«Os EUA no mundo 25 anos depois do 11 de
Setembro Dedicamos hoje
uma parte importante da nossa primeira página, que é sempre uma espécie de
cápsula do tempo para efeitos de memória futura, aos 25 anos passados sobre os
ataques às Torres Gémeas, ao edifício do Pentágono e ao voo United 93. A 11 de
Setembro de 2001 morreram 2977 pessoas, incluindo 19 terroristas, e não se sabe
quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então.
Na sequência
do 11 de Setembro, os Estados Unidos fecharam-se ao mundo e instalou-se uma
lógica securitária motivada pelo medo, pela necessidade de proteger as
fronteiras e pela luta contra o terrorismo. Foi aprovada a Patriot Act, nasceu o Department of Homeland Security e o (agora
famoso) ICE Immigration and Customs Enforcement, o controlo de vistos foi
reforçado (sobretudo para cidadãos oriundos de países muçulmanos) e teve início
uma “caça ao homem” que só terminou quando Osama Bin Laden foi morto, em
Trípoli.»
Caramba! Já passaram 25 anos sobre o ataque aos Estados
Unidos.
Também
houve um outro 11 de Setembro, ano de 1973, no Chile, que tentava seguir a política
de Salvador Allende, e aí os Estados Unidos estiveram como mentores e actuantes
do tenebroso Pinochet.
Se alguém, no meio do silêncio, tropeçar
nestas páginas e encontrar nelas um fio por onde se segurar, a certeza mínima
de que não está sozinho, de que houve quem passasse por ali e continuasse,
então este texto terá feito o seu trabalho.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
António Ramos Rosa de
Viagem por uma Nebulosa em Obra Poética Volume I
A
história já aqui foi contada, mas a ela voltamos porque, muito naturalmente, é
abordada na Biografia de Herberto Helder escrita por João Pedro George.
Existe
o livro, editado pelo Expresso em que são referidos os Prémio Pessoa
desde 1987 a 2007.
No
ano de 1994 o júri atribuiu o prémio a Herberto Helder.
«O grande interesse
nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma
década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o
embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda
do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio
Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da
palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem
o prémio a outro...»
Era
uma pipa de massa para quem tinha, por escassez de dinheiros, uma vida muito, mesmo
muito difícil.
Mas
Herberto Helder recusou a distinção.
António
Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso,
tentaram demovê-lo.
Conta o António Alçada Baptista:
«O Herberto estava na
sala. Falou à Clara e depois a mim.
Eu disse, meio a
brincar meio a sério:
- Vimos numa difícil missão...
Ele, com toda a
simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.
Não foi possível
demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não
devíamos insistir. Ele disse:
- Vocês não digam a
ninguém e dêem o prémio a outro...
- Não pode ser, o júri
escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...
Ele ainda acrescentou:
- Peço que sejam meus
mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.
Sobre
o episódio do Prémio Pessoa, João Pedro Jorge coloca a viúva de Herberto, Olga
Lima, a contar a cena:
«Fiquei cheia de raiva
porque estávamos tesos, “Herberto, mas não temos dinheiro e estás armado em
vivaço!?” Aquilo não tinha jeito nenhum, O Herberto queria era que o deixassem
em sossego. Agora, os valores dos outros prémios que ele tinha recusado eram
irrisórios, mas dizer que não a sete mil contos, hoje cerca de 35 mil euros?
Nessa altura o Herberto disse-me: “Sei que querias, uma vida mais descansada mas,
desculpa lá, eu prémios não aceito. Se querias mais convívio ou mais dinheiro,
casaste com o homem errado.»
A
recusa do prémio causou um circo de prosas e opiniões, algumas tocando o
ridículo.
Mas
João Pedro George lembra:
«Luiz Pacheco, que não
se levava muito a sério, nem ele nem a estes foguetórios da cultura, adiantou
uma explicação alternativa, talvez plausível: «Ele sempre disse que nunca
receberia prémios, deram-lhe um balúrdio de um prémio, era dele, ninguém lhe
podia levar a mal mas ele disse logo: “Não quero!”. Há uma hipótese sacana: não
havia dinheiro para o prémio, então deram-no a um gajo que já sabiam que não
recebia.»
Já não assim muitos os que se lembram da alvorada de
Abril, das aventuras e desventuras do nosso caminhar naquele Verão dito quente
de 1975, do homem que acreditava no povo e disso vez bandeira e luta.
Chamava-se Vasco Gonçalves.
Este livro é algo de importante para os que esqueceram,
para os que não sabem o que foram aqueles mágicos e muito difíceis dias.
O título do livro diz tudo: «Não Pode Haver Neutros»,
todos aqueles que pensaram, que pensam, que ficar no meio é o espaço ideal para
poder ver os dois lados. Também não pode haver sacanas que, então, apareceram
em quantidade desmesurada, quando o que se podia era algo diferente:
«Nós também precisamos de aliados nesta
revolução; precisamos de pequenos empresários, médios empresários, que
compreendam esta revolução, que caminhem ao nosso lado; nós precisamos também
de alianças porque isto é uma tarefa muito grande. Mas, repito, a revolução só
comporta duas situações: ou se está com ela ou contra ela. Não há tipos que
possam dizer «eu sou neutral, não me interessa nada a política.»
Vasco Gonçalces do Discurso da Sorefame, 17 de Maio de
1975.
Naturalmente, nem tudo correu como se esperaria.
Sobre Vasco Gonçalves fica uma opinião do pintor João
Abel Manta:
«Conheci o Vasco Gonçalves mal. Ele gostou muito desse cartaz “Povo
MFA/MFA Povo”, e quis oferecer-lhe o original. Fui a São Bento, ele disse-me
que gostava muito dos meus bonecos, nem era dos meus cartazes, era mais dos
meus desenhos. Fui recebido, ofereci-lhe o original e ele ficou muito
agradecido. O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos
antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma
honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros.
Depois, tinha aquele ar. Os outros tinham um ar dúbio. Tinha-lhe uma grande
admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em
que fui odiado em Portugal por isso, coloquei-o entre o soldado e o camponês. O
cartaz foi arrancado por tudo o que é sítio. O Mário Soares ficava histérico
quando vis esse cartaz! Também lhe ofereci esse cartaz. Concluindo: tenho uma
boa impressão do Vasco Gonçalves».
Os discursos de Vasco Gonçalves devem, por
conseguinte, ser abordados não apenas como reflexo dos acontecimentos, mas
antes como acontecimentos doadores de sentido à «articulação política» entre
orador e auditório e, sobretudo, entre estes e o processo mais amplo que
colectivamente os interliga.
Em tempos não muito
distantes, as vindimas realizavam-se por finais de Setembro e iam por Outubro
dentro.
E eram uma festa!
Devido às variações
climáticas provocadas pelos humanos passaram a acontecer em finais de Agosto e
entram por Setembro dentro.
Pedro Garcia, em crónica no
Público de 4 de Setembro, fala das vindimas no seu Douro:
«Uma vindima de velório e a
maldição do carvalho grande de Joseph Wayne
O abismo em que está a mergulhar a vitivinicultura, pela queda contínua do
consumo de vinho, não é o fim do mundo, mas é uma boa metáfora da vida, de
darmos tudo como garantido, e até do que nos espera, se seguirmos sem perceber
a força e a verdade da natureza e se insistirmos em a desafiar, como estamos a
fazer com a Inteligência Artificial, por exemplo, cujas infinitas
possibilidades que ela nos abre dependem de mais consumo de electricidade e de
água, para alimentar e arrefecer os grandes centros de dados. A IA é o novo
combustível fóssil e pode ser ainda mais letal.
O leitor já percebeu que a vindimafoi um velório. Deve ser do meu natural pessimismo,
que a idade vai agravando, mas colher uvas sem ver futuro no vinho não é uma
tarefa agradável. E ter uvas e não encontrar quem as compre, como está a
acontecer a muita gente, ainda é pior. O meu tio esteve certo no seu tempo.
Hoje, não. As vinhas já não dão casas, é o contrário.»
1.
Um dia Benjamim
Franklin, um dos principais Pais Fundadores dos Estados Unidos, cientista,
inventor, diplomata e escritor, não esteve de modas, e disse:
«O vinho é a prova provada de que Deus nos ama e nos deseja ver
felizes».
2.
Importante a opinião de
João Paulo Martins, jornalista, escritor, um apaixonado por vinhos:
«O melhor vinho que bebi não foi seguramente o melhor vinho que já
provei. O melhor que bebi foi-o porque eu estava no ambiente certo, com as
pessoas certas, no momento certo».
3.
Tragam o vinho dos vivos, o vinho dos mortos, o vinho dos amanhãs perdidos.
Não entregar o coração ao infortúnio. Nada se lucra com tristezas. O melhor
remédio é pedir mais uma garrafa.
4.
Saímos de cena
lembrando uma canção do filme The Young Ones, Cliff Richard com Os Shadows
«Deixemos pois o
Goulart falar, A estalada que lhe deste, porém, não é coisa de que te possas
gabar na praça pública, nem na tua consciência. Digo-te porquê, gravemente e
medindo bem o peso das minhas palavras to digo; porque é uma cobardia. Conforme
me contaste, não julgo que o tivesses feito de caso pensado, na plena posse da
tua calma e da tua lucidez. Faço-te honra de supor que já estás arrependido –
ainda que não confessas, por um pudor descabido, de que o Padre Zósima (dos
irmãos Karamazoff) te daria a desrazão e o remédio.
Este caso do Goulart é
sintomático: todos gostam de bater no Goulart é um dos poucos idealistas
(taradinho, com as ideais todas torcidas está visto) que andam por essas ruas.
Tem um ideal (taradinho, etc.), e luta por ele. Depois, é coxo, paneleiro,
fraco de ombros. É monárquico e católico. É um tipo com uma cultura muito acima
do vulgar e é sério. Dá ou não vontade de bater (bater com tanta facilidade)
num tipo destes? Dá. O medo que as pessoas têm de bater num polícia e a
vontade transferem-se psicaliticamente para os lombos e os bochechos do
Florentino. Vem no Freud explicado.
Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?
Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor como uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?
Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?
Há países que medem o seu desenvolvimento pelo PIB, pelos mísseis
balísticos, pelos arranha-céus, pela quantidade de milionários, de cirurgias
plásticas ou de bocas cheias de dentes de ouro. Ocorre-me outro indicador,
pouco modestamente: o Produto Interno Estendido.
Nada é mais democrático do que o estendal. Uns têm melhores varandas, quintais,
traseiras, seja o que for. Mas acabarmos todos no estendal é tão certo como
nascer e morrer. Mesmo que alguém estenda a roupa por eles, são do senhor
ministro as cuecas no estendal.
Abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco. Mas estender a roupa é fazer o
inverso: é a casa a expirar-nos e deixar o bairro respirar-nos.
E não vai mal ao mundo adivinhar a vida uns dos outros através dos estendais. O
estrangeiro recém-chegado com os seus panos. Os miúdos e as camisolas do
futebol. Os mais velhos e os seus abafos. Os estendais foram as redes sociais
antes da Internet, mas com menos filtros. Cuecas, ceroulas, combinações, junto
de lençóis, toalhas, meias com par ou desirmanadas.
Que dizer da arquitectura popular do estendal? Há estendais tímidos, escondidos
nas traseiras. Há estendais orgulhosos, de peito feito para a rua. E há os que
atravessam a rua, como se dois prédios estendessem as mãos, num aperto por cima
das nossas cabeças.
E nós? Gostamos tanto de nos estender. Nos bancos dos jardins, nas esplanadas.
E se formos à praia, nas toalhas. Num sofá ao domingo. Gente amarfanhada é como
roupa que não foi ao estendal. É bom estendermo-nos ao comprido, sem vergonha
do espaço que ocupamos, do sol que recebemos, do vento que nos seca. Nada disso
é de ninguém.
Cidades tristes? Digam quantos estendais atravessam a vossa rua e já vos digo
quanta vizinhança ainda praticam. Cidades gentrificadas? Os turistas conhecem
uma cidade pelos monumentos. Mas ela conta-se a sério nos estendais. Às vezes
basta um vestido a dançar na corda para imaginarmos uma vida inteira.
Estendais À Barbárie
Seguem-se os Estendais é um
livro de poesia de Miguel Cardoso (&etc., 2015). O título enuncia um
programa, os versos estendem-no sem molas: “as camisas nos estendais/ a pedir
albas/ chuva, felicidade, isso”.
O disco escolhido para a Música Pela Manhã deste
domingo recaíu sobre Herbert Pagani, concerto no Bobino
LADO 1
Le Show Biznesse –Leçond de Peinture – Le Train de L’Espoir – Gracias A
La Vida /(Merci L’Existence) – Serenade – La Cuisine, Le Menage Et L’Amour
LADO 2
Monologue de la Solitude – Berger d’Artiste – Messieurs Les Presidents –
L’Étoile D’Or – L’Amitie – Le Reseau
Sammy considera-o um disco fascinante.
Eu também.
"Pagani A Bobino" é o registo ao vivo de um espectáculo
realizado em Paris e que Herbert Pagani repetiu em diversas cidades, Lisboa
incluída, em Abril de 1980
Vítima de uma leucemia galopante, Herbert Pagani morreu a 16 de Agosto de 1988.
Tinha 44 anos.
«Pelos pequenos regatos, cobertos de
espuma branca, pelos pequenos peixes, que nascem já cosidos, pelas florestas
que os nossos jornais cortam em tiras, pelo passarinho, que em vão procura o
seu ninho e pelos nossos telefones, sempre com três na Lina, nós dois e depois
um chui com os seus auscultadores, e a nossa vida vivida que é posta de castigo
dentro das tripas de aço dos vossos ordenadores e por essas cruzes gamadas,
surgidas dos anos 30 que se vêem sobre os anúncios nos quiosques e nas
estações, e por tudo o que faz um certo grupo que tenta fazer pender à direita
as jovens gerações, por esses putos que lançam granadas, pelos que financiaram
os seus campos de treino antes de os terem visto a fazer footing nos estádios,
dizemos-vos:
Bravo, senhores presidentes».
Dolly Parton
morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80
anos.
David Pontes, no
editorial do Público, deixou bem vincado:
«O mundo era melhor com Dolly
Parton».
“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly
Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste
diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o
jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country,
mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que,
tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.
Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical
qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente
que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em
todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis”
(na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e,
quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram
a perda.
Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem
impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela
seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes
Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da
covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de
seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que,
“se agora aceitasse, estaria a fazer política”.
Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os
bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles:
dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades
marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável
programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a
crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre,
estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência.
Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter
surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de
dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.
Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o
seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca
abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem
nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela
conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de
que o mundo anda tão falho.»
Quando deixei de
poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:
ADEUS
POR UM CASACO
«É
tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu
velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.
Pela
Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns
farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.
Comprei-o
na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da
Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.
Quando
senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um
outro semelhante, mas nunca consegui.
Olhava-os
mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.
Nos
últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de
lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.
A
minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal
vestido.
Tentei
explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela
mandou-me um tá bem abelha!
O
próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.
Não
sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo
agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.
Também
a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.
Pelo
andar da carruagem, débil esperança…
Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»
Hoje,
para abrir, detemo-nos numa frase de Karl Marx, citada por Ana Cristina
Leonardo na crónica das sextas-feiras no suplemento ípsilon do Público:
PRIMEIRO A TRAGÉDIA, DEPOIS A
FARSA
1.
Portugal é o 3.º
país da UE com maior índice de envelhecimento: um rácio de 182 idosos por cada
100 jovens.
2.
António
Guerreiro, na sua crónica no Ipsilon do Público, aborda o populismo.
Há uma
grande conveniência em que seja lida:
«A noção de populismo, que surgiu nos anos 80 do século XX, tornou-se
actualmente um conceito vazio, uma palavra que significa tudo e não significa
nada, como aquelas a que Lévi-Strauss, lendo Marcel Mauss, chamou “significantes
flutuantes”. Sob essa condição vazia, o populismo não passa de uma “coisa”.
Originalmente, ele foi designado como uma ideologia fraca, sem espessura (uma “thin
ideology”, dizem os teóricos de língua inglesa), caracterizada pelo apelo de
um chefe carismático a um antagonismo político e moral, eminentemente
maniqueísta, entre dois campos: de um lado, o “povo”, simples e puro; do outro,
as “elites” maléficas e corruptas. O populismo, na sua acepção primeira, é um
fascismo em potência: tem alguns traços do fascismo, mas evita deslizar
completamente até aí. Tal como o fascismo, ele participa de uma metafísica; e
tal como o fascismo, opera através da mobilização reaccionária de um povo que
ele próprio fabrica.»
3.
Limite de voos
nocturnos em Lisboa só foi cumprido em duas semanas de 2026.
4.
O governo, a uma
só voz, defende o ministro Luís Neves. O mesmo não acontece nas sedes do PSD,
em que pelos corredores, em surdina, ou não, se critica largamente o ministro.
5.
A frase da
secção Escrito na Pedra do Público, de hoje, pertence a Simone de
Beauvoir.
«O homem sério é perigoso, pode transformar-se em
tirano».
A
Biblioteca da Casa não é apenas depositária de livros e discos, também de uma
série numerosa de diversos dossiers respeitantes a escritores e artistas
que merecem a nossa atenção.
É
o caso de Herberto Helder.
Do
dossier de Herberto Helder tiramos, hoje, uma entrevista-relâmpago feita pela
escritora Maria Teresa Horta, e publicada no suplemento literário de A Capital
de 10 de Abril de 1968.
Maria
Teresa Horta foi uma das suas amigas e confidentes.
Na
biografia de João Pedro George, pode ler-se na página 309:
«Era uma daquelas
noites em que Herberto, depois das suas caminhadas pelas ruas de Lisboa,
acabava em casa de Maria Teresa Horta. Passou-se provavelmente no último
semestre de 1962 e Herberto apareceu-lhe com um manuscrito, algo que tinha
começado a escrever no estrangeiro, entre a Bélgica e a Holanda, passando por
França e outros países, e que foi continuando a compor em Lisboa e em Santarém.
Luiz Pacheco lembrava-se, inclusive, de o ter ouvido ler alguma partes de Os
Passos em Volta.»
Se
os viajantes deste Cais gostam de biografias, mais ainda do poeta Herberto
Helder, não poderão deixar de ler a Biografia do Herberto que João Pedro Jorge
levou cerca de oito anos a fazer, a detectivar, a escrever.
«Alguém que está a
esconder alguma coisa exerce um fascínio enorme sobre o público».
Assim
era Herberto Helder.
E
é preciso perceber «o inesgotável e enigmático Herberto Helder».
A
leitura atenta e necessária ocorreu nos breves dias da semana passada.
O
livro ficou largamente sublinhado, com comentários nas margens, sei lá mais o
quê, um livro de que poderia dizer «lido à antiga».
Apercebi-me,
então, que talvez fosse interessante mostrar aos viajantes o como foi a minha
leitura à antiga, se isso é possível.
Vou
tentar.
A
todas essas intervenções, chamar-lhe-ei Herbertianas.
Começam
hoje.
Legenda:
pormenor de uma Carta a M.R. sobre «Photomaton& Vox», escrita por Luna Levi e publicada num suplemento literário do
Diário Popular s/d, talvez no ano de 1979.
Sempre o tempo
de se dizer que: «Não Há Festa Como Esta!»
Hoje, já se pode
ir jantar à Festa e conviver!
«Eu tinha passado anos a dizer: “Vou à Festa do
Avante!” Até compreender que talvez tivesse dito a frase errada durante todo
aquele tempo. Porque Avante nunca foi, para mim, apenas um lugar para onde se
vai. Avante é uma direção. Avante é aquilo que fazemos quando o medo diz:
recua. Avante é cantar quando nos aconselham silêncio. Avante é continuar
humano quando o mundo tenta convencer-nos de que o outro é nosso inimigo.
Avante é não permitir que ninguém pense por nós.»
Foi decretada a
mobilização geral.
Bom, isso não teve importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.
Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi decretada a mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.
Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.