sexta-feira, 27 de março de 2026

DAS CITAÇÕES


 Sempre entendi que quando há quem diga as coisas melhor do que possa dizer, não hesito em fazer citações.

«"Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria! Do humor visionário
Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.

Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre jeito. De pois há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizado.»

Ana Cristina Leonardo, Público 20 de Fevereiro

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi

Legenda: Ilustração de Willard Metcaff

POEMA DA NOITE PLÁCIDA

A multidão em fúria

passeia placidamente nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

enquanto os homens que orientam placidamente

a multidão em fúria

que placidamente passeia nas ruas da cidade.,

procuram furiosamente

as soluções plácidas

que orientarão a multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

e os sábios buscam furiosamente

as fórmulas plácidas

que, placidamente,

resolverão as dificuldades da multidão em fúria

que passeia nas ruas da cidade

de mente plácida

plácida mente,

e todos, todos em suma,

placidamente,

procuram furiosamente,

de todas as formas plácidas,

atender às inquietações e aos anseios plácidos

da multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

e placidamente se assenta nos plácidos bancos das

                                                                    avenidas,

bebendo o ar plácido da noite,

e esperando, placidamente,

as soluções plácidas

para os seus anseios e inquietações furiosas.


António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

quinta-feira, 26 de março de 2026

OLHR AS CAPAS


O Adeus à Brisa

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: ilustração de Manuela Pinheiro

Colecção Contemporânea nº 6

Publicações Europa-América, Lisboa, Outubro de 1998

Doem-lhe as pernas de tanto andar. Mais ainda lhe dói o peito, opresso, de tanta humilhação que tem enxugado, tanta indiferença a repeli-lo. Lá do cimo da Ajuda, onde mora ainda com os pais (sem isso como sobreviver?) vira logo de manhã o cavalo cor-de-rosa da alvorada empinar-se sobre o Tejo, esparzindo com os cascos as suas chamas subtis. Podia ser bom sinal. Mas não. Os dias bonitos até são às vezes os mais cruéis. 

À LUPA


 1ª Página do Público de 20 de Fevereiro.

CONVERSANDO

Dizia que, para além de escrever, não sabia fazer mais nada.

Amiúde dizia que ninguém escrevia melhor português do que ele e acabou por citar um crítico do El País que lhe disse:

«que daqui a cinco mil anos vou ser lido com paixão. Acho que ele tem razão.»

Sempre foi um tipo difícil, a idade tornou-o pior.

Numa crónica – ando a relê-las porque passaram a ser o que melhor entendia, o que mais gostava do que ultimamente publicava e lamentavelmente deixou de escrever crónicas, lamentavelmente deixaram de publicá-las em livro, falava de um almoça com amigos:

«E às quintas-feiras almoço nos Moinhos da Funcheira com o Zé Ribeiro, o Zé Francisco, o Vitorino. Os Moinhos da Funcheira são o subúrbio do subúrbio, depois da Venda Nova, da Brandoa, da Pontinha: toda a gente acha feio e eu acho lindo. De onde me virá este amor sincero, genuíno, pelo que as pessoas consideram de mau tom, leões de calcário, duendes de gesso, quadros de queimadas, cerâmicas de casa de banho com cisnes doirados?

Quando digo que almoço às quintas-feiras nos Moinhos da Funcheira digo que a empregada nos trata por

- Meu querido

nos traz salsichas com ovos estrelados e nos sentimos indecentemente felizes

Com pena da gente a empregada diz

- Meus queridos

e  soma-nos a conta na toalha.»

Um dia, quando, em separado, encontrei o Zé Ribeiro eo Vitorino, perguntei:

-Então já não há almoços com o António Lobo Antunes?

-Eh pá!.. Tornou-se um chato!...

O POETA DEDICADO

O poeta delicado de ascendência humilde

foi sempre um cão batido e se não o fosse

viveria mais infeliz ainda por não ser

o cão batido. É bom no fundo, amigo, leal, o dedicado.

Mas, nas entrelinhas dos sorrisos dele,

há sempre um rosnar doce de contida inveja:

é que outros a quem batem são leões ou alifantes,

porém não cães batidos. E não nasceram

nas palhas da província, embora se não escolha

onde se nasce para cão batido.

 

Jorge de Sena em Dedicácias

quarta-feira, 25 de março de 2026

TRUMPALHADAS

Os estilhaços da guerra desencadeada por Benjamim Netanyahu e com o beneplácito de Donald Trump, vão caindo no nosso dia-a-dia aumentando os riscos de um viver ainda mais difícil.

Como é que estes dois loucos não sabiam que é impossível vencer uma guerra contra fanáticos religiosos dispostos a tudo, incluindo pôr um povo a morrer em nome de Deus?

1.

«Conversações produtivas.” Assim se define a porta entreaberta por Trump quanto a um possível fim da guerra, ao suspender a vontade imperial de bombardear, arrasar, pulverizar, o Irão, com armas convencionais ou mesmo nucleares, como insinua a sua narrativa torpe e alucinada. O problema desta porta entreaberta é que ela vem de uma palavra presidencial que não vale nada. Trump, já sabemos, diz hoje uma coisa e, hoje ainda, o seu contrário. A sua conceção do mundo convocaria, na melhor das hipóteses, Dirty Harry, o justiceiro que celebrizou Clint Eastwood, mas não está sequer próxima do rastejante e traiçoeiro Tuco, protagonizado pelo genial Eli Wallach. Trump é apenas um asqueroso vilão, psicopata narcísico e corrupto. A sua fortuna triplicou num ano, está a rebentar os contrapesos da democracia americana, usa a seu bel-prazer a máquina judicial contra quem o contraria, como está a fazer com Joe Kent.

As “conversações produtivas” com o Irão são um eufemismo, de quem procura uma saída, já muito penosa, para o maior desastre norte-americano a seguir ao Vietname e ao Iraque. A sua própria base de apoio tem vindo a intensificar os sinais de que os EUA têm de sair do Irão depressa e em força. Perderam o controlo da guerra e o próprio aliado, Israel, faz o que quer. Como se Trump fosse uma marioneta nas suas mãos, depois de já se ter percebido que também o é para Putin. É este o Presidente que a América tem e de que será difícil desembaraçar-se.»

Eduardo Dâmaso no Correio da Manhã

2.

Trump em cada dia que passa diz já ter vencido o Irão mas… acabou por envia ao Irão um plano com 15 pontos destinado a pôr fim à guerra no Médio Oriente, plano foi entregue através do Paquistão.

Segundo David Pereira no Diário de Notícias as condições abrangem todos os objetivos de guerra dos Estados Unidos e de Israel, mas a estação televisiva israelita indica que Jerusalém está preocupada com o facto de Trump e a sua equipa quererem pressionar rapidamente para um "acordo-quadro, um acordo de princípio" com o Irão, em vez de insistir nestas exigências como condição para interromper a guerra.

3.

O Presidente norte-americano anunciou na segunda-feira um prolongamento de cinco dias no prazo de 48 horas que estabelecera dois dias antes para começar a atacar instalações energéticas iranianas, caso Teerão não desbloqueasse o Estreito de Ormuz.

4.

A embaixada iraniana no Paquistão considerou a oferta de negociações dos Estados Unidos como “uma farsa", negando qualquer diálogo com Washington.

"O Irão considera o pedido de negociações dos Estados Unidos como uma nova tentativa de dissimulação para se reagrupar e, encontrar brechas” com vista a “intensificar novamente os ataques", declarou na rede social X a representação iraniana em Islamabad.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou pelo seu lado na segunda-feira que o Presidente norte-americano acredita na possibilidade de “alcançar os objetivos da guerra” através de um acordo com o Irão, mas advertiu que Israel vai defender os seus “interesses vitais em qualquer circunstância”.

5.

Entretanto O Pentágono anunciou que Donald Trump está a planear enviar três mil soldados paraquedistas para o Médio Oriente, para apoiar os combates no Irão. A Casa Branca afirmou que as operações militares norte-americanas na região vão continuar. Atualizamos aqui, ao minuto, todas as informações sobre o conflito no Médio Oriente.

6.

As negociações entre os Estados Unidos e o Irão existem mesmo?

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, afirmou que não estão actualmente a decorrer negociações entre Teerão e Washington, acrescentando que a troca de mensagens através de diferentes mediadores “não significa negociações”. 

Segundo Araghchi, as principais autoridades iranianas estão a analisar as propostas de paz apresentadas, mas Teerão não tem intenção de negociar com os EUA, algo que nesta fase seria reconhecer uma derrota. O Irão prefere "continuar a resistir", para "terminar a guerra nos próprios termos" e criar condições "para que nunca mais se repita", disse o ministro à televisão estatal iraniana, citado pela agência Lusa.

Os norte-americanos falharam em alcançar os seus principais objectivos, entre eles uma vitória militar rápida e a mudança de regime no Irão, aponta o ministro iraniano, afirmando também que os EUA falharam na protecção dos seus aliados no Médio Oriente, apesar das bases militares instaladas na região, notou, insistindo que o estreito de Ormuz está "fechado apenas aos inimigos".





O OUTRO LADO DAS CAPAS

Junho de 1966.

Ou 67?

O Helder Pinho a dizer-nos: o Cine-Clube do Barreiro vai dar Ladrões de Bicicletas.

 Quem alinha?

Alinharam seis.

O Cine-Clube era dirigido pelo Cortez, militante comunista, enfermeiro e barbeiro com loja aberta na Rua Castelo Branco Saraiva, sala a abarrotar.

O neo-realismo italiano visto na margem sul, a fita não ajudava, a projecção não foi a melhor, mas oportunidade, quase única, de então ver Ladrões de Bicicletas, em sessão quase clandestina.

O último barco do Barreiro para Lisboa acontecia à meia-noite. O filme batia quase o horário do barco, mas antes, já um camarada pegara na bicicleta, e acelerara para o cais,  dizer ao pessoal de bordo que aguentassem uma migalha, que havia uma malta numerosa de Lisboa, a sair do Cine-Clube e precisava de ir para Lisboa.

Solidariamente, o mestre aguentou a migalha necessária,  e o camarada da bicicleta, ficou a ver a malta a chegar e entrar para o barco e lançou um punho no ar de adeus.

Porra! Há que dizer que estávamos na margem sul e o Barreiro eram operários das fábricas do Alfredo da Silva.

O barco traz-nos para Lisboa na noite de Primavera.

O Helder olha a cidade, diz-nos que gosta da palavra cineclube, que não há nada como o neo-realismo seja ele português, ou italiano, palavras soltas, gestos inacabados.

Ainda há cineclubes?


CINEMATECA PORTUGUESA–MUSEU DO CINEMA HISTÓRIAS DE OBJETOS, OBJETOS NAS HISTÓRIAS 15 e 18 de setembro de 2021 LADRI DI BICICLETTE / 1948 (Ladrões de Bicicletas) um filme de Vittorio de Sica Realização: Vittorio de Sica / Argumento: Cesare Zavattini, segundo o romance de Luigi Bartolini; adaptação: Cesare Zavattini, Vittorio de Sica, Oreste Biancoli, Suso Cecchi d’Amico, Adolfo Franchi, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri / Fotografia: Carlo Montuori / Direcção Artística: Antonino Traverso / Música: Alessandro Cicognini / Montagem: Eraldo Da Roma / Intérpretes: Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci), Enzo Staiola (Bruno Ricci), Lianella Carell (Maria Ricci), Elena Altieri, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Michele Sakara, Carlo Jachino, Nando Bruno, Fausto Guerzoni, Umberto Spadaro, Massimo Randisi. Produção: “P.D.S.” (Produzione De Sica) / Cópia: Leopardo Filmes, dcp, preto e branco, legendado em português, 90 minutos / Estreia Mundial: Roma, em 24 de Novembro de 1948 / Estreia em Portugal: Tivoli, em 20 de Novembro de 1950 / Reposição: Estúdio 444, em 26 de Junho de 1969. Grande Prémio Internacional do Festival Mundial do Filme e das Belas Artes, Bélgica, 1949 Prémio Social do Festival de Cinema de Locarno, 1949 Grande Prémio Saint Michel do Festival de Knokke, Bélgica, 1949 Fita de Prata, Roma, 1949 Prémio da Crítica de Nova Iorque para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949 Oscar da Academia de Hollywood para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949.


Nem o nome de De Sica, o impacto do seu filme anterior, Sciuscià, ou a nova lei do cinema que entra em vigor em 1947 e impõe a exibição de filmes italianos durante (pelo menos) 20 dias por ano em cada cinema, serviram de muito para o projecto do actor-realizador adaptar o romance de Luigi Bartolini Ladri di Biciclette. Em Itália ninguém se interessou apesar do chamado “neorealismo” estar na moda, em França também não, o que os ingleses ofereciam não chegava para mandar cantar um cego (ou confundiam já “neo-realismo” com “miserabilismo”). Será com o seu próprio dinheiro e o de um grupo de amigos, os advogados Graziadei e Bernardi, e o conde Cicogna, que De Sica poderá levar a cabo o filme que ficará como a sua obra-prima, e que durante uma década esteve na lista dos dez melhores filmes da história do cinema. Ao tempo Ladri di Biciclette causou um impacto maior que os primeiros filmes de Rossellini, tornando-se o modelo frequentemente invocado do “verdadeiro” neo-realismo, que esteve na origem dos equívocos que o rodearam, e que levariam à sua marginalização com o esgotamento da fórmula. Se o equívoco lhe deu fama foi também a sua desgraça, o que a uma revisão se afigura extremamente injusto. Ladri di Biciclette é, antes de mais, um belíssimo filme sem necessidade de adjectivos de “verismo” ou “realismo”. Não se passa nada durante o filme e, no entanto, passa-se tudo. O “fait-divers” (o roubo da bicicleta a um homem que com ela conseguira, finalmente, trabalho nos anos de crise do pósguerra em Itália) transforma-se numa história de suspense. É inegável que ele existe pois todos estamos suspensos do encontro ou não da bicicleta e o filme não é mais do que a história da sua busca, através dos mais variados lugares. E é este percurso que está na base do equívoco (aceite naturalmente, e nunca contestado, porque era um movimento de “vanguarda”) erigido em “escola” por Zavattini. A captação do “real”, com as filmagens em exteriores, actores não profissionais e uma fotografia próxima da das actualidades, são o embrulho sobre o qual se coloca a etiqueta do “neo-realismo”. Mas todo o filme de De Sica manifesta em germe a sua própria negação (a que nem o próprio Umberto D escapa, e que passa a primeiro plano em Miracolo a Milano e L’Oro di Napoli: um desejo de ficção (o tema da busca) e de encenação (a belíssima e cuidada sequência do almoço de pai e filho no restaurante, com uma fotografia mais trabalhada do que o resto do filme). Um dos tais sinais de “realismo” é, no fim de contas, uma fórmula usada com uma certa frequência no cinema em geral: captar “um rosto na multidão”(que será o título de um filme de Kazan), entre os anónimos habitantes da cidade, o que traz logo à memória as comédias e melodramas americanos do fim do mudo, em particular The Crowd e Lonesome (e já agora o genial número de Busby Berkeley para o primeiro Gold Diggers: “Remember My Forgotten Man”). E o final segue o mesmo modelo, com a multidão anónima rodeando aquele que se tornou “intérprete” de um drama colectivo, neste caso o desemprego que estava no ponto mais alto na altura da realização do filme (apesar da recuperação da economia que se começava a verificar com o apoio do Plano Marshall). E o início do filme de De Sica é ainda mais sugestivo: António Ricci não engloba a massa que se aglomera à volta do funcionário que distribui empregos ocasionais. Está à margem dela, e é preciso que um outro corra a chamá-lo para que a câmara nos mostre Ricci isolado e sentado no chão, como um homem marcado pelo destino. Destino absurdo que tem a sua dimensão kafkiana na loja de penhores, onde a trouxa de lençóis se vai misturar com milhares de outras, cruzando-se, num sugestivo plano, com a bicicleta que lhe é devolvida. Mesmo contaminado por estes momentos simbólicos, esquecidos na altura pois apenas se quis ver as suas características de “pedaços da vida”, Ladri di Biciclette é até aqui ainda um filme de forte conotação “realista” (para continuarmos a usar o chavão), com o retrato da vida do casal e da sua casa. Tudo muda, porém, no “dia seguinte”, aquele em que Ricci vai começar a trabalhar. E não deixa de ser curioso que De Sica apenas neste momento nos apresente a outra figura central do drama, Bruno, filho de Ricci que, com o pai, parte também para o trabalho. De facto, e esta é outra marca anti-“realista” do filme, a verdadeira história é a da relação entre os dois (repare-se que, durante todo o filme o garoto procura o pai com o olhar), e a pesquisa que irão fazer no outro dia, é da mesma ordem das “viagens iniciáticas” dos jovens no cinema americano. O roubo da bicicleta é o momento em que tudo vacila e tudo começa. Se serve para apresentar, de forma documental, o estado de coisas da sociedade italiana de então (a crise económica, o desemprego, a superstição, a miséria e a promiscuidade, segundo uma fórmula de testemunho que Zavattini erigirá, tardiamente, em programa em L’Amore in Città), o que mais fica desta peregrinação exemplar, quase crística (houve quem comparasse o percurso de Ricci à Via Sacra) é o que se passa entre pai e filho, testemunhado nos três momentos maiores do filme:a sequência da bofetada e a desaparição de Bruno com a angústia do pai ao ouvir os apelos de ajuda ao afogado; a sequência do restaurante, de reconciliação, a que não falta o toque de humor com o menino “bem” na outra mesa comendo a sua “pasta” com ar afectado, mas onde, pela primeira vez, no filme, o pai dá conta dos seus sonhos ao filho (sonhos que o roubo vem por em causa); e a última, que possui uma carga simbólica que o afasta da mera referência realista onde se teima em inclui-lo: António desceu ao ponto mais baixo, procurando, por sua vez, roubar uma bicicleta, mas é apanhado e humilhado. Será a mão do filho que se estende para a sua, crispada, que lhe transmitirá de novo a força. E o “fait-divers” adquire a forma de uma tragédia sobre a condição humana. 

Manuel Cintra Ferreira 

OLHAR AS CAPAS

Ladrões de Bicicletas

Luigi Bartolini

Tradução: José Serra

Capa: JuSA

E-Primatur, Lisboa Fevereiro de 2026

Viver não é mais do que recuperar o que se perdeu. Pode-se recuperá-lo uma, duas, três vezes, como eu, que por duas vezes consegui recuperar a bicicleta. Mas há-de vir uma terceira vez em que já não recuperarei nada. O mesmo se diga, repito, da existência. É uma corrida para trás, até finalmente perder tudo ou morrer. Uma corrida para trás desde a infância! Sai-se da matriz e chora-se o cómodo leito perdido; o lactente, de olhos ainda cerrados, já procura, tacteia, com o nariz cor de pétala rosa, no seio da mãe, o doce e túrgido mamilo; depois, perdido o leite, procura a mão do pai para o guiar nos primeiros passos. Procura-se demasiadas coisas antes de morrer. E eu procurarei um rosto amigo e só encontrarei o rosto da Luciana, se o encontrar: o que seria, para as minhas últimas dores, já morrer com o sol diante dos olhos.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 O recorte é tirado da revista Visão de 12 de Março.

Mas um despacho da Lusa publicado no Público de hoje, diz-nos que o Ministério Público acusou o presidente da Câmara de Oeiras, Isaltino Morais, e outros 22 arguidos, incluindo vereadores e funcionários, de peculato e de abuso de poder por gastos de 150 mil euros em refeições pagas pelo município. Os factos ocorreram durante os mandatos autárquicos de 2017-2021 e de 2021-2025, totalizando nestes períodos mais de 1400 refeições pagas indevidamente com dinheiro da autarquia.

MINHA MÃE QUE NÃO TENHO

Minha mãe que não tenho    meu lençol
de linho    de carinho    de distância
água memória viva do retrato
que às vezes mata a sede da infância.

Ai água que não bebo em vez do fel
que a pouco e pouco me atormenta a língua.
Ai fonte que eu não oiço    ai mãe    ai mel
da flor do corpo que me traz à míngua.

De que Egipto vieste?    De que Ganges?
De qual pai tão distante me pariste
minha mãe    minha dívida de sangue
minha razão de ser violento e triste.

Minha mãe que não tenho    minha força
sumo da fúria que fechei por dentro
serás sibila    virgem    buda    corça
ou apenas um mundo em que não entro?

Minha mãe que não tenho    inventa-me primeiro:
constrói a casa    a lenha e o jardim
e deixa que o teu fumo    que o teu cheiro
te façam conceber dentro de mim.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

terça-feira, 24 de março de 2026

VELHOS RECORTES

O semanário Notícias da Amadora deixou-nos Dossiers em que reproduziu os artigos cortados, total e parcialmente, pela Censura.

Publicamos hoje um artigo de Orlando César:

 

OLHAR AS CAPAS


Elas Não Dão Por Ela

Traduzido do americano por Boris Vian

Versão Portuguesa: Regina Louro

Capa: António S.

A Regra do Jogo Edições, Lisboa 1982

Pois bem, ao reler as minhas notas, dá-me ideia de que nem uma vez me dirão que foi um tipo que estudou quem escreveu isto. Questão de vocabulário? Não. Na minha opinião é, sobretudo, falta de citações latinas.

NESTE DIA


Tempos da adolescência em que desatei a ler desalmadamente , e sem qualquer critério, os livros da Biblioteca da Casa: Eça, Camilo, Torga, outros.

Já o disse por aqui, Miguel de Torga não me trouxe o entusiasmo que outros autores me deram. Nunca o li com aquela paixão, aquele gosto, o que lhe quiserem chamar.

Foi um homem difícil, muitas vezes desagradável com os seus pares. Não autografava os seus livros, conta-se que terá recusado fazê-lo a Mário Soares, pois não abria excepções fosse a quem fosse, mas Mário Soares terá encontrado um livro em que Torga escrevera palavras a Maria Archer e confrontou-o com isso, mas Torga não se desmanchou e respondeu-lhe que as pernas de Maria Archer não se comparavam com as suas.  

José Saramago gostava de o ter conhecido melhor, Mário Cláudio escreveu que Torga foi «um solitário voluntário, um exilado no próprio país».

Morreu a 17 de Janeiro de 1995 com 87 anos.

Hoje, pego no último volume, que é 16º, do seu Diário.

Estamos no dia 9 de Dezembro de 1993 e Miguel Torga escreve:

«Coimbra, 9 de Dezembro de 1993 – E chega ao fim, com este volume, um livro que comecei a escrever um pouco estouvadamente há sessenta anos, e acabo agora com mais assento. Como é sabido ninguém conhece o dia de amanhã, e, pelo que me diz respeito, fui um mártir dessa incerteza. E iniciei o presente tomo quase seguro de que o não terminaria. O resultado está à vista: um estendal de dúvidas e gemidos. Mesmo assim, talvez valha a pena que se junte aos outros, como seu natural remate Mais do que páginas de meditação, são gritos de alma irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à exaustão. E se despede dos seus semelhantes sem azedume e sem ressentimentos, na paz de ter procurado vê-los e compreendê-los na exata medida. E que confia no juízo da posteridade, que certamente lhe vai revelar os muitos defeitos e ter em conta as poucas virtudes. De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo.»

E já que por aqui estamos, registe-se, possivelmente, o seu último poema, escrito em 10 de Dezembro de 1993:

Requiem por Mim

«Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que dele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.»

SOPROU: NÃO TE APROXIMES

Soprou: não te aproximes

dos deuses

sem te acautelares. Ampara


o que não pode

senão amassar

o oculto pão da recusa.

 

E bebe, infinitamente

bebe

 

o estrondo repetido

de cada gota

 

caindo.

 

José Carlos Soares em Resumo: a poesia em 2013

segunda-feira, 23 de março de 2026

RETRATOS


A JOÃO BÈNARD DA COSTA, NA SUA MORTE

 

Perdeu-se o timbre de uma voz:

quando alguém desaparece, é isso que me ocorre,

mesmo que o registo dessa voz tenha ficado em filmes

ou entrevistas gravadas, há uma modulação precisa,

uma articulação a que até chamamos música

que se desprende para sempre do universo!

 

Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

À LUPA


«Quem terá sido o assessor que aconselhou António José Seguro a andar com cara de governante em tempo de catástrofe, sempre grave e rígido? Cavaco era assim e vejam como acabou. Em todo o caso, gostei de saber que o novo Presidente serviu um vinho pouco conhecido no jantar oficial da tomada de posse. Chama-se Serra P e é produzido pelo próprio Presidente. É um luxo termos um vitivinicultor em Belém.

O vinho de Seguro, os lobos de Hollywood e a bulha no Chega
De certeza que o vinho foi oferta da casa, para poupar no orçamento da Presidência e mostrar que o país não vive só de Barca Velha ou Pêra-Manca. Há mais país e vinho no jardim. Imagino o que estarão a pensar alguns leitores: “Lindo começo, ao primeiro jantar oficial serve logo o seu vinho e não o esconde de ninguém. Já parece o Trump.” Mas não há razão para tanto. Seguro é assim, um rural honesto e simples, desses vitivinicultores que se orgulham das suas raízes e têm brio no que fazem. Quando recebem alguém em casa, não vão comprar frango assado ao Continente ou bacalhau com natas ao Pingo Doce. Cozinham algo especial e servem o seu melhor vinho. Por norma, perguntam: “É bom, não é?” Foi o que aconteceu, aposto. Além do mais, e para que não houvesse dúvidas, Seguro já tinha passado o negócio do vinho e do turismo para os filhos.»

Pedro Garcias no
Público

 

TRUMPALHADAS

Quando acabará a guerra que em 28 de Fevereiro Israel e os Estados Unidos iniciaram com o propósito de "eliminar as ameaças iminentes do regime iraniano"?

Nem Netanyahu, nem Donald Trump informaram que iriam iniciar a guerra contra o Irão.

Donald Trump não sabe quando terminará a guerra, está entalado e pediu a ajuda, com ameaças à mistura para quem não o ajudar, para desbloquear o estreito de Ormuz.

Os principais aliados dos Estados Unidos reagiram com cautela ao pedido de ajuda de Donald Trump para garantir a segurança do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, evitando comprometer-se com uma missão militar sem objetivos ou limites claros que arrisca arrastá-los para uma guerra que não escolheram.

Mas…

A poucas horas de terminar o prazo do ultimato lançado a Teerão para a abertura do estreito de Ormuz, o Presidente dos Estados Unidos alegou que a sua Administração teve "conversas produtivas com o Irão", tendo decidido adiar por cinco dias os ataques contra infra-estruturas energéticas iranianas — período ao longo do qual considera ser possível chegar a acordo com Teerão.

Segundo o Presidente norte-americano, os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner (seu genro) estiveram no domingo reunidos com “um líder respeitado” do Irão, mas não o ayatollah Mojtaba Khamenei. As negociações, acrescentou Trump, devem continuar esta segunda-feira.

Trump admitiu aos jornalistas que não podia revelar o nome da pessoa com quem está a negociar. “Não quero que ele seja morto”, justificou, num aparente remoque aos israelitas, que eliminaram várias figuras de topo da hierarquia iraniana.

"Tivemos conversas muito, muito boas. Vamos ver onde elas nos levam. Temos pontos de acordo", disse Trump. "Estamos diante de uma possibilidade real de fechar um acordo".

O Irão rapidamente desmentiu o chefe de Estado norte-americano e garantiu que não estão em curso "comunicações directas ou indirectas" com Washington. Reiterou também que atacará as "centrais de energia do regime ocupante", bem como as infra-estruturas económicas, industriais e energéticas utilizadas pelos norte-americanos, caso as centrais de energia iranianas sejam atingidas.

1.

Segundo Pedro Adão e Silva no Público, em apenas 12 meses, Trump fez o que alguns dos autocratas mais proeminentes dos últimos 25 anos demoraram anos a conseguir.

2.

«Sem os EUA, a NATO é um tigre de papel», escreveu Donald Trump numa publicação na sua Truth Social. O Presidente norte-americano critica os aliados porque “não quiseram juntar-se à luta para travar um Irão com capacidade nuclear" nem se disponibilizaram para uma "simples manobra militar" para reabrir o estreito de Ormuz, “tão fácil para eles, com tão pouco risco”.

“Agora que essa luta está militarmente ganha, com muito pouco perigo para eles, queixam-se dos preços elevados do petróleo que são obrigados a pagar, mas não querem ajudar a abrir o estreito de Ormuz", lê-se ainda na mensagem. “Cobardes, e nós não nos vamos esquecer!”, termina Trump.

Copia-se um comentário de um leitor  (Zapata) do Público:

«Curioso... Trump pediu a vários países que o fossem ajudar a "desentupir" a navegação no Estreito de Ormuz. Só não pediu a Israel. Está mal. Foi Israel que nos meteu nesta embrulhada. E os iranianos têm um amor por israelitas que só visto. Quando o Xá fugiu para o estrangeiro, apareceram graffiti nas paredes a dizer "Não façam mal aos judeus. Mas se encontrarem israelitas podem matar." Alguns milhares de israelitas viviam que nem uns nababos no Irão (a aperfeiçoar, entre outras coisas, a SAVAK). A cena é contada num documentário israelita que passou no "Toda a Verdade" na 2a-feira, na SIC-Notícias.»

3.

«Não, o Irão não é a Venezuela, mas Trump poderá ter sido levado a achar que era pelo orgulho, pela vaidade e pela influência de Netanyahu, e mergulhou de cabeça numa guerra cuja extensão terá calculado mal. E aqui entra o fecho do estreito de Ormuz pelo Irão e as consequências generalizadas provocadas pelo aumento do preço do petróleo que ameaça uma nova crise global pela qual os EUA não passariam incólumes. Aparentemente, apenas a China e a Rússia poderão, em tese, beneficiar num cenário destes, o que torna este cenário ainda mais caricato.»

Do editorial de Pedro Candeias no Público

4.

Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irão", disse Joseph Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, na sua carta de demissão entregue ao presidente Donald Trump e publicada no X . "O Irão não representa uma ameaça iminente para a nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano".

Donald Trump, pelo contrário, congratulou-se com a sua saída: “Ainda bem que ele se foi embora. Ele disse que o Irão não era uma ameaça. Todos os países reconhecem que o Irão é uma ameaça.” Na mesma declaração aos jornalistas, na Sala Oval, o Presidente declarou que não conhecia “muito bem” Joe Kent e que lhe parecia “um tipo porreiro”.

OLHAR AS CAPAS


Margaret Bourke-White

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Sem a câmara não me sinto completa. Por isso não interessa o preço que tenho de pagar.

POEMA MESTIÇO

escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer...

 

Mia Couto

domingo, 22 de março de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO

A anterior passagem de Carlos Moedas pela presidência da Câmara Municipal de Lisboa foi um desastre.

Contudo, nas últimas autárquicas, teve os votos suficientes para voltar a ganhar, de novo sem maioria, a Câmara.

De repente, qual passe de mágica, tratou de ter essa maioria, angariando uma vereadora que se tinha desvinculado «daquela coisa».

Neste momento, a presidência de Carlos Moedas está a entrar num caos, mas ele assobia para o lado.

Como chegámos a isto?

Somos obstinadamente atrasados, incultos e incapazes  há muito de nos governar.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Antes de chegarmos a outros lugares, as músicas que o rádio nos trazia eram portuguesas, francesas, espanholas, italianas, brasileiras.

Aos domingos, com música pela manhã, iremos bater as essas portas.

Hoje, passamos pelos brasileiros





sábado, 21 de março de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


José Gomes Ferreira é o único autor que tem 3 livros publicados na Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Em 20 de Março de 2025 apresentámos o Poema Autografado da Poesia I e hoje apresentamos o da Poesia II.

Chove…

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove…

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Fernandes Fafe escreveu:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Hoje, lá ninguém lê José Gomes Ferreira. Os que não o fazem, perdem algo que nem podem calcular.

Como leitor fiz descobertas sem mapa, sem bússola, lembro José Gomes Ferreira, José Saramago, mais o Saramago que o Zé Gomes.

Havia a biblioteca do meu pai, havia os suplementos literários, quase todos a publicarem-se à quinta-feira.

Líamos os críticos, colhíamos orientações que eram, ou não, seguidas, mas orientações.

Lembro Eduardo Prado Coelho que terá sido, por aqui, o último moicano da crítica literária. 

O Eduardo Prado Coelho era o Eduardo Prado Coelho, como em tempos recuados o João Gaspar Simões era o João Gaspar Simões.

Assim como uma espécie de instituições.

Quando morreram ficámos a saber da falta que nos ficaram a fazer, depois de, amiúde, termos andado a chamar-lhes todos os nomes e dando de barato que por vezes, um e outro, se punham a jeito.

Francisco Vale, que é editor da Relógio d’Água, também jornalista, também escritor, lembra Pierre Bayard que escreveu um livro, Como Falar dos Livros Que Não Lemos.

Deixa no ar que os críticos, por vezes, falam dos livros que nem sequer leram.

Será?

Também nos diz dessa coisa horrorosa de os críticos darem estrelas aos livros que criticam: «a classificação que se justifica nos hotéis, como questão de conforto dos quartos e serviço de bar, e que talvez faça sentido nas estrelas do Guia Michelin, é de todo inadequada para leitura e ensaio.»

Pegando no Expresso, no Público, ressalta que nas poucas críticas (?) que fazem o que por ali se nota é um certo amiguismo, a influência que as editoras mexem e remexem.

QUOTIDIANOS

«Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.»

Mark Carney, primeiro ministro canadiano

À LUPA

Entre 2015 e 2025, segundo a APCT, a circulação do PÚBLICO em papel caiu de 40.890 para 8817; a do Expresso baixou de 75.860 para 31.872. No online, o Público subiu de 11.588 para 54.869 e o Expresso aumentou de 15.522 para 51.184.