quinta-feira, 30 de julho de 2026

OLHAR AS CAPAS


 

A Morte Bateu à Porta

Rex Stout

Tradução: Maria Emíla Ferros Moura

Capa: A. Pedro

Colecção Vampiro nº 402

Livros do Brasil, Lisboa s/d

O telefone tocou. Voltei-me e atendi.

- Residência de Nero Wolf…

- Daqui Saul, Archie. Estou…

- Um momento. – pouse o auscultador e passei ao hall e de pois à cozinha, só depois me predispondo a escutar.

-Temos companhia. Okay. Dispara.

- Vão ter mais companhia. Fui levado ao tapete. Encontrei a minha adversária. Julie Jaquette. Daria uma semana de salário para saber se você teria sido capaz de resolver a situação. O problema reside parcialmente no facto de Nero Wolfe ser uma celebridade, assim o afirma, mas o problema principal são as orquídea. Se lhes mostrar as orquídeas, está disposto a contar-lhe a contar-lhe tudo sobre Isabel Kerr. A mim não me confessa a ponta de um corno. Nada de nada.

- Bom, bom. Acho que me teria levado uns dez minutos.

- Vá-se lixar. Falei numa semana de salário. Ela…

- One está?

- Numa cabine pública em Christopher Street. A do Tem Little Indians estava ocupada. Está a trabalhar, Fica livre às oito e depois das nove e dez às dez e um quarto.

- Então é simples. Traga-a às nove e dez.

- Simples, uma ova! Ouviu-se um estalido e desligou.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Portugal está preso num sistema de compadrio, com justiça lenta, reguladores capturados e um Estado que falha aos cidadãos. O diagnóstico é de James A. Robinson, Nobel da Economia, que, no estudo a que o JN teve acesso, deixa um aviso sério: sem reformas profundas, o país continuará a empobrecer face à Europa.»

Lido no Jornal de Notícias

OLHAR AS CAPAS


Quadras Populares

Fernando Pessoa

Selecção e introdução: Luísa Freire

Assírio & Alvim, Lisboa, Junho 1999


Cantigas de portugueses

São como barcos no mar —

Vão de uma alma para outra

Com riscos de naufragar.

 

Todos os dias que passam

Sem passares por aqui

São dias que me desgraçam

Por me privarem de ti.


O canário já não canta.
Não canta o canário já.
Aquilo que em ti me encanta
Talvez não me encantará.

A abanar o fogareiro
Ela corou do calor.
Ah, quem a fará corar
De um outro modo melhor!

A tua boca de riso
Parece olhar para a gente
Com um olhar que é preciso
Para saber que se sente.

A tua saia, que é curta,
Deixa-te a perna a mostrar:
Meu coração já se furta
A sentir sem eu pensar.

Ai, os pratos de arroz doce
Com as linhas de canela!
Ai a mão branca que os trouxe!
Ai essa mão ser a dela!

Tenho uma pena que escreve

Aquilo que eu sempre sinta.

Se é mentira, escreve leve.

Se é verdade, não tem tinta.


Saudades, só portugueses

Conseguem senti-las bem,

Porque têm essa palavra

Para dizer que as têm.

Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.


Rosmaninho que me deram,

Rosmaninho que darei,

Todo o mal que me fizeram

Será o bem que eu farei.

INFÂNCIA

Em Penamacor, podia tocar nas cabras e nas ovelhas dos rebanhos que passavam na rua. Eu estava convencida de que as cabras eram ásperas e as ovelhas macias. Toquei em cabras e em ovelhas. Era o contrário. As ovelhas eram ásperas e as cabras macias.

Li poemas meus na televisão quando tinha 11 anos. Foi a primeira vez que fui à televisão. Julgo que foi a 13 de Novembro de 1971. Na televisão deram-me um livro: Os Lusíadas de Luiz de Camões adaptação em prosa de João de Barros. Ainda hoje tenho esse livro.

Em criança, as pessoas em minha casa falavam muito da Avó Conceição. Gostavam muito dela. Era uma pessoa bondosa. Era minha bisavó. Não a conheci, morreu antes de eu nascer. Eu falava com ela para o Céu no telefone das bonecas. Sabia que estava morta e acreditava que estava no Céu. Não era uma brincadeira nem uma fantasia. Não falava com ela no telefone a sério. Ainda hoje sou assim. Ainda hoje faço coisas assim.

A Casimira era a empregada do consultório do meu Avô Raul. Vinha-nos visitar já muito velha. Parecia uma galinha de figo. Não estava boa da cabeça, dizia disparates e tinha visões. A Tia Paulina fazia troça da Casimira por ela estar maluca. A Tia Paulina também parecia uma galinha de figo.

Quando era pequena, batiam à campainha o cauteleiro que vendia o 13, o ceguinho que vendia sabonetes, a senhora que cheirava a chichi e que vendia agendas das missões, chamávamos-lhe a senhora do chichi ou a senhora dos rins. Não sei o nome dessas pessoas. Havia também o Sr. Amaro, que vendia ovos e queijos.

Em 1971 ou 1972, recebi um prémio literário. Foi uma bicicleta. O júri do prémio era a Fernanda de Castro. Eu tinha lido um romance dela de que tinha gostado muito, Maria da Lua. Fiquei muito contente com o prémio.

 

                                                                                                                                    30.3.13

Adília Lopes em Resumo: a poesia em 2013

quarta-feira, 29 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


A noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um útil e interessante documento sobre a censura em Portugal, publicado pelo Expresso e que assinala os 35 anos do nascimento do semanário.

A contra capa do livro assinala, quando o povo no 25 de Abril invadiu os escritórios da censura e destruíram documentos preciosíssimos sobre a nefasta censura.

A ignorância mata!

Em Portugal existiu censura: às imagens, às palavras, ao pensamento.

Em Novembro de 1945, Salazar disse:

«Declaro não ter nunca percebido esta incoerência que ninguém ainda me explicou claramente: por que motivo se exige atenta fiscalização dos géneros deteriorados – o arroz, o bacalhau, a manteiga – e se descura completamente a higiene do espírito, não a aceitando para os baixos sentimentos?

Conheci a censura. Mas, não tendo gosto pelas memórias ressentidas, só muito raramente falo dela. Ainda há pouco toquei nesse terror quando reli Os Demónios – não Os Possessos – na tradução do António Pescada, a quem tão grata sou por me ter permitido ler sem desconfiança os meus romances russos. Está nele incluído o capítulo que Dostoievski se viu forçado a retirar aquando da publicação. Escreveu um outro, totalmente diferente. E a chave do enigma respeitante à personagem principal caiu no lodo. «Que nunca mais, que nunca mais isto aconteça», é o voto que faz qualquer leitor. E, no entanto, está a acontecer.

Não pela força de um poder instituído e frequentemente muito estúpido, mas pela força de um poder massificado, igualmente estúpido, igualmente autorizado por um puritanismo executório. É uma polícia da opinião que não parece imposta e que se aloja no interior de cada um para desencorajar a ousadia, sendo que a ousadia não está hoje na infantil libertinagem sexual e sim no dar palavra e dar figura ao que o homem e a natureza têm de terrível, de necessário, de indomesticável. Dar a palavra ao que é inominável, afrontar o tabu, eis a tarefa.

Não podemos deixar que uma cruzada de higienização se estenda à arte.»

Hélia Correia

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


 O Que a Censura Cortou

José Pedro Castanheira

Prefácio: Francisco Pinto Balsemão

Capa: Rui Guerra

Expresso, Lisboa Abril de 2009

“Politicamente só existe o que o público sabe que existe»

                    António de Oliveira Salazar, 1933

“Sem censura, o salazarismo não duraria um mês”

                     Mário Soares, 1972

RETRATOS


«Nunca me engano e raramente tenho dúvidas»

Cavaco Silva

Legenda: fotografia de Daniel Blaufuks

ISTO NÃO È UMA CRÓNICA, É UM VOTO DE INDIGNAÇÂO

«Não perdoo à Igreja nunca ter pedido perdão aos portugueses pela sua colaboração activa com a Ditadura e as iniquidades decorrentes dela, a sua total indulgência, desde a primeira hora, com a injustiça, a crueldade, a desigualdade, a intolerância, os campos de concentração, a monstruosa polícia política, a violência da censura, o desprezo pelas mulheres, a guerra colonial, a perseguição aos estudantes, aos operários, aos camponeses, a desavergonhada defesa dos 
ricos, as missas para as criadas, as homilias em que exortavam à obediência aos patrões, a violência para com os sacerdotes e os bispos que ousaram levantar-se contra o Estado Novo, a forma como abençoaram as centenas de milhares de rapazes mandados para África combater as aspirações dos povos colonizados, mandando capelães abençoar aquele horror, apoiar aquele horror, santificar aquele horror


(eu estava lá e vi)

em nome da luta contra o comunismo ateu, em nome da defesa dos valores cristãos, em nome da tolerância, em nome de Cristo. Porque carga de água não tem sequer a simples dignidade de pedir desculpa? Porque carga de água finge esquecer-se? Porque carga de água este silêncio? Eu sou cristão e aprendi a ser fiel até à morte como está escrito no Livro e pergunto: como tem coragem de tocar na Bíblia, como tem coragem de ser hipócrita para com o Senhor? O capelão do meu batalhão em África era um pobre jesuíta que se queixava das instruções que o obrigavam a fazer a apologia do colonialismo em nome do Deus e não tenho a menor dúvida que Jesus o cuspiu da Sua boca. Porque não pede perdão por ter afastado tanta gente da Virtude com as suas atitudes, as suas homilias, até com a utilização ignóbil das pobres crianças de Fátima a quem Nossa Senhora pediu em português

(que outra língua saberiam elas?)

para rezarem pela conversão da Rússia comunista, elas que nem sabiam o que comunismo queria dizer, manobradas sem vergonha pela hierarquia eclesiástica. O que terá sofrido o nosso capelão

(Tenho de fazer isto, tenho de fazer isto, dizia ele)

obrigado a louvar a guerra santa, obrigado a prometer o Paraíso aos nossos mortos, criaturas inocentes condenadas a dois anos e tal de um sofrimento injusto. E a Igreja, passados mais de quarenta, permanece em silêncio, completamente alheada da sua culpa. Isto entende-se? Isto aceita-se? Isto apaga-se? Claro que os filhos das classes altas não iam para a guerra. Conheço filhos dessas classes altas poupados a África com desculpas inacreditáveis. Conheço os seus nomes e conheço as desculpas, desde “incompatibilidade psicológica com o Exército” (posso citar nomes) até “incontinência urinária” (posso citar nomes), até “pé chato” (posso citar nomes), até classificações aldrabadas durante a especialidade (posso citar nomes), e é impossível que a Igreja não soubesse disto. Soube, claro, colaborou. E até hoje nenhuma voz oficial dela se ergueu, nenhuma voz oficial dela protestou, nenhuma voz oficial dela pediu perdão a Portugal, nenhuma voz oficial dela pediu perdão aos portugueses, nunca os sucessivos cardeais roçaram sequer este assunto quanto mais falar nele. Pelo contrário: abençoaram o Estado Novo que perseguiu os sacerdotes que ousaram, ainda que só timidamente, levantar a voz contra isto tudo. Perseguiram-nos, expulsaram-nos fizeram-lhes a vida negra. Nem disso a Igreja a que pertenço tem vergonha? Um bocadinho de vergonha ao menos? Limitou-se a arranjar bispos castrenses que aceitaram, apadrinharam, foram cúmplices desta situação. Não temos uma Igreja de Cristo, temos, sob muitos aspectos, uma Igreja hipócrita e complacente. Cristo não foi nunca hipócrita nem complacente: Porque é que a Igreja portuguesa o é? Tenho o maior orgulho no meu País, não tenho o menor orgulho nesta Igreja. Se Cristo aqui estivesse vomitá-la-ia da sua boca por não ser fria nem quente. Meu Deus será que nem arrependimento existe? Será que pensa que a memória dos homens é curta? Será que pensa que os portugueses esquecem? Será que não se importa de ser vendilhão do Templo? Será que acredita que vai ficar impune aos olhos do Senhor? Será que imagina que o Senhor não sabe? Será que toma Deus por parvo? Será que cuida que São Paulo, por exemplo, não a varreria? Onde estão as palavras do Senhor? Os Seus ensinamentos? 
O Seu exemplo? Ainda que em linguagem aparentemente críptica Cristo foi sempre muito claro. E quem quiser ouvir que oiça. A ditadura acabou em 1974, há quarenta e três anos portanto. E nem uma voz até hoje? Nem um simples pedido de perdão, nem uma confissão fácil

– Errei

não existe nenhuma humildade honesta neste silêncio, não existe o simples assumir de uma culpa, de um erro formidável, de um silêncio indecente. Dói-me na alma que a minha Igreja, o meu Deus sejam amesquinhados e esquecidos pelos que se dizem Seus filhos. Tenho vergonha. Tenho nojo. Tenho pena de vós que pagareis por isto. Será que um simples pedido de desculpa não alivia a alma? Parece que não. Por isso, quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. Quereria um Homem Justo. Um Homem Justo bastava-me. Onde, na hierarquia da Igreja, da minha pobre Igreja, ele estará?»

António Lobo Antunes, crónica publicada na Visão 8 de Junho de 2017

DORME , MEU AMOR

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira em O Canto do Vento nos Ciprestes

terça-feira, 28 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que se passa na cabeça de um poeta? O mar da vida.

José Antunes Ribeiro

OLHARES


O ar estava quente, mas uma aragem vinha do mar, de vez em quando, trazer um pouco de fresco àqueles, poucos, que ainda passeavam depois da meia noite. Lisboa meio apagada, estava já a mergulhar no seu habitual torpor provinciano. Não era a capital dos grandes desfiles nocturnos. Deitavam-se cedo nos bairros pobres, faziam serão em casa, nos bairros ricos e era dia da semana. Decidi voltar apé, ao longo do Tejo.

Pierre Kyria em A Morte Branca

Legenda: fotografia de Daniel Blaufuks

NOTÍCIAS DO CIRCO

Fernando Albuquerque ainda é ministro da Educação.

Luís Neves ainda é ministro da Administração Interna

Luís Montenegro ainda é o primeiro-ministro e disse aos jornalistas que não vai de férias.

Thomas Jefferson disse que: «O melhor governa é o que não governa».

CONVERSANDO

Possivelmente…

Entre muitas outras coisas, deveria ter aprendido a jogar xadrez.

OLHAR AS CAPAS


Dicionário de Calão

Albino Lapa

Prefácio: Aquilino Ribeiro

Editorial Presença, Fevereiro de 1974

Chichar – Anotação nos livros escolares, nas entrelinhas ou às margens.

Chicarado – Embriagado. Acostumado a embebedar-se.

UMA LIÇÃO ANTES DE MORRER

Na esplanada vazia, para além de mim,

há só uma rapariga de blusa azul

e cabelo tomado pelo sol.

Bebe um sumo de cor vermelha

e lê um livro de capa vincada e escura.

É pouco? Há também esta luz

que não existe, que já passou, que não volta mais.


Luís Filipe Parrado em Resumo: a poesia em 2012

segunda-feira, 27 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Não tenho uma religião, um partido, um clube, uma escola literária, não sou de associações, mas de convívios, não sou de exclusões, mas de acrescento, tudo o que existe deve ser compreendido, pois faz da natureza, por mais estranho e diferente que possa parecer.

Natália Correia

Colaboração de Sara Santos

TRUMPALHADAS

«O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou este domingo o arranque de uma iniciativa para eliminar todos os vestígios de "ideologia marxista" das dezenas de museus, bibliotecas e coleções educativas que compõem o Instituto Smithsonian.

Trump justificou esta ação citando um relatório do Conselho de Política Nacional (Council on National Policy), o histórico "think tank" evangélico e ultraconservador criado durante a administração Reagan, na década de 1980, que acusa os dirigentes do Smithsonian, um dos maiores complexos culturais no mundo, de se tornarem bastiões de "ativismo político extremo enraizado no marxismo, com a intenção de dividir e desmoralizar os americanos".

Trump emitiu uma ordem executiva que instrui o diretor do Gabinete de Administração e Orçamento (Office of Management and Budget), Russell Vought, também ele um nacionalista convicto, a "restaurar a confiança no Instituto Smithsonian, usando todos os poderes disponíveis para a encorajar a corrigir os problemas identificados e a cumprir as leis, os requisitos de financiamento e as condições contratuais em vigor".

Por ordem do Presidente Trump, os museus Smithsonian devem exibir um aviso informando os visitantes sobre as conclusões do relatório como pré-requisito para a instalação de "exposições temporárias dedicadas a corrigir informações imprecisas".

"O Presidente Trump está empenhado em garantir que a história americana seja celebrada com precisão, imparcialidade e orgulho, honrando o notável progresso, a liberdade e o engenho que definem a nossa grande nação", acrescenta o comunicado da Casa Branca.»

Lido no Correio da Manhã de hoje.

CONVERSANDO


Gosto mais de vinho, de gin-tónico, de espumante do que de cerveja, mas um fininho cai sempre bem principalmente em dias de canícula, e é indispensável num bife da vazia, com ovo a cavalo e batatas fritas.

Há dias dei com este pedacinho:

«Em contrapartida, se me quiserem irritar, basta servirem-me um fino sem espuma. É como beber um champanhe sem uma boa perlage, aquele fiozinho de bolhinhas de gás a subir copo acima. A espuma é um elemento vital da cerveja: reduz a oxidação e ajuda a conservar a temperatura e os aromas. Não é coisa pouca.»

Também eu me irrito com uma cerveja sem espuma e peço sempre com 2 dedos da dita.

OLHAR AS CAPAS


Nada do Outro Mundo

Antonio Muñoz Molina

Tradução Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Colecção Mil Folhas nº 71

Público, Lisboa Setembro de 2003

Quem pode atrever-se a dizer que conhece Marráquexe se não presenciou a lentidão dos seus crepúsculos do terraço do hotel Savoy? A história que agora tenho de contar tem lá o seu princípio, numa tarde de Setembro, sob os agradáveis toldos do Verão, naquele lugar que parece a coberta de primeira de um privilegiado transatlântico.

MAR MENOR

Dançar comigo...

É irmos ambos meu amor, para tão longe

Até ninguém saber de nós nesta cidade

Amar-te...

É estar aqui enquanto a lua agora foge

Quando nas veias do meu sangue o fado arde

 

Dá-me um acordeão de cegos que me fale

Dá-me a noite que me saiba a madrugada

Irei adormecer num tango que me embale

Como vêm tombar os bêbados na escada

 

Dançar contigo...

É irmos meu amor, p`la noite fora

Sem sabermos se ainda é escura, se é já dia

Quero...

Eu quero um corpo que em meu corpo se demore

Quando no côncavo da mão o sol nascia

 

Dá-me um acordeão de cegos que me cante

Na praia desta colcha amarrotada

Fado, fado de amor que ao vente se levante

Mais que o teu sorriso, lua na almofada

 

António Lobo Antunes e Livro de Poemas

Colaboração de Aida Santos

domingo, 26 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO

E no teu rosto aberto sobre o mar
cada palavra era apenas o rumor
de um bando de gaivotas a passar.


Eugénio de Andrade

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS

Mais Greguerías de Ramón Gómez de la Serna: 

A felicidade consiste em ser-se um desgraçado que se sente feliz.

Aquele tipo tinha um tique, mas não tinha um taque – por isso não era relógio.

A civilização terá atingido um alto grau quando os gatos estiverem a ler revistas infantis nos portais.

O mar só vê viajar: ele nunca viajou.

A medicina oferece-se para curar dentro de cem anos os que estão agora a morrer.

A água não tem memória: por isso é tão limpa.

Há quem se reserve para dar esmolas aos pobres que houver à porta do céu.

O que acorda da sesta ao fim da tarde repara que lhe roubaram o dia enquanto dormia.

O arco-íris é o cachecol do céu.

As algas que dão á praia são os cabelos que as sereias arrancam ao pentearem-se.

Se ao morrer nos lembramos que já estivemos mortos antes de nascer.

O abraço tem alma de serpente, mas no final abranda.

O gato só admira o homem quando este mete mais lenha na chaminé

As lágrimas são tão efémeras que nenhuma chegou a ser diamante.

O cachimbo não arde: logo, se os homens fizessem as casas com madeira de cachimbo, haveria bombeiros a mais.

MÚSICA PELA MANHÃ

 Os Abba.

Amados e odiados, marcaram um tempo.

Colaboração de Aida Santos.




sábado, 25 de julho de 2026

SOLTAS


O livro cria (o) tempo.

Não é porque se tem tempo que se lê, é porque se lê que se recupera a relação do tempo.

Palavras e imagem encontradas na revista Somos Livros da Livraria Bertrand.

1.

Sistema Volta diz já ter recolhido 100 milhões de embalagens, mas não há dados oficiais
O Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) de embalagens de bebidas de uso único, que entrou em vigor em Portugal dia 10 de Abril, chegou esta semana aos 100 milhões invólucros de metal ou plástico devolvidos, segundo a entidade gestora SDR Portugal.

2.

A Autoridade Tributária e Aduaneira tinha, no final de 2025, mais de 10 mil milhões de euros em dívidas que não conseguia cobrar aos contribuintes e que declarou em falhas. O valor de dívida incobrável sobe há dez anos e atingiu um novo recorde em 2024 Cerca de 20 mil "devedores estratégicos" são responsáveis por 63% do montante perdido.

3.

«As câmaras gastam dinheiro em coisas absurdas. Há uma festa a toda a hora», disse João Maria Jonet ao Pùblico.
João Maria Jonet é muito crítico dos gastos das câmaras em “coisas absurdas”. Recentemente, uma proposta sua evitou que a Câmara de Cascais continuasse a dar “borlas fiscais” a empreendimentos de luxo. Nos últimos anos, já eram 13 milhões em taxas não cobradas. Juntamente com o voto do PS, acabaram por conseguir a abstenção do PSD e do Chega. O vereador também é contra o excesso de gastos com festas camarárias: “Há uma festa em todo o lado a toda hora.”

4.

 “Entre um velho e um cão, a esmagadora maioria escolhe o cão”.
“A velhice não é sexy”, e considera que o Estado está mais focado em arranjar “mais camas” em lares, em vez de proporcionar condições para o envelhecimento dentro de casa, que é o que a maioria dos mais velhos prefere, trabalha há muitos anos em lares de idosos e não tem dúvidas: “A entrada no lar é sinónimo de saída da sociedade”.
Carmen Garcia, enfermeira e cronista do Público.


5.

Os roubos feitos por carteiristas em Lisboa tiveram um aumento de 10% até Junho, em relação ao mesmo período do ano passado.