A
memória é outro mundo, com outras criaturas.
Teixeira de Pascoaes.
Foi necessário o país ser confrontado com a tragédia provocada pelas depressões que ainda não deixaram de aparecer, para se abrir a porta de entrada a trabalhadores imigrantes.
«A zona centro do país ficou devastada com a tempestade e não há trabalhadores
suficientes sequer para ajudar a colocar lonas nos telhados. O pouco que se faz
deve-se muito à entreajuda de vizinhos e à boa vontade de voluntários.»
É sobre esse problema que se debruça o editorial do Público de hoje, da autoria de Helena Pereira e cujas palavras finais são estas:
«O país tem efectivamente um problema que só pode ser resolvido permitindo a
entrada de mais cidadãos estrangeiros, por muito que custe ao Governo e à sua
convivência política com o Chega. E nem sequer é um problema de difícil
resolução. O Governo não pode ficar de braços cruzados.»
É um gravíssimo problema governar um país baseado em percepções!
Ali onde sem nome a pátria escura
me repete onde nasce a Primavera,
ao silêncio do dia que não espera
eu dou a voz subitamente pura.
Horror que foge sempre e que perdura,
muro imortal amando a própria hera,
assim eu oiço o anjo além da fera,
suave luz queimando a noite dura.
Surge um fogo sem espanto, negro e alvo.
Dissolve‑se a montanha. Totalmente.
Alguém que me seguia já está salvo.
E fico só. E canto. E sigo em frente.
Ao fim da minha voz encontro o alvo
onde os deuses a ferem mortalmente.
20.2.1954
Alberto de Lacerda
1.
Quando
é que este mau tempo finalmente acaba?
Primeiro veio a depressão Ingrid, depois vieram as tempestades Joseph
e a Kristin e, agora, estamos a braços com a chuva copiosa trazida pela Leonardo
e já se anuncia a Marta – mas afinal quando é que este mau tempo vai ter
fim em Portugal?
Prevê-se
que melhoras de tempo que se vejam, apenas se verifiquem após o Carnaval, ou
seja na última semana do mês de Fevereiro.
2.
Amanda Lima para o Diário de Notícias percorreu, após as tempestades, o interior da região de Leiria, e verificou que os habitantes continuam a sentir-se “esquecidos”: «Se falta energia elétrica, sinal de telefone e água, sobra solidariedade. Doações e voluntários chegam de todos os lados, mas a reconstrução ainda é longa».
3.
«Após
a passagem da depressão Kristin, houve centros de saúde de Leiria que tiveram
de fechar, não só pelos danos materiais, falta de energia e de água, mas também
pela falta de profissionais, que tiveram também as suas casas destruídas, que
tiveram de ficar com os filhos em casa, por não terem outra alternativa, as
escolas fecharam, ou porque pura e simplesmente não conseguiam passar para
chegar ao local de trabalho pelas estradas cortadas. Foi assim em Leiria como
em outros locais da região centro e do oeste.
Mas,
ao final da tarde de terça-feira, dia 3, os profissionais da Unidade Local de Saúde
da Região de Leiria, que integra o Hospital de Santo André e centros de saúde
dos concelhos de Leiria, Marinha Grande, Porto de Mós, Pombal e Alcobaça ficaram
a saber, através de uma circular informativa do Conselho de Administração, que
as faltas teriam de ser justificadas, tendo que usar dias de férias ou horas da
bolsa de compensação para não terem perda salarial.
Ana
Mafalda Inácio no Diário de Notícias
4.
O
especialista em proteção civil Duarte Caldeira considerou esta quinta-feira que
a Proteção Civil comete os mesmos erros há 25 anos, estando as falhas
"todas identificadas", e defendeu que a responsabilidade pela
resposta à tempestade é nacional e local.
"A
Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, no meu ponto de vista,
falhou naquilo que falha normalmente sempre há 25 anos. Eu recordo-me, faz 25
anos, a queda da ponte Hintze Ribeiro [Entre-os-Rios]. Desde então, os nossos
erros no sistema de proteção civil estão todos identificados e são todos
decorrentes de uma praga nacional que é a ausência de vocação para o
planeamento e para a ação", disse ao à agência Lusa o antigo presidente da
Liga dos Bombeiros Portugueses e dirigente do Centro de Estudos e Intervenção
em Proteção Civil.
5.
Alcácer
do Sal, Arruda dos Vinhos, Pombal e Golegã avisaram a Comissão Nacional de
Eleições que irão adiar a votação para a eleição presidencial, devido à
situação de calamidade em que se encontram.
6.
A
Autoeuropa interrompeu a produção nos turnos da noite de quarta a
sexta-feira devido à falta de componentes por problemas abastecimento
causados pelo mau tempo que assola o país.
7.
O ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida,
adiantou que o Governo admite a entrada de mais imigrantes para
garantir mão-de-obra na reconstrução das zonas afectadas pela
tempestade Kristin, cujos prejuízos devem ultrapassar os quatro mil
milhões de euros. O governante adiantou que as empresas de construção civil e
obras públicas “estão disponíveis e interessadas em fazer o recrutamento de
mão-de-obra do exterior”.
8.
Luís
Montenegro falou ao país.
Puxou
dos galões para mostrar o que está a implementar.
Esqueceu
o que aconteceu nos primeiros dias da tragédia.
Para
além de prolongar o estado de calamidade até 15 de Fevereiro revelou, numa
clara cena de propaganda em que é especialista, que o apoio financeiro às
famílias que perderam rendimento, no valor de 12.900 euros, vai chegar "no
mais tardar até à próxima segunda-feira". Já as linhas de
crédito para empresas, de 1.500 euros,
"estão operacionais desde ontem", registando-se
candidaturas de "825 empresas" para apoios de mais de "204 milhões de
euros". E também os apoios aos agricultores estão "acessíveis",
existindo agora "1100 candidatos" para ajudas de mais de
84 milhões.
Acentuou
que a "rapidez" da resposta do Governo "não tem
precedentes", algo que sublinha "para que se tenha dimensão da tarefa
diante de nós". "Estamos mesmo a esgotar todas as nossas
possibilidades para acorrer às necessidades" e destacou que o Conselho de
Ministros aprovou um "regime excepcional para acelerar processos e
decisões", que, salienta, "nunca foi experimentado". "São
medidas temporárias, excepcionais para uma situação muito excepcional".
“O governo tem feito um
esforço enorme para mobilizar todos os recursos.
Nós não vamos deixar ninguém para trás".
9.
Mário de Carvalho no Público
“É
um Governo que nasceu na precariedade e só sabe viver na precariedade.»
Fontes:
Público
Diário de Notícias
Jornal de Notícias
Correio da Manhã
Lusa
«Por regra,
a essência do gosto da saudade está nas comidas de casa e da família. São as
memórias dessas comidas que carregamos toda a vida e que vamos tentando passar
às gerações seguintes.
Um conjunto
de restaurantes pode colocar um país no mapa turístico. Porém não faz uma
cozinha. Que receitas já saíram do espaço Michelin para o dia-a-dia dos povos?
O melhor é darmos à cultura Michelin a importância merecida e que não é tanta
como a que os chefes, críticos, influenciadores e políticos lhe atribuem»
Pedro Garcias de uma crónica no Público.
É
opinião unânime: o governo de Luís Montenegro chumbou em toda a linha na
cobertura de defesa e apoio às depressões que assaltaram Portugal desde 22 de
Janeiro e ainda persistem.
Soube-se
que o comandante nacional da Protecção Civil foi autorizado a sair para
Bruxelas para uma formação.
Esteve
fora do país durante os primeiros dias das depressões.
Fez
falta? Não fez falta?
As
opiniões dividem-se.
Justificou-se
que se estivesse no país nada mudava nos trabalhos desenvolvidos.
Dona
Alfredina, minha porteira, perguntou:
- Se não fez falta,
porque está na Protecção Civil?
Essa palavra dada com
mãos puras
essa oferta de pombas
já sem asas
essa que é fonte só de
águas futuras
ou esse mar de apenas
marés vasas
e esse olhar sem olhos
nem distância
essa abraçar com braços
que não vejo
e o riso que emurchece
a minha infância
a chama que emudece no
lampejo
a voz da escuridão que
me cria
tremendo de morrer no
abandono
a que se entrega a
noite à luz do dia
como ao calor mortal da
mão do dono
Alexandre Pinheiro Torres em A Terra do Meu Pai
Três paixões, simples
mas infinitamente poderosas, têm governado a minha vida: o desejo do amor, a
busca do conhecimento, e uma compaixão esmagadora pelos sofrimentos da
humanidade. …
Bertrand
Russell
Legenda: fotografia de Júlio Amorim
Abertura
a cargo do escritor Gonçalo M. Tavares:
«Nas grandes tragédias
o grande problema é sempre a solidão.»
1.
Tudo o que se
vai passando com as depressões climáticas acentuam a incompetência do governo
de Luís Montenegro.
Não adianta
muito a substituição de alguns ministros porque todo o problema está em quem
chefia o governo.
Cansados estamos
daquela figura quase sinistra de sorriso cínico.
Que saída?
2.
Alguém,
enfrentando as cheias em Alcácer do Sal, desabafa na reportagem do Diário de
Notícias:
“Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria
nem telhado têm para dormir”
A Avenida dos
Aviadores, na baixa de Alcácer do Sal, voltou a ficar inundada, o que obrigou
ao corte do trânsito na zona. A chuva continua e há estradas alagadas por este
concelho no distrito de Setúbal.
3.
«Depois da destruição causada pela depressão Kristin,
Portugal volta a enfrentar mau tempo com a chegada da Leonardo. Com os terrenos
já encharcados, a nova sequência de chuva, vento e agitação marítima aumenta a
probabilidade de cheias e inundações, sobretudo nas cidades impermeabilizadas:
“Parte das nossas cidades está construída sobre leitos de cheia, que
naturalmente inundam”», diz ao
Diário de Notícias o especialista João Joanaz de Melo.
4.
Centro e Oeste e
Vale do Tejo representam 20% da economia. Impacto devastador da Kristin e do
clima adverso, que continua sem dar tréguas, vão custar, pelo menos, 2,5 mil
milhões de euros. Economia ia crescer cerca de 2,3%, mas deve baixar para 1,3%
ou menos.
5.
«Em vez de «aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida», o Primeiro-Ministro devia ter dito: «aqueles que falharam em evitar a morte». Assim, percebia-se melhor por que é que devemos estar sempre do lado dos falhados e contra discursos cínicos.»
Cristina
Fernandes no Bicho Ruim
6.
«A ministra da Administração Interna é a metáfora mais exposta, fácil e óbvia de um Governo barata tonta, que anda aos círculos neste comboio de tempestades, sem saber o que fazer e para onde vai. É quase compreensível que uma jurista qualificada, de gabinete, opte pela “reflexão” em vez da ação junto da Proteção Civil. E que diga que não saiba o que falhou, ou, ainda, opte pela misericordiosa tese da “aprendizagem coletiva”. Já todos percebemos que Lúcia Amaral é uma carta fora deste baralho. Muito mais perturbador é ver a propaganda ignóbil de Leitão Amaro, na pele de maestro da comunicação governamental, projetando uma realidade alternativa, como dizem noutros lados, quando toda a gente está a ver uma tragédia. Ou a palhaçada ofensiva de Nuno Melo, que leva os soldados para fingir que estão todos no terreno. Muito mau mesmo, também, é constatar que ainda pagamos, com mortes, a trágica decisão, tomada nos Governos de Barroso e Santana Lopes, corrigida, em parte, por António Costa, no Governo de Sócrates, de entregar o SIRESP, com um cheque de 500 milhões de euros, a um consórcio servido por alguns facilitadores desse velho mundo laranja, que vinha do cavaquismo. Essas velhas lógicas clientelares matam. E essa é a “aprendizagem coletiva” sobre como não fazer que ainda está por ser lecionada.»
Eduardo Dâmaso
no Correio da Manhã
7.
"O Conselho
de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian exprime a sua solidariedade
com todas as pessoas afectadas pela tempestade que assolou o país. O Conselho
criou um Fundo de Apoio Extraordinário, no valor de cinco milhões de euros, de
apoio a essas pessoas. Este apoio de emergência e pós-emergência será
articulado com a Estrutura de Missão para a Reconstrução da região Centro do
País e com as entidades locais das áreas envolvidas", pode ler-se no
comunicado.
8.
A EDP anunciou
um apoio de “mais de 800 mil euros” às comunidades afectadas pela
tempestade Kristin, com a suspensão temporária da facturação e
apoio a clientes com centrais solares danificadas.
“No total, a EDP
vai assumir um custo de mais de 800 mil euros de forma a poder apoiar os seus
clientes nas regiões afectadas pelo mau tempo”, anunciou a empresa em
comunicado.
Na nota, a
eléctrica dá também conta que “suspendeu o envio de facturação aos seus cerca
de 700 mil clientes com casas ou empresas nas zonas mais afectadas pela
tempestade que atingiu o país”.
“Serão ainda
disponibilizados acordos de pagamento ajustados à situação de cada cliente, sem
juros”, prossegue a nota.
9.
«Depois de ter apontado baterias aos problemas de
comunicação do Governo com as populações, o Presidente da República atirou
também responsabilidades para as operadoras de telecomunicações.
“As
comunicações portaram-se mal, portaram-se mal”, declarou Marcelo Rebelo de
Sousa numa visita pelas regiões afectadas pela
tempestade Kristin, nesta quarta-feira. “A Vodafone aguentou um
bocadinho mais, mas depois ficou tudo sem comunicações”, identificou o Chefe de
Estado, em declarações transmitidas pela SIC Notícias.
As operadoras estão no terreno a tentar recuperar
serviços, havendo ainda populações que não têm acesso, não só porque não há
energia, mas também porque há infra-estruturas de comunicações que ficaram
danificadas. Mas há um factor de culpa das empresas, segundo o Presidente da
República.»
Diogo Cavaleiro no Público de hoje.
Fontes:
Público
Diário de Notícias
Jornal de Notícias
Correio da Manhã
Lusa
Legenda:
pormenor da capa do Correio da Manhã de hoje
O
pedido para a requisição dos militares tem de ser feito pelo presidente da
Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, mas esqueceu-se de fazer o
pedido de ajuda, ou entendeu que não seria necessário.
Das
11 vítimas mortais da tempestade Kristin, 6 dessas vítimas foram homens
que caíram enquanto procediam à tentativa de salvar casas e armazéns, ou
repunham telhas nas coberturas que voaram com os ventos porque o desespero é muito e não há operários suficientes para as encomendas, pelo que a presença dos militares talvez evitassem estas mortes.
A minha vida é sempre ontem
E o meu desejo, amanhã.
Hoje é uma coisa
parada.
Nada sei nem faço nada.
Certeza é palavra vã.
Não sou. Ou fui ou
serei.
Se ao menos tivesse fé!
Corro atrás duma
quimera.
Ou então fico-me à
espera,
Porém à espera de quê?
Porque abri as minhas
mãos
E deixei fugir o
instante
Que havia nelas ainda?
Agora o nada não finda
E o tudo é sempre
distante!
Virás tu ao meu
encontro,
Ou sou eu que devo
achar-te?
Quem pudera descansar!
Ver, ouvir e não
pensar!
Ser aqui e em toda a
parte!
Chego tarde ou muito
cedo.
Ou paro aquém ou além.
Houvesse algo para mim
Sem ter principio nem
fim,
Sem ser o mal nem o
bem!
Cabral do Nascimento
1.
Como
o governo de Luís Montenegro tem o tique de a tudo chegar com atraso, foi
anunciado hoje que o governo vai isentar de portagens durante uma semana nas
zonas afetadas pela depressão Kristin, no perímetro que abrangerá
trechos da A8, A17, A14 e A19.
A
isenção começará à meia-noite e vai estender-se até terça-feira, dia 10 de
fevereiro, às 24 horas.
“Esta
decisão foi tomada por forma a poder apoiar a deslocação de materiais e de
voluntários para estas regiões do país, em estrita articulação com as
concessionárias e subconcessionárias", diz o comunicado.
O
presidente executivo da Brisa, António Pires de Lima, revelou que a
concessionária irá comparticipar em 30% o custo de isenção de portagens em
zonas afetadas pelo mau tempo e o governo comparticipará com 70%
Bem-vinda
solidariedade capitalista!!!...
2.
O governo está debaixo
de fogo pela forma como tem gerido a crise causada pelas depressões que atingiram o país.
Tivemos o ministro da
presidência António Amaro da Costa a mandar editar um vídeo em que aparecia em
mangas de camisa, em trabalho árduo, ao ponto de o vermos a roer as unhas.
Tivemos o ministro Nuno
Melo com a tropa atrás para fotografias e um vídeo para que o povo ficasse a
saber da ajuda que os militares prestam às populações das zonas destruídas
pelas tempestades.
Para além dos atrasos
vários do governo há populações que continuam sem luz, água e comunicações.
Luís Montenegro assegurou
que o Governo está concentrado em "resolver problemas e não em responder a
críticas", admitindo que é difícil resolver "os problemas todos e ao
mesmo tempo".
Para que os disparates
ministeriais continuassem, o ministro da Economia e Coesão territorial, Manuel
Castro Almeida, em entrevista à SIC, face ao facto de os atrasos que os apoios
do governo às populações só se concretizarem no final de Fevereiro, sugeriu que
as pessoas utilizem o “ordenado do mês passado” para a recuperação dos
prejuízos.
Já tivemos a aprendizagem
colectiva da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, não saber o
que falhou no atraso às populações, e ojustificar a sua ausência no
terreno com o ter tem estado a trabalhar "em contexto de invisibilidade, no
gabinete".
Este governo é uma
verdadeira nódoa e, como dizia o Eça de Queiroz, nódoas destas só saem com
benzina!
3.
Montenegro desvia-se das críticas que são feitas à actuação do governo, dos disparates dos ministros:
“Estamos
concentrados em resolver problemas e E sabemos que há muita dificuldade em
resolver os problemas todos e ao mesmo tempo.”
Já sobre críticas à actuacção, em particular, da ministra da Administração
Interna, Montenegro desvia o assunto:
“Estamos concentrados em olhar para cada
pessoa, para cada família e poder dar a solução para o seu problema. E sabemos
que há muita dificuldade em resolver os problemas todos e ao mesmo tempo.”
4.
Perto
de 1200 militares do Exército e 222 viaturas estão desde esta
terça-feira no terreno em operações de apoio às populações na região Centro,
afectada pela passagem da depressão Kristin, segundo aquele ramo militar.
Porque demoraram tanto tempo a chegar?
4.
A
depressão Leonardo já chegou.
O
comandante nacional de Emergência e Protecção Civil alertou para a
situação meteorológica “muito complexa” prevista para os próximos dias, que
obrigou a elevar o estado de prontidão do dispositivo para o nível mais
elevado.
Portugal
continental irá começar a sentir os efeitos da depressão Leonardo
prevendo-se que “o período com valores acumulados de precipitação mais elevados
e vento mais intenso seja na noite” de quarta para quinta-feira.
Para
já chuva persistente e forte ventania.
5.
Marcelo Rebelo de Sousa, regressado hoje após uma visita ao Papa, avisou que “não serve de nada ter medidas no papel” de apoio às populações afectadas pelo mau tempo se não for possível executá-las, pedindo coordenação no terreno e acabou por concluir que explicação do Governo às populações “não correu bem”
Fontes:
Público
Diário de Notícias
Jornal de Notícias
Correio da Manhã
Lusa
O
Armindo descobriu o Daniel Filipe quando, aos 39 anos, o poeta morreu.
Não
que os jornais tivessem feito um cântico da sua morte, mas porque os amigos do
Daniel Filipe desataram a passar os seus poemas de mão em mão.
Um
dia subindo a Rua do Carmo, na grande montra da Discoteca Melodia, vi, em
destaque, o Lp A
Invenção do Amor de Daniel Filipe.
«Em todas as esquinas
da cidade, nas paredes dos bares, um cartaz denuncia o nosso amor.»
Assim
começa o belíssimo, o extraordinário poema de Daniel Filipe:
«Um cartaz denuncia que
um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e
inventaram o amor com carácter de urgência»
Nos
tempos cinzentos, trágicos do salazarismo/caetanismo, Daniel Filipe fez parte
de uma longa lista de gente que me ajudou a enfrentar esses dias – Gente Minha,
Minha Gente.
Daniel
Filipe lutou contra o obscurantismo, a opressão, a ignorância, a insensibilidade.
A cidade sufocante, a placidez burguesa dos que faziam por não ver, dos que
denunciaram, dos que traíram, a angústia, os amigos presos - «não posso
amar serenamente com tantos amigos na prisão», escreveu. Fernando Assis
Pacheco, cantou Adriano Correia de Oliveira.
Daniel
Filipe foi um homem perseguido e torturado pela Pide,
privado
de voz durante o período da ditadura.
«Se um homem de repente
interromper as pesquisas e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão já
sabeis o que tendes a fazer. Matai-o. Amigo Irmão que seja. Matai-o. Foi tudo
calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.»
Levou
o tempo que teve de levar, mas escaparam.
Por
mais que levantassem os muros.
A
censura salazarista proibiu romance de Daniel Filipe O
Manuscrito na Garrafa, publicado em 1960.
Proibido
por ser considerado “inconveniente, sob os aspectos político, social e
moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, to, 73,75,
77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141, 149, revelam a sua
índole.”
Um
tal José de Sousa Chaves, coronel-trambolho da censura, foi implacável e
proibiu o livro: «entendo que não deve ser autorizado a circular no
país».
Esta
gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira,
capacho-mor-do-botas-santa-combista, foram os polícias do nosso pensamento, da
nossa liberdade.
Quase
meio século de obscurantismo, uma luta desigual, porque os que combatiam estes
trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que
cortassem a raiz ao pensamento, mas sabia-se que as cantigas podem ajudar, mas
não eram armas e o tempo crescia como um deserto e com ele a dor, o desespero,
a cólera.
José
Osório de Oliveira, escreveu o prefácio do Discurso
Sobre a Cidade, livro de crónicas de Daniel Filipe e esgalhou este
maravilhoso, perfeito pedacinho:
«Possuo uma faculdade que tem sido a minha melhor defesa, senão a única de que disponho para não sofrer: a de matar, no meu espírito, aquilo ou aquelas pessoas que passaram a repugnar-me».
Desertar do céu deste inverno a andorinha
bem pouco diz talvez
não o notar
Mas não a ver nem
quando o sol domina
que terra tenho eu para
me perdoar?
Ruy
Belo em Transporte no Tempo (1973) em Todos os Poemas
William Shakespeare em Romeu e Julieta.
As
gentes, onde a depressão Kristin foi mais feroz, sentem-se abandonadas.
Mais
ainda porque sentem que o governo, as diversas autoridades que as deviam
proteger, falharam.
Um
homem de 63 anos morreu hoje quando caiu de um telhado que reparava no concelho
de Porto de Mós.
Não
é o primeiro, talvez não seja o último.
Apesar de a Protecção Civil avisar que, dadas as condições meteorológicas, estes trabalhos não podem ser realizados, mas o desespero destes homens ao verem a chuva continuar a entrar-lhes casa dentro, leva-os a arriscar.
Entretanto
o que se passa no campo da tragédia, é muito pior do que podemos imaginar, ou que
vamos vendo no corrupio das reportagens televisivas.
2.
A tempestade obrigou a libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água em dois dias para evitar cheias, equivalente ao consumo anual de 3 milhões de pessoas.
Em dois dias, foi preciso libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros
cúbicos de água das albufeiras de todo o país, por causa da tempestade Kristin.
É uma quantidade que equivale a três vezes o consumo anual da Área
Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes.
3.
Com as ajudas
monetárias, e outras, às povoações, o Governo parece ter dois objetivos: não
comprometer as contas públicas, revelando qual é a sua prioridade, e deixar
para o sector financeiro toda a acção, de forma a que este lucre com o
desespero das pessoas.
É neste sentido que os
principais bancos portugueses Caixa Geral de Depósitos e Novo Banco anunciaram
linhas de crédito bonificado no total de 400 milhões de euros para as famílias
e empresas afetadas pela tempestade Kristin. Para os particulares, a CGD abriu
uma linha de financiamento de 300 milhões de euros com uma taxa de juro de
2.15% (taxa mista a 1 ano). Já o Novo Banco abriu uma linha de 100
milhões de euros, sendo que a linha de crédito para Famílias será bonificado,
ou seja, terá uma taxa de juro correspondendo a 65% da taxa de referência do
Banco Central Europeu.
No caso de ambos os
bancos, apesar do spread a 0% e isenção de comissões, com o desastre, os bancos
estão a procurar atrair novos clientes e a gerar um fluxo futuro de juros.
Importa relembrar que em 2025 os cinco maiores bancos a operar em Portugal
lucraram mais de 13 a 14 milhões de euros por dia. Só a CGD alcançou um lucro
recorde de 1,4 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, mais 2% do
que no período homólogo.
No
blogue Abril, Abril
4
«Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.»
hbmf na Antologia do Esquecimento
5.
A Ministra da
Administração Interna deu uma boa ensaboadela à Ministra do Trabalho,
Solidariedade e Segurança Social. É assim, e não de outro modo, que devemos
negociar as leis laborais: lutar pelo direito a trabalhar em contexto de
invisibilidade.
Cristina Fernandes no Bicho Ruim
6.
«A depressão Kristin não arrancou só vidas, telhados, árvores, postes de alta tensão, mas deixou também expostas as falhas de um Estado que voltou a não estar à altura num momento crítico. Quando foi ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar a mensagem de que, desta vez, não se terá tratado de uma falta de prevenção. Permita-me discordar, Sr. Presidente: foi precisamente o que aconteceu. Falhamos, uma e outra vez, por falta de prevenção nas políticas públicas, por falta de escolhas responsáveis ao longo de anos, capazes de preparar o país para fenómenos que já não podem ser tratados como inesperados.»
Rui Frias no Diário de Notícias
7.
Outra carruagem do comboio de depressões vem a caminho.
O
estado do tempo em Portugal continental vai ser afetado entre a tarde de
terça-feira e sábado pela depressão Leonardo, prevendo-se chuva persistente e
por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, indicou o IPMA.
Fontes:
Público
Diário de Notícias
Jornal de Notícias
Correio da Manhã
Lusa
Noé
Cardoso, tripulante de um navio português, a caminho de Buenos Aires, manda
saudações - a data não está legível -, para o amigo Raul Ferreira que vivia em Angeja, vila perto de Aveiro.
Curiosamente,
em 1965, passei férias em casa da minha avó Brígida no Fontão, uma terreola
perto de Angeja.
Colaboração de Aida Santos
Alberto de Lacerda e Exílio veio naquela vaga em que pedi ao meu pai que me ajudasse a encontrar os novos poetas portugueses. O meu pai não era um conhecedor dessa poesia, mas tentou encontrar quem o ajudasse. Disseram-lhe que o melhor caminho era a Colecção Poetas de Hoje, editada pela Portugália Editora.
A
vantagem desta colecção única, para além da qualidade dos poetas, residia no
facto de a Portugália convidar um poeta para fazer a apresentação do autor.
A
Alberto Lacerda calhou o grande poeta e amigo António Ramos Rosa.
Exílio é o nº 13 da Colecção Poetas de Hoje.
Lembro que a poesia de Alberto Lacerda trouxe-me dificuldades, só muito mais tarde
debeladas. Nem todas.
Nascido
na Ilha de Moçambique, passou pelo Brasil, pelos Estados Unidos e viveu mais de
50 anos em Londres.
O
poeta, crítico, e seu grande amigo, Eduardo Pitta, escreveu que Alberto de
Lacerda «nunca acertou contas com Portugal que não passou de um intervalo na
sua vida.»
Alberto
de Lacerda é uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do
século XX.
Poucos repararam. Muitos, oh! tantos, tantos, continuam sem reparar.
Morreu em Londres, tinha 78 anos, a 26 de Agosto de 2007.
John
McEwen, o crítico de arte com quem tinha combinado almoçar nesse domingo,
estranhou o atraso e acabou por arrombar a porta.
Escreveu
Eduardo Pitta:
«Alberto de Lacerda ainda estava vivo, porém em coma. Morreria horas depois. Conhecendo-o como conheci, sei que teria apreciado o detalhe final.»
O poema transgride pela manhã
e cobre gloriosamente a trepadeira púrpura;
agora, que tudo e todos se odeiam,
na impenetrável aurora
sentem-se melhor.
A precisão maligna de impulsos
à astúcia de um pressuposto de luz
(pedaço a pedaço revelando a morte
e o nojo reprimidos)
declina o Tempo zodiacal:
a violenta partição do fluxo:
da Via Láctea ao vírus;
da epifania à produção em série;
do incesto ao tributo pago;
do continente à subida das ágüas;
da fala à sílaba;
da geografia à Arca; …
A gavinha do poema lambe caliça
num recanto de sombra, re-canta:
as escolhas e permutas na cidade-cluster.
De mão estendida o poema alastra.
Já sem núcleo, uma onomatopeia cindida.
Nunca tivemos um Governo tão mau.
Cinco dias depois da passagem da tempestade Kristin, Luís Montenegro, anunciou um conjunto de medidas destinadas às populações e empresas das zonas afectadas, num pacote que ascenderá a 2,5 mil milhões de euros, respondendo de forma indirecta às críticas perante a lentidão da actuação do Estado, mas sem reconhecer falhas na resposta à crise.
Aumentam
para oito as vítimas mortais da passagem da depressão Kristin.
1.
O
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou este domingo, em
Roma, como "impressionante" o conjunto de medidas aprovado pelo
Governo para apoiar as famílias e empresas fustigadas pela depressão Kristin.
Em
declarações aos jornalistas o Chefe de Estado sublinhou a diversidade e a
rapidez das intervenções planeadas pelo Executivo de Luís Montenegro.
2.
Joaquim
Leitão, que teve cargos de direcção e comando no sector da protecção e socorro,
considera que, perante a dimensão das consequências da tempestad Kristin,
as Forças Armadas deveriam ter sido mobilizadas mais cedo e requisitadas em
bloco.
3.
O parque industrial da Marinha Grande foi severamente afectado pelo mau tempo. Muitos pavilhões ficaram sem tecto e sem paredes, o que obrigou à suspensão da actividade. Sem conseguir produzir e com a maquinaria exposta à chuva e ao vento, empresários enfrentam prejuízos de milhões de euros, mas as contas ainda estão a ser feitas.
4.
"Foi feito tudo
aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em
prontidão", diz Montenegro
Questionado
pelos jornalistas sobre as críticas de que a reacção do Governo aos efeitos da
depressão Kristin foi tardia, Luís Montenegro disse que "foi feito tudo
aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão
no terreno. Do ponto de vista daquilo que era possível fazer-se, foi
feito".
5.
Situação
de calamidade até 8 de fevereiro.
O Governo anunciou ainda que vai apoiar a reconstrução de habitação própria e permanente em intervenções até 10 mil euros "sem necessidade de documentação" para os casos em que não haja cobertura de seguro. As obras de reconstrução dispensarão licenciamento e controlo prévio. O mesmo montante estará disponível para situações relacionadas com agricultura e floresta exatamente no mesmo montante.
6.
Cinco dias depois da Kristin, ainda só há uma rede de telemóvel a funcionar em pleno na Vila Nova de Anços, que se prepara para ser abastecida por água, pelos Bombeiros Voluntários de Soure.
Emília Belém tem 59 anos e uma empresa familiar, com o marido e um dos três filhos, cujo armazém sofreu danos muito significativos, que justificam o fim do negócio. "Ficámos sem nada, temos um prejuízo de mais de 500 mil euros" contou à agência Lusa, adiantando que tinha já material para entregar que "ficou todo desfeito". "Fomos das empresas mais afetadas do concelho", referiu Emília Belém que disse estar "sem forças" para reerguer a empresa Vilagrês.
7.
Fernando Ramos é o proprietário da padaria que neste domingo não conseguiu entregar pão em pelo menos cinco instituições do concelho e que abastece diariamente. A luz só chegou de manhã, mas não havia água. Uma interrupção, porque no próprio dia do temporal, tiveram tudo, menos comunicações e ainda só tem uma rede móvel estável.
8.
Falta
de energia agrava perdas das empresas: “Há centenas de empregos em risco”
Ainda se está longe de se poder fazer uma avaliação aproximada dos prejuízos
provocados pela tempestade Kristin na região Centro onde, na manhã deste domingo, ainda
existiam cerca de 180 mil clientes (empresas e particulares) sem energia
eléctrica. Mas a apreensão é muito grande entre os empresários, não só pelos
danos provocados pela tempestade da passada quarta-feira, mas também pelos
atrasos na reposição de energia — e outras dificuldades de reparação de danos.
Fontes:
Público
Diário de Notícias
Jornal de Notícias
Correio da Manhã
Lusa
Jorge
de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro
fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.
Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro,
Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).
É
aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de
entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e
que o obrigou a exilar-se primeiro no
Brasil, depois na América:
«Parti
às 10,45, perpassam os campos de Castela.
Viagem
boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo.
Em Marvão, a polícia portuguesa fez-me
sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem
direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara,
não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação
de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na
fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para
casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8
estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8
voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou
comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia
para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então
para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das
5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P.
aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a
dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou
que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há
necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia
que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada
e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem,
não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o
Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir
buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou
assim combinado.»
Ficamos
mais uma vez com música portuguesa, concretamente com um enorme poema de
Natália Correia musicado por José Mário Branco.
Dão-nos um lírio e um
canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
O GOVERNO DE LUÍS MONTENEGRO É DE UMA NULIDADE, DE UMA INCOMPETÊNCIA DE BRADAR AOS CÉUS!
Luís Montenegro como primeiro-ministro, tem dificuldade em encaixar a crítica, é teimoso, amiúde, por tudo e por nada, transforma-se em Kalimero.
Não tem uma pontinha que seja de sentido de humor, não é honesto.
Subiu no PSD, até
chegar a presidente, rodeado de gente sem escrúpulos, que lhe permitiram todas
as habilidades, autênticos «yes men».
Nos
anos que leva de governo, nunca soube rodear-se de pessoas competentes, bem
pelo contrário: exemplos gritantes são as ministras da saúde, da administração
interna, do trabalho.
Tem
um sorriso cínico que lhe serve para todas as ocasiões.
1.
Milhares
de casas e estabelecimentos continuam sem luz, sem água, sem comunicações.
2.
O
governo decretou tardiamente o estado de calamidade nas áreas mais afectadas.
Nenhum
governo pode ser responsável pelos ciclones que assolam o país mas pode ser
criticado pelo modo como reage.
3.
O
governo precisa de uma remodelação quase total.
Ou
por outra: não podemos ter um primeiro-ministro como Luís Montenegro.
Não
é admissível ouvir a ministra da administração interna, face à tragédia, dizer
que estamos numa aprendizagem colectiva.
4.
Alguém das editorias noticiosas das televisões, TEM que dizer aos seus repórteres que NÃO podem, a alguém que ficou sem casa, ficou sem nada, perguntar: «Como se sente?» ou «qual é o valor do prejuízo», quando ainda o homem nem sequer conseguiu entrar na loja.
5.
António
Leitão Amaro, ministro da presidência é um «totó» que tem a mania que é
inteligente, que tem graça, e mandou montar um vídeo para as redes sociais em
que aparece de mangas arregaçadas, a roer as unhas, a meditar, rodeado de walk-talkies
e papelada, em plena tragédia espalhada pelo país, pretendeu mostrar serviço,
mas face às amplas críticas que lhe foram dirigidas pelo oportunismo, apagou o vídeo.
“Se
vivêssemos em tempos de gente com o mínimo sentido de Estado ou que a ainda
restasse alguma decência e o Leitão Amaro não passava nem mais um dia como
ministro", como disse Pedro Marques Lopes na SIC.
6.
Em Leiria, Marinha Grande Coimbra assiste-se à queda de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais da passagem violenta da depressão “Kristin”7
7.
O
Governo decretou situação de calamidade entre as 00h00 de quarta-feira até às
23h59 de dia 01 de Fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode
aumentar.
O
Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, admitiu em visita ao centro
de Leiria, que o Estado tardou a compreender a verdadeira escala da destruição
causada pela tempestade Kristin.
8.
Grande
número de casas, supermercados, diversos serviços públicos ficaram sem
telhados.
Dado
que as previsões apontam para mais chuva e vento para domingo e dias seguintes,
as pessoas desesperadamente colocam telhas, plásticos e lonas para mais água não entre nas suas casas, nas suas empresas.
Dois homens, um na Batalha, outro em Alcobaça morreram ao caírem de telhados que estavam a reparar-
9.
O
dramático quotidiano da tragédia, copiado do Correio da Manhã:
10.
Segundo a Lusa o o furto de cabos e de gasóleo de geradores tem afectado a reposição do abastecimento de água no concelho de Porto de Mós, no distrito de Leiria, disse o vereador Eduardo Amaral, que manifestou revolta.
"É
mesmo revoltante. Depois de uma catástrofe natural, quando as pessoas já estão
fragilizadas e a tentar sobreviver, ainda ter de lidar com esse tipo de atitude
é de cortar o coração. Roubar cabos e gasóleo não é só roubo, é tirar luz,
água, cuidados médicos e segurança a quem mais precisa"
11.
Crónica
de Eduardo Dâmado no Correio da Manhã:
«Nas tragédias devemos sempre voltar ao básico. A democracia ergue-se com os pilares da justiça e da lei, da responsabilidade civil, penal e política. Ergue-se com os pilares do serviço e do interesse público. Ergue-se com a prestação de contas. Do Governo perante o Parlamento, dos partidos perante os portugueses, do Presidente da República perante todos. Nas tragédias devemos, por isso, voltar ao essencial da política. Ela não é um mero simbolismo. Deve procurar a sua razão de ser e materialidade no serviço às pessoas. E aí, os portugueses continuam a não ter respostas sérias dos sucessivos Governos na preparação contra os perigos previsíveis, venham eles dos incêndios ou de temporais. Os portugueses continuam a não ter respostas para os apagões, para a catástrofe das mortes na estrada, para as mortes por falta de socorro na saúde, para as vítimas de crimes ou das muitas omissões do Estado. Os portugueses não são protegidos com as frequentes mudanças de políticas, com a privatização de recursos naturais, como tem acontecido com a energia. Os portugueses não são protegidos por ministros que fazem da política exercícios de puro narcisismo, construindo vídeos de autopromoção em plena tragédia. Nem pelos que premeiam a incompetência de colegas, premiando-os para a gestão de empresas públicas. Ao não invertermos o rumo, isto vai acabar mal. A responsabilidade política não pode ser apenas uma folha seca ao sabor do vento».
12.
David
Neves, presidente da Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores descreveu
ao Diário de Notícias que em Leiria e concelhos vizinhos reina a desgraça. A
situação nas explorações pecuárias é crítica. Sem eletricidade, água ou acesso
a rações, os produtores enfrentam o desespero de não conseguir manter os
animais vivos. Estão "com os corações devastados, completamente
devastados. E isto é gravíssimo, as empresas da região ficaram
"completamente devastadas", especialmente nas zonas mais florestais,
onde as infraestruturas de suinicultura são predominantes e onde as
consequências da tempestade foram "absolutamente catastróficas".
13.
O
ministro da defesa Nuno Melo levou 30/40 militares, mais as televisões, para uma
mata qualquer para fazer a limpeza. Acabadas as fotografias, o ministro, mais a troupe acompanhante, foram-se embora e
os militares arrumaram a trouxa e também saíram de cena e ficou o espanto, a
revolta dos habitantes que olharam o triste e incrível espectáculo.
14.
Centenas
de unidades fabris e supermercados ficaram destruídas após a passagem da
tempestade. Trabalhadores vigiam instalações para evitar roubos.
Se considerarmos que há nas empresas máquinas que
custaram mais de um milhão de euros e que não trabalham... temos prejuízos de
milhões de certeza.
15.
O município de Proença-a-Nova alertou para a presença de burlões no concelho que se fazem passar por prestadores de serviços de reparação ou fornecimento de matéria e alerta para a necessidade de máxima atenção na contratação de qualquer serviço.
Segundo a autarquia, estas situações ocorrem, sobretudo, em habitações desabitadas e têm resultado em furtos e aconselha a população a contactar imediatamente as autoridades perante qualquer situação suspeita.
16.
Dias de tempestade: a vida sem água nem luz e, para muitos, sem trabalho.
Há centenas de empresas destruídas, algumas não sabem se
vão reabrir. Milhares de pessoas sem luz, água e comunicações. As noites parecem intermináveis.
Mais
uma vez, as populações face às catástrofes, sentem-se fragilizadas,
desamparadas, as ajudas não chegam ou tardam em chegar e concluem:
NÃO SE PODE CONFIAR NOS GOVERNOS DA NAÇÃO!
Fontes:
Público
Diário
de Notícias
Jornal
de Notícias
Correio
da Manhã
Lusa