sábado, 4 de abril de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


As gentes que Donald Trump escolheu para a sua governação, é tudo de última gaveta. A tal ponto que, como as coisas, agora, começam a correr mal, tratou de  despedir alguns e outros vão saindo pelo seu pé.

Entretanto com as suas leis, as suas guerras está a causar o caos no Mundo.

Trump, desde que se tornou presidente dos Estados Unidos, à custa de uma seita – MAGA - que consta de tudo o que de mau existe no país, entendeu tratar alguns  conflitos com uma meta de resolução apontada para 2 semanas, mas nada aconteceu e as semanas somam-se através dos dias de todas os dias.

Porque, no fundo dos fundos, Donald Trump  é um presidente que apenas quer realizar negociatas, adora bravatas e prémios, despreza o Congresso, o Senado, os Juízes, as Forças Armadas… o povo americano.

Bruce Springsteen não gosta de Trump, e, todos os dias, declara esse ódio.

Começou agora uma nova digressão - Land of Hope & Dreams American Tou que percorrerá as cidades americanas até 27 de Maio -, e começou a exercer o seu direito de crítica ao presidente, acusando a governação de ser corrupta, racista, incompetente, irresponsável e que a guerra contra o Irão é inconstitucional e ilegal.

Em reação, Donald Trump pediu ao eleitorado MAGA o boicote aos concertos de Springsteen e, nas redes sociais, chamou o cantor de medíocre e enfadonho que parece uma ameixa seca e, criticando a aparência física de Bruce, diz que o cantor sofreu as consequências de um cirurgião plástico incompetente, e sofre há muito tempo de uma síndrome de aversão a Trump horrível e incurável.

A música desta manhã não poderia ser outra que não algumas canções de Bruce.




SÁBADO DE ALELUIA


Sábado de Aleluia.

Hoje, pela manhã, é tempo de ir a um supermercado comprar, para os netos, um coelho grande de chocolate, com surpresa dentro, ovos de chocolate e gomas.

Dizer que e festa chocolateira não é só dos netos.

Chocolatedependente que sou, a posição primeira na grelha de partida para comer o coelho grande de chocolate, é minha.

Doce dependência, com o pormenor-escândalo-da-família, de que não se contenta, logo que uma chocolate de chocolate tablete é aberta, em comer um quadradinho, ficar a saboreá-lo de olhos fechados, enquanto se derrete na boca. 

Não! Tablete aberta, tablete consumida.

O resto, bom o resto logo se vê e aguardar as palavras do costume do médico de família quando olha as análises deste emocionalmente desequilibrado portador de angústias chocolateiras.

Talvez tenha lido que sem um toque de loucura não existem homens sensatos.

Mas de onde lhe vem o grito delicioso do chocolate?

Como quase tudo, terá que ir à infância.

Já contei isto, mas continuemos.

A caminho do Liceu Gil Vicente, na Graça, também para a casa da avó paterna na Rua Senhora do Monte, percorria toda a Rua da Penha de França, chegava a Sapadores, e aí estava a Fábrica de Chocolates Favorita e, neste ponto, socorre-se de Mário de Carvalho porque conta melhor do que eu, alguma vez possa, contar:

«Voltemos ao volutpuoso aroma de chocolate que descia por sobre o bairro e impregnava os ares, as casas, as roupas e nos punha logo bem dispostos, na nossa meninice voraz de guloseimas caras. Provinha ele da Fábrica Favorita que levantava na outra esquina, a sua arquitectura graciosa e robusta, mesmo ao lado de um jardim esconso e sombrio em que ficava a casa do arquitecto Raul Lino. Nos anos oitenta do século vinte, por contingências do mercado ou por gestão trapalhona, a velha Favorita fechou e ficou  para ali, abandonada. Aquela atmosfera adocicada e benigna dilui-se tristemente nas alturas e o bairro foi invadido pelos odores banais de Lisboa. Se não fosse a variação dos ventos, pesaria ali a fumarada dos escapes e outros eflúvios maléficos…

Na Lisboa tristonha e pobre desses tempos eram estes pequenos milagres que alegravam a nossa infância e deixaram um sorriso na memória.»

Guardo o cheiro a chocolate e também lembro, com uma nitidez deveras melancólica, os operários de ganga azul, as operárias de bata branca, a descerem a rampa para, depois do almoço na cantina da fábrica, irem beber o café nas pastelarias em redor, certamente a «A Mimosa da Graça»?

Este pormenor não consigo clarificar, mas o que lembro mesmo são os operários, elas de bata branca, eles de ganga azul.

Depois chegaria ao poema de Álvaro Campos:

«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida!»

Há também Chocolate um delicioso filme de Lasse Hallstrom, um conto de fadas maravilhoso pelos chocolates mas também – e não é aspecto de somenos – pela Juliette Binoche.

Li,  já não lembro onde, que é um filme para comer com os olhos.

E ficamos assim.

Ou melhor: ficamos com o Tom Hanks, na pele de Forrest Gump, sentado num banco, à espera de um autocarro e a dizer:

 «A vida é como uma caixa de bombons. Nunca sabemos o que nos espera…»

De resto fiquem a saber, que há poucos problemas que um chocolate não possa resolver.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

SEXTA-FEIRA SANTA

Numa sua crónica, João Bénard da Costa cita uma frase de Romano Guardini:

 «O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!»

 Tão pouco sabia Bénard da Costa porque de «há muito longo tempo» reteve a frase.

 E adiantava:

 «Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer pois que não tenho sustentação possível».

 Semana Santa.

 A entrada de Jesus em Jerusalém, a subida ao Monte Calvário, a morte e a Ressurreição.

 Vitória, cantam os cristãos católicos.

 Porquê?

 Dizem que é a vitória da vida sobre a morte.

 «Ninguém conseguirá jamais perceber esse mistério.»

 Ninguém!


Legenda: Pintura de Paul Gauguin

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de para em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.

José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Legenda: pintura de Rubens

A ÙLTIMA CEIA


 Segundo a tradição cristã, hoje é Sexta-feira Santa.

 A Igreja exorta os fiéis a que neste dia observem alguns sinais de penitência, em respeito e veneração pela morte de Cristo. Assim, convida-os à prática do jejum e da abstinência da carne e qualquer tipo de acto que se refira a Prazer.

 Jesus Cristo percorre a Via Sacra, também chamada Via Dolorosa.

 Pilatos pergunta ao povo que fazer com Jesus.

 A multidão responde: Que seja crucificado!

 Pôncio Pilatos, face à escolha do povo, lava as mãos.

 A escolha do povo é soberana.

 A História dos povos fala de todas as escolhas a que foram chamados.

 Os portugueses percorrem hoje, até quando não se sabe, a sua via dolorosa.

 D. Alfredina, minha porteira, diz que ouviu nos noticiários que muita gente, nestes dias pascais, ainda, conseguiu, ir de férias

 O Herman, quando era Herman, costumava dizer que a vida dos pobres é um espanto.

Legenda: A Última Ceia de Leonardo Da Vinci.

SEXTA-FEIRA SANTA

A conversa era sobre Deus,
embora o teólogo estivesse inclinado
a pensar que fosse sobre outra coisa,
pois era hora de jantar.
Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar.
Tinha devorado o pargo com honesto apetite
e elogiava as virtudes do cozinheiro.
Só Deus, algures, chorava sobre
os despojos da sua pequena criatura na travessa
a caminho da copa, antes da sobremesa.

Manuel António Pina de Atropelamento e Fuga em Poesia Reunida

quinta-feira, 2 de abril de 2026

RETRATOS


A Constituição de Abril faz hoje 50 anos.

Por tudo e por nada foram dias gloriosos.

Os dias da nossa Esperança.

Para sempre!


POEMA CONSTITUINTE

 

A Constituição constitui-se de homens e mulheres

cidadãos com a mesma

dignidade social

iguais perante a lei

 

A Constituição constitui-se de homens e mulheres

antes de se estruturar

em Títulos

Capítulos

Artigos

Alíneas

 

A Constituição constitui-se pela vontade popular

empenhada livremente

na transformação da sociedade portuguesa

numa sociedade sem classes

 

A Constituição constitui-se por dentro dos braços

e das cabeças

dos homens e das mulheres livres

que constroem o socialismo

dia a dia

antes de ele ser o Artigo 2.° da Constituição

pela via democrática

 

A Constituição constitui-se de avanços projectos e lutas

no coração

que não admite recuos

nem abdica

do futuro

 

A Constituição constitui-se da força organizativa

dos que acordam

todos os dias

com um novo intento de vive

porque possuem em si próprios

a soberania

una

indivisível

 

A Constituição constitui-se dos direitos dos trabalhadores

não distinguindo

idade raça religião

ideologia

com direito ao trabalho

e à retribuição

sem aviltamento

sem exploração

com direito

à existência condigna

à realização pessoal

à higiene e à saúde

à organização

à segurança

 à educação e à cultura

ao repouso

às comissões suas

de trabalhadores

defendendo esses seus interesses

e outros

 

A Constituição constitui-se de consciências livres

antes de se cristalizar

nas palavras e nas frases

num documento lei

 

A Constituição constitui-se da liberdade de escrever

essas palavras

da obrigatoriedade de cumpri-las

porque por longos anos circularam

interditas

no sangue livre

do povo soberano

 

Constituição constitui-se das palavras

com que se escrevem os poemas

(como este)

que todos têm direito

de produzir

exprimir

divulgar

já que pela palavra

são a criação do pensamento

pela imagem

são a materialização da comunicação

por todos os meios

são a circulação da informação

a que todos os homens e mulheres

têm direito

sem impedimentos

nem discriminações

 

E porque

todos esses direitos

não podem ser impedidos

por qualquer tipo

de censura

 

a voz soberana do povo

digno e verdadeiro

far-se-á ouvir

defendendo

e

constituindo a Constituição!

 

Poema escrito por E. M. de Melo e Castro, em 1979, por ocasião do 3º aniversário da Constituição da República Portuguesa.

Legenda: Deputados da Constituinte, no final da Sessão Solene dos 50 anos da Constituição realizada na Assembleia da República.

A fotografia é de Daniel Rocha e foi tirada do Público.

QUINTA-FEIRA SANTA


Definitivamente, não sei explicar mas, em tempo de Semana Santa, vêm-me sempre, mas sempre, à memória duas ou três coisas:

A parede do antigo Cinema Lys, a que estava voltada para a Avenida Almirante Reis, com os grandes cartazes de A Túnica de Henry Koster com o Richard Burton, a Jean Simmons, o Victor Mature.

A Emissora Nacional a interromper o silêncio radiofónico para transmitir os jogos de Hóquei em Patins do Torneio de Montreux.

 O Carlos Alberto que aparecia de gravata preta.

 Os putos da rua que éramos, perguntavam sempre do porquê, e a resposta também a sabíamos:

- Cristo morreu!

A minha avó apenas respeitava a quinta e a sexta-feira santas  e nesses dias não havia carne para ninguém.

Curiosamente, também não abundava nos outros dias.

Porque o pequeno mundo caseiro vivia do rol fiado do merceeiro, Francisco de seu nome, estabelecimento na esquina da Castelo Branco Saraiva com a Vila Gadanho. 

À LUPA

Leio espantado, completamente espantado:

 «A União Europeia condenou inequivocamente os ataques indiscriminados do Irão. Desde 28 de Fevereiro de 2026, e tem estado em contacto constante com dirigentes de todo o Médio Oriente e da Europa, solidarizando-se com os países atacados pelo Irão e apoiando as aspirações democráticas do povo iraniano.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, bem como a alta representante/vice-presidente, Kaja Kallas, reafirmaram o empenho da União Europeia na estabilidade regional, instando a

 

desescalada imediata e retenção máxima

protecção da população civil e das infra-estruturas civis

pleno respeito pela Carta das Nações Unidas

 

A posição da União Europeia E foi reiterada nas conclusões do Conselho Europeu de 19 de março de 2026, em que todos os 27 dirigentes condenaram os ataques do Irão, exigiram um cessar-fogo imediato e apelaram a uma moratória aos ataques às infraestruturas energéticas e hídricas.»

OLHAR AS CAPAS


As Minas de Salomão

Rider Haggard

Tradução: Eça de Queiroz

Capa: Lima de Freitas

Ilustrações: Will Nikeless e Peter Branfield

Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d

Agora que este livro está impresso, e em vésperas de correr o mundo largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para ele ser aceitável, muito lhe falta como estilo e como história. Enquanto à história, realmente, não pretendi nem tentei meter nestas páginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem à terra dos Cacuanas. Há, todavia, nesse estranho povo, coisas que mereciam exame detalhado e lento: a sua fauna, a sua flora, os seus costumes, o seu dialeto (tão aparentado com a língua dos Zulus), o magnífico sistema da sua organização militar, a sua arte subtil em trabalhar os metais... Que interessante estudo se faria, além disso, com as lendas que ouvi e colecionei acerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de Lu! Que curiosa, também, a tradição que entre eles se tem perpetuado sobre os «Silenciosos», os dois colossos que jazem à entrada das cavernas de Salomão! No entanto pareceu-me (e assim pensaram o barão Curtis e o capitão John) que seria mais eficaz contar a história a direito, e secamente, deixando todas estas particularidades sobre a região e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, num tomo especial, com minudência e largueza.

Resta-me, pois, implorar a benevolência para a minha tosca maneira de escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a pena e sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios literários. Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: não sei nem possuo autoridade para o decidir; mas, na minha bárbara ideia, as coisas sim decidir; mas, na minha bárbara ideia, as coisas simples são as mais impressionadoras e mais facilmente se deve acreditar e estimar o livro que venha escrito com séria e honesta singeleza. «Lança aguda não precisa brilho», diz um provérbio dos Cacuanas; e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha história, nua, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados galões da eloquência.

                                                            

                                                                         ALÃO QUARTELMAR

CULTIVO DOMÉSTICO

O cheiro da menta

no canteiro improvisado

entrou depressa demais

nos meus pulmões.

O ar tornou-se um silêncio incómodo

- pouco e frio. Essas palavras,

que íamos agora ouvir, a apagarem-se

diante dos meus olhos. E a acenderem-se

logo depois, debaixo das tuas pálpebras.

Os néons substituíram toda a mobília

Do quarto: já não a vejo.

 

Descobrimos a seguir os vapores

que se levantaram das minhas

mãos, até das chávenas vazias.

E calámo-nos.

Quase nada do que foi plantado

resistiu ao domínio da hortelã.

Os outros versos nunca chegaram a existir.

 

Margarida Ferra em Curso Intensivo de Jardinagem

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Uma parte dos livros da Biblioteca da Casa foi comprada em alfarrabistas, feiras, sejam do livro ou de ocasião.

Duas vezes por mês o meu pai reservava as tardes de sábado para uma visita ao Fausto, alfarrabista com porta aberta, a meio da Rua Angelina Vidal, lado esquerdo de quem desce.

Mais ou menos os alfarrabistas sabiam o que vendiam, e os preços estavam de acordo com esse saber. Hoje pedem exorbitâncias por qualquer livro e que eles compraram por tuta e meia e, na maior parte das vezes, nem sabem de que tratam os livros, quem são os autores.

Hoje, no que foi a excelente Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, encontra-se a Re-Read, uma cadeia de livros espanhola que tem por slogan: "Livros quase novos a preços quase impossíveis".

Compram livros por um preço pífio e depois colocam, alguns, a preços bastamente acessíveis.

Passo por lá volta e meia e trago sempre um ou mais livros.

Foi o caso deste livro do Lauro António que me ficou por 4 euros e que se encontrava em falta nas as muito boas colecções das Publicações Dom Quixote que fui adquirindo quando saíam e custavam  35 escudos, ao cambio de hoje seria 1 euro e 75 cêntimos.

O que acima se vê, é o recibo do então comprador-assinante, a 15 de Fevereiro de 1970 do livro do Lauro António e, curiosamente no topo pode ler-se:

Publicações Dom Quixote- Sociedade Editora Abecassis, Lda.

Trata-se de Snu Abecassis que a Wikipédia diz quem foi:

«Ebba Merete Seidenfaden, mais conhecida como Snu Abecassis, foi uma editora dinamarquesa. Fundou as Publicações Dom Quixote, editora que se notabilizou por publicar livros considerados de esquerda, com ideias contrárias à ditadura do Estado Novo.»

Mais:

« Filha de um casal de jornalistas dinamarqueses, Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen, desde pequena foi chamada de Snu, que quer dizer "esperta" na língua dinamarquesa.

Em 1961, casou-se com o português Alberto Vasco Abecassis. Mudou-se para Portugal passado um ano e aí nasceram os três filhos do casal: Mikaela Linea, Ricardo Fortunato e Rebecca Sofia. Em 1965, sob sua direção, foi fundada a editora Publicações Dom Quixote, em Lisboa.

Já em época pós-revolucionária, Ebba começou a relacionar-se com o também casado Francisco Sá Carneiro. Conseguiu divorciar-se de Abecassis, mas Sá Carneiro não conseguiu obter o divórcio. Apesar disso, começaram a viver juntos e também juntos vieram a morrer no dia 4 de dezembro de 1980, no acidente de Camarate, que para além de Snu e Sá Carneiro, vitimou Adelino Amaro da Costa. Isto quando os três se dirigiam para o encerramento da campanha presidencial de António Soares Carneiro. Snu contava então 40 anos de idade.»

Foi realmente uma excelente editora que, mercê de certas ligações ,se movimentava bem entre a clique da ditadura,  conseguindo coisas de esquerda que eram rigorosamente proibidas a outros editores.

Cada volume da Dom Quixote trazia estes postais de encomenda que outras editoras como a Seara Nova, a Portugália, as Publicações Europa-América também praticavam. 


OLHAR AS CAPAS


O Cinema Entre Nós

Lauro António

Colecção Cadernos de Cinema nº 8

Capa: Fernando Felgueiras

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1970

Rompendo o silêncio comprometido que a envolveu nos últimos anos, a Cinemateca Nacional iniciou em 21 de Março de 1968, um ciclo de exibições semanais subordinado ao título Os Filmes da Cinemateca, durante o qual projectou (sem qualquer critério que não fosse o enunciado no próprio título, ou seja: filmes que a Cinemateca guarda postos à disposição de todo o público galardoado com a sorte de um convite) algumas obras importantes na história da cinematografia mundial.

TODOS OS MEUS AMIGOS VIAJAM SEMPRE EM 1.ª CLASSE...

Todos os meus amigos viajam sempre em 1.ª classe…

Pelo menos levam a cabeça em 1.ª classe.

 

Do Universo, vêm ter comigo

E me dizem:

“O senhor não pode ir aqui,

“O seu lugar não é aqui,

“O senhor tem que ir para a 3.ª classe do seu corpo

“ o senhor tem que viajar onde os seus olhos dizem

Sim, porque esta é que é a verdade;

Os meus olhos dizem sempre:

3.ª classe, 3.ª classe. 3.ª classe…

 

Um dia tive uma rapariga

Pareceu-me que ela era como eu,

Que viajava em 3.ª classe.

Gostava dela porque era macia

E boa para tudo quanto vivia.

Gostava dela porque acendeu duas luzes

Na minha 3.ª classe sempre tão escura,

Sempre tão 3.ª classe.

E ela viajou comigo muitas horas

Brilhantes de 1.ª classe.

Mas não.

Não… de facto ela viajava comigo

Porque não tinha mais ninguém.

 

Mário-Henrique Leiria de Poesia Édita, Inédita e Dispersa em Poesia

terça-feira, 31 de março de 2026

SOLTAS


 António Bagão Félix é um apaixonado pela natureza, pelo seu Benfica, foi ministro e secretário em alguns governos de direita, é profundamente católico, aparenta um interessante sentido de humor.

Contudo, não me perguntem como apareceu por aqui esta ampulheta de palavras, apenas a reproduzo porque, nestes dias da loucura-trágica-da-guerras, achei piada.

1.

A Igreja Católica vai pagar, ao redor do mundo, muitos e milhões de euros às vítimas de abuso sexual perpetradas pelos seus padres.  

A Conferência Episcopal Portuguesa deu por concluído o processo de atribuição de compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais no âmbito da Igreja Católica em Portugal com a atribuição de entre nove mil e 45 mil euros a pelo menos 66 dos 78 pedidos elegíveis apresentados. Há 57 pedidos já totalmente finalizados e nove em fase de análise para definição do montante, além de um outro a aguardar decisão da Santa Sé. Os montantes já definidos são superiores a 1,6 milhões de euros. A associação que representa as vítimas diz que valores são “uma afronta”.

A face negra da igreja pelo mundo.

2.

Morreu Noelia Castillo, a espanhola de 25 anos tinha pedido morte medicamente assistida, depois de ter ficado paraplégica na sequência de uma tentativa de suicídio, e o pedido foi aceite em 2024, mas o processo arrastava-se devido a uma batalha legal com o pai. A eutanásia é legal em Espanha e foi o quarto país da União Europeia a legalizar a morte assistida.

Defender a morte assistida de quem já não pode viver bem não é defender a morte: é defender a vida. 

3.

Lisboa está um caos!

Carlos Moedas é um péssimo presidente de Câmara, mas acaba de contratar um “chef” para ter “refeições com serviço de qualidade superior” em eventos organizados pela Câmara e tem uma despesa de 33.600 euros + IVA e é válido por 2 anos.

Se soubessem disto, que diriam os sem-abrigo da cidade?

4.

Lifeboat, em português chamou-se Um Barco e Nove Destinos,  é um filme dirigido, em 1944, por Alfred Hitchcock e baseado numa história de John Steinbek. O realizador explicou que era um filme de guerra mas em que quis mostrar que havia duas forças no mundo: as democracias e o nazismo.

5.

Lemos e ouvimos que o estado de Israel é uma democracia.

Tomámos, agora, conhecimento, com profunda preocupação, do impedimento imposto pelas autoridades israelitas ao Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, de celebrar a missa de Domingo de Ramos no Santo Sepulcro, situação sem precedentes em séculos recentes.

A mesma democracia israelita  aprovou, também agora,  uma lei que torna a pena de morte a sentença padrão para palestinianos condenados por tribunais militares por ataques letais, concretizando assim uma das principais promessas dos aliados de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, como Itamar Ben-Gvir, que ocupa actualmente o cargo de ministro da Segurança Interna de Israel. há muito defende a pena de morte.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

Intitula-se  «Saramago e a escola que desiste de pensar», o artigo que Daniel dos Reis Nunes publica, hoje, no Público.


«Como professor, inquieta-me a velocidade e a intensidade com que tantas mudanças estão hoje a ser impostas à escola. A escola pública, em particular, vai-se transformando quase sem ruído, mas nem por isso de forma menos profunda. E é precisamente por isso que recuso a ideia de uma escola que, aos poucos, vá desistindo daquilo que lhe dá vida no essencial: a exigência, o debate e a construção do pensamento.»

OLHAR AS CAPAS


Na Jogada

William Riordan

Tradução: M. Ferreira

Capa: João Botelho

Colecção: Série Negra nº 1

A Regra do Jogo, Lisboa, 1979

- Pois é, Joe. Claro. Bom, sou eu que o tenho. Mal te reformes e depois de contares toda a história à comissão criminal e não te esqueças de que estão proibidos por lei de perseguir quem quer que seja incluindo tu próprio, pode rematá-la dizendo que eu o conservo em gelo no porão do iate. Ele sempre foi um grande viajante, não é?

Bem, meus senhores, é tudo. Nada mais tenho a dizer. 

MENINO

Em mim

a infância permanece,

tal num jardim

o canteiro se aquece

de rosas e alecrim.

 

De encontro ao velho muro

que ruir de ilusões!

 

E eu continuo

a ter medo do escuro

e a sonhar com ladroes!

 

Saul Dias

segunda-feira, 30 de março de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


«José Saramago pode deixar de ser um autor de leitura obrigatória no 12.º ano, podendo os professores escolher em alternativa uma obra de Mário de Carvalho. Esta é uma das alterações previstas na proposta de revisão das aprendizagens essenciais de Português, um documento do Ministério da Educação, que está em consulta pública até dia 28. Alunos do secundário devem ler 60 minutos por dia, ser capazes de interpretar, recriar e debater os textos que lêem e serão avaliados também pela postura e dicção nas apresentações orais.»

Inês Schreck no Público, 30 de Março

A posição da Fundação José Saramago:

«E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar.»

Com esta frase terminava José Saramago o seu discurso  de agradecimento do Prémio Nobel, a 10 de dezembro de 1998. A Fundação José Saramago considera conveniente recordá-la diante das notícias ontem tornadas públicas, relativas a uma possível alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano, que se encontra em consulta pública até ao dia 28 de abril.

A posição da Fundação José Saramago será sempre a de agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição. Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra “ou” pela palavra “e”, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores.

De qualquer forma, não podemos deixar de colocar duas questões:
— Qual o critério para esta alteração?
— Se esta alteração também abrangerá outros autores que integram o cânone da Literatura Portuguesa, colocando-os como de leitura sugerida e não obrigatória?

 

Lisboa, 30 de março de 2026

DO PECADO ORIGINAL

 “Lideramos a luta contra o wokismo. O CDS é o original"

Paulo Núncio, in Expresso, 19/03/2026


Se eu pudesse recrutar os bons ofícios deste destemido deputado, recrutá-lo-ia um dia para pôr ordem no meu jardim porque nele abundam as plantas hermafroditas. Aquele pequeno território não é governado pelas leis do binarismo e já várias vezes fiz esta pergunta: o que se passou no Jardim do Éden, que outros pecados nele foram cometidos para além daqueles em que caíram Adão e Eva? Terá o Jardim do Éden sido afinal a estação originária para orgulhosas manifestações do wokismo das plantas? Estamos aqui perante uma questão ideológica ou teológica? Se o CDS “é o original”, talvez o original deputado saiba muita coisa desconhecida sobre o pecado original.

António Guerreiro no Público de 27 de Março

OLHAR AS CAPAS


A Filha do Arcediago

Camilo Castelo Branco

Colecção: Livros de Bolso Europa-América nº 144

Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1977

Leitores! Se há verdade sobre a Terra, é o romance, que eu tenho a honra de oferecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de cenas, que se viram, que se realizaram, e deixaram de si vestígios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracteriza todas as cousas deste globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infalível sintoma de que o meu romance é o único verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu próximo, nem ando pelos salões atrás duma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas páginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

À LUPA

O presidenta da República convidou o escritor Francisco José Viegas para integrar a Casa Civil. Viegas, também jornalista e editor, foi, durante um ano, secretário de Estado da Cultura no Governo de Passos Coelho.

Como é sempre tarde quando se chora, entendeu que se ter metido a secretário de estado da cultura de um governo de Pedro Passos Coelhos foi uma péssima ideia.

Alguém que se diz de inteligência acima da média, evita cascas de banana nos passeios para não ter que invocar problemas de tensão arterial para evitar saídas pela direita baixa

Diz gostar de livros mas só os dos seus amigos e dos interesses livreiros dos mesmos de sempre.

António José Seguro escolheu pessimamente, ou foi mal aconselhado…

ROMANCE DE NÓS

Estou à beira do mar,
estou à beira de ti.
Ardem no meu olhar
os sonhos que não vi.
Tudo em nós foi naufrágio,
não quisemos saber:
fizemos nosso adágio
do que não pôde ser.
Que resta do amor
a quem é como nós?
Envergonha-me pôr
em verso: «somos sós;
sós como amanhecer
às avessas do mundo;
sós como podem ser
as areias no fundo;
somos sós e sabê-lo
é negar o pronome
que de nós fez novelo
e por nós se consome.

Luis Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

domingo, 29 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.

Vergílio Ferreira 

À LUPA


 Ateu que é, agradou-se com o Papa Francisco e admitiu que a bispalhada iria encontrar alguém com o sentir, com aquela luz, aquele sorriso de Francisco.

Mas não, não, não!

Arranjaram um carrancudo norte-americano, um papa à antiga, que vota no partido republicano e provavelmente amigo de Trump.

E Leão XIV, na sua primeira viagem à Europa, decidiu-se pelo principado do Mónaco, onde permaneceu nove horas.

Que faz um papa entre milionários jogadores de casinos, meretrizes, príncipes. sabe lá mais o quê?

Foi pedir esmolas para o Vaticano?

Foi pedir que ajudassem os pobres povos do mundo?