segunda-feira, 14 de setembro de 2026

OLHAR AS CAPAS


Nome de Toureiro

Luís Sepúlveda

Tradução: Pedro Tamen

Capa: João Machado

Edições Asa, Lisboa Setembro de 1997

Deixei umas moedas em cima da mesa e, coxeando, saí do bar. A cidade continuava triste, embora fosse Verão, embora nem uma nuvem se interpusesse entre os homens e o céu, embora nenhum pássaro negro planasse sobre a minha cabeça e assim comecei a atravessar a rua, pensando, Verónica, meu amor, pensando porque é que temos tanto medo de olhar de frente para a vida, nós que já vimos as áureas cintilações da morte.

O MINISTÉRIO LÍRICO

o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do erro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao começo,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o córrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!

Herberto Helder de Ofício Cantante em Resumo: a poesia em 2009

domingo, 13 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados. Era isso o que o Fred costumava dizer. Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber.

Patti Smith em M Train

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Volta e meia há que ir ao Outro Lado das Estantes, e nem sempre acontece.

Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que, rigorosamente não sabia o que etava a vender.

Uma colecção, ainda, não lida, mas a que há que voltar.

Assim irá aconrecendo.

OLHAR AS CAPAS


 Os Índios Americanos

Larry J. Zimmerman

Tradução: Ana Maria Pinto da Silva

Capa. José Neves

Colecção: Cultura e Civilizações

Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 2006

Quando os Europeus pisaram pela primeira vez a América do Norte, descobriram, para sua grande surpresa, que afinal o continente já era habitado por seres humanos. Na verdade, os povos indígenas prosperaram na região; a população ascendia a uns significativos vinte milhões de indivíduos e desenvolveram-se civilizações tão diversas como as que existiram em qualquer outro lugar da terra.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Há vozes quase únicas. António dos Santos é uma dessas vozes.

Vamos, hoje, recordá-lo.

Colaboração de Aida Santos.





COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Percorra os seus dedos pelas Páginas Amarelas.

Colaboração de Aida Santos.

sábado, 12 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A razão pela qual a preocupação mata mais pessoas do que o trabalho é porque as pessoas se preocupam mais do que trabalham.

Robert Frost

RETRATOS

O'Neill (Alexandre), moreno português,

cabelo asa de corvo; da angústia da cara,

nariguete que sobrepuja de través

a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a viagem de tal sujeito é o que vês

(omita-se o olho triste e a testa iluminada)

o retrato moral também tem os seus quês

(aqui, uma pequena frase censurada...)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill)

e tem a veleidade de o saber fazer

(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.

   Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se

   do que neste soneto sobre si mesmo disse...

 

Alexandre O'Neill em Poemas com Endereço 

OLHAR AS CAPAS


A Tia Tula

Miguel de Unamuno

Tradução: Ruy de Oliveira Soares e G. Martins de Oliveira

Colecção: Livros RTP nº 11

Editorial Verbo, Lisboa s/d

- Mas que depressa vais!... – e voltou a esforçar-se por rir.

- É que se tem de ir depressa, porque a vida é curta

- A vida é curta! Dizes isso aos vinte e dois anos!

VELHOS RECORTES


Pormenor de uma 1ª página da Gazeta Musical e de Todas as Artes

Ano X 2ª série, Agosto de 1961, nº 125

Proprietário e Editor: Eduardo Nunes

Directora: Maria Vitória Quintas

Secretário da Redacção: João José Cochofel

Redacção e Administração: Academia de Amadores de Música –Rua Nova da Trindade, 18, 2º

Telef. 25022

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

RETRATOS


Nas suas almas abertas

traziam o sol da esperança

e nas duas mãos desertas

uma pátria ainda criança.


Gritavam Neruda   Allende

deram vivas ao Partido

que é a chama que se acende

no povo jamais vencido

- o povo nunca se rende

Mesmo quando morre unido.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Nas suas almas abertas

traziam o sol da esperança

e nas duas mãos desertas

uma pátria ainda criança.

 

Gritavam Neruda Allende

davam vivas ao Partido

que é a chama que se acende

no povo jamais vencido.

- o povo nunca se rende

mesmo quando morre unido.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Alguns traziam no rosto

um rictus de fogo e dor

fogo vivo fogo posto

pelas mãos do opressor.

Outros traziam os olhos

rasos de silêncio e água

maré-viva de quem passa

uma vida à beira-mágoa.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Mas não termina em si próprio

quem morre de pé. Vencido

é aquele que tentar

separar o povo unido.

Por isso os que ontem caíram

levantam de novo a voz.

Mortos são os que traíram

e vivos ficamos nós.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que nasceram para o Chile

morrendo de corpo inteiro.

José Carlos Ary dos Santos, poema Homenagem ao Povo do Chile  de O Sangue das Palavras em Vinte Anos de Poesia

SETEMBROS 11


«Os EUA no mundo 25 anos depois do 11 de Setembro
Dedicamos hoje uma parte importante da nossa primeira página, que é sempre uma espécie de cápsula do tempo para efeitos de memória futura, aos 25 anos passados sobre os ataques às Torres Gémeas, ao edifício do Pentágono e ao voo United 93. A 11 de Setembro de 2001 morreram 2977 pessoas, incluindo 19 terroristas, e não se sabe quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então.

Na sequência do 11 de Setembro, os Estados Unidos fecharam-se ao mundo e instalou-se uma lógica securitária motivada pelo medo, pela necessidade de proteger as fronteiras e pela luta contra o terrorismo. Foi aprovada a
​Patriot Act, nasceu o Department of Homeland Security e o (agora famoso) ICE Immigration and Customs Enforcement, o controlo de vistos foi reforçado (sobretudo para cidadãos oriundos de países muçulmanos) e teve início uma “caça ao homem” que só terminou quando Osama Bin Laden foi morto, em Trípoli.»

Sónia Sanage no Editorial do Público de hoje.

 

Caramba! Já passaram 25 anos sobre o ataque aos Estados Unidos.

Também houve um outro 11 de Setembro, ano de 1973, no Chile, que tentava seguir a política de Salvador Allende, e aí os Estados Unidos estiveram como mentores e actuantes do tenebroso Pinochet. 

RECADO PARA A AMIGA DISTANTE


Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol

Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?

Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?

Que estranho abjeto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?

(Um tigre humano vem
a cada esquina oculto
no rumor da manhã
saciar-se de sangue)

 

Daniel Filipe

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Se alguém, no meio do silêncio, tropeçar nestas páginas e encontrar nelas um fio por onde se segurar, a certeza mínima de que não está sozinho, de que houve quem passasse por ali e continuasse, então este texto terá feito o seu trabalho.

Fabian Figueiredo

DEIXAS PASSAR OS BARCOS E AS NUVENS

          Je laisse passer les bateaux les nuages.
          P.E.

Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas

Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes

O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada

O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera

O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada

António Ramos Rosa de Viagem por uma Nebulosa em Obra Poética Volume I

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

HERBERTIANAS

A história já aqui foi contada, mas a ela voltamos porque, muito naturalmente, é abordada na Biografia de Herberto Helder escrita por João Pedro George.

 Existe o livro, editado pelo Expresso em que são referidos os Prémio Pessoa desde 1987 a 2007.

No ano de 1994 o júri atribuiu o prémio a Herberto Helder.

«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»

Era uma pipa de massa para quem tinha, por escassez de dinheiros, uma vida muito, mesmo muito difícil.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o António Alçada Baptista:

«O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Sobre o episódio do Prémio Pessoa, João Pedro Jorge coloca a viúva de Herberto, Olga Lima, a contar a cena:

«Fiquei cheia de raiva porque estávamos tesos, “Herberto, mas não temos dinheiro e estás armado em vivaço!?” Aquilo não tinha jeito nenhum, O Herberto queria era que o deixassem em sossego. Agora, os valores dos outros prémios que ele tinha recusado eram irrisórios, mas dizer que não a sete mil contos, hoje cerca de 35 mil euros? Nessa altura o Herberto disse-me: “Sei que querias, uma vida mais descansada mas, desculpa lá, eu prémios não aceito. Se querias mais convívio ou mais dinheiro, casaste com o homem errado.»

A recusa do prémio causou um circo de prosas e opiniões, algumas tocando o ridículo.

Mas João Pedro George lembra:

«Luiz Pacheco, que não se levava muito a sério, nem ele nem a estes foguetórios da cultura, adiantou uma explicação alternativa, talvez plausível: «Ele sempre disse que nunca receberia prémios, deram-lhe um balúrdio de um prémio, era dele, ninguém lhe podia levar a mal mas ele disse logo: “Não quero!”. Há uma hipótese sacana: não havia dinheiro para o prémio, então deram-no a um gajo que já sabiam que não recebia.»  

VER SE DESTA ACABO TEU PRAZER

escrevo-o porque é o mais difícil

de fazer sem ti, que foste corpo

boia às minhas mãos, bordão torto

mas para vir à terra o mais fiel

 

ferro. E se eu na pela nem soube

do mal que me avisaram que me fazes

e já sou mestra em largar-te quase

tanto como a gritar lobo

 

até morrer de facto, eis o tributo

ao que passámos: rumores de noites,

copos, cafés, suspensões de céus

 

e sol manchado após o mar ou coito

e o pasmo sobretudo libertado

do vazio – que triste, cigarro, adeus.

 

Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto

terça-feira, 8 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Que tenho eu a dizer

neste país

se um homem levanta os braços

e grita com os braços

o que mais oculto havia

na secreta ternura de uma boca

que era a única boca do seu povo

 

Que posso eu fazer senão

daqui

deste deserto

em que persisto

chamar-lhe camarada

 

António Ramos Rosa

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Já não assim muitos os que se lembram da alvorada de Abril, das aventuras e desventuras do nosso caminhar naquele Verão dito quente de 1975, do homem que acreditava no povo e disso vez bandeira e luta.

Chamava-se Vasco Gonçalves.

Este livro é algo de importante para os que esqueceram, para os que não sabem o que foram aqueles mágicos e muito difíceis dias.

O título do livro diz tudo: «Não Pode Haver Neutros», todos aqueles que pensaram, que pensam, que ficar no meio é o espaço ideal para poder ver os dois lados. Também não pode haver sacanas que, então, apareceram em quantidade desmesurada, quando o que se podia era algo diferente:

«Nós também precisamos de aliados nesta revolução; precisamos de pequenos empresários, médios empresários, que compreendam esta revolução, que caminhem ao nosso lado; nós precisamos também de alianças porque isto é uma tarefa muito grande. Mas, repito, a revolução só comporta duas situações: ou se está com ela ou contra ela. Não há tipos que possam dizer «eu sou neutral, não me interessa nada a política.»

Vasco Gonçalces do Discurso da Sorefame, 17 de Maio de 1975.

Naturalmente, nem tudo correu como se esperaria.


Sobre Vasco Gonçalves fica uma opinião do pintor João Abel Manta:

«Conheci o Vasco Gonçalves mal. Ele gostou muito desse cartaz “Povo MFA/MFA Povo”, e quis oferecer-lhe o original. Fui a São Bento, ele disse-me que gostava muito dos meus bonecos, nem era dos meus cartazes, era mais dos meus desenhos. Fui recebido, ofereci-lhe o original e ele ficou muito agradecido. O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros. Depois, tinha aquele ar. Os outros tinham um ar dúbio. Tinha-lhe uma grande admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em que fui odiado em Portugal por isso, coloquei-o entre o soldado e o camponês. O cartaz foi arrancado por tudo o que é sítio. O Mário Soares ficava histérico quando vis esse cartaz! Também lhe ofereci esse cartaz. Concluindo: tenho uma boa impressão do Vasco Gonçalves».

OLHAR AS CAPAS


Não Pode Haver Neutros!

António Amaral

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa Junho 2026

Os discursos de Vasco Gonçalves devem, por conseguinte, ser abordados não apenas como reflexo dos acontecimentos, mas antes como acontecimentos doadores de sentido à «articulação política» entre orador e auditório e, sobretudo, entre estes e o processo mais amplo que colectivamente os interliga.

AOS MEUS OLHOS

Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.

Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.

Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.

Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.

Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.

 

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


SOLTAS


  

Em tempos não muito distantes, as vindimas realizavam-se por finais de Setembro e iam por Outubro dentro.

E eram uma festa!

Devido às variações climáticas provocadas pelos humanos passaram a acontecer em finais de Agosto e entram por Setembro dentro.

Pedro Garcia, em crónica no Público de 4 de Setembro, fala das vindimas no seu Douro:

«Uma vindima de velório e a maldição do carvalho grande de Joseph Wayne
O abismo em que está a mergulhar a vitivinicultura, pela queda contínua do consumo de vinho, não é o fim do mundo, mas é uma boa metáfora da vida, de darmos tudo como garantido, e até do que nos espera, se seguirmos sem perceber a força e a verdade da natureza e se insistirmos em a desafiar, como estamos a fazer com a Inteligência Artificial, por exemplo, cujas infinitas possibilidades que ela nos abre dependem de mais consumo de electricidade e de água, para alimentar e arrefecer os grandes centros de dados. A IA é o novo combustível fóssil e pode ser ainda mais letal.
O leitor já percebeu que a vindimafoi um velório. Deve ser do meu natural pessimismo, que a idade vai agravando, mas colher uvas sem ver futuro no vinho não é uma tarefa agradável. E ter uvas e não encontrar quem as compre, como está a acontecer a muita gente, ainda é pior. O meu tio esteve certo no seu tempo. Hoje, não. As vinhas já não dão casas, é o contrário.»

1.

Um dia Benjamim Franklin, um dos principais Pais Fundadores dos Estados Unidos, cientista, inventor, diplomata e escritor, não esteve de modas, e disse:

«O vinho é a prova provada de que Deus nos ama e nos deseja ver felizes».

2.

Importante a opinião de João Paulo Martins, jornalista, escritor, um apaixonado por vinhos:

«O melhor vinho que bebi não foi seguramente o melhor vinho que já provei. O melhor que bebi foi-o porque eu estava no ambiente certo, com as pessoas certas, no momento certo».

3.

Tragam o vinho dos vivos, o vinho dos mortos, o vinho dos amanhãs perdidos. Não entregar o coração ao infortúnio. Nada se lucra com tristezas. O melhor remédio é pedir mais uma garrafa.

4.

Saímos de cena lembrando uma canção do filme The Young Ones, Cliff Richard com Os Shadows

«Amanhã

Por que esperar até amanhã?

Porque amanhã

Por vezes nunca vem.»

RETRATOS


«Deixemos pois o Goulart falar, A estalada que lhe deste, porém, não é coisa de que te possas gabar na praça pública, nem na tua consciência. Digo-te porquê, gravemente e medindo bem o peso das minhas palavras to digo; porque é uma cobardia. Conforme me contaste, não julgo que o tivesses feito de caso pensado, na plena posse da tua calma e da tua lucidez. Faço-te honra de supor que já estás arrependido – ainda que não confessas, por um pudor descabido, de que o Padre Zósima (dos irmãos Karamazoff) te daria a desrazão e o remédio.

Este caso do Goulart é sintomático: todos gostam de bater no Goulart é um dos poucos idealistas (taradinho, com as ideais todas torcidas está visto) que andam por essas ruas. Tem um ideal (taradinho, etc.), e luta por ele. Depois, é coxo, paneleiro, fraco de ombros. É monárquico e católico. É um tipo com uma cultura muito acima do vulgar e é sério. Dá ou não vontade de bater (bater com tanta facilidade) num tipo destes? Dá. O medo que as pessoas têm de bater num polícia e a vontade transferem-se psicaliticamente para os lombos e os bochechos do Florentino. Vem no Freud explicado.


Luiz Pacheco, de uma Carta ao actor Fernando Gusmão em Textos Avulsos, Inéditos eDispersos.

Legenda: Goular Nogueira