quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A TRETA MICHELIN


«Por regra, a essência do gosto da saudade está nas comidas de casa e da família. São as memórias dessas comidas que carregamos toda a vida e que vamos tentando passar às gerações seguintes.

Um conjunto de restaurantes pode colocar um país no mapa turístico. Porém não faz uma cozinha. Que receitas já saíram do espaço Michelin para o dia-a-dia dos povos? O melhor é darmos à cultura Michelin a importância merecida e que não é tanta como a que os chefes, críticos, influenciadores e políticos lhe atribuem»

Pedro Garcias de uma crónica no Público.

À LUPA


 

É opinião unânime: o governo de Luís Montenegro chumbou em toda a linha na cobertura de defesa e apoio às depressões que assaltaram Portugal desde 22 de Janeiro e ainda persistem.

Soube-se que o comandante nacional da Protecção Civil foi autorizado a sair para Bruxelas para uma formação.

Esteve fora do país durante os primeiros dias das depressões.

Fez falta? Não fez falta?

As opiniões dividem-se.

Justificou-se que se estivesse no país nada mudava nos trabalhos desenvolvidos.

Dona Alfredina, minha porteira, perguntou:

- Se não fez falta, porque está na Protecção Civil?

PALAVRA

Essa palavra dada com mãos puras

essa oferta de pombas já sem asas

essa que é fonte só de águas futuras

ou esse mar de apenas marés vasas

 

e esse olhar sem olhos nem distância

essa abraçar com braços que não vejo

e o riso que emurchece a minha infância

a chama que emudece no lampejo

 

a voz da escuridão que me cria

tremendo de morrer no abandono

a que se entrega a noite à luz do dia

como ao calor mortal da mão do dono

 

Alexandre Pinheiro Torres em A Terra do Meu Pai

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Três paixões, simples mas infinitamente poderosas, têm governado a minha vida: o desejo do amor, a busca do conhecimento, e uma compaixão esmagadora pelos sofrimentos da humanidade. …

Bertrand Russell

Legenda: fotografia de Júlio Amorim

AS TRAGÈDIAS QUE NOS ATINGEM


Abertura a cargo do escritor Gonçalo M. Tavares:

«Nas grandes tragédias o grande problema é sempre a solidão.»

1.

Tudo o que se vai passando com as depressões climáticas acentuam a incompetência do governo de Luís Montenegro.

Não adianta muito a substituição de alguns ministros porque todo o problema está em quem chefia o governo.

Cansados estamos daquela figura quase sinistra de sorriso cínico.

Que saída?

2.

Alguém, enfrentando as cheias em Alcácer do Sal, desabafa na reportagem do Diário de Notícias:

“Nós temos cheias, mas aqueles desgraçados de Leiria nem telhado têm para dormir”

A Avenida dos Aviadores, na baixa de Alcácer do Sal, voltou a ficar inundada, o que obrigou ao corte do trânsito na zona. A chuva continua e há estradas alagadas por este concelho no distrito de Setúbal.

3.

«Depois da destruição causada pela depressão Kristin, Portugal volta a enfrentar mau tempo com a chegada da Leonardo. Com os terrenos já encharcados, a nova sequência de chuva, vento e agitação marítima aumenta a probabilidade de cheias e inundações, sobretudo nas cidades impermeabilizadas: “Parte das nossas cidades está construída sobre leitos de cheia, que naturalmente inundam”», diz ao Diário de Notícias o especialista João Joanaz de Melo.

4.

Centro e Oeste e Vale do Tejo representam 20% da economia. Impacto devastador da Kristin e do clima adverso, que continua sem dar tréguas, vão custar, pelo menos, 2,5 mil milhões de euros. Economia ia crescer cerca de 2,3%, mas deve baixar para 1,3% ou menos.

5.

«Em vez de «aqueles que não evitaram a trágica consequência de perder a vida», o Primeiro-Ministro devia ter dito: «aqueles que falharam em evitar a morte». Assim, percebia-se melhor por que é que devemos estar sempre do lado dos falhados e contra discursos cínicos.»

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

6.

«A ministra da Administração Interna é a metáfora mais exposta, fácil e óbvia de um Governo barata tonta, que anda aos círculos neste comboio de tempestades, sem saber o que fazer e para onde vai. É quase compreensível que uma jurista qualificada, de gabinete, opte pela “reflexão” em vez da ação junto da Proteção Civil. E que diga que não saiba o que falhou, ou, ainda, opte pela misericordiosa tese da “aprendizagem coletiva”. Já todos percebemos que Lúcia Amaral é uma carta fora deste baralho. Muito mais perturbador é ver a propaganda ignóbil de Leitão Amaro, na pele de maestro da comunicação governamental, projetando uma realidade alternativa, como dizem noutros lados, quando toda a gente está a ver uma tragédia. Ou a palhaçada ofensiva de Nuno Melo, que leva os soldados para fingir que estão todos no terreno. Muito mau mesmo, também, é constatar que ainda pagamos, com mortes, a trágica decisão, tomada nos Governos de Barroso e Santana Lopes, corrigida, em parte, por António Costa, no Governo de Sócrates, de entregar o SIRESP, com um cheque de 500 milhões de euros, a um consórcio servido por alguns facilitadores desse velho mundo laranja, que vinha do cavaquismo. Essas velhas lógicas clientelares matam. E essa é a “aprendizagem coletiva” sobre como não fazer que ainda está por ser lecionada.» 

Eduardo Dâmaso no Correio da Manhã

7.

"O Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian exprime a sua solidariedade com todas as pessoas afectadas pela tempestade que assolou o país. O Conselho criou um Fundo de Apoio Extraordinário, no valor de cinco milhões de euros, de apoio a essas pessoas. Este apoio de emergência e pós-emergência será articulado com a Estrutura de Missão para a Reconstrução da região Centro do País e com as entidades locais das áreas envolvidas", pode ler-se no comunicado.

8. 

A EDP anunciou um apoio de “mais de 800 mil euros” às comunidades afectadas pela tempestade Kristin, com a suspensão temporária da facturação e apoio a clientes com centrais solares danificadas.

“No total, a EDP vai assumir um custo de mais de 800 mil euros de forma a poder apoiar os seus clientes nas regiões afectadas pelo mau tempo”, anunciou a empresa em comunicado.

Na nota, a eléctrica dá também conta que “suspendeu o envio de facturação aos seus cerca de 700 mil clientes com casas ou empresas nas zonas mais afectadas pela tempestade que atingiu o país”.

“Serão ainda disponibilizados acordos de pagamento ajustados à situação de cada cliente, sem juros”, prossegue a nota.

9.

«Depois de ter apontado baterias aos problemas de comunicação do Governo com as populações, o Presidente da República atirou também responsabilidades para as operadoras de telecomunicações.

 “As comunicações portaram-se mal, portaram-se mal”, declarou Marcelo Rebelo de Sousa numa visita pelas regiões afectadas pela tempestade Kristin, nesta quarta-feira. “A Vodafone aguentou um bocadinho mais, mas depois ficou tudo sem comunicações”, identificou o Chefe de Estado, em declarações transmitidas pela SIC Notícias.

As operadoras estão no terreno a tentar recuperar serviços, havendo ainda populações que não têm acesso, não só porque não há energia, mas também porque há infra-estruturas de comunicações que ficaram danificadas. Mas há um factor de culpa das empresas, segundo o Presidente da República.»

Diogo Cavaleiro no Público de hoje.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

Legenda: pormenor da capa do Correio da Manhã de hoje

À LUPA


Segundo as autoridades, existem cerca de 3000 militares disponíveis para prestarem apoio às populações vítimas da depressão Kristin.

O pedido para a requisição dos militares tem de ser feito pelo presidente da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil, mas esqueceu-se de fazer o pedido de ajuda, ou entendeu que não seria necessário.

Das 11 vítimas mortais da tempestade Kristin, 6 dessas vítimas foram homens que caíram enquanto procediam à tentativa de salvar casas e armazéns, ou repunham telhas nas coberturas que voaram com os ventos porque o desespero é muito e não há operários suficientes para as encomendas, pelo que a presença dos militares talvez evitassem estas mortes. 


CANÇÃO A MEIA VOZ

A minha vida é sempre ontem

E o meu desejo, amanhã.

Hoje é uma coisa parada.

Nada sei nem faço nada.

Certeza é palavra vã.

 

Não sou. Ou fui ou serei.

Se ao menos tivesse fé!

Corro atrás duma quimera.

Ou então fico-me à espera,

Porém à espera de quê?

 

Porque abri as minhas mãos

E deixei fugir o instante

Que havia nelas ainda?

Agora o nada não finda

E o tudo é sempre distante!

 

Virás tu ao meu encontro,

Ou sou eu que devo achar-te?

Quem pudera descansar!

Ver, ouvir e não pensar!

Ser aqui e em toda a parte!

 

Chego tarde ou muito cedo.

Ou paro aquém ou além.

Houvesse algo para mim

Sem ter principio nem fim,

Sem ser o mal nem o bem!

 

Cabral do Nascimento 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM

1.

Como o governo de Luís Montenegro tem o tique de a tudo chegar com atraso, foi anunciado hoje que o governo vai isentar de portagens durante uma semana nas zonas afetadas pela depressão Kristin, no perímetro que abrangerá trechos da A8, A17, A14 e A19.

A isenção começará à meia-noite e vai estender-se até terça-feira, dia 10 de fevereiro, às 24 horas.

“Esta decisão foi tomada por forma a poder apoiar a deslocação de materiais e de voluntários para estas regiões do país, em estrita articulação com as concessionárias e subconcessionárias", diz o comunicado.

O presidente executivo da Brisa, António Pires de Lima, revelou que a concessionária irá comparticipar em 30% o custo de isenção de portagens em zonas afetadas pelo mau tempo e o governo comparticipará com 70%

Bem-vinda solidariedade capitalista!!!...

2.

O governo está debaixo de fogo pela forma como tem gerido a crise causada pelas depressões que atingiram o país.

Tivemos o ministro da presidência António Amaro da Costa a mandar editar um vídeo em que aparecia em mangas de camisa, em trabalho árduo, ao ponto de o vermos a roer as unhas.

Tivemos o ministro Nuno Melo com a tropa atrás para fotografias e um vídeo para que o povo ficasse a saber da ajuda que os militares prestam às populações das zonas destruídas pelas tempestades.  

Para além dos atrasos vários do governo há populações que continuam sem luz, água e comunicações.

Luís Montenegro assegurou que o Governo está concentrado em "resolver problemas e não em responder a críticas", admitindo que é difícil resolver "os problemas todos e ao mesmo tempo".

Para que os disparates ministeriais continuassem, o ministro da Economia e Coesão territorial, Manuel Castro Almeida, em entrevista à SIC, face ao facto de os atrasos que os apoios do governo às populações só se concretizarem no final de Fevereiro, sugeriu que as pessoas utilizem o “ordenado do mês passado” para a recuperação dos prejuízos.

Já tivemos a aprendizagem colectiva da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, não saber o que falhou no atraso às populações, e ojustificar a sua ausência no terreno com o ter tem estado a trabalhar "em contexto de invisibilidade, no gabinete".

Este governo é uma verdadeira nódoa e, como dizia o Eça de Queiroz, nódoas destas só saem com benzina!

3.

Montenegro desvia-se das críticas que são feitas à actuação do governo, dos disparates dos ministros:

“Estamos concentrados em resolver problemas e E sabemos que há muita dificuldade em resolver os problemas todos e ao mesmo tempo.”

Já sobre críticas à actuacção, em particular, da ministra da Administração Interna, Montenegro desvia o assunto:

 “Estamos concentrados em olhar para cada pessoa, para cada família e poder dar a solução para o seu problema. E sabemos que há muita dificuldade em resolver os problemas todos e ao mesmo tempo.”

4.

Perto de 1200 militares do Exército e 222 viaturas estão desde esta terça-feira no terreno em operações de apoio às populações na região Centro, afectada pela passagem da depressão Kristin, segundo aquele ramo militar.

Porque demoraram tanto tempo a chegar?

4.

A depressão Leonardo já chegou.

O comandante nacional de Emergência e Protecção Civil alertou para a situação meteorológica “muito complexa” prevista para os próximos dias, que obrigou a elevar o estado de prontidão do dispositivo para o nível mais elevado.

Portugal continental irá começar a sentir os efeitos da depressão Leonardo  prevendo-se que “o período com valores acumulados de precipitação mais elevados e vento mais intenso seja na noite” de quarta para quinta-feira.

Para já chuva persistente e forte ventania.

5.

Marcelo Rebelo de Sousa, regressado hoje após uma visita ao Papa, avisou que “não serve de nada ter medidas no papel” de apoio às populações afectadas pelo mau tempo se não for possível executá-las, pedindo coordenação no terreno e acabou por concluir que explicação do Governo às populações “não correu bem”

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

GENTE MINHA, MINHA GENTE

O Armindo descobriu o Daniel Filipe quando, aos 39 anos, o poeta morreu.

Não que os jornais tivessem feito um cântico da sua morte, mas porque os amigos do Daniel Filipe desataram a passar os seus poemas de mão em mão.

Um dia subindo a Rua do Carmo, na grande montra da Discoteca Melodia, vi, em destaque, o Lp  A Invenção do Amor de Daniel Filipe.

«Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares, um cartaz denuncia o nosso amor.»

Assim começa o belíssimo, o extraordinário poema de Daniel Filipe:

«Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com carácter de urgência»

Nos tempos cinzentos, trágicos do salazarismo/caetanismo, Daniel Filipe fez parte de uma longa lista de gente que me ajudou a enfrentar esses dias – Gente Minha, Minha Gente.

Daniel Filipe lutou contra o obscurantismo, a opressão, a ignorância, a insensibilidade. A cidade sufocante, a placidez burguesa dos que faziam por não ver, dos que denunciaram, dos que traíram, a angústia, os amigos presos - «não posso amar serenamente com tantos amigos na prisão», escreveu. Fernando Assis Pacheco, cantou Adriano Correia de Oliveira.

Daniel Filipe foi um homem perseguido e torturado pela Pide,

privado de voz durante o período da ditadura.

«Se um homem de repente interromper as pesquisas e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão já sabeis o que tendes a fazer. Matai-o. Amigo Irmão que seja. Matai-o. Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.»

Levou o tempo que teve de levar, mas escaparam.

Por mais que levantassem os muros.

A censura salazarista proibiu romance de Daniel Filipe O Manuscrito na Garrafa, publicado em 1960.

Proibido por ser considerado “inconveniente, sob os aspectos político, social e moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, to, 73,75, 77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141, 149, revelam a sua índole.”

Um tal José de Sousa Chaves, coronel-trambolho da censura, foi implacável e proibiu o livro: «entendo que não deve ser autorizado a circular no país».

Esta gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira, capacho-mor-do-botas-santa-combista, foram os polícias do nosso pensamento, da nossa liberdade.

Quase meio século de obscurantismo, uma luta desigual, porque os que combatiam estes trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que cortassem a raiz ao pensamento, mas sabia-se que as cantigas podem ajudar, mas não eram armas e o tempo crescia como um deserto e com ele a dor, o desespero, a cólera.

José Osório de Oliveira, escreveu o prefácio do Discurso Sobre a Cidade, livro de crónicas de Daniel Filipe e esgalhou este maravilhoso, perfeito pedacinho:

 «Possuo uma faculdade que tem sido a minha melhor defesa, senão a única de que disponho para não sofrer: a de matar, no meu espírito, aquilo ou aquelas pessoas que passaram a repugnar-me».

RELENDO DANIEL FILIPE

Desertar do céu deste inverno a andorinha

bem pouco diz talvez não o notar

Mas não a ver nem quando o sol domina

que terra tenho eu para me perdoar?

Ruy Belo em Transporte no Tempo (1973) em Todos os Poemas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa com qualquer outro nome teria o mesmo cheiro doce.

William Shakespeare em Romeu e Julieta.

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


Ainda  há milhares de portugueses sem electricidade, sem água, sem comunicações, sem telhas, sem lonas, para cobrir  os telhados que a depressão lançou pelos ares.

As gentes, onde a depressão Kristin foi mais feroz, sentem-se abandonadas.

Mais ainda porque sentem que o governo, as diversas autoridades que as deviam proteger, falharam.

Um homem de 63 anos morreu hoje quando caiu de um telhado que reparava no concelho de Porto de Mós.

Não é o primeiro, talvez não seja o último.

Apesar de a Protecção Civil avisar que, dadas as condições meteorológicas, estes trabalhos não podem ser realizados, mas o desespero destes homens ao verem a chuva continuar a entrar-lhes casa dentro, leva-os a arriscar.

Entretanto o que se passa no campo da tragédia, é muito pior do que podemos imaginar, ou que vamos vendo no corrupio das reportagens televisivas.

2.

A tempestade obrigou a libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água em dois dias para evitar cheias, equivalente ao consumo anual de 3 milhões de pessoas.

Em dois dias, foi preciso libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água das albufeiras de todo o país, por causa da tempestade Kristin. É uma quantidade que equivale a três vezes o consumo anual da Área Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes.

3.

Com as ajudas monetárias, e outras, às povoações, o Governo parece ter dois objetivos: não comprometer as contas públicas, revelando qual é a sua prioridade, e deixar para o sector financeiro toda a acção, de forma a que este lucre com o desespero das pessoas.

É neste sentido que os principais bancos portugueses Caixa Geral de Depósitos e Novo Banco anunciaram linhas de crédito bonificado no total de 400 milhões de euros para as famílias e empresas afetadas pela tempestade Kristin. Para os particulares, a CGD abriu uma linha de financiamento de 300 milhões de euros com uma taxa de juro de 2.15% (taxa mista a 1 ano). Já o Novo Banco abriu uma linha  de 100 milhões de euros, sendo que a linha de crédito para Famílias será bonificado, ou seja, terá uma taxa de juro correspondendo a 65% da taxa de referência do Banco Central Europeu. 

No caso de ambos os bancos, apesar do spread a 0% e isenção de comissões, com o desastre, os bancos estão a procurar atrair novos clientes e a gerar um fluxo futuro de juros. Importa relembrar que em 2025 os cinco maiores bancos a operar em Portugal lucraram mais de 13 a 14 milhões de euros por dia. Só a CGD alcançou um lucro recorde de 1,4 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, mais 2% do que no período homólogo. 

No blogue Abril, Abril

4

«Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.»

hbmf na Antologia do Esquecimento

5.

A Ministra da Administração Interna deu uma boa ensaboadela à Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. É assim, e não de outro modo, que devemos negociar as leis laborais: lutar pelo direito a trabalhar em contexto de invisibilidade.

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

6. 

«A depressão Kristin não arrancou só vidas, telhados, árvores, postes de alta tensão, mas deixou também expostas as falhas de um Estado que voltou a não estar à altura num momento crítico. Quando foi ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar a mensagem de que, desta vez, não se terá tratado de uma falta de prevenção. Permita-me discordar, Sr. Presidente: foi precisamente o que aconteceu. Falhamos, uma e outra vez, por falta de prevenção nas políticas públicas, por falta de escolhas responsáveis ao longo de anos, capazes de preparar o país para fenómenos que já não podem ser tratados como inesperados.»

Rui Frias no Diário de Notícias

7.
 
Outra carruagem do comboio de depressões vem a caminho.

O estado do tempo em Portugal continental vai ser afetado entre a tarde de terça-feira e sábado pela depressão Leonardo, prevendo-se chuva persistente e por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, indicou  o IPMA.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

POSTAIS

 

 Já ninguém escreve cartas, postais.

Noé Cardoso, tripulante de um navio português, a caminho de Buenos Aires, manda saudações - a data não está legível -, para o amigo Raul Ferreira que vivia em Angeja, vila perto de Aveiro.

Curiosamente, em 1965, passei férias em casa da minha avó Brígida no Fontão, uma terreola perto de Angeja.

Colaboração de Aida Santos

POEMAS AUTOGRAFADOS

Alberto de Lacerda e Exílio veio naquela vaga  em que pedi ao meu pai que me ajudasse a encontrar os novos poetas portugueses. O meu pai não era um conhecedor dessa poesia, mas tentou encontrar quem o ajudasse. Disseram-lhe que o melhor caminho era a Colecção Poetas de Hoje, editada pela Portugália Editora.

A vantagem desta colecção única, para além da qualidade dos poetas, residia no facto de a Portugália convidar um poeta para fazer a apresentação do autor.

A Alberto Lacerda calhou o grande poeta e amigo António Ramos Rosa.

Exílio é o nº 13 da Colecção Poetas de Hoje.

Lembro que a poesia de Alberto Lacerda trouxe-me dificuldades, só muito mais tarde debeladas. Nem todas.

Nascido na Ilha de Moçambique, passou pelo Brasil, pelos Estados Unidos e viveu mais de 50 anos em Londres.

O poeta, crítico, e seu grande amigo, Eduardo Pitta, escreveu que Alberto de Lacerda «nunca acertou contas com Portugal que não passou de um intervalo na sua vida.»

Alberto de Lacerda é uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Poucos repararam. Muitos, oh! tantos, tantos, continuam sem reparar.

Morreu em Londres, tinha 78 anos, a 26 de Agosto de 2007. 

John McEwen, o crítico de arte com quem tinha combinado almoçar nesse domingo, estranhou o atraso e acabou por arrombar a porta.

Escreveu Eduardo Pitta:

«Alberto de Lacerda ainda estava vivo, porém em coma. Morreria horas depois. Conhecendo-o como conheci, sei que teria apreciado o detalhe final.»

O POEMA TRANSGRIDE PELA MANHÃ

O poema transgride pela manhã
e cobre gloriosamente a trepadeira púrpura;
agora, que tudo e todos se odeiam,
na impenetrável aurora
sentem-se melhor.

A precisão maligna de impulsos
à astúcia de um pressuposto de luz
(pedaço a pedaço revelando a morte
e o nojo reprimidos)
declina o Tempo zodiacal:
a violenta partição do fluxo:
da Via Láctea ao vírus;
da epifania à produção em série;
do incesto ao tributo pago;
do continente à subida das ágüas;
da fala à sílaba;
da geografia à Arca; …

A gavinha do poema lambe caliça
num recanto de sombra, re-canta:
as escolhas e permutas na cidade-cluster.

De mão estendida o poema alastra.
Já sem núcleo, uma onomatopeia cindida.

Paulo da Costa Domingos

domingo, 1 de fevereiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


Nunca tivemos um Governo tão mau.

Cinco dias depois da passagem da tempestade Kristin, Luís Montenegro, anunciou um conjunto de medidas destinadas às populações e empresas das zonas afectadas, num pacote que ascenderá a 2,5 mil milhões de euros, respondendo de forma indirecta às críticas perante a lentidão da actuação do Estado, mas sem reconhecer falhas na resposta à crise. 

Aumentam para oito as vítimas mortais da passagem da depressão Kristin.

1.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou este domingo, em Roma, como "impressionante" o conjunto de medidas aprovado pelo Governo para apoiar as famílias e empresas fustigadas pela depressão Kristin.

Em declarações aos jornalistas o Chefe de Estado sublinhou a diversidade e a rapidez das intervenções planeadas pelo Executivo de Luís Montenegro.

2.

Joaquim Leitão, que teve cargos de direcção e comando no sector da protecção e socorro, considera que, perante a dimensão das consequências da tempestad Kristin, as Forças Armadas deveriam ter sido mobilizadas mais cedo e requisitadas em bloco.

3.

O parque industrial da Marinha Grande foi severamente afectado pelo mau tempo. Muitos pavilhões ficaram sem tecto e sem paredes, o que obrigou à suspensão da actividade. Sem conseguir produzir e com a maquinaria exposta à chuva e ao vento, empresários enfrentam prejuízos de milhões de euros, mas as contas ainda estão a ser feitas.

4.

"Foi feito tudo aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão", diz Montenegro

Questionado pelos jornalistas sobre as críticas de que a reacção do Governo aos efeitos da depressão Kristin foi tardia, Luís Montenegro disse que "foi feito tudo aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão no terreno. Do ponto de vista daquilo que era possível fazer-se, foi feito".

5.

Situação de calamidade até 8 de fevereiro.

O Governo anunciou ainda que vai apoiar a reconstrução de habitação própria e permanente em intervenções até 10 mil euros "sem necessidade de documentação" para os casos em que não haja cobertura de seguro. As obras de reconstrução dispensarão licenciamento e controlo prévio. O mesmo montante estará disponível para situações relacionadas com agricultura e floresta exatamente no mesmo montante.

6.

Cinco dias depois da Kristin, ainda só há uma rede de telemóvel a funcionar em pleno na Vila Nova de Anços, que se prepara para ser abastecida por água, pelos Bombeiros Voluntários de Soure.

Emília Belém tem 59 anos e uma empresa familiar, com o marido e um dos três filhos, cujo armazém sofreu danos muito significativos, que justificam o fim do negócio. "Ficámos sem nada, temos um prejuízo de mais de 500 mil euros" contou à agência Lusa, adiantando que tinha já material para entregar que "ficou todo desfeito". "Fomos das empresas mais afetadas do concelho", referiu Emília Belém que disse estar "sem forças" para reerguer a empresa Vilagrês.

7.

Fernando Ramos é o proprietário da padaria que neste domingo não conseguiu entregar pão em pelo menos cinco instituições do concelho e que abastece diariamente. A luz só chegou de manhã, mas não havia água. Uma interrupção, porque no próprio dia do temporal, tiveram tudo, menos comunicações e ainda só tem uma rede móvel estável.

8.

Falta de energia agrava perdas das empresas: “Há centenas de empregos em risco”
Ainda se está longe de se poder fazer uma avaliação aproximada dos prejuízos provocados pela tempestade Kristin na região Centro onde, na manhã deste domingo, ainda existiam cerca de 180 mil clientes (empresas e particulares) sem energia eléctrica. Mas a apreensão é muito grande entre os empresários, não só pelos danos provocados pela tempestade da passada quarta-feira, mas também pelos atrasos na reposição de energia — e outras dificuldades de reparação de danos.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

NESTE DIA


O ano é o de 1968, estamos a 22 de Dezembro, um domingo.

Jorge de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.

Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro, 

Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).

É aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e que o obrigou a exilar-se  primeiro no Brasil, depois na América:


«Parti às 10,45, perpassam os campos de Castela.

Viagem boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo. Em Marvão, a polícia portuguesa  fez-me sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara, não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8 estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8 voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das 5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P. aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem, não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou assim combinado.»

MÚSICA PELA MANHÃ


Ficamos mais uma vez com música portuguesa, concretamente com  um enorme poema de Natália Correia musicado por José Mário Branco.

 

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte 

sábado, 31 de janeiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


JÁ SABÍAMOS, HÁ QUE REPETIR:

O GOVERNO DE LUÍS MONTENEGRO É DE UMA NULIDADE, DE UMA INCOMPETÊNCIA DE BRADAR AOS CÉUS!

Luís Montenegro como primeiro-ministro, tem dificuldade em encaixar a crítica, é teimoso, amiúde, por tudo e por nada, transforma-se em Kalimero.

Não tem uma pontinha que seja de sentido de humor, não é honesto. 

Subiu no PSD, até chegar a presidente, rodeado de gente sem escrúpulos, que lhe permitiram todas as habilidades, autênticos «yes men».

Nos anos que leva de governo, nunca soube rodear-se de pessoas competentes, bem pelo contrário: exemplos gritantes são as ministras da saúde, da administração interna, do trabalho.

Tem um sorriso cínico que lhe serve para todas as ocasiões.

1.

Milhares de casas e estabelecimentos continuam sem luz, sem água, sem comunicações.

2.

O governo decretou tardiamente o estado de calamidade nas áreas mais afectadas.

Nenhum governo pode ser responsável pelos ciclones que assolam o país mas pode ser criticado pelo modo como reage.

3.

O governo precisa de uma remodelação quase total.

Ou por outra: não podemos ter um primeiro-ministro como Luís Montenegro.

Não é admissível ouvir a ministra da administração interna, face à tragédia, dizer que estamos numa aprendizagem colectiva.

4.

Alguém das editorias noticiosas das televisões, TEM que dizer aos seus repórteres que NÃO podem, a alguém que ficou sem casa, ficou sem nada, perguntar: «Como se sente?» ou «qual é o valor do prejuízo», quando ainda o homem nem sequer conseguiu entrar na loja.

5.

António Leitão Amaro, ministro da presidência é um «totó» que tem a mania que é inteligente, que tem graça, e mandou montar um vídeo para as redes sociais em que aparece de mangas arregaçadas, a roer as unhas, a meditar, rodeado de walk-talkies e papelada, em plena tragédia espalhada pelo país, pretendeu mostrar serviço, mas face às amplas críticas que lhe foram dirigidas pelo oportunismo, apagou o vídeo.

“Se vivêssemos em tempos de gente com o mínimo sentido de Estado ou que a ainda restasse alguma decência e o Leitão Amaro não passava nem mais um dia como ministro", como disse Pedro Marques Lopes na SIC.

6.

Em Leiria, Marinha Grande Coimbra assiste-se à queda de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais da passagem violenta da depressão “Kristin”7

7.

O Governo decretou situação de calamidade entre as 00h00 de quarta-feira até às 23h59 de dia 01 de Fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, admitiu em visita ao centro de Leiria, que o Estado tardou a compreender a verdadeira escala da destruição causada pela tempestade Kristin.

8.

Grande número de casas, supermercados, diversos serviços públicos ficaram sem telhados.

Dado que as previsões apontam para mais chuva e vento para domingo e dias seguintes, as pessoas desesperadamente colocam telhas, plásticos e lonas para mais água não entre nas suas casas, nas suas empresas.

Dois homens, um na Batalha, outro em Alcobaça morreram ao caírem de telhados que estavam a reparar-

9.

O dramático quotidiano da tragédia, copiado do Correio da Manhã:

10. 

Segundo a Lusa o o furto de cabos e de gasóleo de geradores tem afectado a reposição do abastecimento de água no concelho de Porto de Mós, no distrito de Leiria, disse o vereador Eduardo Amaral, que manifestou revolta.

"É mesmo revoltante. Depois de uma catástrofe natural, quando as pessoas já estão fragilizadas e a tentar sobreviver, ainda ter de lidar com esse tipo de atitude é de cortar o coração. Roubar cabos e gasóleo não é só roubo, é tirar luz, água, cuidados médicos e segurança a quem mais precisa"

11.

Crónica de Eduardo Dâmado no Correio da Manhã:

«Nas tragédias devemos sempre voltar ao básico. A democracia ergue-se com os pilares da justiça e da lei, da responsabilidade civil, penal e política. Ergue-se com os pilares do serviço e do interesse público. Ergue-se com a prestação de contas. Do Governo perante o Parlamento, dos partidos perante os portugueses, do Presidente da República perante todos. Nas tragédias devemos, por isso, voltar ao essencial da política. Ela não é um mero simbolismo. Deve procurar a sua razão de ser e materialidade no serviço às pessoas. E aí, os portugueses continuam a não ter respostas sérias dos sucessivos Governos na preparação contra os perigos previsíveis, venham eles dos incêndios ou de temporais. Os portugueses continuam a não ter respostas para os apagões, para a catástrofe das mortes na estrada, para as mortes por falta de socorro na saúde, para as vítimas de crimes ou das muitas omissões do Estado. Os portugueses não são protegidos com as frequentes mudanças de políticas, com a privatização de recursos naturais, como tem acontecido com a energia. Os portugueses não são protegidos por ministros que fazem da política exercícios de puro narcisismo, construindo vídeos de autopromoção em plena tragédia. Nem pelos que premeiam a incompetência de colegas, premiando-os para a gestão de empresas públicas. Ao não invertermos o rumo, isto vai acabar mal. A responsabilidade política não pode ser apenas uma folha seca ao sabor do vento».

12.

David Neves, presidente da Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores descreveu ao Diário de Notícias que em Leiria e concelhos vizinhos reina a desgraça. A situação nas explorações pecuárias é crítica. Sem eletricidade, água ou acesso a rações, os produtores enfrentam o desespero de não conseguir manter os animais vivos. Estão "com os corações devastados, completamente devastados. E isto é gravíssimo, as empresas da região ficaram "completamente devastadas", especialmente nas zonas mais florestais, onde as infraestruturas de suinicultura são predominantes e onde as consequências da tempestade foram "absolutamente catastróficas".

13.

O ministro da defesa Nuno Melo levou 30/40 militares, mais as televisões, para uma mata qualquer para fazer a limpeza. Acabadas as fotografias, o ministro,  mais a troupe acompanhante, foram-se embora e os militares arrumaram a trouxa e também saíram de cena e ficou o espanto, a revolta dos habitantes que olharam o triste e incrível espectáculo.

14.

Centenas de unidades fabris e supermercados ficaram destruídas após a passagem da tempestade. Trabalhadores vigiam instalações para evitar roubos.

 Se considerarmos que há nas empresas máquinas que custaram mais de um milhão de euros e que não trabalham... temos prejuízos de milhões de certeza.

15.

O município de Proença-a-Nova alertou para a presença de burlões no concelho que se fazem passar por prestadores de serviços de reparação ou fornecimento de matéria e alerta para a necessidade de máxima atenção na contratação de qualquer serviço.

Segundo a autarquia, estas situações ocorrem, sobretudo, em habitações desabitadas e têm resultado em furtos e aconselha a população a contactar imediatamente as autoridades perante qualquer situação suspeita.


16.

Dias de tempestade: a vida sem água nem luz e, para muitos, sem trabalho.

Há centenas de empresas destruídas, algumas não sabem se vão reabrir. Milhares de pessoas sem luz, água e comunicações.  As noites parecem intermináveis.

Mais uma vez, as populações face às catástrofes, sentem-se fragilizadas, desamparadas, as ajudas não chegam ou tardam em chegar e concluem:

NÃO SE PODE CONFIAR NOS GOVERNOS DA NAÇÃO!


Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

MÚSICA PELA MANHÃ


 Luís Carandell, jornalista e escritor catalão disse um dia «Que melhor destino pode ter um bom poema do que ser cantado».

Alain Oulman musicou poemas dos melhores poetas portugueses.

Sabia que Alexandre O’ Neill era um enorme poeta e persegui-o para que lhe arranjasse um poema a que emprestasse a sua música. Demorou o seu tempo mas O’ Neill também entendeu que Oulman érea um grande amigo, um grande músico e num bom qualquer dia saiu-se com Gaivota.

E aí temos um lindíssimo poema, uma lindíssima música a que a grande Amália Rodrigues deu a sua melhor voz e interpretação, ah! aquele se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse

 

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro
dos sete mares andarilho
fosse, quem sabe, o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
ao meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

LIVROS AUTOGRAFADOS

É vulgar os escritores queixarem-se que as editoras que lhe publicam, atribuem um pequeníssimo número de exemplares das obras destinados a ofertas.

Para as muitas ofertas que têm que fazer a amigos e familiares têm que comprar os livros.

Torna-se estranho, que sabendo-se das queixas dos escritores, João Gaspar Simões que nunca terá sido um salazarista, quando publicou o seu livro Crítica em 1942,  tempos de ditadura, tenha oferecido um exemplar do livro à redacão do jornal A Voz, jornal católico, monárquico, ultra-salzarista, «o jornal diário de maior publicação em Portugal», dirigido por Pedro Correia Marques.

Autor do editorial, que intitulava «Das Ideias e dos Factos», muitas vezes, quase em fecho do jornal, ouvia Emídio Navarro, chefe de redacção:

- Então Sr. Correia Marques, hoje não há ideias?