«Christa Pike, condenada à morte em 1996 por homicídio, sobreviveu a duas doses letais de pentobarbital.» À beira disto, a história entre o Ronaldo e o Jesus não vale nada.»
Cristina Fernandes no Bicho Ruim
Cristina Fernandes no Bicho Ruim
Encontrei este livro na Re-Read da Avenida de Roma, onde antes era a Leitaria Suprema.
Escreve o seu biógrafo Benjamim Moser que investigou a
vida de Clarice em tês continentes, desde Tchechelnik até ao Recife, depois ao
Rio de Janeiro e mais tarde, como esposa de diplomata, a Nápoles, Berna e
Washington, até ao regresso definitivo ao Rio de Janeiro:
«Nascida em 1920, numa Ucrânia devastada
pela Primeira Guerra Mundial e a Revolução Bolchevique, com a família forçada à
emigração pelos pogroms que violentaram a mãe e arruinaram o pai, Clarice
Lispector tornou-se no Brasil uma mulher cujos talento literário, beleza e
originalidade intrigaram muitos escritores e artistas»
Maçã no Escuro é um livro sereno.
É o primeiro dos três romances que publicou nos anos sessenta.
Numa das numerosas versões de A Maçã no Escuro que escreveu, Clarisse ouviu até à exaustão a Quarta Sinfonia de Brahms, número que se exprime no livro como símbolo do mundo criado e de vida.
Copio a epígrafe escolhida pela autora:
«Criando todas as coisas, ele entrou em
tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que ´informe;
tornou-se o que pode ser definido; e o que não pode ser definido; tornou-se o
que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é
subtil. Tornou-se toda a espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no real.»
Vedas (Upanichade)
Só os mais atentos conseguem encontrar esta maçã no escuro.
Teremos que tentar.
Já agora, ouçamos a 4ª sinfonia de Brahms
Clarice Lispector
Capa: Fernando Mateus
Relógio D’Água Editores, Lisboa, Novembro de 2000
Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.O sinal vermelho, o carro
travado. À esquerda, a bomba de
gasolina;
à direita, a gaiola equívoca.
Duram um minuto e meio,
a minha espera
e os contos que me visitam,
rápidos monogramas em ponto cruz
dessa louca sem nome.
Morou ali no tempo
Em que a cidade acabava antes.
Gritava no corredor
que era um pássaro, nascia de manhã
com asas, as penas caíam-lhe à mesa.
Ao fim do dia, abria-se a porta
da varanda. Arrancou
e comeu todas as petúnias brancas.
Depois, o bordado caído
e os olhos atirados para o céu,
por onde hão-de passear estes aviões
agora. Presos: o tecido no bastidor e o
ar no peito
(ao contrário daquele que ainda circula –
a única coisa que as grades não podem
segurar).
Margarida Ferra
em Curso Intensivo de Jardinagem
Um desses intérpretes chamou-se Chalana, um tipo
franzino que num leve dançar, muitas vezes, sem tocar na bola, desviava os adversários, criava
jogadas e metia golos de levantar estádios.
Deixou-nos em Agosto do ano de 2022, mas eu ainda
estou nas tardes de domingo, no alto do 3º anel, a ver os dribles dançantes
daquele que José Neves de Sousa, sportinguista e jornalista do Diário de lisboa, aos primeiros olhares,
não teve qualquer dúvida em chamá-lo
«pequeno genial», que aos 17 anos começou a jogar na primeira equipa do
Benfica.
«O que se poderá dizer mais sobre
Fernando Chalana que ainda não tinha sido dito»?, perguntou a
jornalista Leonor Pinhão, na hora da sua morte.
Genial futebolista, de uma humildade completamente
desconcertante, que depois do campeonato europeu de 1984, foi contratado pelo
Bordéus por 220 mil contos, dinheiro que o presidente Fernando Martins, o pedreiro,
aproveitou para fechar o terceiro anel do Estádio da Luz, promessa eleitoral que
talvez não tivesse concretizado se não fosse a cedência do Chalana ao Bordéus
Por mim, ainda não saí da bancada do 3º anel a ver os
dribles dançantes daquele miúdo que adorava o Benfica e, nos tempos livres,
criava pombos-correios tal, como José Torres, outro benfiquista.
Sempre que necessário,
apresentava-se assim:
«Mário Santos,
republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»
Todos os anos, pelo 5 de
Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de
Almeida para uns «Viva à República».
Morreu em 1968, com 93
anos.
Foi um dos muitos que
morreu sem saber qual a cor da liberdade.
Estava na Praça António
José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General
Humberto Delgado.
O meu pai dizia-lhe que
ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.
«Dizes tu! Eu e o homem
da bandeira nunca falhamos!»
Referia-se a um
republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa.
Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do
Partido Socialista.
O meu pai morreu em Junho
de 1990.
Num 25 de Abril, 1988 (?),
o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantava Vivaldi,
discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na
tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do
meu avô e dos companheiros republicanos históricos.
Sucedeu nascer um
desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei
para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio
escorrer…
Que nada perturbe esse
silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem,
admito ver o meu avô e o homem da bandeira…
Uma pequenina luz
bruxuleante
não na distância
brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de
nós e a multidão em volta
une toute petite
lumière
just a little
light
una picolla… em
todas as línguas do mundo
uma pequena luz
bruxuleante
brilhando incerta
mas brilhando
aqui no meio de
nós
entre o bafo
quente da multidão
a ventania dos
cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo
dos que a não vêem
só a adivinham e
raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia
firme
que não ilumina
apenas brilha.
Chamaram-lhe voz
ouviram-na e é muda.
Muda como a
exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando
indeflectível.
Silenciosa não
crepita
não consome não
custa dinheiro.
Não é ela que
custa dinheiro.
Não aquece também
os que de frio se juntam.
Não ilumina
também os rostos que se curvam.
Apenas brilha
bruxuleia ondeia
indefectível
próxima dourada.
Tudo é incerto ou
falso ou violento: brilha.
Tudo é terror
vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento
realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou
claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou
desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz
bruxuleante e muda
como a exactidão
como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância.
Aqui
no meio de nós.
Brilha.
Jorge de Sena
Perplexa a Lupa, lê no Público:
«Morre um golfinho por dia em Portugal.
Bruxelas ameaça com tribunal
A Comissão Europeia decidiu avançar para a segunda fase do processo de
infracção contra Portugal por alegadas falhas na protecção de golfinhos e
outros cetáceos, concluindo que o país continua sem cumprir plenamente as
obrigações europeias destinadas a monitorizar e prevenir as capturas acidentais
em actividades de pesca.»
Ele não é ninguém, mas não aceita que um qualquer
humano, que ande aos pontapés numa bola, sela o símbolo do país que o viu
nascer e de que gosta muito.
Não! E não, é não mesmo!
Que lhe diriam os escritores – temos um Nobel da
Literatura! – os poetas, os homens do teatro e do cinema, os pintores, os
cantores, os músicos que o ajudaram a pensar e ser gente?
Claro que se lembra que num qualquer Natal, o
primeiro-ministro Luís Montenegro teve a infelicidade de numa mensagem de
Natal, ter dito que teremos de ter a
«mentalidade de Cristiano Ronaldo» para mudarmos o país.
Também se lembra que o escritor Claudio Hochman no seu livro Ilhas, deixou o lamento:
«Quando morreu Herberto Helder, houve quem pensasse que dariam o seu nome ao aeroporto da Madeira, a ilha onde o poeta nasceu. Mas não. Deram-lhe o nome de Cristiano Ronaldo. Mais uma vez, a poesia do futebol ganhou à poesia pura e dura.»
De uma vez por todas acabem com esta palhaçada!
Sempre gostou do
Outono, da Primavera, talvez alguns dias de Inverno, mas o resto sempre o
deixou com vontade de lagartar.
Deste modo foi buscar
um textinho feito há longo tempo, mesmo muito longo tempo:
«O poeta polaco Zbigniew Herbert teve o cuidado de dizer a si próprio: «deverás ir tranquilo ao teu próprio
funeral.»
Razão suficiente para que, quando a dita lhe bater à porta, deixar
recado aos amigos e familiares:
Embarquem no cacilheiro da rota da Trafaria, onde o Tejo se faz ao mar, a meio
caminho, despejem as cinzas, de quem muito gostou de andar por aqui, depois
almoço na Antiga Casa Marítima:
filetes de tamboril, arroz de feijão, salada, não se esqueçam de pedir para a
cozinheira lançar uma boa mão cheia de coentros, vinho da casa.
E não se ponham com veleidades, com mariquices, com isto, com aquilo, porque
ele está a espreitar dos bastidores.
Também na morte é importante saber dar uma festa, disse aos netos a rainha-mãe,
devoradora de gin-tonic, viciada em corridas de cavalos, que também adorava uma
boa cachimbada.
»A história dos homens é desde sempre
mistério de vida e de morte. Choramos os nossos mortos e outros chorarão a
nossa morte. Assim se faz o nosso caminhar sobre a terra.»
Ficou-lhe gravada uma frase do jornalista Victor da Cunha Rego: «uma pessoa preparar-se para a morte é a
grande finalidade da vida.».
Foi em Setembro do ano de 1977, na casa que, então, o pai tinha em
Almoçageme, que se lembra de ter pensado, pela primeira vez, no assunto.
Tinha despachado o «Alta
Fidelidade» do Nick Hornby, num só fôlego.
Há por lá uma passagem em que Hornby escreve:
«Não há propriamente muitas canções
pop acerca da morte: pelo menos canções boas. Talvez seja por isso que eu gosto
de muita pop e acho a música clássica um bocado tétrica. Havia aquele
instrumental do Elton John, “Song for Guy”, mas não passava de umas marteladas
no piano que tanto podiam ser ouvidas no aeroporto como no mosso funeral.
- Vamos lá pessoal, as cinco melhores canções pop sobre a morte.
- Genial – diz o Barry. – Uma lista de Homenagem ao pai da Laura. Fixe. “Leader
of the Pack”. O tipo morre a andar de mota. E a seguir temos “Dead Man’s Curve”
dos Jan e Dean, e “Terry” da Twinkle… e aquela do Bobby Goldsmoro, “ And Honey,
I Miss You”…
- E que tal “Tell Laura I Love Her”? Ia ser um êxito.
Ainda bem que a Laura não está aqui para ver como nos divertimos à custa do pai
dela.
- Já resolvi que música vou querer no meu. “One Step Beyond”, dos
Madness. “You Can’t Always Get What You Want”.»
À noite, debaixo da parreira de uva americana, ou morangueira, sentindo
o aroma, ouvindo o silêncio dos ralos e das cigarras, lembra-se de lhe ter
contado o episódio e, ao mesmo tempo, perguntado, que música ele escolheria.
Uma pausa muito grande, e depois a resposta:
O Requiem de Mozart.
Passados meses, pensando que a morte é o único destino que temos assegurado,
por mera brincadeira, começou a alinhar uma cassette (os CDs eram, ainda, uma
miragem) de músicas e canções para serem ouvidas antes de o fogo o devorar.
Ainda nem sequer tinha chegado ao princípio dos princípios e desistiu.
Os amigos não mereciam tal castigo.
Mas algum toque teria que existir.
Foi quando concluiu que bastava uma única canção: «Bye, Bye Love», na versão de Simon
and Garfunkel, «bye, bye love, bye,
bye happiness.»
Esperança para o futuro: a de aprender a morte serena, a que contemplava
a luz no musgo daquela parede da casa de Almoçageme, a parede junto ao celeiro,
onde o Marcolino guardava as maçãs reinetas, as batatas, as cebolas, as
enxadas, o aroma das uvas americanas, ou morangueiras, o silêncio dos ralos e
das cigarras.
Nunca aprendemos tudo sobre despedidas e o grande problema é que o tal dia,
dura uma eternidade.
Entrada para uma solicitação do poeta José Gomes Ferreira:
«Enterrem também comigo na cova,
Graças a um novo invento de gravação
magnética nas pedras
Música de Bach e de Mozart
É o único ar
Que os mortos podem enigmaticamente
respirar»
História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar
Luís Sepúlveda
Tradução Pedro Tamen
Asa Editores, Porto
Janeiro de 2003
-Estou a voar! Zorbas! Sei voar! Grasnava ela, eufórica, lá da vastidão
do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos – disse ele suspirando
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas
- Ah, sim? E o que ela compreendeu? – perguntou o humano.
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.
-Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo.
É de todo
incompreensível que um pobre país, rodeado de gravíssimos problemas de
sobrevivência, assista a horas e horas e horas seguidas de discussão nas
televisões, nos jornais, nas rádios, do que se terá passado entre um jogador e
um treinador de futebol.
Jorge Jesus terá dito o
elementar: «sou eu que mando na equipa!»
Cristiniano Ronaldo não
gostou e, em vez de ficar para discutir o que ele pensa ser um problema, chamou
o seu jacto particular e regressou a casa, abandonando o estágio da selecção.
Agora enfrentamos uma
verdadeira novela mexicana.
Soube-se, entretanto, que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro, sempre a trabalhar, já se movimenta nos bastidores da crise da selecção nacional, após a saída de Cristiano Ronaldo.
Facto:
Durante anos e anos,
Cristiano Ronaldo jogava sempre. Quando fazia sentido, jogava. Quando não
fazia, jogava também.
Opiniões:
«Obrigado, Cristiano,
mas agora deixa a Seleção jogar. Deixa Jorge Jesus ser treinador. Deixa os
outros jogadores crescerem. E deixa que a tua vida seja aquilo que merece ser:
uma história extraordinária, não uma guerra pelo direito a continuar a ser aquilo
que já foste.
Porque o futebol não é
uma cerimónia de homenagem. É um jogo. E o jogo seguinte nunca se joga ontem.
Talvez tenha sido o dia
em que Jesus percebeu isto, que pôs fim ao Cristianismo.»
Nuno Saraiva em A Bola
«Só Ronaldo não quis
ver que o tempo do esplendor da glória desportiva era passado e que se iniciara
a sua caminhada em direção ao esquecimento.»
Pedro Adão e Silva no Público
Voltar, sempre, ao poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade:
«Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.»
É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.
Rui Pires Cabral
Saboreei o que a vida
me ofereceu, tudo o que sinto é só meu, eu nunca renunciei! e vou continuar a
estratégia da cigarra, cantando o Inverno a chegar.
Jorge Palma
Jorge Palma, Viale Moutinho e vozes que não se rendem
«Foi uma triste despedida do Verão, a dois dias de começar o
Outono. Verão que levou com ele Jorge Palma, que parecia antecipar tal
desfecho quando escreveu estas palavras, precisamente em Outono
(estratégia da cigarra), a que ele chamou “a minha balada de
estimação”: “Saboreei o que a vida me ofereceu/ tudo o que sinto é só meu/ eu
nunca renunciei!/ e vou continuar a estratégia da cigarra/ cantando o Inverno a
chegar.” Certa se mostrou a família, quando, ainda mal refeita da perda e a
começar o luto, sugeriu: preservem-lhe a memória ouvindo as suas criações
musicais.
Aquele Outono, ouvimo-lo em Norte (2004), o primeiro álbum
que fez sem a pressão do álcool, que andava a atormentar-lhe a vida e a
carreira. Reencontrara um Norte, sim, e num período (pós-11 de Setembro) de
grandes angústias. Nesse Norte, escreveu em Optimista céptico (título que apanhou de
uma frase de Saramago): “A hipocrisia deste novo império/ faz-me vomitar (…) só
quero encontrar paz/ sem arrastar atrás nem mestre nem Deus” — e aqui
saltava-nos à memória Ni Dieu Ni Maître, jornal anarquista francês
fundado em 1880. Extraordinária, a capacidade de Jorge Palma ter um estilo tão
próprio e soar como nenhum outro (é fácil perceber quando ouvimos alguém cantar
“à Jorge Palma”) e, ao mesmo tempo, misturar na sua produção tantas inspirações
e referências, de T. S. Elliot a Saint-Exupéry, de Lévi-Strauss a Tagore, de
Prevért a Baudelaire, de Dylan e Cohen a Nino Rotta, de Paul Simon a Jacques
Brel, de Van Morrison a Les Chats Sauvages, de Neil Young ou Tom Waits a Sérgio
Godinho e José Mário Branco. E, no entanto, sempre Jorge Palma.
No álbum Com Todo o Respeito (2011), Palma enfrentou a morte
numa canção, Agora não, ainda não — tal como Kurosawa no seu
último filme, Madadayo (1993), filme que Palma desconhecia. Mas
foi no seu derradeiro disco, Vida (2023), já depois de celebrar em palco 70 anos
de existência (em 2021) e de revisitar os seus 14 álbuns numa maratona de seis concertos em Lisboa (2022), que
voltou ao tema com vários cambiantes. Assim: “Vida/ causa de todas as coisas/ princípio de todo o
princípio/ final de todos os finais/ nasce em mim.” Afastando, mas não
iludindo, a existência da morte: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro/ e o que
deixa antever não é convidativo”; ou “Vejo o princípio e o fim abraçados/ numa
espécie de altar” (Espécie de altar); “Passos de anjo rumo ao destino
final” (Uma estação no inferno); “Mais tarde temos plena
consciência/ de que o final é sempre a sós” (Canção de vida); ou, irónico: “Seja lá quem for o
meu cangalheiro/ tenha a atenção de me vestir a rigor” (Estróina); e “O fim está próximo, não há nada a
fazer” (Plantas na Lua)..
Um dia depois de Jorge Palma, deu-se outra perda assinalável: a do escritor e
jornalista José Viale Moutinho (1945-2026). Além das obras literárias
e dos prémios que justamente o distinguiram, Viale Moutinho também escreveu
sobre o mundo da música, assinando duas obras de referência: a antologia de
canções de resistência à ditadura O Nosso Amargo Cancioneiro (Ed.
Latitude, 1972, com reedição em 1973 pela Livraria Paisagem), que, muitos anos
depois, já em plena democracia, deu origem ao livro Cancioneiro de Abril,
editado pela Ulmeiro em 1999; e Memórias do Canto Livre em Portugal
(Editorial Futura, 1975), “somatório de notas e cantigas” editado em plena
euforia abrilista, com ecos de vozes que não se renderam às perseguições dos
censores.
Por falar em euforia e em canções: não em Portugal, mas nuns Estados Unidos em
efervescência pré-eleitoral, está anunciado para 3 de Outubro, num pavilhão de
Columbia, Maryland, o Festival Power To The People, com nomes como Tom Morello, dos Rage Against The Machine (que o
organizou), Foo Fighters, Dave Matthews, Joan Baez, Public Enemy, Cypress Hill,
Stephen Stills ou Bruce Springsteen, como convidado especial.
Entrevistado por Desi Lydic no The Daily
Show de Jon Stewart (o programa faz agora 30 anos), Morello definiu-o
assim, como se anunciasse um manifesto político: “É um festival de paz, amor,
justiça e música. Em tempos em que a guerra é celebrada, este é um festival de
paz; em tempos em que a divisão e o ódio são a norma, este é um festival de
amor; em tempos em que a injustiça é infligida todos os dias, aqui e no
estrangeiro, este é um festival que celebra a justiça. E num mundo com imensa
música má, só teremos bandas espectaculares.”
Jorge Palma concordaria: “Os músicos, tal como os pintores, poetas, artistas de
teatro e cinema, já que têm tempo de antena, têm a obrigação de falar dessas
coisas, de chamar a atenção para as desigualdades, para as injustiças, tudo”,
disse ele ao PÚBLICO em 2007, quando publicou Voo
Nocturno».
Nuno Pacheco no Público de 1 de Outubro
Legenda: Imagem do Público
Também eu ceei com
os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.
E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).
Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.
Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.
Manuel António Pina de Cuidados Intensivos em Poesia, Saudade da Prosa
O futebolista Cristiano Ronaldo, em aparente litígio
com o treinador Jorge Jesus, abandonou o estágio da selecção, que decorria em
Copenhague, com vista ao jogo com a Dinamarca, a contar para a Taça das Nações.
Mandou vir o seu jacto particular e regressou a casa.
A seu tempo, as partes envolvidas revelarão as suas verdades!...
CR7 é um menino-crescido que pensa que é dono de tudo
e algo mais.
Há muito deveria ter acabado a carreira em alta, mas
agora arrisca-se a sair pela direita baixa.
No país, continua o aumento do custo de vida, a crise
da habitação, os problemas do Serviço Nacional de Saúde, os baixos salários, as
baixas reformas.
Legenda: fotografia de José Sena Goulão/Lusa.
O Caminho Imperfeito
José Luís Peixoto
Ilustrações: Hugo
Makarov
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Setembro de 2017
O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.
Colaboração de Aida
Santos
Na floresta silenciosa
Fui encontrar a rosa
Prometida.
Na floresta silenciosa
Fui encontrar,
generosa,
A minha vida.
Ruy Cinatti
Só as casas explicam que exista uma
palavra como intimidade.
Ruy Belo
Legenda:
pintura de Jakub
Schikaneder
Ao longo dos
tempos a Casa onde viveu António Sérgio sempre viveu momentos difíceis, desde
ser vendida, ao abandono a que diversas entidades a submeteram.
Há dias lia-se no Público que a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem futuro incerto.
«Numa cave de uma moradia na Lapa, na
freguesia lisboeta da Estrela, guardam-se à volta de 7500 livros que pertenciam
ao pensador e ensaísta António Sérgio (1883-1969). “Aqui há de tudo: desde
química até filosofia”, nota a técnica documentalista Sónia Queiroga. “Muitos
têm dedicatória ou anotações e vários eram oferecidos.” Uma sala ao lado
reveste-se de diversas publicações sobre cooperativismo e economia social ou de
obras da autoria do próprio António Sérgio. Neste depósito, há ainda espólios
de outros autores.
Com um acervo único, a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem um futuro incerto
Neste momento, a Casa António Sérgio tem o seu destino em aberto. Nos últimos
anos, este tem sido um espaço gerido pela CASES, cuja dissolução foi
recentemente aprovada, após a saída do Estado como seu membro. Funcionários e
direcção alertam para um património “único” que se pode perder. Em relação ao
seu proprietário, a Câmara de Lisboa, que o tem cedido desde 1982, refere que
possíveis mudanças ou desenvolvimentos serão analisados em “momento oportuno”.».
A imagem em cima, mostra um recorte do Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1980 em que se noticiava que um incêndio,dado o abandono que rodeava o edifício, ocorreu na casa onde viveu António Sérgio.
1.
«A amizade é uma coisa
muito complexa… É-se amigo de alguém, na minha opinião, quando se cria uma
exigência em relação a essa pessoa extremamente utópica. Isto é: quando se
pretende que essa pessoa seja o próprio em melhor. Eu sou amigo de alguém,
exigindo dele coisas que não sei que não sei capaz de fazer.»
José Cardoso Pires
2.
Os cortes orçamentais estão a levar as organizações de apoio aos
refugiados ao "ponto de rutura" em áreas cruciais, onde cerca de 8,3
milhões de pessoas arriscam ficar sem ajuda este ano, alertou esta terça-feira
a ONU.
"A proteção não
pode ser reduzida indefinidamente sem provocar o colapso dos sistemas", disse o Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Refugiados (ACNUR). Abaixo de um determinado limiar, os serviços
não se limitam a atingir menos pessoas, alertou.
"Podem deixar de funcionar por completo, deixando os mais
vulneráveis sem a proteção de que necessitam", sublinhou Dominique
Hyde, diretora de relações externas do ACNUR, por ocasião da publicação de um
relatório da organização, sedeada em Genebra, na Suíça.
3.
Desde que os EUA iniciaram a onda de ataques ao Irão, a 28 de fevereiro deste ano, não foram só o preço dos combustíveis e a conta do supermercado que passaram a pesar mais no orçamento das famílias. O Banco Central Europeu aumentou por duas vezes as taxas de juro, a última das quais a 10 de setembro, em 0,25 pontos percentuais. Quem tem crédito à habitação com taxa variável - quase um milhão de famílias, segundo dados oficiais do Banco Portugal -, viu as prestações escalarem, para lá, em alguns casos, dos 100 euros.
4.
«Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas), passaram a servir de
inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.»
José Pacheco Pereira no Público
5.
São mais de 32,5 milhões por ano para
pagar as 381 novas reformas acima de cinco mil euros da Função Pública até
setembro. Médicos, administradores hospitalares e juízes lideram a lista de
reformados e aposentados pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) este ano, onde
estão nomes como Carmona Rodrigues, Maria de Lurdes Rodrigues, Barradas Leitão
ou José João Abrantes.
O número de novas reformas acima de cinco mil euros brutos na Função
Pública caiu ligeiramente face a 2025, mas os gastos subiram. As reformas de
381 novos pensionistas dariam para pagar aos 3212 recém-reformados com menos de
mil euros.
Paramos na página 630 e cito:
«Outro amigo a quem Herberto ofereceu Flash foi
António Barahona. Dias depois. Disse que o tinha perdido e Herberto
ofereceu-lhe outro exemplar. Acontece que, mais tarde, os dois apareceram à
venda num alfarrabista, o que enfureceu Herberto: julgava que tinha um amigo
mas, afinal, o que tinha era um amigo que o estava a usar. Olga Lima recorda a
amarga decepção que Herberto sofreu quando se apercebeu disso: »O Herberto
zangou-se com o Barahona porque lhe ofereceu dos exemplares do Flash
autografados e o Barahona vendeu-os porque precisava de dinheiro. Depois disso
o Herberto nunca mais lhe ofereceu livro nenhum.»
No funeral de Herberto Helder, António
Barahona resolveu aparecer sem ser convidado. Quando Olga, a viúva do Herberto,
o viu, não resistiu e atirou-lhe na cara:
«Tu aqui!!!??? O Herberto dedicava-te livros e depois
ias vendê-los aos alfarrabistas.» Gisela Oliveira estava a sair do elevador do
piso de casa do pai quando deparou com esta cena, Olga à porta, muito exaltada
impedindo Barahona de entrar e dizendo-lhe que estava proibido de ir ao
funeral. Porque Olga, diz a filha, associava também «o Barahona ao grupo de
críticos que tinham dito muito mal do último livro do meu pai. Lembro-me de ver
o Barahona quase em lágrimas, a dizer: “Ola, isso não é verdade, eu amava o
Herberto!”».
Legenda: capa de uma 1ª edição de Flash à
venda, na internet, por 1200 euros.
Teresa Martins Marques é uma profunda
estudiosa da obra de José Rodrigues Miguéis. Entre 1994/96 dirigiu e
prefaciou, para o Círculo de Leitores, os 13 volumes da edição das Obras
Completas de José Rodrigues Miguéis.
Com essa enorme bagagem da obra de Miguéis,
Teresa Martins escreveu uma biografia do autor como se fosse um romance: Nos Passos de José Rodrigues Miguéis.
Concebido através de diálogos do escritor
com a cientista Maria de Sousa, sua grande amiga e confidente, com quem
convive, desde 1975, quando Maria de Sousa foi fazer pesquisa científica em
Nova Iorque. Numa carta, datada de 1978, dirigida ao amigo e director do Diário
Popular, Jacinto Baptista, confessa que é uma investigadora de categoria,
também poeta.
Para este longo trabalho foram compulsados e
citados numerosos fragmentos, de cartas inéditas de Miguéis a intelectuais e
amigos. São igualmente citados excertos de crónicas, paratextos e aforismos,
bem como excertos de cariz autobiográfico da sua obra ficcional.
O importante é conhecer a obra de José Rodrigues Miguéis, extraordinário escritor, um dos grandes prosadores do século XX, mas Nos Passos de José Rodrigues Miguéis torna-se uma aventura deliciosa a leitura deste retrato em livro de 698 páginas.