Sábado de Aleluia.
Hoje, pela manhã, é tempo de
ir a um supermercado comprar, para os netos, um coelho grande de chocolate, com
surpresa dentro, ovos de chocolate e gomas.
Dizer que e festa
chocolateira não é só dos netos.
Chocolatedependente que
sou, a posição primeira na grelha de partida para comer o coelho grande de
chocolate, é minha.
Doce dependência, com o
pormenor-escândalo-da-família, de que não se contenta, logo que uma chocolate
de chocolate tablete é aberta, em comer um quadradinho, ficar a saboreá-lo de
olhos fechados, enquanto se derrete na boca.
Não! Tablete aberta,
tablete consumida.
O resto, bom o resto logo
se vê e aguardar as palavras do costume do médico de família quando olha as
análises deste emocionalmente desequilibrado portador de angústias
chocolateiras.
Talvez tenha lido que sem
um toque de loucura não existem homens sensatos.
Mas de onde lhe vem o
grito delicioso do chocolate?
Como quase tudo, terá que
ir à infância.
Já contei isto, mas
continuemos.
A caminho do Liceu Gil
Vicente, na Graça, também para a casa da avó paterna na Rua Senhora do Monte,
percorria toda a Rua da Penha de França, chegava a Sapadores, e aí estava a
Fábrica de Chocolates Favorita e, neste ponto, socorre-se de Mário de Carvalho porque
conta melhor do que eu, alguma vez possa, contar:
«Voltemos ao volutpuoso
aroma de chocolate que descia por sobre o bairro e impregnava os ares, as
casas, as roupas e nos punha logo bem dispostos, na nossa meninice voraz de
guloseimas caras. Provinha ele da Fábrica Favorita que levantava na outra
esquina, a sua arquitectura graciosa e robusta, mesmo ao lado de um jardim
esconso e sombrio em que ficava a casa do arquitecto Raul Lino. Nos anos
oitenta do século vinte, por contingências do mercado ou por gestão trapalhona,
a velha Favorita fechou e ficou para ali, abandonada. Aquela
atmosfera adocicada e benigna dilui-se tristemente nas alturas e o bairro foi
invadido pelos odores banais de Lisboa. Se não fosse a variação dos ventos,
pesaria ali a fumarada dos escapes e outros eflúvios maléficos…
Na Lisboa tristonha e
pobre desses tempos eram estes pequenos milagres que alegravam a nossa infância
e deixaram um sorriso na memória.»
Guardo o cheiro a
chocolate e também lembro, com uma nitidez deveras melancólica, os operários de
ganga azul, as operárias de bata branca, a descerem a rampa para, depois do
almoço na cantina da fábrica, irem beber o café nas pastelarias em redor,
certamente a «A Mimosa da Graça»?
Este pormenor não consigo
clarificar, mas o que lembro mesmo são os operários, elas de bata branca, eles de
ganga azul.
Depois chegaria ao poema
de Álvaro Campos:
«Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida!»
Há também Chocolate um
delicioso filme de Lasse Hallstrom, um conto de fadas maravilhoso pelos
chocolates mas também – e não é aspecto de somenos – pela Juliette Binoche.
Li, já não
lembro onde, que é um filme para comer com os olhos.
E ficamos assim.
Ou melhor: ficamos com o
Tom Hanks, na pele de Forrest Gump, sentado num banco, à espera de um
autocarro e a dizer:
«A vida é como
uma caixa de bombons. Nunca sabemos o que nos espera…»
De resto fiquem a saber,
que há poucos problemas que um chocolate não possa resolver.