Será pelas 14h46 que o equinócio da Primavera marcará a sua chegada.
Para já o sol faltou ao
encontro, mas sabemos que o clima está em farrapos.
Por finais de Fevereiro
já as podemos ver a cruzar os nossos ares.
Anunciam a chegada da
Primavera.
Diz-se que uma andorinha não faz a Primavera.
A razão do provérbio é
que as andorinhas migram em bandos.
Mas também se pode dar
a volta ao texto e dizer que por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.
Daí que Frederico de
Brito tenha feito versos para uma canção do Carlos do Carmo:
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera
Como vês, não estou
mudado
E nem sequer descontente
Conservo o mesmo presente
E guardo o mesmo passado.
Eu já estava habituado
A que não fosses sincera
Por isso eu não fico à espera
Duma ilusão que eu não tinha
Se deixaste de ser minha
Não deixei de ser quem era
Vivo a vida como dantes
Não tenho menos nem mais
E os dias passam iguais
Aos dias que vão distante.
Horas, minutos instantes
Seguem a ordem austera
Ninguém se agarra à quimera
Do que o destino encaminha
Por morrer uma andorinha
Não acaba a primavera!
Quando era miúdo, as varandas das ruas do bairro onde nasci, raro era a que não tinham andorinhas de barro.
Catarina Portas há uns
anos nas suas lojas, recriou essas andorinhas de barro e explicou:
« As andorinhas
são muito mais do que um objecto decorativo são um símbolo tão português,
associado à casa, ao regresso e ao amor pelo lugar de onde se vem.
Criadas por Rafael
Bordalo Pinheiro no final do século XIX, as andorinhas de cerâmica ganharam as
paredes de tantas casas portuguesas, tornando-se um dos ícones mais queridos da
nossa cultura.»
Também deixou uma crónica no Público de 8 de Março de 2008:
«Tenho andado de cabeça no ar, olhos levantados para o céu, verificando o horizonte com ansiedade. Mas nada, só pombos nos beirais e gatos pretos nos telhados. Porém, gente de sorte já me mensajou que, sim, que as avistaram, que elas estão a chegar. Vislumbrar a primeira andorinha do ano é uma alegria inexplicável, como o deslumbre de um dia sair à rua e descobrir os jacarandás em flor ou aquele prazer raro de trincar as primeiras cerejas do calor. Agora, cerejas já as há todo o ano, vindas daqui e dali, mas como as andorinhas ainda não se dão em estufa e só arribam quando muito bem lhes parece, esta ainda é uma daquelas felicidades inteiras que o ciclo anual das estações nos traz. Extraordinário, pois é sempre certa esta improbabilidade de avezinhas do tamanho de uma mão conseguirem percorrer milhares de quilómetros, de África até aqui, e acertarem tantas vezes com o lugar de onde partiram seis meses antes. Este país gosta de andorinhas. Estão protegidas por lei (316/89 e 75/91) e foram iconizadas pelo povo. Sempre me intrigou o costume de pendurar reproduções de andorinhas, em barro pintadas, pelas varandas e fachadas das casas portuguesas. Um dia, dei-me ao trabalho de andar a perguntar a historiadores, antropólogos e museus a origem do costume. Não fomos muito longe, que nestas manias populares de três vinténs os registos não abundam. Mas cheguei à conclusão de que as mais antigas que alguém tinha para exibir eram aquelas que Rafael Bordalo Pinheiro, entre couves e restante bestiário, lhe deu para moldar em finais do século XIX - como aquelas que em 1891 pendurou nos fios telefónicos que decoram a maravilhosa Tabacaria Mónaco, ainda hoje no Rossio em Lisboa (e alçando o olhar, no tecto já enevoado pelos anos, há também um bando delas
pintadas a voar). Se terão sido criação original ou apenas recriação de luxo de outras que já por aí andavam é coisa que provavelmente nunca saberemos, mas certo é que estes ornamentos de exterior caíram no goto do povo e espalharam-se alegremente pelo país ao longo do século XX (sorte a nossa, há nações desgraçadas a quem isto aconteceu com anões atrozes, de jardim). Dizem que a moda prosperou nas décadas da emigração, pelos anos 60 e 70, numa identificação simples entre gente e aves viajantes. E contam ainda que, no Brasil, uma casa com andorinhas de cerâmica na parede é casa de portugueses, certo e sabido.
Ao contrário do galo de Barcelos, que apesar das origens populares se tornou emblema nacional redesenhado e imposto pelo regime, as andorinhas alcançaram o estatuto de ícones adoptados e amados pelo povo. Quiséramos nós ser andorinhas, aves negras de um país onde o negro é cor (como dizia uma publicidade antiga do vinho do Porto em França), asas valentes, viajantes, saudosas, trabalhadoras, alegres, belas, doidas e livres. Como escreveu Alexandre O"Neill: "Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria!"







.jpg)

.jpg)


