Saiu
o último livro do Julian Barnes e é mesmo o último.
Li
apenas O Papagaio de Flaubert e gostei.
Diverti-me bastante. Ainda
lembro: «A felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos
a saúde».
Barnes
tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de 46, eu nasci em Março de 45.
Deveria
ter lido os restantes livros de Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na
livraria, com a Partida, que é o seu último livro, nas mãos. Os livros
estão caros, sempre estiveram. Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes,
hão-de perguntar-me por livros que me querem oferecer.
Neste
momento, Barnes, luta contra um cancro, ou o cancro luta contra ele, depende
dos pontos de vista. Poderá fazer mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente
copiei:
“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três
quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em
África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock
(quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand
Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso,
prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a
partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em
que não sinta frio”.
A
Quetzal, que edita o livro, publicita:
«Partindo da história
de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e
que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca
numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a
morte.
Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço
de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos
prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final
triste».
Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os
leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas
expressões da vida. E despede-se deles.
Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo
aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a
minha partida oficial, a minha última conversa convosco».
CRÍTICAS DE IMPRENSA
«Uma despedida elegante
de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review
«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance
elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal
«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e
vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»
Na crítica que Helena
Vasconcelos fez para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma
idiotice colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes
Partida,
o romance em que Julian Barnes nos diz adeus.
Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida
é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre
pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras
“partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de
controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do
desaparecimento e do olvido.
Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.
Sim,
claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre
difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes
que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.