CAIS DO OLHAR
terça-feira, 18 de agosto de 2026
RETRATOS
Ary dos Santos: o homossexual politicamente incorrecto que embaraçava o Partido Comunista Português.
MEU CAMARADA E AMIGO
Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo
As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.
É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.
Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.
Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!
Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.
José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
POSTAIS SEM SELO
Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida cívica, política e cultural.
António
Guerreiro
OLHAR AS CAPAS
Crime no Clube de Xadrez
Rex Stout
Tradução: J.
Lima da Costa
Capa: A.
Pedro
Colecção
Campiro nº 518
Livros do
Brasil, Lisboa 1990
Aos vinte e sete minutos depois das onze
daquela manhã de segunda-feira, dia do aniversário de Lincoln, abri a porta
ente o escritório e a sala da frente, entrei, fechei a porta e disse:
- Miss Blount está aqui.
Sem virat a cabeça, wolfe soltou um
grinhido, arrancou mais algumas páginas, atitou-as para o fogão e perguntou:
- Quem é Miss Blount?
NOTÍCIAS DO CIRCO
«Um septuagenário brasileiro, fundador
de uma igreja evangélica na Amora, Seixal, e a sua mulher, de 65 anos, foram
recentemente condenados por 13 crimes de auxílio à imigração ilegal e
falsificação de documentos, no Tribunal de Almada. Adulteravam documentos para
a obtenção da extinta autorização de residência e, sob a capa de base
missionária, arrendavam espaços insalubres a compatriotas em situação ilegal. A
pena, de cinco anos para cada um deles, foi suspensa mediante o pagamento de
2500 euros ao Alto Comissariado para as Migrações.»
Jornal de Notícias, 17 de Agosto
EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO
«O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, defendeu publicamente a realização de assassinatos seletivos em Gaza, propondo a morte de “30 a 40 pessoas” por noite. As declarações foram feitas num podcast publicado este domingo, 16 de agosto, numa altura em que o Governo israelita reduziu os ataques à Faixa para tentar avançar com o plano de paz promovido pelos Estados Unidos.
“Creio que deveriam ser realizados
assassinatos seletivos em Gaza, eliminando entre 30 e 40 pessoas por noite”,
afirmou Ben Gvir, citado pela agência espanhola EFE, acrescentando que a
operação não deveria limitar-se a pessoas que representassem uma ameaça
imediata: “Há pessoas ali que não merecem viver. Não deveriam viver. Nem sequer
são pessoas.”
Ben Gvir, uma das figuras mais à direita
no Governo de Benjamin Netanyahu, disse também discordar da redução dos ataques
israelitas e voltou a defender a expansão dos colonatos judaicos na Faixa de
Gaza. “Considero que toda a Gaza é nossa”, afirmou. O ministro defendeu “a
maior emigração possível” de palestinianos, bem como a criação de colonatos em
toda a Faixa de Gaza, acrescentando, sobre os membros do Hamas: “Para os
terroristas, nada de emigração, nada, simplesmente matá-los um por um.”
Ben Gvir não tem autoridade para
ordenar operações militares, mas controla a polícia e o sistema prisional
israelitas enquanto ministro da Segurança Nacional. As suas declarações sobre
os palestinianos têm sido apresentadas perante o Tribunal Internacional de
Justiça como possível evidência de “intenção genocida”, acusação rejeitada por
Israel.
Antigo militante do movimento
Kach, considerado organização terrorista por Israel, Gvir defende há anos
posições ultranacionalistas e a expulsão de palestinianos de Gaza.»
Diário de Notícias, 17 de Agosto
FORMA DE INOCÊNCIA
Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.
Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.
Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.
António Gedeão em Obra Completa
domingo, 16 de agosto de 2026
OLHAR AS CAPAS
Diário de um Sentimental Killer
Seguido de
Jacaré e Hot Line
Luís Sepúlveda
Tradução de
Pedro Tamen
Colecção
PequenosPrazeres
Asa Editores,
Porto, Julho de 1999
O dia começou mal, e não é que eu seja supersticioso, mas acho que em dias como este o melhor é não aceitar nenhuma encomenda, ainda que a recompensa tenha seis zeros à direita, livro de impostos.
MÚSICA PELA MANHÃ
Hoje, retiro
da prateleira da Biblioteca/Discoteca da Casa um velho disco do Charles Dumont,
quando se ouviam canções francesas…
Colaboração
de Aida Santos
TRUMPALHADAS
«Assim que acabarmos de derrotar o Irão,
que está a sofrer uma derrota esmagadora, vou declarar, muito em breve, o
Estreito de Ormuz como território dos Estados Unidos da América.»
Donald Trump, ontem, ou hoje, ninguém sabe quando.
sábado, 15 de agosto de 2026
SOLTAS
«E o pior é pensar onde havemos de arranjar forças para no dia seguinte continuar a fazer o que fizemos na véspera e ainda em tantos outros dias já passados, onde encontraremos forças para tantas diligências imbecis, para mil e um projectos que não conduzem a nada, para as tentativas de vencer uma acabrunhante necessidade, tentativas que acabam sempre por abortar, e tudo isso para nos capacitarmos uma vez mais de que o destino é imutável e que o melhor é conformarmo-nos em ter de cair todas as noites da muralha abaixo, sob a angústia desse dia seguinte, sempre mais instável e sórdido.
É talvez a idade que surge, traidora e nos ameaça com o pior. Já não existe
dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está.
Toda a juventude nos abandonou para ir morrer no fim do mundo, num silêncio de
verdade. Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma
bastante de delírio. A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a
morte. Precisamos escolher: mentir ou morrer. E eu nunca consegui matar-me.»
Céline em Viagem ao Fim da Noite
1.
«Quatro em cada dez jovens de 18 anos passam pelo menos cinco horas por
dia na Internet
Em Portugal, quatro em cada dez jovens de 18 anos dizem passar pelo menos cinco
horas por dia na Internet, cerca de um terço do tempo em que estão acordados. O
tempo de utilização tem vindo a aumentar ao longo da última década.»
Público, 15 de Agosto
2.
«Onde havia duas salas de cinema no estádio do Sporting, agora vêem-se
jogos num lounge
O Sporting Clube de Portugal, proprietário do centro comercial Alvaláxia onde
em Janeiro encerraram 12 salas de cinema, está já a usar duas dessas salas para
exibição de jogos e espaço lounge, ainda que sem
aprovação de um pedido de desafectação dos espaços à exibição de cinema,
obrigatório por lei. As outras dez salas estão totalmente vazias. Porém, a
Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) está a “acompanhar” a
transformação das duas salas já em novas funções, disse ao PÚBLICO fonte
oficial do clube, e algo confirmado pela IGAC aos grupos de moradores que
contestam o fim do cinema nos seus bairros.»
Público, 15 de Agosto.
3.
Menor confessou
ter assassinado com golpe mata-leão na quarta-feira e só deu o alerta 21 horas
depois. Menina de 4 anos, filha da vítima e irmã do suspeito, estava também na
habitação.
Legenda: fotografia de Luís Eme
CRONICANDO POR AÍ
O Homem que
lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no
Público:
«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro.
A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que
começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou
um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que
tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha
apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal
impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela
actualidade, pelos rumores do dia.
Claro
que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia
sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas
do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a
mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma
inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este
mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância,
por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma
inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto
vertical que não tem fim: o scrolling.
A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial
analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das
“manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole
berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou
será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido
por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da
civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã,
sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo
instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma
comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do
mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela
modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e
desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública
racional, de um espaço público.
Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o
centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história
mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida
cívica, política e cultural.
Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos
mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço
público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter
sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a
transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”,
encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no
século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do
jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de
“imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele
raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço.
E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que
caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a
rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração
daquilo a que Yves Citton chamou médiarchie, “mediarquia”.
É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar
para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma
dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma
história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala
das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das
manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual
essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época
assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela
constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada
através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no
metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu
jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam
para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas
civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de
transição.»
MÚSICA PELA MANHÃ
Recordemos:
«Sempre gostei de Dean Martin, o velho Dino, mesmo quando fazia de canastrão nos filmes com o Jerry Lewis.
Terei comprado este “EP” por volta de 1968.
Para além de “Chapel In The Moonlight, Little Ole Wine Drinker, Me, The Green, Green Grass of Home”, tem “Release Me”.
O meu pai adorava esta canção.
Não há vez alguma que a Aida a ouça, que de imediato não se lembre do meu pai.
Era um excelente contador de histórias e, nas sessões de audição de música, dita ligeira, aproveitava para as contar.
Umas verídicas, outras imaginadas, outras, enfim, não se sabe bem como.
Esta é uma dessas histórias:
O velho morrera.
A família reunida na biblioteca, ouviu o
advogado enumerar a relação dos bens legados.
À medida que a leitura avançava a boca dos familiares ia tomando a aforma e o tamanho de um enorme “Ah!”
- papel e canetas para os que nunca lhe escreveram;
- tesouras de poda e mangueiras de rega
para os que sempre desprezaram as suas rosas e
orquídeas;
- fósforos, cinzeiros e caixas de
charutos para os que se irritavam e ficavam agoniados
cada vez que puxava de um dos seus esplêndidos “Cohiba”;
- o resto, que era tudo, para a
governanta que lhe servia conhaque nas noites de Inverno.»
OLHAR AS CAPAS
Comes e Bebes
Quino
Capa:
Fernando Felgueiras
Colecção:
Humor Com Humor se Paga n º 3
Publicações
Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 1982
HOTÍCIAS DO CIRCO
Ontem, no colorido Algarve, Luís Montenegro fez a apresentação política futura aos seus apoiantes, talvez ao país.
Contudo, o Luís, que exige que o deixem trabalhar, não tinha nada
para dizer.
O trabalho esvaiu-se nas
areias do oásis em que Luís Montenegro e os seus sorridentes comparsas, dizem que se vive.
Que mais nos poderá acontecer?
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
RETRATOS
RETRATO DE
MANUEL DA FONSECA
Eram campos campos
campos
abertos de humanidade
era um vento que rasgava
apenas a claridade.
Eram palavras jorrando
de um olhar de escaravelho
era um homem inventado
a grandeza de ser velho.
Era terra fome
sede
urze tojo
trigo vinho
alcateia e almocreve
alfazema e rosmaninho.
Era um fogo aprisionado
uma explosão de romãs.
Era um menino alumbrado
entre as pernas da manhã.
José Carlos
Ary dos Santos em Fotos-Grafias
OLHAR AS CAPAS
Fado
José Régio
Ilustrações de
Stuart Carvalhais
Capa: João da
Câmara Leme
Portugália
Editora, Lisboa, Janeiro de 1969
Fado
Alentejano
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Pátria que à força escolhi!
Quando cheguei quis-te mal,
Alentejo –ai- solidão...
Julguei eu que te quis mal,
Chegava do vendaval,
Tão cego que nem te vi!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Adro de melancolia!
Tua tristeza me pesa,
Alentejo –ai- solidão...
Quanto às vezes me não pesa,
Mas fora dessa tristeza,
Pesa-me toda a alegria!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Meu Norte-Sul- Este Oeste!
Voltei ferido da guerra,
Alentejo –ai- solidão...
Faminto voltei da guerra,
Mendiguei de terra em terra,
Esmola só tu ma deste!
Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Oceano de ondas de oiro!
Tinhas um tesouro perdido,
Alentejo –ai- solidão...
Que eu já dera por perdido,
Nos teus ermos escondidos,
Vim achar o meu tesoiro!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Convento de céu aberto!
Nos teus claustros me fiz monge,
Alentejo –ai- solidão...
Em ti por ti me fiz monge,
Perdeu-se a terra ao longe,
Chegou-se –me o céu mais perto!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Padre nosso dos infelizes!
Vim coberto de cadeias,
Alentejo –ai- solidão...
Coberto de vis cadeias,
Mas com estas com que me enleias,
Deram-me asas e raízes!
DA SOLIDÃO DA LUZ
A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –
Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.
Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.
Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror
À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.
Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportando e oscilando em paz.
Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?
E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.
Ana Luísa Amaral
quinta-feira, 13 de agosto de 2026
O QUE A CENSURA CORTOU
Um livro que se encontra no Outro Lado das Estantes, que apresentámos en 29 de Julho, irá servir-nos para reproduzir alguns cortes que um conjunto de censores-militares-analfabetos exerceram no jornal Expresso, bem como em outros jornais portugueses.
OLHARES
O Sol, no dia
em que, por breves instantes, a Lua o escondeu, deixou-nos às 20h34m.
Legenda: fotografia tirada do sítio do costume.
O OUTRO LADO DAS CAPAS
João Carlos
Raposo Nunes, nasceu em Lisboa, em 1955 é livreiro e alfarrabista na baixa de
Setúbal, perto da Câmara Municipal.
O Raposão
passou a ser um dos comparsas do Luiz Pacheco e que amiúde lhe mandou, durante
13 anos bilhetes-postais, cartas, o que calhava.
Convém
lembrar, se há escriba que deram largo trabalho aos Correios portugueses, Luiz
Pacheco está em lugar de topo.
Segundo João
Pedro George, Luiz Pacheco sofria «de compulsão epistolar.»
O próprio
Pacheco escreveu:
«No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que
o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica
com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo».
Postal de Pacheco para o poeta Zé Gomes
Ferreira em 14 de Abril de 1968:
«Chego a Lisboa de Albarraque e encontro
um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz
Pacheco a pedir-me 50 escudos.
«Encontro-me numa fase em que não me
repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um
empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome.
Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao
Queneau.»
Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.
Do prefácio:
«No entanto, talvez seja através das
suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito
de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das
suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou
das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no
percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se
coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por
ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado
apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias
entrevistas e depoimentos que se conhecem.»
Temos, pois, mais um livro de cartas do Pacheco.
OLHAR AS CAPAS
Cartas ao Léu
Luiz Pacheco
Correspondência de Luiz Pacheco
Para João
Carlos Raposo Nunes
(1990-2003)
Edição:
António Cândido Franco
Capa: Luís Henriques
Maldoror,
Lisboa, Junho de 2020
2º feira, 11 de Novembro 2002
Dia de S.
Martinho!
Meu caro
Raposão
És capaz de
já saber. No dia 23 deste mês, um sábado, é lançado aqui na Livraria Ler
Devagar, no bairro Alto, um livrinho meu, um conto de Natal. Gostava que
viesses. A distribuição é da Editorial Notícias. Tens crédito lá? Para mim é
uma ALEGRIA. O Carlos Curto organiza uma Performance, com o actor João LAGARTO;
é um BOM actor, conheço da televisão. Eu andava à rasca e talvez assim
equilibre as finanças.
Esteve aqui
um velho Amigo meu que mora ao lado do teu pai, na Graça. É o Benjamim
Monteiro, ilusionista e grande
PÂNDEGO
Ele falou com
o teu Pai. Vou escrever-lhe para ele assistir ao lançamento.
Aquele MARAU
do Capêlo tem aparecido? O Carlos Dutra contou-me uma cégada em Évora com ele e
com o escritor que é irmão do Orlando Vitorino (ou estarei enganado? o Telmo.
Aparece
Abraços
castos do
Luiz Pacheco

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