Quando a altivez pode destruir o trabalho de uma câmara.
Quando o oportunismo dos rapazes e raparigas «daquela coisa», é o sinal agudo de gente que não se lava todos os dias.CAIS DO OLHAR
terça-feira, 21 de abril de 2026
RENÚNCIA
Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura...
A vida é vã como a sombra que passa…
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...
Manuel Bandeira em Obras Poéticas
segunda-feira, 20 de abril de 2026
POSTAIS SEM SELO
- Será que um dia ainda seremos ricos, Tio Donald?
- Qual nada! Como diz o Tio Patinhas: “Quem nasce para
tostão nunca chega a milhão!”
Legenda:
fotografia de Dorothea Lange
REOLHARES
UM VIVA A REPÚBLICA EM CASA DE RESPEITO
Um tasco em Almoçageme, no dia 5 de Outubro de 1966.
Mais tarde, esse tasco daria lugar à adega «Toca do
Júlio», sucesso e sucesso, mais tarde mudou-se para a Estrada do Rodízio a
caminho da Praia das Maças, o mesmo sucesso, mas a perca de certo aconchego que
num tasco é coisa fundamental.
Mas voltemos àquele 5 de Outubro.
Entramos no tasco e antes de se pedirem os copos,
o Helder Pinho lança
um sonoro «VIVA A REPÚBLICA!»
Lança-se o tasqueiro numa corridinha ao longo do
balcão e com cara de mau a dizer ao Helder, futuro D. Pipas:
- Aqui não se
admitem coisas dessas, isto é uma casa de respeito.
À LUPA
Conceição Ramos, a “criada de servir” que fundou um sindicato, morreu nesta segunda-feira, confirmaram amigos ao PÚBLICO. A octogenária estaria internada nos cuidados paliativos do Hospital de Chaves há cerca de um mês.
Cansada de ser explorada como “criada”, Conceição Ramos fundou um sindicato.
A ideia de defender os direitos das empregadas domésticas surgiu na Juventude Operária Católica, grupo que Conceição Ramos liderava, ainda antes do 25 de Abril de 1974. Mais tarde viria a fundar o Sindicato do Serviço Doméstico.Nasceu em 1941 e, desde então, passou por várias casas, onde acumulou más experiências que não queria ver repetidas com as outras trabalhadoras domésticas. Sabia que eram "milhares a passar o mesmo", como contou ao Público em 2024.
AS PALAVRAS LENTAS DE UMA CANÇÃO
Que elas, cadentes estrelas dos bairros de sombra, soltem cabelos e rendas e falsas joias porque a vida é apenas este comboio sem destino nem estações, gritando com esta música sobre as cabeças trepidantes. Já poucos se demoram na contemplação de uns olhos que traziam o mistério dos bosques e dos lagos, ninfas e duendes que perseguiam um homem até aos labirintos da insónia. Agora, quase tudo se desprende e não posso, é verdade, não posso prender os meus dedos nos teus, não posso murmurar as palavras lentas da minha canção. Não posso perguntar: qual é o teu nome, a tua casa, a tua história? Não posso perguntar nada, fazer nada. Sei que de trago em trago vou abrindo uma clareira de medos onde só a minha sombra vai medindo os passos do Sol. Vejo, para trás dos ombros que se desarticulam, um rosto perplexo entre as nuvens de fumo. Soubesses tu, rosto perdido, as raízes do meu desastre e não virias aqui, a esta hora, balbuciando uma prece ou uma maldição. Mas não sabes. Não conheces o fulgor que me abandona, os nervos rebentando à medida das marés que nos empurram para os portos nocturnos, no derradeiro naufrágio. Não conheces o impulso que nos atira contra os recifes quando já não somos mais do que um velho que perdeu o Norte, um porão vazio que os fantasmas do mar que é esta vida visitam com enormes letreiros luminosos: «Foste príncipe, adorador, amante. O Tempo passou. Os teus olhos ficam. Elas giram à tua volta. O teu corpo fica. Já não se move.»
José
Agostinho Baptista, de uma crónica na Ler,
Novembro de 1997.
ESTE HOMEM QUE ESPEROU
Este homem que esperou
humilde em sua casa
que o sol lavasse a cara
ao seu desgosto
Este homem que esperou
à sombra duma árvore
mudar a direcção
ao seu pobre destino
Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo
Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra
António Ramos Rosa em Obra Poética Vol.I
domingo, 19 de abril de 2026
A SUA MISSÃO DIZIA RESPEITO AOS VIVOS
- Minha gente – disse o Dr. Copeland, sem
expressão, e depois houve uma pausa. E as palavras acudiram-lhe de repente:
É este o décimo nono ano em que nos reunimos nesta
sala para celebrar o Dia de Natal. Foi uma época sinistra, aquela em que o
nosso povo ouviu falar pela primeira vez do nascimento do Nosso Senhor. Os
negros escravos eram vendidos na praça do tribunal desta mesma cidade. Desde
então, temos ouvido e contado a história da Sua vida um sem-fim de vezes.
Assim, hoje a nossa história vai ser outra.
Há cento e vinte anos, outro homem nasceu num país
conhecido pelo nome de Alemanha… longe, do outro lado do oceano Atlântico. Este
homem compreendia, tal como Jesus Cristo. Mas os seus pensamentos não estavam
dominados pela ideia de céu, ou do destino dos mortos. A sua missão dizia
respeito aos vivos. À grande massa de seres humanos que labutam e sofrem, e
mourejam até à morte. Às pessoas que ganham a vida a lavar roupa, a cozinhar
para os outros, a colher algodão, a trabalhar com as tinas de tinturas
escaldantes nas fábricas. A sua missão dizia-nos respeito a nós, e o seu nome
era Karl Marx.
Karl Marx era um homem de senso, um sábio. Estudou e trabalhou e compreendeu o mundo em que vivia. Disse ele que a humanidade estava dividida em duas classes, os pobres e os ricos. Por cada rico havia mil pobres que trabalham para o tornar mais rico. Não dividiu o mundo em negros e brancos ou chineses: segundo Karl Marx, ser um dos milhões de pobres, ou um dos poucos ricos, era mais importante para um homem do que a cor da sua pele. A missão da sua vida era tornar todos os homens iguais, e repartir as grandes riquezas do mundo de tal forma que não houvesse mais ricos nem mais pobres, e que cada qual recebesse a sua quota-parte dos bens do mundo. Eis um dos mandamentos que Karl Marx nos deixou: «De cada um segundo a sua capacidade, a cada qual consoante as suas necessidades.»
Carson McCullerrs em Coração Solitário Caçador
REOLHARES
O QU’É QUE VAI NO PIOLHO
Por vontade própria, o meu pai reformou-se tarde.
Já tinha, há algum tempo, passado os 65 anos, quando colocou um ponto final na
carreira de jornalista-gráfico, como gostava de se considerar.
Passámos, então, a ter um tempo que até aí não existira e, pelo menos, uma vez por mês, arrancávamos para uma jantarada, mais regada do que o resto, que terminava sempre com conversas “non-sense”, que iam desde o marxismo-leninismo ao carrapito da D. Aurora, do Benfica às pernas da Cyd Charisse.
Por vezes a jantarada era antecedida de sessão de cinema.
Juntos, vimos, no Fórum Picoas. as Recordações da Casa Amarela do João César Monteiro, - e o que nos divertimos! -, juntos também, (não) vimos no Londres a adaptação cinematográfica da Insustentável Leveza do Ser. Ao fim de vinte minutos de filme, olhou para mim e disse: vamos embora!.
Apanhámos um táxi para Alcântara e aterrámos no Cuidado Com o Degrau, um restaurante que, penso, já não existe.
Marxista-leninista convicto, gostava particularmente
de Sartre e, e lia-o em francês. O livreiro Carvalho, da Livraria
Clássica Editora, nos Restauradores, ao lado do então Cinema Eden, ,
conseguiu arranjar-lhe os seis primeiros volumes de Situations e
sempre disse:
Mais vale estar errado com Sartre do que ter razão com Aron.
Não admira as cócegas que sentiu vendo o filme saído do livro do Milan Kundera.
Pelo meu lado li Sartre, As Palavras é um livro que marcou muito os meus passos, mas sempre fui mais Albert Camus.
Há dias, ao rever Peggy Sue Casou-se, um filme mal-amado, ou melhor dito: pouco citado, de Francis Ford Coppola, dono e criador de obras inescapáveis, topei com o diálogo de uma maravilhosa Kathleen Turner com o avô:
- Avô!
Sabe, quando o senhor e a avó morrerem a família morre convosco. Não voltarei a ver os primos.
- O “strudel “da tua avó é que mantém esta gente unida.
- Se pudesse voltar a fazer tudo de novo, avô, que faria de modo diferente?
- Trataria melhor dos meus dentes
Este tratar melhor dos dentes, mandou-me para idênticas palavras do meu pai (estaria a citar Coppola? Não sei!), numa das jantaradas, quando a conversa terá entrado pelo velho beco do se eu soubesse o que sei hoje, se voltasse atrás, blá,blá,blá, e ele muito peremptório a afirmar que faria tudo, mas mesmo tudo, o que fizera, com uma única excepção:
Trataria melhor dos meus dentes."
(Texto publicado por aqui em 20 de Setembro de 2011).
O OUTRO LADO DAS ESTANTES
O meu pai foi um marxista-leninista.
Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia por fundamental, até porque, mais tarde, o João César Monteiro apareceu a dizer que no Marx está tudo, Lenine é que foi muito pouco.
Este Manual de Marxismo-Leninismo, de diversos autores, - 2 volume num total de 739 páginas - foi comprado pelo meu pai no Festival Internacional do Livro e do Disco, realizado no Centro Cultural de Belém em 1977, traduzido por Carlos Grifo, revisto por Manuel Gusmão, editado por Novo Curso Editores, em Setembro de 1975, Venda Nova/Amadora:
«Só uma classe determinada, os operários urbanos e, em
geral, os operários fabris, industriais, está em condições de dirigir todo o
conjunto de trabalhadores e explorados na luta para derrubar o jugo do capital,
no momento em que este é derrubado, na luta para manter e consolidar a vitória
com o objectivo de criar um regime social novo, socialista, e em toda a luta
pela total supressão das classes». Lenine, citado na página 239 do 2º
volume.
Livros apenas
folheados porque, como a carne é fraca, li mais Raymond Chandler, mas retive
que, como ensinavam os clássicos do marxismo-leninismo, a revolução socialista leva os trabalhadores ao
poder, dirigidos pela classe operária.
MÚSICA PELA MANHÃ
Antes de chegarmos a outros lugares, as músicas que o
rádio nos trazia eram portuguesas, francesas, espanholas, italianas,
brasileiras.
Aos domingos, com música pela manhã, iremos bater a essas portas, também a outras, é um tempo para recordarmos o que, ao longo da vida, fomos ouvindo.
sábado, 18 de abril de 2026
À LUPA
Expansão da Linha Circular do metro de Lisboa, que devia ter sido concluída em 2023, vai custar mais 48 milhões, totalizando agora 380 milhões euros.
OLHAR AS CAPAS
Cozinha
para Homens
Alfredo Saramago
Colares Editora
Capa. Irene Buarque
Colares Editora. Colares s/d
Este
livro é para os homens que gostam de cozinhar e bem comer, sabendo que a
diferença é grande entre alimentação sobrevivência e cozinha para regalo do paladar.
É para os homens que desejam experimentar receitas que as sua mães, mulheres ou amantes nunca souberam fazer, ou sabendo, já esqueceram e que por falta de tempo, de meios ou de gosto, nunca ensaiaram.
POEMAS AUTOGRAFADOS
Com António
Ramos Rosa, nº 12 da Colecção Poetas de Hoje, editados pela Portugália Editora,
fecha-se a apresentação
dos Poemas
Autografados dos volumes existentes na Biblioteca ca Casa.
O poeta E.M.
de Melo e Castro é o autor do prefácio-estudo da poesia de António Ramos Rosa,
um poeta muito cá da casa.
Quando em
1988 recebeu o Prémio Pessoa, organização do semanário Expresso, disse:
«No meu trabalho
poético há duas fases. A primeira está mais ligasa a certos condicionalismos
sociopolíticos, que têm a ver com o regime repressivo da ditadura fascista.
Numa segunda fase, aproximei-me mais de uma atitude contemplativa, de abertura ao
mundo e à natureza. Penso que a minha poesia é, de certa maneira, a identificação
de um país que por natureza está sempre submerso, por um lado, e o real, por
outro.»
Um país submerso, notou e também acrescentou que, em
1988, «não sei mais do que sabia quando
escrevi o meu primeiro poema.
Gostava de
dizer, citando Octavio Paz que «os poetas
não têm biografia.»
António
Ramos Rosa não escolheu um poema para o seu autógrafo, escolheu as primeiras
palavras do poema Para a Linguagem Necessária:
Minhas palavras, meus saltos
bruscos, pontiagudos
para dizer o espaço
que subjaz sempre novo.
Para dizer o que resta
ou o que falta de súbito,
o que nos faz continuar,
água livre.
MÚSICA PELA MANHÃ
O compositor, artista plástico e arquiteto José Luís Tinoco morreu na noite de quarta-feira, em Lisboa, aos 93 anos.
Pianista,
criador de canções como No teu poema,
uma lindíssima canção.
José Luís Tinoco foi também o músico de jazz que fez parte das primeiras formações do Hot Clube de Portugal, o poeta que publicou "Perseguição dos dias", o compositor que Bernardo Sassetti, João Paulo Esteves da Silva, Mário Laginha, Ivan Lins, Carlos do Carmo abordaram vezes sem conta, e cuja música detém “a qualidade dos grandes ‘standards’”, como reconhecem os seus intérpretes, num nível equiparável a Cole Porter ou Tom Jobim.
A sua marca, porém, não se limita à música. Estende-se à arquitetura, à ilustração, ao cartoon, à fotoanimação, aos figurinos e cenários para teatro, ópera e bailado, ao design e às artes gráficas.
Em 2014, José Luís Tinoco recebeu o Prémio de Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, e o Teatro S. Luiz, em Lisboa, abriu a temporada com o espetáculo de homenagem “Os lados do mar – José Luís Tinoco”, dirigido por Laurent Filipe, com a participação de músicos como Carlos do Carmo, Carminho, Camané, André Sarbib e Pedro Jóia.
"Evito o fácil", dizia
sempre José Luís Tinoco. "Não cedo
só porque é bonito", garantia. Na música, na pintura, na arquitetura,
na vida toda.
No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro.
sexta-feira, 17 de abril de 2026
BALANÇA
Com pesos duvidosos me sujeito
À balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
Se julgar, assistir, ou ser julgado.
Ponho no prato raso quanto sou,
Matérias, outras não, que me fizeram,
O sonho fugidiço, o desespero
De prender violento ou descuidar
A sombra que me vai medindo os dias;
Ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
Traições naturais e relutâncias,
Ponho o que há de amor, a sua urgência,
O gosto de passar entre as estrelas,
A certeza de ser que só teria
Se viesses pesar-me, poesia.
José Saramago
quinta-feira, 16 de abril de 2026
OLHAR AS CAPAS
No
Vértice da Noite
Adalberto Alves
Ilustrações: Figueiredo Sobral
Capa: Luís Nazaré Gomes
Argusnauta, Lisboa, Novembro de 2007
Movimento Perpétuo
À memória do Carlos Paredes
há dedos,
garras enclavinhadas
nos
corações na penumbra
e
assim podem sangras melancolia
amarinham
sobre silêncios
e
escamam a melodia
numa
costa perdida
onde
é febre à noite
quem
guia a incontinência dos dedos?
quem doma
a fúria do ranger?
só o
silêncio o sabe
porque
é música a dormir
a
pausa essa é apenas um sinal
inscrito
há face da partitura.
no ser
nada repousa
e
freme a luz que é pura.
CLARA
Disse que se chamava Clara
e sentou-se na mesa, chamando
o criado para pedir um uísque irlandês.
Eles abriram mais espaço, cruzaram
as pernas, perguntaram se os charutos
a incomodavam. Clara disse: «Não!»
Pediu mesmo se lhe ofereciam um.
«Claro!», ofereceu o mais jovem,
emprestando-lhe a tesourinha
niquelada. Disseram banalidades,
vieram mais bebidas. Clara traçava
o rumo da conversa, entre baforadas
azuladas. Quando ela saiu, descruzaram
as pernas e ficaram sem saber o que dizer.
Eduardo Guerra Carneiro em Profissão de Fé
quarta-feira, 15 de abril de 2026
TRUMPALHADAS
«Era suposto J.D. Vance estar a jogar em casa. Na terça-feira, o
vice-presidente norte-americano era entrevistado num evento na Universidade da
Georgia organizado pela conservadora Turning Point USA, de cuja actual líder
Erika Kirk obteve já uma primeira declaração de apoio a uma quase certa
candidatura às presidenciais de 2028, quando foi interrompido por um
manifestante na plateia. “Estão a matar crianças” e “Jesus Cristo não apoia
genocídios”, ouviu-se.
Vance podia ter repetido o que Donald Trump fez várias vezes na campanha de
2024 e menosprezado o incidente como um acto de um "infiltrado".
Desta vez, o vice-presidente republicano reconheceu que as críticas vêm de
dentro. “Aceito que os eleitores jovens não amam as políticas que temos no
Médio Oriente”, declarou o número dois da Administração Trump. “O que vos peço
é que não desmobilizem só porque discordam do Governo num tema”, apelou
De delfim a pára-raios de Trump, J.D. Vance é rosto de tripla derrota de
Washington
O proto-candidato republicano, que vinha perdendo protagonismo em Washington
para Marco Rubio, chefe da diplomacia dos EUA e outro putativo nome para a
sucessão de Trump, foi na semana passada enviado para duas frentes de batalha
no Irão e na Hungria. A dupla missão elevaria o seu perfil político e
encaixaria em dois eixos da sua agenda externa: o fim do intervencionismo
militar norte-americano, através da negociação de um acordo de paz com Teerão,
e a promoção da direita radical europeia, com a sua presença na campanha
eleitoral húngara.
O esforço terminou em dupla derrota no fim-de-semana, a que se junta agora uma
crise diplomática com o Vaticano. Vance vê-se transformado numa espécie de
pára-raios de Trump, atraindo parte das críticas de que este é alvo, com custos
para a sua marca política.»
De um texto de Pedro Guerreiro no Público
OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO
Para o poema de amanhã, lembrei-me do Eduardo Guerra
Carneiro e peguei na Profissão de Fé,
livro de poemas, uma bonita capa do Rogério Petinga, editado pela Quetzal no
ano de 1990 e que me custou 900 escudos, ao câmbio de hoje seriam 4 euros e 50
Cêntimos.
Na contra capa do livro encontra-se um texto do
Manuel João Gomes, seu amigo, e disse de mim para mim que este texto também
poderia ser um dos Itinerários do Eduardo.
Aqui fica:
«É
hoje vulgar dizer-se: "Isto anda tudo ligado, como diz o poeta." E
qual é o poeta que diz: Isto anda tudo ligado? Camões? Pessoa? Não. Isto anda tudo ligado é o título
dum livro que Eduardo Guerra Carneiro publicou em 1970.
O que para o poeta andava ligado naquele já remoto ano de 1970? Tudo: a
cerveja, os Beatles, uma mesa de café numa pequena vila perto de Tomar, um
poema da Camilo Pessanha, a Twiggy (inventora de minissaia), a memória
"destes anos, destas cidades mornas onde com vagar enlouqueço", enlouquecemos,
enlouqueceremos. E também Allen Ginsberg, Joan Baez a cantar, a estação de
Nelas, uma enorme bebedeira na Covilhã, Walt Whitman, os guerrilheiros que saem
do Vavá "com uma citação à bandoleira". E outra vez a cerveja: as
letras "que escorrem pela caneta como a cerveja pelos cantos da
boca"...
Poesia em prosa, prosa de poeta incorrigível, melancólico, irónico, um
tudo-nada romântico. Poesia às vezes jornalística, quotidiana e quotinocturna,
em cima do acontecimento. Antes, durante e depois da ressaca. Confissões,
recordações da terra natal, paisagens, retratos.»
À LUPA
«A propósito do absurdo momento televisivo entre Pacheco Pereira e André Ventura, tem sido recordada a recomendação de George Bernard Shaw: não se deve lutar com um porco, pois enquanto este gosta, quem entra na peleja fica inapelavelmente enlameado. Infelizmente, já estamos num tempo diferente, no qual a sujidade se expande em ondas incontroláveis, que nos envolvem a todos. A explicação está num equívoco sobre o que é ser democrático.»
Pedro Adão e Silva no PúblicoOLHAR AS CAPAS
Dorothea Lange
Direcão: Henrique Monteiro
Colecção Mestres da Fotografia
Edição: Expresso, Lisboa 2008
«A Câmara é um instrumento que ensina as pessoas a ver sem câmara.»
ENSONETO
Entretanto, meu filho, é vinho tinto,
erosão persistida, abraço baço.
Lumes novos, quem é que os inventa
melhor do que o calor que nós nos damos?
Às uvas pois. O mais é uma cadeira
e o olhar do céu com chuva ou não,
enquanto as aves fogem e nós as imitamos
quase sem dor nem arte - só sentidos.
Assim sossega, assim verdeja e está,
eructa e vê, olhando à transparência,
um céu assim mais lento.
Só depois te levantas e contigo
vai certeza nenhuma, só viver
outra vez, amanhã, a vida mesma.
Pedro Tamen
terça-feira, 14 de abril de 2026
ELOGIO DOS EMIGRANTES
Recorte tirado de O Século do Povo Português de Eduardo Cintra Torres e Luís Marinho, Ediclube, 2001.

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