sexta-feira, 1 de maio de 2026

REOLHARES



OS MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE


Se agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25 não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de Maio.

Dirá então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer - obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava. Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.

Já foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores querem voltar e pedem amnistia,

Tomás e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.

Neste dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar. Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o

assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.

Que ao longo deste texto são relembrados.

Faltava um ano para Grande Festa.

1º DE MAIO À MINHA MANEIRA


De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

Legenda: Retrato de José Gomes Ferreira de Ofélia Marques.

O MEU PRIMEIRO DE MAIO

Sozinho, sempre sozinho,

mesmo quando vou a teu lado.

 

De ti que constróis o rumor das cidades

e no campo, semeias, lavras,

e pisas

o sabor do vinho.

 

Sozinho, sempre sozinho.

aqui  vou a teu aldo

eu, o poeta, operário de palavras

- as palavras «sonho?, «bandeira*, «esperança», «liberdade» -

instrumentos de pureza irreal

que tornam a Realidade

ainda mais real

e transformam os bairros de lata

em futuras cidades de cristal

num planeta de paisagens de prata

onde as bocas das flores, das manhãs, dos vulcões,

da brancura do linho

e das foices de gume doirado

cantarão um dia connosco a Internacional

- que eu continuarei a cantar sozinho,

sempre sozinho,

a  teu lado.


José Gomes Ferreira em O Diário, s/d

quinta-feira, 30 de abril de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO

O povo e os trabalhadores sobrevivem apertados pela inflação e o custo de vida.

Luís Montenegro, com aquele sorriso sem nome, admite, para já, que não há motivos para alarme!

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Filha de peixes sabe nadar.

É o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.

Ultimamente tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.

Conhece-lhes a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o ímpeto de escrever como fuga à morte.

Correndo atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a eternidade de cada um de nós».

Liberdade e Paixão começa assim:

«Faz com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas nos caminhos».

Marguerite Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.

«Não lhe interessam os aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos, ignorantes.»

«Aí está! Morrerei cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também me ensinaram que não valho quase nada.»

Das dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias, Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.

Yourcenar conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir. Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»

Há gentes assim, repletas de loucas magias.

Lembro o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».

Um dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:

«Na América vivia numa casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à água.»

Tempo de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:

«A partir de certa idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»

OLHAR AS CAPAS


Marguerite Yourcenar: Liberdade e Paixão

Cristina Carvalho

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Lisboa Novembro de 2025

Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.

Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo, variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador e uma capacidade sempre esfomeada por livros.  

VIVER

 Mas era apenas isso,

era isso, mais nada?

Era só a batida

numa porta fechada?

 

E ninguém respondendo,

nenhum gesto de abrir:

era, sem fechadura,

uma chave perdida?

 

Isso, ou menos que isso

uma noção de porta,

o projecto de abri-la

sem haver outro lado?

 

O projecto de escuta

à procura de som?

O responder que oferta

o dom de uma recusa?

 

Como viver o mundo

em termos de esperança?

E que palavra é essa

que a vida não alcança?

 

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 29 de abril de 2026

JOSÉ SANTA-BÁRBARA (1936-2026)


Morreu o pintor e ilustrador José Santa-Bárbara.

Entre outros trabalhos, fez algumas das  capas para os álbuns de José Afonso.

OLHAR AS CAPAS


William Klein

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Vale tudo: desordem, ordem, lixo, colisão, violência, poesia, acaso, encenação, sonho, razão, excesso, subjectivo, instantâneo, fixado na fotografia como no resto…

A INUNDAÇÃO

O mar invade Lisboa mas por dentro
enquanto o vento enfeita
as filhas dos polícias
e há um vago frio nos olhos
mais dementes
destas tardes.

As crianças vestem
coloridamente
seu mórbido e inesperado
séquito.

Mas nas ruas da Raiva
nota-se uma abundância
palpável

um rio vagamente doloroso

um mar por dentro.

Nas lojas de fazendas
na menina da caixa
no fastio amarfanhado
dos porteiros.

Gotas marítimas notavam-se
no brilho das pulseiras
de uma amante
líquido miúdo mas brilhante
até nas varizes das peixeiras.

Há quem diga do sol
um sol insólito é bem certo
mas nota-se até na cauda dos insectos
piedosas solícitas gotas de humi ( l ) dade.

O mar invade tudo mas por dentro.


Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

terça-feira, 28 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


O actor Jimmy Kimmel, dois dias antes dos disparos no Hotel Hilton contra Trump & Cª, no seu programa televisivo de humor, fez uma piada ao casal Trump. 
O monólogo do comediante teve um sketch em que se simulava a presença do Presidente e da primeira-dama no Jantar de Correspondentes da Casa Branca, e nele o humorista saudou ficcionalmente a beleza da primeira-dama dizendo —“Sra. Trump, tem um brilho como uma viúva de esperanças, ou se quiserem viúva expectante".

No dia seguinte ao interrompido jantar, Melania Trump escreveu no X que Kimmel é “cobarde” e que a ABC devia tomar medidas, por seu turno Trump na sua rede TruthSocial que a piada de Jimmy Kimmel foi um "apelo à violência", rematando que deveria ser imediatamente despedido pela Disney e pela ABC.»

Jimmy Kimmel respondeu ao casal Trump esclarecendo que a piada pré-tiroteio “não foi um apelo ao assassinato e eles sabem”
“Obviamente, era uma piada sobre a diferença de idades entre eles e a expressão de alegria que vemos no rosto dela sempre que estão juntos. Era uma brincadeira leve sobre o facto de ele ter quase 80 anos e ela ser mais nova do que eu. Não era — de todo — um apelo ao assassinato."

Trump para além de inculto e estupido, é um tipo indecente que nem sequer tem uma pontinha que seja de sentido de humor.

Abençoados cidadãos norte-americanos que presentearam o mundo com semelhante aberração!

RETRATOS


«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume des­tes Cadernos. Melhor do que outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter compreen­dido porquê e para quem ando eu a escrever estas sin­ceridades. Ao postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de li­teratos marginais e de escritores malditos que nem che­gam aos calcanhares do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado perma­nece desconhecida fora das fronteiras.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, 2º volume

«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa, talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido  por Luís Pacheco é ser vacinado contra o grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a metro para os prémios e outros afins.

Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito sendo muito feliz.»

João Carlos Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos

«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»

Luiz Pacheco numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005   

OLHAR AS CAPAS


Os Mortos Têm Todos a Mesma Pele

Vernon Sullivan

Tradução e Posfácio: Boris Vian

Capa: António S.

Colecção:  Série Negra

A Regra do Jogo, Lisboa 1982

- Posso levá-la a sair uma destas noites?, perguntou ele enfim, orando

- É muita amabilidade sua, disse ela com um sorriso incerto.

- Não, afirmou ele seriamente. Dá-me um grande prazer.

Ela suspirou.

- É engraçado… Não fazia ideia que os polícias fossem como você.

- Aceito isso como um cumprimento, disse Cooper corando ainda mais. Desculpe tenho de ir. Estou de serviço.

- Telefone, disse ela.

HÍFEN DE CRISTAL


 «Depois de o primeiro-ministro israelita ter pedido desculpas publicamente e garantir que se tratava de um comportamento indigno para um militar de Israel, o soldado que, no Líbano, destruiu uma estátua de Jesus Cristo à marretada e o outro que fotografou o acontecimento, foram condenados a 30 dias de prisão e “excluídos de operações de combate”.

Segundo a  BBC, Benjamin Netanyahu mostrou-se “chocado e triste” pelo incidente, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, pediu desculpas a “todos os cristãos que se sentiram ofendidos”.

Com tantos milhares de crianças mortas em Gaza, no Líbano e no Irão, atingidas pelas bombas e balas de Israel, cujas forças armadas se arrogam o direito de atingir escolas, hospitais, ambulâncias, jornalistas, de matar e matar civis desarmados como se fossem alvos de prática de tiro, “a indignação e a tristeza” de Israel está reservada a uma estátua de Jesus Cristo?

Não é porque ao Governo mais extremista de Israel lhe importe muito os sentimentos dos cristãos – em 2023, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional israelita, dizia que cuspir em cristãos era uma velha tradição judaica. O que importa ao Estado de Israel é não alienar o apoio do seu melhor amigo nas relações internacionais, a superpotência que lhe vende armas e lhe empresta a sua sombrinha política internacional para fazer o que quiser.

Num tempo de falta de memória e de passado reescrito ou esquecido, o Governo de Israel e os judeus que o apoiam estão sempre a cometer o pecado da arrogância de se olvidarem das lições da História. Porque se é longa a tradição judaico-cristã, base da civilização ocidental, como tanto dizem, os judeus esquecem-se que, quando é preciso um bode expiatório, o hífen se quebra como um cristal e os judeus terminam pendurados de uma árvore como Leo Frank, enforcado por uma turba muito americana que o foi buscar à cela.

Mesmo com a II Guerra Mundial e o nazismo, entre 1940 e 1946, várias sondagens mostravam que os judeus eram considerados a maior ameaça para os Estados Unidos, mais do que qualquer outra religião, raça, etnia, nacionalidade

António Rodrigues no Público de 24 de Abril de 2026

O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos    quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos

segunda-feira, 27 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


No Público de hoje pode ler-se que «a Administração Trump assegurou um nível de segurança inferior para o jantar dos correspondentes da Casa Branca ao garantido em outros encontros que contaram com a presença das principais figuras governamentais, apesar de o Presidente e muitos membros do executivo dos Estados Unidos estarem presentes.»

Nestas coisas trumpianas fica sempre a grande dúvida:

Encenação?

 Bluff?

Oportunidade para Trump dizer que nada disto aconteceria, na Casa Branca, se não tivessem interrompido as obras no salão de baile? 

Algo mais?

OLHAR AS CAPAS

Virtudes da Cooperação

J. Dias Agudo

Biblioteca de Cultura Cooperativa

Publicação patrocinada pelo Ateneu Cooperativo e por algumas cooperativas de consumo e produção, Lisboa, Março de 1964.

Não se quer ganhar, quer-se servir; não interessa por conseguinte tirar qualquer lucro para amontoar nos cofres ou para desbaratar irregularmente mais tarde. É uma instituição honesta onde as coisas se fazem com lisura e seriedade.

REOLHARES

V.S.T. & ETC

««1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar, que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que penso todos os dias é que a uma rua de mim vive o Vitor Silva Tavares.

2. Houve uma era, já depois do paleozóico, em que existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).

3. (Ele diria cartinhas, porque nisso é como os mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)

4. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro, tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora, é uma morada: & etc, rua da Emenda, 30, cave 3.

5. Vem tudo isto a propósito do livro “&etc — uma editora no subterrâneo”, iniciativa da livraria Letra Livre, coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca, para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado, como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição de “O Bispo de Beja”. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados: conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para os destruir.

6. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares. Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os títulos têm apenas uma edição, com excepção única para ‘O Bispo de Beja’, obra apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais; a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos ou ofertas aos críticos.”

7. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um homem livre.

 

Alexandra Lucas Coelho, Público, 24 de Novembro de 2013

(Texto publicado, por aqui, em 16 de Outubro de 2015).

LIVROS AUTOGRAFADOS


Este livro de Adalberto Alves foi comprado num alfarrabista.

Dedicatória do livro:

«Ao Senhor Manuel Passarinho oferece o autor, com afecto e agradecimento»

Que terá acontecido para o Dr. Manuel Passarinho ter mandado às malvas o afecto e o agradecimento de Adalberto Alves?

A velha questão:

O livro foi roubado da estante do Dr. Manuel Passarinho?

O livro foi emprestado e não foi devolvido?

Se caso disso, os herdeiros venderam os livros por tuta e meia?

À LUPA

A julgar pelas reacções internas recolhidas pelo Público não há vontade nem contexto para que Pedro Nuno possa reassumir a liderança do PS, o que reduz consideravelmente as suas opções políticas.

Editorial de Pedro Candeias no Público.

EM PRISÕES BAIXAS

Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.

Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece-me questava assi ordenado.

Contentei-me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.

Mas minha estrela, que eu jágora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.

Luís de Camões em Sonetos

domingo, 26 de abril de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS


Na Biblioteca da Casa não existem mais volumes da Colecção Poetas de Hoje, publicada pela Portugália, secção que iniciámos no dia 8 de «Março de 2025 e que concluímos no dia 18 de Abril de 2026.

Mas encontrei, num velho número da revista Ler esta ilustração, da autoria de Luís Miguel Gaspar, de um poema de Ruy Belo que se encontra em O Homem de Palavras:

 

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento

O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e

só entram nos meus versos as coisas de que gosto

O vento das árvores o vento dos cabelos

o vento do inverno o vento do verão

O vento é o melhor veículo que conheço

Só ele traz o perfume das flores só ele traz

a música que jaz à beira-mar em agosto

Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento

O vento actualmente vale oitenta escudos

Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

MÚSICA PELA MANHÃ

Na manhã de domingo, pós os 52 anos do 25 de Abril de 1974, reproduzimos algumas das centenas de cancões que elegem a data como um dia feliz e encimo o texto com a imagem do I Encontro da Canção Portuguesa de 29 de Março de 1974, num Coliseu a deitar fora e em que José Afonso, quando chegou a vez de actuar disse:

«Os habituais impedimentos que surgem nestas ocasiões, que aliás, são muito raras, obrigam-me a ter de cantar uma canção que pelo menos pode ser cantada por todos nós, que é a Grândola 





sábado, 25 de abril de 2026

POSTAIS SEM SELO


Em 29 de Setembro de 2024, ainda lembrando os 50 anos do 25 de Abril, o Público, no suplemento P2, publicou um trabalho de Sérgio B. Gomes, sobre o fotógrafo José Carlos Nascimento. Nesse trabalho reproduzem-se várias fotografias tiradas no dia 25 de Abril de 1974 e uma delas, a primeira desse dia, tirou-a enquanto aguardava a chegada de uma colega sua, que entretanto apareceu em passo de corrida e um grande sorriso, com as traseiras da Igreja da Graça em fundo. Trabalhavam na agência de publicidade Praxis, Cooperativa de Estúdios Técnico, com escritório/estúdio na Villa Sousa edifício onde existiu o Botequim da Natália Correia.

Gosto imenso desta fotografia e o suplemento está guardado nas páginas de recortes da Biblioteca da Casa.

Reproduzo a fotografia do Público e a imagem da exposição que José Carlos Nascimento apresentou em 2024 com 50 fotografias do dia histórico, tiradas desde a Graça, passando pelo quartel da legião na Penha de França, pelas ruas de Lisboa até ao quartel do Carmo.

A moça dirá ainda que foi o dia mais feliz da sua vida, como tantos de nós que viveram este dia, e que são menos porque a lei da vida os tem levado.

A alegria dos que sabem viver a liberdade que festejamos.

A Alegria de Abril.

COMEMORAR A "REVOLUÇÂO MISERÁVEL"


 O 25 de Abril, “essa revolução miserável”

André Ventura


«Cada pessoa na rua hoje vai mais do que comemorar, resistir. Resistir a quê? À manipulação da memória da revolução do 25 de Abril, à cuidadosa transformação da guerra colonial numa designação geográfica, a “guerra da África”, ou na “guerra no Ultramar”, a comparações absurdas entre abusos pontuais e muitos milhares de actos de violência e humilhação dia após dia, ano após ano, que duraram 48 anos. Já para não falar dos massacres, execuções sumárias, “heróis” assassinos que se especializaram em atirar granadas incendiárias contra mulheres e crianças.

Resistir a quê? Ao Chega. As manifestações do 25 de Abril este ano serão contra o Chega, contra o novo ambiente político de crueldade e agressão, e contra o ataque à “revolução miserável” feito por aqueles que gostavam da ditadura e das suas violências, por uma série de motivos, nenhum nobre e que esconderam pela censura, corrupção e prepotências quotidianas.»

José Pacheco Pereira no Público