A Luísa e o Rui Ornelas mandam-nos mais fotografias de Hokkaido no Japão.
CAIS DO OLHAR
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
HABITAÇÃO
Muito antes do chalet
Antes
do prédio
Antes
mesmo da antiga
Casa
bela e grave
Antes
de solares palácios e castelos
No
princípio
A
casa foi sagrada -
Isto
é habitada
Não
só por homens e por vivos
Mas
também pelos mortos e por deuses
Isso
depois foi saqueado
Tudo
foi reordenado e dividido
Caminhamos
no trilho
De
elaboradas percas
Porém
a poesia permanece
Como
se a divisão não tivesse acontecido
Permanece
mesmo muito depois de varrido
O
sussurro de tílias junto à casa de infância
Sophia
de Mello Breyner Andresen em Cem Poemas de Sopohia
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Morrer em Madrid começou por ser um documentário realizado, em 1963, por Frédéric Rossif.
A
Guerra Civil Espanhola começou a 17 de Julho de 1936 e terminou a 1 de Abril de
1939.
Espanha,
1939.
Quinhentos
e três mil e sessenta e um quilómetros quadrados – quase a França.
Dois
milhões de prisioneiros.
Quinhenta
mil casas destruídas, cento e oitenta e três cidades gravemente devastadas.
Em
três anos, um milhão de mortes violentas.
Quinhentos
mil exilados.
Um
exército de seiscentos mil soldados.
Um
partido único: a Falange.
Uma
religião de Estado: a religião católica.
Um
chefe único: o Caudilho.
Os
salários voltaram ao nível de 1936.
Os
grandes proprietários recuperaram as suas terras.
A
igreja reencontra os seus grandes domínios.
OLHAR AS CAPAS
Morrer em Madrid
Madeleine
Chapsal
Tradução
Maria Piedade Ferreira
Capa:
José Cãndido
Livraria
Bertrand, Lisboa, Junho de 1975
Espanha,
1931
503
o61 Km2 – quase a França
Vinte
quatro milhões de pessoas.
Neste
ano de 1931, metade da população – doze milhões – é analfabeta
Há
oito milhões de pobres
Vinte
mil pessoas são donas de metade da Espanha.
Províncias
inteiras são propriedade de um só homem.
Salário
médio dos trabalhadores: de uma a três pesetas por dia.
Um
quilo de pão custa uma peseta.
Vinte
mil frades, trinta e um mil padres, sessenta mil religiosas e cinco mil
conventos.
Quinze mil
oficiais, oitocentos, um general para cada cem soldados.
Um
rei, Afonso XIII, o décimo quarto soberano depois de Isabel, a Católica.
Subitamente
, a 12 de Abril de 1931, os candidatos monárquicos são batidos nas eleções
municipais. O rei Afonso XIII retira-se.
É
a República de surpresa.
O povo descobre que existe, tem direito à palavra, direito aos discursos.
CHAVE UNIVERSAL
uma
partida com o mal que se salda afinal
na
dádiva do embuste. E ao mesmo tempo
um
aspeto assinalável de bazar Tanta vida
reordenando
corpos e passados: mister
rebarbativo
essa arrumação, depois
a
linha é ténue entre ficção e imagem
do
arquivo. Podes podar desgostos,
esgalhar
rentes sentidos, uma pista:
podes
procurar onde foi omitido.
Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto
terça-feira, 13 de outubro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Senhor, dai-me uma santa paciência, para viver comigo mesmo: pois de contrário, como saberei viver com os outros?
José Rodrigues Miguéis
À LUPA
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu à embaixadora norte-americana em Atenas, Kimberly Guilfoyle, que apresente a demissão. A informação foi dada nesta terça-feira pela nova secretária de imprensa da Casa Branca, Katie Zacharia, no seu primeiro briefing. "Pedimos à embaixadora Guilfoyle que se demitisse. Ela foi um maravilhoso activo para a equipa e desejamos-lhe o melhor."
Uma
série de escândalos, revelados pelo Wall Street Journal, levaram a
Casa Branca a um ataque de nervos.
MEUS PARADOXOS PREDILECTOS
Se Deus me der força e saúde, hei-de provar que ele não existe.
Aquele
dono de empresa ferroviária morreu de desgosto quando o filho arranjou emprego
como salva-vidas.
Ele
tinha uma paixão gigantesca por uma mulher pequenina.
Era
u infeliz – sofria de gota e catarata.
Já
tenho idade bastante para não saber muitas coisas.
Ele
só pintava mulheres de corpo escultural.
Quando
o professor acabou sua conferência sobre a estratosfera, todos os
cumprimentaram dizendo que ele tinha falado com muita profundidade,
Suicidou-se
porque não tinha onde cair morto.
Há
duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos.
Em
certos raros momentos temos uma opinião unânime de nós mesmos.
Millôr Fernandes em Pif-Paf
OLHAR AS CAPAS
O
Sono da Morte
Rex
Stout
Tradução:
Mascarenhas Barreto
Capa:
A. Pedro
Colecção
Vampiro nº 458
Não
seria estrictamente verdadeiro dizer que Wolfe e eu não nos falámos, nessa
manhã de Maio, depois do que acontecera na véspera à noite
Ao
chegar a casa (entenda-se por casa o prédio de pedra castanha, na West 33ty Street
que pertence a Wolfe e onde com ele coabitamos, Fritz, Theodore e eu) por volta
das duas da manhã, fiquei surpreendido por Vê-lo ainda a pé, ou melhor, sentado
à secretária, embrenhado na leitura de um livro.
Pelo
olhar com que me prendou percebi que havia qualquer coisa a roê-lo, lá por
dentro, mas atravessei o escritório, direito ao cofre, para assegurar-me que
estava fechado (o que faço todas as noites), fazendo de conta que não queria
interromper-lhe a leitura.
-Onde
tem estado? – inquiriu de chofre.
Virei-me
e arvorei uma expressão reprovativa.
-
Francamente! A que propósito?
-
Devia ter-lhe perguntado, mais precisamente «onde é que não tem estado». Miss
Rowan telefonou cinco vezes, a primeira, pouco depois das oito, e a última, há
meia hora. Se me tivesse ido deitar, não teria conseguido dormir. Como sabe,
Fritz esteve esta tarde de folga.
-
E ainda não veio?
- Veio mas como tem de levantar-se cedo para preparar o pequeno-almoço, não o quero amanhã mal disposto.
TRUMPALHADAS
«Enquanto alivia as sanções à Rússia, os EUA agravaram as retaliações ao Tribunal Penal Internacional, que condenou Ratko Mladić à prisão perpétua e cuja morte Dodik celebrou como a de um autêntico herói, horas a seguir à nomeação da ex-juíza sul-africana Navi Pillay como vencedora do Prémio Nobel da Paz. Pillay liderou a comissão da ONU que investigou o massacre de 7 de Outubro e denunciou o genocídio em Gaza.
A política externa de Trump assenta na marginalização das instituições
multilaterais (como a ONU ou a NATO) e na sua substituição por relações
bilaterais. Ao atacar a principal instituição de justiça global, os EUA atacam
as vítimas de crimes de guerra e os países que a criaram.
O homem que queria ganhar o Nobel da Paz está em guerra com a justiça
internacional e em defesa dos acusados de crimes de guerra que trata como
aliados favoritos: Putin e Netanyahu.»
ALFAMA
Tens a certeza de que é tudo para continuar
exactamente
assim? A laranjeira quase seca
no
meio daquele pátio, a escada que leva
a
um terraço onde já ninguém quer ir?
Há
sítios demasiado velhos para serem
visitados
por quem nunca os viu intensos
Não,
não foi a pensar em gente como nós
que
toda esta calçada envelheceu. As esquinas,
como
sempre, são perguntas sem resposta. E as placas
toponímicas
incapazes de fingir que nos conhecem.
Não
há – já reparaste? – uma só porta
Que
se abra se a olharmos fixamente.
Vítor
Nogueira em Os Cem Melhores Poemas
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Bem,
estas contas ainda sei fazer, é fácil, foi o senhor doutor quem me ensinou.
«Governar a acas ou governar o país é a mesma coisa. É precisoi é equilibrar as
receitas com as despesas.»
Maria do Céu Ricardo, fala da peça Salazar, Deus, Pátria, Maria.
O QUE A CENSURA CORTOU
Maria
do Céu Ricardo escreveu a peça Salazar, Deus,
Pátria, Maria, tendo por personagem única D. Maria, e por cenário a cozinha
de S.Bento em dias de Estafo Novo.
Fernando
DaCosta, no final do livro, faz uma apreciação sobre a governanta de Salazar:
«Era
uma mulher – convivi com ela – esperta, irónica, atenta, dura, auto-controlada,
íntegra, fidelíssima. A encenação que montou à volta de Salazar (moribundo) foi
cenicamente espantosa, politicamente audaz, socialmente desafiadora, espantosa,
politicamente audaz, socialmente
desafiadora, psicologicamente demencial. Com vontade de ferro, impôs ao regime,
à Pide, à comunicação Social, ao mundo, a espantosa ficção de um chefe de
governo a dirigir semicomatosos, a governação do País.
Ela,
foi, por cero, a máscara mais perturbadora de Salazar.»
SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS
Josefa, avó de José Saramago, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada, para o céu de que nada sabia e por onde nunca viajaria, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disse, com a serenidade dos seus noventa anos e o fogo duma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo e disto se sabe por que Saramago estava lá nessa noite estrelada e imensa e, com ternura, deixou testemunho nas suas Pequenas Memórias.
NOTÍCIAS DO CIRCO
Sustos atrás de sustos.
Pedro
Passos Coelho apareceu na SIC numa entrevista a Maria João Avillez, mas quem,
senão esta senhora, se lembraria do dito ex-presidente que afirma não ser candidato
a nada mas vai adiantando o elogio ao presidente da «tal coisa» e se Montenegro
falhar, ele avança, pois então…
Se isto não são sustos, atrás de sustos, o que lhe poderemos chamar?...
RÉPLICA AO EPIGRAMA DE SCHILLER «DIGNIDADE DO HOMEM»
O EPIGRAMA
Não me falem mais disso, por favor!
Dai-lhe
de comer, dai-lhe onde morar, dai-lhe de vestir
-
e a dignidade, essa, virá por si.
A RÉPLICA
Deram-lhe
de comer
(As
grandes telas fauves das charcuteries
Deram-lhe
onde morar
(E
não só onde morar: televisões e frigoríficos…)
Deram-lhe
de vestir
(Os
nylons, as peliças, a indiferença…)
E
a dignidade, essa
Continua
habitando
Os
que lutam por ela.
José
Fernandes Fafe em Poesia Amável
domingo, 11 de outubro de 2026
MÚSICA PELA MANHÃ
A Biblioteca da Casa tem dois discos dos Agua Viva: Cada Vez Más Cerca e Apocalipsis. Sammy quase garante que existia, pelo menos, mais um do conjunto espanhol, mas aconteceu-lhe qualquer coisa… Dos dois discos da casa, recolho canções para esta manhã, cinzenta, de domingo.
Colaboração de Aida Santos.
DITOS & REDITOS
Quem trabalha merece o melhor.
Permitem-lhe supor que tinha razão.
… como todas as afirmações de paixão,
não é exacto.
Espera pela deixa.
Se não gostarmos de nós próprios, quem é
que vai gostar.
Caçador furtivo não guarda troféus.
Estúpido e feliz são palavras quase
sempre sinónimas.
O amor é uma longa paciência.
sábado, 10 de outubro de 2026
TRUMPALHADAS
A Pena de Morte não devia ser possível em qualquer país do Mundo.
Em
1 de Julho de 1867, foi promulgada, no reinado de D.Luís, a carta de lei que
abolia a pena de morte em Portugal, o que levaria o escritor Victor Hugo a escrever
à Academia das Ciências de Lisboa, em 15 de Julho de 1867:
«Realizar
este progresso é dar um grande passo na civilização.Desde hoje, Portugal está à
cabeça da Europa.»
Nos
Estados Unidos, em alguns estados, não só é permitida a pena de morte, como
a é promovida a espectáculo de circo.
«E Trump é o padrão para toda a direita radical na Europa — sabemos bem quem andou a mexer os cordelinhos para estar lá atrás na assistência da tomada de posse de Trump —, e tem o beneplácito dos ditadores como Putin, vários pequenos e obscuros ditadores asiáticos que colocou no Board of Peace, Kim Jong-un e Netanyahu. Não incluo o ditador chinês Xi Jinping porque desse ele tem medo e inveja.
Escrevo este artigo quando Trump permitiu a execução por fuzilamento de um criminoso militar. É verdade que a pena de morte é comum nos EUA, em particular nos estados republicanos, mas, depois de um ligeiro declínio, está outra vez na moda. As cenas de crueldade com a execução falhada de uma mulher já nos tinham mostrado como a violência está inscrita na sociedade americana, antes de Trump, mas agora transformada num espectáculo nestes dias de “demónios”.
Mas a decisão de transmitir em directo o fuzilamento do militar é talvez o melhor exemplo desta banalização do mal, da transformação da morte num espectáculo para educação das massas. E o mais grave é que não tenho dúvidas sobre as audiências no dia do fuzilamento, 3 de Dezembro.
Pode ser que haja recuo, porque o único motivo para Trump é o medo eleitoral na sua base de apoio, mas o mal já está feito, a intenção de Hegseth, o gnomo da guerra de Trump, foi expressa num tom quase jocoso, e cruel. Não esqueçamos que o major criminoso tem um nome árabe e presume-se que era muçulmano, o que é hoje uma garantia da majoração da pena para educação das massas MAGA dominadas hoje pelos anjos do mal, ou seja, pelos demónios.»
MÚSICA PELA MANHÃ
Jorge
Palma, num Postal Sem Selo, já noas avisara:
Que o 25 de Abril não se torne uma
memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe.
O presidente António José Seguro, em discurso recente, lembrou:
No
dia 16 de Outubro de 1982 Adriano Correia de Oliveira deixava o nosso convívio,
era Outubro em Avintes e chovia.
A
saudade é um luto, a memória um tempo que passa e sempre alguém que diz não.
A imagem é a capa de um DVD, em que
Viriato Teles recorda um tele filme que passou na RTP no ano de 2015.
Hoje, lembramos Adriano Correia de
Oliveira.
Para que NUNCA MAIS!, que é o título de
um dos seus álbuns, em que canta Manuel da Fonseca.
À LUPA
Navi Pillay, jurista que denunciou genocídio em Gaza, digo que o que está a acontecer lá é genocídio, é o Prémio Nobel da Paz de 2026. A notícia foi recebida por Navi Pillay em Nuremberga, onde foi aplaudida efusivamente pelos presentes, segundo um vídeo publicado pela secretária-geral da Amnistia Internacional, Agnès Callamard, no X. “Muito obrigada. Se continuarem a aplaudir, sou capaz de partilhar este prémio com Donald Trump, ironizou a jurista, numa referência a María Corina Machado, distinguida no ano passado e que tentou oferecer o prémio ao Presidente norte-americano.
sexta-feira, 9 de outubro de 2026
À LUPA
Chama-se Elogio das cabeças ocas a crónica de Ana Cristina Leonardo, hoje, no Público.
Fica este pedacinho:
«E sobre os caminhos do pensamento, ocorreu-me agora uma historieta zen em que um discípulo pergunta ao mestre: “Mestre, explica-me o que é o Nirvana”. E o mestre: “Já almoçaste?” Ao que o discípulo responde: “Sim.” E o mestre, virando-lhe as costas: “Então, vai lavar a louça.”».


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