sábado, 14 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS


Che Guevara: A Aventura Boliviana

Che Guevara

Carta de Che a Fidel de Castro

Diário Boliviano

Discurso de Fidel para Guevara

Tradução: Egito Gonçalves

Capa: Armando Alves

Colecção Ofício de Viver nº 16

Editorial Inova, Porto s/d

6 de Outubro

A rádio chilena dá uma notícia censurada que indica hver 1.800 homens na zona, à nossa procura.

NESTE DIA


Estamos no dia 3 de Novembro de 1992 com a Conta-Corrente, último volume, de Vergílio Ferreira, que o próprio autor chama «Caixote do Lixo» e de facto assim é. Quando é que acaba com isso, perguntava-lhe o Eduardo Lourenço.

José Saramago e António Lobo Antunes têm entradas sombrias, algumas a cheirar a desprezo por todas as letras da prosa.

Porque há pouco nos deixou, deixo aqui  o que Vergílio Ferreira, nesta terça-feira de Novembro, deixou sobre o Lobo Antunes, em que volta a falar do Nobel da Literatura porque nunca esqueceu o que Mário Soares um dia lhe disse: que o Nobel lhe ficaria muito bem.


MÚSICA PELA MANHÃ


Algures, Van Gogh, deixou escrito:

“Não tenho a certeza de nada, mas a visão das estrelas faz-me sonhar.” 

Dentro da minha ignorância sobre tanta coisa, pintura incluída, Van Gogh é o meu pintor.

Lembro-me, desde miúdo, ver, na biblioteca do meu pai, um livro da correspondência trocada entre Van Gogh e o irmão Theo.

O livro não tinha imagens, era uma edição inglesa, e nunca saberei como esse livro me chamou a atenção e esse olhar me acompanhou pela vida, ao ponto de ainda hoje lhe saber as cores da capa. Procurei na internet as edições das cartas de Van Gogh, são muitas, mas nenhuma é o que via em casa do meu pai.

Ainda faltavam alguns anos para saber quem era Van Gogh e conhecer os quadros, e mais anos faltavam para ouvir Vincent, uma lindíssima canção que Don McLean escreveu, como homenagem ao pintor, depois de ter lido um livro sobre a atribulada vida do pintor.

Noite estrelada

Pinta os teus quadros de azul e cinza

Olha os dias de Verão

Com olhos que sabem da escuridão da minha alma.

A 20 de Maio de 1890, Vincent Van Gogh desceu de um comboio em Anvers-sur-Oise, aldeia um pouco a norte de Paris. Alugou um quarto no albergue mais barato e pôs-se a trabalhar febrilmente. Em 70 dias pintou 72 quadros. A 27 de Julho, um domingo, foi pelos campos em redor e deu um tiro no peito. Voltou ao albergue sem avisar ninguém. O proprietário encontra-o moribundo. No dia seguinte chega o irmão.

Não obstante os cuidados do Dr. Gauchet e seu irmão, Van Gogh morrerá nessa noite. As suas últimas palavras terão sido: “A tristeza durará sempre.”

Tinha 37 anos.

Meia dúzia de pessoas estiveram no funeral.

Quantos quadros, em vida, Van Gogh, conseguiu vender?

Hoje são disputados e valem milhões.

«Há girassóis entre as flores amarelas lançadas sobre a sua campa.»

Nas últimas cartas que, de Auvers-sur-Oise, escreveu ao irmão, há uma constante que marca quase todos os começos: preciso de algum dinheiro:

Se lá para o fim-de-semana me pudesses enviar dinheiro… pois o que tenho chegará até então, mas não por muito mais tempo. (21.05.1890).

Obrigado pela tua carta, que recebi esta manhã, e pelos 50 francos que a acompanhavam (25.05.1890).

Muito obrigado pela tua carta de anteontem e pela nota de 50 francos que ela continha. (17.06.1890)

Esta manhã chegou a tua carta, a qual te agradeço assim como a nota de 50 francos que ela continha. (30.06.1890).

Muito obrigado pela tua carta de anteontem e pela nota de 50 francos que ela continha. (17.06.1890)

Obrigado pelo envio das cores, da nota de 50 francos e do artigo sobre os Independentes.

Desta vez o meu dinheiro não me durará muito tempo, pois no meu regresso tive de pagar as despesas das bagagens de Arles (10.07.1890)

Obrigado pela tua carta de hoje e pela nota de 50 francos que ela continha. (24.07.1890)

É esta a última carta de Van Gogh a Theo.

AS TRAGÈDIAS QUE NOS ATINGEM


Foi em Fevereiro que o comboio de depressões invadiu o país. Paula Sofia Luz, jornalista do Público, foi ver como tudo o que foi prometido no calor da tragédia, não está a andar nada bem.

«À medida que passa o tempo, milhares de pessoas vão perdendo a esperança de receber apoios para reconstruir as casas. Na freguesia mais afectada de Leiria, só duas pessoas entre 400 foram apoiadas.

Todos os dias Ermelinda Rainho volta a casa. O cheiro a mofo inundou as divisões, do tecto caem continuamente pingos de água, mesmo nos dias em que não chove. Acredita que “a placa está toda encharcada, e é por isso que a humidade e o bolor começaram a aparecer”. O telhado voou, foi completamente arrancado pelo vento na madrugada de 28 de Janeiro, na fúria da depressão Kristin. Aos 69 anos, a mulher que se aposentou prematuramente por questões de saúde, que até há pouco mais de um mês ali vivia com uma filha, na aldeia de S. Miguel, Souto da Carpalhosa, Leiria, carrega sobretudo falta de esperança.

“Ao princípio, nas primeiras semanas, a gente ainda pensava que isto se compunha. Que era uma questão de pôr o telhado. Mas depois comecei a perceber que não. Perdi mesmo a esperança... Começo a achar que não vamos receber nada”, diz ao PÚBLICO, enquanto procura no bolso da bata um lenço que lhe enxugue as lágrimas.»

sexta-feira, 13 de março de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


No topo do lado esquerdo da 1ª página do Público de hoje, pode ler-se que Rita Rato foi afastada da direcção do Museu do Aljube. Um dia antes ficámos a saber que Franscisco Frazão não ficava à frente do Teatro do Bairro Alto.

Já se conhecem os nomes para os lugares: Miguel Loureiro assume Teatro do Bairro Alto, Anabela Valente dirigirá Museu do Aljube. Miguel Loureiro, director do São Luiz, acumulará funções no Teatro do Bairro Alto, Anabela Valente, líder da maçonaria feminina, promete continuidade no Aljube.

Carlos Moedas, como o outro, quando lhe falam de cultura, puxa logo da pistola e nesse entendimento teremos que chamar os bois pelos nomes e adiantar que Moedas, para além dos compadrios vários,  com «aquela coisa», para obter maioria na Câmara, começa agora a realizar saneamentos políticos.

RETRATOS


«Penso que não se poderá de forma alguma contar com o Dr. Gachet.

Para começar está mais doente do que eu, ao que me pareceu, ou então estaremos muito iguais.

Ora, quando um cego conduz outro cego, não será que ambos cairão no fosso?

Hoje voltei a ver o Dr. Gachet e vou pintar na sua casa na terça-feira de manhã, depois jantarei com ele e, então ele virá ver a minha pintura. Ele parece-me ser bastante sensato. Mas está também muito desmotivado no seu ofício de médico rural, tanto quanto eu na minha pintura.

Então, disse-lhe que de bom grado trocaria ofício por ofício.

Enfim, quero crer que acabarei por ser seu amigo.»

Van Gogh em Últimas Cartas

 

OLHAR AS CAPAS


Últimas Cartas

Van Gogh

Tradução: António Santos

Editora Ausência, Vila Nova de Gaia, Outubro de 2002

Aliás, é certo que, desde que deixei de beber, tenho feito um melhor trabalho, e só fico a ganhar com isso.

PAISAGENS

o verão estende a sua sombra até aos joelhos

em que a luz se dobra: a isso chamávamos Outono

 

Na campânula do nevoeiro o plátano

incendeia a cinza: oiro e vermelho

inverosímeis como uma tempestade

eléctrica no écran da janela;

uma floração delirante do olhar

afectado pelo crepúsculo

recordado na paixão.

Depois

a água gris lavará tudo

excessivamente.

 

Manuel Gusmão  

quinta-feira, 12 de março de 2026

MÁRIO ZAMBUJAL (1936-2026)


Com 90 anos, feitos no dia de 5 de Março, morreu o jornalista e escritor Mário  Zambujal.

Neste dia, o jornalista e escritor Ferreira Fernandes deixou no Mensagem de Lisboa, a evocação dos 90 anos do Zambujal:

«Um dia, Bernard Pivot foi a um restaurante de província, em França, onde lhe serviram uma soberba brandade provençal de bacalhau. Durante o último quarto do século passado, Pivot foi o mais eficaz divulgador da literatura francesa. Os seus programas televisivos Apostrophes e Bouillon de Culture são uma saudade (em francês culto, diz-se “saudade”).

Apesar de também ter gostos culinários (em português, “bouillon” diz-se caldo), não foi ao prato que ele agradeceu. À saída do restaurante La Lavande, em Lardiers, Bernard Pivot deu um abraço apertado aos dois tomos do dicionário Le Petit Robert, à disposição dos clientes e expostos na sala de jantar.

Em Les Mots de Ma Vie, As Palavras da Minha Vida, Pivot escreveu esta frase: “Amei primeiro as palavras antes de amar os livros”. No começo da Segunda Guerra Mundial, em casa, numa aldeia perto de Lyon, teve mais acesso ao Petit Larousse, outro dicionário, e às Fábulas de La Fontaine, do que eu aproveitei no consumo dos meus tantos livros infantis.

Ele dedicou-se a descobrir, compreender e comparar o que queria dizer aquela condição de “atraída” (a Raposa, pelo cheiro do queijo que o Corvo tinha no bico), ou aquela coisa, a “larva” (que a esfomeada Cigarra cantadeira arrependida implorava à Formiga trabalhadeira).

Tudo a ver com a cerimónia que passo a celebrar. Um absoluto colega do francês, também jornalista, sábio e generoso, o Mário Zambujal – e quase contemporâneo de Pivot – tornou-se hoje centenário!

Sobre a identidade profissional e cívica de ambos, lá irei, sobre as datas explico-as já: Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 e Bernard Pivot nasceu, no mesmo dia, dois meses depois e um ano antes do português. Centenários, ambos! Não venham cá com as vossas pequenas aritméticas, “eh pá, estamos em 2026, ainda falta uma década…” Minudências (ide ver ao José Pedro Machado ou ao Morais).

É interessante que Mário Zambujal, miúdo, também tenha vivido uma guerra e até antes do camarada francês, que só aos quatro anos viu camiões militares de cá, para lá, na França ocupada. Já o português, logo meses depois de nascer, teve a sua alentejana e fronteiriça Amareleja com refugiados espanhóis fugidos à guerra civil. Havia-os acantonados no corredor comprido da sua casa. Se calhar há quem passe todo o período da amamentação indiferente aos vizinhos do corredor, mas há-os, outros. Como o Mário Zambujal.

Quando foi viver para Algarve, aos 5 anos, levou com ele o Alentejo e guardou-o, a mãe fazia migas e ensopado de borrego. Depois, foi o Bairro Alto e os jornais, onde ele chegou para distribuir com critério e beleza o que começara e continuaria a vida toda a colecionar – palavras.

Como disse o tal francês, as palavras da minha vida é a minha vida com as palavras.

Quase nenhum quiosque lisboeta pendura hoje tanto jornal quanto os títulos por onde o Zambujal passou: A Bola, Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, O Jornal, Tal & Qual, Se7e, Record… Estendam o rol, onde ele assentou prosa sua, em programas de sucesso na tevê e rádio, dita por outros, como Carlos Cruz (“Pão Com Manteiga”, na Rádio Comercial) ou Raul Solnado (“Lá em Casa Tudo Bem”, RTP)…

É muita palavra. Mais isto: cada uma feita com pesquisa de sinónimos e escolha da nuance certa. Juntem um breve deitar de olho a dicionários de etimologia, saber dar pelo flash de um calão antigo, ter dúvidas da conjugação. E o que já vos disse, a circunstância divina de ter estado acordado, ao outro, desde miúdo. Não é acaso, é convicção profunda de que se é ignorante esclarecido, quer dizer, pronto para aprender.

Apesar de só nos termos encontrado meia-dúzia de vezes (foram sete, Mário), eu conheço Zambujal ao pormenor. Fui, sou, dele, leitor contumaz e já depois com os outros Presidentes todos. Faltaram-me o Carmona e o Craveiro Lopes, pois Zambujal foi publicado pela primeira vez, aos 15 anos. Isso bate em 1951, no ano em que aqueles dois dividiram Belém, um saiu e o outro entrou. O importante foi a primeiro texto ter sido na revista Os Ridículos. Também bate certo, só goza com estas coisas quem leva a carreira a sério.

A editora Clube do Autor lança hoje uma Edição Comemorativa – 90 anos – republicando três livros de Mário Zambujal, Cafuné, Dama de Espadas e a memória coletiva e a procura em vão em alfarrabistas ainda mais coletiva: Crónica dos Bons Malandro.

A edição comemorativa, já vimos, tem aquela pequena dedução formal: Mário Zambujal nasceu em 1936, faz anos hoje, portanto, Edição Comemorativa – 90 anos…

Não, antes de contagens especiosas, o que conta é a essência do personagem. O que é hoje 05-03-2026? Uma folha que amanhã já substituo por outro no calendário da cozinha.

Ora, o sujeito do assunto é o Mário Zambujal, logo, centenário. O nosso escritor, no ano passado, se escrevesse a crónica de uma comemoração ao Senhor Coluna faria a mesma coisa que eu faria. No ano passado, o seu xará e correligionário Mário Coluna – o capitão glorioso do Benfica – fez 90 anos, pois nasceu em 2035. Mas uma crónica do Mário Zambujal sobre o assunto haveria de se chamar O Centenário do Velho Capitão.

Há gente como os dois Mários acima mencionados para quem as datas nunca são assim-assim, como as calendas gregas. Porque lhes acontece com eles são logo efeméride, número redondo! Há personagens que não cabem em livros de contabilidade, onde não se erra ao cêntimo, mas se peca no estilo. Essas pessoas são para as palavras que tomaram o poder da imaginação. Mário Zambujal, centenário, e não se fala mais disso.

Ou, se calhar, e isso aplaudo, foi daqueles bons erros malandros dos Correios e até Bancos Centrais que lançam selos e notas com um pequeno erro de edição. Recolhem a coisa e é um ver se te avias no mercado paralelo. Os meus três livrinhos já os fechei no cofre para a herança dos netos.»

ARCO-ÍRIS


 Poema de Raul de Carvalho dedicado a Vasco Granja, patente na Exposição «Olá Vasco Granja».

Legenda: fotografia de Rui Ornelas.


quarta-feira, 11 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Quem não nos deu amor não nos deu nada.

João Rui de Sousa

Legenda: pintura de Nikolay Bogdanov

TRUMPALHADAS

1.

Ninguém sabe que tempo vai durar a guerra Israel-Estados Unidos-Teerão.

Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua a sugerir que o conflito com o Irão vai terminar "brevemente", Teerão ameaçou "centros económicos e bancos" na região e afirmou que está pronto para uma guerra longa, alertando que isto "destruiria" a economia mundial. No estreito de Ormuz, foram registados ataques contra embarcações.

As mensagens dos Estados Unidos em relação à duração e até aos objectivos da guerra no Irão mantêm-se contraditórias, com Donald Trump a dizer que a guerra está quase a terminar ou que durará ainda pelo menos uma semana, enquanto em Israel há preocupações com a possibilidade de a guerra ser mais curta (e uma corrente, minoritária, com ser mais longa), e do Irão surge uma atitude de desafio, recusando um cessar-fogo e prometendo continuar a lutar.

Trump diz que já ganhou ao Irão, mas que os EUA ainda não se vão retirar

Donald Trump declarou a vitória no Irão, ressalvando que os EUA apenas vão permanecer no terreno para concluir o trabalho. “Nunca se gosta de dizer muito cedo que se venceu. Nós vencemos”, exaltou Trump num comício eleitoral em Hebron, Kentucky, citado pela Reuters.

2.

Pelo menos três cargueiros, com bandeiras da Tailândia, do Japão e das Ilhas Marshall, foram atacados no estreito de Ormuz. O tailandês Mayuree Naree foi atingido por "dois projéteis de origem desconhecida", segundo operador da embarcação, citado pela agência Reuters. A Guarda Revolucionária, por sua vez, numa nota divulgada pela agência Tasnim, informou que o navio foi "alvejado por combatentes iranianos". Vinte membros da tripulação foram resgatados e levados para Omã, enquanto três continuavam desaparecidos.

3.

Um erro do Exército norte-americano, devido a coordenadas desactualizadas do alvo, originou o bombardeamento de uma escola feminina em Minab, no Irão, a 28 de Fevereiro, noticiou o New York Times, com base em conclusões preliminares de uma investigação militar interna a que o jornal norte-americano teve acesso.

Segundo autoridades iranianas, o ataque fez mais de 175 mortos, a maioria crianças. O Presidente norte-americano, Donald Trump, chegou a atribuir a autoria do ataque ao Irão, antes de recuar parcialmente e afirmar que "aceitaria" o resultado da investigação.

Questionado nesta quarta-feira sobre o artigo publicado pelo New York Times, Trump negou ter conhecimento das informações divulgadas.

OLHAR AS CAPAS

André Kertész

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

O que sinto é o que faço. Isso para mim é o mais importante. Todos podem ver,

Mas nem sempre vêem.

ÁRVORE

cego
de ser raiz


imóvel
de me ascender caule
múltiplo


de ser folha


aprendo
a ser árvore


enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo.

 

Mia Couto

terça-feira, 10 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


Mas quem arrisca um grito, da vida que nos coube?

Luís Filipe Castro Mendes 

CONVERSAS NA ESPLANADA

Dona Alfredina, minha porteira, já me tinha dito que todas aquelas canções eram horrorosas, que nem nas festas da terra lá em Fratel, que ela diz ser a capital daa Beira Baixa. alguém teria o despautério de as ir cantar.

Os Bandidos do Cante ganharam o Festival da Canção e vão à Eurovisão.

Ao contrário dos outros sete concorrentes, que tinham declarado um boicote à Eurovisão em protesto contra a manutenção de Israel no concurso, o grupo de Beja já tinha indicado que, caso ganhasse, iria mesmo a Viena, Áustria, em Maio.

Na Esplanada o Dudu declarou que aquilo já estava tudo concertado. Era como as «bolas quentes» dos sorteios da UEFA…

A distinta RTP não permitiria que houvesse a vergonha de alguém, por causa de Israel, não ir cantar ao festival!...

TRUMPALHADAS

 Casa Branca. Grupo de religiosos, alguns com as mãos nos ombros de Trump, rezam pela proteção do presidente, das forças armadas, da América. O vídeo foi compartilhado pelo vice-chefe de gabinete Dan Scavino.

 

1.

“Trump, olha-os nos olhos”: jornal iraniano publica fotografias das crianças mortas no ataque a uma escola.
A capa do jornal iraniano
Tehran Times desta segunda-feira foi totalmente preenchida com as fotografias de 100 crianças alegadamente mortas num ataque contra uma escola no Sul do Irão, no dia 28 de Fevereiro. As fotografias são acompanhadas da frase “Trump, olha-os nos olhos”, depois de nem os Estados Unidos nem Israel terem assumido a autoria do ataque.

Mafalda Fidalgo no Público

2.

A Índia anunciou uma distribuição prioritária de gás natural para consumo doméstico e transportes, numa altura em que as perturbações no abastecimento devido à guerra no Médio Oriente preocupam vários setores da economia.

O país mais populoso do planeta, com cerca de 1,5 mil milhões de habitantes, é o quarto maior importador mundial de gás natural liquefeito .

Uma grande parte do gás natural consumido na Índia é proveniente do Qatar, cujas unidades de produção foram atacadas pelo Irão desde o início da ofensiva israelo-americana contra Teerão.

3.

Donald Trump, manifestou  o desagrado com a eleição de Mojtaba Khamenei como líder supremo iraniano, para suceder ao pai, Ali Khamenei, morto no início da ofensiva israel-americana contra o Irão.

Donald Trump queria participar na escolha do novo líder de Teerão.

Israel determinou que o novo líder irá ser morto, esteja ele onde estiver.

4.

Definitivamente não é possível acreditar que as decisões de Donald Trump são tomadas com base nos princípios de racionalidade e da sensatez.

5.

Preço do petróleo já está 25% acima do valor assumido pelo Governo Luís Montenegro no Orçamento do Estado de 2026.

Vários analistas temem persistência do valor do barril na casa dos 80 dólares. Outros, mais pessimistas, atiram cenário para 100, 150 dólares ou mais. 

Luís Montenegro:

 "Tenho a certeza de que não me vou arrepender de nada do que fizemos nestes dias"

6.

Nas suas conferências de imprensa no Pentágono, Pete Hegseth diz que os Estados Unidos  “estão decisivamente a ganhar a Operação Fúria Épica". O ataque "tem tido resultados incríveis e os Estados Unidos  vão usar todo o tempo necessário para alcançarem os seus objevtivos, nunca houve a intenção de ser, uma luta justa. Nós estamos a atacá-los enquanto eles já estão caídos e é assim que deve ser”

7.

A Administração Trump reuniu-se com executivos das maiores empresas de defesa dos Estados Unidos na Casa Branca para discutir a aceleração da produção de armamento, enquanto o Pentágono trabalha para reabastecer os stocks após os ataques ao Irão e várias outras operações militares recentes,.

A reunião sublinha a urgência sentida em Washington para reforçar os stocks de armamento, depois da utilização intensiva de munições na operação no Irão. Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e Israel iniciou operações militares em Gaza, os Estados Unidos forneceram milhares de milhões de dólares em sistemas de artilharia, munições e mísseis antitanque. O conflito com o Irão consumiu, até agora, um maior número de mísseis de longo alcance do que os que foram fornecidos a Kiev.

RETRATOS


«Há mais de quinze anos que sou testemunha de um labor apaixonante de Marie José Paz  tem um labor apaixonante e secreto. Marie José recolhe todo o género de pequenos objectos e coisas atiradas fora, papéis de diferentes cores e texturas, fotografias (às vezes tiradas por ela própria: um centímetro de asfalto, um charco e o seu arquipélago de bolhas, um papel enrugado como a Serra Madre), ilustrações de livros e revistas, recados e bilhetes de transporte, programas de teatro, fósforos, etiquetas, maços de tabaco vazios – os resíduos e os despojos que cada dia abandona à vaga do tempo. A espuma das horas…»

Octavio Paz

OLHAR AS CAPAS


Ceifa Vermelha

Dashiell Hammett

Tradução: Fernanda Pinto Basto e António Sabler

Capa: João Botelho

Colecção. Série Negra nº 4

A Regra do Jogo, Lisboa, 1979

Dum telefone da estação liguei para o Herald, pedi para falar a Donald  Willson e disse-lhe que tinha chegado.

-Pode vir esta noite a minha casa às dez?

Tinha um voz viva, agradável.

- É no 2101 de Mountain Boulevard. Você toma um eléctrico de Broadway, sai em Laurel Avenue e anda dois quarteirões para oeste.

Prometi lá ir ter. Fui direito ao Great Western Hotel, larguei as malas e saí para dar uma volta pela cidade.

Não era uma cidade bonita. A maior parte dos proprietários só cuidava da ostentação. Talvez tivesse resultado a princípio. Entretanto as fundições, cujas altas chaminés de tijolo se destacavam da montanha escura ao sul, tinham coberto tudo com a sujidade uniforme do seu fumo amarelo.

COMOVEM-ME

Comovem-me ainda os dias que se levantam
no deserto das nossas vidas.

Dos belos palácios da saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.

Muito além, depois das casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.

Aqui, tudo se resume a algumas tâmaras que
secaram ao sol,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.

Comovem-me ainda as palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.

Lembro-me sempre de ti.

 

José Agostinho Baptista


segunda-feira, 9 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


 A verdadeira pátria do homem é o mundo inteiro.

Rosalia de Castro

NOTÍCIAS DO CIRCO


António José Seguro, a partir de hoje, é o novo presidente da República.

Marcelo Rebelo de Sousa que, após dois mandatos, deixa Belém.

Dois mandatos presidenciais com algumas sombras:

- o caso das gémeas luso-brasileiras que levou a um corte de relações com um dos seus filhos e transformou-se numa autêntica novela mexicana

- o caso do encobrimento dos crimes sexuais da igreja.

- o caso de, por uma birra, ter liquidado o governo de maioria absoluta de António Costa, empurrando o país para eleições que resultariam  nos governos de Luís Montenegro.

Outros casos de sombra existiram, mas estes foram marcantes.

Ficaram os afectos, as selfies, Feiras do Livro, por Setembro, nos jardins do Palácio de Belém.

Marcelo, como presidente, quis ser um anti-Cavaco Silva.

Certamente, António José Seguro não vai querer ser um anti-Marcelo. 

Tem um outro olhar, uma outra pretensão para o cargo que agora inicia.

Espera-se...

OLHAR AS CAPAS


Abecê da Negação

Urbano Tavares Rodrigues

Capa. José Araújo

Colecção O Campo da Palavra nº 8

Editorial Caminho, Lisboa, Janeiro de 1980

- Você é infeliz, Salvador. E não gosta da vida.

- Sei lá. Não posso queixar-me muito. Nunca passei fome. Nunca estive desempregado. Nem preso. Tenho os meus livros, a minha luta, os meus companheiros, a minha razão de viver.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


 






NA MÂO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!   

 

Antero de Quental em Sonetos


Nota do Editor:

António Lobo Antunes, deixou algumas

disposições para o seu funeral: a leitura

deste soneto de Antero de Quental era

uma delas.

Nota de António Sérgio:

«Enviando-lhe Na Mão de Deus, desde

Vila do Conde a um amigo, escrevia-lhe

Antero: «O meu pessimismo tem-se

desvanecido com esta vista contemplativa

 no meio da boa natureza».