Um dia de Julho de 1968, José Cardoso Pires numa
entrevista, a Mário Ventura, disse:
«Sou um escritor que pensa muito com o
aparo.»
Exactamente 18 títulos em 50 anos!
Em Lavagante, José Cardoso Pires aborda o
ambiente opressivo de Portugal no início dos anos 60, marcado pela censura e a
acção policial. A história, que se desenrola num contexto de perseguições e
prisões políticas, acompanha o romance entre um médico oposicionista e uma
jovem estudante, destacando a influência da repressão na vida privada e nos
relacionamentos pessoais. O livro utiliza a imagem do lavagante — um crustáceo
— para ilustrar a natureza primitiva e a falta de refinamento do país.
Uma pré-publicação começou por ser publicada na
revista O Tempo e o Modo, nº 11 do ano de 1963, como excerto de um futuro livro
de Cardoso Pires, o que não veio a acontecer.
Mais tarde, Nelson de Matos, em Fevereiro de 2008, nos
10 anos da morte de José Cardoso Pires publicou o livro na sua nova editora - Edições
Nelson de Matos, teve sete edições.
Em Setembro de 2025 a Relógio d’Água, que está a publicar
a obra completa de José Cardoso Pires, publicou Lavagante
O livro, provavelmente, estará datado, nunca teve
revisão de Cardoso Pires, mas está lá o
timbre da prosa que sempre o caracterizou.
Páginas
a reter, principalmente no Capítulo XI, uma Lisboa a viver na dita «primavera marcelista»,
após um 1º de Maio em que a polícia de choque exerceu a costumada violência,
perseguindo barbaramente os manifestantes:
«No
dia 2 de Maio, quarta-feira, e para ser mais exacto, num fim de tarde, Cecília
saiu do metropolitano nos Restauradores e dirigiu-se a certo snack-bar da rua da
Prata.
De
pois meses e meses de chuva cerrada, a Primavera, com uma persistência vegetal,
secreta, conseguia vencer o manto húmido que pesava sobra a cidade. Nas últimas
semana, o ar estava ligeiro, aliviado, e era Primavera, finalmente a Primavera,
tal como costumava chegar a Lisboa depois de muitas hesitações e de muito
trabalho para vencer as nuvens da costa.
As
pessoas mal dão por isso. Um belo dia sentem a necessidade de olhar o céu, vêem
azul, um azul fino, alegre, e dizem: “ Já sei.”. Depois descobrem as pombas do
Rossio e as colinas pousadas diante do rio, cobertas de uma luz macia,
feminina; descobrem uma nova expressão no andar das mulheres e um novo perfume –
nelas e na cidade. E todos regressam mais tarde aos autocarros e a casa. É isso
a Primavera: um novo sentido no olhar, uma nova velocidade. “Já sei”, dizem as
pessoas.»