domingo, 1 de março de 2026

RETRATOS


 «Andar no cinema para ser contaminado por gravíssimos defeitos de carácter não é coisa que se faça a um velho católico e apostólico romano. Não acredito que se possam fazer bons filmes em pecado mortal e, por isso, espanta-me que a cólera do Senhor não se tenha ainda abatido sobre mim. É certo que o Senhor conhece a extrema pobreza em que vivo e, não obstante os caminhos da perdição serem infinitos, tem-me guiado certeiramente no exercício da minha arte.»

João César Monteiro

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Os estranhos livros de Marguerite Duras.

As longas e estranhas confissões de Duras.

Dois homens, uma mulher, um desencontro. É o ponto de partida para uma história de amor terrível.
Memória infernal daquilo que não acontece.

«É a história de um amor, o maior e mais terrível sobre que me foi dado escrever. Eu sei-o. Qualquer um pode ficar a sabê-lo por si.
Trata-se de um amor que não é nomeado nos romances e que também não é nomeado por aqueles que o vivem. De um sentimento que de certo modo não tem ainda o seu vocabulário, os seus hábitos e rituais. Trata-se de um amor perdido. Perdido como perdição.
Leiam o livro, leiam-no mesmo que de início o detestem. Já nada temos a perder, nem eu dos leitores, nem os leitores de mim. Leiam tudo. Leiam todas as distâncias que vos são indicadas, as dos corredores que rodeiam a história e a acalmam e nos concedem o tempo de os percorrer. Continuem a ler e de súbito terão atravessado a história, os seus risos, a sua agonia, os seus desertos.
Sinceramente vossa.»
Duras

Apresentação do livro feita pelo Público:

«Dois homens, uma mulher, um desencontro. É o ponto de partida para uma história de amor terrível.
Memória infernal daquilo que não acontece.

Dizia Marguerite Duras: “Se não houvesse nem mar nem amor, ninguém escreveria livros.” Ainda bem que os há — porque, se tal não acontecesse, “Olhos Azuis, Cabelo Preto” deixaria de existir e de ficar gravado na memória de quem o lê.
Publicada em 1986, dez anos antes da sua morte, é a segunda obra que Duras produziu depois do êxito em torno de “O Amante”. E é um livro intenso, misterioso, que encerra em si mesmo uma verdade pouco reproduzível em palavras, de um amor que é e não é ao mesmo tempo. No final, permanece o mais absoluto de todos os silêncios. Palavras, para quê?
Mas tentemos. Comecemos pelo princípio da narrativa. “Uma noite de Verão, diz o actor, estaria no centro da história.” Uma jovem mulher, de “corpo longo e flexível”, aguarda no átrio de um hotel de praia e, pouco depois, encontra-se com um estrangeiro, igualmente alto e jovem, de olhos azuis e cabelo negro. Simultaneamente, um outro homem observa a cena através de uma janela e, atraído pela beleza do estrangeiro, não vê o rosto da figura feminina. Mais tarde, ao cruzar-se com essa mulher num café perto do mar, ela já está só, mas o homem ignora que se trata da jovem que estava com o estrangeiro. Este é o ponto de partida do livro — uma cena de equívoco, de encontro e de desencontro, de espera e de lágrimas.
Uma terrível história de amor. “Talvez o amor possa viver-se assim, de uma maneira horrível.” Impossível, aterrador, apodera-se de tudo, além das forças, além da vida, uma memória infernal daquilo que não acontece. Atravessa e percorre aquele quarto onde tudo existe. Para se perder para sempre.
O resto é apenas literatura. E, como diria Jean-François Josselin, jornalista do “Nouvel Observateur”, a literatura, em Marguerite Duras, é justamente tudo.»

Tal como a vida. A literatura é feita de encontros.

«Uma noite de Verão, diz o actor, estaria no centro da história.» 

OLHAR AS CAPAS


Olhos Azuis, Cabelo Preto

Marguerite Duras

Tradução: Teresa Coelho

Colecção Mil Folhas nº 18

Público, Lisboa, Agosto de 2002

Ele agarra-lhe nas mãos, segura-as encontadas ao rosto.

Pergunta-lhe se são os olhos azuis que a fazem chorar. Ela diz que é isso, sim, acontece que é isso, que pode dizer-se assim.
Deixa-o pegar-lhe nas mãos.
Ele pergunta quando foi.
Hoje.
Ele beija-lhe as mãos como se fosse o rosto, a boca.
Ele diz que ela tem o perfume leve e doce do fumo.
Ela dá-lhe a boca para beijar.
Diz-lhe que a beije, ele, esse desconhecido, diz: Beije o corpo nu, a boca, a pele inteira, os olhos.
Choram até de manhã o desgosto mortal da noite de Verão.

MÚSICA PELA MANHÃ


27 de Fevereiro de 2026.

Aos 86 anos, Neil Sedaka deixou-nos.

Muitos de nós pensávamos que ele era eterno mas estará sempre na Juke Box da Esplanada do Marques na praia da Lourdes na Trafaria.

A sua paixão pela colega de liceu Carole king, não era correspondida, e nasceu Oh Carol.

Carole acabou por casar com Gerry Groffin que, em jeito de brincadeira, escreveu Oh Neill que Carole cantará e por mera curiosidade se inclui nas canções desta manhã.

Daqueles velhos tempos, ainda restam Paul Anka (84 anos) e Pat Boone (91 anos).






sábado, 28 de fevereiro de 2026

TRUMPALHADAS

Sempre a falar de paz, Donald Trump atacou seis países desde o início do mandato.

Com justificações diferentes, Trump encara o uso da força como um elemento central da sua presidência: Irão, Venezuela, Nigéria, Síria, Iémen e Somália foram os seus alvos. Outros estarão em agenda como Colômbia, Cuba, Gronelândia.


Além dos países que de facto atacou, somam-se as ameaças a outros que, por enquanto, escaparam a Trump: Colômbia, Cuba ou a Gronelândia são exemplos.

A ofensiva ilegal de Israel/Estados Unidos sobre o Irão denomina-se «Operação Fúria Épica» foi levada a cabo com Trump a ignorar o Congresso, os conselheiros militares, e até J.D. Vance se manifestou céptico de intervenções militares.

É entendimento geral que não se pode fazer uma mudança, assim do pé para a mão, de regime no Irão, será mesmo uma missão impossível.

Mas Trump, qual louco a voar pelo mundo de que se diz único dono, é taxativo:

«Eu posso ficar com aquilo tudo ou acabar com isto em dois ou três dias».

SOLTAS

Faleceu Vítor Dias.

É com profundo pesar que o Secretariado do Comité Central do PCP informa que faleceu Vítor Dias, com 80 anos, recordando a sua intervenção destacada na actividade do Partido, onde desempenhou importantes tarefas e responsabilidades.

Vítor Dias, empregado de escritório, aderiu ao PCP em 1973 sendo funcionário do Partido desde 1976.

Tendo integrado diversas associações culturais e desportivas do concelho de Vila Franca de Xira, foi dirigente da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa em 1966/1967 e membro da direcção da Cooperativa Livreira e Cultural “DEVIR”. A partir de 1969 integrou diversas estruturas da CDE de Lisboa, pelo qual foi candidato na batalha política aquando da farsa eleitoral fascista de 1973 e dirigente do MDP/CDE até 1976. Militante antifascista, integrou a luta pela democracia e a liberdade tendo sido preso a 6 de Abril de 1974 e libertado com a Revolução de Abril.

Membro do Comité Central desde o IX Congresso, Vítor Dias integrou a Comissão Política do Comité Central do PCP de Maio de 1990 até 2008. Assumindo diversas tarefas, foi responsável pelo trabalho de Informação e Propaganda Central, autor de inúmeros textos na imprensa do Partido e activo participante nas diversas batalhas eleitorais a que o Partido foi chamado. Foi ainda membro da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira no primeiro mandato autárquico de 1976/1979. Nos últimos anos manteve uma atenção à situação do País e do Mundo intervindo com a sua opinião a partir do blogue Tempo das Cerejas de que era autor.

1.

Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, apenas ultrapassado pela Itália.

2.

A procura turística por Portugal continua em alta e os próximos tempos esperam-se animadores para o setor hoteleiro. Há mais de 70 hotéis que vão abrir portas durante este ano, acrescentando mais de 3800 quartos ao mercado. A maioria é em Lisboa, no Algarve e no Porto.

3.

«A comparação é cruel, justa e conduz inevitavelmente à conclusão de que os protagonistas políticos são hoje, de um modo geral, bastante medíocres e fazem deslizar para a mediocridade o discurso e toda a circunstância política».

4.

Todos nos enganamos.

Uns mais do que outros.

Todos acreditamos.

Uns mais do que outros.

Zita Seabra

Militante do PCP desde os 15 anos, passou à clandestinidade com 17 anos. Participou nas lutas estudantis até ao 25 de Abril, sendo responsável pela criação da União dos Estudantes Comunistas.

Dirigente comunista e Deputada à Assembleia da República de 1975 a 1988 pelo PCP e pela APU, foi expulsa do PCP em 1988.

Foi deputada eleita pelo Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na X Legislatura. Foi, ainda, vice-presidente do PSD em 2009.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual.

Coordenou o Secretariado Nacional para o Audiovisual em 1993, ano em que assumiu a presidência do Instituto Português de Cinema. De 1994 a 1995, foi presidente do Instituto Português da Arte Cinematográfica e Audiovisual. Aderiu ao Partido Social Democrata  e, nessa condição, Eleita pelo PSD no círculo de Coimbra em 2005, foi deputada na X legislatura e vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD na Assembleia da República até outubro de 2007. Nessa legislatura, destacou-se pelas posições que tomou contra a legalização do aborto, de que havia sido uma das mais acérrimas defensoras nos tempos de militância comunista. No XXX Congresso do PSD, em 2007, passou a ser uma dos seis vice-presidentes da Comissão Política Nacional deste partido, cargo que desempenhou até maio de 2008.

Cadernos de Lanzarote 2º volume de José Saramago:

Entrada do dia 8 de Janeiro de 1994:

« Chegaram-me ecos do desastre que terá sido a participação de Zita Seabra no programa de Manuela Moura Guedes. Entristece-me verificar como afinal valia tão pouco, intelectual e eticamente falando, alguém a  quem os acasos e  as necessidades políticas colocaram em funções e confiaram missões de responsabilidade dentro e fora do Partido. Que Zita Seabra se tenha desempenhado delas, nesse tempo, com coragem e dignidade, não pode servir para disfarçar nem desculpar o seu comportamento actual. Zita Seabra é hoje o exemplo perfeito e acabado do videirinho, palavra suja que significa, segundo os dicionários e a opinião da gente honrada, «aquele que para chegar aos fins não olha aos meios nem hesita em humilhar-se e cometer baixezas». Ouço, leio, e chego a uma conclusão: esta mulher vai acabar mal.»

OLHAR AS CAPAS

América, Nixon, Etc…

Diversos Autores

Capa: Fernando Felgueiras

Novos Cadernos D. Quixote nº 1

Publicações Dom Quixote, Lisboa s/d

Nos Estados Unidos, todos os negócios que não são tratados pelo telefone são-no em relação com o álcool ou com a gastronomia, muitas vezes em condições de embriaguez avançada.

ATAQUE COORDENADO CONTRA O IRÃO


O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, anunciou, num vídeo publicado no X, que Israel e os Estados Unidos lançaram uma "operação conjunta" contra o que classificou como a "ameaça existencial" representada pelo Irão.

 “Ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo-vos que a hora da vossa liberdade está a chegar. Abriguem-se, não saiam de casa, é muito perigoso, bombas vão cair em todo o lado. Quando terminarmos de derrubar o vosso Governo, ele será vosso para o ocuparem”, afirmou Donald Trump no final de um vídeo de oito minutos, publicado na sua Truth Social, em que anuncia o ataque militar.

"Esta será provavelmente a vossa única oportunidade durante [várias] gerações", afirmou. "Durante muitos anos, pediram a ajuda da América, mas nunca a obtiveram. Nenhum Presidente esteve disposto a fazer o que eu estou disposto a fazer esta noite. Agora têm um presidente que vos está a dar aquilo que querem, por isso vejamos como respondem."

MÚSICA PELA MANHÃ

Soube-se ontem que Donald Trump, sugeriu uma “tomada de controle amistosa” de Cuba.

“Eles não têm dinheiro, eles não têm nada neste momento. Mas estão conversando connosco e talvez tenhamos uma tomada de controle amistosa de Cuba”.

Ninguém sabe o que é um controlo amistoso de um país sobre outro. Mas vindo de quem vem, não se augura nada de bom.

Lembremos, entretanto a música cubana, fumemos um charuto e bebamos um trago de rum, ou dois...

Company Segundo que morreu de insuficiência renal com 95 anos dizia:

«Enquanto tiver sangue nas veias, vou gostar de mulheres. Um verdadeiro cubano bebe rum, fuma “habanos” e os olhos brilham-lhe quando passa uma mulher bonita na rua. Company Segundo nasceu junto ao mar, em Siboney e era filho de um maquinista que trabalhava nos comboios de minas de manganésio. Com 5 anos de idade começou a fumar charutos que acendia a pedido da avó que morreu com 115 anos.»




À LUPA

Centenas de pessoas ficaram impossibilitadas de regressar a casa por causa dos danos da tempestade Kristin. Números estão a baixar, mas há quem ainda não saiba como será o futuro.

Da reportagem de Patrícia Carvalho no Público.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Eu detesto o mando; dão-me nojo os mandões.

António Sérgio

Legenda: Alexi Pretti assassinado, em Minneapolis, pela polícia norte-americana.

OLHAR AS CAPAS


 Confissões de Um Cooperativista

António Sérgio

Editorial Inquérito, Lisboa 1948

Os povos conscientes fazem os bons governos; não são os governos que fazem os povos bons.

NESTE DIA


Estamos a 25 de Maio de 1994, com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote de José Sartamago e o tema é Miguel Torga e uma sua frase ao agradecer um prémio: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.»

A interpretação Saramaguiana da frase:

«Sem saber que palavras o conduziram a estas, sem conhecer as outras que proferiu depois, umas expondo os dados prévios do pensamento, outras apresentando as conclusões, leio algo que disse Miguel Torga ao agra­decer o Prémio da Crítica: «Logicamente, eu devia ter ficado a cavar na minha terra; esse era o meu destino.» À primeira vista, parece que Torga quis reunir numa mesma irremovível fatalidade a lógica e o destino. Po­rém, o que ele quis dizer, imagino, é que, tendo em conta o fim-do-mundo onde nasceu (as serranias de Trás-os- Montes) e a dura vida dos seus primeiros anos (uma família pobre), dever-se-ia esperar que dali saís­se, logicamente, um cavador, nunca um poeta, ou, quan­do muito, no caso de a vocação apertar, alguém que, intelectualmente, se ficaria pelas quadras de pé-quebra­do para reforço de galanteios e animação de récitas e ro­marias. Sabemos, contudo, que nem sempre as coisas se passaram assim: a vida lá encontrava maneira de partir os dentes à lógica, e o destino, duvidoso nos rumos, mais do que se crê, não raro acabou por levar aos ma­res do Sul quem do Norte julgava não poder sair. Hou­ve mesmo um tempo em que parecia que ninguém nascera nas cidades grandes, éramos todos da província.»

José Saramago apreciava Miguel Torga.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

O sentido das palavras de Torga, ou muito eu me engano, tem mais que se lhe diga. Equivalem ao discur­so de qualquer velhice lúcida - «Cheguei até aqui, fiz o que podia, lástima não ter sabido ir mais além, agora já é tarde» -, mas representam principalmente a cons­ciência dorida de que nada dura, quiçá algo mais a obra que a vida, mas tão pouco, e que, no fundo, tanto monta à felicidade, própria e alheia, ter sido capaz de escre­ver A Criação do Mundo, como, de olhos no chão, ter ficado a cavar as terras do mesmo mundo, sem outro desejo e outra necessidade que ver crescer a seara, moer o trigo e comer o pão.»

À LUPA

Há um problema grave que os americanos terão de resolver que é o da sanidade mental do homem que resolveram reeleger para um segundo mandato presidencial.

Antes disso, terão que resolver a própria sanidade mental por terem oferecido à América, e ao Mundo, tão nefasto personagem.

NOTÍCIAS DO CIRCO

O nosso grande mal, de todos os tempos, são os dons sebastião que, volta e meia, enxameiam os nossos dias.

Um político que a muita boa gente não oferece credibilidade, aproveitou os nevoeiros de Matosinhos, para desancar Luís Montenegro e o seu governo.

Cito Miguel Guedes no Jornal de Notícias:  

«Com brutalidade, Passos Coelho não resiste à tentação de acreditar que, depois de Montenegro, o futuro ainda lhe deve um último acto. Acredita que a maioria de Direita é ainda matéria moldável nas suas mãos, artífice de uma revolução inacabada. Mas o tempo político é um animal caprichoso: raramente devolve intacto aquilo que um dia ofereceu.»

Estamos nisto e os papagaios-comentadores-televisivos tão cedo não vão largar o osso e, como em quase tudo, deixamos que isso nos aconteça.

EPÍGRAFE

De palavras não sei. Apenas tento

desvendar o seu lento movimento

quando passam ao longo do que invento

como pré-feitos blocos de cimento.

 

De palavras não sei. Apenas quero

retomar-lhes o peso  a consistência

e com elas erguer a fogo e ferro

um palácio de força e resistência.

 

De palavras não sei. Por isso canto

em cada uma apenas outro tanto

do que sinto por dentro  quando as digo.

 

Palavra que me lavra. Alfaia escrava.

De mim próprio matéria bruta e brava

- expressão da multidão que está comigo.

 

José Carlos Ary dos Santos em  Insofrimento in Sofrimento

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

NÃO PASSARÁ!

NOTÍCIAS DO CIRCO

Nunca estamos preparados para uma série de procedimentos, necessário e que têm a sua urgência.

Incompetência e mais qualquer coisa. 

«Depois de ter deixado passar o prazo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que permitiria ter um orçamento de 30 milhões de euros para a construção de dois novos centros de instalação temporária  de estrangeiros em processo de expulsão, a PSP criou uma “solução provisória”: a instalação de contentores com 80 camas na Unidade Habitacional de Santo António, no Porto. A notícia foi avançada pelo Diário de Notícias e confirmada pelo PÚBLICO junto de fonte oficial da PSP.

Expulsão de estrangeiros: depois de falhar PRR para centros, PSP paga 800 mil euros por contentores no Porto
Segundo a PSP afirmou ao PÚBLICO, o concurso para esta “solução provisória”, estimada em cerca de 800 mil euros, que sairão do orçamento da PSP, está a ser preparado, e prevê-se que a instalação dos contentores fique pronta até 12 de Junho, data em que os Estados-membros têm de ter implementadas as novas regras do Pacto para as Migrações e Asilo da União Europeia. Segundo a PSP, "a capacidade identificada para Portugal estima uma lotação instalada para cerca de 300 passageiros".

Para André Jorge, presidente do Plano de Recuperação e Resiliência — que tem defendido alternativas à detenção, referindo que esta deve ser a medida de último recurso — a solução dos contentores faz sentido enquanto for provisória, garante “habitabilidade básica", “mas claro que choca”. Atribuiu a situação a falta de planeamento, pouca transparência e ausência de debate público, defendendo que, sem visibilidade, nada disto “é discutido no espaço público”.

Afirma que a detenção é “suficientemente dura e penosa” para alguém “que não cometeu nenhum crime”: “Migrar não é um crime”, e as condições de habitabilidade, cuidados de saúde, apoio psicológico, informação jurídica e acompanhamento são “fundamentais”.»

Lido no Público de hoje

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Estamos perante um livro muito bonito.

Octavio Paz, numa nota, explica:

«As construções e caixas de Marie José são objectos tridimensionais transfigurados pela sua imaginação e a sua sensibilidade em conceitos visuais, enigmas mentais portadores, às vezes de imagens bizarras e inquietantes, outras de percepções irónicas.

Mais do que coisas para serem vistas, são asas para viajar, velas para vaguear e divagar, espelhos para atravessar.»

O texto introdutório de José Bento, acima apresentado, explica o resto. 

OLHAR AS CAPAS


Figuras e Figurações

Octavio Paz e Marie José Paz

Ilustrações: Marie José Paz

Apresentação e tradução. José Bento

Colecção Documenta Poética nº 58

Assírio & Alvim, Lisboa, Dezembro de 2000

 

Enigma

 

Nascemos de uma pergunta

cada um dos nossos actos

é uma pergunta,

nossos anos são um bosque de perguntas,

tu és uma pergunta e eu sou outra,

Deus é uma mão que desenha, incansável,

universos em forma de perguntas.

DÁ-ME A TUA MÃO

Dá-me a tua mão:

Vou agora te contar

como entrei no inexpressivo

que sempre foi a minha busca cega e secreta.

 

De como entrei

naquilo que existe entre o número um e o número dois,

de como vi a linha de mistério e fogo,

e que é linha sub-reptícia.

 

Entre duas notas de música existe uma nota,

entre dois fatos existe um fato,

entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam

existe um intervalo de espaço,

existe um sentir que é entre o sentir

- nos interstícios da matéria primordial

está a linha de mistério e fogo

que é a respiração do mundo,

e a respiração contínua do mundo

é aquilo que ouvimos

e chamamos de silêncio.

 

Clarice Lispector  

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Nas profundezas do desconhecido, para encontrar algo novo.

Baudelaire

O MUNDO A FUNCIONAR

«O mundo continua a funcionar, outras vidas decorrem sem eu ser chamada a encontrar objectos que não fui eu que perdi»

Margarida Ferra

RETRATOS


Sou egoísta, impaciente e um pouco insegura. Cometo erros, sou descontrolada e, por vezes, difícil de lidar. Mas se não consegue lidar comigo nos meus piores momentos, de certeza que não me merece nos meus melhores.

Marilyn Monroe

OLHAR AS CAPAS

Sebastião Salgado

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Às vezes a fotografia não é suficiente. Mas a luta que travamos dá-me ânimo para fazer do mundo um lugar melhor.