Não sei, não
sei mesmo, se o Nuno Júdice é o autor de uma obra poética decisiva que marca a
poesia portuguesa.
Sei apenas
que gosto muito da sua poesia.
Sentindo o
fim aproximar-se, Nuno Júdice deixou três pastas com poemas, a sua mulher
Manuela Júdice e o amigo Ricardo Marques, seleccionam os poemas para o livro em
que Nuno trabalhara e a que foi dado o título, escolhido pelo autor em conversa
com Ricardo: Primeiro Poema.
«Quando acabo
um poema não sei muito bem o que escrevi», disse numa entrevista
Houve uma
altura da vida do Diário de Lisboa-Juvenil que deu a louca ao Mário
Castrim. Foi quando em estado de pura e avassaladora paixão pela Alice, decidiu que tinha
de deixar a Natália, sua mulher de longos e duros anos. Difícil e dramática
decisão. O Mário Castrim até tinha uma capacidade de trabalho alucinante,
acima, muito acima, de qualquer média, mas aquilo era demais e a cabeça não
dava para tudo: diariamente crítica de televisão no Diário de Lisboa,
colaboração diversificada e dispersa por jornais e revistas, colaboração no
Rádio Clube Português com histórias para crianças e o Juvenil. Quanto a
este terá então pensado que teria de deixar, por uns instantes, a selecção dos
textos e poesias a mim e ao Armindo, gente de confiança, como ele dizia. Assim
foi.
Mário Castrim
fazia a grande triagem e passava o resto da papelada para mim e para o Armindo
e, cada um fazia a leitura e selecção da colaboração. Trocávamos impressões e
seguia-se a reunião com o Mário Castrim, para o Juvenil da semana
seguinte, normalmente no Diário de Lisboa ou na Orion, café e
pastelaria com “fabrico próprio” que, para meu grande espanto, não se tornou
banco ou loja de trapos, ainda existe no cimo da calçada do Combro, esquina
para a rua que vai dar a Santa Catarina, uma das mais belas vistas de Lisboa
Por vezes, Castrim,
punha lápis vermelho nas nossas escolhas. O Armindo ficava à beira de um ataque
de nervos, eu nem por isso porque entendia que o Mário era o responsável-mor do
suplemento. Foi nessas andanças que nos surgiram os poemas do Nuno Júdice e
neles já estava quase tudo do que viria a ser um dos poetas marcantes da poesia
portuguesa, assim como o Jorge Valdano disse, que um verdadeiro camisa 10 se nota logo,
mesmo que venha mascarado de bailarina sevilhana.
Lembro-me do
olhar deliciado do Armindo a ler os poemas do Nuno Júdice, nas mesas da
Brasileira, chávena de café suspensa na
mão.
O Armindo deu
o “salto” para fugir à guerra colonial, mandou-me um primeiro postal de
Grenoble, mas nunca mais, para meu grande lamento, tive notícias do seu exílio.
Continuo a
lamentar que a Fundação José Saramago ainda não tenha deitado mãos à tarefa de
reunir as cartas que José Saramago trocou com os seus pares e com os seus
leitores, apesar das muitas observações que Saramago foi deixando ao longo da
vida que é um trabalho importantíssimo.
Apenas existe
um volume com a Correspondênciatrocada com José Rodrigues Miguéis, organização
e notas de José Albino Pereira, publicado pela Editorial Caminho, em Abril de
2010.
É desse livro
que respigamos uma carta de José Rodrigues Miguéis, datada de Nova Iorque no
dia 21 de Maio de 1971:
«Querido Saramago:
Chegou-me há semanas o seu livro de
crónicas, que venho agradecer-lhe com algum atraso, porque tencionava, e não me
tem sido possível, fazê-lo com mais largas considerações. Pelo que lhe escrevi
há tempos, quando me deu a ler algumas delas, já Você sabe o que delas penso. A
leitura do volume só me conformou nessa opinião. Não creio que nenhum outro
cronista nosso escreva hoje de maneira tão toante, directa e moderna – e tão
bem! – sobre os pequenos e grandes quotidianos da nossa vida: humanidade,
ironia, e um pessimismo sorridente, isento de amargura. Algumas são pungentes,
como a Neve Preta, outras de um sereno humor que contrasta com o tom geral da
nossa literatura e jornalismo. Embora reunidas em volume, se acentue o efémero
das crónicas de jornal, estas guardam a flagrância dos apontamentos de um
pintor-poeta que percorre a paisagem do dia a dia e do lugar, ou a outra, mais
funda, das memórias.»
«O Departamento de Justiça dos Estados Unidos fez uma segunda cedência de
monta ao Presidente Donald Trump no âmbito de um acordo extrajudicial para
encerrar um processo do republicano contra a autoridade tributária (o IRS, na
sigla inglesa). Para além de constituir um polémico fundo de 1,8 mil milhões de
dólares para indemnizar aliados de Trump que tenham sido alvo de alegada
perseguição política, o departamento concede agora imunidade ao Presidente, aos
seus familiares e às suas empresas face a várias investigações fiscais em
curso.
Esta segunda cedência surge num documento de uma página, assinado pelo
procurador-geral dos EUA, Todd Blanche (líder, por inerência, do Departamento
de Justiça), que foi adicionado na terça-feira ao acordo extrajudicial
anunciado na véspera.
“Os Estados Unidos libertam, exoneram, isentam e desvinculam para sempre cada
um dos autores [Trump, familiares e empresas], e ficam pelo presente para
sempre impedidos e inibidos de demandar ou intentar toda e qualquer reclamação,
reconvenção, causa de pedir, recurso ou pedido de qualquer reparação, incluindo
tutela inibitória, compensação financeira, indemnizações, exames ou avaliações
semelhantes ou relacionadas, recursos, perdão de dívida, custas, honorários de
advogados, despesas e/ou juros, sejam actualmente conhecidos ou desconhecidos,
que – à data de entrada em vigor do acordo – tenham sido ou pudessem ter sido
invocados pelos réus [o IRS] contra qualquer um dos autores ou indivíduos
relacionados ou afiliados (incluindo, sem limitação, familiares ou outros que
apresentem declarações conjuntas), ou partes, incluindo fundos fiduciários (trusts),
empresas-mãe, associadas ou relacionadas, afiliadas e subsidiárias”, lê-se na
declaração assinada por Blanche.»
«Um trabalhador portuário atraca o navio
de carga asiático Katra após a sua chegada à baía de Havana, em Cuba. O navio
mercante atracou transportando ajuda humanitária proveniente do México e do
Uruguai destinada aos cubanos que enfrentam cortes de energia e uma grave crise
económica imposta pelos EUA através do criminoso bloqueio. 18 de Maio de 2026».
«No Piolho, um guia «explica» a quatro
turistas a origem do nome do café: «Durante a ditadura de Salazar, este local
era frequentado por muitos estudantes oposicionistas. A polícia política sabia
disso e aparecia de vez em quando. Para não serem apanhados desprevenidos, os
estudantes criaram um sinal de alerta: quando um agente entrava no café,
começavam a coçar a cabeça como se tivesse piolhos. Daí o nome.»
O Presidente
da República convidou esta terça-feira o Papa Leão XIV a visitar Portugal já no
próximo ano para assinalar "os 500 anos da formalização da Nunciatura
apostólica em Portugal" e os "110.º aniversário das aparições
marianas em Fátima".
3.
A Corticeira
Amorim cortou mais 212 postos de trabalho em 2025, ano em que arrecadou 55,6
milhões de euros de lucro.
4.
Já está no
Parlamento a proposta do Governo com meia centena de alterações e alguns
recuos, face à posição inicial. Ainda assim, o documento tem por base o
anteprojeto aprovado há quase um ano.
5.
A presidente da Comissão Europeia considerou esta
terça-feira que a União Europeia (UE) "continuará vulnerável"
enquanto depender de petróleo e gás importados, dada a crise energética causada
pela guerra no Médio Oriente, apelando à eletrificação do continente.
A ministra do
Trabalho diz que o Presidente da República “deu respaldo à UGT” para não
celebrar o acordo relativo à reforma da lei laboral, em sede de concertação
social. Em entrevista no podcast “Política com Assinatura”, da Antena 1,
Maria do Rosário Palma Ramalho garante que não responsabiliza António José
Seguro, mas entende que ele “empoderou a UGT no sentido que tornou dispensável
chegar a acordo”, ainda que quisesse “exatamente o contrário”, ou seja, sentar
os parceiros à mesa para negociar.
No quase
final de uma reforma laboral pessimamente conduzida desde o 1º minuto, e o que nasce
torto, tarde ou nunca se endireita, a Ministra pretende atingir o Presidente da
República.
Velha de
Ródão é uma vila portuguesa raiana no Distrito de
Castelo Branco, região estatística do Centro e sub-região da Beira
Baixa, parte da província tradicional com o mesmo nome.
É sede
do município homónimo com 329,91 km² de área e
3.515 habitantes (2023), subdividido em 4 freguesias. O
município é limitado a norte e leste pelo município de Castelo Branco, a
sueste pela Espanha, a sul por Nisa e a oeste por Mação e Proença-a-Nova.
As Portas
de Ródão constituem um monumento natural emblemático de Vila Velha de
Ródão, de que usufrui em parceria com o Município de Nisa.
Ned Beaumont foi para casa. Bebeu café,
fumou, leu um jornal, uma revista, metade de um livro. De vez em quando parava
de ler e punha-se a passear, enervado, pela casa. A campainha da porta não
tocou. O telefone não tocou
Às oito da manhã tomou banho, fez a
barba e vestiu-se de lavado. Depois mandou vir o pequeno almoço e comeu-o.
Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.
Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim.
E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.
Donald Trump mandou
suspender novo ataque ao Irão que estava marcado para amanhã, em resposta a um
pedido dos líderes dos países do Golfo. Trump afirmou que estão em curso “negociações
sérias» e acredita-se que 2será alcançado um acordo”.
Contudo Trump acrescentou que a Administração
norte-americana está pronta para um “ataque em grande escala contra o Irão, a
qualquer momento, caso não se chegue a um acordo aceitável”.
As
xávegas, ou a arte da Barca, fizeram a fortuna de Monte Gordo na segunda metade
do século XVIII, havia então mais de 3 mil homens diretamente envolvidos na
pesca com xávegas, e foram responsáveis pelo aumento populacional do aglomerado
ao longo do século XIX. O seu declínio, no entanto, começaria ainda nas décadas
de 1880 e 1890, com a concorrência de artes mais modernas e produtivas, como os
cercos americanos e os galeões a vapor e, mais tarde, as traineiras. Ainda que
se tivessem mantido ao longo do tempo, e em determinados períodos com algum
significado, na década de 1960 já só ocasionalmente faziam os seus lanços.” E,
mais adiante: “A partir de finais da década de 1960, com o turismo a valorizar
o pescado, com a motorização e a mecanização das embarcações a possibilitarem
um maior raio de ação, maior regularidade das saídas e companhas menos
numerosas, os marítimos de Monte Gordo regressam aos tresmalhos.
É
ver a devoção com que, uma vez por ano, todos os anos, fazendo o próprio rol
dos homens a quem é concedida a honra maior de levar o andor, seguem em
procissão, todos marítimos, tudo gente do mar, o mais velho ao comando, com a
vara das ordens, metálica, a orientar as pausas, os recomeços, o baixar, o
erguer de novo, o virar ao mar, aos barcos de buzinas ruidosas, enfeitados com
bandeirinhas e papéis crepe, é ver a devoção e o dramatismo triunfal com que se
aproximam de novo da Igreja, no regresso, mais de vinte homens com as suas
varas de apoio, a passada ensaiada ao ritmo da filarmónica, os movimentos em
forma de pendulo a fazerem oscilar o andor, a Santa virada de costas para a
entrada do templo, o adro cheio dos fiéis, dos peregrinos, e então a bênção, um
lençol de lágrimas, três vivas à Senhora das Dores.
Agradeço-lhe
muito os seus artigos no Jornal
do Comércio, e creia V. Exª que o não
faço só por civilidade, ainda que não é coisa que se deva desdenhar par le
temps qui court. Não lhe direi que me
agradaram os seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-ei que me comoveram.
Há neles uma sinceridade que me encantou, e um tom fraternal que me foi direito
ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração dessas palavras amigas.
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor, entra
no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça…
É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
João Abel
Manta, artista plástico, arquitecto, cartoonista morreu aos 98 anos e
deixou-nos em cartazes os contornos da Liberdade.
SOLTAS DESTE SÁBADO
1.
Contratações
acima dos 50 anos são raras nas grandes empresas. O mercado fecha as portas aos
trabalhadores seniores e menos de 5% dos contratados têm mais de 50 anos.
2.
O CDS está em
congresso. Ter-se agarrado à AD foi uma débil possibilidade de sobrevivência.
3.
Na
Grã-Bretanha o rei disse ao povo que «um mundo cada vez mais perigoso e volátil
ameaça o Reino Unido».
A propósito,
lembra-se a frase de Rimbaud que Patti
Smith colocou, como epígrafe, em «O Ano do Macaco»
«Abate-se sobre o mundo uma loucura fatal.»
4.
Por causa da
guerra Estados Unidos/Irão a crise mundial aumenta. Por aqui, a crise dos fertilizantes
agrava os custos na agricultura e pressiona o preço do cabaz alimentar. Segundo
a DECO aumentou 7,68% entre 14 de Janeiro e 13 de Maio.
5.
O Escrito na
Pedra do Público de hoje apresenta uma frase de S. Chamfort, poeta, jornalista,
humorista e moralista francês:
«A sociedade
é composta por duas grandes classes: aqueles que têm mais jantares que apetite
e os que têm mais apetite que jantares».
Um dos
patrões da Aida dizia-lhe que só há duas vidas: uma é boa, a outra não presta.
6.
Dados da
APAV, que presta apoio às vítimas, revelam que agressões de pais a filhos
aumentaram 40% e a maioria das vítimas são mulheres com 65 anos ou mais anos.
«Luís
Montenegro não consegue falar sem sorrir, pelo que de certeza nem ele acredita
no que diz, que o país está muito bem, que o mundo nos admira e elogia e que
este Governo vai ficar na história».
Pé
ante pé, estamos a chegar aos Santos Populares.
Tempo
de festa, tempo de fogueiras, tempo de cheiros: bailaricos, sardinhas assadas, iscas, bifanas,
manjericos, caldo verde, sangrias, cheiro e mais cheiros.
Lisboa já tem Sol mas cheira a Lua
Quando nasce a madrugada sorrateira
E o primeiro elétrico da rua
Faz coro com as chinelas da Ribeira
Se chove cheira a terra prometida
Procissões têm o cheiro a rosmaninho
Nas tascas da viela mais escondidas
Cheira a iscas com elas e a vinho
Um cravo numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa
Uma rosa a florir na tapada
Cheira bem, cheira a Lisboa
A fragata que se ergue na proa
A varina que teima em passar
Cheiram bem porque são de Lisboa
Lisboa tem cheiros de flores e de mar
Lisboa cheira aos cafés do Rossio
E o fado cheira sempre a solidão
Cheira a castanha assada se está frio
Cheira a fruta madura quando é verão
Nos lábios tem um cheiro de um sorriso
Manjerico tem cheiro de cantigas
E os rapazes perdem o juízo
Quando lhes dá o cheiro a raparigas
Um cravo numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa
Uma rosa a florir na tapada
Cheira bem, cheira a Lisboa
A fragata que se ergue na proa
A varina que teima em passar
Cheiram bem porque são de Lisboa
Lisboa tem cheiros de flores e de mar
Comprei ontem o primeiro manjerico no Pingo Doce.
Custou-me 1,29 euros, vaso de plástico,
folha grossa.
Há uns anos, também no Pingo Doce, o
majerico custou-me 0,95 euros.
Mas a guerra faz aumentar tudo, tudo, tudo.
Em outros tempos, o Largo de Camões, o
Martim Moniz, o Rossio, enchiam-se de pequenas barracas com montanhas de
manjericos em prateleiras. Pediam um preço, o freguês virava costas e elas
marchavam atrás e em cada passo desciam o preço.
Hoje, os manjericos vendem-se no Pingo Doce,
não sei se em mais alguma grande superfície. Também os encontramos nas
floristas, mas pedem em balúrdio.
Cheguei a comprar sementes de manjerico, mas
não deram em nada.
Dum velho Fugas do Público, deixo-vos
cuidados a ter com os manjericos.