terça-feira, 28 de abril de 2026

HÍFEN DE CRISTAL


 «Depois de o primeiro-ministro israelita ter pedido desculpas publicamente e garantir que se tratava de um comportamento indigno para um militar de Israel, o soldado que, no Líbano, destruiu uma estátua de Jesus Cristo à marretada e o outro que fotografou o acontecimento, foram condenados a 30 dias de prisão e “excluídos de operações de combate”.

Segundo a  BBC, Benjamin Netanyahu mostrou-se “chocado e triste” pelo incidente, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, pediu desculpas a “todos os cristãos que se sentiram ofendidos”.

Com tantos milhares de crianças mortas em Gaza, no Líbano e no Irão, atingidas pelas bombas e balas de Israel, cujas forças armadas se arrogam o direito de atingir escolas, hospitais, ambulâncias, jornalistas, de matar e matar civis desarmados como se fossem alvos de prática de tiro, “a indignação e a tristeza” de Israel está reservada a uma estátua de Jesus Cristo?

Não é porque ao Governo mais extremista de Israel lhe importe muito os sentimentos dos cristãos – em 2023, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional israelita, dizia que cuspir em cristãos era uma velha tradição judaica. O que importa ao Estado de Israel é não alienar o apoio do seu melhor amigo nas relações internacionais, a superpotência que lhe vende armas e lhe empresta a sua sombrinha política internacional para fazer o que quiser.

Num tempo de falta de memória e de passado reescrito ou esquecido, o Governo de Israel e os judeus que o apoiam estão sempre a cometer o pecado da arrogância de se olvidarem das lições da História. Porque se é longa a tradição judaico-cristã, base da civilização ocidental, como tanto dizem, os judeus esquecem-se que, quando é preciso um bode expiatório, o hífen se quebra como um cristal e os judeus terminam pendurados de uma árvore como Leo Frank, enforcado por uma turba muito americana que o foi buscar à cela.

Mesmo com a II Guerra Mundial e o nazismo, entre 1940 e 1946, várias sondagens mostravam que os judeus eram considerados a maior ameaça para os Estados Unidos, mais do que qualquer outra religião, raça, etnia, nacionalidade

António Rodrigues no Público de 24 de Abril de 2026

O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 27 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


No Público de hoje pode ler-se que «a Administração Trump assegurou um nível de segurança inferior para o jantar dos correspondentes da Casa Branca ao garantido em outros encontros que contaram com a presença das principais figuras governamentais, apesar de o Presidente e muitos membros do executivo dos Estados Unidos estarem presentes.»

Nestas coisas trumpianas fica sempre a grande dúvida:

Encenação?

 Bluff?

Oportunidade para Trump dizer que nada disto aconteceria, na Casa Branca, se não tivessem interrompido as obras no salão de baile? 

Algo mais?

OLHAR AS CAPAS

Virtudes da Cooperação

J. Dias Agudo

Biblioteca de Cultura Cooperativa

Publicação patrocinada pelo Ateneu Cooperativo e por algumas cooperativas de consumo e produção, Lisboa, Março de 1964.

Não se quer ganhar, quer-se servir; não interessa por conseguinte tirar qualquer lucro para amontoar nos cofres ou para desbaratar irregularmente mais tarde. É uma instituição honesta onde as coisas se fazem com lisura e seriedade.

REOLHARES

V.S.T. & ETC

««1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar, que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que penso todos os dias é que a uma rua de mim vive o Vitor Silva Tavares.

2. Houve uma era, já depois do paleozóico, em que existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).

3. (Ele diria cartinhas, porque nisso é como os mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)

4. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro, tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora, é uma morada: & etc, rua da Emenda, 30, cave 3.

5. Vem tudo isto a propósito do livro “&etc — uma editora no subterrâneo”, iniciativa da livraria Letra Livre, coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca, para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado, como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição de “O Bispo de Beja”. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados: conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para os destruir.

6. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares. Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os títulos têm apenas uma edição, com excepção única para ‘O Bispo de Beja’, obra apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais; a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos ou ofertas aos críticos.”

7. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um homem livre.

 

Alexandra Lucas Coelho, Público, 24 de Novembro de 2013

(Texto publicado, por aqui, em 16 de Outubro de 2015).

LIVROS AUTOGRAFADOS


Este livro de Adalberto Alves foi comprado num alfarrabista.

Dedicatória do livro:

«Ao Senhor Manuel Passarinho oferece o autor, com afecto e agradecimento»

Que terá acontecido para o Dr. Manuel Passarinho ter mandado às malvas o afecto e o agradecimento de Adalberto Alves?

A velha questão:

O livro foi roubado da estante do Dr. Manuel Passarinho?

O livro foi emprestado e não foi devolvido?

Se caso disso, os herdeiros venderam os livros por tuta e meia?

À LUPA

A julgar pelas reacções internas recolhidas pelo Público não há vontade nem contexto para que Pedro Nuno possa reassumir a liderança do PS, o que reduz consideravelmente as suas opções políticas.

Editorial de Pedro Candeias no Público.

EM PRISÕES BAIXAS

Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.

Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.

Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.

Luís de Camões em Sonetos

domingo, 26 de abril de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


Na Biblioteca da Casa não existem mais volumes da Colecção Poetas de Hoje, publicada pela Portugália, secção que iniciámos no dia 8 de «Março de 2025 e que concluímos no dia 18 de Abril de 2026.

Mas encontrei, num velho número da revista Ler esta ilustração, da autoria de Luís Miguel Gaspar, de um poema de Ruy Belo que se encontra em O Homem de Palavras:

 

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto

O vento das árvores o vento dos cabelos

o vento do inverno o vento do verão

O vento é o melhor veículo que conheço

Só ele traz o perfume das flores só ele traz

a música que jaz à beira-mar em agosto

Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento

O vento actualmente vale oitenta escudos

Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

MÚSICA PELA MANHÃ

Na manhã de domingo, pós os 52 anos do 25 de Abril de 1974, reproduzimos algumas das centenas de cancões que elegem a data como um dia feliz e encimo o texto com a imagem do I Encontro da Canção Portuguesa de 29 de Março de 1974, num Coliseu a deitar fora e em que José Afonso, quando chegou a vez de actuar disse:

«Os habituais impedimentos que surgem nestas ocasiões, que aliás, são muito raras, obrigam-me a ter de cantar uma canção que pelo menos pode ser cantada por todos nós, que é a Grândola 





sábado, 25 de abril de 2026

POSTAIS SEM SELO


Em 29 de Setembro de 2024, ainda lembrando os 50 anos do 25 de Abril, o Público, no suplemento P2, publicou um trabalho de Sérgio B. Gomes, sobre o fotógrafo José Carlos Nascimento. Nesse trabalho reproduzem-se várias fotografias tiradas no dia 25 de Abril de 1974 e uma delas, a primeira desse dia, tirou-a enquanto aguardava a chegada de uma colega sua, que entretanto apareceu em passo de corrida e um grande sorriso, com as traseiras da Igreja da Graça em fundo. Trabalhavam na agência de publicidade Praxis, Cooperativa de Estúdios Técnico, com escritório/estúdio na Villa Sousa edifício onde existiu o Botequim da Natália Correia.

Gosto imenso desta fotografia e o suplemento está guardado nas páginas de recortes da Biblioteca da Casa.

Reproduzo a fotografia do Público e a imagem da exposição que José Carlos Nascimento apresentou em 2024 com 50 fotografias do dia histórico, tiradas desde a Graça, passando pelo quartel da legião na Penha de França, pelas ruas de Lisboa até ao quartel do Carmo.

A moça dirá ainda que foi o dia mais feliz da sua vida, como tantos de nós que viveram este dia, e que são menos porque a lei da vida os tem levado.

A alegria dos que sabem viver a liberdade que festejamos.

A Alegria de Abril.

COMEMORAR A "REVOLUÇÂO MISERÁVEL"


 O 25 de Abril, “essa revolução miserável”

André Ventura


«Cada pessoa na rua hoje vai mais do que comemorar, resistir. Resistir a quê? À manipulação da memória da revolução do 25 de Abril, à cuidadosa transformação da guerra colonial numa designação geográfica, a “guerra da África”, ou na “guerra no Ultramar”, a comparações absurdas entre abusos pontuais e muitos milhares de actos de violência e humilhação dia após dia, ano após ano, que duraram 48 anos. Já para não falar dos massacres, execuções sumárias, “heróis” assassinos que se especializaram em atirar granadas incendiárias contra mulheres e crianças.

Resistir a quê? Ao Chega. As manifestações do 25 de Abril este ano serão contra o Chega, contra o novo ambiente político de crueldade e agressão, e contra o ataque à “revolução miserável” feito por aqueles que gostavam da ditadura e das suas violências, por uma série de motivos, nenhum nobre e que esconderam pela censura, corrupção e prepotências quotidianas.»

José Pacheco Pereira no Público

RETRATOS


«A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto, desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena. Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.

A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo, era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.

No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e, de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade, sem medo de regedores, de bufos da PIDE e da própria; e até de podermos dizer mal de quem nos devolveu a dignidade e o sonho, como faz frequentemente o falso cristão e proto fascista André Ventura, um filho ingrato da democracia.

Mal recebeu de Melo Antunes o célebre telegrama enviado por Otelo — “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António.” —, Vasco Lourenço chamou alguns colaboradores, entre os quais David Lopes Ramos, a quem, depois do jantar, perguntou: “Ó Ramos, você sabe rezar?”. “Porquê? Porque me pergunta isso?”, respondeu-lhe David. “Porque, se soubesse, mandava-o rezar!”, acrescentou o capitão. “Não me diga! Não me diga que é hoje!”, exultou David, a tremer. “Sim, sim, é esta noite. Vamos embora preparar tudo…”, confirmou-lhe Vasco Lourenço. Em memória de David, o aspirante Ramos da Revolução de Abril

A partir das 3 da manhã, David Lopes Ramos foi para o quartel e, contou Vasco Lourenço, “ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc.”. Nessa noite, o aspirante Ramos teve uma outra tarefa: acordar Melo Antunes, que fora dormir para o casarão da sogra. “Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e nada. A certa altura, disse ao David: ‘Vá lá a ver se o consegue acordar e se o traz’. Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o Melo Antunes só me apareceu pelas sete ou oito da manhã, finalmente acordado pelo telefone, que tocou toda a santa noite!”, recordou Vasco Lourenço.

Todos sabemos o que se passou em Lisboa e o que veio a seguir. Por intervenção de Melo Antunes e Vasco Lourenço, David Lopes Ramos viria a integrar o Movimento das Forças Armadas, tendo sido o adido de imprensa de Vasco Gonçalves nos quatro governos provisórios que este general liderou, entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Nesse tempo, era a David que todos os jornalistas recorriam e “por quem tinham uma grande consideração e respeito”, como recordou ao PÚBLICO o jornalista António Borga.

Após a queda do V Governo, David Lopes Ramos ingressou no Diário de Notícias (DN). Por pouco tempo: ele e outros jornalistas foram afastados logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Saiu do DN, mas nunca mais abandonou o jornalismo. Esteve ligado à fundação do jornal Diário e viria, mais tarde, a integrar a equipa inicial do PÚBLICO, primeiro como subeditor de secção Cultura, depois como editor da Sociedade e finalmente como crítico de gastronomia e vinhos, primeiro na revista de domingo e a seguir no suplemento Fugas, onde se consagrou como um dos mais respeitados e reputados críticos de gastronomia e de vinhos do país.

David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios dos 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo até hoje, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos ou movimento de direita, como o MDLP, a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.

André Ventura também deve colocar David Lopes Ramos no mesmo saco dos “criminosos” da Revolução de Abril. Mas o líder do Chega teria de nascer três vezes ou mais para poder equiparar-se-lhe em honestidade, correcção e bondade. Mais do que um grandíssimo jornalista e crítico gastronómico, David era um homem intrinsecamente bom. Tê-lo conhecido e ter sido seu amigo foi uma das grandes dádivas que o jornalismo me deu.

A seu pedido, David Lopes Ramos foi cremado e parte das suas cinzas foram depositadas no cemitério de Pardilhó, Estarreja, a sua terra natal, e onde na próximo sexta, dia 1 de Maio, alguns amigos e a família irão fazer uma romagem. “O meu irmão faz-me muita falta”, suspira Arménio, o seu único irmão, 70 anos, cara chapada de David no que este tinha de mais virtuoso. A outra parte das cinzas foi espalhada na sua adorada ria de Aveiro, a que sempre voltava, para recordar os seus mortos e partilhar com os vivos o prazer simples de uma caldeirada de enguias, um peixe grelhado acabado pescar pelos artesãos da arte Xávega ou um galo caseiro assado no forno.

Um brinde à sua memória! E viva o 25 de Abril!»

Pedro Garcias no Público

MÚSICA PELA MANHÃ


«Entrados nos 52 do 25 (não é uma dança de números, são os 52 anos do 25 de Abril de 1974, que hão-de completar-se no próximo sábado), o mundo continua a afundar-se em cenários de opereta que tão depressa nos lembram as distopias de Orwell como as delirantes acrobacias marxistas (de Chico, Harpo e Groucho, não as do velho Karl). Foi preciso esperar 52 anos para ouvir catalogar, em televisivo horário nobre, com bastante saliva e fanfarronice, a nossa tão celebrada “revolução dos cravos” como “revolução miserável”, coisa que Salazar, lá na tumba, terá decerto apreciado. Lembram-se daquela antiga canção que Dalida cantava com Alain Delon, Paroles, paroles? Era um caso de amor, aqui é de ressentimento e ódio. Mas, num ou noutro, são só palavras. E não há palavras, mesmo as mais infames ou violentas, que apaguem a História. Por mais que as gritem.

Abril, guerras mil – e há um ogre a querer dançar
Noutro palco, o planetário, estamos em pleno manicómio. Fixemo-nos numa criatura, a que, por economia de letras, chamaremos ogre (nada que ver com Shrek, pois este não é verde, anda mais pelos tons alaranjados; nem é muito dado a atrair simpatias, excepto de acólitos e veneradores). Pois queria o ogre ser visto como um campeão da paz. Até lhe deram dois prémios e tudo. Como falhou na paz, atirou-se à guerra, trocando a paz das pombas pelo “pás” das bombas. Nada que uma canção não tenha já dito, antes do ogre. Ouça-se Amélia Muge em E viva a paz (1991): “E viva a paz e viva a paz/ p’ra mim, p’ra ti, cá p’ró rapaz/ pás, pás, pás… pum!/ lá vai mais um!”»


Nuno Pacheco no Público






sexta-feira, 24 de abril de 2026

POSTAIS EM SELO


 A minha liberdade não acaba quando começa a do outro; ela acaba quando acaba a do outro.

Mário Sérgio Cortella

Legenda: imagem do filme Primavera Tardia de Yasujiro Ozu

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


De 22 de Abril e até 30 de Junho, de sexta a domingo, das 10h às 18 horas, com entrada gratuita, nos Pavilhões da Mitra, espaço da Santa Casa, a exposição “Armas de Papel – Imprensa e Publicações Clandestinas (1926-1974)” . Esta mostra do arquivo da Associação Cultural Ephemera cobre todo o período da ditadura e todas as correntes políticas e ideológicas perseguidas, como o republicanismo democrático, o anarquismo, o comunismo, o socialismo, o catolicismo progressista ou o esquerdismo.

A exposição revela a comunicação clandestina na luta contra o regime através de uma coleção com origem em doações e aquisições, quer de instituições, quer de pessoas individuais, algumas das quais tiveram um papel relevante na própria produção e distribuição de materiais clandestinos. Presentes na Mitra estão documentos do espólio de Carlos da Fonseca (doados pela Fundação Gulbenkian), de Francisco Martins Rodrigues, de José Miguel Carvalho, de José Pacheco Pereira, aquisições de coleções do Avante!, entre outros.

Armas de Papel também é um livro que José Pacheco Pereira publicou, em Março de 2013 na Temas e Debates/Círculo de Leitores.

OLHAR AS CAPAS

Emigrantes

Shaun Tan

Kalandraka Editora Portugal, Matosinhos, 2011

O que leva tanta gente a deixar tudo para trás e a partir rumo a um país misterioso, a um lugar onde não têm família, nem amigos, onde tudo é desconhecido e o futuro uma incógnita?

TUDO À FORÇA DOS BRAÇOS

«Fernando Leonardo sabe o que é pescar nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola para esperarem os barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no mar, uma sopa, um guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de alumínio, num fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava também o pão, o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das cinco da manhã às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente, às vezes um, nesse tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou cinco no mínimo, quatro aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem avisos meteorológicos, sem GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um temporal e perdiam-se as redes, em havendo nortada não se rompiam avante, içava-se a vela, metia-se um ou dois riços e ia-se bordejando, bordo de mar, bordo de terra, a direito, ia-se à Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para lá, bordo de mar para cá, tudo à força de braços, eram outros tempos.»

José Carlos Barros em Os Filhos de Monte Gordo

RETRATOS


«Permito-me reproduzir aqui (plagiando-me a mim próprio) o prefácio que tive o gosto e a honra de escrever para um recente livro de poemas de José Luís Tinoco, editado pela Câmara Municipal de Leiria.

Para além das belíssimas letras de canções que compôs, José Luís Tinoco trazia ainda dentro de si um exigente e poderoso poeta, mais noturno talvez do que o resto da sua obra, mas mais perto também da autenticidade de quem considera, de olhos enxutos, o balanço de uma vida.

A poesia de José Luís Tinoco, de firme apuro formal e sábio desenvolvimento, isenta de quaisquer fragilidades ou facilidades, apresenta-nos um mundo distópico e carregado do seu próprio vazio, um mundo cinzento onde perseguimos em vão as brasas cintilantes das memórias. Elas apagam-se, as brasas, tão logo as alcançamos, mas conseguimos entrever, por detrás da cinza, o intenso mundo perdido para que nos chama esta poesia.

E são muitas as memórias que se deixam entrever. Mesmo no meio da mais cinzenta paisagem, é impossível perder-se o apelo da vida. Porque escrever é triunfar do vazio e afirmar as cores que resistem para além do cinzento e da perda.

"E assim nos promete o poeta:

amanhã vou encontrar-te entre as raízes

e o que sobrar da respiração da noite

junto às nascentes

onde bebem os sobreviventes do sol e dos temporais

descobrir-te nesse vago rumor de vidros e de estrelas

que se move sobre as pedras

e só agora começo a entender

nítido azul que há-de cobrir o resto dos teus dias”

E a poesia torna-se nessa intensa e concentrada procura do azul, que nos faz continuar a poder acreditar na vida.

Assim, a poesia de José Luís Tinoco só a uma primeira e menos atenta leitura nos parecerá cinzenta e disfórica. Toda a sua obra poética, ainda que filha da melancolia e da bílis negra que, segundo Aristóteles, carateriza o génio, constitui um forte apelo à vida, que faz com o seu canto regressar as cores à paisagem mais mortiça e seca que o poeta possa evocar. E esta alternância da melancolia da perda com a maravilha da criação é o motor que alimenta a poesia e é por isso que podemos aqui dizer, com o poeta Manuel Gusmão:

“Contra todas as evidências em contrário, a alegria.”

É que, se não há vertigem para quem conhece os abismos, como nos ensina o nosso poeta, ele tem presente também a advertência de Nietzsche: “Quem ama o abismo precisa de ter asas.”

E não faltaram a José Luís Tinoco as asas da poesia, como ele bem sabe. Por isso este livro de amadurecida e escorreita poesia, em que vemos emergir uma nova e original voz poética, na sua plena capacidade, nos agarra de surpresa para não mais nos largar.

Nesta dolorosa despedida, são estas as palavras que deixo à memória do arquiteto, músico, poeta e grande homem da nossa cultura José Luís Tinoco.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

A PARTIR DESSE DIA

 A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários, os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da exclusiva claridade que há nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.

Amadeu Baptista em Poemabril 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

POSTAIS SEM SELO


O tempo é a minha memória.

Carlos Drummond de Andrade

OLHAR AS CAPAS


Causas da Decadência dos Povos Peninsulares

Antero de Quental

Colecção Tempo Social nº 15

Capa: Mário Andrade

Padrões Culturais Editora, Lisboa, Novembro de 2011

Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um invencível horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem indignidade, é trabalhar! Uma fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias da nossa fidalguia.

REOLHARES

VELHOS RECORTES

O que aqui se publica, é uma Carta ao Director do Público enviada pelo leitor José da Cruz Santos que, quando o 25 de Abril fez 50 anos, num qualquer momento de inquietação, de desesperança, entendeu que outros leitores do jornal, deveriam conhecer o que lhe ia no pensamento.

Passou um ano.

Que pensará o leitor José da Cruz Santos? 


À LUPA

O regresso com estrondo de Pedro Nuno Santos ao Parlamento, após uma derrota eleitoral que, em tese, recomendaria uma longa travessia do deserto, está aí para mostrar os inegáveis atributos políticos do ex-líder socialista. Mas demonstra também a sua desadequação a um partido com as características históricas do PS. O regresso estrondoso de Pedro Nuno Santos
Por agora, o interesse que gerou este regresso e o tom das reações que provocou são um bom barómetro, e demonstram que Pedro Nuno Santos estará para o PS como no passado Pedro Santana Lopes esteve para o PSD. Um enfant terrible que não deixa ninguém indiferente, concentra as atenções e revela gosto pelo combate político.

 Pedro Adão e Silva no Público

POEMA DA DESPEDIDA

Não saberei nunca

dizer adeus

Afinal,

só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,

só nós não podemos ser

Talvez o amor,

neste tempo,

seja ainda cedo

Não é este sossego

que eu queria,

este exílio de tudo,

esta solidão de todos

Agora

não resta de mim

o que seja meu

e quanto tento

o magro invento de um sonho

todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra

alcança o mundo, eu sei

Ainda assim,

Escrevo.


Mia Couto