cego
de ser raiz
imóvel
de me ascender caule
múltiplo
de ser folha
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo.
Mia Couto
cego
de ser raiz
imóvel
de me ascender caule
múltiplo
de ser folha
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo.
Mia Couto
Dona Alfredina, minha porteira, já me tinha dito que todas aquelas canções eram horrorosas, que nem nas festas da terra lá em Fratel, que ela diz ser a capital daa Beira Baixa. alguém teria o despautério de as ir cantar.
Os
Bandidos do Cante ganharam o Festival da Canção e vão à Eurovisão.
Ao
contrário dos outros sete concorrentes, que tinham declarado um boicote à
Eurovisão em protesto contra a manutenção de Israel no concurso, o grupo de
Beja já tinha indicado que, caso ganhasse, iria mesmo a Viena, Áustria, em
Maio.
Na
Esplanada o Dudu declarou que aquilo já estava tudo concertado. Era como as
«bolas quentes» dos sorteios da UEFA…
A
distinta RTP não permitiria que houvesse a vergonha de alguém, por causa de
Israel, não ir cantar ao festival!...
Casa Branca. Grupo de religiosos, alguns com as mãos nos ombros de Trump, rezam pela proteção do presidente, das forças armadas, da América. O vídeo foi compartilhado pelo vice-chefe de gabinete Dan Scavino.
1.
“Trump, olha-os nos
olhos”: jornal iraniano publica fotografias das crianças mortas no ataque a uma
escola.
A capa do jornal iraniano Tehran Times desta segunda-feira foi totalmente
preenchida com as fotografias de 100 crianças alegadamente mortas num ataque
contra uma escola no Sul do Irão, no dia 28 de Fevereiro. As fotografias são
acompanhadas da frase “Trump, olha-os nos olhos”, depois de nem os Estados
Unidos nem Israel terem assumido a autoria do ataque.
Mafalda Fidalgo no Público
2.
A
Índia anunciou uma distribuição prioritária de gás natural para consumo
doméstico e transportes, numa altura em que as perturbações no abastecimento
devido à guerra no Médio Oriente preocupam vários setores da economia.
O
país mais populoso do planeta, com cerca de 1,5 mil milhões de habitantes, é o
quarto maior importador mundial de gás natural liquefeito .
Uma
grande parte do gás natural consumido na Índia é proveniente do Qatar, cujas
unidades de produção foram atacadas pelo Irão desde o início da ofensiva
israelo-americana contra Teerão.
3.
Donald
Trump, manifestou o desagrado com a
eleição de Mojtaba Khamenei como líder supremo iraniano, para suceder ao pai,
Ali Khamenei, morto no início da ofensiva israel-americana contra o Irão.
Donald
Trump queria participar na escolha do novo líder de Teerão.
Israel determinou que o novo líder irá ser morto, esteja ele onde estiver.
4.
Definitivamente não é possível acreditar que as decisões de Donald Trump são tomadas com base nos princípios de racionalidade e da sensatez.
5.
Preço
do petróleo já está 25% acima do valor assumido pelo Governo Luís Montenegro no
Orçamento do Estado de 2026.
Vários analistas temem persistência do valor do barril na casa dos 80 dólares. Outros, mais pessimistas, atiram cenário para 100, 150 dólares ou mais.
Luís Montenegro:
"Tenho a certeza de que não me vou arrepender de nada do que fizemos nestes dias"
6.
Nas suas conferências de imprensa no Pentágono, Pete Hegseth diz que os Estados Unidos “estão decisivamente a ganhar a Operação Fúria Épica". O ataque "tem tido resultados incríveis e os Estados Unidos vão usar todo o tempo necessário para alcançarem os seus objevtivos, nunca houve a intenção de ser, uma luta justa. Nós estamos a atacá-los enquanto eles já estão caídos e é assim que deve ser”
7.
A
Administração Trump reuniu-se com executivos das maiores empresas de defesa dos
Estados Unidos na Casa Branca para discutir a aceleração da produção de
armamento, enquanto o Pentágono trabalha para reabastecer os stocks após os
ataques ao Irão e várias outras operações militares recentes,.
A
reunião sublinha a urgência sentida em Washington para reforçar os stocks de armamento,
depois da utilização intensiva de munições na operação no Irão. Desde que a
Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e Israel iniciou operações militares em Gaza,
os Estados Unidos forneceram milhares de milhões de dólares em sistemas de
artilharia, munições e mísseis antitanque. O conflito com o Irão consumiu, até
agora, um maior número de mísseis de longo alcance do que os que foram
fornecidos a Kiev.
«Há mais de quinze anos que sou testemunha de um labor apaixonante de Marie José Paz tem um labor apaixonante e secreto. Marie José recolhe todo o género de pequenos objectos e coisas atiradas fora, papéis de diferentes cores e texturas, fotografias (às vezes tiradas por ela própria: um centímetro de asfalto, um charco e o seu arquipélago de bolhas, um papel enrugado como a Serra Madre), ilustrações de livros e revistas, recados e bilhetes de transporte, programas de teatro, fósforos, etiquetas, maços de tabaco vazios – os resíduos e os despojos que cada dia abandona à vaga do tempo. A espuma das horas…»
Octavio Paz
Ceifa Vermelha
Dashiell Hammett
Tradução:
Fernanda Pinto Basto e António Sabler
Capa: João
Botelho
Colecção. Série
Negra nº 4
A Regra do Jogo,
Lisboa, 1979
Dum telefone da estação liguei para o Herald, pedi
para falar a Donald Willson e disse-lhe
que tinha chegado.
-Pode vir esta noite a minha casa às dez?
Tinha um voz viva, agradável.
- É no 2101 de Mountain Boulevard. Você toma um
eléctrico de Broadway, sai em Laurel Avenue e anda dois quarteirões para oeste.
Prometi lá ir ter. Fui direito ao Great Western Hotel,
larguei as malas e saí para dar uma volta pela cidade.
Não era uma cidade bonita. A maior parte dos
proprietários só cuidava da ostentação. Talvez tivesse resultado a princípio.
Entretanto as fundições, cujas altas chaminés de tijolo se destacavam da
montanha escura ao sul, tinham coberto tudo com a sujidade uniforme do seu fumo
amarelo.
Comovem-me ainda os
dias que se levantam
no deserto das nossas vidas.
Dos belos palácios da
saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.
Muito além, depois das
casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.
Aqui, tudo se resume a
algumas tâmaras que
secaram ao sol,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.
Comovem-me ainda as
palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.
Lembro-me sempre de ti.
José Agostinho Baptista
Marcelo
Rebelo de Sousa que, após dois mandatos, deixa Belém.
Dois
mandatos presidenciais com algumas sombras:
-
o caso das gémeas luso-brasileiras que levou a um corte de relações com um dos
seus filhos e transformou-se numa autêntica novela mexicana
-
o caso do encobrimento dos crimes sexuais da igreja.
-
o caso de, por uma birra, ter liquidado o governo de maioria absoluta de
António Costa, empurrando o país para eleições que resultariam nos
governos de Luís Montenegro.
Outros
casos de sombra existiram, mas estes foram marcantes.
Ficaram
os afectos, as selfies, Feiras do Livro, por Setembro, nos jardins do Palácio
de Belém.
Marcelo,
como presidente, quis ser um anti-Cavaco Silva.
Certamente, António José Seguro não vai querer ser um anti-Marcelo.
Tem um outro olhar, uma
outra pretensão para o cargo que agora inicia.
Espera-se...
Abecê da Negação
Urbano Tavares
Rodrigues
Capa. José
Araújo
Colecção O Campo
da Palavra nº 8
Editorial
Caminho, Lisboa, Janeiro de 1980
- Você é infeliz, Salvador. E não gosta da vida.
- Sei lá. Não posso queixar-me muito. Nunca passei
fome. Nunca estive desempregado. Nem preso. Tenho os meus livros, a minha luta,
os meus companheiros, a minha razão de viver.
Na mão de Deus, na sua
mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero
de Quental em Sonetos
Nota do Editor:
António Lobo Antunes, deixou algumas
disposições para o seu funeral: a leitura
deste soneto de Antero de Quental era
uma delas.
«Enviando-lhe Na Mão de Deus, desde
Vila do Conde a um amigo, escrevia-lhe
Antero: «O meu
pessimismo tem-se
desvanecido com esta vista contemplativa
no meio da boa natureza».
O
Inverno não dá muito para ir à Esplanada do Bairro. Mas eles estão lá, os
mesmos de sempre. Foi para saber o que já sabia: que a morte do escritor
António Lobo Antunes não tinha sido motivo de conversa, antes o
eterno-cansativo futebol, as guerrinhas entre os presidentes do Sporting e do
Porto, o próximo Benfica-Porto.
Nunca
esquecerá aquela tarde no RI5, sala de sargentos, hora do café-depois-do-almoço
e a conversa geral era a chegada às Caldas da Raínha da etapa que
acontecera meia hora antes, muitos tinham ver quando nesse preciso dia 21 de
Agosto de 1968 se soube da Operação Danúbio que mais não era
que a invasão soviética que marcou o principio do fim do que a história designa
por Primavera de Praga.
Ainda
hoje olha, solitário que ficou, as paredes da sala de sargentos com fotografias
da apologia da guerra, sem ter ninguém com quem abordar o acontecimento, que
não a etapa da Volta a Portugal.
Legenda: fachada do RI5 nas Caldas da Raínha.
Não, eu não sou malcriado. Conheci-o numa viagem ao Brasil. Apareceu aí uma brasileira que andou com um poeta e levou ao Brasil uma série de escritores, o Zé, o Fernando Assis Pacheco, o Saramago, o Egito Gonçalves, o Alexandre O’Neill, de quem fiquei amigo. Eu era o mais novo de todos. Eles estavam todos publicados no Brasil e eu não. No dia seguinte, aqueles velhos recebiam dez ou 15 cartas e eu zero. Nada. Com o Saramago nunca tive uma conversa. Nesse ano, era também o primeiro ano daquele grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e que o Zé ganhou com “Balada da Praia dos Cães”, contra o “Memorial do Convento”, e o Saramago ficou numa fúria. O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.»
António Lobo Antunes
Gostava de poesia.
Ninguém dizia versos como
ele, tal como disse Pedro, o irmão mais novo, nas exéquias nos Jerónimos.
Gostava de conhecer vozes
novas, quando descobriu o António Franco Alexandre, considerava-o um poeta
extraordinário, escreveu para o Público sobre ele, que não conhecia, nem
sabia quem era, o que fazia, mas pareceu-lhe um escritor de grande qualidade.
Lamentou muitas vezes não
ter sido poeta.
Mas era mesmo um poeta.
Algumas das suas crónicas
são verdadeiros poemas, o mesmo em relação a algumas páginas dos seus livros.
Mas foi escrevendo poesias
e a sua editora, em Outubro de 2002, publicou um livrinho de cantigas que
António Lobo Antunes dedicou a Vitorino:
«Ao Vitorino, para quem estas letrinhas foram
escritas, quase todas em toalhas de papel de restaurante».
Soube-se agora que a
editora publicará em livro, que já andava a preparar, poemas do António Lobo
Antunes.
O livro chama-se Poemas
e sairá em Abril.
Mas não só o Vitorino fez
das letrinhas canções, outros artistas o fizeram.
Serão a Música pela Manhã de hoje.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para
poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir
camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões;
de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam
possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os
filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a
quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos,
parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima
distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No
Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei,
saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se
piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma
bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à
Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã,
cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima
e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas,
alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as
costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres,
presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo,
foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez
tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal
doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e
morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me
dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação,
como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em
barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais
dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito
chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso
alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter
oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu
a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre,
tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de
limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num
boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se
narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente
em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente
acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por
essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta
atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da
guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis»
António Lobo Antunes em Livro de Crónicas 1º volume
De
que músicas, de que canções, gostava António Lobo Antunes?
Teria
que percorrer os livros para encontrar algumas citações, se é que as há, não
tenho grande memória mas também há que dizer que metade, ou mais, da minha
memória está em branco.
Apenas restavam as epígrafes, mas dos livros que a Biblioteca da Casa tem, encontrei duas: The Boxer do Paul Simon em Fado Alexandrino e Bob Dylan, em Auto dos Danados, por mor de uma citação de «11 Outlines Epitaphs» que é o título de um poema escrito no início dos anos 60.
Lonely? Ah yes
But it is the flowers and the mirrors
of flowers that now meet my
loneliness
an mine
shall be a strong
loneliness
dissolvin' deep
to the depths of my freedom
and that, then, shall
remain my song.
Assim sendo, como Músicas pela Manhã, teremos The Boxer de Paul Simon.
De Dylan ficaremos com The Times They Are a changing.
Sobre o
primeiro-ministro espanhol disse:
«Bonito, alto... Bem,
não sei muito sobre ele, exceto que está do lado certo da história.
Venho de um país onde
existe censura e repressão; por isso, ver a posição de Espanha é tão
significativo para o povo americano. Faz-nos sentir menos sozinhos.
O silêncio é muito perigoso. Devemos poder dizer o que pensamos sem sermos ameaçados de nunca mais trabalhar.»
Dos
jornais
A
semana, prestes a terminar, foi marcada pela loucura trumpiana, pela tentativa
do passismo, não se sabe bem como, a morte física de António Lobo Antunes, sim
porque os livros estão ali, naquela parte da estante, apenas à espera de serem
relidos uns, lidos outros.
Sobre
o passismo deverá ler-se o artigo de José Pacheco Pereira no Público de hoje.
«Seria bom que Passos
desse passos para entrar a todo o vapor na política partidária de uma forma mais
transparente do que o alimento cínico do sebastianismo».
Atente-se
nesta frase que marca os nossos dias:
«O bloqueio do elevador social em Portugal, como noutros países da Europa, foi um dos factores do ascenso do populismo e da extrema-direita».
Eu, que sempre achei que a arte, fosse a literatura ou a música, não servia
para rigorosamente nada, a não ser para ser arte (e isso é tudo), penso nestes
anos de fim do mundo, de atrocidades medonhas, em que se dizimam países, se
arrasam gerações, se contamina o planeta, com a exaltação vampírica e bélica
dos comentadores, que salivam em êxtase, que a literatura, não tendo
superpoderes para nos salvar, ao menos serve para nos confrontar com a nossa
própria humanidade. É o que nos distingue dos animais e da selvajaria: a
capacidade de criar, de imaginar outros mundos, outras vidas, de sermos um bocadinho
deus.
Como Lobo Antunes desprezaria estas pessoas, que, das suas cadeiras-gaming,
espumam beligerância, e discorrem sobre drones de combate e mísseis
hipersónicos. Ele que se arrepiava com os dedinhos ao alto a fazer aspas e com
a palavra viral. Que conviveu tão de perto com a morte, com o sofrimento,
alheio e próprio, sobreviveu a três cancros agressivos, tratamentos violentos de
quimioterapia, cirurgias, internamentos, a uma guerra colonial, à morte de
irmãos, amigos e companheiros de batalha. Ele que não suportava o ridículo
cheio de pose, a arrogância dos simplórios, mas tinha um carinho quase
ternurento pelo napperon em cima do televisor, pelas marquises dos subúrbios,
pelas viúvas solitárias que distribuem milho aos pombos. Enfadavam-no as
conversas intelectuais, pretensamente eruditas, não frequentava o meio
literário, recusava sentar-se com certos (quase todos) escritores portugueses à
mesma mesa, não suportava a mediocridade.
Lobo Antunes jogou a sua vida nos romances, também nas crónicas, que eram
extraordinárias, mas ele desvalorizava-as. Não gostava de falar delas, eram,
dizia, apenas um complemento ao orçamento doméstico. Não apreciava entrevistas,
mas não suportava que os jornais ignorassem o seu mais recente romance.
Entediavam-no as perguntas do costume, não admitia explicar os seus livros, não
assumia "técnicas literárias", nem "estruturas narrativas",
detestava "proezas literárias", misturava presente, passado e futuro,
porque estava convencido de que os tempos se cruzam e indistinguem, não falava
em personagens: eram vozes, que nos sopravam ao longo das linhas dos seus livros.
A força torrencial da sua linguagem alagava tudo, num emaranhado de vozes,
obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem,
atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num delírio caótico. Como uma
partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Dizia que o
jazz que o pai lhe dava a ouvir o ajudou no frasear, no seu trânsito poético,
que às vezes se suspende: "Não é cantilena para adormecer", dizia Maria
Alzira Seixo, "mas advertência para acordar. A frase não chega até ao fim.
A vida não chega…"
Gosto de pensar na sua escrita como um ecrã com várias janelas abertas, em que
um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em
simultâneo. Logo ele, que nem sabia abrir um computador e escreveu sempre em
caligrafia de formigueiro miniatural. Por isso, nas entrevistas, preferia
desconcertar o interlocutor, divergir em direcções improváveis, embaraçá-lo com
comentários provocadores, destilar ódio e simpatia em doses iguais, largar com
estrondo, em cima da mesa, um comentário brilhante, uma citação das tantas que
sabia de cor, sobretudo quando o gravador já estava desligado. No espaço de
meia hora conseguia ser superiormente inteligente, louco, enraivecido,
ternurento, tortuoso, filosófico, sedutor, cruel, vingativo, encantador… Sempre
irresistível.
Às vezes penso que ele próprio foi a mais fascinante personagem que criou. A
sua memória de baú sem fundo, a sua enorme atenção, que o acompanhou desde a
infância, atenção a tudo, aos detalhes ínfimos, a que mais ninguém reparava, às
frases literárias e brilhantes que reproduzia na parede do seu apartamento.
Algumas eram suas. Lembro-me de o ver seduzir plateias de centenas de pessoas.
De as ver ficar rendidas. De as desiludir também, com o seu ar négligé, misto
de fleuma altiva com indiferença estudada, meio distraído, ar de quem já nem
está ali naquele palco, porque se evadira para outro lugar, porventura, mais
interessante.
Era sempre uma forma de causar desalinho e um certo desconforto. Isso parecia
agradar-lhe. E o desalinho e desconforto foram matéria e material dos seus romances.
Queria que os livros agarrassem o leitor pelo pescoço, à bruta. E também, por
isso, eram maravilhosos e inigualáveis. Parecia gostar de se estar nas tintas,
porque tinha alcançado esse estatuto, se lhe apetecia dizia coisas
desagradáveis sobre Pessoa e Eça. Olhava para os melhores da literatura com
admiração e raiva e pensava: tenho de ser melhor que eles. Leitor insaciável:
se um dia não lesse era como se se vestisse sem tomar banho, comentava .
Lembro-me de lhe assistir a momentos de uma alacridade tão infantil e
contagiante, em que cantava em voz alta e recitava poemas, e a outros de
desdém, perante um público distinto que o homenageava: "Era tão bom que
esta gente lesse", segredou-me. Citava o general do século XVII
Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que
qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos
cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Talvez fosse o escritor que
conheci que mais se preocupava com a posteridade, mas negava-o: "O que me
interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma
caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo
nos salve, e de que… olhe, de que haja manhã…" E lembrava Hemingway:
"A morte pode destruir-me, mas não me mata."
Um dia perguntou-me: "Posso dizer-lhe uma coisa em off?" E fixou-me
com aquele olhar muito azul e muito sério: "Eu acho que nunca ninguém
escreveu como eu em Portugal… Mas é só uma opinião."
Não
relia os livros. Não gostava de falar sobre eles. Não sabia como escolhia os
títulos das suas obras. Não se achava vaidoso. Não gostava de crónicas. Não lia
notícias. Não quis ser nada mais do que escritor, apesar de ter sido também
psiquiatra. Não se interessava pelas elites. Não foi consensual. Não chegou a
receber o Nobel da Literatura. Não fugiu aos próprios traumas. Foi pelo “não”
que tantas e tantas vezes António Lobo Antunes se definiu em entrevistas ao
longo da vida, porque nunca estava satisfeito com nada.
Sónia Sapage no editorial do Público de hoje.
Ler
Nº 37 – Inverno
de 1997
Entrevista de
António Lobo Antunes
Capa: fotografia
de João Francisco Vilhena
Direcção
gráfica: Henrique Cayatte
Círculo de
Leitores, Lisboa s/d
Nunca li um livro meu.
Estou aqui como se te
procurasse
a fingir que não sei
aonde estás
queria tanto falar-te e
se falasse
dizer as coisas que não
sou capaz.
Dizer, eu sei lá, que
te perdi
por não saber achar-te
à minha beira
e na casa deserta então
morri
com a luz do teu sorriso
à cabeceira.
Queria tanto falar-te e
não consigo
explicar o que se
sofre, o que se sente
e perguntar como ao teu
retrato digo
se queres casar comigo
novamente…
António Lobo Antunes em Letrinhas de Cantigas
António Lobo Antunes de uma crónica na Visão.
Curiosamente,
a minha descoberta do escritor António Lobo Antunes nasce com uma entrevista di
jornalista Carlos Miranda e publicada em A Bola de 12 de Abril de 1980, em que
o autor quando o jornal não era o pasquim que hoje é, e em que Lobo Antunes declara
a sua loucura benfiquista ao ponto de se sentar nas bancadas de gorro e
bandeira.
Li
o livro, fiquei um entusiasta-mor de Lobo Antunes e comprei, mal punham pé em
escaparate de livraria, os que se seguiram.
Mas
à medida que foram sendo publicados ia também crescendo um certo esmorecimento.
Os
livros continuavam a ser bem escritos mas tornaram-se pouco
entusiasmantes.
Passei a demorar muito tempo para que terminasse um livro. Desde Exortação
aos Crocodilos que já não os acabo – e o que detesto não conseguir
acabar um livro!... – e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, uma
oferta natalícia, nem o iniciei.
O
novo livro chama-se Comissão das Lágrimas – Lobo Antunes
continua encontrar títulos felizes para os seus livros – e anda à volta do
período da vida política angolana, Março 1977, que envolveu Nito Alves e
Agostinho Neto.
Diz
quem já leu o livro, que Lobo Antunes continua a não fazer muita pesquisa
histórica apenas se orientando por vozes, vozes que lhe chegam, e com essas
vozes conta a história.
Não
irei comprar o livro e, como este Natal é um Natal negro, não dou prendas –
apenas a netaria está a salvo – e já declarei que também não as quero receber pelo
que nem sequer corro o risco de me ser oferecido.
Não
é que me orgulhe – nem pouco, nem muito - pela companhia, mas Clara Ferreira
Alves deixa cair, na revista Actual do Expresso,
palavras que compreendo muito bem:
Alguns livros são
ilegíveis, puro contorcionismo e acrobacia palavrosa, discursos e vozes sem
rumo nem identificação, narrativa sem estrutura, personagens apenas nomeadas
que nunca chegam a formar-se, muito menos a identificar-se fora da cabeça do
escritor. Ele sabe do que está a falar, os leitores. O escritor deixa os
livros.
Estas
palavras fazem-me lembrar o meu pai, quando dizia que, mal do escritore que tem
de ir a casa de cada leitor explicar o que escreveu, o que, no fundo, pretendeu
dizer.
Dentro
desta amargura gostaria de ressalvar que aprecia muito as crónicas do António
Lobo Antunes que as leio, com agrado e gosto, em jornais e revistas e depois,
mal sejam reunidas em livro, apresso-me a comprá-lo.
As
crónicas de António Lobo Antunes falam do quotidiano das gentes. Numa linguagem
simples (por vezes não tão simples quanto isso…), clara, bonita e terna.
É
pelas suas crónicas que ainda saúdo António Lobo Antunes.
Legenda:
pormenores – naquele tempo A Bola era um jornal de tamanho quase gigantesco,
e não deu para a minha nabice crónica o reproduzir.