Em tempos não muito
distantes, as vindimas realizavam-se por finais de Setembro e iam por Outubro
dentro.
E eram uma festa!
Devido às variações
climáticas provocadas pelos humanos passaram a acontecer em finais de Agosto e
entram por Setembro dentro.
Pedro Garcia, em crónica no
Público de 4 de Setembro, fala das vindimas no seu Douro:
«Uma vindima de velório e a
maldição do carvalho grande de Joseph Wayne
O abismo em que está a mergulhar a vitivinicultura, pela queda contínua do
consumo de vinho, não é o fim do mundo, mas é uma boa metáfora da vida, de
darmos tudo como garantido, e até do que nos espera, se seguirmos sem perceber
a força e a verdade da natureza e se insistirmos em a desafiar, como estamos a
fazer com a Inteligência Artificial, por exemplo, cujas infinitas
possibilidades que ela nos abre dependem de mais consumo de electricidade e de
água, para alimentar e arrefecer os grandes centros de dados. A IA é o novo
combustível fóssil e pode ser ainda mais letal.
O leitor já percebeu que a vindimafoi um velório. Deve ser do meu natural pessimismo,
que a idade vai agravando, mas colher uvas sem ver futuro no vinho não é uma
tarefa agradável. E ter uvas e não encontrar quem as compre, como está a
acontecer a muita gente, ainda é pior. O meu tio esteve certo no seu tempo.
Hoje, não. As vinhas já não dão casas, é o contrário.»
1.
Um dia Benjamim
Franklin, um dos principais Pais Fundadores dos Estados Unidos, cientista,
inventor, diplomata e escritor, não esteve de modas, e disse:
«O vinho é a prova provada de que Deus nos ama e nos deseja ver
felizes».
2.
Importante a opinião de
João Paulo Martins, jornalista, escritor, um apaixonado por vinhos:
«O melhor vinho que bebi não foi seguramente o melhor vinho que já
provei. O melhor que bebi foi-o porque eu estava no ambiente certo, com as
pessoas certas, no momento certo».
3.
Tragam o vinho dos vivos, o vinho dos mortos, o vinho dos amanhãs perdidos.
Não entregar o coração ao infortúnio. Nada se lucra com tristezas. O melhor
remédio é pedir mais uma garrafa.
4.
Saímos de cena
lembrando uma canção do filme The Young Ones, Cliff Richard com Os Shadows
«Deixemos pois o
Goulart falar, A estalada que lhe deste, porém, não é coisa de que te possas
gabar na praça pública, nem na tua consciência. Digo-te porquê, gravemente e
medindo bem o peso das minhas palavras to digo; porque é uma cobardia. Conforme
me contaste, não julgo que o tivesses feito de caso pensado, na plena posse da
tua calma e da tua lucidez. Faço-te honra de supor que já estás arrependido –
ainda que não confessas, por um pudor descabido, de que o Padre Zósima (dos
irmãos Karamazoff) te daria a desrazão e o remédio.
Este caso do Goulart é
sintomático: todos gostam de bater no Goulart é um dos poucos idealistas
(taradinho, com as ideais todas torcidas está visto) que andam por essas ruas.
Tem um ideal (taradinho, etc.), e luta por ele. Depois, é coxo, paneleiro,
fraco de ombros. É monárquico e católico. É um tipo com uma cultura muito acima
do vulgar e é sério. Dá ou não vontade de bater (bater com tanta facilidade)
num tipo destes? Dá. O medo que as pessoas têm de bater num polícia e a
vontade transferem-se psicaliticamente para os lombos e os bochechos do
Florentino. Vem no Freud explicado.
Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor como uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
Há países que medem o seu desenvolvimento pelo PIB, pelos mísseis
balísticos, pelos arranha-céus, pela quantidade de milionários, de cirurgias
plásticas ou de bocas cheias de dentes de ouro. Ocorre-me outro indicador,
pouco modestamente: o Produto Interno Estendido.
Nada é mais democrático do que o estendal. Uns têm melhores varandas, quintais,
traseiras, seja o que for. Mas acabarmos todos no estendal é tão certo como
nascer e morrer. Mesmo que alguém estenda a roupa por eles, são do senhor
ministro as cuecas no estendal.
Abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco. Mas estender a roupa é fazer o
inverso: é a casa a expirar-nos e deixar o bairro respirar-nos.
E não vai mal ao mundo adivinhar a vida uns dos outros através dos estendais. O
estrangeiro recém-chegado com os seus panos. Os miúdos e as camisolas do
futebol. Os mais velhos e os seus abafos. Os estendais foram as redes sociais
antes da Internet, mas com menos filtros. Cuecas, ceroulas, combinações, junto
de lençóis, toalhas, meias com par ou desirmanadas.
Que dizer da arquitectura popular do estendal? Há estendais tímidos, escondidos
nas traseiras. Há estendais orgulhosos, de peito feito para a rua. E há os que
atravessam a rua, como se dois prédios estendessem as mãos, num aperto por cima
das nossas cabeças.
E nós? Gostamos tanto de nos estender. Nos bancos dos jardins, nas esplanadas.
E se formos à praia, nas toalhas. Num sofá ao domingo. Gente amarfanhada é como
roupa que não foi ao estendal. É bom estendermo-nos ao comprido, sem vergonha
do espaço que ocupamos, do sol que recebemos, do vento que nos seca. Nada disso
é de ninguém.
Cidades tristes? Digam quantos estendais atravessam a vossa rua e já vos digo
quanta vizinhança ainda praticam. Cidades gentrificadas? Os turistas conhecem
uma cidade pelos monumentos. Mas ela conta-se a sério nos estendais. Às vezes
basta um vestido a dançar na corda para imaginarmos uma vida inteira.
Estendais À Barbárie
Seguem-se os Estendais é um
livro de poesia de Miguel Cardoso (&etc., 2015). O título enuncia um
programa, os versos estendem-no sem molas: “as camisas nos estendais/ a pedir
albas/ chuva, felicidade, isso”.
O disco escolhido para a Música Pela Manhã deste
domingo recaíu sobre Herbert Pagani, concerto no Bobino
LADO 1
Le Show Biznesse –Leçond de Peinture – Le Train de L’Espoir – Gracias A
La Vida /(Merci L’Existence) – Serenade – La Cuisine, Le Menage Et L’Amour
LADO 2
Monologue de la Solitude – Berger d’Artiste – Messieurs Les Presidents –
L’Étoile D’Or – L’Amitie – Le Reseau
Sammy considera-o um disco fascinante.
Eu também.
"Pagani A Bobino" é o registo ao vivo de um espectáculo
realizado em Paris e que Herbert Pagani repetiu em diversas cidades, Lisboa
incluída, em Abril de 1980
Vítima de uma leucemia galopante, Herbert Pagani morreu a 16 de Agosto de 1988.
Tinha 44 anos.
«Pelos pequenos regatos, cobertos de
espuma branca, pelos pequenos peixes, que nascem já cosidos, pelas florestas
que os nossos jornais cortam em tiras, pelo passarinho, que em vão procura o
seu ninho e pelos nossos telefones, sempre com três na Lina, nós dois e depois
um chui com os seus auscultadores, e a nossa vida vivida que é posta de castigo
dentro das tripas de aço dos vossos ordenadores e por essas cruzes gamadas,
surgidas dos anos 30 que se vêem sobre os anúncios nos quiosques e nas
estações, e por tudo o que faz um certo grupo que tenta fazer pender à direita
as jovens gerações, por esses putos que lançam granadas, pelos que financiaram
os seus campos de treino antes de os terem visto a fazer footing nos estádios,
dizemos-vos:
Bravo, senhores presidentes».
Dolly Parton
morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80
anos.
David Pontes, no
editorial do Público, deixou bem vincado:
«O mundo era melhor com Dolly
Parton».
“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly
Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste
diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o
jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country,
mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que,
tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.
Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical
qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente
que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em
todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis”
(na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e,
quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram
a perda.
Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem
impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela
seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes
Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da
covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de
seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que,
“se agora aceitasse, estaria a fazer política”.
Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os
bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles:
dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades
marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável
programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a
crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre,
estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência.
Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter
surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de
dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.
Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o
seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca
abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem
nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela
conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de
que o mundo anda tão falho.»
Quando deixei de
poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:
ADEUS
POR UM CASACO
«É
tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu
velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.
Pela
Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns
farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.
Comprei-o
na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da
Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.
Quando
senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um
outro semelhante, mas nunca consegui.
Olhava-os
mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.
Nos
últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de
lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.
A
minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal
vestido.
Tentei
explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela
mandou-me um tá bem abelha!
O
próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.
Não
sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo
agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.
Também
a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.
Pelo
andar da carruagem, débil esperança…
Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»
Hoje,
para abrir, detemo-nos numa frase de Karl Marx, citada por Ana Cristina
Leonardo na crónica das sextas-feiras no suplemento ípsilon do Público:
PRIMEIRO A TRAGÉDIA, DEPOIS A
FARSA
1.
Portugal é o 3.º
país da UE com maior índice de envelhecimento: um rácio de 182 idosos por cada
100 jovens.
2.
António
Guerreiro, na sua crónica no Ipsilon do Público, aborda o populismo.
Há uma
grande conveniência em que seja lida:
«A noção de populismo, que surgiu nos anos 80 do século XX, tornou-se
actualmente um conceito vazio, uma palavra que significa tudo e não significa
nada, como aquelas a que Lévi-Strauss, lendo Marcel Mauss, chamou “significantes
flutuantes”. Sob essa condição vazia, o populismo não passa de uma “coisa”.
Originalmente, ele foi designado como uma ideologia fraca, sem espessura (uma “thin
ideology”, dizem os teóricos de língua inglesa), caracterizada pelo apelo de
um chefe carismático a um antagonismo político e moral, eminentemente
maniqueísta, entre dois campos: de um lado, o “povo”, simples e puro; do outro,
as “elites” maléficas e corruptas. O populismo, na sua acepção primeira, é um
fascismo em potência: tem alguns traços do fascismo, mas evita deslizar
completamente até aí. Tal como o fascismo, ele participa de uma metafísica; e
tal como o fascismo, opera através da mobilização reaccionária de um povo que
ele próprio fabrica.»
3.
Limite de voos
nocturnos em Lisboa só foi cumprido em duas semanas de 2026.
4.
O governo, a uma
só voz, defende o ministro Luís Neves. O mesmo não acontece nas sedes do PSD,
em que pelos corredores, em surdina, ou não, se critica largamente o ministro.
5.
A frase da
secção Escrito na Pedra do Público, de hoje, pertence a Simone de
Beauvoir.
«O homem sério é perigoso, pode transformar-se em
tirano».
A
Biblioteca da Casa não é apenas depositária de livros e discos, também de uma
série numerosa de diversos dossiers respeitantes a escritores e artistas
que merecem a nossa atenção.
É
o caso de Herberto Helder.
Do
dossier de Herberto Helder tiramos, hoje, uma entrevista-relâmpago feita pela
escritora Maria Teresa Horta, e publicada no suplemento literário de A Capital
de 10 de Abril de 1968.
Maria
Teresa Horta foi uma das suas amigas e confidentes.
Na
biografia de João Pedro George, pode ler-se na página 309:
«Era uma daquelas
noites em que Herberto, depois das suas caminhadas pelas ruas de Lisboa,
acabava em casa de Maria Teresa Horta. Passou-se provavelmente no último
semestre de 1962 e Herberto apareceu-lhe com um manuscrito, algo que tinha
começado a escrever no estrangeiro, entre a Bélgica e a Holanda, passando por
França e outros países, e que foi continuando a compor em Lisboa e em Santarém.
Luiz Pacheco lembrava-se, inclusive, de o ter ouvido ler alguma partes de Os
Passos em Volta.»
Se
os viajantes deste Cais gostam de biografias, mais ainda do poeta Herberto
Helder, não poderão deixar de ler a Biografia do Herberto que João Pedro Jorge
levou cerca de oito anos a fazer, a detectivar, a escrever.
«Alguém que está a
esconder alguma coisa exerce um fascínio enorme sobre o público».
Assim
era Herberto Helder.
E
é preciso perceber «o inesgotável e enigmático Herberto Helder».
A
leitura atenta e necessária ocorreu nos breves dias da semana passada.
O
livro ficou largamente sublinhado, com comentários nas margens, sei lá mais o
quê, um livro de que poderia dizer «lido à antiga».
Apercebi-me,
então, que talvez fosse interessante mostrar aos viajantes o como foi a minha
leitura à antiga, se isso é possível.
Vou
tentar.
A
todas essas intervenções, chamar-lhe-ei Herbertianas.
Começam
hoje.
Legenda:
pormenor de uma Carta a M.R. sobre «Photomaton& Vox», escrita por Luna Levi e publicada num suplemento literário do
Diário Popular s/d, talvez no ano de 1979.
Sempre o tempo
de se dizer que: «Não Há Festa Como Esta!»
Hoje, já se pode
ir jantar à Festa e conviver!
«Eu tinha passado anos a dizer: “Vou à Festa do
Avante!” Até compreender que talvez tivesse dito a frase errada durante todo
aquele tempo. Porque Avante nunca foi, para mim, apenas um lugar para onde se
vai. Avante é uma direção. Avante é aquilo que fazemos quando o medo diz:
recua. Avante é cantar quando nos aconselham silêncio. Avante é continuar
humano quando o mundo tenta convencer-nos de que o outro é nosso inimigo.
Avante é não permitir que ninguém pense por nós.»
Foi decretada a
mobilização geral.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.
No Público de 27 de Agosto,
Manuel Carvalho chama a atenção que o que está em causa é muito mais do que uma
lei e o aviso do alto-comissário da ONU, obriga a uma discussão séria.
1.
A Jugoslávia de Tito:
seis repúblicas, quatro línguas, três religiões e duas escritas.
2.
O maior pesadelo é ter de aturar os gajos todos que falam
nas televisões e só dizem mentiras em que o povo continua a acreditar.
3.
Começar o dia, sentir que lhe falta
fôlego, um sentir desconhecido que prenuncia que um qualquer fim está próximo.
Começar o dia, sentir
que lhe falta fôlego, um sentir desconhecido que prenuncia que um qualquer fim
está próximo.
Os avisos não têm
sido persistentes, mais ou menos fugazes.
Avisos que a memória lhe tem enviado,
não lhe permitem saber se já o disse aqui, ou em outro lado. Repete-se: não tem
telemóvel e a isso deve a relativa felicidade em que vive. Já o disse aos
amigos, aos filhos, aos netos, olham-no como alguém que tenha aterrado por
aqui, vindo de uma qualquer galáxia. Mas há 80 anos que vive numa Lisboa que
amanhece, como canta o Sérgio. Há uns anitos atrás viu-se aflito para encontrar
um fogão a gás. Apenas conseguiu um com bicos de gás, mas forno electrico. E
nunca deitou fora o radiozinho de pilhas em que, no tempo em que os animais
falavam, ouvia os relatos do Benfica.
«O que significa prioridade aos nossos? Que entre a
Rosa Grilo e um imigrante nepalês vocês escolhiam a Rosa, que entre o Pedro
Dias e um santo do Bangladesh vocês escolhiam o Pedro, que entre o Manuel
Palito e um refugiado sírio vocês optavam pelo Palito, que entre o Joe Berardo,
o Luís Filipe Vieira, o Ricardo Salgado, o José Sócrates ou outro qualquer a
quem andaram os portugueses a lamber as botas e um imigrante que faz por ganhar
a vida vocês não hesitariam na escolha: votavam no trafulha. Porquê? Por ser
português. Ora, é precisamente esta mentalidade que faz de nós um relógio
atrasado pela Inquisição, denunciou-o o Cavaleiro de Oliveira no século XVIII
e a coisa não mudou. Somos o que somos, uns pategos. Portanto,
prioridade aos pategos.»
«Trabalhei cerca de oito anos, a fazer muitas
entrevistas, a fazer muito trabalho. Este não é um livro sobre a poesia de Herberto,
é a sua biografia.
Devo dizer, no entanto, que o desapego dele não era
total. Antes pelo contrário. Movia-se nos bastidores e influenciava o que os
críticos diziam dele e chegava a ajudar a escrever esses textos.
Consultei a correspondência com o Luís Amaro, da
Colóquio-Letras, que é abundante e demonstra essa atenção. E também há várias
cartas dele para o Jornal de Letras, a pedir que o deixassem em paz. Ora,
alguém que se dá ao trabalho de escrever missivas a dizer isto, está
naturalmente, a chamar a atenção sobre si e a sua obra.»
Alexandra Lucas
Coelho:
«A cada ano dei por mim a começar o ano com aquele
aviso que Herberto escreveu numa entrevista há quase 50 anos, o de que há que
estar disponível para desiludir as expectativas porque desiludir é garantir o
movimento e ninguém viverá a nossa aventura por nós.»
Tempo de dizer
que a biografia de Herberto, escrita por João Pedro George, é um livro notável,
mesmo para quem não aprecie a sua obra.
Por ali se fica
a saber que profissionalmente foi um homem de dezenas e dezenas de empregos, a
maior parte de curta duração: jornalista, editor, delegado de propaganda
médica, publicitário, meteorologista, cortador de legumes, guia de marinheiros em
busca de prostitutas, funcionário das bibliotecas da Gulbenkian.
Ou seja: a importância
misteriosa de existir.
«Sou um neurótico, um egoísta. Deixei-me. Não vou amar
o mundo. Estou-me nas tintas. Apetece-me estar só. Comer aqui e ali em pequenos
restaurantes, e, no quarto, acordar à noite, fumar um cigarro à janela, folhear
um tratado de arqueologia.».
Não se pode falar da obra de Herberto Helder sem referir as condições
que o poeta teve para escrever. Se não tivesse tido uma mulher como Olga,
provavelmente não teria escrito as coisas que escreveu. Talvez tivesse escrito
menos ou diferente.
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua oscostumes
O público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
Em Julho de 2014, a Câmara de Lisboa, presidida por
António Costa, noticiou que iria demolir o mais moderno quartel de bombeiros da
cidade, junto ao Centro Comercial
Colombo, que, em 2003 custara mais de 12 milhões de euros, para expansão
do Hospital da Luz.
Passaram-se 10 anos e há notícias de que o substituto
do edifício demolido será reerguido em Carnide, provavelmente junto à Casa do
Artista, mas não há datas e a Câmara informou que ainda vão começar a fazer
projectos, mas não existem datas para avançar, tão pouco a obra está
orçamentada.
1.
Recorte do jornal
Público.
2.
Diz quem sabe:
«A CP precisa de comboios e de ferroviários. Não de privatizações.»
A primeira vez que conheci Fernando Hedgar da Silva, impressionou-me. Há cerca de 13
anos, eu e os meus colegas do PÚBLICO estávamos na Guiné-Bissau para contar
publicamente, pela primeira vez, a história dos filhos que os militares
portugueses fizeram com mulheres guineenses, angolanas e moçambicanas durante a
Guerra Colonial (1961-1974) e que deixaram para trás — órfãos de pais vivos.
Desde então, conheci mais de uma centena de filhos como Fernando, mas ele
deixou uma marca. Impressionou-me muito a sua inteligência, a sua clareza de
raciocínio, a sua combatividade, mas também a enorme mágoa e raiva que carregava
em si.
Até à juventude, Fernando viveu convencido de que o pai português — um
ex-militar que tinha estado na Guiné-Bissau durante a guerra — se chamava
Furriel, que furriel era nome próprio, como António ou Luís; era o que a mãe,
que não sabia ler, lhe transmitira. E era quase tudo o que sabia sobre o tal
português que passou toda a vida a tentar descobrir, que queria a todo o custo
conhecer para lhe dizer, cara a cara, que “um pai não abandona um filho”, e ele
sabia-o, era pai de 13. Do tal militar também sabia que estivera colocado no
quartel de Teixeira Pinto (hoje chamada Canchungo) e que, como ele próprio
nascera em 1968, tinha de estar lá colocado pelo menos nove meses antes; a mãe,
a guineense Sabadozinha Mendes, vivia numa casa nas traseiras do quartel.
Fernando, que era camionista, teve um AVC no ano passado, ficou com sequelas,
morreu aos 58 anos, no Hospital de Canchungo. A sua morte prematura é mais a
regra do que a excepção num país onde poucos chegam a velhos. Segundo a
Organização Mundial de Saúde, só 4% ultrapassam os 65 anos.
A sua morte pôs-me a pensar no que conseguiu e no que não conseguiu. Foi dele a
ideia de dar forma a uma espécie de família informal, criando, em Bissau, a
Associação Filho de Tuga, da qual era presidente, onde todos se dizem
sentir irmãos, filhos do mesmo pai: o longínquo Portugal. "Filho de
tuga" é o nome colectivo pelo qual continuam até hoje a ser conhecidos na
Guiné-Bissau; por vezes, há até quem os chame de "restos de tuga".
Encontrei insultos parecidos com este nas viagens que entretanto fiz para contar
esta mesma história em Moçambique e Angola; também aí estes homens e mulheres,
filhos de mãe africana e pai português, são até hoje vistos como “sobras” do
colonialismo português, os últimos filhos mestiços do império. Ainda lhes
chegam aos ouvidos frases como "volta para a tua terra" ou "vai
para a terra do teu pai". Hoje sei que há milhares de homens e mulheres
como Fernando.
Por iniciativa dele, todos os anos, no dia 1 de Novembro, os filhos da
associação guineense organizam o que ele quis que se ficasse a chamar Cerimónia
de Homenagem ao Pai Desconhecido. Nesse dia, deixam colectivamente uma coroa de
flores junto às campas dos militares portugueses mortos durante a Guerra Colonial que nunca foram trazidos para Portugal, abandonados também eles.
Fernando explicou-me que, simbolicamente, aqueles homens mortos sempre foram o
mais próximo que todos eles estiveram dos pais portugueses vivos. O Cemitério
Militar de Bissau foi, para muitos deles, o primeiro sítio onde foram procurar
o pai e é lá que alguns deles continuam a ir para sentir essa proximidade.
Lamento não ter feito mais por Fernando, além de contar a sua história no meu
livro Furriel
não É nome de pai e na série
documental da RTP1 Filhos de tuga. Ele
queria mais, queria que eu o trouxesse para Portugal. O seu grande sonho era,
além de procurar o seu pai sem nome em todos os arquivos possíveis, passar os
dias sentado pacificamente em frente da Assembleia da República portuguesa, com
um cartaz a dizer "Eu sou Filho de Tuga. Sou português", até lhe
darem a ele e aos seus o direito de, ao menos, verem o sofrimento e
discriminação de uma vida compensado pela nacionalidade que sempre foi usada
para os insultar. Fernando queria ser “tuga” por inteiro. Os seus “irmãos”
continuam a querê-lo.