Donald Trump reconhece os
resultados das eleições intercalares, mas rejeita responsabilidade pessoal e
garante que o resultado seria outro se o seu nome estivesse no boletim de voto.
Trump promete cooperação
com os democratas.
Alguém acredita?
Donald Trump reconhece os
resultados das eleições intercalares, mas rejeita responsabilidade pessoal e
garante que o resultado seria outro se o seu nome estivesse no boletim de voto.
Trump promete cooperação
com os democratas.
Alguém acredita?
Um povo ofendido e desgastado, obrigou Donald Trump, que pensava
mais nos novos salões de baile da Casa Branca do que no quotidiano, a
reconhecer a derrota, bem como o desvario das suas loucas propostas para a
América e o Mundo.
Tempo de lançar o estúpido boné, onde se lia fazer a América
grande outra vez, para o chão, e confidenciar a um dos seus muitos assessores-capachos:
«Quando os ventos de mudança sopram, meto-me debaixo da mesa.»
Não nos deixam cantar,
Robeson
meu canário com asas de
águia
Meu irmão negro com
dentes de pérola
Não nos deixam cantar
as nossas canções.
Têm medo, Robeson
medo da aurora, medo de
olhar
medo de ouvir, medo de
tocar.
Têm medo de amar,
medo de amar como amou
Ferhat, apaixonadamente.
(Decerto que também
vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como é
que tu lhe chamas, Robeson?)
Têm medo da semente e
da terra,
medo da água que corre,
medo da lembrança.
A mão de um amigo que
não deseja
nem desconto nem
comissão nem moratória
igual a um pássaro
quente
não apertou nunca a sua
mão.
Têm medo da esperança,
Robeson, medo da esperança!
Têm medo, meu canário
com asas de águia,
Têm medo das nossas
canções, Robeson…
Nazim Hikmet
A casa compõe uma por uma as suas sombras, a casa prepara a tarde, frutos e canções se multiplicam, nua e aguda, a doçura da vida.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Legenda: pintura de Diego Rivera
Faze que a vida seja o que te nega.
A luta é tua: fá-la.
Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.
Ergue com o vigor do teu pulso;
solda-o em aço.
E da tua obra afirma:
- Sou o que faço.
João José Cochofel em 46º Aniversário
Pela noite adiante, com a sorte na algibeira,
cada homem procura um rio onde dormir.
Eugénio de Andrade
Aos poucos vamos deixando
para trás o culto dos mortos.
Por este dia de finados,
os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de carros e
pessoas como há uns anos atrás.
Os cemitérios já são pouco
visitados.
Lembro que a Rua Morais
Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás, era um
mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.
Aos poucos, vai-se
perdendo o culto dos mortos.
A incineração emprestou ao
ritual da morte, outros olhares.
José Gomes Ferreira, no
dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns
«Hoje, dia de esquecer
os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas, crepes, luto, flores para
coroar caveiras…»
A minha avó marcava o dia
de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas
que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos
santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.
O meu avô
exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar
as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas
devemos deixá-los em seu sítio.
Muitos anos depois, hei-de
ler em Dóris Graça Dias:
«Apaixonamo-nos pelas
pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando
deixamos de as ouvir.»
Creio que foi em José
Tolentino Mendonça que li a interrogação:
E se pensar na morte
fosse a melhor maneira de dar valor à vida?
Escreveu ainda:
À beira do fim há
sempre tanta coisa que começa!
Mas o poeta russo, Vladimir
MaiaKovski, expressava:
Não é difícil morrer.
Viver é muito mais.
Outro russo, Anton
Tchekov:
«Procurava o seu
habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde estará ela?
Qual morte” Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto? – disse ele de súbito em voz alta. Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse
instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele
prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o
seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se
menos frequentes.
- Acabou-se! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. “Acabou-se a morte – disse a
si mesmo – Já não existe.”
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»
Há aquela fala na Grande
Paz de Edward
Bond:
«Se eu pudesse tirar o
ar do corpo dos mortos com o cuidado de quem põe um grão de areia em cima de
outro, quando o ar lhes saísse da boca talvez as línguas deles falassem e me
dissessem porque razão vivemos e sofremos e porque vivemos nesta terra e somos
enterrados nela.»
Legenda: pintura de Jakub
Schikaneder.
O título do texto é um verso de Cesare Pavese.
A Meu Pai
Pai! quando às horas do findar
do dia,
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…
Pai! Diz-me: sabes que secreto
laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo?…
Pai! sou teu filho! – sou teu
filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as aguas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?
Pois, como à nave que não tem
nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!
Pai! meu sincero, meu finado
amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…
Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…
Pai! A Desgraça se enlaçou
comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Dize-me o rumo, quero ver se o sigo…
Pai! Tua pobre campa, tão
singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…
Ai! que é tão triste não se ter ninguém!
Ao menos, Eva, o nosso encanto,
– vê-lá? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!
Autor desconhecido
Ontem, a polícia voltou a carregar violentamente sobre manifestantes em Lisboa e no Porto.
Diana Andringa talvez lembre que continuam a partir o espelho dos sorrisos de Abril, ou José Gomes Ferreira na sua Intervenção Sonâmbula: «Estamos no fim da Revolução», mesmo Mário-Henrique Leiria:
«Porque
foi isto assim possível? propomos a explicação de que houve, como
"originalidade" típica, muito improviso no processo revolucionário,
que esqueceu a sua defesa, criando a alastrando a angústia na pequena
burguesia, camada significativa na sociedade portuguesa, a que até muitos
trabalhadores as piram por força das motivações que o obscurantismo fascista
teve longo tempo para semear.
Angústia semelhante à que agora
ressurge com o agravamento das condições de vida, a subida arrogante da
reacção, a incerteza do futuro que tem que ser construído de novo.
O Povo terá pois que teimar para que respeitem a sua vontade de acabar com a
exploração do homem trabalhador pelo homem esperto. Para que as condições de
vida sirvam as classes desfavorecidas. Para que acabem as perseguições aos que
olham o futuro sem medo da mudança. porque a justiça social deixe de ser uma
miragem evangélica no mundo dos mortos. Para quem produz trabalhando, exerça o
poder, Para que sejamos verdadeiramente um país Democrático.»
Legenda: Celeste dos Cravos
Os manifestantes pela habitação, por um futuro melhor, não desistem, a polícia não aprende, não se civiliza, não tem ponta de bom senso, e voltou a atacar, barbaramente, os manifestantes em Lisboa e no Porto.
«Desde já, quero deixar bastante claro que haverá participação criminal contra o ministro e contra o director da PSP pelo que eles fizeram esta noite. Uma noite negra para a história da democracia portuguesa. É absolutamente ultrapassado, intolerável. Ultrapassou todos os limites”, disse, em declarações às televisões presentes no local.»
Sá Fernandes, advogado
Graça Castanheira, hoje, no Público:
«Anuncia-se para breve uma greve geral. Que bem poderia ser vivida como um ensaio para esse grandioso boicote futuro. Um dia de treino da imaginação política, feito de piqueniques na relva, de passeios, de puro lazer, de um ócio ativo e militante. Um dia de conversas boas, de beijos e de abraços, com uma passagem pela manifestação, mas sem ficar lá o tempo todo porque protestar é ainda uma forma de relação: quem grita continua a pedir que alguém ouça. A vila não voltou a pedir nada a Boycott; ignorou-o. É isso que adoraria começar a ensaiar: estarmo-nos mesmo nas tintas, à séria, para o capitalismo rentista. Hoje, por um dia. Um dia, para sempre.»
As maravilhosas
noites estreladas de Van Gogh.
As
noites.
As
bruxas.
A
noite das bruxas.
Ninguém acredita que existam, mas que as há, há, pelo menos os espanhóis assim o dizem.
As
noites da Azinhaga, aldeia ribatejana, a avó de José Saramago a dizer-lhe que
tinha tanta pena de morrer:
«Josefa, avó de José Saramago, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada, para o céu de que nada sabia e por onde nunca viajaria, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disse, com a serenidade dos seus noventa anos e o fogo duma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo e disto se sabe por que Saramago estava lá nessa noite estrelada e, com ternura, deixou testemunho nas suas Pequenas Memórias.»
Pena de morrer, fazer passagem para Ernest Hemingway, no seu Por Quem Os
Sinos Dobram:
«O mundo é um belo sítio pelo
qual vale a pena lutar, e eu detesto ter que deixá-lo.»
As maravilhosas
noites estreladas de Van Gogh.
As
noites.
As
bruxas.
A
noite das bruxas.
Alguém escreveu que algumas cidades só deviam existir à noite.
Às vezes.
Quando
o rei fazia anos, tem longa vida, ainda faz anos, mas não mais fumou charutos.
Também
já não cachimba.
Falta
de pulmão.
Raramente,
muito raramente mesmo, fumou cigarros.
Lembra-se
do pai que fumava "Unic",
tabaco negro, uns maços de cor azul, recorda-se perfeitamente. Depois fumou
"CT", "SG" e "Ritz". Um dia apanhou um cagaço e
cortou com os cigarros. Isso permitiu-lhe viver mais anos do que aqueles que
viveria se continuasse a fumar.
Volta e meia, maquinalmente, metia a mão ao bolso à procura do maço de
cigarros. Gostava que fumassem ao pé dele. Sabia-lhe bem aquele cheiro...
Morreu aos 78 anos com um enfizema pulmonar.
A
vida é sempre um risco, com ou sem tabaco!
Clarice Lispector em A Maça no Escuro.
Donald Trump, insultou um jornalista da Reuters que o questionou sobre o seu estado de saúde e a decisão de cancelar uma deslocação ao Kansas. Trump respondeu ao repórter garantindo que se sente "perfeito" e insultando o jornalista.
«Você é repugnante. Está com um aspeto horrível»,
disse.
A Lupa, inclina-se num
trabalho de Nuno
Pacheco, no Público, sobre o novo disco de Cristina Claro, e copia:
«As mulheres são as grandes transmissoras, tanto nas canções como nas histórias».
A editora Tinta-da-China
colocará nas livrarias, a partir de 19 de Novembro, uma Antologia Fotográfica
de Augusto Cabrita, um dos grandes fotógrafos portugueses do Século XX.
«O legado de Augusto
Cabrita é de sobremaneira singular. Nenhum outro autor português do século XX
desenvolveu atividade simultânea na fotografia, no cinema e na televisão com
conjunta qualidade e profusão. Este livro de fotografia reflete o seu elevado
sentido estético, a sua mundividência e cultura visual.»
— Augusto António Cabrita,
coordenador editorial do álbum que custará 45,00 euros.
«A tarefa do fotógrafo
é «aprisionar a luz». E como era difícil — confessava Cabrita — levar o Sol
para casa, «encaixotado» dentro de uma câmara escura. Tinha que «ser
‘amansado’, ‘domesticado’, na sua explosão petrificada, quando quer[ia]
‘nascer’ para fora do ampliador». […] Das janelas da sua casa no Barreiro (um
quarto andar na Rua Almirante Reis), desfrutava uma vista magnífica sobre o
rio. Não queria cortinas nas janelas, nada que se interpusesse entre ele e a
luz.»
Jorge Calado sobre Augusto Cabrita, parafraseando a célebre formulação de Louis Daguerre sobre a fotografia.