domingo, 5 de julho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Iremos ter um outro dia de calor infernal.

Lembremos Julia Roberts e morangos

 Dizem que os morangos são a fruta símbolo de Vénus, a deusa do amor.

Iremos ter um outro dia de calor infernal.

Dizem também que o champanhe é o leite dos adultos, o néctar dos deuses.

Conta a lenda que Dom Perignon, depois de ter inventado o champanhe, chamou um outro monge e foi-lhe dizendo: Venha depressa provar! Estou a beber estrelas!

Uma cena inesquecível de Pretty Woman?

Quando Richard Gere oferece morangos à Julia Roberts.

 Ela olha interrogativa, e ele responde que os morangos realçam o sabor do champanhe.

Na questão deste pormenor há cepticos.

Quem realmente admita que os morangos realçam o sabor do champanhe, mas que não parece ser a melhor qualidade deste mundo possuir opiniões sólidas e infalíveis porque, se verdade existe na teoria, uma outra conduz-nos a que para que isso, de vero, aconteça, fica sempre a faltar a Julia Roberts…

David Gilmour, em O Clube de Cinema, diz ao filho:

Perguntei certa vez ao David Cronemberg se tinha alguns «prazeres inconfessáveis» em relação ao cinema – filmes que sabia não prestarem mas que adorava na mesma. Abri caminho à sua resposta admitindo ter um fraquinho por Um Sonho de Mulher (1990) com Julia Roberts. O filme não tem um único momento verosímil, mas é uma narrativa surpreendentemente eficaz, uma sucessão de cenas agradáveis que nos prendem até ao fim, depois de ficarmos agarrados àquela história tão idiota.

- Os canais de televisão cristãos – respondeu o Cronemberg sem hesitar.

Alago o fascinava naqueles evangelistas do Sul de cara inchada, a agarrar uma multidão.


Legenda: a cena do filme onde se fala dos morangos e do champanhe, não é bem a que podem ver, mas foi o mais perto que consegui encontrar…

  



sábado, 4 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Um amigo é um presente que damos a nós próprios.

Robert Louis Stevenson

Colaboração de Aida Santos

QUOTIDIANOS

De novo um apagão!

CONVERSANDO

Um dos meus primeiros patrões, um dia, disse-me:

 - Oh Aida, deixe-se de romantismos. Só há duas vidas: uma é boa a outra não presta.

Colaboração de Aida Santos

MÚSICA PELA MANHÃ


O nosso cancioneiro tem canções que percorrem os tempos, a Canção do Mar é uma delas.

Composta em 1955 com letra de Frederico Valério e música de Ferrer Trindade, conheceu diversas versões, não só em Portugal como no estrangeiro.

Amália Rodrigues cantou-a, com o título Solidão, no filme Os Amantes do Tejo.

Gravada por Dulce Pontes em 1993 para o seu álbum Lágrimas, teve a exigência do actor Richard Gere para que fosse colocada na banda sonora do Filme A Raiz do Medo.








sexta-feira, 3 de julho de 2026

À LUPA


Luís Montenegro deixou o trabalho a marinar em Lisboa para ir, até Toronto, ver a selecção.

«É disto que o meu povo gosta!»

LÍDIA JORGE É PRÉMIO CAMÕES


 Lídia Jorge é a vencedora da 38.ª edição do Prémio Camões, a mais importante distinção literária da língua portuguesa, com um valor pecuniário de 100 mil euros. A decisão foi tomada por unanimidade.

Aos 80 anos, Lídia Jorge é a décima mulher a receber o Prémio Camões.

Colaboração de Aida Santos

QUEM VIVE PARA O AMOR ESTÁ LIXADO

Quem vive para o amor está lixado

não tarda, que o amor é um amplo espaço

vazio sem cor nem forma e um silêncio

tumular por perto. Mau, muito mau

para se levar alguém. Mas tu vieste

e de imediato tudo fôra já decidido

como quando alguém nasce e olha em torno

— pouco importa se estranha ou não a paisagem.

Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos

a nós, um ao outro por natural companhia

era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer

disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Rui Caeiro

quinta-feira, 2 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Nunca o caminho percorrido é o mais acertado logo que reavemos a nossa capacidade de auto-critica e nos imaginamos pelo outro que não percorremos. O percurso que não fizemos é sempre melhor, e o melhor que teríamos feito, só porque se pensa que se se pensasse não se faria. Nós sabemos: somos um erro - mas a consciência disso isola-nos do erro alheio.

António Maria Lisboa

MARCADORES DE LIVROS



Colaboração de Aida Santos

LUTAS CITADINAS



Recorte do jornal de A Voz do Operário

SIMPLES GOTA

Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 1 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Não há dias cinzentos para quem sonha colorido.

De um azulejo em casa de amigos

Colaboração de Aida Santos      

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Vejam, revejam os filmes de François Truffaut no Nimas

Começam a amanhã e prolongam-se até ao dia 15 de Julho.

São péssimas as condições da sala do Nimas em Lisboa: alcatifa aos bocados espalhadas por aqui e por ali, alguma das cadeiras quando nos sentamos, rangem, parece que se vão partir, mas eu gosto de cinema e gosto de François Truffaut.


“Todos os filmes de Truffaut contêm um ou mais momentos (diferentes de acordo com a sensibilidade do espectador), que nos deixam uma recordação precisa, marcante e indelével, mesmo passados 20 ou 25 anos.”

Luc Moullet


 
A vida era o cinema
 
François Truffaut (1932-1984) marcou, como cineasta e como crítico, o cinema moderno. Fez parte do núcleo central da Nouvelle Vague, com Godard, Chabrol, Rivette e Rhomer, uma geração cinéfila, que começou pela crítica e pelo cineclubismo (Truffaut, ainda menor, fundou um cineclube, com o sugestivo nome de “Cercle Cinémane / Círculo Cinemaníaco”) e passou à realização sem frequentar a escola de cinema.
No início dos anos 80, com o grande sucesso de O Último Metro, chegou a ser considerado um “cineasta popular”, como o foram também, aliás, muitos dos realizadores que ele mais amava: Chaplin, Renoir, Hitchcock ou Lubitsch. Mas, e apesar da sua importância fundamental e de ter sido também ele um dos cineastas mais amados do seu tempo, os seus filmes, com raras excepções, têm sido, desde a que a Cinemateca os mostrou há vinte anos, menos vistos nas salas de cinema, eventualmente por razões de direitos. Finalmente restaurados, vamos poder vê-los de novo agora – e para uma nova geração de espectadores esta será uma oportunidade única – numa retrospectiva praticamente completa (só Fahrenheit 451 e A Noite Americana ficam, por enquanto, de fora).


Como epígrafe ao seu livro Os Filmes da Minha Vida, Truffaut escolheu uma afirmação de Orson Welles: “Creio que qualquer obra será boa na medida em que exprima o homem que a criou.” Os filmes de Truffaut, para quem a vida era o cinema, e por amor dele se perdeu e por amor dele se salvou, exprimem as suas complexidades e contradições, os seus entusiasmos e os seus medos. Num número temático que lhe dedicaram recentemente os Cahiers (onde foi crítico, apadrinhado por André Bazin, seu tutor e que exerceu junto dele – que crescera numa família complicada e fora um jovem marginal como alguns dos protagonistas das suas obras – o papel de figura paterna positiva), sublinha-se que “os seus filmes continuam a tocar-nos e a estimular-nos, ainda hoje, quase quarenta anos depois do seu desaparecimento precoce. […] Imperfeita, múltipla, lúdica e por vezes trágica, a sua obra não tem nada de um monumento. Pelo contrário, quando revemos os seus filmes, ficamos impressionados pela sua impureza, a sua invenção e o seu lado paradoxal. É uma obra viva, […] única na sua multiplicidade, cuja interpretação, aliás, tem variado ao longo das épocas.”


 Como sabemos, a história de qualquer arte, está constantemente a ser reescrita. E se a seguir à sua morte, depois de alguns dos sucessos de bilheteira, os Cahiers e outros vieram por sua vez reabilitar alguns dos filmes mais secretos, passionais, atravessados por correntes subterrâneas, hoje, quatro décadas volvidas, começa a redesenhar-se, pouco a pouco, um Truffaut mais solar, o dos filmes Disparem sobre o Pianista, Beijos Roubados ou Na Idade da Inocência. É tempo de redescobrir a sua obra e de lhe trazer novas interpretações.
 
Truffaut e os actores
 
“No cinema de François Truffaut, as actrizes e os actores ocupam um lugar absolutamente central. Eles são tanto a carne como o centro nervoso dos seus filmes. Desde a sua primeira longa-metragem, Os Quatrocentos Golpes, impõe um novo corpo, o de Jean-Pierre Léaud, que vai, ao longo do tempo, tornar-se o seu duplo. Juntos, inventarão uma nova forma de representar que navega entre o natural e a estilização. De filme em filme, Truffaut trabalha com os maiores actores e as maiores actrizes do seu tempo, de Charles Aznavour a Fanny Ardant, passando por Jeanne Moreau, Françoise Dorléac, Marie-France Pisier, Michael Lonsdale, Charles Denner, Delphine Seyrig, Catherine Deneuve, , Claude Jade, Jean-Paul Belmondo, Bernadette Lafont, Isabelle Adjani, Nathalie Baye, Gérard Depardieu, Jean-Louis Trintignant, etc. Em cada ocasião, o seu desafio consiste em integrar esses actores e actrizes de personalidade forte no seu mundo, sem, no entanto, fazer com que percam a sua singularidade.”


Cahiers du Cinéma
 
“Muitas vezes, os actores vivem as suas emoções e deixam-se levar por elas. O François sabia até onde nos poderia deixar ir, para depois voltar a pegar-nos, e nos segurar. […] Por exemplo, o fim das cenas deveria ser pontuado de modo preciso. E dizia: ‘É preciso encher o écran, ter gestos mais amplos, não abortar os movimentos’.”


Catherine Deneuve
 
“Com ele, era uma linguagem de paixão. Todos os actores dos filmes de Truffaut têm o tom Truffaut, inimitável. Basta ver o Léaud, ou o Denner: ‘Sim, então fazemos assim, hem, estás a ver?’. Para chegar a este tom, bastava escutá-lo, olhar para ele. […] O que ele fez com o Jean-Pierre Léaud, é absolutamente deslumbrante. Os seus filmes são uma espécie de cursos intensivos para jovens actores.”


Gérard Depardieu

Ver Programação aqui.

 

SOBRE AS ÁRVORES ENCOLHIDAS

Sobre as árvores encolhidas que gastavam
a ternura de tudo; severo,
o céu desajeitado avolumou-se.
Na testa do silêncio ao pé dos montes
as pedras adoecem entre o sangue
derrota que se imprime por palavras
se imite diminuta nos alqueives.
Sob a capa da terra e no alcance
dos dedos de fora inesperados
a rotura simples dum soluço
ferindo o estrume em breves plantas novas.
Ao longe o grito do abraço em pé
com as vergonhas cobertas de papel
os prumos os cabos o pão um ovo
o vinho deitado, aqui ao pé do choro.

Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

terça-feira, 30 de junho de 2026

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


  CANÇÕES DE BRUCE SPRINGSTEEN
  NA ESPLANADA DA CINEMATECA
                                                     

«Não é no cinema que pensamos quando se evoca o nome de Bruce Frederick Joseph Springsteen, nascido a 23 de Setembro de 1949 na pequena cidade de Long Branch, no estado de Nova Jérsia, bem perto de Nova Iorque mas do lado “errado”, do lado industrial e operário. Como é evidente, porque foi na música que ele se exprimiu, e foi através da música, dos vinte e um álbuns de estúdio que editou desde 1973 e Greetings from Asbury Park, N.J., que Bruce Springsteen se tornou uma das grandes figuras da cultural popular norte-americana. Hoje, quando já é septuagenário, adquiriu mesmo um estatuto ao alcance de muito poucos, pontuado por uma capacidade de intervenção pública e política que o tornam uma presença relevante dentro da sociedade norte-americana muito para além do domínio estritamente musical. Ou seja, não deve haver ninguém que tenha estado vivo nos últimos 50 anos a precisar que lhe apresentem Bruce Springsteen.
E este ciclo não é para isso, nem é para fazer a história de Springsteen. É para evocar um facto muito simples e muito incontestável: se não é no cinema que se pensa logo quando se fala de Springsteen, isso não quer dizer que Springsteen não pense no cinema, e que o cinema não pense em Springsteen. A cultura popular norte-americana é um sistema de vasos comunicantes, e já o vimos bem a propósito de Bob Dylan, quando (ainda antes do Nobel), dedicámos um vasto ciclo ao tortuoso labirinto da relação de Dylan com o cinema e do cinema com Dylan. É um pouco o mesmo jogo que praticamos agora com Springsteen, um jogo um pouco menos perverso, porque Springsteen, de certo modo, é uma versão franca, quase transparente, de Dylan, e porque bem menos perversa foi a sua relação com o cinema, mas não menos rica.
Porque sabemos a importância que o cinema teve enquanto inspiração de Springsteen, sobretudo no caso clássico do seu disco Nebraska, que começou a tomar uma forma no seu espírito depois de um visionamento do BADLANDS de Terrence Malick (sendo que “Badlands” é, justamente, o título de uma canção desse disco). Ou, no final dos anos 1990, o seu disco The Ghost of Tom Joad, que está perto de ser um “remake” musical do filme que John Ford extraiu ao romance de John Steinbeck.
O ciclo traz as inspirações de Springsteen, mas também traz Springsteen como inspiração. Outro caso clássico: STREETS OF FIRE, de Walter Hill, que em princípio seria um musical construido sobre as canções de Springsteen mas que, depois de um desentendimento entre o artista e a produção, deixou de ser, e ficou só o título. Ou ainda a curiosa obsessão de Peter Bogdanovich, que pretendia que a banda sonora de MASK fosse essencialmente composta por canções de Springsteen e, quando não o conseguiu, se “vingou” disseminando por TEXASVILLE, poucos anos depois, uma quantidade enorme de canções dele.
Investigamos neste ciclo, portanto, o trânsito em dois sentidos da relação Springsteen/cinema e cinema/Springsteen. A que não faltam, também, os paralelismos e os parentescos, os filmes nascidos e criados nos ambientes de Springsteen, que com ele podiam partilhar a sensibilidade, sobretudo os filmes que mostram e falam de Nova Jérsia, do subúrbio, da vida dos operários, dos “blue collars” – como quando, em COPLAND, James Mangold teve a intuição de pôr Sylvester Stallone (o homem do ROCKY ou de PARADISE ALLEY) em escuta das canções de Bruce.
Será um bom mês de esplanada, cinema e música. E como é Verão, nem falta uma piscina, a piscina da PALOMBELLA ROSSA de Nanni Moretti, onde um jogo de pólo aquático era interrompido para se ouvir, em ritual litúrgico, “I’m On Fire”.»

Programação aqui.

PERGUNTAS AOS ECONOMISTAS AOS MORALISTAS...

É tão bom ler os clássicos como Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett


«Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.»

NOTÍCIAS DO CIRCO

 A afirmação de mais um papagaio-falante-descoberta-dos canais-de notícias.

Começou na SIC. Ou na TVI?

Não importa, é aquele mundo de inutilidades.

Chama-se Sebastião Bugalho e o Público faz o retrato de palrador do PSD:

«Ao lado do busto de Francisco Sá Carneiro, na entrada da sede nacional do PSD, Sebastião Bugalho começou nesta segunda-feira a sua nova tarefa de porta-voz do partido. Com as bandeiras de Portugal, da União Europeia e do PSD atrás de si, o vice-presidente social-democrata anunciou que o grupo parlamentar vai chamar antigos governantes do PS ao Parlamento para explicar o aumento “sem precedente” da população estrangeira em Portugal revelado pela actualização das estatísticas oficiais do país. Sem detalhar a lista de personalidades que os deputados vão querer ouvir, “é natural” que José Luís Carneiro seja um dos nomes a ser chamado.»

Mais um contra os trabalhadores migrantes!

Numa qualquer pausa do vazio cerebral, não lhes dá para entender que esses trabalhadores são mesmo necessários, para nunca esquecer que são pagos miseravelmente por empresários sem qualquer ponta de escrúpulos, e explorados pelas redes de angariação laboral clandestina.

OLHAR AS CAPAS


Cartas a António de Azevedo Castelo Branco

Prefácio e notas de Adolfo Casais Monteiro

Antero de Quental

Edições Signo, Lisboa, Abril de 1942

A tua carta veio-me encontrar prostado sobre o leito dos antigos abatimentos, tão desgostoso e desalentado como se fosse a primeira vez que descobrisse no mundo misérias e tristezas e, sobre tudo, o seu grande vazio moral. Como custam a arrancar as últimas penas das asas da loucura ideal! Sabes como sou apreensivo, quasi até à mania. O mais pequeno sopro de desgosto levanta-me no espírito e encastela-me na alma um mundo de nuvens, de preocupações, de dúvidas, que n~ºao é possível mais ver um palmo de céu…

Eu TE GOSTO, VOCÊ ME GOSTA


Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 29 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo de mais aqui andamos a fingir de razões suficientes.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

Legenda: imagem Shorpy


OLHAR AS CAPAS


 Don McCullin

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Não gosto que me digam que sou um fotógrafo de guerra. Sou, simplesmente, um fotógrafo.

UM VERSO, PODE MUDAR O DIA


A Historia começou em Maio e chama-se «Um Verso, pode Mudar o Dia».
Que bom sabermos destas notícias, que bom encontrarmos poemas nas viagens que fazemos no metropolitano de Lisboa, nós que, de segunda a sexta-feira pelas 09,00 horas, colocamos nas pedras do cais, um poema:

«A poesia no Metro lembra-nos aquilo que a leitura pode fazer: inspirar e fazer parar.

Num momento improvável, num dia como todos os outros.

Esta nova iniciativa é um projeto que leva a leitura para dentro das carruagens, transformando o quotidiano das viagens num espaço de encontro com a palavra escrita. Há momentos em que uma palavra faz a diferença no nosso dia — e os versos têm esse poder.

Mais do que uma presença decorativa, os excertos literários agora visíveis nas carruagens foram pensados para surpreender, inspirar e criar um momento de pausa no ritmo acelerado do dia-a-dia. São textos que surgem sem aviso, mas que podem marcar — pela sua simplicidade, pela sua força ou pela forma como dialogam com quem os lê.

Os poemas e excertos apresentados resultam do envolvimento dos trabalhadores do Metro, que foram convidados a selecionar textos com significado pessoal. Esta dimensão colaborativa reforça a ligação entre a organização, a cultura e a experiência dos seus clientes.

A seleção final dos conteúdos contou com a curadoria de Manuela Pargana, Diretora de Departamento da Promoção da Leitura do EduQA, I.P., do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, assegurando a qualidade literária e a diversidade dos textos apresentados.

Esta ação pretende partilhar palavras que podem inspirar os nossos clientes.»

STATUS REPORT

sou comarca onde parou de chover

e quem não se lembra da sanguechuva

que foi em tempos este coração

 

já não tenho a vida toda (faço trinta

o mês que vem) e a verdade é que nem

na morte se pôde alguma vez confiar

 

muito mal contado, isso da morte

 

Miguel-Manso em Resumo: a poesia em 2010

domingo, 28 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Escolha um trabalho que ame e não terá de trabalhar um único dia da sua vida.

Confúcio