quarta-feira, 27 de maio de 2026

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS


Em Novembro de 2015, por aqui, olhámos o livro Greguerías de Ramón Gómez de la Serna, selecção e tradução de Jorge Silva Melo.

Greguerias é uma palavra que não significa nada, nem em castelhano, nem em qualquer outra língua, é um género literário inventado pelo próprio autor. Jorge Silva Melo, no prefácio, lança pistas para que possam ser aforismos, adágios, refrões, mas não é conclusivo. Pouco importa.

O que quer que sejam, merece que se apresentem algumas dessas greguerías, que também, por aqui, já foram utilizadas em alguns Postais sem Selo.


Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.

À morte não a ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos

Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.

Olharam-se de janela a janela em dois comboios que iam em direcções opostas, mas tal é a força do amor que logo os dosi comboios se puseram a andar para o mesmo lado.

Às vezes, os beijos são só chewing-gum repartido.

As estrelas-do-mar são as mãos que constatam que o barco se afundou.

Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo a conversa em cima.

O grande problema do gato é como dar futuro a esses seis gatinhos que vieram ao mundo de uma só vez.

Nervosismo da cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açúcar para o café.

Amor é acordar uma mulher e ela não se irritar.

Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.

Quando se entorna um copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.

Velho actor: deixou uma dentadura que declamava Shakespeare.

Pôr as peúgas do avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.

A gaivota rema ao voar.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Volta e meia, Pedro Passos Coelho abandona Massamá para nos vir dizer coisas.

Ontem, na apresentação de um livro, criticou os políticos que, para tentarem agradar a todos ainda mais do que os populistas, se tornam postiços, comparando-os a "prostitutos sem carácter".

PLANO DE EVASÃO

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2012

terça-feira, 26 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


O ímpeto de escrever como fuga à morte.

Helena Vasconcelos 

À LUPA

Dentro de Greguerías, aforismos de Ramón Gómez de la Serna, encontrei um guardanapo de café ou tasco, com esta frase de José Sócrates, enquanto ministro do Ambiente e citada do Dna de 16 de Setembro de 2000:

 «Engenheiro José Sócrates, vamos vê-lo, um dia, primeiro-ministro?»
«Não! Primeiro, porque não tenho o talento e as qualidades que um primeiro-ministro deve ter. Segundo, porque ser primeiro-ministro é ter uma vida na dependência mais absoluta de tudo, sem ter tempo para mais nada. É uma vida horrível e que eu não desejo. Ministro é o meu limite.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Nunca aprendemos tudo sobre despedidas.

O livro do Julian Barnes é um livro do diabo.

Demorei algum tempo a lê-lo. 

São apenas 185 páginas, «composto em caracteres da família Caslon, inspirados na tradição holandesa do século XVII e  originalmente desenhadas, em 1722, pelo tipógrafo William Caslon (1692-1766) – um trabalho que influenciou toda a história da tipografia moderna».

Relembro o que por aqui escrevi, nos princípios de Março, sobre Barnes:

Saiu o último livro do Julian Barnes e é mesmo o último.

Li apenas O Papagaio de Flaubert e gostei. 

Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».

Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de 46, eu nasci em Março de 45.

Deveria ter lido os restantes livros de Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida, que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram. Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros que me querem oferecer.

Neste momento, Barnes, luta contra um cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

A Quetzal, que edita o livro, publicita:

«Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas expressões da vida. E despede-se deles.

Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco».

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Uma despedida elegante de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review

«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal

«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»

Na crítica que Helena Vasconcelos fez para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes

Partida, o romance em que Julian Barnes nos diz adeus.

Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.

Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.

Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.

OLHAR AS CAPAS


Partida

Julian Barnes

Tradução: Salvato Teles Menezes

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa Janeiro de 2026

É óbvio que, como agnóstico/ateu, não vejo muitas vantagens em estar morto.

THE NIGHT YOU SLEPT

Também a noite se parece contigo,
a noite longínqua que chora,
muda, no fundo do coração,
e as estrelas passam cansadas.
Uma face aflora uma face –
é um tremor frio, alguém
se agita e te suplica, só,
perdido em ti, na tua febre.
 
A noite sofre e anseia pelo amanhecer,
pobre coração que estremeces.
Ó rosto fechado, negra angústia,
febre que afliges as estrelas,
os que esperam como tu o amanhecer
sondam o teu rosto em silêncio.
Estendes-te sob a capa da noite
como um horizonte morto e fechado.
Pobre coração que estremeces,
num dia distante foste o amanhecer.

Cesare Pavese em Virá a Morte e Terá os Teus Olhos

segunda-feira, 25 de maio de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


A Taça de Portugal sempre foi uma enorme festa.

Seria mais se a Federação, ao longo dos anos, não inventasse uns esquemas que têm o finalmente de colocar as grandes equipas na final.

O correcto espírito da Taça estaria no facto de logo na primeira eliminatória estarem presentes TODAS as equipas de Portugal.

Não é bem assim.

Mas este ano as coisas saíram furadas aos experts da Federação.

Pela primeira vez, uma equipa de um escalão secundário venceu a Taça.

Como se lê no blogue «zero-zero» pela pena de Guilherme Terras Marques:

«Talvez seja precisamente essa mistura entre o sonho e a ausência de medo que tenha tornado esta equipa tão perigosa. No final, Luís Tralhão dizia que a maior força do Torriense foi «a capacidade de perceber que podia ganhar o jogo». Talvez essa frase explique tudo. Quando uma equipa acredita assim durante tanto tempo, talvez deixe mesmo de existir espaço para chamar acaso a uma conquista histórica.»

Legenda: fotografia de Luís Moreira no «zero-zero».

SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Carlos Drummond de Andrade em Antologia Poética

domingo, 24 de maio de 2026

REOLHARES


Este é o cartão do associado nº 38315,  de "A Voz do Operário" de Afonso Borges Correia, meu avô materno.

Funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, republicano histórico, era um pândego patusco, castiço, um gozador da vida, tocava “caixa” na Banda da Câmara.

Nos domingos em que não havia concertos, manhã cedo,  saía de casa, máquina “à la minute”, ele dizia à la minuta, e arrancava para as praias, para as feiras nos arredores, para tirar fotos de “olhó passarinho”.

Dizia à minha avó que assim fazia um dinheirinho para compor o curto ordenado de funcionário da Câmara. Mas isso, era apenas um pedaço de treta, tirava, quando tirava, uma ou duas, ou três fotos, o resto era copos e convívio com os amigos. Pelava-se por polvo seco assado na brasa, na Feira da Luz, ou na das Mercês, e é fácil imaginá-lo naqueles restaurantes de feira, mesas com toalhas de plástico, petiscos, jarros de barro com tintol e lá fora, a máquina, em cima do tripé, a olhar para ele, ou vice-versa.

Claro que nos domingos de concerto, também saía manhã cedo, mais petisco, mais copitos, o chegara casa, ao cair da noite, e a ouvir a minha avó: “maior fosse o dia maior era a romaria”.

Reformado da Câmara, já com pouca estaleca para transportar a la minuta, conseguiu alvará de guarda de automóveis num espaço junto à Sé de Lisboa.  Um fino humor, uma figura garbosa, davam-lhe o toque de charme que cativa damas e cavalheiros das missas de domingo, das missas de fim de tarde, e as gorjetas eram cantantes.

Fumava dois maços de "Definitivos" por dia. Copos e tabaco, outras coisas, provocaram-lhe graves problemas de circulação, ao ponto de lhe terem amputado as pernas.

O médico proibira-lhe os cigarros, o copito.

Assim, um pouco sem jeito, ia-lhe lembrando esses cuidados, e o avô andarilho que foi, acamado que estava, a dizer-me:  “é pá! A vida são dois dias e o qué que queres que p’raqui esteja a fazer?

Nunca hei-de esquecer o prazer com que puxava cada fumaça de “Definitivos”.

As consoadas eram preenchidas com as suas anedotas que, invariavelmente, repetia todos os anos. Recordo esta:

Um homem entra pela drogaria a pedir uma esmola para o ceguinho..

- Mas  onde está o ceguinho?  pergunta uma cliente

- Está  lá fora a ver a montra!

Pelos cigarros, pelo copito, terá morrido mais cedo… mas morre-se por tantos motivos…

Foi “A Voz do Operário” que lhe tratou do funeral.

Já não lembro o que aconteceu à máquina à la minuta e ao boné com a placa de guarda de automóveis.

Do meu avô apenas guardo um relógio de pulso de marca “Invicta” e este cartão de  sócio de “A Voz do Operário”.

Sou o único da família, que saiu com os olhos azuis do meu Afonso.

(Texto publicado em 29 de Setembro de 2011).

Legenda: a imagem do fotógrafo “à la minuta” foi tirada  daqui.
A outra imagem, mostra o espaço, junto à Sé, onde o meu avô foi guarda-de-automóveis.

À LUPA

«Não podemos seleccionar os cem melhores romances sem saber quantos romances existem.»

Rogério Casanova no Público de hoje.

OLHAR AS CAPAS


 Obras Escolhidas

Lénine

3 Tomos

Lénine

Edições Avante, Lisboa, Novembro de 1977

Um conhecido adágio diz que se os axiomas geométricos chocassem com os interesses dos homens, certamente tentaria refutá-los. 

MÚSICA PELA MANHÃ

Centenário de Miles Davis.

Nasceu no dia 26 de Maio em Alton, Illinois.

Pedro Adão e Silva evoca-o, hoje, no Público:

«Conta a lenda que numa receção na Casa Branca, Miles Davis terá sido questionado pela mulher de um político sobre o que tinha feito de importante para estar naquele jantar. A resposta foi contundente — e podemos imaginá-la na voz singularmente rouca do músico: "Mudei a história da música cinco ou seis vezes e não acredito que se possa tocar apenas temas compostos por brancos." Para depois questionar: "Diga-me o que fez de importante, além de ser branca e casada com um homem branco?"».

Flea, o virtuoso baixista dos Red Hot Chili Peppers: "Se és um ser humano e ouviste Miles e não gostaste, então és um idiota."

Eduardo Prado Coelho conta:

«Juliette Greco evoca Miles Davis, amante. Quando, anos depois, o reencontrou em Paris. Ela, alguns passos na sala, de costas, um pouco curvada, desatenta: procurar um isqueiro, encher um copo com álcool, abrir uma janela porque faz calor. E ele ri, feliz. Juliette Greco pergunta: "Estás a rir, porquê?” E Miles Davis responde: “Porque reconheceria esse movimento de ancas em qualquer parte do mundo.”».





sábado, 23 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Já mais de uma vez disse por aqui que o meu pai foi um marxista-leninista. 

Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia (?) por fundamental, mais por o João César Monteiro ter escrito que no Marx está tudo.

A carne é fraca e li mais Raymond Chandler do que os clássicos marxistas, leninistas e estarei em condições de dizer que cheguei mais às ideias que hoje tenho lendo Sartre, Camus, Vailland, Vittorini, Roger Martin du Gard, tantos outros, do que clássicos da política.  

«A tese de que o fim da União Soviética e do bloco socialista europeu, entre 1989 e 1991, obrigaria os partidos comunistas a abandonar o marxismo-leninismo – defendida a partir de 1998 pelo malogrado Carlos Brito e que conduziu à sua ruptura com o PCP em 2000 – sempre me pareceu partir de um pressuposto errado: o de que o marxismo-leninismo teria como única expressão prática possível a experiência soviética. 

O marxismo-leninismo, criado depois da morte de Lénine, albergou projectos políticos muito diversos e até antagónicos. Em Portugal, além do PCP, existiram entre 1964 e 1976 pelo menos 40 organizações que se reivindicavam marxistas-leninistas. Na própria URSS a mesma designação serviu para fundamentar o “socialismo num só país” de Estaline, a desestalinização de Khrushchev, apresentada como “regresso a Lénine”, e a Perestroika de Gorbachev, descrita como renovação leninista do socialismo.

A elasticidade do conceito permitiu ainda legitimar experiências tão distintas como o maoísmo, que deslocou o eixo revolucionário para o campesinato em sociedades semicoloniais, ou o titoísmo jugoslavo, que combinou socialismo, mecanismos de mercado e autogestão operária. Na China, no Vietname, em Cuba e noutros países, o marxismo-leninismo serviu aplicações nacionais muito diferentes.

A ideia de que a adaptação do comunismo aos “novos tempos” exigiria a rotura com essa identidade contradiz a conceção antidogmática defendida por Lénine. Em múltiplos textos, Lénine insistiu que a teoria de Marx não era um “dogma morto”, nem um mapa detalhado do futuro, mas um “guia para a acção”. Essa flexibilidade permitiu-lhe defender a participação de comunistas em parlamentos burgueses ou criar a NEP de 1921, que reintroduziu mercado, comércio privado e iniciativa camponesa na jovem URSS.

Os partidos que se reivindicam marxistas-leninistas partilham alguns princípios: transição para o socialismo, subordinação dos meios de produção ao interesse colectivo, anti-capitalismo, anti-imperialismo, denúncia da exploração humana na democracia burguesa, partido de massas. Mas esses princípios nunca deram origem a uma institucionalização homogénea. Podem exprimir-se em sistemas políticos distintos, como também o capitalismo convive tanto com ditaduras como com democracias liberais.

A adaptação de partidos comunistas marxistas-leninistas às instituições da democracia representativa encontra, aliás, exemplo contemporâneo no programa do Partido Comunista Português. O PCP, o meu partido, define o marxismo-leninismo como a sua base teórica não dogmática. O seu projecto de “democracia avançada” para Portugal incorpora liberdades, pluralismo de opinião e organização política, sufrágio universal, separação e interdependência de poderes, liberdade de imprensa, direito à formação de partidos e protecção jurídica dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos.

Esta compatibilidade funda-se na ideia de que a luta pelo socialismo passa pelo aprofundamento da democracia política, económica, social e cultural, sem renúncia ao objectivo de uma sociedade sem exploração.

É por isso que me parece que Carlos Brito e os camaradas que a partir de 1998 o apoiaram na reivindicação do fim do marxismo-leninismo no PCP estavam errados: é que discutir a democracia interna no PCP, que é um tema que deve estar sempre em cima da mesa, nada tem a ver com o fim do marxismo-leninismo, pelo contrário.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

OLHAR AS CAPAS


Obras Escolhidas

Marx e Engels

Três Tomos

Tradução: José Barata-Moura

Edições Avante, Lisboa, Abril de 1982

os indivíduos procuram apenas o seu interesse particular, o qual para eles não coincide com o sei interesse comunitário.

À LUPA

Ainda vamos ouvindo, uma conversa sem fim, que Israel é uma democracia.

Uma história para enteter camelos.

Ben-Gvir, ultra-ministro do ultra governo de Benjamim Netanyahu, divulgou imagens da violência com que Israel trata as pessoas que participaram na última flotilha que foi interceptada. As imagens chocaram o mundo e Netanyahu veio dizer que aquele tratamento “não se alinha com os valores de Israel”.

Mas quais são os valores de Israel?

O governo português , como em outras situações em que as sanguinárias forças de Israel estão envolvidas, gagueja para um lá e para outro. Não só o governo português porque nos restantes países da Europa, do mundo, não se vê uma reação violenta contra os governantes israelitas.

Têm medo de quê?!

MÚSICA PELA MANHÃ

Terá sido no decorrer do campeonato do Mundo de 1990, realizado em Itália, na final a Alemanha ganhou por 1 a 0 à Argentina, que o final da ópera Tarandot  de Giacomo Puccini, cantado por Luciano Pavarotti se tornou popular.

«A Princesa Turandot, filha do Imperador Altum da China, odeia todos os homens, e jura que jamais se entregará a nenhum deles; isto devido a um fato ocorrido na família imperial que a traumatizou para sempre: o estupro e assassinato da princesa Lo-u-Ling, quando os tártaros invadiram e conquistaram a China. Seu pai, porém, exige que ela se case, por razões dinásticas, e para respeitar as tradições chinesas. A princesa concorda; porém, com uma condição: ela proporá três enigmas a todos os candidatos, que arriscarão a própria cabeça se não acertarem todos os três, e somente se casará com aquele que decifrar todas as três duríssimas charadas. A crueldade e frieza da princesa não fazem mais do que atiçar a paixão do Príncipe Desconhecido, filho do deposto rei dos tártaros, que decide arriscar a própria vida para conseguir a mão da orgulhosa princesa. Ele consegue, após a derrota de todos os outros candidatos, até porque é o único que compartilha da natureza sádica e egoísta da princesa, sendo capaz de entendê-la.»

Ninguém durma! Ninguém durma!
Nem mesmo tu, ó Princesa,
No teu quarto frio,
Olhas para as estrelas
Que tremem de amor
E de esperança!

Mas o meu segredo está guardado em mim,
O meu nome ninguém saberá!
Não, não, na tua boca eu o direi,
Quando a luz brilhar!

E o meu beijo derreterá
O silêncio que te faz minha!

(Coro: O nome dele ninguém saberá! E nós teremos, ai de nós, que morrer!)

Desaparece, ó noite!
Esvaneçam, estrelas!
Esvaneçam, estrelas!
Ao alvorecer vencerei!
Vencerei! Vencerei!




sexta-feira, 22 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


A história não se repete, mas rima.

Mark Twain

TRUMPALHADAS

Donald Trump, Benjamim Neta, toda aquela montanha de ignorantes que os envolvem, meteram-se naquele vespeiro que é o Irão e não sabem como hão-de sair daquilo.

O Vietnam, o Iraque, o Afeganistão não lhes serviram de exemplo.

Mas todos os dias, Donald Trump  diz aos seus fanáticos que destruiu a marinha, a força aérea do Irão, mas que ainda falta o golpe final que destruirá um país, golpe que, até agora, não passa da louca imaginação daqueles fanáticos.

E o mundo vai olhando para uma das suas maiores crises...

Como é possível?

QUE COR Ó TELHADOS DE MISÉRIA

Que cor ó telhados de miséria 
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos 
de nenhum querer 
a que horas nasceram as estrelas que 
um dia foram
a que horas nasci?
 

Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti
 

Não sei que idade tenho

 

António Ramos Rosa em Obra Poética, Vol. I 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

DIÁRIO DE LISBOA-JUVENIL (1957-1970)


Com a então chamada «primavera marcelista», o Diário de Lisboa-Juvenil fechou taipais.

O ditador entendia que já lhe bastava um Castrim, quanto mais muitos castrinzinhos.

O Mário Castrim chegou a dizer antes castrinzinhos que castradozinhos!

O Juvenil publicou-se de 1967 a 1970.

Talvez um dia se faça a história daquela cantera de poetas, que o pasquim fascista Diário da Manhã chamava o Konsommolskaya das Terças-Feiras, romancistas, actores de teatro/cinema, jornalistas, apresentadores de televisão, deputados, ministros, um primeiro-ministro e entidades abstractas, como eu, que não deram em nada.

Numa viagem, não exaustiva, permite-se citar:

Fernando Guerreiro

José Mariano Gago

Luís Filipe Castro Mendes

Maria Elisa

Jaime Rocha

Fernandes Jorge

Joaquim Manuel Magalhães,

Franco Alexandre

Helder Moura Pinheiro

Maria do Céu Guerra

Durão Barroso

Casimiro de Brito

Nelson de Matos

José Pacheco Pereira

Cáceres Monteiro

Nicolau Saião

A.M. Pires Cabral

José Freire Antunes

Hélia Correia

João Bonifácio Serra

José Agostinho Baptista

Diana Andringa

Jorge Silva Melo

Eduardo Prado Coelho

Eduarda Dionísio

Alice Vieira

José Jorge Letria

Luís Miranda Rocha

João Mendes

Nuno Júdice

Maria Leonor Xavier

Tito Lívio

Helder Pinho

Hugo Beja

Torquato da Luz

Paulo da Cunha Leão

Rui Nunes

José de Matos-Cruz

José António Saraiva


Legenda: imagem da Hemeroteca

VELHOS RECORTES

Recorte do Diário de Lisboa-Juvenil que mostra que Nuno Júdice ganhou o prémio de poesia, 2ª Semana do Concurso Fósforo Ferrero.

O poema Introspecção com que Nuno Júdice venceu o Prémio de Poesia Fósforo Ferrero.

O anúncio da Fósforo Ferrero que patrocinava os Prémios do Diário de Lisboa-Juvenil.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Não sei, não sei mesmo, se o Nuno Júdice é o autor de uma obra poética decisiva que marca a poesia portuguesa.

Sei apenas que gosto muito da sua poesia.

Sentindo o fim aproximar-se, Nuno Júdice deixou três pastas com poemas, a sua mulher Manuela Júdice e o amigo Ricardo Marques, seleccionam os poemas para o livro em que Nuno trabalhara e a que foi dado o título, escolhido pelo autor em conversa com Ricardo: Primeiro Poema.

«Quando acabo um poema não sei muito bem o que escrevi», disse numa entrevista

Houve uma altura da vida do Diário de Lisboa-Juvenil que deu a louca ao Mário Castrim. Foi quando em estado de pura e avassaladora paixão  pela Alice, decidiu que tinha de deixar a Natália, sua mulher de longos e duros anos. Difícil e dramática decisão. O Mário Castrim até tinha uma capacidade de trabalho alucinante, acima, muito acima, de qualquer média, mas aquilo era demais e a cabeça não dava para tudo: diariamente crítica de televisão no Diário de Lisboa, colaboração diversificada e dispersa por jornais e revistas, colaboração no Rádio Clube Português com histórias para crianças e o Juvenil. Quanto a este terá então pensado que teria de deixar, por uns instantes, a selecção dos textos e poesias a mim e ao Armindo, gente de confiança, como ele dizia. Assim foi.

Mário Castrim fazia a grande triagem e passava o resto da papelada para mim e para o Armindo e, cada um fazia a leitura e selecção da colaboração. Trocávamos impressões e seguia-se a reunião com o Mário Castrim, para o Juvenil da semana seguinte, normalmente no Diário de Lisboa ou na Orion, café e pastelaria com “fabrico próprio” que, para meu grande espanto, não se tornou banco ou loja de trapos, ainda existe no cimo da calçada do Combro, esquina para a rua que vai dar a Santa Catarina, uma das mais belas vistas de Lisboa

Por vezes, Castrim, punha lápis vermelho nas nossas escolhas. O Armindo ficava à beira de um ataque de nervos, eu nem por isso porque entendia que o Mário era o responsável-mor do suplemento. Foi nessas andanças que nos surgiram os poemas do Nuno Júdice e neles já estava quase tudo do que viria a ser um dos poetas marcantes da poesia portuguesa, assim como o Jorge Valdano disse,  que um verdadeiro camisa 10 se nota logo, mesmo que venha mascarado de bailarina sevilhana.

Lembro-me do olhar deliciado do Armindo a ler os poemas do Nuno Júdice, nas mesas da Brasileira,  chávena de café suspensa na mão.

O Armindo deu o “salto” para fugir à guerra colonial, mandou-me um primeiro postal de Grenoble, mas nunca mais, para meu grande lamento, tive notícias do seu exílio.

OLHAR AS CAPAS


Primeiro Poema

Nuno Júdice

Prefácios: Manuela Júdice e Ricardo Marques

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril 2026


O Espelho da estrofe


Se me perguntarem para que serve

a poesia, peço para pegarem num espelho

de vidro limpo e puro. O rosto que ali

aparece, mais do que aquele de quem o olha,

é o rosto que perdura no olhar que, um dia,

encontrou noutro olhar o seu duplo. Assim,

se a poesia serve para alguma coisa,

é para te ver, para lá do tempo

e da ausência, e novamente ter à minha frente

esse olhar que nunca mais esqueci

e que vive, no mais fundo de mim,

quando te encontro, no espelho do poema,

fazendo com que eu peça que o reflexo

se transforme na realidade do teu corpo.