Domingo, e eu às voltas com as canções para a manhã de hoje.
Capa
de um velho disco comprado na Grande Feira do Disco na Rua do Forno do Tijolo
no dia 10 de Setembro de 1966. Olha como o tempo passa!...
Capa
de um velho disco comprado na Grande Feira do Disco na Rua do Forno do Tijolo
no dia 10 de Setembro de 1966. Olha como o tempo passa!...
1.
Voltamos ao vinho:
«Viticultores do Douro que deixem uva por
vindimar receberão 1125 euros por hectare
viticultores que não encontrem comprador para as suas uvas e que, por isso, as
deixem ficar nas videiras receberão um apoio máximo do Estado de 1125 euros por
hectare, o que equivale a assegurarem escoamento para a produção de três pipas,
pouco mais de 1500 litros de vinho, como de resto tinha antecipado o cronista Pedro Garcias, na rubrica que
assina semanalmente na Fugas.
Os 12 milhões de euros do Governo para o Douro são uma ofensa e um desperdício
Chegou, finalmente, o dia da vergonha e da humilhação no Douro. Não foi nenhuma
surpresa, não surgiu do nada. Estava escrito na pedra há muito tempo. Mas nem
isso diminui a vergonha e a humilhação. Ficará para os anais: na vindima de
2026, no dia 4 de Setembro, o Governo de Portugal, liderado por Luís Montenegro
e cujo ministro da Agricultura se chama José Manuel Fernandes, aprovou a
concessão de 12 milhões de euros do Orçamento Geral do Estado para pagar aos
durienses que deixem as uvas maduras na vinha.»
O curioso, assim como quem diz que é, o governo dá milhões de euros para que os viniticultores não apanhem as uvas, e nos supermercados, estamos a comprar uvas, vindas de toda a parte, menos Portugal, a preços incomportáveis e de qualidade duvidosa, enquanto as excelente uvas do Douro ficam a olhar a paisagem.
2.
Um leitor do Público, por
causa do cómico Jerry Seinfeld, lamenta-se:
« Não me levam a mal, mas a conclusão de que Israel está a cometer
genocídio consta dos relatórios da Comissão Independente da ONU, da Associação
Internacional de Estudiosos do Genocídio, ou de organizações de direitos
humanos como a Amnistia Internacional, o Centro Europeu de Direitos
Constitucionais e Humanos, o Human Rights Watch, o Médecins Sans Frontières e
ainda de prestigiadas ONG's israelitas como a B'Tselem e a Physicians for Human
Rights. Também são da mesma opinião dois especialistas israelitas judeus: Omer
Bartov, "I’m a Genocide Scholar. I Know It When I See It", NYT, e
Amos Goldberg, "Holocaust Memory in a Time of Genocide". Sem dúvida
há sempre jornalistas do Público e leitores aqui que o negam. Respeito as suas
opiniões. Porém, nunca nenhum apresentou um estudo a apoiá-las.»
Pedro Tadeu no Diário de Notícias:
«Recordo, para quem ande esquecido, que esta posição de Seinfeld é
discutida num contexto em que o Governo israelita massacra a população de Gaza,
destrói as condições da sua sobrevivência e pratica atos que a Amnistia
Internacional classificou como genocídio. A desproporção em relação aos ataques
terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023 é evidente. Esses crimes não
justificam matar civis, provocar fome ou destruir um território. As vítimas palestinianas
não são responsáveis coletivamente pelos crimes do Hamas.»
3.
Um estudo da Marktest indica que três em cada quatro portugueses adultos consome bebidas alcoólicas.
4.
A electricidade fica mais cara em Outubro no mercado regulado por causa da guerra no Irão. São mais 0,005 euros por kWh, a aplicar a partir de 1 de Outubro de 2026.
5.
Portugal registou o
maior aumento anual do custo da habitação entre 57 países analisados num estudo
internacional, tendo-se verificado um aumento de 15,2% em apenas um ano,
enquanto o preço das casas, em termos mundiais, caíu 1,2% no mesmo período.
Esta
colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na
Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem sido, por alguém, roubados e
vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que, rigorosamente não sabia o que
etava a vender.
Uma colecção, ainda,
não lida, apenas folheada, mas a que há que voltar.
Assim irá acontecendo.
Os Celtas
Juliette Wood
Tradução: Ana Maria
Pinto da Silva
Capa. José Neves
Colecção: Cultura e
Civilizações
Círculo de Leitores,
Lisboa, Dezembro de 2005
Há mais de dois mil anos, a Europa, a norte de
Mediterrâneo era dominada pelos Celtas, um conjunto de povos que partilhava
tradições de língua, arte e cultura.
Colaborou com vários conjuntos portugueses
de então, e no dia 1 de Agosto de 2009, Rita Redshoes convidou Daniel Bacelar
para partilhara consigo o palco do Festival dos Oceanos que se realizou nos
jardins da Torre de Belém, em Lisboa. Foi um verdadeiro espectáculo de rock,
estávamos lá, mas nos últimos tempos o Daniel apenas cantava para amigos mas
escusava-se sempre a interpretar Marcianita, bem como os seus temas em
português que são pioneiros do rock nacional.
Após a sua morte, João Rato editou, para os
amigos do Ié-Ié, um disco com 18 versões de Marcianita, obviamente com a versão
do Daniel Bacelar.
Daniel Bacelar deixou-nos há 9 anos.
Lembramo-lo agora.
Donald Trump, disse, hoje, na Casa Branca que irá proibir os órgãos de comunicação social CNN, MS NOW e Politico de entrar na Casa Branca, queixando-se da cobertura que fazem das suas actividades numa publicação nas redes sociais, acrescentando que anunciaria os nomes de outros órgãos de comunicação social em breve.
A Derradeira Palavra
Rex Stout
Tradução L. Almeida Campos
Capa: A. Pedro
Colecção Vampiro nº 448
Livros do Brasil, Lisboa 1984
- Não creio que… - Deixou a frase suspensa por
um momento, depois acrescentou: - Mas, o senhor é Archie Goldwin.
Acenei com a cabeça.
- E a senhora é Althea
Vall. Dado que não tem encontro marcado, tenho de informar o Sr. Wolfe do
assunto sobre que quer falar com ele.
-Preferia ser eu própria a dixer-lhe. É muito confodencial e muito urgente.
O mar, se acaso alguém
fechando a mão o faz como
se às praias
assim o subtraísse, o mar
ligado
por cem mil cordas ao meu
leito,
reduz-se a poucas vagas;
porque há poros
na pele por onde o espírito
goteja, há também quem
da parte envidraçada do seu
espírito
de vez em quando as veja
rebentar.
Luís Miguel Nava em Poesia
Ensaios
António Sérgio
Tomo 1
Atlântida, Coimbra,
1949
Porque se efectuou a tomada de Ceuta?
Donde proveio a iniciativa do empreendimento?
Não parece que os historiadores se tenham detido neste problema; detenhamo-nos nós, que o não somos (senão que ensaísta sobre temas de história, como o havemos sido sobre tantos outros): talvez provoquemos uma actividade crítica, talvez acertemos com uma hipótese útil. Por la boca de una sierpe de piedra sale un caño de agua.
Naqueles tempos Adriano
Correia de Oliveira cantava Manuel Alegre:
Meu
pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.
Meu pensamento
Quebrou amarras
Partiu no vento
Deixa guitarras.
Meu pensamento
Por onde passas
Estátua de vento
Em cada praça.
Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.
Foi à conquista
Do novo mundo
Foi vagabundo
Contrabandista.
Foi marinheiro
Maltês ganhão
Foi prisioneiro
Mas servo não.
Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.
E os reis mandaram
Fazer muralhas
Tecer as malhas
De negras leis.
Homens morreram
Chamas ao vento
Por ti morreram
Meu pensamento.
A
imagem que acima se reproduz, faz parte de um trabalho que, a seguir ao 25 de
Abril, a revista Cinéfilo publicou e em que mostraram como fomos censurados.
No
dia 22 de Setembro, pelas 19,30 horas, a Cinemateca apresentará um filme de
Manuel Mozos sobre cortes de cinema executados pela comissão de censura do
Estado dito Novo:
« ALGUNS CORTES: CENSURA III
de Manuel Mozos
Portugal, 2014 - 50 min
M/12
sessão apresentada por
Manuel Mozos e Margarida Sousa e seguida de conversa após projeção
A partir de várias horas de
cortes realizados pela Comissão de Censura durante as décadas de cinquenta e
sessenta conservados pela Cinemateca, Manuel Mozos assina um filme de montagem
através do qual se dá a ver a violência da censura enquanto negação da
possibilidade de olhar estas imagens.
Ao contrário do anunciado, será apresentado o terceiro filme de montagem
(de 2014), dedicado a cortes feitos de acordo com o que a Comissão estabeleceu
como critérios morais, na sua relação com os comportamentos das mulheres e com
a sua imagem, e não o primeiro (de 1999).»
Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena em Poemas Escolhidos
Num tempo em que
os nossos políticos são de uma pobreza franciscana, recorde-se Vasco Gonçalves.
Não por um qualquer tique passadista – saudades, só do futuro, como
diria o Zé Gomes Ferreira – mas numa tentativa, possivelmente vã, de com Vasco
Gonçalves lembrar que, após o 25 de Abril tivemos políticos de gabarito, inteligentes,
cultos, generosos, concorde-se ou não com eles: Mário Soares, Francisco Sá
Carneiro, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Melo
Antunes, Margarida Pintasilgo, outros mais.
«Insistiram muito em que eu estaria ligado ao Partido
Comunista porque eles sabem que em Portugal fazer uma política anticomunista é
rentável, pois os sentimentos de anticomunismo estão ainda profundamente
enraizados no nosso povo.»
(entrevista de Vasco Gonçalves à revista Hebbo em Outubro de 1975.).
Não, não somos
um país decente.
Ainda há dias,
na Assembleia da República, durante um voto de censura ao governo de Luís
Montenegro, provocado por «aquela coisa», o jornalista Eduardo Dâmaso escrevia:
«Afinal, o gato encontrou uma nova vida. A metáfora de Ventura sobre Luís Neves saiu-lhe pela culatra. Neves, o gato, na retórica do Chega, saiu reforçado da audição e da moção de censura. Luís Montenegro desmanchou a estratégia do Chega dando a centralidade que lhe interessava ao debate. Levou o bónus aos pensionistas, a promessa de descer o IRS até ao 6.º escalão, falou do trabalho do governo nas várias frentes, encaixou a conversa no que interessa aos portugueses, a sua vida e a estabilidade da governação. Rebentou com o debate sobre Neves. Montenegro foi muito eficaz e esta foi a sua verdadeira ‘rentrée’ no ano político. Pelo meio, ainda ganhou, também ele, um bónus. Ficou a nu, impiedosamente, a fragilidade política do Chega, do discurso e dos seus deputados, que acabaram por mostrar-se incapazes de superar o primarismo argumentativo da comparação de Neves com traficantes, bandidos e xerifes. Como se não bastasse, a cena final, de mau perdedor, com a gritaria instalada no parlamento, mostrou ainda como os profetas da pureza originária, que querem “limpar” e “salvar” Portugal, só gostam da democracia quando ganham e podem confundir isso, sem limites, com a humilhação do adversário. Ontem, correu-lhes mal. Pelo resultado mas, sobretudo, pela exibição.»
Fernando Luso Soares
Capa: Soares Rocha
Gleba, Lisboa, Outubro de 1979
Assim direi que, tal como acontece
com a Crítica, também a História deve ser a cabeça da paixão, não a paixão da
cabeça. Por outras palavras: se a figura humana do Companheiro nos enternece,
devemos tomar, relativamente a ela, um distanciamento que elimine ou evite a
cegueira.
Momentos soltos lucilando na distância. O José
Cardoso Pires a bater-me à porta com o seu primeiro original. O Piteira a
paginar comigo, em minha casa, à noite, a Gazeta musical e de todas as artes.
A Manuela Porto foi quem primeiro declamou a
«Ode Marítima», como nunca mais ninguém faria. E, antes (ou depois?), a nossa
poesia que mal ainda despontava, no velho Salão de O Século, com uma
palestra introdutória do Armando Bacelar. Vejo-a a beijar, num pé, a minha
filha então de meses: «Posso? E um milagre!» E, a seguir, na redacção da Eva,
que ela chefiava e onde a vi pela última vez. Estava assente que eu passasse
por lá para lhe dar a senha de contacto com o MUNAF, organização ilegal a que
resolvera aderir. Era um prodígio de vontade e de coragem aquela mulher tão
frágil, delicada, toda ela poesia. Mas tinha no gabinete, inesperadamente,
alguém que não me devia ver, a directora da revista. Vem lá de dentro, à
pressa, sorridente. Traz nas mãos as Cartas a um jovem poeta. Deixa a porta entreaberta,
só o bastante para que a ouçam bem. «Desculpe não poder hoje recebê-lo. Está
aqui o livro. Gostei muito». Mímica apressada a explicar porquê o livro e
aquela conversa. Dois dias depois suicidava-se.
E vejo o Flausino também, muito mais tarde, com
o seu arcaboiço de camponês, grossa samarra de gola levantada, já a noite
caíra, à porta da sua casa de Tondela, em pleno campo, com os braços estendidos
e os olhos molhados: «Tu é que tinhas razão». Enquanto eu, durante o abraço
demorado e apertado, retomava um convívio interrompido durante anos: «E era
preciso ires tão longe?»
Regressara de Praga, depois da invasão. Passara por lá
as passas do Algarve nas mãos de uma conhecida dirigente, dessas de «antes
quebrar que torcer», que se deslocava em luxuosos automóveis de Estado, vivia
em bons hotéis por lá e anda agora por aí, nos períodos eleitorais, a fazer a
propaganda de tudo o que seja de Direita.
Exactamente a mesma. Quando, em 42, fiz a minha
conferência na Universidade Popular sobre arte moderna, essa expressão acabada
da «burguesia decadente», foi ela que comentou: «Que grande desilusão!» Mas
não se referia à qualidade da conferência. A minha grande falha ideológica é
que a deixara desolada...
Varrer o lixo. Sem descanso. Conservar o que nos foge por entre os dedos, como fumo.
Mário Dionísio em Autobiografia
Legenda: Manuela
Porto
Com fúria e raiva acuso o
demagogo
E o seu capitalismo das palavras
Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada
De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse
Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra
Sophia de Mello Breyner Andresen
É disso que os amigos
falam: do que a vida poderia ter sido se não fosse a filha da puta de vida que
foi.
José
Carlos Barros
Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.
Não
há livros inúteis.
Este retrato de Marcelo Caetano deixa-nos perante aquilo, após a morte do ditador de
Santa Comba, a que se chamou «primavera», uma espécie de esperança que, como
teria que ser, durou breves fogachos de tempo.
Foi
um mito e por ali residiram frustradas expectativas liberalizantes mas Marcelo
Caetano não conseguiu, limitações pessoais acima de tudo, libertar-se da teia
de oportunistas e corruptos que constituíam
que
Salazar deixou constituir à sua volta e de que tanto necessitava.
Tudo
começou com a sua posição perante a guerra colonial:
«Portugal não pode ceder, não pode transigir na
luta que se trava no Ultramar.»
Ao
tomar posse não fez qualquer ruptura com a política salazarista, talvez por não
estar preparado ou porque não a desejar.
Fazer
depender a sobrevivência do regime com a continuação da guerra, iniciou o
caminho sem qualquer saída.
Aparentemente,
não esperava suceder a Salazar, outros serviriam para isso.
Um
dia terá confidenciado à sua filha Ana Maria Cardoso:
«A pessoa que suceder a
Salazar é para abater».
Palavras
finais do Retrato de Salazar escrito por António Araújo:
«No final da manhã de 26 de Outubro de 1980, domingo, por volta das 12,30 horas, enquanto lavava as mãos na casa de banho do seu apartamento na Rua Cruz de lima, nº 8, aguardando que a irmã Olga o chamasse para o almoço, Marcello Caetano foi acometido de uma violenta dor no peito, que em minutos o matou.»
António
Araújo
Colecção:
Retratos Políticos nº 2
Medialivre,
Lisboa, 2024
Não percebo porque é que me foram buscar. Isto não tem saída. Porque é que não foram buscar o Antunes Varela, o Franco Nogueira, esses sabem o que querem fazer… Isto não tem solução.
O deus do Eugénio
é muito mais verde
quando lido pelos teus olhos.
David Teles
Pereira