terça-feira, 24 de março de 2026

NESTE DIA


Tempos da adolescência em que desatei a ler desalmadamente , e sem qualquer critério, os livros da Biblioteca da Casa: Eça, Camilo, Torga, outros.

Já o disse por aqui, Miguel de Torga não me trouxe o entusiasmo que outros autores me deram. Nunca o li com aquela paixão, aquele gosto, o que lhe quiserem chamar.

Foi um homem difícil, muitas vezes desagradável com os seus pares. Não autografava os seus livros, conta-se que terá recusado fazê-lo a Mário Soares, pois não abria excepções fosse a quem fosse, mas Mário Soares terá encontrado um livro em que Torga escrevera palavras a Maria Archer e confrontou-o com isso, mas Torga não se desmanchou e respondeu-lhe que as pernas de Maria Archer não se comparavam com as suas.  

José Saramago gostava de o ter conhecido melhor, Mário Cláudio escreveu que Torga foi «um solitário voluntário, um exilado no próprio país».

Morreu a 17 de Janeiro de 1995 com 87 anos.

Hoje, pego no último volume, que é 16º, do seu Diário.

Estamos no dia 9 de Dezembro de 1993 e Miguel Torga escreve:

«Coimbra, 9 de Dezembro de 1993 – E chega ao fim, com este volume, um livro que comecei a escrever um pouco estouvadamente há sessenta anos, e acabo agora com mais assento. Como é sabido ninguém conhece o dia de amanhã, e, pelo que me diz respeito, fui um mártir dessa incerteza. E iniciei o presente tomo quase seguro de que o não terminaria. O resultado está à vista: um estendal de dúvidas e gemidos. Mesmo assim, talvez valha a pena que se junte aos outros, como seu natural remate Mais do que páginas de meditação, são gritos de alma irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à exaustão. E se despede dos seus semelhantes sem azedume e sem ressentimentos, na paz de ter procurado vê-los e compreendê-los na exata medida. E que confia no juízo da posteridade, que certamente lhe vai revelar os muitos defeitos e ter em conta as poucas virtudes. De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.»

E já que por aqui estamos, registe-se, possivelmente, o seu último poema, escrito em 10 de Dezembro de 1993:

Requiem por Mim

«Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que dele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.»

SOPROU: NÃO TE APROXIMES

Soprou: não te aproximes

dos deuses

sem te acautelares. Ampara


o que não pode

senão amassar

o oculto pão da recusa.

 

E bebe, infinitamente

bebe

 

o estrondo repetido

de cada gota

 

caindo.

 

José Carlos Soares em Resumo: a poesia em 2013


segunda-feira, 23 de março de 2026

RETRATOS


A JOÃO BÈNARD DA COSTA, NA SUA MORTE

 

Perdeu-se o timbre de uma voz:

quando alguém desaparece, é isso que me ocorre,

mesmo que o registo dessa voz tenha ficado em filmes

ou entrevistas gravadas, há uma modulação precisa,

uma articulação a que até chamamos música

que se desprende para sempre do universo!

 

Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

À LUPA


«Quem terá sido o assessor que aconselhou António José Seguro a andar com cara de governante em tempo de catástrofe, sempre grave e rígido? Cavaco era assim e vejam como acabou. Em todo o caso, gostei de saber que o novo Presidente serviu um vinho pouco conhecido no jantar oficial da tomada de posse. Chama-se Serra P e é produzido pelo próprio Presidente. É um luxo termos um vitivinicultor em Belém.

O vinho de Seguro, os lobos de Hollywood e a bulha no Chega
De certeza que o vinho foi oferta da casa, para poupar no orçamento da Presidência e mostrar que o país não vive só de Barca Velha ou Pêra-Manca. Há mais país e vinho no jardim. Imagino o que estarão a pensar alguns leitores: “Lindo começo, ao primeiro jantar oficial serve logo o seu vinho e não o esconde de ninguém. Já parece o Trump.” Mas não há razão para tanto. Seguro é assim, um rural honesto e simples, desses vitivinicultores que se orgulham das suas raízes e têm brio no que fazem. Quando recebem alguém em casa, não vão comprar frango assado ao Continente ou bacalhau com natas ao Pingo Doce. Cozinham algo especial e servem o seu melhor vinho. Por norma, perguntam: “É bom, não é?” Foi o que aconteceu, aposto. Além do mais, e para que não houvesse dúvidas, Seguro já tinha passado o negócio do vinho e do turismo para os filhos.»

Pedro Garcias no
Público

 

TRUMPALHADAS

Quando acabará a guerra que em 28 de Fevereiro Israel e os Estados Unidos iniciaram com o propósito de "eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano"?

Nem Netanyahu, nem Donald Trump informaram que iriam iniciar a guerra contra o Irão.

Donald Trump não sabe quando terminará a guerra, está entalado e pediu a ajuda, com ameaças à mistura para quem não o ajudar, para desbloquear o estreito de Ormuz.

Os principais aliados dos Estados Unidos reagiram com cautela ao pedido de ajuda de Donald Trump para garantir a segurança do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, evitando comprometer-se com uma missão militar sem objetivos ou limites claros que arrisca arrastá-los para uma guerra que não escolheram.

Mas…

A poucas horas de terminar o prazo do ultimato lançado a Teerão para a abertura do estreito de Ormuz, o Presidente dos Estados Unidos alegou que a sua Administração teve "conversas produtivas com o Irão", tendo decidido adiar por cinco dias os ataques contra infra-estruturas energéticas iranianas — período ao longo do qual considera ser possível chegar a acordo com Teerão.

Segundo o Presidente norte-americano, os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner (seu genro) estiveram no domingo reunidos com “um líder respeitado” do Irão, mas não o ayatollah Mojtaba Khamenei. As negociações, acrescentou Trump, devem continuar esta segunda-feira.

Trump admitiu aos jornalistas que não podia revelar o nome da pessoa com quem está a negociar. “Não quero que ele seja morto”, justificou, num aparente remoque aos israelitas, que eliminaram várias figuras de topo da hierarquia iraniana.

"Tivemos conversas muito, muito boas. Vamos ver onde elas nos levam. Temos pontos de acordo", disse Trump. "Estamos diante de uma possibilidade real de fechar um acordo".

O Irão rapidamente desmentiu o chefe de Estado norte-americano e garantiu que não estão em curso "comunicações directas ou indirectas" com Washington. Reiterou também que atacará as "centrais de energia do regime ocupante", bem como as infra-estruturas económicas, industriais e energéticas utilizadas pelos norte-americanos, caso as centrais de energia iranianas sejam atingidas.

1.

Segundo Pedro Adão e Silva no Público, em apenas 12 meses, Trump fez o que alguns dos autocratas mais proeminentes dos últimos 25 anos demoraram anos a conseguir.

2.

«Sem os EUA, a NATO é um tigre de papel», escreveu Donald Trump numa publicação na sua Truth Social. O Presidente norte-americano critica os aliados porque “não quiseram juntar-se à luta para travar um Irão com capacidade nuclear" nem se disponibilizaram para uma "simples manobra militar" para reabrir o estreito de Ormuz, “tão fácil para eles, com tão pouco risco”.

“Agora que essa luta está militarmente ganha, com muito pouco perigo para eles, queixam-se dos preços elevados do petróleo que são obrigados a pagar, mas não querem ajudar a abrir o estreito de Ormuz", lê-se ainda na mensagem. “Cobardes, e nós não nos vamos esquecer!”, termina Trump.

Copia-se um comentário de um leitor  (Zapata) do Público:

«Curioso... Trump pediu a vários países que o fossem ajudar a "desentupir" a navegação no Estreito de Ormuz. Só não pediu a Israel. Está mal. Foi Israel que nos meteu nesta embrulhada. E os iranianos têm um amor por israelitas que só visto. Quando o Xá fugiu para o estrangeiro, apareceram graffiti nas paredes a dizer "Não façam mal aos judeus. Mas se encontrarem israelitas podem matar." Alguns milhares de israelitas viviam que nem uns nababos no Irão (a aperfeiçoar, entre outras coisas, a SAVAK). A cena é contada num documentário israelita que passou no "Toda a Verdade" na 2a-feira, na SIC-Notícias.»

3.

«Não, o Irão não é a Venezuela, mas Trump poderá ter sido levado a achar que era pelo orgulho, pela vaidade e pela influência de Netanyahu, e mergulhou de cabeça numa guerra cuja extensão terá calculado mal. E aqui entra o fecho do estreito de Ormuz pelo Irão e as consequências generalizadas provocadas pelo aumento do preço do petróleo que ameaça uma nova crise global pela qual os EUA não passariam incólumes. Aparentemente, apenas a China e a Rússia poderão, em tese, beneficiar num cenário destes, o que torna este cenário ainda mais caricato.»

Do editorial de Pedro Candeias no Público

4.

Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irão", disse Joseph Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, na sua carta de demissão entregue ao presidente Donald Trump e publicada no X . "O Irão não representa uma ameaça iminente para a nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano".

Donald Trump, pelo contrário, congratulou-se com a sua saída: “Ainda bem que ele se foi embora. Ele disse que o Irão não era uma ameaça. Todos os países reconhecem que o Irão é uma ameaça.” Na mesma declaração aos jornalistas, na Sala Oval, o Presidente declarou que não conhecia “muito bem” Joe Kent e que lhe parecia “um tipo porreiro”.

OLHAR AS CAPAS


Margaret Bourke-White

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Sem a câmara não me sinto completa. Por isso não interessa o preço que tenho de pagar.

POEMA MESTIÇO

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer...

 

Mia Couto

domingo, 22 de março de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO

A anterior passagem de Carlos Moedas pela presidência da Câmara Municipal de Lisboa foi um desastre.

Contudo, nas últimas autárquicas, teve os votos suficientes para voltar a ganhar, de novo sem maioria, a Câmara.

De repente, qual passe de mágica, tratou de ter essa maioria, angariando uma vereadora que se tinha desvinculado «daquela coisa».

Neste momento, a presidência de Carlos Moedas está a entrar num caos, mas ele assobia para o lado.

Como chegámos a isto?

Somos obstinadamente atrasados, incultos e incapazes  há muito de nos governar.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Antes de chegarmos a outros lugares, as músicas que o rádio nos trazia eram portuguesas, francesas, espanholas, italianas, brasileiras.

Aos domingos, com música pela manhã, iremos bater as essas portas.

Hoje, passamos pelos brasileiros





sábado, 21 de março de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


José Gomes Ferreira é o único autor que tem 3 livros publicados na Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Em 20 de Março de 2025 apresentámos o Poema Autografado da Poesia I e hoje apresentamos o da Poesia II.

Chove…

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove…

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Fernandes Fafe escreveu:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Hoje, lá ninguém lê José Gomes Ferreira. Os que não o fazem, perdem algo que nem podem calcular.

Como leitor fiz descobertas sem mapa, sem bússola, lembro José Gomes Ferreira, José Saramago, mais o Saramago que o Zé Gomes.

Havia a biblioteca do meu pai, havia os suplementos literários, quase todos a publicarem-se à quinta-feira.

Líamos os críticos, colhíamos orientações que eram, ou não, seguidas, mas orientações.

Lembro Eduardo Prado Coelho que terá sido, por aqui, o último moicano da crítica literária. 

O Eduardo Prado Coelho era o Eduardo Prado Coelho, como em tempos recuados o João Gaspar Simões era o João Gaspar Simões.

Assim como uma espécie de instituições.

Quando morreram ficámos a saber da falta que nos ficaram a fazer, depois de, amiúde, termos andado a chamar-lhes todos os nomes e dando de barato que por vezes, um e outro, se punham a jeito.

Francisco Vale, que é editor da Relógio d’Água, também jornalista, também escritor, lembra Pierre Bayard que escreveu um livro, Como Falar dos Livros Que Não Lemos.

Deixa no ar que os críticos, por vezes, falam dos livros que nem sequer leram.

Será?

Também nos diz dessa coisa horrorosa de os críticos darem estrelas aos livros que criticam: «a classificação que se justifica nos hotéis, como questão de conforto dos quartos e serviço de bar, e que talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin, é de todo inadequada para leitura e ensaio.»

Pegando no Expresso, no Público, ressalta que nas poucas críticas (?) que fazem o que por ali se nota é um certo amiguismo, a influência que as editoras mexem e remexem.

QUOTIDIANOS

«Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.»

Mark Carney, primeiro ministro canadiano

À LUPA

Entre 2015 e 2025, segundo a APCT, a circulação do PÚBLICO em papel caiu de 40.890 para 8817; a do Expresso baixou de 75.860 para 31.872. No online, o Público subiu de 11.588 para 54.869 e o Expresso aumentou de 15.522 para 51.184.

MÚSICA PELA MANHÃ

-Então começas a Primavera a janelar?

-Olha que bonito!

sexta-feira, 20 de março de 2026

À LUPA

Apesar do amor que tinha ao avô (ou devido ao amor que lhe tinha), um dos momentos mais marcantes da infância de António foi quando o avô descobriu que o neto escrevia poema. “Quando soube que escrevia poemas tinha eu 8 ou 9 anos, chamou-me e perguntou-me: “Ouve lá, tu és maricas?”

Diogo Barreto, na Visão.

OLHARAS CAPAS


 120 Jogos para Treinar a Mente

Tradução: Diana Mendes

Capa: Alexandra Lemos e Tânia Carvalho

Deco Proteste Editores, Lisboa, Janeiro de 2026

O cérebro, tal como o resto do corpo, deve ser exercitado para se manter em forma, ativo e saudável por muitos e bons anos. Este guia reúne um conjunto de jogos que visam estimular diferentes capacidades cognitivas, como a memória, o raciocínio e a concentração.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Será pelas 14h46 que o equinócio da Primavera marcará a sua chegada.

Para já o sol faltou ao encontro, mas sabemos que o clima está em farrapos.

Por finais de Fevereiro já as podemos ver a cruzar os nossos ares.

Anunciam a chegada da Primavera.

Diz-se que uma andorinha não faz a Primavera.

A razão do provérbio é que as andorinhas migram em bandos.

Mas também se pode dar a volta ao texto e dizer que por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.

Daí que Frederico de Brito tenha feito versos para uma canção do Carlos do Carmo:

Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera 

Como vês, não estou mudado
E nem sequer descontente
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado.


Eu já estava habituado
A que não fosses sincera
Por isso eu não fico à espera
Duma ilusão que eu não tinha
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era

Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distante.


Horas, minutos instantes
Seguem a ordem austera
Ninguém se agarra à quimera
Do que o destino encaminha
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera!

Quando era miúdo, as varandas das ruas do bairro onde nasci, raro era a que não tinham andorinhas de barro.

Catarina Portas há uns anos nas suas lojas, recriou essas andorinhas de barro e explicou:

« As andorinhas são muito mais do que um objecto decorativo são um símbolo tão português, associado à casa, ao regresso e ao amor pelo lugar de onde se vem.

Criadas por Rafael Bordalo Pinheiro no final do século XIX, as andorinhas de cerâmica ganharam as paredes de tantas casas portuguesas, tornando-se um dos ícones mais queridos da nossa cultura.»

Também deixou uma crónica no Público de 8 de Março de 2008:

«Tenho andado de cabeça no ar, olhos levantados para o céu, verificando o horizonte com ansiedade. Mas nada, só pombos nos beirais e gatos pretos nos telhados. Porém, gente de sorte já me mensajou que, sim, que as avistaram, que elas estão a chegar. Vislumbrar a primeira andorinha do ano é uma alegria inexplicável, como o deslumbre de um dia sair à rua e descobrir os jacarandás em flor ou aquele prazer raro de trincar as primeiras cerejas do calor. Agora, cerejas já as há todo o ano, vindas daqui e dali, mas como as andorinhas ainda não se dão em estufa e só arribam quando muito bem lhes parece, esta ainda é uma daquelas felicidades inteiras que o ciclo anual das estações nos traz. Extraordinário, pois é sempre certa esta improbabilidade de avezinhas do tamanho de uma mão conseguirem percorrer milhares de quilómetros, de África até aqui, e acertarem tantas vezes com o lugar de onde partiram seis meses antes. Este país gosta de andorinhas. Estão protegidas por lei (316/89 e 75/91) e foram iconizadas pelo povo. Sempre me intrigou o costume de pendurar reproduções de andorinhas, em barro pintadas, pelas varandas e fachadas das casas portuguesas. Um dia, dei-me ao trabalho de andar a perguntar a historiadores, antropólogos e museus a origem do costume. Não fomos muito longe, que nestas manias populares de três vinténs os registos não abundam. Mas cheguei à conclusão de que as mais antigas que alguém tinha para exibir eram aquelas que Rafael Bordalo Pinheiro, entre couves e restante bestiário, lhe deu para moldar em finais do século XIX - como aquelas que em 1891 pendurou nos fios telefónicos que decoram a maravilhosa Tabacaria Mónaco, ainda hoje no Rossio em Lisboa (e alçando o olhar, no tecto já enevoado pelos anos, há também um bando delas


 pintadas a voar). Se terão sido criação original ou apenas recriação de luxo de outras que já por aí andavam é coisa que provavelmente nunca saberemos, mas certo é que estes ornamentos de exterior caíram no goto do povo e espalharam-se alegremente pelo país ao longo do século XX (sorte a nossa, há nações desgraçadas a quem isto aconteceu com anões atrozes, de jardim). Dizem que a moda prosperou nas décadas da emigração, pelos anos 60 e 70, numa identificação simples entre gente e aves viajantes. E contam ainda que, no Brasil, uma casa com andorinhas de cerâmica na parede é casa de portugueses, certo e sabido.
Ao contrário do galo de Barcelos, que apesar das origens populares se tornou emblema nacional redesenhado e imposto pelo regime, as andorinhas alcançaram o estatuto de ícones adoptados e amados pelo povo. Quiséramos nós ser andorinhas, aves negras de um país onde o negro é cor (como dizia uma publicidade antiga do vinho do Porto em França), asas valentes, viajantes, saudosas, trabalhadoras, alegres, belas, doidas e livres. Como escreveu Alexandre O"Neill: "Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria!"

É ESTE O MEU SEGREDO

É este o meu segredo –

fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.

 

Sem mover os dedos,

sem abrir os lábios,

irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se

apaga,

à beira de um rio negro,

quando o coração pára.

Serei apenas um homem sem nome,

caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade

que devora a sua luz.

 

Não quero ser mais nada.

Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro

me perdi.


José Agostinho Baptista

quinta-feira, 19 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO

Só morremos de nós mesmos.

Herberto Helder

O Q'É QUE VAI NO PIOLHO?


O realizador francês François Ozon, depois de Luchino Visconti em 1967, adapta O Estrangeiro de Albert Camus.

Numa entrevista ao suplemento Ípsilon do Público, publicada em 13 de Março, François Ozon diz:

«Em França ainda temos medo de O Estrangeiro. O passado argelino ainda é uma coisa complicada».

O filme de Visconti nunca me convenceu que teve problemas  e Visconti teve de viver com vários problemas, um deles a presença da viúva de Camus que tudo vigiava para que o texto fosse respeitado com todas as suas vírgulas.

Terei que ir ver o filme de Ozon, partindo sempre do principio que se há romances que não podem dar filmes, o romance de Camus, é um deles.

Pretexto para voltar a pegar na minha velhinha edição da Colecção Miniatura nº 48, tradução de António Quadros, capa de Bernardo Marques.

Um dos mais memoráveis começos de livros:

«Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: «Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.»

E também um grande final:

«Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio.

O livrinho está largamente sublinhado.

 «A mãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz».

A partir do dia em que entra na prisão, Meursault  conclui: « a minha casa era a minha cela, e que a vida parava aí. No dia em que prenderam, fecharam-me primeiro num quarto onde havia muitos detidos, a maioria deles Árabes. Ao verem-me, começaram a rir. Depois perguntaram-me o que é que eu tinha feito. Disse que tinha morto um Árabe e eles calaram-se todos.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

A Biblioteca da Casa tem uma participação a partir de uma série de livros que o meu avô levou para casa do meu pai onde, a partir do divórcio, passou a viver e que se juntaram aos que o meu pai já possuía.

A Biblioteca continua aqui e este deverá ser o livro mais antigo (1891) que possui e era um dos tais livros do avô Mário.

Na contracapa ressalta a designação que o livro pertence à «Biblitheca Economica Para Ricos e Pobres, o mais extraordinário succeso em Editora!!!»

O custo de cada volume era de 100 réis e enviado para a província custava 120 réis.

OLHAR AS CAPAS


 Fromont Junior e Risler Senior

Alphonse Daudet

Tradução Pedro dos Reys

Bibliotheca Economica nº 1

Companhia Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981

- Madame Chèbe!

- Senhor noivo…

-Estou contente…

Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir subitamente em lagrimas.

Fromont Junior e Risler Senior

Alphonse Daudet

Tradução Pedro dos Reys

Companhia Editora de Publicações Illustradas, Lisboa 1981

- Madame Chèbe!

- Senhor noivo…

-Estou contente…

Era seguramente a vigésima vez n’esse dia que o bom do nosso Risler fazia aquella declaração, e sempre com o mesmo ar enternecido e pacifico, com a mesma voz lenta, surda, profunda, uma d’essas vozes que a comoção ameaça estrangular na garganta e que não sobe de diapasão com medo de se diluir subitamente em lagrimas.

À LUPA

«Milhões de pessoas ficam mais alarmadas com o aumento de 20 cêntimos no preço do gasóleo do que com a morte de uma centena de crianças no bombardeamento de uma escola.»

Rui Tavares Guedes na Visão

VENTO GARRÔA


(Parque Eduardo VII, 1954)


Ouve-me tu, desta vez.

Nem cercos precários,

desvios que nunca se encontram

ou compromissos com o absoluto:

não quero mais coincidir

com o tempo,

agora que deixei de coincidir

com a minha língua.

 

Quero um amor que tenha

a lealdade de um cancro,

que alastre apenas dentro de mim

e me escolha os ossos

com dedos ligeiros mas demorados

de nódoa negra.

 

Diz-me o sentido

e seguir-te-ei,

de palavras levantadas contra o frio,

até chegar o som da espinha

quebrada como um livro

que se cansou de ser aberto.

 

Inês Dias em Resumo: a poesia em 2012

quarta-feira, 18 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O cemitério é vasto e entre nós a diferença é apenas: nós podemos imaginar ainda que a vida nos espera.

Egito Gonçalves

À LUPA

Ao que parece Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal, entendeu que a presença de Mário Centeno como funcionário Banco, não ajudava no seu trabalho, seria uma sombra a baralhar-lhe os números...

Tentou-se a colocação de Centeno como vice-presidente do Banco europeu, mas a coisa correu mal.

Restava a Santos Pereira a saída de Centeno do Banco de Portugal com uma oferta tentadora: através do regime de aposentação ao abrigo do fundo de pensões existente no banco central, após um acordo entre as duas partes, passa a auferir uma reforma de cerca de 10 mil euros brutos mensais.

Álvaro Santos Pereira terá agora de ir ao Parlamento explicar a negociata!

«O meu futuro está em aberto» disse Mário Centeno ao Diário de Notícias...