Milhares
de mães não desculpam a Igreja por ter passado o Dia da Mãe de 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição,
para o primeiro domingo de Maio.
Segundo
o Instituto Nacional de Estatistica, o
número de crianças nascidas em Portugal aumentou 3,7% no ano passado, para
87.764, sendo que cerca de um terço dos bebés são filhos de mães estrangeiras.
anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).
«O meu ponto é apenas chamar a atenção para um facto
chocante. Há quatro anos, convocados a escolher entre Montenegro e Moreira da
Silva para liderar o PSD, 26.975 militantes não hesitaram e votaram
massivamente no agora primeiro-ministro. O resultado foi claro: 72,5% para
Montenegro e uns curtos 27,5% para Moreira da Silva.
Há um fosso que separa Moreira da Silva de Montenegro: um tem carreira
profissional, percurso internacional (na Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico e, agora, na Organização das Nações Unidas) e
experiência governativa; o outro tem um passado apenas tribunício,
complementado, sabemos agora, pela promoção de uma empresa familiar com uma
carteira de clientes intimamente ligada ao seu percurso partidário regional.
Porque escolheram, então, os militantes do PSD Montenegro? Não foi certamente
por questões de posicionamento ideológico: Montenegro opunha-se a Rio, mas
escolheu para coordenar a sua moção o autor da moção do anterior líder, o agora
ministro Miranda Sarmento. Os motivos são outros. No que é uma lei de ferro, os
partidos de poder fecharam-se, desligaram-se da sociedade, não estão
interessados em líderes com percursos autónomos, e os critérios que organizam
as escolhas internas dependem de uma teia de cumplicidades irrelevante — quando
não perniciosa — para a governação, mas decisiva para conquistar o aparelho.
O desfecho não poderia ser outro: entre Moreira da Silva e Montenegro, a
escolha foi clara. Não surpreende, depois, que os resultados sejam os que se
veem — sobre Gaza, sobre Trump e Putin, e na governação do país.»
Será Bella Ciao,
ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda
Conta a
Wikipédia:
«"Bella
Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino
global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani
contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a
letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que
antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»
A provável letra original da canção tem como
tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:
Stamattina mi
sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato
I'invasor!
A lavorare
laggiù in risaia
Sotto il sol che
picchia giù!
E tra gli
insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi
tocca far!
Il capo in piedi
col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a
lavorar!
Lavoro infame,
per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a
consumar!
Ma verrà il
giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in
libertà!
Tradução em
português
Esta manhã, eu
me levantei, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, esta manhã, eu me levantei
e encontrei um
invasor!
Para trabalhar
lá no arrozal, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal
Sob o sol que
nos derruba!
E entre os
insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,
Um trabalho
pesado que tenho que fazer!
O chefe está de
pé com uma vara, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! O chefe está de pé com uma vara
E nós curvados a
trabalhar!
Trabalhe infame,
por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro
E tua vida a
consumir!
Mas chegará o
dia em que todos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,
trabalharemos em
liberdade!
A versão
partigiana
Stamattina mi
sono alzato,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi
sono alzato,
ed ho trovato
l'invasor.
O partigiano,
portami via,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano,
portami via,
ché mi sento di
morir.
Se io muoio da
partigiano,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da
partigiano,
tu mi devi
seppellir.
E seppellire
sulla montagna,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire
sulla montagna,
sotto l'ombra di
un bel fior.
E le genti che
passeranno,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che
passeranno,
Ti diranno «Che
bel fior!»
«Questo fiore
del partigiano»,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore
del partigiano,
morto per la
libertà!»
Tradução em
português
Nesta tradução,
a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe
a um invasor externo ou a um exército de ocupação.
OS
MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE
Se
agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria
que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra
bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25
não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de
Maio.
Dirá
então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer -
obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava.
Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de
miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias
luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.
Já
foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os
pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em
Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem
diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos
políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores
querem voltar e pedem amnistia,
Tomás
e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras
brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.
Neste
dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os
portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de
Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.
Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o
assinalar,
se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra
bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.
De repente, recordo-me
de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha
maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava
em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.
É
o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.
Ultimamente
tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma
Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.
Conhece-lhes
a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as
dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o
ímpeto de escrever como fuga à morte.
Correndo
atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro
livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me
interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais
devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha
eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a
eternidade de cada um de nós».
Liberdade e Paixão começa assim:
«Faz
com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a
ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a
rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o
cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as
roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência
de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo
do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas
nos caminhos».
Marguerite
Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura
fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.
«Não lhe interessam os
aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos,
ignorantes.»
«Aí está! Morrerei
cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados
gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também
me ensinaram que não valho quase nada.»
Das
dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias,
Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.
Yourcenar
conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios
extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito
nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir.
Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta
teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»
Há
gentes assim, repletas de loucas magias.
Lembro
o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em
mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».
Um
dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:
«Na América vivia numa
casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à
água.»
Tempo
de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:
«A partir de certa
idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os
apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»
Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.
Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo,
variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador
e uma capacidade sempre esfomeada por livros.
O actor Jimmy Kimmel,
dois dias antes dos disparos no Hotel Hilton contra Trump & Cª, no seu
programa televisivo de humor, fez uma piada ao casal Trump.
O monólogo do comediante teve um sketch em que se simulava a presença do
Presidente e da primeira-dama no Jantar de Correspondentes da Casa Branca, e
nele o humorista saudou ficcionalmente a beleza da primeira-dama dizendo —“Sra.
Trump, tem um brilho como uma viúva de esperanças, ou se quiserem viúva
expectante".
No dia seguinte
ao interrompido jantar, Melania Trump escreveu no X que Kimmel é “cobarde” e
que a ABC devia tomar medidas, por seu turno Trump na sua rede TruthSocial que a piada de
Jimmy Kimmel foi um "apelo à violência", rematando que deveria ser
imediatamente despedido pela Disney e pela ABC.»
Jimmy Kimmel respondeu ao casal Trump esclarecendo que a piada pré-tiroteio “não
foi um apelo ao assassinato e eles sabem”
“Obviamente, era uma piada sobre a diferença de idades entre eles e a expressão
de alegria que vemos no rosto dela sempre que estão juntos. Era uma brincadeira
leve sobre o facto de ele ter quase 80 anos e ela ser mais nova do que eu. Não
era — de todo — um apelo ao assassinato."
Trump para além
de inculto e estupido, é um tipo indecente que nem sequer tem uma pontinha que
seja de sentido de humor.
Abençoados
cidadãos norte-americanos que presentearam o mundo com semelhante aberração!
«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O
Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume destes Cadernos. Melhor do que
outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter
compreendido porquê e para quem ando eu a escrever estas sinceridades. Ao
postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção
de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça
o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando
os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver
com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em
Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de
literatos marginais e de escritores malditos que nem chegam aos calcanhares
do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes
expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado permanece desconhecida
fora das fronteiras.»
«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa,
talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo
aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são
certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido por Luís Pacheco é ser vacinado contra o
grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a
metro para os prémios e outros afins.
Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e
do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito
sendo muito feliz.»
João Carlos
Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos
«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»
Luiz Pacheco
numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005
«Depois de o primeiro-ministro israelita ter pedido
desculpas publicamente e garantir que se tratava de um comportamento indigno
para um militar de Israel, o soldado que, no Líbano, destruiu uma estátua de
Jesus Cristo à marretada e o outro que fotografou o acontecimento, foram
condenados a 30 dias de prisão e “excluídos de operações de combate”.
Segundo a BBC,
Benjamin Netanyahu mostrou-se “chocado e triste” pelo incidente, enquanto o seu
ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, pediu desculpas a “todos os
cristãos que se sentiram ofendidos”.
Com tantos milhares de crianças mortas em Gaza, no Líbano e no Irão, atingidas
pelas bombas e balas de Israel, cujas forças armadas se arrogam o direito de
atingir escolas, hospitais, ambulâncias, jornalistas, de matar e matar civis
desarmados como se fossem alvos de prática de tiro, “a indignação e a tristeza”
de Israel está reservada a uma estátua de Jesus Cristo?
Não é porque ao Governo mais extremista de Israel lhe importe muito os
sentimentos dos cristãos – em 2023, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança
Nacional israelita, dizia que cuspir em cristãos era uma velha tradição
judaica. O que importa ao Estado de Israel é não alienar o apoio do seu melhor
amigo nas relações internacionais, a superpotência que lhe vende armas e lhe
empresta a sua sombrinha política internacional para fazer o que quiser.
Num tempo de falta de memória e de passado reescrito ou esquecido, o Governo de
Israel e os judeus que o apoiam estão sempre a cometer o pecado da arrogância
de se olvidarem das lições da História. Porque se é longa a tradição
judaico-cristã, base da civilização ocidental, como tanto dizem, os judeus
esquecem-se que, quando é preciso um bode expiatório, o hífen se quebra como um
cristal e os judeus terminam pendurados de uma árvore como Leo Frank, enforcado
por uma turba muito americana que o foi buscar à cela.
Mesmo com a II Guerra Mundial e o nazismo, entre 1940 e 1946, várias sondagens
mostravam que os judeus eram considerados a maior ameaça para os Estados
Unidos, mais do que qualquer outra religião, raça, etnia, nacionalidade.»
António
Rodrigues no Público de 24 de Abril de 2026
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
José Carlos Ary dos Santos
No Público de hoje pode ler-se que «a
Administração Trump assegurou um nível de segurança inferior para o jantar dos
correspondentes da Casa Branca ao garantido em outros encontros que contaram
com a presença das principais figuras governamentais, apesar de o Presidente e
muitos membros do executivo dos Estados Unidos estarem presentes.»
Nestas coisas
trumpianas fica sempre a grande dúvida:
Encenação?
Bluff?
Oportunidade
para Trump dizer que nada disto aconteceria, na Casa Branca, se não tivessem
interrompido as obras no salão de baile?
Publicação
patrocinada pelo Ateneu Cooperativo e por algumas cooperativas de consumo e
produção, Lisboa, Março de 1964.
Não se quer ganhar, quer-se servir; não interessa por
conseguinte tirar qualquer lucro para amontoar nos cofres ou para desbaratar
irregularmente mais tarde. É uma instituição honesta onde as coisas se fazem
com lisura e seriedade.
««1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de
Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de
um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um
prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto
andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar,
que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior
como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que
penso todos os dias é que a uma rua de mim vive o Vitor Silva Tavares.
2. Houve uma era, já depois do paleozóico, em que
existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de
negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da
fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas
editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto
aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas
escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito
do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).
3. (Ele diria cartinhas, porque nisso é como os
mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão
legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos
para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)
4. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro,
tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse
assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais
antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não
alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o
seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora,
é uma morada: & etc, rua da Emenda, 30, cave 3.
5. Vem tudo isto a propósito do livro “&etc
— uma editora no subterrâneo”, iniciativa da livraria Letra Livre,
coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca,
para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado,
como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de
interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na
versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e
outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição
de “O Bispo de Beja”. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma
reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não
haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados:
conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para
os destruir.
6. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o
primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares.
Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá
trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem
alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o
livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que
consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc
reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de
arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e
a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os
títulos têm apenas uma edição, com excepção única para ‘O Bispo de Beja’, obra
apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os
autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais;
a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para
todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa
de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer
apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção
do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos
ou ofertas aos críticos.”
7. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita
colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e
desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos
de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um
homem livre.
Alexandra Lucas
Coelho, Público, 24 de Novembro de 2013
(Texto
publicado, por aqui, em 16 de Outubro de 2015).
A julgar pelas reacções internas recolhidas pelo
Público não há vontade nem contexto para que Pedro Nuno possa reassumir a
liderança do PS, o que reduz consideravelmente as suas opções políticas.
Na Biblioteca da Casa não existem mais volumes da
Colecção Poetas de Hoje, publicada pela Portugália, secção que iniciámos no dia
8 de «Março de 2025 e que concluímos no dia 18 de Abril de 2026.
Mas encontrei, num velho número da revista Ler esta ilustração, da autoria de Luís
Miguel Gaspar, de um poema de Ruy Belo que se encontra em O Homem de Palavras:
Está hoje um dia de
vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos
meus versos de todas as maneiras e