segunda-feira, 6 de julho de 2026

TRUMPALHADAS


 O “poder” de Donald Trump chega ao futebol, que ele, como tantas outras coisas, nem sabe o que é, e pediu ao amigo Infantino, presidente da Fifa,  a anulação do castigo ao jogador norte-americano.

Para que conste:

1.

«O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez uma ligação telefônica a Gianni Infantino, presidente da Fifa, para pedir a revogação da suspensão de Folarin Balogun, atacante dos EUA. A informação é do jornal americano The New York Times. O Comitê Disciplinar da Fifa decidiu suspender o cartão vermelho que o jogador recebeu na vitória sobre a Bósnia, que o tiraria automaticamente da partida contra a Bélgica.»

2.

A União Europeia e a Uefa (União das Associações Europeias de Futebol) criticaram a Fifa nesta segunda-feira por revogar o cartão vermelho dado ao jogador dos Estados Unidos Folarin Balogun durante a última partida da seleção norte-americana na Copa do Mundo.

O comissário europeu para assuntos do desporto, Glenn Micallef, afirmou que as decisões sobre o desporto "pertencem às entidades desportivas, não aos políticos".

3.

Donald Trump, confirmou esta segunda-feira ter pedido ao líder da FIFA, Gianni Infantino, a reavaliação do cartão vermelho mostrado ao avançado norte-americano Folarin Balogun, para que possa alinhar no encontro frente à Bélgica.

“Pedi uma reavaliação porque não achei que tivesse sido falta”, declarou Trump durante um evento na Casa Branca. O Presidente dos Estados Unidos considerou ainda que as regras relativas ao cartão vermelho são injustas e classificou como “muito duvidosa” a atuação do árbitro do jogo entre os Estados Unidos e a Bósnia-Herzegovina.

REOLHARES

O sonho meu, como o de tanta gente, era que um teatro tivesse tanta gente como um Benfica-Sporting, e nem era preciso tanta. Mas estas coisas acontecem porque desde putos jogamos, à bola rua, - ainda se joga à bola nas ruas? – e criámos esse gosto.

Joaquim Benite é um homem de teatro.

Conheci-o ainda ele era um jovem repórter de “O Século”.

Como morava num quarto, perto da casa dos meus pais, amiúde, acontecia apanharmos o último eléctrico para a Graça. Descíamos ao fundo da Heliodoro Salgado, subíamos a rua e entre tantas outras conversas, o teatro entrava sempre. Terá sido das primeiras pessoas a quem ouvi dizer que o teatro existia para ser representado e que entre ler uma peça e vê-la nas tábuas de um palco, há como aquela diferença entre beber um café e beber um nescafé porque o teatro tem que ter aquela vivacidade que só o actor e um palco emprestam ao texto.

Fiquei feliz quando lançou e alicerçou o “Grupo de Teatro de Campolide” ali, entre o Restaurante “Valenciana” e a “Pastelaria A Pastorinha” ícones do bairro de Campolide.

Mais velho que o mundo: quem gosta verdadeiramente do que faz , tarde ou cedo alcança o sonho.

O sonho hoje chama-se “Companhia do Teatro de Almada”.

De 4 a 18 de Julho realiza-se o 28º Festival de Almada, que se encontra entre os melhores festivais que se realizam pelo mundo.

Mais informações aqui

“Não sei se Joaquim Benite foi um jornalista que se transformou em encenador, ou se foi um homem de teatro que andou escondido, demasiado tempo, no lado quase invisível das notícias que escreveu para os jornais e revistas onde trabalhou.

Mas isso não é o mais importante, pelo menos se pensarmos que Almada conhece muito melhor o homem do teatro - cujo contributo artístico, como encenador e director da Companhia de Teatro de Almada, tem sido fundamental para o desenvolvimento da Arte de Talma na nossa cidade -, que o homem dos jornais.”

Luís Eme em O Casario do Ginjal” 


Lembrança de um texto publicado em O Cais do Olhar de 7 de Julho de 2011.

NOTÍCIAS DO CIRCO

É de capital importância estarmos em guarda contra as mentiras sobre imigrantes, propaladas pelas gentes Daquela Coisa.

Lido no Público, artigo de Natália Faria:

«O número de imigrantes com contribuições para a Segurança Social continua a diminuir: em Abril de 2026, havia 871.057 estrangeiros inscritos, o que traduz um recuo de 0,5% (menos 4288 pessoas) face ao mês anterior, segundo os dados mais recentes da Segurança Social. Mas, apesar desta diminuição, o valor das respectivas contribuições atingiu os 365,4 milhões de euros, o que traduz um crescimento de 10,7% (mais 35,2 milhões) face ao mês homólogo do ano anterior.
Esta discrepância pode ser explicada, segundo a investigadora e ex-directora do Observatório das Migrações, Catarina Rei Oliveira, pelo reforço do trabalho sazonal, nomeadamente na área da hotelaria, por altura do pico de turismo na Páscoa, por um lado, e na da construção civil, mais concretamente por causa "da procura da mão-de-obra para apoiar a reconstrução das casas ou a recuperação da área das florestas" no pós-Kristin.»

SABES...

Sabes, 

agora, sempre que te encontro, 

sinto que o tempo está contra nós.

Olhas vezes demais para o relógio, que não usas.

Fico sempre com a sensação que digo demasiadas coisas, 

sem te dar tempo para contrapores,

para me falares de ti.

 

Esqueço-me que sou um tolo,

que te visita no horário de trabalho. 

Esqueço-me de que és uma excelente profissional.

E não menos importante,

esqueço-me de que não és minha...

 

E sim, o cabelo mais curto, 

fica-te bem e oferece-te outra leveza

para suportares este calor das arábias...


Luís Eme no Largo da Memória

domingo, 5 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Toda a história do mundo não é mais que um livro de imagens reflectindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: o desejo de esquecer.

Herman Hesse

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA


Todos os anos, em Almada, acontece o Festival de Teatro.

Começou ontem e prosseguirá até 18 de Julho.

Ao todo serão 19 espectáculos, 12 estrangeiros, sete portugueses.

A programação pode ser consultada aqui.

Legenda: fotografia de Rui Ornelas.

MÚSICA PELA MANHÃ


Iremos ter um outro dia de calor infernal.

Lembremos Julia Roberts e morangos

 Dizem que os morangos são a fruta símbolo de Vénus, a deusa do amor.

Iremos ter um outro dia de calor infernal.

Dizem também que o champanhe é o leite dos adultos, o néctar dos deuses.

Conta a lenda que Dom Perignon, depois de ter inventado o champanhe, chamou um outro monge e foi-lhe dizendo: Venha depressa provar! Estou a beber estrelas!

Uma cena inesquecível de Pretty Woman?

Quando Richard Gere oferece morangos à Julia Roberts.

 Ela olha interrogativa, e ele responde que os morangos realçam o sabor do champanhe.

Na questão deste pormenor há cepticos.

Quem realmente admita que os morangos realçam o sabor do champanhe, mas que não parece ser a melhor qualidade deste mundo possuir opiniões sólidas e infalíveis porque, se verdade existe na teoria, uma outra conduz-nos a que para que isso, de vero, aconteça, fica sempre a faltar a Julia Roberts…

David Gilmour, em O Clube de Cinema, diz ao filho:

Perguntei certa vez ao David Cronemberg se tinha alguns «prazeres inconfessáveis» em relação ao cinema – filmes que sabia não prestarem mas que adorava na mesma. Abri caminho à sua resposta admitindo ter um fraquinho por Um Sonho de Mulher (1990) com Julia Roberts. O filme não tem um único momento verosímil, mas é uma narrativa surpreendentemente eficaz, uma sucessão de cenas agradáveis que nos prendem até ao fim, depois de ficarmos agarrados àquela história tão idiota.

- Os canais de televisão cristãos – respondeu o Cronemberg sem hesitar.

Alago o fascinava naqueles evangelistas do Sul de cara inchada, a agarrar uma multidão.


Legenda: a cena do filme onde se fala dos morangos e do champanhe, não é bem a que podem ver, mas foi o mais perto que consegui encontrar…

  



sábado, 4 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Um amigo é um presente que damos a nós próprios.

Robert Louis Stevenson

Colaboração de Aida Santos

QUOTIDIANOS

De novo um apagão!

CONVERSANDO

Um dos meus primeiros patrões, um dia, disse-me:

 - Oh Aida, deixe-se de romantismos. Só há duas vidas: uma é boa a outra não presta.

Colaboração de Aida Santos

MÚSICA PELA MANHÃ


O nosso cancioneiro tem canções que percorrem os tempos, a Canção do Mar é uma delas.

Composta em 1955 com letra de Frederico Valério e música de Ferrer Trindade, conheceu diversas versões, não só em Portugal como no estrangeiro.

Amália Rodrigues cantou-a, com o título Solidão, no filme Os Amantes do Tejo.

Gravada por Dulce Pontes em 1993 para o seu álbum Lágrimas, teve a exigência do actor Richard Gere para que fosse colocada na banda sonora do Filme A Raiz do Medo.








sexta-feira, 3 de julho de 2026

À LUPA


Luís Montenegro deixou o trabalho a marinar em Lisboa para ir, até Toronto, ver a selecção.

«É disto que o meu povo gosta!»

LÍDIA JORGE É PRÉMIO CAMÕES


 Lídia Jorge é a vencedora da 38.ª edição do Prémio Camões, a mais importante distinção literária da língua portuguesa, com um valor pecuniário de 100 mil euros. A decisão foi tomada por unanimidade.

Aos 80 anos, Lídia Jorge é a décima mulher a receber o Prémio Camões.

Colaboração de Aida Santos

QUEM VIVE PARA O AMOR ESTÁ LIXADO

Quem vive para o amor está lixado

não tarda, que o amor é um amplo espaço

vazio sem cor nem forma e um silêncio

tumular por perto. Mau, muito mau

para se levar alguém. Mas tu vieste

e de imediato tudo fôra já decidido

como quando alguém nasce e olha em torno

— pouco importa se estranha ou não a paisagem.

Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos

a nós, um ao outro por natural companhia

era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer

disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Rui Caeiro

quinta-feira, 2 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Nunca o caminho percorrido é o mais acertado logo que reavemos a nossa capacidade de auto-critica e nos imaginamos pelo outro que não percorremos. O percurso que não fizemos é sempre melhor, e o melhor que teríamos feito, só porque se pensa que se se pensasse não se faria. Nós sabemos: somos um erro - mas a consciência disso isola-nos do erro alheio.

António Maria Lisboa

MARCADORES DE LIVROS



Colaboração de Aida Santos

LUTAS CITADINAS



Recorte do jornal de A Voz do Operário

SIMPLES GOTA

Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 1 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Não há dias cinzentos para quem sonha colorido.

De um azulejo em casa de amigos

Colaboração de Aida Santos      

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Vejam, revejam os filmes de François Truffaut no Nimas

Começam a amanhã e prolongam-se até ao dia 15 de Julho.

São péssimas as condições da sala do Nimas em Lisboa: alcatifa aos bocados espalhadas por aqui e por ali, alguma das cadeiras quando nos sentamos, rangem, parece que se vão partir, mas eu gosto de cinema e gosto de François Truffaut.


“Todos os filmes de Truffaut contêm um ou mais momentos (diferentes de acordo com a sensibilidade do espectador), que nos deixam uma recordação precisa, marcante e indelével, mesmo passados 20 ou 25 anos.”

Luc Moullet


 
A vida era o cinema
 
François Truffaut (1932-1984) marcou, como cineasta e como crítico, o cinema moderno. Fez parte do núcleo central da Nouvelle Vague, com Godard, Chabrol, Rivette e Rhomer, uma geração cinéfila, que começou pela crítica e pelo cineclubismo (Truffaut, ainda menor, fundou um cineclube, com o sugestivo nome de “Cercle Cinémane / Círculo Cinemaníaco”) e passou à realização sem frequentar a escola de cinema.
No início dos anos 80, com o grande sucesso de O Último Metro, chegou a ser considerado um “cineasta popular”, como o foram também, aliás, muitos dos realizadores que ele mais amava: Chaplin, Renoir, Hitchcock ou Lubitsch. Mas, e apesar da sua importância fundamental e de ter sido também ele um dos cineastas mais amados do seu tempo, os seus filmes, com raras excepções, têm sido, desde a que a Cinemateca os mostrou há vinte anos, menos vistos nas salas de cinema, eventualmente por razões de direitos. Finalmente restaurados, vamos poder vê-los de novo agora – e para uma nova geração de espectadores esta será uma oportunidade única – numa retrospectiva praticamente completa (só Fahrenheit 451 e A Noite Americana ficam, por enquanto, de fora).


Como epígrafe ao seu livro Os Filmes da Minha Vida, Truffaut escolheu uma afirmação de Orson Welles: “Creio que qualquer obra será boa na medida em que exprima o homem que a criou.” Os filmes de Truffaut, para quem a vida era o cinema, e por amor dele se perdeu e por amor dele se salvou, exprimem as suas complexidades e contradições, os seus entusiasmos e os seus medos. Num número temático que lhe dedicaram recentemente os Cahiers (onde foi crítico, apadrinhado por André Bazin, seu tutor e que exerceu junto dele – que crescera numa família complicada e fora um jovem marginal como alguns dos protagonistas das suas obras – o papel de figura paterna positiva), sublinha-se que “os seus filmes continuam a tocar-nos e a estimular-nos, ainda hoje, quase quarenta anos depois do seu desaparecimento precoce. […] Imperfeita, múltipla, lúdica e por vezes trágica, a sua obra não tem nada de um monumento. Pelo contrário, quando revemos os seus filmes, ficamos impressionados pela sua impureza, a sua invenção e o seu lado paradoxal. É uma obra viva, […] única na sua multiplicidade, cuja interpretação, aliás, tem variado ao longo das épocas.”


 Como sabemos, a história de qualquer arte, está constantemente a ser reescrita. E se a seguir à sua morte, depois de alguns dos sucessos de bilheteira, os Cahiers e outros vieram por sua vez reabilitar alguns dos filmes mais secretos, passionais, atravessados por correntes subterrâneas, hoje, quatro décadas volvidas, começa a redesenhar-se, pouco a pouco, um Truffaut mais solar, o dos filmes Disparem sobre o Pianista, Beijos Roubados ou Na Idade da Inocência. É tempo de redescobrir a sua obra e de lhe trazer novas interpretações.
 
Truffaut e os actores
 
“No cinema de François Truffaut, as actrizes e os actores ocupam um lugar absolutamente central. Eles são tanto a carne como o centro nervoso dos seus filmes. Desde a sua primeira longa-metragem, Os Quatrocentos Golpes, impõe um novo corpo, o de Jean-Pierre Léaud, que vai, ao longo do tempo, tornar-se o seu duplo. Juntos, inventarão uma nova forma de representar que navega entre o natural e a estilização. De filme em filme, Truffaut trabalha com os maiores actores e as maiores actrizes do seu tempo, de Charles Aznavour a Fanny Ardant, passando por Jeanne Moreau, Françoise Dorléac, Marie-France Pisier, Michael Lonsdale, Charles Denner, Delphine Seyrig, Catherine Deneuve, , Claude Jade, Jean-Paul Belmondo, Bernadette Lafont, Isabelle Adjani, Nathalie Baye, Gérard Depardieu, Jean-Louis Trintignant, etc. Em cada ocasião, o seu desafio consiste em integrar esses actores e actrizes de personalidade forte no seu mundo, sem, no entanto, fazer com que percam a sua singularidade.”


Cahiers du Cinéma
 
“Muitas vezes, os actores vivem as suas emoções e deixam-se levar por elas. O François sabia até onde nos poderia deixar ir, para depois voltar a pegar-nos, e nos segurar. […] Por exemplo, o fim das cenas deveria ser pontuado de modo preciso. E dizia: ‘É preciso encher o écran, ter gestos mais amplos, não abortar os movimentos’.”


Catherine Deneuve
 
“Com ele, era uma linguagem de paixão. Todos os actores dos filmes de Truffaut têm o tom Truffaut, inimitável. Basta ver o Léaud, ou o Denner: ‘Sim, então fazemos assim, hem, estás a ver?’. Para chegar a este tom, bastava escutá-lo, olhar para ele. […] O que ele fez com o Jean-Pierre Léaud, é absolutamente deslumbrante. Os seus filmes são uma espécie de cursos intensivos para jovens actores.”


Gérard Depardieu

Ver Programação aqui.

 

SOBRE AS ÁRVORES ENCOLHIDAS

Sobre as árvores encolhidas que gastavam
a ternura de tudo; severo,
o céu desajeitado avolumou-se.
Na testa do silêncio ao pé dos montes
as pedras adoecem entre o sangue
derrota que se imprime por palavras
se imite diminuta nos alqueives.
Sob a capa da terra e no alcance
dos dedos de fora inesperados
a rotura simples dum soluço
ferindo o estrume em breves plantas novas.
Ao longe o grito do abraço em pé
com as vergonhas cobertas de papel
os prumos os cabos o pão um ovo
o vinho deitado, aqui ao pé do choro.

Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

terça-feira, 30 de junho de 2026

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


  CANÇÕES DE BRUCE SPRINGSTEEN
  NA ESPLANADA DA CINEMATECA
                                                     

«Não é no cinema que pensamos quando se evoca o nome de Bruce Frederick Joseph Springsteen, nascido a 23 de Setembro de 1949 na pequena cidade de Long Branch, no estado de Nova Jérsia, bem perto de Nova Iorque mas do lado “errado”, do lado industrial e operário. Como é evidente, porque foi na música que ele se exprimiu, e foi através da música, dos vinte e um álbuns de estúdio que editou desde 1973 e Greetings from Asbury Park, N.J., que Bruce Springsteen se tornou uma das grandes figuras da cultural popular norte-americana. Hoje, quando já é septuagenário, adquiriu mesmo um estatuto ao alcance de muito poucos, pontuado por uma capacidade de intervenção pública e política que o tornam uma presença relevante dentro da sociedade norte-americana muito para além do domínio estritamente musical. Ou seja, não deve haver ninguém que tenha estado vivo nos últimos 50 anos a precisar que lhe apresentem Bruce Springsteen.
E este ciclo não é para isso, nem é para fazer a história de Springsteen. É para evocar um facto muito simples e muito incontestável: se não é no cinema que se pensa logo quando se fala de Springsteen, isso não quer dizer que Springsteen não pense no cinema, e que o cinema não pense em Springsteen. A cultura popular norte-americana é um sistema de vasos comunicantes, e já o vimos bem a propósito de Bob Dylan, quando (ainda antes do Nobel), dedicámos um vasto ciclo ao tortuoso labirinto da relação de Dylan com o cinema e do cinema com Dylan. É um pouco o mesmo jogo que praticamos agora com Springsteen, um jogo um pouco menos perverso, porque Springsteen, de certo modo, é uma versão franca, quase transparente, de Dylan, e porque bem menos perversa foi a sua relação com o cinema, mas não menos rica.
Porque sabemos a importância que o cinema teve enquanto inspiração de Springsteen, sobretudo no caso clássico do seu disco Nebraska, que começou a tomar uma forma no seu espírito depois de um visionamento do BADLANDS de Terrence Malick (sendo que “Badlands” é, justamente, o título de uma canção desse disco). Ou, no final dos anos 1990, o seu disco The Ghost of Tom Joad, que está perto de ser um “remake” musical do filme que John Ford extraiu ao romance de John Steinbeck.
O ciclo traz as inspirações de Springsteen, mas também traz Springsteen como inspiração. Outro caso clássico: STREETS OF FIRE, de Walter Hill, que em princípio seria um musical construido sobre as canções de Springsteen mas que, depois de um desentendimento entre o artista e a produção, deixou de ser, e ficou só o título. Ou ainda a curiosa obsessão de Peter Bogdanovich, que pretendia que a banda sonora de MASK fosse essencialmente composta por canções de Springsteen e, quando não o conseguiu, se “vingou” disseminando por TEXASVILLE, poucos anos depois, uma quantidade enorme de canções dele.
Investigamos neste ciclo, portanto, o trânsito em dois sentidos da relação Springsteen/cinema e cinema/Springsteen. A que não faltam, também, os paralelismos e os parentescos, os filmes nascidos e criados nos ambientes de Springsteen, que com ele podiam partilhar a sensibilidade, sobretudo os filmes que mostram e falam de Nova Jérsia, do subúrbio, da vida dos operários, dos “blue collars” – como quando, em COPLAND, James Mangold teve a intuição de pôr Sylvester Stallone (o homem do ROCKY ou de PARADISE ALLEY) em escuta das canções de Bruce.
Será um bom mês de esplanada, cinema e música. E como é Verão, nem falta uma piscina, a piscina da PALOMBELLA ROSSA de Nanni Moretti, onde um jogo de pólo aquático era interrompido para se ouvir, em ritual litúrgico, “I’m On Fire”.»

Programação aqui.

PERGUNTAS AOS ECONOMISTAS AOS MORALISTAS...

É tão bom ler os clássicos como Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett


«Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.»

NOTÍCIAS DO CIRCO

 A afirmação de mais um papagaio-falante-descoberta-dos canais-de notícias.

Começou na SIC. Ou na TVI?

Não importa, é aquele mundo de inutilidades.

Chama-se Sebastião Bugalho e o Público faz o retrato de palrador do PSD:

«Ao lado do busto de Francisco Sá Carneiro, na entrada da sede nacional do PSD, Sebastião Bugalho começou nesta segunda-feira a sua nova tarefa de porta-voz do partido. Com as bandeiras de Portugal, da União Europeia e do PSD atrás de si, o vice-presidente social-democrata anunciou que o grupo parlamentar vai chamar antigos governantes do PS ao Parlamento para explicar o aumento “sem precedente” da população estrangeira em Portugal revelado pela actualização das estatísticas oficiais do país. Sem detalhar a lista de personalidades que os deputados vão querer ouvir, “é natural” que José Luís Carneiro seja um dos nomes a ser chamado.»

Mais um contra os trabalhadores migrantes!

Numa qualquer pausa do vazio cerebral, não lhes dá para entender que esses trabalhadores são mesmo necessários, para nunca esquecer que são pagos miseravelmente por empresários sem qualquer ponta de escrúpulos, e explorados pelas redes de angariação laboral clandestina.

OLHAR AS CAPAS


Cartas a António de Azevedo Castelo Branco

Prefácio e notas de Adolfo Casais Monteiro

Antero de Quental

Edições Signo, Lisboa, Abril de 1942

A tua carta veio-me encontrar prostado sobre o leito dos antigos abatimentos, tão desgostoso e desalentado como se fosse a primeira vez que descobrisse no mundo misérias e tristezas e, sobre tudo, o seu grande vazio moral. Como custam a arrancar as últimas penas das asas da loucura ideal! Sabes como sou apreensivo, quasi até à mania. O mais pequeno sopro de desgosto levanta-me no espírito e encastela-me na alma um mundo de nuvens, de preocupações, de dúvidas, que n~ºao é possível mais ver um palmo de céu…