Fausto,
o alquimista genial, deixou-nos com 75 anos e ficámos muito desemparados. Ao
longo de mais de cinco décadas, firmou-se como marco fundamental da música
portuguesa, mergulhando nas raízes da música tradicional, apondo-lhe uma marca
autoral.
Há
semanas, Luís Eme, no seu blogue o Largo da Memória, trouxe-nos a lembrança
das canções de Fausto.
Apesar
de tudo, ainda há blogues e o Largo da Memória é o
mais antigo que frequento e já são muito poucos!
É
este o texto do Luís Eme, a fotografia também é de sua autoria:
«A frase que escolhi para título ("Atrás dos tempos vêm tempos e outros
tempos hão-de vir...”) deste pequeno texto faz parte de uma das canções do
Fausto. Escolhi-a porque é um retrato do mundo, andamos praticamente desde a
nossa existência a cometer os mesmos erros (por pior que sejam...), que acabam
por voltar sempre, de tempos a tempos...
Aparece sempre alguém,
capaz de inventar uma guerra qualquer, com um único objectivo, servir os seus
interesses pessoais, pouco preocupado com o rasto que deixa atrás de si, tanto
de gente assassinada ou mutilada como de cidades completamente destruídas...
Nem a invenção dos deuses e
das religiões apaziguaram esta ambição desmedida dos humanos...
Tenho à cabeceira um livro
há mais de dois meses, o "Diário" de Hélene Berr (escrito de 1942 a
1944), escrito em Paris durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, por
uma jovem judia francesa, que morreu pouco tempo antes da libertação, em
Auschwitz.
Não o leio todos os dias,
porque está longe de ser um testemunho agradável, por razões óbvias.
Há muitas partes do seu
testemunho que podiam ser transpostas para os dias de hoje, onde a indiferença,
se vai tornando reinante. Transcrevemos um exemplo sobre a actividade policial
em duas frases:
«Polícias que obedecem a
ordens expressas de ir prender um bebé de dois anos, a casa da ama, para a
internar! Eis a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda
absoluta de consciência moral em que caímos. É isto que é desesperante.»
E umas linhas mais abaixo:
«Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da
consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da
inanidade da nossa pretensa civilização.»
E não são precisas mais
palavras...»

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