CAIS DO OLHAR
domingo, 5 de abril de 2026
DOMINGO DE PÁSCOA
Voltarei a ouvir que as crianças não podem comer chocolates.
O meu pai, por chalaça, dizia-me que só pelos
chocolates, pelo bacalhau na consoada, pelo cabrito no domingo pascal, um ateu
se debruça quer pelo Natal, quer pela Páscoa.
Respondia-lhe que sempre gostei de histórias e a Bíblia é, apesar de tudo uma história razoavelmente bem contada.
«O símbolo
é o ovo. O «o» da palavra ovo é redondo, e o redondo é símbolo da vida, da
origem que começa também com o mesmo «o».
Páscoa é o maior sacro
religioso cristão que não é Natal. Natal é condição. Páscoa é a dramática
reconversão da vida. Mito cristão, pré-cristão e meta-cristão: do sol, redondo
como o «o» da Primavera, do recomeço do ciclo agrícola, da Natureza.
Páscoa é festa do campo. Anti-urbana. Na cidade o ovo é de chocolate. O símbolo que se consome antes de crescer numa realidade.»
Jorge Listopad em Fruta Tocada por Falta de Jardineiro
José Tolentino Mendonça:
«Perguntas quanto tempo
deves rezar?
a papoila na encosta
é vermelha sempre»
A pergunta de todos os dias:
Que seria de nós sem memória?
NESTE DIA
No 1º volume
dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1993, Carmélia telefonou a Saramago, aos
gritos de 25 se Abril sempre!, mas o entusiasmo de Carmélia deixou-o «lamentavelmente
frio».
Neste Dia, estamos com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1994, 5 de Abril:
«Mal
refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos
inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25
de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades
representativas dos mais variados sectores e quadrantes da vida nacional» a
escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e
fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior
do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de ateio foi Saraiva de
Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do
Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António
Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das
Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi
Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem
Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Cavaco Silva. E a Joaquim
Vieira, que me pedira 125 palavras sobre as circunstâncias em que recebi «a
notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais
marcantes do período que se seguiu, até [mais de 1975», dei-lhe rigorosamente
as palavras pedidas, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas
de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a
minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a polícia não
se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a saber depois que a minha
prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda
tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o primeiro número
"livre" da revista.» E rematei: «Não esquecerei o Primeiro de Maio,
nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MF A em Tancos,
nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei
o Alentejo nem a Cintura Industrial. Não esquecerei o que então chamámos
Esperança.
Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para encher papel.»
NÃO FOI POR MIM
Não foi por mim que deixaste que te pendurassem na cruz
não foi por mim
que te deixaste matar
Não foi por mim que deixaste que te insultassem e
cuspissem
não foi por mim
que morreste
Ninguém se deixa matar assim
para cumprir a vontade do pai
— Pai Pai faça-se a tua vontade! —
Ninguém se deixa matar assim
porque um dia alguém se lembrou de oferecer uma maçã
Não sei quantas maçãs já me ofereceste
sem que um anjo com uma espada de fogo viesse para nos
expulsar
do nosso apartamento de três assoalhadas
Não foi por mim que tu morreste
e ressuscitaste ao terceiro dia
É uma herança demasiada pesada
para se deixar a alguém
que só viria a nascer dois mil anos depois
e cujo único pecado foi nascer
Não foi por mim nem por ti nem por ninguém
que tu morreste
e continuas a morrer todos os dias
Há quem não saiba fazer outra coisa senão morrer
e voltar a morrer
Nem a vontade do Pai te serve de álibi
Não foi por mim que tu morreste
embora eu seja capaz de morrer por ti
Jorge Sousa Braga
sábado, 4 de abril de 2026
MÚSICA PELA MANHÃ
As gentes que Donald
Trump escolheu para a sua governação, é tudo de última gaveta. A tal ponto que,
como as coisas, agora, começam a correr mal, tratou de despedir alguns e outros vão saindo pelo seu
pé.
Entretanto com as
suas leis, as suas guerras está a causar o caos no Mundo.
Trump, desde que se
tornou presidente dos Estados Unidos, à custa de uma seita – MAGA - que consta
de tudo o que de mau existe no país, entendeu tratar alguns conflitos com uma meta de resolução apontada
para 2 semanas, mas nada aconteceu e as semanas somam-se através dos dias de
todas os dias.
Porque, no fundo dos
fundos, Donald Trump é um presidente que
apenas quer realizar negociatas, adora bravatas e prémios, despreza o
Congresso, o Senado, os Juízes, as Forças Armadas… o povo americano.
Bruce Springsteen não
gosta de Trump, e, todos os dias, declara esse ódio.
Começou agora uma nova digressão - Land of Hope & Dreams American Tou que percorrerá as cidades americanas até 27 de Maio -, e começou a exercer o seu direito de crítica ao presidente, acusando a governação de ser corrupta, racista, incompetente, irresponsável e que a guerra contra o Irão é inconstitucional e ilegal.
Em reação, Donald Trump
pediu ao eleitorado MAGA o boicote aos concertos de Springsteen e, nas redes
sociais, chamou o cantor de medíocre e
enfadonho que parece uma ameixa seca e, criticando a aparência física de
Bruce, diz que o cantor sofreu as consequências de um cirurgião plástico
incompetente, e sofre há muito tempo de uma síndrome de aversão a Trump
horrível e incurável.
A música desta manhã não poderia ser outra que não algumas canções de Bruce.
SÁBADO DE ALELUIA
Sábado de Aleluia.
Hoje, pela manhã, é tempo de ir a um supermercado comprar, para os netos, um coelho grande de chocolate, com surpresa dentro, ovos de chocolate e gomas.
Dizer que e festa chocolateira não é só dos netos.
Chocolatedependente que sou, a posição primeira na grelha de partida para comer o coelho grande de chocolate, é minha.
Doce dependência, com o pormenor-escândalo-da-família, de que não se contenta, logo que uma chocolate de chocolate tablete é aberta, em comer um quadradinho, ficar a saboreá-lo de olhos fechados, enquanto se derrete na boca.
Não! Tablete aberta, tablete consumida.
O resto, bom o resto logo se vê e aguardar as palavras do costume do médico de família quando olha as análises deste emocionalmente desequilibrado portador de angústias chocolateiras.
Talvez tenha lido que sem um toque de loucura não existem homens sensatos.
Mas de onde lhe vem o grito delicioso do chocolate?
Como quase tudo, terá que ir à infância.
Já contei isto, mas continuemos.
A caminho do Liceu Gil Vicente, na Graça, também para a casa da avó paterna na Rua Senhora do Monte, percorria toda a Rua da Penha de França, chegava a Sapadores, e aí estava a Fábrica de Chocolates Favorita e, neste ponto, socorre-se de Mário de Carvalho porque conta melhor do que eu, alguma vez possa, contar:
«Voltemos ao volutpuoso
aroma de chocolate que descia por sobre o bairro e impregnava os ares, as
casas, as roupas e nos punha logo bem dispostos, na nossa meninice voraz de
guloseimas caras. Provinha ele da Fábrica Favorita que levantava na outra
esquina, a sua arquitectura graciosa e robusta, mesmo ao lado de um jardim
esconso e sombrio em que ficava a casa do arquitecto Raul Lino. Nos anos
oitenta do século vinte, por contingências do mercado ou por gestão trapalhona,
a velha Favorita fechou e ficou para ali, abandonada. Aquela
atmosfera adocicada e benigna dilui-se tristemente nas alturas e o bairro foi
invadido pelos odores banais de Lisboa. Se não fosse a variação dos ventos,
pesaria ali a fumarada dos escapes e outros eflúvios maléficos…
Na Lisboa tristonha e pobre desses tempos eram estes pequenos milagres que alegravam a nossa infância e deixaram um sorriso na memória.»
Guardo o cheiro a chocolate e também lembro, com uma nitidez deveras melancólica, os operários de ganga azul, as operárias de bata branca, a descerem a rampa para, depois do almoço na cantina da fábrica, irem beber o café nas pastelarias em redor, certamente a «A Mimosa da Graça»?
Este pormenor não consigo clarificar, mas o que lembro mesmo são os operários, elas de bata branca, eles de ganga azul.
Depois chegaria ao poema de Álvaro Campos:
«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida!»
Há também Chocolate um delicioso filme de Lasse Hallstrom, um conto de fadas maravilhoso pelos chocolates mas também – e não é aspecto de somenos – pela Juliette Binoche.
Li, já não lembro onde, que é um filme para comer com os olhos.
E ficamos assim.
Ou melhor: ficamos com o Tom Hanks, na pele de Forrest Gump, sentado num banco, à espera de um autocarro e a dizer:
«A vida é como uma caixa de bombons. Nunca sabemos o que nos espera…»
De resto fiquem a saber, que há poucos problemas que um chocolate não possa resolver.
sexta-feira, 3 de abril de 2026
SEXTA-FEIRA SANTA
Numa sua crónica, João
Bénard da Costa cita uma frase de Romano Guardini:
«O Cristo na
Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!»
Tão pouco sabia
Bénard da Costa porque de «há muito longo tempo» reteve a
frase.
E adiantava:
«Os mistérios só
são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta
perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo
ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor.
Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a
porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa
ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso
fazer pois que não tenho sustentação possível».
Semana Santa.
A entrada de Jesus
em Jerusalém, a subida ao Monte Calvário, a morte e a Ressurreição.
Vitória, cantam os
cristãos católicos.
Porquê?
Dizem que é a
vitória da vida sobre a morte.
«Ninguém
conseguirá jamais perceber esse mistério.»
Ninguém!
Legenda: Pintura de Paul Gauguin
SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS
Jesus morre, morre, e já o vai deixando a vida, quando de súbito o céu por cima da sua cabeça se abre de para em par e Deus aparece, vestido como estivera na barca, e a sua voz ressoa por toda a terra, dizendo, Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus toda a minha complacência. Então Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez. Depois, foi morrendo no meio de um sonho, estava em Nazaré e ouvia o pai dizer-lhe, encolhendo os ombros e sorrindo também, Nem eu posso fazer-te todas as perguntas, nem tu podes dar-me todas as respostas. Ainda havia nele um resto de vida quando sentiu que uma esponja embebida em água e vinagre lhe roçava os lábios, e então, olhando para baixo, deu por um homem que se afastava com um balde e uma cana ao ombro. Já não chegou a ver, posta no chão, a tigela negra para onde o seu sangue gotejava.
José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Legenda: pintura de Rubens
A ÙLTIMA CEIA
Segundo a tradição cristã, hoje é Sexta-feira Santa.
Legenda: A Última Ceia
de Leonardo Da Vinci.
SEXTA-FEIRA SANTA
A conversa era sobre Deus,
embora o teólogo estivesse inclinado
a pensar que fosse sobre outra coisa,
pois era hora de jantar.
Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar.
Tinha devorado o pargo com honesto apetite
e elogiava as virtudes do cozinheiro.
Só Deus, algures, chorava sobre
os despojos da sua pequena criatura na travessa
a caminho da copa, antes da sobremesa.
Manuel António Pina de Atropelamento e Fuga em Poesia Reunida
quinta-feira, 2 de abril de 2026
RETRATOS
A Constituição de Abril faz hoje 50 anos.
Por tudo e por nada foram dias gloriosos.
Os dias da nossa Esperança.
Para sempre!
POEMA
CONSTITUINTE
A Constituição
constitui-se de homens e mulheres
cidadãos com a mesma
dignidade social
iguais perante a lei
A Constituição
constitui-se de homens e mulheres
antes de se estruturar
em Títulos
Capítulos
Artigos
Alíneas
A Constituição
constitui-se pela vontade popular
empenhada livremente
na transformação da
sociedade portuguesa
numa sociedade sem
classes
A Constituição
constitui-se por dentro dos braços
e das cabeças
dos homens e das
mulheres livres
que constroem o
socialismo
dia a dia
antes de ele ser o
Artigo 2.° da Constituição
pela via democrática
A Constituição
constitui-se de avanços projectos e lutas
no coração
que não admite recuos
nem abdica
do futuro
A Constituição
constitui-se da força organizativa
dos que acordam
todos os dias
com um novo intento de
vive
porque possuem em si
próprios
a soberania
una
indivisível
A Constituição
constitui-se dos direitos dos trabalhadores
não distinguindo
idade raça religião
ideologia
com direito ao trabalho
e à retribuição
sem aviltamento
sem exploração
com direito
à existência condigna
à realização pessoal
à higiene e à saúde
à organização
à segurança
à educação e à
cultura
ao repouso
às comissões suas
de trabalhadores
defendendo esses seus
interesses
e outros
A Constituição
constitui-se de consciências livres
antes de se cristalizar
nas palavras e nas
frases
num documento lei
A Constituição
constitui-se da liberdade de escrever
essas palavras
da obrigatoriedade de
cumpri-las
porque por longos anos
circularam
interditas
no sangue livre
do povo soberano
Constituição
constitui-se das palavras
com que se escrevem os
poemas
(como este)
que todos têm direito
de produzir
exprimir
divulgar
já que pela palavra
são a criação do
pensamento
pela imagem
são a materialização da
comunicação
por todos os meios
são a circulação da
informação
a que todos os homens e
mulheres
têm direito
sem impedimentos
nem discriminações
E porque
todos esses direitos
não podem ser impedidos
por qualquer tipo
de censura
a voz soberana do povo
digno e verdadeiro
far-se-á ouvir
defendendo
e
constituindo a
Constituição!
Poema escrito por E. M. de Melo e Castro, em 1979, por
ocasião do 3º aniversário da Constituição da República Portuguesa.
Legenda: Deputados da
Constituinte, no final da Sessão Solene dos 50 anos da Constituição realizada
na Assembleia da República.
A fotografia é de Daniel Rocha e foi tirada do Público.
QUINTA-FEIRA SANTA
Definitivamente, não sei explicar mas, em tempo de Semana Santa, vêm-me sempre, mas sempre, à memória duas ou três coisas:
A parede do antigo Cinema
Lys, a que estava voltada para a Avenida Almirante Reis, com os grandes
cartazes de A Túnica de
Henry Koster com o Richard Burton, a Jean Simmons, o Victor Mature.
A Emissora Nacional a
interromper o silêncio radiofónico para transmitir os jogos de Hóquei em Patins do
Torneio de Montreux.
O Carlos Alberto que
aparecia de gravata preta.
Os putos da rua que
éramos, perguntavam sempre do porquê, e a resposta também a sabíamos:
- Cristo morreu!
A minha avó apenas
respeitava a quinta e a sexta-feira santas e nesses dias não havia carne
para ninguém.
Curiosamente, também não
abundava nos outros dias.
Porque o pequeno mundo caseiro vivia do rol fiado do merceeiro, Francisco de seu nome, estabelecimento na esquina da Castelo Branco Saraiva com a Vila Gadanho.
À LUPA
Leio espantado, completamente espantado:
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der
Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, bem como a alta
representante/vice-presidente, Kaja Kallas, reafirmaram o empenho da União
Europeia na estabilidade regional, instando a
desescalada imediata e
retenção máxima
protecção da população
civil e das infra-estruturas civis
pleno respeito pela Carta
das Nações Unidas
A posição da União Europeia E foi reiterada nas conclusões
do Conselho Europeu de 19 de março de 2026, em que todos os 27 dirigentes
condenaram os ataques do Irão, exigiram um cessar-fogo imediato e apelaram a
uma moratória aos ataques às infraestruturas energéticas e hídricas.»
OLHAR AS CAPAS
As Minas de Salomão
Rider Haggard
Tradução: Eça de Queiroz
Capa: Lima de Freitas
Ilustrações: Will Nikeless e Peter Branfield
Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d
Agora que este livro está impresso, e em vésperas de correr o mundo
largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para ele ser
aceitável, muito lhe falta como estilo e como história. Enquanto à história,
realmente, não pretendi nem tentei meter nestas páginas tudo o que fizemos e
tudo o que vimos na nossa viagem à terra dos Cacuanas. Há, todavia, nesse
estranho povo, coisas que mereciam exame detalhado e lento: a sua fauna, a sua
flora, os seus costumes, o seu dialeto (tão aparentado com a língua dos Zulus),
o magnífico sistema da sua organização militar, a sua arte subtil em trabalhar
os metais... Que interessante estudo se faria, além disso, com as lendas que
ouvi e colecionei acerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de
Lu! Que curiosa, também, a tradição que entre eles se tem perpetuado sobre os
«Silenciosos», os dois colossos que jazem à entrada das cavernas de Salomão! No
entanto pareceu-me (e assim pensaram o barão Curtis e o capitão John) que seria
mais eficaz contar a história a direito, e secamente, deixando todas estas
particularidades sobre a região e sobre os homens para serem tratadas mais
tarde, num tomo especial, com minudência e largueza.
Resta-me, pois, implorar a benevolência para a minha tosca maneira de
escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a pena e sempre me
foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios literários. Talvez os livros
necessitem esses floreios e ornatos: não sei nem possuo autoridade para o decidir;
mas, na minha bárbara ideia, as coisas sim decidir; mas, na minha bárbara
ideia, as coisas simples são as mais impressionadoras e mais facilmente se deve
acreditar e estimar o livro que venha escrito com séria e honesta singeleza.
«Lança aguda não precisa brilho», diz um provérbio dos Cacuanas; e, movido por
este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha história, nua,
lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar
mais vistosa, os dourados galões da eloquência.
ALÃO QUARTELMAR
CULTIVO DOMÉSTICO
O cheiro da menta
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
- pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
Do quarto: já não a vejo.
Descobrimos a seguir os vapores
que se levantaram das minhas
mãos, até das chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a
existir.
Margarida Ferra em
Curso Intensivo de Jardinagem
quarta-feira, 1 de abril de 2026
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Uma parte dos livros da Biblioteca da Casa foi comprada em alfarrabistas, feiras, sejam do livro ou de ocasião.
Duas vezes por mês o meu pai reservava
as tardes de sábado para uma visita ao Fausto, alfarrabista com porta aberta, a
meio da Rua Angelina Vidal, lado esquerdo de quem desce.
Mais ou menos os alfarrabistas sabiam o
que vendiam, e os preços estavam de acordo com esse saber. Hoje pedem exorbitâncias
por qualquer livro e que eles compraram por tuta e meia e, na maior parte das vezes, nem sabem de que tratam os livros, quem são os autores.
Hoje, no que foi a excelente Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, encontra-se a Re-Read, uma cadeia de livros espanhola que tem por slogan: "Livros quase novos a preços quase impossíveis".
Compram livros por um preço pífio e depois colocam,
alguns, a preços bastamente acessíveis.
Passo por lá volta e meia e trago sempre um ou mais
livros.
Foi o caso deste livro do Lauro António que me ficou
por 4 euros e que se encontrava em falta nas as muito boas colecções das Publicações
Dom Quixote que fui adquirindo quando saíam e custavam 35 escudos, ao cambio de hoje seria 1 euro e
75 cêntimos.
O que acima se vê, é o recibo do então comprador-assinante,
a 15 de Fevereiro de 1970 do livro do Lauro António e, curiosamente no topo
pode ler-se:
Publicações Dom Quixote- Sociedade Editora Abecassis,
Lda.
Trata-se de Snu Abecassis que a Wikipédia diz quem foi:
«Ebba Merete Seidenfaden, mais
conhecida como Snu Abecassis, foi uma editora dinamarquesa. Fundou as
Publicações Dom Quixote, editora que se notabilizou por publicar livros
considerados de esquerda, com ideias contrárias à ditadura do Estado Novo.»
Mais:
« Filha de um casal de jornalistas dinamarqueses,
Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen, desde pequena foi chamada de Snu, que
quer dizer "esperta" na língua dinamarquesa.
Em 1961, casou-se com o português
Alberto Vasco Abecassis. Mudou-se para Portugal passado um ano e aí
nasceram os três filhos do casal: Mikaela Linea, Ricardo Fortunato e Rebecca
Sofia. Em 1965, sob sua direção, foi fundada a editora Publicações Dom
Quixote, em Lisboa.
Já em época pós-revolucionária, Ebba começou a relacionar-se com o também casado Francisco Sá Carneiro. Conseguiu divorciar-se de Abecassis, mas Sá Carneiro não conseguiu obter o divórcio. Apesar disso, começaram a viver juntos e também juntos vieram a morrer no dia 4 de dezembro de 1980, no acidente de Camarate, que para além de Snu e Sá Carneiro, vitimou Adelino Amaro da Costa. Isto quando os três se dirigiam para o encerramento da campanha presidencial de António Soares Carneiro. Snu contava então 40 anos de idade.»
Foi realmente uma excelente editora que, mercê de
certas ligações ,se movimentava bem entre a clique da ditadura, conseguindo coisas de esquerda que eram
rigorosamente proibidas a outros editores.
Cada volume da Dom Quixote trazia estes postais de
encomenda que outras editoras como a Seara Nova, a Portugália, as Publicações
Europa-América também praticavam.
OLHAR AS CAPAS
O Cinema Entre Nós
Lauro António
Colecção Cadernos de
Cinema nº 8
Capa: Fernando
Felgueiras
Publicações Dom
Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1970
Rompendo o silêncio comprometido que a envolveu nos últimos anos, a
Cinemateca Nacional iniciou em 21 de Março de 1968, um ciclo de exibições
semanais subordinado ao título Os Filmes da Cinemateca, durante o qual projectou (sem qualquer critério que não fosse o enunciado
no próprio título, ou seja: filmes que a Cinemateca guarda postos à disposição
de todo o público galardoado com a sorte de um convite) algumas obras
importantes na história da cinematografia mundial.
TODOS OS MEUS AMIGOS VIAJAM SEMPRE EM 1.ª CLASSE...
Todos os meus amigos viajam sempre em 1.ª classe…
Pelo menos levam a cabeça em 1.ª classe.
Do Universo, vêm ter comigo
E me dizem:
“O senhor não pode ir aqui,
“O seu lugar não é aqui,
“O senhor tem que ir para a 3.ª classe
do seu corpo
“ o senhor tem que viajar onde os seus
olhos dizem
Sim, porque esta é que é a verdade;
Os meus olhos dizem sempre:
3.ª classe, 3.ª classe. 3.ª classe…
Um dia tive uma rapariga
Pareceu-me que ela era como eu,
Que viajava em 3.ª classe.
Gostava dela porque era macia
E boa para tudo quanto vivia.
Gostava dela porque acendeu duas luzes
Na minha 3.ª classe sempre tão escura,
Sempre tão 3.ª classe.
E ela viajou comigo muitas horas
Brilhantes de 1.ª classe.
Mas não.
Não… de facto ela viajava comigo
Porque não tinha mais ninguém.
Mário-Henrique Leiria de Poesia Édita, Inédita e Dispersa em Poesia
terça-feira, 31 de março de 2026
SOLTAS
António Bagão Félix é um apaixonado pela natureza, pelo seu Benfica, foi ministro e secretário em alguns governos de direita, é profundamente católico, aparenta um interessante sentido de humor.
Contudo, não me perguntem como apareceu por aqui esta
ampulheta de palavras, apenas a reproduzo porque, nestes dias da loucura-trágica-da-guerras, achei piada.
1.
A Igreja Católica vai
pagar, ao redor do mundo, muitos e milhões de euros às vítimas de abuso sexual
perpetradas pelos seus padres.
A Conferência
Episcopal Portuguesa deu por concluído o processo de atribuição de compensações
financeiras às vítimas de abusos sexuais no âmbito da Igreja Católica em
Portugal com a atribuição de entre nove mil e 45 mil euros a pelo menos 66 dos
78 pedidos elegíveis apresentados. Há 57 pedidos já totalmente finalizados e
nove em fase de análise para definição do montante, além de um outro a aguardar
decisão da Santa Sé. Os montantes já definidos são superiores a 1,6 milhões de
euros. A associação que representa as vítimas diz que valores são “uma
afronta”.
A face negra da igreja pelo mundo.
2.
Morreu Noelia Castillo, a espanhola de 25 anos tinha pedido morte medicamente
assistida, depois de ter ficado paraplégica na sequência de uma tentativa de
suicídio, e o pedido foi aceite em 2024, mas o processo arrastava-se devido a
uma batalha legal com o pai. A eutanásia é legal em Espanha e foi o quarto país
da União Europeia a legalizar a morte assistida.
Defender a morte assistida de quem já não pode viver bem não é defender a morte: é defender a vida.
3.
Lisboa está um caos!
Carlos Moedas é um
péssimo presidente de Câmara, mas acaba de contratar um “chef” para ter
“refeições com serviço de qualidade superior” em eventos organizados pela
Câmara e tem uma despesa de 33.600 euros + IVA e é válido por 2 anos.
Se soubessem disto,
que diriam os sem-abrigo da cidade?
4.
Lifeboat, em português chamou-se Um Barco e Nove Destinos, é um filme dirigido, em 1944, por Alfred Hitchcock e baseado numa história de John Steinbek. O realizador explicou que era um filme de guerra mas em que quis mostrar que havia duas forças no mundo: as democracias e o nazismo.
5.
Lemos e ouvimos que o
estado de Israel é uma democracia.
Tomámos, agora, conhecimento, com profunda preocupação,
do impedimento imposto pelas autoridades israelitas ao Patriarca Latino de
Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, de celebrar a missa de Domingo de
Ramos no Santo Sepulcro, situação sem precedentes em séculos recentes.
A mesma democracia israelita aprovou, também agora, uma lei que torna a pena de morte a sentença padrão para palestinianos condenados por tribunais militares por ataques letais, concretizando assim uma das principais promessas dos aliados de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, como Itamar Ben-Gvir, que ocupa actualmente o cargo de ministro da Segurança Interna de Israel. há muito defende a pena de morte.
SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS
Intitula-se «Saramago e a escola que desiste de pensar»,
o artigo que Daniel dos Reis Nunes publica, hoje, no Público.
OLHAR AS CAPAS
Na Jogada
William Riordan
Tradução: M. Ferreira
Capa: João Botelho
Colecção: Série Negra
nº 1
A Regra do Jogo,
Lisboa, 1979
- Pois é, Joe. Claro. Bom, sou eu que o tenho. Mal te reformes e depois
de contares toda a história à comissão criminal e não te esqueças de que estão
proibidos por lei de perseguir quem quer que seja incluindo tu próprio, pode
rematá-la dizendo que eu o conservo em gelo no porão do iate. Ele sempre foi um
grande viajante, não é?
Bem, meus senhores, é tudo. Nada mais tenho a dizer.
MENINO
Em mim
a infância permanece,
tal num jardim
o canteiro se aquece
de rosas e alecrim.
De encontro ao velho muro
que ruir de ilusões!
E eu continuo
a ter medo do escuro
e a sonhar com ladroes!
Saul Dias
segunda-feira, 30 de março de 2026
SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS
«José Saramago pode deixar de ser um autor de leitura obrigatória no 12.º ano, podendo os professores escolher em alternativa uma obra de Mário de Carvalho. Esta é uma das alterações previstas na proposta de revisão das aprendizagens essenciais de Português, um documento do Ministério da Educação, que está em consulta pública até dia 28. Alunos do secundário devem ler 60 minutos por dia, ser capazes de interpretar, recriar e debater os textos que lêem e serão avaliados também pela postura e dicção nas apresentações orais.»
Inês Schreck no Público, 30 de Março
A posição da Fundação José Saramago:
«E agora quero também agradecer aos escritores
portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles
que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio
juntar.»
Com esta frase terminava José Saramago o seu discurso
de agradecimento do Prémio Nobel, a 10 de dezembro de 1998. A Fundação
José Saramago considera conveniente recordá-la diante das notícias ontem
tornadas públicas, relativas a uma possível alteração na lista de livros
de leitura obrigatória para o 12.º ano, que se encontra em consulta pública até
ao dia 28 de abril.
A posição da Fundação José Saramago será sempre a de
agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição. Daí que
deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de
leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra “ou” pela
palavra “e”, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor
de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores
participem também na formação das novas gerações de leitores.
De qualquer forma, não podemos deixar de colocar duas
questões:
— Qual o critério para esta alteração?
— Se esta alteração também abrangerá outros autores que integram o cânone da
Literatura Portuguesa, colocando-os como de leitura sugerida e não obrigatória?
Lisboa, 30 de março de
2026
DO PECADO ORIGINAL
“Lideramos a luta contra o wokismo. O CDS é o original"
Paulo Núncio, in Expresso, 19/03/2026
Se eu pudesse recrutar os bons ofícios deste destemido deputado, recrutá-lo-ia
um dia para pôr ordem no meu jardim porque nele abundam as plantas
hermafroditas. Aquele pequeno território não é governado pelas leis do
binarismo e já várias vezes fiz esta pergunta: o que se passou no Jardim do
Éden, que outros pecados nele foram cometidos para além daqueles em que caíram
Adão e Eva? Terá o Jardim do Éden sido afinal a estação originária para
orgulhosas manifestações do wokismo das plantas? Estamos aqui perante uma
questão ideológica ou teológica? Se o CDS “é o original”, talvez o original
deputado saiba muita coisa desconhecida sobre o pecado original.
OLHAR AS CAPAS
A Filha do Arcediago
Camilo Castelo Branco
Colecção: Livros de
Bolso Europa-América nº 144
Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1977
Leitores! Se há verdade sobre a Terra, é o romance, que eu tenho a
honra de oferecer ás vossas horas de desenfado.
Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a
vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de cenas, que se
viram, que se realizaram, e deixaram de si vestígios, que fazem chorar, e fazem
rir. Esta dualidade, que caracteriza todas as cousas deste globo, onde somos
inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infalível sintoma de que o meu
romance é o único verdadeiro.
Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a
vida do meu próximo, nem ando pelos salões atrás duma ideia, que possa
estender-se por um volume de trezentas páginas, que, depois, vil espião, venho
vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.







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