sábado, 13 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Pelo menos, uma vez por ano, fala-se de Luís de Camões.

Cantar os nossos poetas sempre deu algum falar por aqui.

Em Março de 2019, publicámos no Cais do Olhar este texto e amanha voltaremos ainda a este tema:


«Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.

Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim, escrevo.

Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de Camões para a voz de Amália, Amália Canta Camões, os intelectuais tiveram reacções diversas.

José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:

«Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».

Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes Ferreira nunca simpatizou com a ideia.

A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.

A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:

«De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores cumprimentos.

O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus versos, escritos sem essa intenção.

Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.

Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»

Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de António Gedeão que, nas suas Memórias, escreve que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus:

 «Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»




sexta-feira, 12 de junho de 2026

VELHOS RECORTES


 O tempo das grandes festas, nas cidades e vilas.

O mês dos perfumes mágicos. Intensos. Sardinhas assadas, manjericos, sardinheiras, Jacarandás, “meu limão, meu limoeiro, meu pé, meu pé de jacarandá”. Cheira a fruta madura quando é Verão. O solstício que se aproxima. Os dias mais longos, as noites sem tamanho.

Lisboa 1992.

Faz-me festas em Lisboa. O que eles riram.

Nunca como nesse ano a sensação de que foram as mais inesquecíveis. Talvez não tenham sido as melhores sardinhas, a melhor sangria,mas tudo foi diferente, marcado nos dias e nas noites, nos acasos. O Ateneu Comercial, a orquestra Latina de Roberto Pia.

A menina dança?

SOLTAS

 

O livro do Nuno Júdice, Primeiro Poema, fecha-se com estes versos:

«o que eu queria era medir a distância a partir de um relógio

cuja corda se partiu, posso dar voltas ao ponteiro e é

sempre a mesma hora, não se assustem, o tempo não parou

nem vai parar, o que eu tenho no pulso é esse falso

relógio

de luz radioactiva que se pode ver do fundo da

carruagem,

se alguém estiver muito interessado em saber que

horas

são e, na verdade, ninguém precisa disso para nada,

como se o tempo tivesse mesmo parado e está na altura de recomeçar do zero, onde tudo recomeça»

1.

A ministra da Saúde reconheceu que o INEM enfrenta falta de recursos humanos, após a morte de um homem de 63 anos que esperou mais de uma hora por assistência médica em Palmela. Ana Paula Martins garantiu, contudo, que o Governo tem reforçado o recrutamento.

2.

O país está a entrar numa armadilha demográfica e laboral que ameaça transformar a falta de trabalhadores num dos maiores bloqueios ao crescimento económico da próxima década. O alerta é deixado pelo relatório "Emprego em Portugal", apresentado esta terça-feira em conferência no Porto e elaborado pelo CoLABOR, que traça um retrato duro de um país envelhecido, incapaz de reter jovens qualificados e dependente da imigração para evitar uma crise estrutural no mercado de trabalho.

 Lido no Jornal de Notícias

3.

N o ano passado mais de 1200 doentes com pulseira amarela abandonaram os serviços de urgência dos hospitais devido ao tempo de espera para o atendimento.

4.

José Sócrates exige 205 mil euros de indemnização por lentidão da justiça.

5.

Os milionários não sabem cozinhar.

6.

«Como vais?

se morrer vestido – vou como quiserem

se for nu – vou como vim…

- Mas o sangue?»

Eusébio C. Martins

7.

Em Portugal, os jovens só saem de casa por volta dos 29 anos. A coabitação, por vezes, torna-se sufocante para pais e filhos e é preciso “responsabilidade, comunicação clara e limites saudáveis.

8.

A idade da reforma vai subir para os 66 anos e 11 meses em 2027, segundo confirmam os dados da esperança de vida publicados esta quinta-feira, 28 de maio, pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

"A esperança de vida aos 65 anos, no período 2023-2025, foi estimada em 20,19 anos para o total da população", indica o INE, o que corresponde a um aumento de 0,17 anos (2,0 meses) relativamente ao triénio 2022-2024.

Com base nestes dados é possível calcular que em 2027 a idade legal de acesso à reforma será de 66 anos e 11 meses.

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


Hoje, não há olhar para frigideiras, tachos, panelas.

Chegados os dias quentes a escaldar, e o Verão ainda nem se apresentou, metemo-nos nos jarros de sangrias.

Tanto quanto é possível apurar, a sangria é algo tipicamente espanhol.

Os experts entendem que numa sangria deverão entrar bons vinhos, melancolicamente digo que para uma sangria uso sempre vinhos de preços razoáveis.

Nos restaurantes há o péssimo hábito de ao vinho, à Seven Up, adicionar bebidas alcoólicas como Licor Beirão, anis escarchado, brand, gin, vodka, rum, triple sec, etc..

É um disparate.

A sangria é uma bebida simples e refrescante.

A essência de uma sangria completa-se nas frutas que se adicionam, na quantidade enorme de gelo, de hortelã em folha, ou em ramo.

Por mero gosto pessoal, nas sangrias, não ponho pau de canela.

As frutas que mais utilizo são: laranja, limão, cereja, pêssegos, muito pouca maçã.

Há quem ponha morangos, ananás, melão, Kiwi, também quem utilize frutos vermelhos congelados.

O vinho a utilizar poderá ser tinto, branco. ou rosé. Igualmente, há quem faça sangrias com espumante, que fica bem com tudo, e as regras são as mesmas dos vinhos.

INGREDIENTES

Vinho tinto, branco, rosé, espumantes.

Seven Up, gasosa, água Castello gaseificada

Frutos

O que muito bem se entender e goste, cortados finamente, ou em cubos pequenos

Muito gelo, muita hortelã.

Salut!

OLHAR AS CAPAS


 A Sinceridade Política de Antero

Sant’Anna Dionísio

Imprensa Portuguesa, Porto 1949

«Na verdade, Antero queria a Justiça - mas acima, se não pudesse ser ao lado da Justiça, punha ele a Liberdade - aquela liberdade ontológica e sincera que todos os democratas verídicos solicitam e desejam para ficar e não para suprimir sob qualquer pretexto falacioso ou circunstancial. A inspiração profundamente ética e proudhoneana do seu pensamento afastava-o radicalmente das soluções puramente economistas. Quer dizer; Antero, se hoje fosse vivo, abominaria o totalitarismo sob qualquer forma que ele se lhe apresentasse, no ar que respirasse ou ainda em indecisa nuvem na linha do horizonte. Tanto assim, que nos legou certas afirmações que não esquecem mais - embora o Sr. M.M, na sua embófia de político empírico, sabidíssimo, citadinamente ria. Por exemplo, estas:

A grande revolução só pode ser uma revolução moral e essa não se faz de um dia para o outro…» 

SEMPRE SE CONHECEU O VENTO DE JUNHO

Sempre se conheceu o vento de Junho
nessa orla, que regougava nas esquinas
da casa à noite e nas manhãs ansiosas
em que voltava a aragem matinal
deixava irremediavelmente os frutos
a juncar a terra e os atalhos.
 
E sempre se lamentaram as velhas pancadas
do vento, no seu ritmo marítimo, a exaltação
a que nos levava, permanentes povoadores
da costa. E para lamentar dizíamos
as palavras usuais e alguns suspiros
próprios da insónia de ouvir o vento.
 
 
Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 11 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Metem medo, estes nossos políticos. Dá-se-lhes a confiança e o voto na melhor boa fé, e quando esperamos deles uma palavra de clarividência, fruto de um pensamento amadurecido no conhecimento das realidades pátrias, roem-nos a corda. Sobem a uma tribuna e deixam-nos boquiabertos com os repentismos de uma demagogia desmiolada. Em vez de serem os enviados redentores em que acreditamos, parecem pragas de Deus.

Miguel Torga em Diário Vol. XIII

CONVERSANDO

Chegará o dia em que as nações tratarão Israel como o estado pária que é?

No dia 6 de Março, o jornalista António Rodrigues escrevia no Público:

«Há mais de 70 anos, o filósofo Bertrand Russell e o cientista Albert Einstein estavam entre os 11 signatários de um manifesto pacifista que ficou conhecido como o manifesto Russell-Einstein. Em tempos de guerra fria e de ameaça nuclear, o documento visava defender o “senso comum” face à ameaça de extinção da humanidade.

“O futuro da raça humana é mais sombrio do que nunca. A humanidade enfrenta uma alternativa clara: ou perecemos todos ou teremos de adquirir algum grau de bom senso. Uma grande dose de novo pensamento político será necessário para evitar um desastre total”, lia-se no texto publicado a 9 de Julho de 1955.
Desumanidade
A humanidade parece estar hoje novamente numa encruzilhada civilizacional em que se age sem bom senso, caminhando aceleradamente, cabeça bem esticada, em direcção ao muro de betão cuja existência insistimos em negar. Ao contrário da Guerra Fria e do equilíbrio frágil, mas perene, garantido pela destruição mútua assegurada, hoje actua-se pisando todas as linhas vermelhas como se não existissem, como se não importassem, como se fossem mentira.

Conspira-se com base em conspirações inexistentes, age-se em função de simulacros de realidade, vive-se como se o futuro não importasse: a próxima geração que apanhe os cacos se tiver condições para existir.

Perante este cenário conturbado de actos sem precedentes e teorias sem bases teóricas, Emmanuel Macron resolveu recuperar a teoria da destruição mútua assegurada e estendê-la temporariamente a outros países como meio de defesa: “Para ser livre, precisamos de ser temidos”, disse esta semana o Presidente francês ao anunciar que, pela primeira vez desde 1992, a França irá aumentar o número de ogivas nucleares e, pela primeira vez na sua história, vai disponibilizar os seus aviões com armas nucleares para outros países que precisem de dissuadir ameaças contra o seu território. Tal como em 1955, é preciso que alguém traga algum bom senso para as relações internacionais, mesmo que tenha alguma radioactividade.»

SE EU PUDESSE...

 

Se eu pudesse havia de transformar as palavras em clava.
Havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante, sem música.
Como um gesto, uma pancada brusca e sóbria.
Para quê todo este artifício da composição sintáctica e métrica?
Para quê o arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras, pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo.
Vejo, admiro, desejo?
Ou sim ou não.
E como isto continuando.

E gostava para as infinitamente delicadas coisas do espírito…
Quais, mas quais?
Gostava, em oposição com a braveza do jogo da pedrada, do tal ataque às
coisas certas e negadas…
Gostava de escrever com um fio de água.
Um fio que nada traçasse.
Fino e sem cor, medroso.

Ó infinitamente delicadas coisas do espírito!
Amor que se não tem, se julga ter.
Desejo dispersivo.
Vagos sofrimentos.
Ideias sem contorno.
Apreços e gostos fugitivos.
Ai! o fio da água , o próprio fio da água sobre vós passaria,
transparentemente?
Ou vos seguiria humilde e tranquilo?

Irene Lisboa

quarta-feira, 10 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Uma aprendizagem a que precisamos de regressar é a da escuta. Não nos damos conta, mas escutamos pouco e deixamo-nos a flutuar dispersos entre tantas interrupções. Hipervalorizamos ruídos, sonoridades secundárias, vozes que se sobrepõem, e fica por captar o essencial que nos está a ser revelado.

José Tolentino Mendonça

RETRATOS


 Relvas é um subproduto de telenovela.

Clara Pinto Correia, Expresso s/d

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Na minha infância e adolescência passava férias na Trafaria, casa alugada a pescadores.  
Salvador Félix Martins nasceu na Costa da Caparica a 1 de Agosto de 1932 onde viveu. Foi jogador do Sport Lisboa e Benfica treinado por Otto Glória foi campeão nacional em 1954-55 e 1956-57.

Ainda o vi jogar.

De pé: Bastos, Pegado,  Calado, Alfredo,, Artur, Ângelo: em primeiro plano: Palmeiro Antunes, Caiado, Águas, Salvador e Cavém.

Quando abandonou o futebol, depois de ter sido treinador de diversas equipas, entre elas, como não poderia deixar de ser o Grupo Desportivo da Costa da Caparica, tornou-se proprietário de um quiosque de jornais na Costa da Caparica.

Foi o Mário Castrim que me chamou a atenção para o facto de o proprietário do quiosque ter sido jogador do Benfica e quando passei férias em São João da Caparica, todos os dias ia a pé à ao Quiosque do Salvador, comprar A Bola e o Diário de Lisboa.

Salvador lançou dois livros dedicados à Costa da Caparica: “Lanços do Mar Que Arde, da Costa de Caparica à Fonte da Telha", em 2001 e "Caparica Doutros Tempos", em 2004.

Faleceu no dia 23 de Abril de 2013 com 80 anos.

A fotografia acima, retirada do livro, mostra a Praça da Liberdade onde começa a Rua dos Pescadores («bússola para definir ser ali o centro de todas as conversas, e ao mesmo tempo apontar: norte. Sul, mar, rocha, mata, praia, redes e barcos, quem pescou, que pexe, foi apanhado, na Costa ou Fonte da Telha, quem foi ou não foi ao mar»), rua que vai desembocar na praia, frente ao Atlântico.

Pode ainda ver-se a velha bomba de gasolina que trabalhava à manivela, na esquina o Café Papo Seco, uma maravilha de café, com bilhares do 1º andar e na Rua dos Pescadores também havia o Restaurante Capote, antes uma taberna com o mesmo nome:

Sim, Costa da Caparica de Outros Tempos.

OLHAR AS CAPAS


 Caparica Doutros Tempos

Serafim Félix Martins

Edição de Autor, 2004

Os pescadores, têm na rede a alma do seu traço, de trigueiros e sentimentais. Amam a família e a sua terra, são religiosos, aventureiros e trabalhadores. Gostam de conviver em grupo, costumam falar alto, ciosos dos seus próprios costumes.

Vestem camisa aos quadrados, calças cinzentas ou azuis, usam boné ao alto, e tamancos ou chinelos nos pés. Na praia, costumam andar descalços. Logo pela manhã, muito cedo, vão matar o bicho, a ver o mar. Cantam o fado nas tabernas ou nas tascas. O fado, está ligado ao mar e às suas ondas de solidão. Nasce a música, como eco distante da luta dos pescadores, durante a faina da pesca.

À noite, lá pelas tantas da madrugada, era vê-los na taberna do Capote a beber um copo com os Setentas sempre a dar o mote. Comem o gordo carapau assado e a famosa sardinha, também assada, a pingar no pão, acabada de tirar do fogareiro de barro, o carvão a atear junto à porta da rua. Não abdicam da sopa de pexe, petingas de alhada, massa no caldo, pexe de azeite e vinagre, caldeirada *à pescador. Só eles conhecem o segredo na preparação desta comida deliciosa.

OH! NÃO ME FUJAS!

Oh, não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua fermosura!
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da Fortuna a força dura.
Que imperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo?
O que tu só farás, não me fugindo.
 
Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo, e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que, nesses fios de ouro reluzente,
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?
 
Nesta esperança te vou seguindo:
Que ou tu não sofrerás o peso dela,
Ou na virtude de teu gesto lindo
Lhe mudarás a triste e dura estrela!
E se lhe mudar, não vás fugindo,
Que Amor te ferirá, gentil donzela,
E tu me esperarás, se Amor te fere;
E se me esperas, não há mais que espere!»
 
Já não fugia a bela Ninfa tanto,
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas lhe dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso de alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.
 
Oh, que famintos beijos na floresta!
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.

Excerto do Canto IX de Os Lusíadas

terça-feira, 9 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


O livro nunca vai acabar.

Bárbara Bulhosa, editora

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Ser «craque da bola» é o sonho de muitos jovens e das suas famílias, que nisso investem tempo e dinheiro. Mas poucos se tornam profissionais e só uma ínfima parte chega aos grandes clubes e às seleções.

Com base em entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e jogadores que são ou foram promessas do futebol português, este livro demonstra que talento e esforço não bastam para singrar. Há que ter a atitude certa. E a sorte é fundamental. 

Ao longo de 112 páginas, o autor cruza dados estatísticos, entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e futebolistas para analisar os fatores que influenciam o sucesso ou o insucesso de milhares de jovens que procuram chegar ao futebol profissional.

Acontece que no domingo fui ver o jogo de um dos meus netos, joga futebol de salão nos Reguilas de Tires, e o jogo era em Marvila.

As claques daqueles miúdos são os pais, as mães dos jogadores e algures não entendem que aquilo é um passar de tempo, um divertimento, e não uma luta, a roçar o palavreado violento, e provavelmente sonham que o filho poderá ser um Cristiano Ronaldo

Não é bonito, é mesmo muito feio.

Este livro de Rui Passos Rocha tenta mostrar as razões que por cada Eusébio, Ronaldo ou Vitinha, muitos jovens talentosos e tidos como futuras estrelas acabam em ligas amadoras ou no desemprego. Ser «craque da bola» é o sonho de muitos jovens e das suas famílias, que nisso investem tempo e dinheiro. Mas poucos se tornam profissionais e só uma ínfima parte chega aos grandes clubes e às seleções. Com base em entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e jogadores que são ou foram promessas do futebol português, este livro demonstra que talento e esforço não bastam para singrar.

Um amigo pintor, numa noite de bebedeira, contou ao escritor Manuel da Fonseca, que “quando chega domingo não há nada melhor do que ir para o futebol”.

Antes e depois de Abril, o futebol foi sempre uma arma utilizada pelos políticos para distrair a atenção popular, para a dividir, para lhe baixar o nível de exigência, aos políticos juntam-se os jornais, as televisões.

Durante os últimos dias, os 4 canais televisivos, por cabo, estiveram longas e longas e longas horas a discutirem a saída do treinador Mourinho do Benfica para o Real Madrid.

Gastariam todas essas horas – e não seriam necessárias tantas – a falarem de um livro, de um filme, de uma peça de teatro, de uma exposição?

Não!

Quando ouvem falar de cultura, fogem pela direita baixa.

O futebol é um espectáculo, não pode ser um mundo à parte, ou um espelho que reflicta a nossa mediocridade. 

OLHAR AS CAPAS


Promessas do Futebol

Rui Passos Rocha

Capa: Inês Sena

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, Maio de 2026

A pobreza pode levar vários atletas a alimentarem-se mal, ou obrigá-los a terem um trabalho (para além de tentarem o sonho do futebol). Podem ter de se deslocar em transportes públicos, o que afetará o seu tempo disponível, sobretudo se residirem em locais onde tais transportes sejam escassos ou demorados. Por outro lado, os jovens que vivem em casas mais pequenas e que, após as aulas, não têm atividades estruturadas ou sequer a presença de outros membros da família são aqueles que mais saem à rua nos seus bairros e mais tendem a pegar numa bola e jogar com os amigos.

TRUMPALHADAS


 Donald Trump foi assistir a um jogo da final de basquetebol.

Acabou vaiado,mas as vaias não impediram que adormecesse.

Alguém que adormece num jogo da NBA , adormece em qualquer sítio, a qualquer hora.

É o que acontecerá nas reuniões do governo, com as tragédias que, por causa disso, e não só, o mundo está a enfrentar.

Entretanto, o somali Omar Artan é um dos melhores árbitros de África nos últimos anos, estava entre os três juízes do continente para ajuizar encontros do Mundial'2026, mas não vai poder estar presente no certame que começa na próxima semana porque... os Estados Unidos lhe negaram a entrada no país.

NUM BOSQUE QUE DAS NINFAS SE HABITAVA

Num bosque que das ninfas se habitava,

Sibela, ninfa linda, andava um dia;

E, subida em uma árvore sombria,

as amarelas flores apanhava.

 

Cupido, que ali sempre costumava

a vir passar a sesta à sombra fria,

em um ramo o arco e setas que trazia,

antes que adormecesse, pendurava.

 

A ninfa, como idóneo tempo vira

para tamanha empresa, não dilata,

mas com as armas foge ao Moço esquivo.

 

As setas traz nos olhos, com que tira.

Ó pastores! fugi, que a todos mata,

senão a mim, que de matar-me vivo.


Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 8 de junho de 2026

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS

Mais Greguerías de Ramón Gómez de la Serna:

A estrela cadente é uma malha que cai na meia da noite.

Veneza e o lugar onde navegam violinos-

O relógio do capitão conta as ondas.

Trovão: queda de um baú pelas escadas do céu.

O capitalista é um senhor que, quando fala connosco, nos fica com os fósforos.

Depois de ajudar o cego a atravessar a rua, ficamos um pouco cegos e indecisos.

A lua é o espelhinho com que o sol se entretém de noite a inquietar os olhos da terra.

O gato olha para as visitas como se a conversa lhe desse sono.

O parafuso é um prego penteado com risco ao meio.

É na maneira de esmagar a beata no cinzeiro que se reconhecessem as mulheres cruéis.

O arco-íris é a fita que a natureza põe depois de ter lavado a cabeça

OLHAR AS CAPAS


As Pessoas de Minha Casa

Júlio Conrado

Capa: Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa, Novembro de 1984

Falando de homem para homem, isto ´r, de fantasma para fantasma, a massa de que eles se fazem tem que se lhe diga. No dia em que o o professor de Moral me perguntou se habitualmente fazia em privado cócegas na gaita, tinha com certeza um programa intenso: além da obrigação de assistir às aulas, poderia ter de declamar um soneto da minha autoria ou uma estrofe de Os Lusíadas, apalpar o cu à miúda da Cruz Quebrada, dizer olá, de longe, à minha querida, ouvir ressonar em inglês, jogar à bola – integrava a equipa da Linha, rival número um da de Lisboa – ouvir uma história edificante de elogio à pobreza, espreitar a vizinha, comer em pensamento, Liberta, devorar a Beta Humana, espremer-me em conformidade.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«O principal objectivo da nova PSU é rebaixar os mais desprotegidos. A medida tem uma carga moral absurda, que desestabiliza e obriga os beneficiários a trabalhar a troco de uma esmola. O Primeiro-Ministro explicou que é «para que as pessoas não se mantenham na armadilha da pobreza», e a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social continuou com o seu discurso cínico. A hipocrisia dos ricos é uma coisa atroz».

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

ESTÁ O LASCIVO E DOCE PASSARINHO

Está o lascivo e doce passarinho

co o biquinho as penas ordenando,

o verso sem medida, alegre e brando,

despedindo no rústico raminho.

 

O cruel caçador que do caminho

se vem, calado e manso desviando,

com pronta vista a seta endireitando,

lhe dá no Estígio lago eterno ninho.

 

Desta arte o coração, que livre andava

-posto que já de longe destinado -,

onde menos temia, foi ferido;

 

porque o Frecheiro cego me esperava,

para que me tomasse descuidado,

em vossos claros olhos escondido.

Luís de Camões em Sonetos

domingo, 7 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Andaram por aí notícias a contar das dificuldades de o povo chegar a praias em zonas de condomínios de luxo no concelho de Grândola, mas a ministra do Ambiente de Portugal declarou que o acesso ao areal é uma das prioridades para esta época balnear.

“As praias são de todos” e “para todos” disse a ministra e isso é o mote da abertura da época balnear.

os meus verões são tão diversos como diversa tem sido toda a minha vida arroz de pimentos e pasteis de bacalhau aos domingos até algés ou cruz quebrada, o mar da infância ficava longe castelos na areia anos mais tarde dois meses na trafaria em casa alugada a pescadores, quando as férias eram grandes uma juke box na esplanada do marques o lucho gatica a cantar o moliendo café o marino marini a cantar honeymoon também um barrote espetado no meio do areal, um alti-falante no topo a ouvir-se o armando marques ferreira a apresentar o programa da manhã do rádio clube português as canções das praias de todos os anos  kanimambo pelo joão maria tudela a lenda da conchinha da celly campelo o ouro negro setembro chegou vamo-nos separar os golfinhos a percorrer o tejo a caminho da barra os bailes de despedida dos banhistas no salão de festas dos bombeiros e agora senhoras minhas meus senhores o conjunto faz um pequeno intervalo damas ao bufete um enorme alguidar de zinco cheio de gelo e garrafas de vinho branco camilo alves, cada taça vinte e cinco tostões dois para a esquerda um para a direita directrizes para o pezudo que sempre fui as férias da infância não se repetem o ruy belo que esperava pelo verão como por outra vida depois passei a odiar, o verão dou-me muito mal com o calor longe muito longe da sophia que dizia que metade da vida dela era maresia e eu a acreditar baixinho que o verão é um território do pecado, todos os pecados se confundem e de pecados fujo a sete pés e gozar que nem um perdido com a marilyn monroe num filme do billy wilder a dizer ao vizinho de baixo que se vai vestir à cozinha, o vizinho na cozinha porquê e ela a dizer que no verão anda nua pela casa e põe as cuecas no congelador o verão prestes a chegar o meu pai a dizer-me que em setembro voltamos a ser gente e sempre sempre os gatos selvagens e o verão a chegar sur la plage por fim mas não como último sinal há longos anos que deixei de passar férias e apenas sinto que as férias é que passam por mim a uma velocidade tão louca e muito longe da calma e serenidade das férias do sr. hulot ou brigitte bardot em 1955 de biquíni em saint-tropez, aquele grande sorriso e o resto que poderá ser um refresco de limão, muito gelo um dedal de gin e lembrar-me ainda que nunca usei óculos de sol




DAR-LHES CRÉDITO E VIDA