Num tempo em que
os nossos políticos são de uma pobreza franciscana, recorde-se Vasco Gonçalves.
Não por um qualquer tique passadista – saudades, só do futuro, como
diria o Zé Gomes Ferreira – mas numa tentativa, possivelmente vã, de com Vasco
Gonçalves lembrar que, após o 25 de Abril tivemos políticos de gabarito, inteligentes,
cultos, generosos, concorde-se ou não com eles: Mário Soares, Francisco Sá
Carneiro, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Melo
Antunes, Margarida Pintasilgo, outros mais.
«Insistiram muito em que eu estaria ligado ao Partido
Comunista porque eles sabem que em Portugal fazer uma política anticomunista é
rentável, pois os sentimentos de anticomunismo estão ainda profundamente
enraizados no nosso povo.»
(entrevista de Vasco Gonçalves à revista Hebbo em Outubro de 1975.).
Não, não somos
um país decente.
Ainda há dias,
na Assembleia da República, durante um voto de censura ao governo de Luís
Montenegro, provocado por «aquela coisa», o jornalista Eduardo Dâmaso escrevia:
«Afinal, o gato encontrou uma nova vida. A metáfora de
Ventura sobre Luís Neves saiu-lhe pela culatra. Neves, o gato, na retórica do
Chega, saiu reforçado da audição e da moção de censura. Luís Montenegro
desmanchou a estratégia do Chega dando a centralidade que lhe interessava ao
debate. Levou o bónus aos pensionistas, a promessa de descer o IRS até ao 6.º escalão,
falou do trabalho do governo nas várias frentes, encaixou a conversa no que
interessa aos portugueses, a sua vida e a estabilidade da governação. Rebentou
com o debate sobre Neves. Montenegro foi muito eficaz e esta foi a sua
verdadeira ‘rentrée’ no ano político. Pelo meio, ainda ganhou, também ele, um
bónus. Ficou a nu, impiedosamente, a fragilidade política do Chega, do discurso
e dos seus deputados, que acabaram por mostrar-se incapazes de superar o
primarismo argumentativo da comparação de Neves com traficantes, bandidos e
xerifes. Como se não bastasse, a cena final, de mau perdedor, com a gritaria
instalada no parlamento, mostrou ainda como os profetas da pureza originária,
que querem “limpar” e “salvar” Portugal, só gostam da democracia quando ganham
e podem confundir isso, sem limites, com a humilhação do adversário. Ontem,
correu-lhes mal. Pelo resultado mas, sobretudo, pela exibição.»