Dedicated To The One I Love (Bass/Pauling) - Free Advice (M. Gilliam/John
Phillips) - Even If I Could (John Phillips) - Once Was A Time I Thought (John
Phillips)
Se uma modificação profunda se processou no gosto musical de uma geração, isso
deve-se ao "Em Órbita". Raros foram os dias em que o não ouvi no
velho “Blaupunkt”, de olho verde à esquerda,” de casa do meu pai.
Isso até Junho de 1967 porque por esses dias assentei praça em Tavira e chegou
um tempo em que o FM do Rádio Clube Português não chegava às ondas do
transístor de fancaria que ouvia na caserna do CISMI.
Quando passados tempos regressei, o “Em Órbita”, entrara em novas aventuras e
deixara de ser o programa que conhecera.
Quem não o ouviu não sabe o que foi e não dá para explicar, se isso, naturalmente,
fosse possível – "Um programa feito por todos e dito por mim", como
dizia o Cândido Mota, em minha modesta opinião, a melhor voz que o “Em Órbita”
teve. (estou de acordo! - nota do editor).
Este disco, com esta bonita capa, Made in Portugal, é um dos muitos que comprei
por causa do “Em Órbita” e escolho este porque “Dedicated to the One I Love” se
tornou uma das canções das minhas diversas vidas.
“While I'm far away from you, my baby
I know it's hard for you, my baby
Because it's hard for me, my baby
And the darkest hour is just before dawn".
Como diria o Tom Waits, esta é do fundo do coração e como a vida nunca é
exactamente o que queremos, transportamos, por vezes, algumas canções que
associamos a memórias mágicas.
Mas isto já está a resvalar para a lamechice e por aqui me fecho. Até porque os
silêncios são mais preciosos que as palavras e eu só queria lembrar o “Em
Órbita”, mostrar esta capa e concluir que, como dizia alguém que agora não
lembro o nome, é preciso chegar aos sessenta anos para se ver que aos vinte é
que se teve tudo.
Texto
publicado em 30 de Junho no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.
Neste
dia, que verdadeiramente serão os dias 6 de Setembro de 1969 (carta de Óscar
Lopes para António José Saraiva) e Outubro de 1970 (carta de António José
Saraiva para Óscar Lopes).
Estamos
a consultar a Correspondência trocada entre António José Saraiva e Óscar
Lopes).
Amiúde
verificamos que o neo-realismo é tratado a pontapé por críticos, escritores,
jornalistas, várias outras gentes.
Nas
cartas que consultamos, cita-se a de Óscar Lopes e causa alguma perplexidade o seu
«ódio» ao neo-realismo.
Vejamos:
«Ninguém em Portugal
criticou mais desassombradamente os neorrealistas do que eu. O próprio Eduardo
Lourenço parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel e o
Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia do
Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não
me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o
Alexandre Pinheiro Torres assinou, E nunca fui grande admirador de Ferreira de
Castro, como creio que tu.»
Cita-se
agora António José Saraiva:
«Provisoriamente a
minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do
Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que
me parece impróprio) não há um único grande escritor neo-realista, não há
sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de
novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina,
ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser
propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não
quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da
Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o
Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu
profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a
teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem
génio não há teorias que o limitem.
E não há só falta de
Invenção.Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um
classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc.
(sem falar na simples ignorância do ofício do Redol e outros.
(…)
Para resumir, para o
conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo
e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada
acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço
d’Arcos.
Há a excepção do
Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem
diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por
lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu
horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande
papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os
neo-realistas voltaram a fechar o horizonte .»
Há
um poema de Alexandre O’Neill na Feira Cabisbaixa que tem por título Três Carneiros
do Tejo que começa: «Nasce na Serra de Albarracin, em Espanha e, entre outras
coisas, há um rapaz que, sem malícia, veio, da sombra sei lá de que
sobreiro, para dar em alguém, cá na cidade e que terá acabado em polícia
porque, diz o poeta:
Ser
da polícia, dá cantina, barbeiro, autoridade.
Tempos
da ditadura salazarista, negros tempos, em que ser polícia, mesmo sem quaisquer
qualificações, para a cantina, o barbeiro, também emprestava um sentido de autoridade sobre os outros.
«Há dois chefes da PSP entre os 16 detidos esta terça-feira por suspeitas de
envolvimento em mais de duas dezenas de episódios de agressões e tortura
ocorridos entre 2024 e 2025 em Lisboa, naquele que ficou conhecido como o caso
da Esquadra do Rato.
Tal deve-se ao facto de os dois primeiros agentes detidos, em Julho do ano
passado, serem ambos dessa esquadra, onde terão ocorrido alguns dos mais graves
episódios de violência. As vítimas seriam na maioria pessoas vulneráveis, como
toxicodependentes, estrangeiros e sem-abrigo.»
A
cremação de Cândido Mota, segundo Teresa Mota, sua filha, ocorreu ontem pelas
13,00 horas no Cemitério do Alto São João.
Segundo
reconheceu Herman José: «a melhor voz de sempre da rádio e da locução
portuguesas».
Já
não veremos mais o rigor das suas eficientíssimas apresentações de artistas e
convidados nos palcos das Festas do Avante.
Por
estes dias, irei desencantar coisas e loisas do velho Em Órbita onde Cândido
Mota foi brilhante mestre.
DECCA
- PEP 1159 - 1966
You Were On My Mind – Wat I’m Gonna Be – The Pied Piper – Sweet Dawn My True
Love
Neste disco sei que “You Were on My Mind” é a canção forte, de referência, “o
grande êxito de Crispian St. Peters”, tal como se pode ler na capa.
Mas gosto
muito de “The Pied Piper”.
Cândido Mota, no “Em Orbita”, a anunciar o disco, as primeiras espiras a
rodarem e ele a dizer: “sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica".
Disco comprado na Discoteca Universal, em Lisboa, no dia 30 de Junho de 1966,
por expressa e oportuna indicação do “Em Órbita”.
(nota do editor: eu, por mim, tenho a subida honra de ter sido o introdutor
de Crispian St. Peters e de "You Were On My Mind" em Portugal, em
1965. Não mais me esqueci disso.Mal recebi o disco, fui
imediatamente levá-lo à "23ª Hora", de João Martins. Foi o êxito
total! O "Em Órbita" ainda estava a dar os primeiros passos).
Texto publicado em 7 de
Julho de 2008 no inesquecível «IÉ-IÉ», blogue do Luís Pinheiro de Almeida.
É difícil não
falar aqui, no meio destas prosas soltas, a resvalar aqui e além em confissões
pessoais, naquilo que senti ao confrontar-me com este livro póstumo de Nuno
Júdice, primeiro poema que inaugura o seu encontro com a morte, essa margem
incontornável que envolve de luz negra toda a poesia.
Como apontou
certeiramente Tatiana Faia, na apresentação que fez deste livro (Primeiro
Poema, Dom Quixote, 2026), aquando do seu lançamento, os últimos versos são
o explícito olhar sobre a morte do poeta que maior lucidez sobre a poesia
revelou em todo o seu percurso. Organizado, com cuidado atento e permanente
fidelidade ao que seria desejo do autor, por Manuela Júdice e Ricardo Marques,
este livro culmina nos versos que a seguir reproduzo:
o que eu queria era medir a distância a partir de um
relógio
cuja corda se partiu, posso dar voltas ao ponteiro e é
sempre a mesma hora, não se assustem, o tempo não
parou
nem vai parar, o que eu tenho no pulso é esse falso
relógio
de luz radioactiva que se pode ver do fundo da
carruagem,
se alguém estiver muito interessado em saber que
horas
são e, na verdade, ninguém precisa disso para nada,
como se o tempo tivesse mesmo parado e está na altura
de recomeçar do zero, onde tudo recomeça.
Maurice
Blanchot, em La littérature et le droit à la mort, considera a
escrita literária como a palavra essencial que nasce do silêncio e da ausência
e onde o autor se apaga para dar lugar a uma voz impessoal. Por isso, considera
a criação literária como uma experiência de “morrer sem morte”.
Em toda a poesia
de Nuno Júdice, o autor apaga-se para dar lugar a um sujeito poético irónico e
mesmo, por vezes, divertido. Tornando menos grave essa ausência e dando
máscaras à impessoalidade, Nuno Júdice não deixa de entrar plenamente, com a
sua poesia, nessa separação das coisas e da vida que funda a palavra literária,
mesmo nos belíssimos poemas de amor que põe na boca de Pedro dirigindo-se a
Inês ou em múltiplos dizeres de amor desse “ser suposto” (Emily Dickinson) em
que todos os grandes poetas transformam a sua subjetividade.
Mas o choque e a
revelação que o último (verdadeiramente o último) poema de Nuno Júdice me
trouxe foi esse olhar soberano sobre a morte, quando os relógios param e está
na altura de recomeçar do zero. Do zero que é o vazio da morte, que a poesia
conhece, mas em que por fim o poeta nos deixa, para que nós leitores
recomecemos em cada leitura de cada poema a dar sentido às palavras da poesia.
Indo agora
talvez demasiado longe na confidência pessoal, tenho andado bloqueado na minha
escrita poética pela tentação da prosa, como já escrevi, mas descobri, com a
perda do Nuno, que a sua falta foi também uma das causas deste bloqueio.
A amizade do
Nuno vem de muito longe na minha vida. O meu projeto poético tem pouco a ver
com o seu, mas a palavra poética que nos deixou está sempre presente na minha
consciência. Entre os muitos vazios que se me abrem nesta difícil fase da vida,
a perda do Nuno avulta, e com a leitura do Primeiro Poema (todos
os poemas são um primeiro poema) essa perda ganhou um relevo ainda mais nítido
na minha consciência.
Mas ele diz-nos
como devemos reagir à sua ausência:
Mas não te obstines: nada do que aqui está, ou
estiver para vir, precisa de mim.
Dirigindo-se a
nós do próprio lugar da morte, ele insta-nos a recomeçar (recomeçar do zero,
onde tudo recomeça) e recomeçar é o nosso trabalho de leitores, que em cada
leitura dos seus poemas vimos recomeçar a obra infinita que ele nos deixou.
Nuno Júdice fica
assim sempre connosco.t
Dedicado à Manuela e à Didas, os dois pilares da nossa
amizade
Lembrar que, 3 vezes
por semana, ás vezes mais porque eles comiam vorazmente, ia de casa até perto
do Cine-Oriente buscar folhas de uma enorme amoreira que, por ali existia, para
alimentar os meus bichos-da-seda.
Os miúdos, hoje em dia,
de volta dos seus, ou alheios, telemóveis sabem lá o que são bichos-da-seda,
tê-los em casa, assistir ao evoluir até aos casulos que metia numa caixa de
sapatos que guardava na despensa.
Os
bichos-da-seda nascem geralmente no início da Primavera (por
volta de Abril), coincidindo com o aparecimento das primeiras folhas da
amoreira, que servem de alimento. Em regiões mais quentes, a eclosão pode
estender-se até maio ou junho.
Não que Patti Smith
fale de bichos-da-seda no seuPão de Anjos, mas pelas muitas memórias da
infância que ela transporta para o livro: «Deus sussurra através de uma prega
no papel de parede, uma gota de água a estalar como uma equação. A luz cai na
floresta. Um ancião sentado num barril canta Encontrei uma moeda de ouro num
campo, quem ma trocará» Uma criança responde-lhe. Talvez a minha boneca quando
a encontrar. Ela tem uma mala cheia de moedas», lembrei-me dos meus bichos-da-seda.
O maxilar de Samuel Spade era comprido e ossudo, o
queixo era um V saliente e sob o V mais flexível da boca. As narinas desciam
recortando outro V mais pequeno. Os olhos cinzentos amarelados abriam-se
horizontalmente. Espessas sobrancelhas que emergiam de duas rugas paralelas ao
cimo de um nariz adunco formavam novo V e o cabelo castanho adensava-se, a
partir de têmporas altas e lisas, no cimo da testa. Tinha o ar agradável de um
demónio loiro.
Será
tempo de dizer que gosto mais da escrita de Patti Smith do que das suas
músicas, canções.
Suponho
que isto deverá incomodar algumas gentes mas é o que me ocorre e cada vez, à
medida que a velhice avança, estou mais surdo, mais dado a disparatar.
Mas
é a própria Patti Smith que, numa entrevista disse: «reafirmei para mim mesma o
desejo de escrever — mais do que cantar, gravar, fazer shows. Ser uma escritora
é a coisa mais importante para mim. É o que me dá mais prazer e, também, me
exige mais esforço.»
«Tudo em nosso redor são destroços e, contudo,
avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele
primordial».
Uma
outra citação:
«Com a minha mãe e o
meu pai a trabalhar e os meus irmãos longe, ficava deitada sozinha com os meus
livros, bem aconchegada, a telefonia sintonizada na estação de música clássica
que o meu pai preferia. Por vezes, ouvia alguma coisa que me enchia de uma
emoção sem nome. Certa manhã, ouvi uma voz tão bela que me senti transportada
para outro reino. Anotei o nome da canção, uma ária da Madame Butterfly, e
escutava atentamente a telefonia, na esperança de tornar a ouvi-la.»
O livro, citado na badana, tem um feitiço poderoso, escreveu um crítico no The Guardian e eu apresso-me a concordar.
Que valor tem o sangue em comparação com as
necessidades de uma criança faminta? Onde se situam os nossos esforços na
balança do valor? O pergaminho desenrola-se, os anjos guiam a minha pequena
barcaça. Arrasto uma rede e retiro o casaco descartado, a pele, os amores,
células moribundas das marés do corpo de água. Vejo-me na tal varanda do Hotel
Suisse, uma simples escritora de férias, vestida de branco, a contemplar
fixamente uma mancha triangular no centro da baía. A vaga comichão regressa. O
que devo escrever e juntar? Prometo ser boa. Escreverei sobre uma rapariga que
encontra um pequeno espelho de mão pousado na relva. Gesticula na direcção
dessa mancha, tão distante porém tão próxima. Saltita alegremente, suspensa no
ar, e depois aterra, de braços estendidos. Bem-vinda, bossa rebelde, grita ela.
Eu sou tu.
A
pesca da sardinha reabre hoje após quase cinco meses encerrada, mas com um
limite de 33.446 toneladas para a frota portuguesa, confirmou o Ministério da
Agricultura e Mar.
«Cada vez que o Estado
falha, faz um plano. Cada vez que esse plano falha, faz outro plano. Quando
esse falha, faz-se um plano para coordenar os planos anteriores. Uma matrioska
de planos.»
Mariana
Leitão, líder parlamentar da Direita Liberal sobre o PTRR.
Pelos idos de
67, o Em
Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito,
enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no
programa.
O prémio consistia
numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a
realização do programa feito por nós e dito por mim.
Por esses
tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber,
quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico
Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.
Esgalhei um
arrazoado sobre essas músicas.
Os rapazes
gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.
Lamentavelmente,
perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda
está por aqui, como peça de museu.
Foi um belo
pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido
feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo
eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele
seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e
mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.
Como convidado,
alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas,
hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The
Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson
Airplane.
Disseram-me que
aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.
Numa das
conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para
apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a
maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.
Falei-lhe,
então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar uma
sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também
participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.
Acertámos em ir
falar com o Adriano.
Assistimos ao
concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns
queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa
serena com o Adriano.
Só que o Adriano
era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António
Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava
num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia
dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano
esqueceu a conversa.
Nada havia a
fazer.
Eu, o João e a mulher
regressámos a Lisboa no seu Carocha.
Não houve mais
oportunidade de voltar ao assunto.
Poucas semanas
depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.
É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a
ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em
valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos
Messias do oportunismo e da mistificação.
Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular
portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.
Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos
para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua
transmissão através de "Em Órbita" acarretam.
Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um
português tocado e cantado por portugueses.
Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo,
focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e
vocais.
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente
inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma
história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros,
desenfeitados.
Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular,
pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do
nosso país.
É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.
Nunca soube de
como se chegou ao Quarteto 1111.
Uma coisa é
certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.
Legenda: a capa
do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.
Milhares
de mães não desculpam a Igreja por ter passado o Dia da Mãe de 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição,
para o primeiro domingo de Maio.
Segundo
o Instituto Nacional de Estatistica, o
número de crianças nascidas em Portugal aumentou 3,7% no ano passado, para
87.764, sendo que cerca de um terço dos bebés são filhos de mães estrangeiras.
anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).
«O meu ponto é apenas chamar a atenção para um facto
chocante. Há quatro anos, convocados a escolher entre Montenegro e Moreira da
Silva para liderar o PSD, 26.975 militantes não hesitaram e votaram
massivamente no agora primeiro-ministro. O resultado foi claro: 72,5% para
Montenegro e uns curtos 27,5% para Moreira da Silva.
Há um fosso que separa Moreira da Silva de Montenegro: um tem carreira
profissional, percurso internacional (na Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico e, agora, na Organização das Nações Unidas) e
experiência governativa; o outro tem um passado apenas tribunício,
complementado, sabemos agora, pela promoção de uma empresa familiar com uma
carteira de clientes intimamente ligada ao seu percurso partidário regional.
Porque escolheram, então, os militantes do PSD Montenegro? Não foi certamente
por questões de posicionamento ideológico: Montenegro opunha-se a Rio, mas
escolheu para coordenar a sua moção o autor da moção do anterior líder, o agora
ministro Miranda Sarmento. Os motivos são outros. No que é uma lei de ferro, os
partidos de poder fecharam-se, desligaram-se da sociedade, não estão
interessados em líderes com percursos autónomos, e os critérios que organizam
as escolhas internas dependem de uma teia de cumplicidades irrelevante — quando
não perniciosa — para a governação, mas decisiva para conquistar o aparelho.
O desfecho não poderia ser outro: entre Moreira da Silva e Montenegro, a
escolha foi clara. Não surpreende, depois, que os resultados sejam os que se
veem — sobre Gaza, sobre Trump e Putin, e na governação do país.»
Será Bella Ciao,
ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda
Conta a
Wikipédia:
«"Bella
Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino
global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani
contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a
letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que
antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»
A provável letra original da canção tem como
tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:
Stamattina mi
sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato
I'invasor!
A lavorare
laggiù in risaia
Sotto il sol che
picchia giù!
E tra gli
insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi
tocca far!
Il capo in piedi
col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a
lavorar!
Lavoro infame,
per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a
consumar!
Ma verrà il
giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in
libertà!
Tradução em
português
Esta manhã, eu
me levantei, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, esta manhã, eu me levantei
e encontrei um
invasor!
Para trabalhar
lá no arrozal, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal
Sob o sol que
nos derruba!
E entre os
insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,
Um trabalho
pesado que tenho que fazer!
O chefe está de
pé com uma vara, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! O chefe está de pé com uma vara
E nós curvados a
trabalhar!
Trabalhe infame,
por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro
E tua vida a
consumir!
Mas chegará o
dia em que todos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,
trabalharemos em
liberdade!
A versão
partigiana
Stamattina mi
sono alzato,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi
sono alzato,
ed ho trovato
l'invasor.
O partigiano,
portami via,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano,
portami via,
ché mi sento di
morir.
Se io muoio da
partigiano,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da
partigiano,
tu mi devi
seppellir.
E seppellire
sulla montagna,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire
sulla montagna,
sotto l'ombra di
un bel fior.
E le genti che
passeranno,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che
passeranno,
Ti diranno «Che
bel fior!»
«Questo fiore
del partigiano»,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore
del partigiano,
morto per la
libertà!»
Tradução em
português
Nesta tradução,
a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe
a um invasor externo ou a um exército de ocupação.
OS
MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE
Se
agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria
que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra
bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25
não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de
Maio.
Dirá
então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer -
obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava.
Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de
miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias
luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.
Já
foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os
pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em
Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem
diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos
políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores
querem voltar e pedem amnistia,
Tomás
e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras
brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.
Neste
dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os
portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de
Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.
Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o
assinalar,
se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra
bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.
De repente, recordo-me
de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha
maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava
em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.