finalmente convocado, aparece.»

NOTÍCIAS DO CIRCO

1.

«Um esquema criminoso para gerir vários refeitórios hospitalares lesou o Estado em mais de 1,2 milhões de euros. Entre os 13 acusados pelo Ministério Público no processo 'Pratos Limpos' está, de acordo com a CNN Portugal, Carlos Galamba de Oliveira, atual vice-presidente da Administração Central do Sistema de Saúde, precisamente a entidade pública responsável por gerir os recursos do hospitais do SNS e de supervisionar as despesas destas unidades. Carlos Galamba de Oliveira foi nomeado pela ministra Ana Paula Martins há dois anos, quando já estava sob investigação da Polícia Judiciária, e desde maio de 2025 que está acusado de um crime de abuso de poder no âmbito deste processo.»

2.

«A Polícia Judiciária do Porto deteve quatro pessoas, esta terça-feira, na sequência de uma das maiores operações de sempre visando pelo menos 10 câmaras municipais. Estão a decorrer buscas em várias autarquias e sabe o CM que a autarquia de Lisboa está entre os alvos da PJ, assim como as câmaras de Tavira, Lamego e Maia. Investigam-se crimes de corrupção ativa e passiva, participação económica em negócio, abuso de poder e associação criminosa, relacionados com o fornecimento e instalação de iluminações de Natal.

Notícias tiradas do Correio da Manhã»

À LUPA

A reforma laboral que a Ministra do Trabalho engendrou para o patronato, voltou a ter mais uma reunião.

“Foi um dia bom”, declarou Armindo Monteiro, líder da Confederação Empresarial de Portugal, aos jornalistas.

A Lupa detecta que, quando os patrões estão felizes!..., se fica a saber, se dúvidas existissem, do modo como a reforma laboral ficará…

OLHAR AS CAPAS


LeVine em Hollywood

Andrew Bergman

Tradução: Manuel Granjeio Crespo

Capa: João B.

Série Negra mº 03

A Regra do Jogo, Edições, Lisboa, Outubro de 1970

Os anos a seguir à guerra foram bestiais para os detectives particulares, Nunca od houve melhores, nem antes nem depois. Ninguém acreditaria quantos soldados contactaram olhos vivos para descobrir no mais confidencial dos segredos o que é que as suas mulherzinhas teriam andado a fazer para se entreterem durante a guerra. DE manhã à noite os bares de Nova Iorque estavam apinhados de soldados cheios de importância contando a interlocutores simpatizantes como as miúdas francesas os tinham afrancesado, as miúdas alemães os tinham blitizado e as miúdas inglesas lhes tinham palmado os pacotes de chá. Depois, quando saíam, iam a correr para telefonar para gajos como eu, subitamente receosos de que as esposas e as noivas tivessem como eles aproveitado a guerra para explorar um pouco da cor local.  

RETRATOS


Quando o antigo dono do British Bar passou a casa aos empregados, levou o relógio que mostrava as horas ao contrário.

As tentativas do Silva para ficar com o relógio, não resultaram.

Mas não descansou enquanto não pediu a um marinheiro dinamarquês que lhe trouxesse um relógio, que há-de aparecer em A Cidade Branca do Alain Tanner.

A actriz Teresa Madruga, é o escritor Eduardo Lourenço que recorda, diz ao actor Bruno Ganz “que andar ao contrário é uma forma como outras de medir o tempo”.

E não é? O relógio do British Bar enganou-nos outra vez. E, como sempre, é ele que está certo. 

NAS TRASEITAS DA CIDADE OCUPADA

                           para a Raquel (depois de O Silêncio de Ingmar  Bergman)                       

 

Quando a vimos pela primeira vez

pensámos que já tinha morrido

—a nossa irmã— não prevenindo

que seríamos o que ela fazia.

Nas traseiras da cidade ocupada

batendo à máquina num quarto

cujas janelas todas vedam

uma língua alheia

à que nos habita

a beleza existe

como nunca na desfiguração

moral, no desmaio

da esperança aleijada, excessiva.

 

É-nos a língua estrangeira cifra

e surto de esquisito consolo.

A crueldade existe

e não fomos nós quem a inventou.

A luxúria existe

e não foi por termos nascido

foi haver fome, incontidos vícios

blindados lábios, cândido calor

embaciado, calar que nada

ouve, é a nossa irmã

que entra no bar de casaco fino

e nós que não prevenimos

o bruto penetrar de corpos

os furos de chumbos repentinos.

 

Quando a vimos passar o vestíbulo

a entrar para o banho, a descer

o vestido, a exibir ao espelho

as nádegas de escultura

soubemos a partir daí

que a nossa mãe era diferente.

O conflito torce-nos

entre fofas almofadas

uma brancura insuspeita

uma aguda tortura.

Saímos para as traseiras

do quarto, na cidade

ocupada, arma de brincar

na mão, divertindo o dilúvio

no olhar, achando

o bom velho senil

e a caridade existe

mas é assim.

Nós os anões aos pinotes

procuramos o ar

 

Enquanto o abandono

com pernas esguias e claras

ao apito da locomotiva

marcha nas traseiras

a cidade despe-se

de membros válidos.

Nas traseiras da cidade

no interior das couraças

nos contentores do degredo

vive-se a guerra, travam-se

as mulheres

com suas soluções

de rancor e abrigo.

A infância trilha a solidão

com os passos precisos

 

Margarida Vale de Gato

segunda-feira, 16 de março de 2026

CONHECER MELHOR...

Uma verdadeira personagem de romance é aquela de quem o leitor sabe ou julga saber tudo o que fez e o que vai fazer, o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Conhecemos melhor Madame Bovary, Ana Karénine ou Rastignac que a nossa mulher, a nossa filha ou o nosso irmão.

Roger Vailland

NÓS NÃO SOMOS DESTE MUNDO

Para a solidão nascemos. Outras vozes
nos chamam e invocam, outros corpos
se perfilam radiosos contra a noite.
Nós não somos daqui. Num intervalo
de campanhas esquecidas nos dizemos,
abrindo o coração aos de passagem.
Mas quando a manhã chega nós partimos,
mais livre o coração, longa a viagem.


Luís Filipe Castro Mendes

domingo, 15 de março de 2026

TRUMPALHADAS

Fotografia de Benoit Terrier da Reuters, publicada no Público,:navios ancorados no estreito de Ormuz vistos a partir de Muscat, em Omã, a arma dos iranianos com que o presidente louco, apoiado por loucos, eleito por outros loucos, parece não ter contado.

1.
«A questão que se coloca com cada vez mais pertinência é simples: os Estados Unidos avaliaram todas as consequências da guerra contra o Irão antes de lançarem o ataque conjunto com Israel que entra hoje no seu 16.º dia? Provavelmente, esperavam uma rendição ou destruição do regime mais rápida. Provavelmente, não avaliaram a capacidade de resistência do regime, preparada, não ontem, mas há muito tempo. Provavelmente, a pressão de Israel foi decisiva. Já ouvimos Donald Trump dar as mais variadas explicações sobre os objectivos da guerra e a sua oportunidade. Todos os dias, promete bombardeamentos ainda mais fortes para o dia seguinte. O Irão resiste. Continuamos sem ter uma perspectiva sobre a duração desta guerra. Mas há uma coisa que já sabemos — as suas consequências para a economia global serão enormes. Porque os países do Golfo fornecem mais de 20% da energia consumida no mundo. Porque a produção desses países está a ser alvo de drones e mísseis iranianos. Porque o Estreito de Ormuz, por onde passam os navios que abastecem o mundo inteiro de petróleo e gás, está bloqueado. Praticamente nenhum navio o atravessa neste momento. As imagens de satélite são impressionantes.»

Teresa de Sousa no Público

2.

«Quase duas semanas depois do início da guerra da aliança EUA/Israel ao Irão, o que sobra? Os factos são claríssimos. O regime iraniano não caiu e o povo, por um misto de medo e orgulho nacional, não se revoltou. Os dois maiores exércitos e secretas do Mundo não conseguiram, sequer, manter a navegabilidade do estreito de Ormuz.

O choque petrolífero, por causa disso, está a capturar o Mundo inteiro, incluindo a América, numa armadilha económica que ameaça arrastar o cenário de crise por demasiado tempo. A subida do custo de vida, dos juros, da energia, agita a sombra tenebrosa da estagflação, essa velha mistura entre inflação e ausência de crescimento económico. Nos EUA, o galão de gasolina já bate nos 4 dólares e Trump arrisca-se a ficar enredado na sua própria política.

São também muito claras as contradições políticas e militares entre os dois aliados. Os EUA a tentarem, de forma incipiente, construir uma narrativa de saída do vespeiro iraniano, e Israel a assumir que ainda vai demorar uns tempos a bombardear o Líbano e o Irão. A União Europeia reage a várias vozes, em torno da ideia de medidas preventivas de defesa, mas, no essencial, avulta a ausência de liderança em Bruxelas. Com os caminhos que tudo isto leva, quem precisa de inimigos, se tem aliados como Trump e Netanyahu?!»

Eduardo Dâmaso no Corrreio da Manha

3.

«Ele acrescentou que os jactos norte-americanos sobre o Irão estão “a controlar os céus, a atingir alvos” e a trazer “morte e destruição do céu, durante todo o dia”.

Pete Hegseth, chefe do Pentágono (palavras citadas em vários jornais, no dia 3 de Março)
Não se espera que a linguagem da guerra seja macia e benevolente. Mas devemos notar que em relação às guerras anteriores a que assistimos, desde a guerra dos Balcãs, nunca este tipo de linguagem tinha sido utilizada. “Viva la muerte” é um grito que vem da Guerra Civil de Espanha e que permaneceu silenciado durante bastante tempo. Ressurgiu agora de uma maneira ainda mais cruel, sob a forma não de uma palavra de ordem, mas de um regozijo indisfarçável. Não falo do lugar de um pacifista; falo do lugar em que me sinto arrepiado por esta linguagem, sabendo que ela é performativa: traz a morte ao ser proferida e dissemina-a por toda a terra, e não apenas pelo território onde caem as bombas».

António Guerreiro no Público

4

«A frase sobre o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão não foi dita por um crítico do Presidente norte-americano. Foi proferida nesta semana por um dos maiores podcasters do mundo, Joe Rogan, um reconhecido apoiante de Donald Trump.

Não é fácil, a quem quer se seja, encontrar uma racionalidade nesta guerra, até porque para Trump ela já foi um pouco de tudo. Num dia, o que está em causa é a mudança de regime, no outro dia só quer destruir a capacidade militar do Irão. Num dia, nunca haverá tropas no terreno, no outro dia já é possível que isso aconteça. Hoje, Trump quer ter uma palavra na escolha do novo líder iraniano, amanhã quer que todas as lideranças pereçam. Num dia, está aberto a negociações, no dia seguinte pede “uma rendição incondicional”.»


Isabel França

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM

 

Os dramas pós-tempestades que varreram o país, vão-se conhecendo, multiplicam-se e não têm fim à vista.

É que se pode ler na reportagem de Cristiana Faria Moreira no Público de hoje.