O livro nunca vai acabar.
Bárbara Bulhosa, editoraCAIS DO OLHAR
terça-feira, 9 de junho de 2026
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Ser «craque da bola»
é o sonho de muitos jovens e das suas famílias, que nisso investem tempo e
dinheiro. Mas poucos se tornam profissionais e só uma ínfima parte chega aos
grandes clubes e às seleções.
Com base em entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e jogadores que
são ou foram promessas do futebol português, este livro demonstra que talento e
esforço não bastam para singrar. Há que ter a atitude certa. E a sorte é
fundamental.
Ao longo de 112
páginas, o autor cruza dados estatísticos, entrevistas a treinadores, psicólogos,
jornalistas e futebolistas para analisar os fatores que influenciam o sucesso
ou o insucesso de milhares de jovens que procuram chegar ao futebol
profissional.
Acontece que no
domingo fui ver o jogo de um dos meus netos, joga futebol de salão nos Reguilas
de Tires, e o jogo era em Marvila.
As claques daqueles
miúdos são os pais, as mães dos jogadores e algures não entendem que aquilo é
um passar de tempo, um divertimento, e não uma luta, a roçar o palavreado
violento, e provavelmente sonham que o filho poderá ser um Cristiano Ronaldo
Não é bonito, é mesmo
muito feio.
Este livro de Rui Passos Rocha tenta mostrar as razões que por cada Eusébio, Ronaldo ou Vitinha, muitos
jovens talentosos e tidos como futuras estrelas acabam em ligas amadoras ou no
desemprego. Ser «craque da bola» é o sonho de muitos jovens e das suas
famílias, que nisso investem tempo e dinheiro. Mas poucos se tornam
profissionais e só uma ínfima parte chega aos grandes clubes e às seleções. Com
base em entrevistas a treinadores, psicólogos, jornalistas e jogadores que são
ou foram promessas do futebol português, este livro demonstra que talento e
esforço não bastam para singrar.
Um amigo pintor,
numa noite de bebedeira, contou ao escritor Manuel da Fonseca, que “quando
chega domingo não há nada melhor do que ir para o futebol”.
Antes e depois de
Abril, o futebol foi sempre uma arma utilizada pelos políticos para distrair a
atenção popular, para a dividir, para lhe baixar o nível de exigência, aos
políticos juntam-se os jornais, as televisões.
Durante os últimos
dias, os 4 canais televisivos, por cabo, estiveram longas e longas e longas
horas a discutirem a saída do treinador Mourinho do Benfica para o Real Madrid.
Gastariam todas
essas horas – e não seriam necessárias tantas – a falarem de um livro, de um
filme, de uma peça de teatro, de uma exposição?
Não!
Quando ouvem falar
de cultura, fogem pela direita baixa.
O futebol é um espectáculo, não pode ser um mundo à parte, ou um espelho que reflicta a nossa mediocridade.
OLHAR AS CAPAS
Promessas do Futebol
Rui Passos Rocha
Capa: Inês Sena
Fundação Francisco
Manuel dos Santos, Lisboa, Maio de 2026
A pobreza pode levar vários atletas a alimentarem-se mal,
ou obrigá-los a terem um trabalho (para além de tentarem o sonho do futebol).
Podem ter de se deslocar em transportes públicos, o que afetará o seu tempo
disponível, sobretudo se residirem em locais onde tais transportes sejam
escassos ou demorados. Por outro lado, os jovens que vivem em casas mais
pequenas e que, após as aulas, não têm atividades estruturadas ou sequer a
presença de outros membros da família são aqueles que mais saem à rua nos seus
bairros e mais tendem a pegar numa bola e jogar com os amigos.
TRUMPALHADAS
Donald Trump foi assistir a um jogo da final de basquetebol.
Acabou vaiado,mas as
vaias não impediram que adormecesse.
Alguém que adormece
num jogo da NBA , adormece em qualquer sítio, a qualquer hora.
É o que acontecerá
nas reuniões do governo, com as tragédias que, por causa disso, e não só, o
mundo está a enfrentar.
Entretanto, o somali
Omar Artan é um dos melhores árbitros de África nos últimos anos, estava entre
os três juízes do continente para ajuizar encontros do Mundial'2026, mas não
vai poder estar presente no certame que começa na próxima semana porque... os
Estados Unidos lhe negaram a entrada no país.
NUM BOSQUE QUE DAS NINFAS SE HABITAVA
Num bosque que das ninfas se habitava,
Sibela, ninfa linda, andava
um dia;
E, subida em uma árvore
sombria,
as amarelas flores
apanhava.
Cupido, que ali sempre
costumava
a vir passar a sesta à
sombra fria,
em um ramo o arco e setas
que trazia,
antes que adormecesse,
pendurava.
A ninfa, como idóneo tempo
vira
para tamanha empresa, não
dilata,
mas com as armas foge ao
Moço esquivo.
As setas traz nos olhos,
com que tira.
Ó pastores! fugi, que a
todos mata,
senão a mim, que de
matar-me vivo.
Luís
de Camões em Sonetos
segunda-feira, 8 de junho de 2026
VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS
Mais Greguerías de Ramón Gómez de la Serna:
A estrela cadente é uma
malha que cai na meia da noite.
Veneza e o lugar onde
navegam violinos-
O relógio do capitão conta
as ondas.
Trovão: queda de um baú
pelas escadas do céu.
O capitalista é um senhor
que, quando fala connosco, nos fica com os fósforos.
Depois de ajudar o cego a
atravessar a rua, ficamos um pouco cegos e indecisos.
A lua é o espelhinho com
que o sol se entretém de noite a inquietar os olhos da terra.
O gato olha para as visitas
como se a conversa lhe desse sono.
O parafuso é um prego penteado
com risco ao meio.
É na maneira de esmagar a
beata no cinzeiro que se reconhecessem as mulheres cruéis.
O arco-íris é a fita que a natureza põe depois de ter lavado a cabeça
OLHAR AS CAPAS
As Pessoas de Minha Casa
Júlio Conrado
Capa: Antunes
Círculo de Leitores,
Lisboa, Novembro de 1984
Falando de homem para homem, isto ´r, de fantasma para
fantasma, a massa de que eles se fazem tem que se lhe diga. No dia em que o o
professor de Moral me perguntou se habitualmente fazia em privado cócegas na
gaita, tinha com certeza um programa intenso: além da obrigação de assistir às
aulas, poderia ter de declamar um soneto da minha autoria ou uma estrofe de Os
Lusíadas, apalpar o cu à miúda da Cruz Quebrada, dizer olá, de longe, à minha
querida, ouvir ressonar em inglês, jogar à bola – integrava a equipa da Linha,
rival número um da de Lisboa – ouvir uma história edificante de elogio à
pobreza, espreitar a vizinha, comer em pensamento, Liberta, devorar a Beta
Humana, espremer-me em conformidade.
NOTÍCIAS DO CIRCO
«O principal objectivo da nova PSU é rebaixar os mais desprotegidos. A medida tem uma carga moral absurda, que desestabiliza e obriga os beneficiários a trabalhar a troco de uma esmola. O Primeiro-Ministro explicou que é «para que as pessoas não se mantenham na armadilha da pobreza», e a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social continuou com o seu discurso cínico. A hipocrisia dos ricos é uma coisa atroz».
Cristina
Fernandes no Bicho Ruim
ESTÁ O LASCIVO E DOCE PASSARINHO
Está o lascivo e doce passarinho
co o biquinho as penas
ordenando,
o verso sem medida, alegre
e brando,
despedindo no rústico
raminho.
O cruel caçador que do
caminho
se vem, calado e manso desviando,
com pronta vista a seta
endireitando,
lhe dá no Estígio lago
eterno ninho.
Desta arte o coração, que
livre andava
-posto que já de longe
destinado -,
onde menos temia, foi
ferido;
porque o Frecheiro cego me
esperava,
para que me tomasse
descuidado,
em vossos claros olhos
escondido.
Luís de Camões em Sonetos
domingo, 7 de junho de 2026
MÚSICA PELA MANHÃ
Andaram por aí notícias a contar das dificuldades de o povo chegar a praias em zonas de condomínios de luxo no concelho de Grândola, mas a ministra do Ambiente de Portugal declarou que o acesso ao areal é uma das prioridades para esta época balnear.
“As
praias são de todos” e “para todos” disse a ministra e isso é o mote da
abertura da época balnear.
os
meus verões são tão diversos como diversa tem sido toda a minha vida arroz de
pimentos e pasteis de bacalhau aos domingos até algés ou cruz quebrada, o mar
da infância ficava longe castelos na areia anos mais tarde dois meses na
trafaria em casa alugada a pescadores, quando as férias eram grandes uma juke
box na esplanada do marques o lucho gatica a cantar o moliendo café o marino
marini a cantar honeymoon também um barrote espetado no meio do areal, um
alti-falante no topo a ouvir-se o armando marques ferreira a apresentar o
programa da manhã do rádio clube português as canções das praias de todos os
anos kanimambo pelo joão maria tudela a lenda da conchinha da celly
campelo o ouro negro setembro chegou vamo-nos separar os golfinhos a percorrer
o tejo a caminho da barra os bailes de despedida dos banhistas no salão de
festas dos bombeiros e agora senhoras minhas meus senhores o conjunto faz um
pequeno intervalo damas ao bufete um enorme alguidar de zinco cheio de gelo e
garrafas de vinho branco camilo alves, cada taça vinte e cinco tostões dois
para a esquerda um para a direita directrizes para o pezudo que sempre fui as
férias da infância não se repetem o ruy belo que esperava pelo verão como por
outra vida depois passei a odiar, o verão dou-me muito mal com o calor longe
muito longe da sophia que dizia que metade da vida dela era maresia e eu a
acreditar baixinho que o verão é um território do pecado, todos os pecados se
confundem e de pecados fujo a sete pés e gozar que nem um perdido com a marilyn
monroe num filme do billy wilder a dizer ao vizinho de baixo que se
vai vestir à cozinha, o vizinho na cozinha porquê e ela a dizer que no verão
anda nua pela casa e põe as cuecas no congelador o verão prestes a chegar o meu
pai a dizer-me que em setembro voltamos a ser gente e sempre sempre os gatos
selvagens e o verão a chegar sur la plage por fim mas não como último sinal há
longos anos que deixei de passar férias e apenas sinto que as férias é que
passam por mim a uma velocidade tão louca e muito longe da calma e serenidade
das férias do sr. hulot ou brigitte bardot em 1955 de biquíni em saint-tropez,
aquele grande sorriso e o resto que poderá ser um refresco de limão, muito gelo
um dedal de gin e lembrar-me ainda que nunca usei óculos de sol
sábado, 6 de junho de 2026
MÚSICA PELA MANHÃ
No dia 1 de Junho de 1926, em Los Angeles, nascia Norma Jeane Mortensensen que o mundo, mais tarde, passaria a conhecer como Marilyn Monroe.
Apesar
do muito e muito que se escreveu, nem tudo se sabe sobre Marilyn.
Marilyn
Monroe deixou um inventário que inclui fotografias, recortes de jornais,
poemas, frases, cartas, notas várias.
Os
papeis e fotografias datam de 1943, e vão até aos dias que antecederam a sua
morte.
Parte de todo este material foi publicado em livro. Os editores chamaram-lhe Fragments: Poems, Intimate Notes, Letters.
Do mundo de lendas que sempre envolveram, e envolvem, Marilyn, conta-se que um dia, em conversa com um amigo, terá tirado do bolso, um pequeno diário de capa vermelha a que chamava o seu livro de segredos.
Nesse livrinho, entre muitas outras coisas, falava dos planos de Kennedy para matar Fidel de Castro, de testes atómicos, das relações de Frank Sinatra com a Máfia, do movimento dos negros pelos direitos de igualdade, conversas que Marilyn ouviu enquanto conviveu com os Kennedys.
Naturalmente este livro de segredos não consta de Fragments: Poems, Intimate Notes Letters.
Diz, quem já o leu, que Fragments, não é a essência da literatura, mas permite concluir que Marilyn não foi, exclusivamente, a loura burra que que a indústria de Hollywood construiu e impingiu à opinião pública de todo o mundo.
«Um símbolo sexual torna-se
um objecto. Eu detesto ser um objecto», disse a actriz.
O escritor António Tabucchi (1943-2012), escreveu o prefácio para a edição francesa do livro, e observa:
No interior deste corpo
vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de
suspeita.
Para
a música desta manhã vamos buscar algumas canções de Marilyn:
sexta-feira, 5 de junho de 2026
TRUMPALHADAS
Donald Trump, o louco, queria gastar mais 862 milhões de dólares no Salão de Baile da Casa Branca.
Ao que parece, e hoje tudo nesta América Trumpiana, é noticiado no «parecer», foi retirado do projecto. O mesmo aconteceu à verba de 1,55 mil milhões de euros destinada a um fundo que Trump pretendia usar para indemnizar aliados que enfrentaram processos judiciais durante a presidência de Joe Biden.
PAUSA
Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.
A alegria que ontem foi
angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.
Antonia
Tozzi
(Tradução de Inês Dias)
quinta-feira, 4 de junho de 2026
POSTAIS SEM SELO
Este mundo que conhecemos
foi feito pelo Diabo num momento em que Deus não estava a olhar.
Bertrand
Russell
O OUTRO LADO DAS CAPAS
O Partido e a guerracolonial, pág. 293 do 4º volume da Biografia de Álvaro Cunhal:
«Onde melhor poderemos lutar contra a guerra é lá onde ela se faz e junto daqueles que a fazem e junto dos milhares de jovens soldados que nessa guerra estão envolvidos. É aí, dentro dos quartéis, nos momentos de embarque e no próprio campo de batalha, que os comunistas e todos os jovens progressivos podem mobilizar os soldados para acções a atitudes objectivamente contra a guerra e neutralizar a influência e as ordens dos comandos e oficiais fascistas. Podem agir de modo que, onde as tropas fascistas poderiam obter uma vitória, tenham uma derrota».
OLHAR AS CAPAS
Álvaro Cunhal
O Secretário-Geral
(1960-1968)
Volume IV
José Pacheco Pereira
Temas e Debates, Lisboa,
Dezembro de 2015
…apesar disso, Sampaio confessou várias vezes o fascínio
que a presença e inteligência de Cunhal lhe tinham suscitado.
VISITA
Fui procurar-te à última
morada,
Não te encontrei. Apenas encontrei
Lousas brancas e pássaros cantando...
Teu espírito, longe, onde não sei,
Da obra na eternidade assegurada,
Sorri aos amigos, que te estão chorando.
Manuel Bandeira em Obras Poéticas
quarta-feira, 3 de junho de 2026
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Da pág. 412 do 3º volume da Biografia de Álvaro Cunhal :
Das janelas das celas pouco se via,
embora num poema de Borges Coelho se diga que «em dias claros vê-se a Nazaré.» A
presença do mar era uma constante e os poemas escritos pelos presos de Peniche
fazem-lhe constante referência, quer como uma metáfora de liberdade, quer como
fonte de perturbação, pelo seu ruído regular, do estado de espírito dos presos.
A ambivalência de registos é ainda maior quando o texto é escrito por alguém do
«exterior», como é o caso do poema de David Mourão Ferreira,
Abandono
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar!
Este poema, cantado por Amália Rodrigues ficou conhecido como «Fado Peniche», e aqui o mar e o vento são vistos como sinal de vida e esperança.
OLHAR AS CAPAS
Álvaro Cunhal
O Prisioneiro
(1949-1960)
Volume III
José Pacheco
Pereira
Capa: António
Rochinha Diogo
Temas e
Debates, Lisboa, Fevereiro de 2006
Uma «biografia política de Álvaro Cunhal
não pode ser feita apenas dos eventos directamente relacionados com o
prisioneiro, porque o biografado associou como poucos a sua vida pessoal com a
história do comunismo português. Não há na sua visa adulta uma frase que tenha
escrito, um desenho que tenha feito, um acto de que tenha sido responsável que
não tivessem como interlocutor privilegiado o PCP. Por isso, não pode
compreender Cunhal, mesmo nos seus anos de maior isolamento, sem relação total
com o partido de que fazia parte.
NOTÍCIAS DO CIRCO
O PSD vai-se atolando.
Num repente, tentando o desespero de ver o pacote laboral aprovado na Assembleia da República, abraçou-se, mais uma vez, «aquela coisa», para adiar, até 30 de Dezembro, a entrega de projetos de revisão da Constituição.
Entretanto, Luís
Montenegro disse “não fazer ideia” de qual será a adesão à greve geral de hoje,
mas tem a convicção de que “a grande maioria, a esmagadora maioria dos
portugueses que trabalha, vai trabalhar amanhã
Montenegro
acrescentou que, muitas vezes, o que acontece é que uma minoria consegue
condicionar o trabalho dos outros. "Eu espero que isso não aconteça,
espero que se conciliem as duas coisas, que é, uns têm o direito a exercer o
direito à greve e fazem-no, outros têm o direito a trabalhar e também o possam
fazer", vaticinou.
AGRICULTURA
Agrícola era
o sonho dos antigos
menestréis
criados lavradores
frenesi
demente nos postigos
interessantes inventos pra doutores
houve ainda
um fado de em criança
um boi
domesticado nos seus urros
por dentro
dos amanhos um choro repelente
que vinha das
searas dos donos e dos burros
agrícola o
modo por que canto
redondo poder
que os meus avós legaram
com loucos
sim palermas no seu sono
primos de
tanta vida pelas enxadas
ancinhos
arados abandono
agrícola é o
vinho e seu prazer
o som funesto
do suor pela barba
e todas as
mulheres
de narinas
refeitas
e seios de
pinho antigo
mulheres de
tanto azedo e xaile
e tanto filho
assim
senhores doutores
a toda a
vossa seita
esta colisão
infame esta desfeita
meus pobres
cochichando nos sentidos
de tanta
solidão
meu braço
desesperado
na testa já
cantando
meus
camponeses rindo.
Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível
terça-feira, 2 de junho de 2026
POSTAIS SEM SELO
Staline nunca percebeu porque razão é que Shostakovich não lhe dedicou uma das suas obras principais e insistia em passar em claro todas as sua vitórias políticas sem uma sinfonia, ou um quarteto, ou uma ópera, ou mesmo uma canção.
Vladimir Zak
citado por José Pacheco no 2º volume da biografia de Álvaro Cunhal.
Legenda:
Dimitri Shostakovich
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Página 558 do 2º volume da Biografia de Álvaro Cunhal:
«E foram também intelectuais comunistas
que traduziram esteticamente o carácter «heróico» do momento. O conjunto de canções que
Fernando Lopes-Graça compôs, no entusiasmo dos dias iniciais do MUD, foram
talvez a mais importante herança simbólica de um movimento que parecia
imparável e em que tudo parecia possível.
Vieram a ser publicadas na Seara Nova, nos finais de 1945 com poemas de José
Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira e Arquimedes da Silva Santos, todos
militantes ou simpatizantes comunistas. Uma canção intitulada «Companheiros, Unidos!» era apresentada como «hino
do MUD», falava de «um combate que vença e que mate – servidão, reacção,
escuridão!». Mas a que ficou mais célebre foi «Jornada», com letra de
José Gomes Ferreira, que se tornou o verdadeiro hino da oposição portuguesa
popularizado que foi pelo MUDJ».

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