quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


A capa da revista da Junta de Freguesia da Penha de França nº 44/Dezembro de 2019.

NOITE DE NATAL


Como esse mar onde mal chega o rio,
Como esse poço onde mal sopra o vento,
Aqui me tens, negando o lume e o frio,
E cego e surdo ao próprio pensamento.

Como esse mar onde mal chega o rio,
Como esse poço onde mal sopra o vento.

Não haveria quem sonhe à minha beira
E, ao menos, longe em longe me sorria?

Às vezes cuido que na terra inteira,
Já ninguém sente regressar o dia.

Não haverá quem sonhe à minha beira
E, ao menos, longe em longe me sorria?

Areia. Pó. Um charco e uma parede,
Tudo confundo: a sombra, o medo, a luz.

Nem lágrimas. Porquê? Morro de sede.
É esta a noite,
– E vai nascer Jesus.

Pedro Homem de Melo em Natal… Natais

Legenda: pintura de Charles Le Brun

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Mundo de Paixões

Nicholas Blake
Tradução: Daniel Gonçalves
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 198

Nigel Strangeways entrou em Adelphi e depressa chegou ao elegante recesso de Angel Street, com o tráfego de Strand a zumbir docemente por detrás dele como uma azenha. Era uma bela rua para residir, pensou ele – num apartamento do último andar de um desses prédios altos e elegantemente uniformes: acima da barafunda mas não completamente isolado dela. À medida que a meia idade progride e as ilusões de juventude recuam, o único meio que resta para uma pessoa ter a sensação de que começa de novo, de que volta a nascer, é mudar de casa. Mas, por mais instável que fosse a sua natureza, duas mudanças em doze meses seria levar demasiado longe a mobilidade de uma pessoa – é preciso cuidado para não se adquirir a habituação dessa droga estimulante.

NATAL - 1950


Nenhum Natal será possível: sei
que tudo enfim suspenso aguarda
não já Natais sempre de guerra mas
a morte iluminada como aurora
entre esta gente que se junta rindo
e as luzes interiores, muitas cabeças juntas;
entre as lágrimas de ternura e os murmúrios de esperança,
entre as vozes e os silêncios, as pedras e as árvores,
entre muralhas de janelas sob a chuva,
entre agonias dos que lutam porque são mandados
e a cobarde angústia dos que apenas mandam,
no meio da vida, círculo de fogo,
à luz de que se vê uma calçada suja
de restos de comida e de papéis rasgados
– se sei, embora saiba, quanto soube:
ah canto do meu canto, olhar do meu olhar,
nenhum Natal, bem sei, mas outra gente,
e tanta gente, e mesmo que um só fosse,
já louco, envelhecido, apenas hábito,
que poderei fazer, senão humildemente cantar?

Jorge de Sena em Natal… Natais

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

OLHARES


Nem tudo corre bem e, de modo algum, estamos no melhor dos mundos possíveis, como diria o malandro do Pangloss.
O comércio não vive momentos fáceis e muitos comerciantes vão dizendo que este Natal não os vai ajudar muito.
Os saldos que apareciam logo a seguir ao Natal, têm agora uma antecipação. Esta loja na Avenida de Roma, tenta amenizar a situação lembrando os clientes que não deverão guardar as suas compras para as últimas horas e que aproveitem esta  atençãozinha de 20%.

PUER NATUS EST NOBIS


Dos contos de fadas da
minha infância, este da Divina
Criança era dos mais maravilhosos. Não
faltaram os exóticos magos guiados
pela mística estrela, a noite gelada, os
mansos animais, o desvalido ermo, a pobreza
transformada em glória. O bem
sucedido parto de uma virgem, tantos séculos
antes das pesquisas genéticas. O pior
foi quando quiseram contar o Tempo
a partir desta história. Podiam ter escolhido
outra, com um fim menos cruel. Antes
a da Cinderela ou a do Príncipe Sapo, onde
todos viveram felizes para sempre. Sempre?
E o que é
   
    Sempre?

Inês Lourenço em Natal… Natais

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Se ainda guardas alguma expectativa a respeito das páginas que te restam, apelo à tua boa vontade, faz uma de duas coisas: deita fora as expectativas ou deita fora o livro.

João Ricardo Pedro em Um Postal de Detroit

OLHAR AS CAPAS


Um Postal de Detroit

João Ricardo Pedro
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2016

A anatomia dos estorninhos confere-lhes uma confrangedora inabilidade para o amor, e só um desejo imenso pode garantir a perpetuação da espécie. Já com as pessoas é ao contrário: possuem uma aptidão anatómica para o amor, e só um desejo imenso as fez adquirir a capacidade de voar.

domingo, 8 de dezembro de 2019

NATAL


Soa a palavra nos sinos,
E que tropel nos sentidos,
Que vendaval de emoções!
Natal de quantos meninos
Em nudez foram paridos
Num presépio de ilusões.

Natal da fraternidade
Solenemente jurada
Num contraponto em surdina.
A imagem da humanidade
Terrenamente nevada
Dum halo de luz divina.

Natal do que prometeu,
Só bonito na lembrança.
Natal que aos poucos morreu
No coração da criança,
Porque a vida aconteceu
Sem nenhuma semelhança.

Miguel Torga em Natal… Natais

Legenda: pintura de Agnolo Bronzino

sábado, 7 de dezembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


A quinquilharia decorativa que hoje utilizamos para sinalizar o Natal tresanda a desencontro. Os presépios tornaram-se imagens planas, garantidamente aveludadas, colocadas dentro de um cordão sanitário simbólico para conforto dos nossos trânsitos sonâmbulos.

José Tolentino Mendonça

Ei-LOS QUE PARTEM!



… em 1963, José Mário Branco, chamado para a tropa, decide fugir para França. Conta Helena Pato que, para lá de uma muda de roupa e de algum dinheiro, levava apenas um livro: a Poesia III, de José Gomes Ferreira.

Luís Miguel Queirós no Público

NATAL...NATAIS...


Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E ein cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.
Natal... Natais...
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Cabral do Nascimento Natais… Natais…

Legenda: pintura de David Jaconson

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Há uma frase de Miguel Torga que, para mim, adquire forte significado no período natalício: «Não desisto de ser criança. É que me vale.»

António Bagão Félix

Legenda. Fotografia de Robert Schall

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Praça Paiva Couceiro.


Rua Morais Soares.


Em tempos bem mais antigos, a Tabacaria Vera Cruz, na Praça Paiva Couceiro, era uma loja que se recomendava. Os tempos começaram a mudar e o Sr. Jacques concluiu que esses novos tempos não tinham nada a ver com o sonho que o levou a abrir portas para venda de tabacos, revistas, cachimbos, livros, uma variada e bonita colecção de presentes para as mais diversas ocasiões. 
Hoje é  o circo variado e colorido que se pode ver.


Outra parte da Rua Morais Soares.


Avenida General Roçadas.

BACH SEMPRE!


Por diversas vezes, neste Cais, pode ler-se que não há Natal sem música de Bach.
A frase é do meu pai, respondendo à pergunta que, amiúde, lhe faziam de que canção de Natal gostava mais.
Dando asas à ideia, fui buscar o 4º Concerto para piano, mais concretamente o 2º andamento.
Não se esqueçam de passar um bom fim-de-semana.

OUTROS NATAIS


Natal em Strasbourg.

TOADA DE NATAL


Natal. Eis que anunciando o Cristo que nasceu,
De branco, um Serafim voou do céu,
À fímbria do vestido a poeira dos sóis presa...
Vinte anos faz que o viste a par do Sete-Estrelo.
Cresceste... e nunca mais tornaste a vê-lo!
Pois basta-te querê-lo:
Ergue as mãos juntas,
Reza...

Natal. Eis que inviolada, uma Mulher foi Mãe,
E se venera agora (e para sempre, amém)
A que deu fruto e é pura - ideal pureza...
Não sabes já vencer-te e crer sem compreender?
Esquece o que os manuais dão a aprender:
Mergulha no teu ser,
Como num templo:
Reza...

Natal. Eis que ao luar, os mortos que dormiam
Dos frios leitos lôbregos se erguiam,
E vinham consoar à sua antiga mesa...
Não tens que lhes dizer desde que te hão deixado?
Não sentes os teus mortos a teu lado?
Pois fala-lhes calado,
Para que te ouçam:
Reza...

Natal. Eis que uma paz, que ao certo é doutra vida,
Abranda toda a terra empedernida,
E é cada mesa em festa uma igrejinha acesa...
Abre hoje o coração - portal que se franqueia.
São todos teus irmãos: até os da cadeia,
As que andam na má sina e os que não têm ceia...
Por todos e por ti, Ave, Maria:
Reza...

José Régio em Natal… Natais

Legenda: pintura de Rubens

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: igualzinho aos outros se não fôssemos nós a fazê-lo diferente.

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume III

Legenda: pintura de Édouard Manet

ILUMINAÇÕES DE NATAL



Avenida Guerra Junqueiro



Praça de Londres


Avenida de Roma


Avenida João XXI.

Lá começo eu, com a velhinha máquina fotográfica do Loja do Chinês, a captar as iluminações da cidade. Dado o dinheiro que a Câmara conseguiu disponibilizar, são as iluminações possíveis.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Já por aqui escrevi que na casa do meu havia uma série de discos pertencentes a um colecção da Philips, que dava pelo nome de «Popular Favourites», uma selecção de cantores e orquestras norte-americanos.

Lamentavelmente – estranhos caminhos!... – nenhum desses discos chegou aos dias de hoje.

A metade adormecida do meu cérebro consegue lembrar-se que num desses discos aparecia a canção I Wonder As I Wonder interpretada pela Jo Stafford. Mais tarde vim a saber que a canção surge em diversas colecções de Canções de Natal. Uma passagem fugaz pelo You Tube mostrou um álbum de Natal da Jo Stafford  e a canção surge também num álbum de Natal dos Peter Paul and Mary, um conjunto muito cá de casa.

Por um longínquo Natal, o meu pai apareceu em casa com EP da Polydor com canções de Natal.

Não havia televisão.

Depois do jantar, o pai reuniu a família, e colocou o disco no prato do gira-discos.

Canções de Natal em alemão.

Aliás, o meu pai tinha a ideia que o Natal é essencialmente nórdico.

Perguntei-lhe um dia porquê, disse que não sabia bem, lera num qualquer livro, mas, acima de tudo, sentia-o assim.

Um silêncio de claustro, o avô com uma lágrima ao canto do olho, o encanto espelhado nos rostos, uma família na serena paz de uma noite silenciosa.

O bichinho das canções de Natal começou nessa noite.

A pancada levou a que hoje existam nas estantes da casa cerca de 200 discos de Natal, a grande maioria, infelizmente, são CDs, no fundo, o que é capaz de fazer da minha pessoa um modestíssimo membro Clube dos Maluquinhos das Músicas e Canções de Natal.

Não tenho qualquer disco de Natal da Jo Stafford que apenas aparece em algumas colectâneas,  pelo que a capa que encima o texto foi sacada da internet.

A canção I Wonder As I Wonder fica aqui na interpretação da Jo Stafford e dos Peter Paul and Mary.



OLHAR AS CAPAS


O catálogo de Natal da Livraria Bertrand.
Ler não dói.
A páginas 49, Sofia Costa Lima pergunta:
«Quantos livros poderia ler no tempo que passa nas redes sociais?»

O NATAL DOS POETAS


Numa noite em que nasciam
crianças aos milhares
e outras morriam sem assistência médica
e outras morriam brincando com bombas
e outras morriam esmagadas
por fugitivos automóveis;
numa noite de Inverno,
numa noite de névoa
sobre os barcos sem equipagem junto ao rio;
numa noite de ruas desertas e casas fechadas
aos que andavam perdidos e sozinhos,
três poetas sentaram-se a uma mesa
e decretaram a paz e a alegria.

E decretaram a paz
para os que, cabelos soltos nas mãos das noites frias,
viviam na cidade onde agora estavam,
respiravam o mesmo ar
e liam as mesmas notícias dos jornais.
E decretaram a paz
para os que tinham
os olhos riscados pelos dedos do medo.

E decretaram a paz
para os que traziam
a angústia dos dias misturada no sangue.
E decretaram a alegria
para as crianças que estavam nascendo em todo o mundo.
E decretaram a alegria
para as jovens que sentiam os seios despontar.
e decretaram a alegria
para as mulheres que eram mães.
E decretaram a alegria
para todos os seres.

Foi então que Jesus Cristo
nascido há quase mil
novecentos e sessenta anos,
sorriu no céu que cobria a mesa
onde três poetas se tinham sentado
para decretar a paz e a alegria.

António Rebordão Navarro em Natal… Natais

Legenda: pintura de Matthias Stomer

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Talvez me encontrem num jardim nocturno de qualquer cidade ao norte da Europa. Peregrinações de jovem poeta já cansado.

Eduardo Guerra Carneiro em É Assim Que se faz a História

Legenda: fotografia de Anna Citrino

OLHAR AS CAPAS


O Ouro da Evasão

Frank Gruber
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 266

Dien Bien Phu – 1954

Aos mortos não importa onde são enterrados. Não lhes importa, sequer, que os enterrem ou não. A maneira como morrem é que é importante.
Os homens cercados em Dien Bien Phu já sabiam que morreriam. Talvez houvesse alguns sobreviventes, mas talvez esses desejassem ter morrido, também. Os homenzinhos acastanhados não gostavam muito dos Franceses e odiavam, sobretudo aqueles que combatiam pelos Franceses e odiavam, sobretudo, aqueles que combatiam pelos franceses, mas não o eram: os homens da Legião Estrangeira.

O NATAL É VERMELHO


Mas, por vezes, fica de um vermelho pálido.