quarta-feira, 4 de novembro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Donald  Trump reconhece os resultados das eleições intercalares, mas rejeita responsabilidade pessoal e garante que o resultado seria outro se o seu nome estivesse no boletim de voto.

Trump promete cooperação com os democratas.

Alguém acredita?

TRUMPALHADAS


Um tsunami desfez-se  sobre a Casa Branca.

Um povo ofendido e desgastado, obrigou Donald Trump, que pensava mais nos novos salões de baile da Casa Branca do que no quotidiano, a reconhecer a derrota, bem como o desvario das suas loucas propostas para a América e o Mundo.

Tempo de lançar o estúpido boné, onde se lia fazer a América grande outra vez, para o chão, e confidenciar a um dos seus muitos assessores-capachos:

«Quando os ventos de mudança sopram, meto-me debaixo da mesa.»

NÃO NOS DEIXAM CANTAR

Não nos deixam cantar, Robeson

meu canário com asas de águia

Meu irmão negro com dentes de pérola

Não nos deixam cantar as nossas canções.

Têm medo, Robeson

medo da aurora, medo de olhar

medo de ouvir, medo de tocar.

Têm medo de amar,

medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.

(Decerto que também vocês, irmãos negros,

têm um Ferhat, como é que tu lhe chamas, Robeson?)

Têm medo da semente e da terra,

medo da água que corre,

medo da lembrança.

A mão de um amigo que não deseja

nem desconto nem comissão nem moratória

igual a um pássaro quente

não apertou nunca a sua mão.

Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!

Têm medo, meu canário com asas de águia,

Têm medo das nossas canções, Robeson…

 

Nazim Hikmet

terça-feira, 3 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

A casa compõe uma por uma as suas sombras, a casa prepara a tarde, frutos e canções se multiplicam, nua e aguda, a doçura da vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Legenda: pintura de Diego Rivera

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos. 

FAZE QUE A VIDA SEJA O QUE TE NEGA

Faze que a vida seja o que te nega.

A luta é tua: fá-la.

Agora, os sonhos em farrapos,

melhor é a luta que pensá-la.

 

Ergue com o vigor do teu pulso;

solda-o em aço.

E da tua obra afirma:

- Sou o que faço.

 

João José Cochofel em 46º Aniversário

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Pela noite adiante, com a sorte na algibeira, cada homem procura um rio onde dormir.

Eugénio de Andrade

PEQUENOS CADERNOS


Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos. 

OS VELHOS E OS MORTOS


Velho recorte de um belíssimo texto do Mário Castrim, escrito com a sua letra, lembrando que Castrim, entre tantas outras coisas, foi professor de Caligrafia na Escola Francisco de Arruda.

PARA TODOS A MORTE TEM UM OLHAR


Aos poucos vamos deixando para trás o culto dos mortos.

Por este dia de finados, os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de carros e pessoas como há uns anos atrás.

Os cemitérios já são pouco visitados.

Lembro que a Rua Morais Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás, era um mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.

Aos poucos, vai-se perdendo o culto dos mortos.

A incineração emprestou ao ritual da morte, outros olhares.

José Gomes Ferreira, no dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns

«Hoje, dia de esquecer os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas, crepes, luto, flores para coroar caveiras…»

A minha avó marcava o dia de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.

O  meu avô exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas devemos deixá-los em seu sítio.

Muitos anos depois, hei-de ler em Dóris Graça Dias:

«Apaixonamo-nos pelas pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando deixamos de as ouvir.»

Creio que foi em José Tolentino Mendonça que li a interrogação:

E se pensar na morte fosse a melhor maneira de dar valor à vida?

Escreveu ainda:

À beira do fim há sempre tanta coisa que começa! 

Mas o poeta russo, Vladimir MaiaKovski, expressava:

Não é difícil morrer. Viver é muito mais.

Outro russo, Anton Tchekov:

«Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde estará ela? Qual morte” Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto? – disse ele de súbito em voz alta. Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. “Acabou-se a morte – disse a si mesmo – Já não existe.”
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

Há aquela fala na Grande Paz de Edward Bond:

«Se eu pudesse tirar o ar do corpo dos mortos com o cuidado de quem põe um grão de areia em cima de outro, quando o ar lhes saísse da boca talvez as línguas deles falassem e me dissessem porque razão vivemos e sofremos e porque vivemos nesta terra e somos enterrados nela.»

Legenda: pintura de Jakub Schikaneder.


O título do texto é um verso de Cesare Pavese.

A MEU PAI

                                                                          A Meu Pai

                                                                          No Santo Dia de Finados

Pai! quando às horas do findar do dia,
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…

Pai! Diz-me: sabes que secreto laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo?…

Pai! sou teu filho! – sou teu filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as aguas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?

Pois, como à nave que não tem nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!

Pai! meu sincero, meu finado amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…

Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…

Pai! A Desgraça se enlaçou comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Dize-me o rumo, quero ver se o sigo…

Pai! Tua pobre campa, tão singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

Ao menos, Eva, o nosso encanto, – vê-lá? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!

 

Ângelo de Lima

domingo, 1 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Aquele momento em que alguns dizem que há algo para lá e os que, pura e simplesmente, dizem que não há nada.

Autor desconhecido

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ

Ontem, a polícia voltou a carregar violentamente sobre manifestantes em Lisboa e no Porto.

Diana Andringa talvez lembre que continuam a partir o espelho dos sorrisos de Abril, ou José Gomes Ferreira na sua Intervenção Sonâmbula: «Estamos no fim da Revolução», mesmo Mário-Henrique Leiria:

 «Porque foi isto assim possível? propomos a explicação de que houve, como "originalidade" típica, muito improviso no processo revolucionário, que esqueceu a sua defesa, criando a alastrando a angústia na pequena burguesia, camada significativa na sociedade portuguesa, a que até muitos trabalhadores as piram por força das motivações que o obscurantismo fascista teve longo tempo para semear.

Angústia semelhante à que agora ressurge com o agravamento das condições de vida, a subida arrogante da reacção, a incerteza do futuro que tem que ser construído de novo.
O Povo terá pois que teimar para que respeitem a sua vontade de acabar com a exploração do homem trabalhador pelo homem esperto. Para que as condições de vida sirvam as classes desfavorecidas. Para que acabem as perseguições aos que olham o futuro sem medo da mudança. porque a justiça social deixe de ser uma miragem evangélica no mundo dos mortos. Para quem produz trabalhando, exerça o poder, Para que sejamos verdadeiramente um país Democrático.»


Legenda: Celeste dos Cravos

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os manifestantes pela habitação, por um futuro melhor, não desistem, a polícia não aprende, não se civiliza, não tem ponta de bom senso, e voltou a atacar, barbaramente, os manifestantes em Lisboa e no Porto.

«Desde já, quero deixar bastante claro que haverá participação criminal contra o ministro e contra o director da PSP pelo que eles fizeram esta noite. Uma noite negra para a história da democracia portuguesa. É absolutamente ultrapassado, intolerável. Ultrapassou todos os limites”, disse, em declarações às televisões presentes no local.»

Sá Fernandes, advogado 

Graça Castanheira, hoje, no Público:

«Anuncia-se para breve uma greve geral. Que bem poderia ser vivida como um ensaio para esse grandioso boicote futuro. Um dia de treino da imaginação política, feito de piqueniques na relva, de passeios, de puro lazer, de um ócio ativo e militante. Um dia de conversas boas, de beijos e de abraços, com uma passagem pela manifestação, mas sem ficar lá o tempo todo porque protestar é ainda uma forma de relação: quem grita continua a pedir que alguém ouça. A vila não voltou a pedir nada a Boycott; ignorou-o. É isso que adoraria começar a ensaiar: estarmo-nos mesmo nas tintas, à séria, para o capitalismo rentista. Hoje, por um dia. Um dia, para sempre.»

sábado, 31 de outubro de 2026

NOITES ESTRELADAS


As maravilhosas noites estreladas de Van Gogh.

As noites.

As bruxas.

A noite das bruxas.

Ninguém acredita que existam, mas que as há, há, pelo menos os espanhóis assim o dizem.

As noites da Azinhaga, aldeia ribatejana, a avó de José Saramago a dizer-lhe que tinha tanta pena de morrer:

 «Josefa, avó de José Saramago, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada, para o céu de que nada sabia e por onde nunca viajaria, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disse, com a serenidade dos seus noventa anos e o fogo duma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo e disto se sabe por que Saramago estava lá nessa noite estrelada e, com ternura, deixou testemunho nas suas Pequenas Memórias.»

Pena de morrer, fazer passagem para Ernest Hemingway, no seu Por Quem Os Sinos Dobram:

«O mundo é um belo sítio pelo qual vale a pena lutar, e eu detesto ter que deixá-lo.»

As maravilhosas noites estreladas de Van Gogh.

As noites.

As bruxas.

A noite das bruxas.

Alguém escreveu que algumas cidades só deviam existir à noite. 

CONVERSANDO


 Fumar um charuto.

 Às vezes.

Quando o rei fazia anos, tem longa vida, ainda faz anos, mas não mais fumou charutos.

Também já não cachimba.

Falta de pulmão.

Raramente, muito raramente mesmo, fumou cigarros.

Lembra-se do pai que fumava  "Unic", tabaco negro, uns maços de cor azul, recorda-se perfeitamente. Depois fumou "CT", "SG" e "Ritz". Um dia apanhou um cagaço e cortou com os cigarros. Isso permitiu-lhe viver mais anos do que aqueles que viveria se continuasse a fumar.
Volta e meia, maquinalmente, metia a mão ao bolso à procura do maço de cigarros. Gostava que fumassem ao pé dele. Sabia-lhe bem aquele cheiro...
Morreu aos 78 anos com um enfizema pulmonar.

A vida é sempre um risco, com ou sem tabaco!

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

POSTAIS SEM SELO


O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu.

Clarice Lispector em A Maça no Escuro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

TRUMPALHADAS

Donald Trump, insultou um jornalista da Reuters que o questionou sobre o seu estado de saúde e a decisão de cancelar uma deslocação ao Kansas. Trump respondeu ao repórter garantindo que se sente "perfeito" e insultando o jornalista.

«Você é repugnante. Está com um aspeto horrível», disse.

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

À LUPA

A Lupa, inclina-se num trabalho de Nuno Pacheco, no Público, sobre o novo disco de Cristina Claro, e copia:

«As mulheres são as grandes transmissoras, tanto nas canções como nas histórias».

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A editora Tinta-da-China colocará nas livrarias, a partir de 19 de Novembro, uma Antologia Fotográfica de Augusto Cabrita, um dos grandes fotógrafos portugueses do Século XX.

«O legado de Augusto Cabrita é de sobremaneira singular. Nenhum outro autor português do século XX desenvolveu atividade simultânea na fotografia, no cinema e na televisão com conjunta qualidade e profusão. Este livro de fotografia reflete o seu elevado sentido estético, a sua mundividência e cultura visual.»

— Augusto António Cabrita, coordenador editorial do álbum que custará 45,00 euros.

«A tarefa do fotógrafo é «aprisionar a luz». E como era difícil — confessava Cabrita — levar o Sol para casa, «encaixotado» dentro de uma câmara escura. Tinha que «ser ‘amansado’, ‘domesticado’, na sua explosão petrificada, quando quer[ia] ‘nascer’ para fora do ampliador». […] Das janelas da sua casa no Barreiro (um quarto andar na Rua Almirante Reis), desfrutava uma vista magnífica sobre o rio. Não queria cortinas nas janelas, nada que se interpusesse entre ele e a luz.»

Jorge Calado sobre Augusto Cabrita, parafraseando a célebre formulação de Louis Daguerre sobre a fotografia.

ÁGUIA

As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas:

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

 

Carlos de Oliveira em Poesias

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


O homem só é profundamente o que aparenta.

José Gomes Ferreira