Por uns breves dias, iremos lagartear por aí.
Voltaremos a 1 de Setembro.
Apareça também!
Legenda: pintura de Georges Seurat
Por uns breves dias, iremos lagartear por aí.
Voltaremos a 1 de Setembro.
Apareça também!
Legenda: pintura de Georges Seurat
Mais
propriamente a Livraria Uni Verso do editor, poeta, alfarrabista João Carlos
Raposo Nunes.
Colaboração de
Aida Santos.
O que mais me entusiasma na canção é quando se canta
que por Agosto «quem faz um filho fá-lo
por gosto».
A canção chegou a ter Madalena Iglésias como indicada
para intérprete, mas só aceitaria
se retirassem «Quem
faz um filho fá-lo por gosto»
Claro que Ary dos Santos mandou-a dar uma volta ao
bilhar grande!
Colaboração de Aida Santos.
Servimo-nos da notícia do Público:
«Nascida em Lisboa, em 1952, Maria do Carmo Vieira desenvolveu grande parte da
sua carreira como professora do ensino secundário, distinguindo-se pelo
trabalho em defesa do ensino da língua portuguesa e pela reflexão sobre a
literatura, a arte e a obra de Fernando Pessoa. Destacou-se “pela coragem, pela capacidade
de tomar partido, pela sensibilidade ao sofrimento, pelo humor, pela análise
aos disparates que o acordo ortográfico fez acontecer a um ritmo alucinante”,
recorda ao PÚBLICO a sua irmã, a também professora e filósofa Maria Filomena Molder.
“Era um espírito compassivo, muito atento e muito exigente. Nunca esperava que
lhe dissessem como devia agir. Queria mudar o mundo e isso foi muito visível
com o acordo ortográfico, uma causa de que nunca desistiu. Nunca deixou de
combater essa decisão tão errada, tão absurda e tão penosa para a língua
portuguesa na sua ortografia.”»
1.
Dois irmãos, de 3 e 15 anos, foram abandonados pela mãe,
há alguns dias, em Braga. Ambos foram resgatados pela PSP, na madrugada desta
quarta-feira, e transportados ao Hospital Central de Braga, onde foram
avaliados. A mulher já foi localizada pela PSP e constituída arguida pelo crime
de exposição e abandono de menores.
Jornal de Notícias, 19 de Agosto
2.
O Hotel Cascais Miragem vai avançar com o despedimento de 177 trabalhadores, na sequência da realização de obras de remodelação que encerrarão a unidade hoteleira durante dois anos.
«Em causa está o despedimento coletivo de 142 trabalhadores efetivos e
de 35 contratados a termo, num universo de 182 pessoas que trabalham na unidade
hoteleira do concelho de Cascais (distrito de Lisboa), disse à agência Lusa
Luís Batista, do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Hotelaria,
Turismo, Restaurantes e Similares do Sul.
De fora deste processo deverão ficar os cinco trabalhadores que
desempenham funções administrativas.
"A fundamentação da empresa é que terá de despedir estes
trabalhadores porque decidiu investir numas obras de luxo no hotel, onde prevê gastar 80 milhões de euros.
Como não quer assegurar o pagamento dos salários, nem manter os postos de
trabalho, tenta aqui utilizar uma figura jurídica, que é a figura de suprimento
coletivo, para deixar de ter responsabilidades perante estes
trabalhadores", apontou.
Segundo Luís Batista,
o despedimento que a administração do Cascais Miragem pretende levar a cabo
"não cumpre os pressupostos previstos no artigo 359.º do Código de
Trabalho", argumentando que "não existe um nexo causal entre a
realização das obras e a necessidade de despedir os trabalhadores".
"Não estamos
perante uma empresa que tenha dificuldades económicas. Não estamos perante uma
empresa que vai mudar o ramo de atividade ou que vai deixar de precisar de
trabalhadores", apontou.»
3.
Médicos reformados a trabalhar no SNS batem recorde e
mais de metade são médicos de família.
Talvez fosse um capricho estúpido, mas o que é certo é que dei por mim no Sud-Express, a caminho de Coimbra. Estava , ao mesmo tempo, furioso e admirado. Tinha-me deixado convencer? Acho que, subitamente, esta expedição tinha adquirido um certo gostinho a aventura. No fundo, não devia esperar senão isso. Tudo me encantava naquele comboio: os forros de caju do corredor, o cabedal dos compartimentos, o brilho das placas de cobre que, em três línguas, me lembravam que não devia debruçar-me para fora do comboio. A paisagem mudava: ora colinas pedregosas, vestidas de oliveiras, ora pequenos prados, dum belo verde brilhante. O tempo estava magnífico, e o comboio atravessava, uivando, as estações caídas, provocando o pasmo de algumas camponesas de lenço preto que, com a cesta no braço, ali esperavam o autocarro.
Pierre Kyria em A Morte Branca
«Relatório final sobre o acidente do elevador da Glória derrapa para o primeiro trimestre de 2027
O relatório final ao acidente do elevador da Glória que estava previsto para 3 de Setembro,
um ano depois do sinistro, só deverá estar concluído no primeiro de trimestre
de 2027, comunicou o GPIAAF – Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes
com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários.
Relatório final sobre o acidente do elevador da Glória derrapa para o primeiro
trimestre de 2027
A entidade justifica o adiamento pelo facto de decorrer em paralelo uma
investigação do Ministério Público (MP) que obrigou a uma articulação e
realização conjunta de peritagens que incluem testes “destrutivos e
irrepetíveis”. São, além dos mais, testes caros, pelo que, em nome da
“optimização de recursos e eficiência na despesa pública” houve necessidade dessa
estreita articulação “sem prejuízo da independência e fins distintos de cada
uma das investigações”.
Relatório final sobre o acidente do elevador da Glória derrapa para o primeiro
trimestre de 2027
O GPIAAF procura descobrir falhas de segurança para emitir recomendações e
evitar que os acidentes se repitam; o Ministério Público procura eventuais
responsabilidades criminais na origem do acidente.»
Artigo de Carlos Cipriano no Publico de hoje.
Nada do que se lê no artigo de Carlos Cipriano,não é estranho, antes uma velha atitude portuguesa de enfrentar acidentes trágicos.Jane Birkin morreu em Paris no dia 16 de Julho de 2023.
Em 1965 o compositor John Barry, seu primeiro marido,
convenceu Birkin a despir-se numa cena do filme Blow-Up de Michelangelo Antonioni. A imprensa inglesa ficou de
olhos em bico. Divorcia-se de Barry, zarpa para Paris e envolve-se com Serge
Gainsbourg, não tardando muito que apareça a cantar «Je t’aime… moi non plus. A canção de Serge escrevera-a para
Brigitte Bardot, tiveram um leve caso amoroso, que a gravou. Mas Brigitte era
casada com o milionário Gunter Sachs que terminantemente proibiu a divulgação.
Jane Birkin cai como sopa no mel e grava, com
assinalável êxito o dueto.
O Vaticano condenou a canção, em Portugal esteve
proibidíssima.
A canção não faz parte dos gostos da casa, mas se
pedirem que emita uma opinião, dirá que gosta mais da versão de Jane Birkin.
O Eduardo Guerra Carneiro, poeta, jornalista, era um
tipo culto.
O cinema merecia especial atenção. Tem um livrinho
publicado, em Maio de 1999, pela Teorema, a que chamou Outras Fitas, pequenas histórias, memórias de fitas e outras
gentes.
«Um tom mais vago me dizes para ter.
Mais poético? As palavras? As cartas dizias? Talvezal à noite com o Oliveira a
assobiar de mansinho para disfarçar, a grande produção de sessenta e quatro em
Março estávamos, os dias de fuga. Ou a política, o regresso, a prisão? Mais
ambiguidade? Talvez a digressão com o teatro, as longas cartas do Zé Carlos, os
empregos, os livros, as lâminas, Outubro de sessenta e cinco no átrio de um
cinema. Quem estava lá?»
Quem estava no tal átrio de cinema?
Porque és o retrato dos
meus olhos
Onde as fontes do sol vêm beber
Este mar de setembro azul perfeito
Que nas pedras acaba de morrer.
Porque na noite clara do teu peito
A lua é só um pássaro ferido
E as palavras nascem dos meus dedos
Carregadas de sonho e de sentido.
Porque és a cor dos rios em cada fonte
No silêncio da terra desvelada
Lágrima orvalho pétala horizonte
Onde se abre verde a madrugada.
António Lobo Antunes
em Livro
de Poemas
Vinicius de Moraes
Selecção e Prefácio
de Sérgio Buarque De Holanda
Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro,
1979
Poema dos Olhos da Amada
Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.
Ó minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
Lê-se no Público de hoje:
«Portugal é a 26.ª democracia do mundo, mas qualidade está a
descer
A democracia recuou 50 anos no plano global, tendo regressado “a níveis
semelhantes a 1978". Portugal resiste a esta tendência, mantendo uma
posição elevada no índice de democracia liberal do projecto internacional Variedades
da Democracia. Mas há sinais de alerta: a qualidade da democracia tem vindo a
baixar nos últimos dez anos, fruto do crescimento da extrema-direita ou da
"politização da administração pública».
Pelo seu lado, o governo de Luís Montenegro arrasta-se pelos gabinetes.
António Lobo Antunes em tempos lembrou que George Steiner
comentou com ele «que nenhum dos bons
alunos de Cambridge ia para a política: só os medíocres vão para a política.»
O mesmo António Lobo Antunes queixava-se do autoritarismo dos governos e acima de tudo queixava-se da arrogância e da falta de diálogo dos governantes.
Não há nenhuma lei para o dia de hoje.
Os momentos são teus. As tuas bicicletas.
Podes ama no cinema com a boca
colada à tela gigante.
Perguntar pelo poeta Rilke no silêncio
branco das sentinas públicas
ou no silêncio cinza
das outras sentinelas.
Podes voar desesperadamente de encontro
Aos automóveis e lá no fundo sobre o riso do óleo
descobrir um anjo infecto a lamber o asfalto. Desliga
devagar as luzes assassinas.
Destila rápido as frases recortadas
do magarefe e da prostituta
do alfaiate e da pianista que se espraia
louca sobre refinados jogos aquáticos.
O céu hoje é uma triste ciência
de judeus errantes.
O mar, distante, um curso adiado
de linguística, uma malha na meia,
as bocas ferocíssimas do metro
em plena cheia.
Armando Silva Carvalho de Armas Brancas
em O Que Foi Passado a Limpo.
«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é um itinerário de saudades».
Três livros de Miguéis
podem ser destacados como o itinerário
dessa saudade: A Escola do Paraísos,
Léah e Outras Histórias, O Milagre Segundo Salomé.
«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é esta – a da saudade inconformista que
lamente alto e bom as modificações urbanas, os prédios desaparecidos e depressa
substituídos por outros, vazios de memórias e vivências, para, timidamente,
dizer também da morte dos vizinhos a que nos habituámos, Em comum com todos os
que vociferam contra a delapidação do património das suas cidades, o escritor
tem o sentimento de que era esta ou aquela demolição são apenas o princípio de
um redemoinho maior e mais forte em que ele próprio e os seus serão levados.»
Maria João Martins, a
determinado ponto do texto, lembra a frase de José Cardoso Pires:
«Uma parte importante da cidade perdeu a cor quando acabaram com os
cafés e com as tabernas.»
No que a Rodrigues
Miguéis toca, os cafés marcaram-lhe a vida, o convívio, os amigos queridos:
José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, outros mais.
E o seu exílio nos
Estados Unidos, para além de tudo, o que o desgosta e torna inconsolável é a falta
dos cafés de Lisboa.
É Camila Miguéis,
viúva do escritor, que lembra a angústia de José:
« Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»
Conta-se que, na década de 30, sentado a uma mesa de A Brasileira, escreveu as primeiras páginas de O Milagre Segundo Salomé.
Ainda Miguéis e A
Escola do Paraíso:
«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? E para onde?»
Voltamos ao
texto de Maria João Martins para dar a fala a Cardoso Pires:
«Na zona da Almirante Reis passei grande parte da minha infância. No Jardim Constantino havia uma biblioteca e ali pude ler os primeiros livros. Mais tarde, ali me iniciei na literatura com os escritores que vieram a ser os surrealistas (Mário Cesariny, O’Neil e Vespeira). Frequentámos muito um café chamado Herminius que, mais tarde, deu lugar a uma agência funerária»
O café Herminius
já não uma agência funerária, é um Centro Acústica Médica.
O texto do José Cardoso Pires pertence à crónica Café Des Artistes e faz parte do livro de crónicas ACavalo no Diabo:
«Hoje o Café Hermínius está transformado em agência funerária – quere-se maior ironia? Talvez que, numa noite em que eu passe por lá, me apareça no vidro da montra o eco dos rostos duma juventude que ali criou uma parte da sua visão do mundo para lá do real imediato, a sua libertação; e que por trás desse vidro, deposta sobre um chão de violetas, esteja a cabeça da Dona Sol, rodeada de coroas funerárias e iluminada por um sorriso de ternura».
Para além dos
cafés, outra referência de Cardoso Pires debruça-se sobre as grandes tabernas que
eram frequentadas pelos condutores e cobradores da Carris, que ali faziam as
suas rendições: «ali havia tudo, peixe frito a choco, sandes, bom vinho.»
Lembro duas dessas tabernas: uma no Campo Pequeno, outra, a Cova Funda na Praça do Chile.
Cardoso Pires
refere ainda o Miradouro do Monte Agudo, na Penha de França, «onde ninguém
vai».
Abertura de Lisboa,
Livro de Bordo, de José Cardoso Pires:
« Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»
Guia de Portugal
Raúl Proença
1º Volume
Generalidades, Lisboa e Arredores
Apresentação e Notas de Sant’Anna Dionísio
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Fevereiro de 1983
Lisboa é servida por 108,5 Km de linhas eléctricas, que ligam os principais pontos da cidade, e são explorados pela Comp.ª Carris de Ferro de Lisboa. Os carros são asseados e confortáveis, alguns deles fechados e com assentos cómodos assentos de junco, mas em número hoje insuficiente para as necessidades da população.
Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.
Raul de Carvalho
Começo de O
Que Diz Molero de Dinis Machado.
«Teve uma infância estranha», disse
Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe.
«Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente
estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele,
simultaneamente, ator e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um
pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse
do corpo que transportava e, muitas vezes, o projetasse brutalmente contra a
realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a
espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»
Teremos que
pegar num artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular de 5 de
Março de 1977, para percebermos o que é O Que Diz Molero.
O assombro
está logo no título do texto:
«Descobri um
autor: Dinis Machado».
Há que ter em
atenção que a Pachecal Figura era um exímio crítico do que por aqui se escrevia
e muito pouco dado a lambidelas de botas:
« Um livro-bomba. Uma obra referenciada
para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa
praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum,
o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da
última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso
e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar
Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).
Podiam ser frases publicitárias. Quem ler
«O Que Diz Molero», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos
ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará
que não: é que é mesmo assim, como eu digo.Fiquei banzado. Para já, para já,
não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha
lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado,
se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de
marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de
Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no
Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração
cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.»
E a terminar:
«Repito e finalizo: um livro-bomba, uma
obra d’arromba.»
Antes de ter
fechado portas, o semanário publicou umas separatas em que pudemos constatar o
que a censura cortou aos escritos que se pretendiam publicar e que já por aqui
apresentámos, em Velhos Recortes, alguns exemplos.
Aqui fica
mais um, e voltamos a lembrar palavras de Mário Castrim:
«Porque neste País houve uma censura. Às
imagens, ao pensamento. E a propósito: estes censores que mutilaram, castraram,
destruíram, odiaram, onde estão eles agora? Em que lugar do Estado? Com que
votos? Que espécie de democracia estarão a levantar? Que direitos humanos estão
a defender?»