sexta-feira, 23 de outubro de 2026

CONVERSANDO

Os livros são muitos.

Após a 1ª leitura, voltamos a pegar neles alguns para releituras, outros por circunstâncias várias.

É o caso das cartas que Luiz Pacheco trocou com António José Forte: Mano Forte

Novembro de 1961, a lindíssima e genial Natália Correia, assim referida pelo Pacheco:

«A Natália foi ontem para o Porto, com uma grande trupe de amantes dos dois sexos, parir o livro dela. É claro que eu, simples editor, fiquei com o pé no estribo e perdi a boleia em favor não sei de quem. Mas o livro sai para a semana e(espero). Assim, temos Contraponto a inaugurar a época com obras formiváveis!»

O livro da Natália Correia, é o 2º livro editado pela Contraponto: Cântico do País Emerso. O 1º foi  Comunicação em 1959.

A outra obra formidável publicada pela Contraponto, era  Poemaacto do Herberto Helder.

TRUMPALHADAS

 «A traição americana, que permite o sentimento de vitória russa, não é só perpetrada em relação à Ucrânia. A Europa que se obrigou a desistir do combustível russo também é vítima da traição..Quando se cumpriram quatro anos da invasão russa, escreveu-se aqui um editorial com o título: "A Rússia não está a ganhar." Exactamente nove meses depois, esse título está errado. Graças a diversas iniciativas norte-americanas, que, com propriedade, devem ser classificadas de “traição”, Putin tem justificadas razões para acreditar que a vitória é possível e poderá não estar assim tão longe.»

David Pontes no Público

HARMÓNIO

Como ladrão ou mulher
pública: vens de noite.
Trazes o harmónio,
a masculina
música roubada às fontes.
Não te esperava; só uma vez
te esperei tremendo de amor:
eu era tão pequeno
que não me viste.
Nem uma palavra ousas;
só os olhos suplicam que te roube
à morte, que devolva ao sol
a modesta desordem dos teus dias.
Que escute ao menos a pobre
e rouca e desamparada
música do teu pequeno harmónio.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Cantava e sacudia com um bater de asas a humidade da manhã. É absurdo, repito. Pois os mortos não escrevem.

João Miguel Fernandes Jorge

TRUMPALHADAS

Donald Trump é um ignorante nato, narcisista, mau e vingativo.

Como chegou a presidente dos Estados Unidos – duas vezes! – é caso para estudo, assim como a quantidade de adeptos e seguidores que tem medo pelo mundo.

Ontem. Donald Trump, voltou a insultar jornalistas ao chamar "tonta" a uma repórter da CNN e "estúpida" a outra profissional da ABC News, que lhe perguntavam sobre a libertação de um americano detido na Rússia.

HIENA

Uma pequena viagem ao passado pode durar

quilómetros e horas. É isto que acontece

a quem se perde? Tiremos as coisas mais óbvias

do caminho e deixa de haver uma resposta certa,

porque deixa de haver uma resposta errada.

Por aqui, venham comigo

 

É melhor irmos andando (a grande hiena

caça à noite, varre o deserto com os olhos

vermelhos). O povo acode à praça para ver a raínha

no regresso. Amélia entrega esmolas para aliviar

os pobres, Há pessoas a correr à nossa frente,

o país a perder-se no interior do seu monstro.


Vítor Nogueira em Resumo: a poesia em 2010

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Que haverá coisa melhor que ver o mar?

Olga Gonçalves em A Floresta em Bremerhaven

VISITAS À LOJA FRENESI


Na habitual visita à Loja Frenesi encontrei as cartas de Luiz Pacheco endereçadas a Mano Forte que, na altura, dirigia uma das bibliotecas do Serviço Itinerante da Fundação Gulbenkian.

Luiz Pacheco terá sido um dos bons clientes dos CTT.

Comprei este livro, o meu exemplar é o 366, em Dezembro de 2002.

Diz-nos Bernardo de Sá Nogueira:

«Luiz Pacheco residia com Maria do Carmo Matias em Almoinha (Santana-Sesimbra) desde 1960. A carta de 1 de Novembro dá-o em Cacilhas, vindo de Santarém a caminho de Almoinha».

Ainda Bernardo Sá Nogueira:

«…Luiz Pacheco diz ter quatro empregos: 1- revisor-chefe na Seara Nova; 2 – revisor-paginador-chefe na Revista Portuguesa de Economia e Finanças; 3- revisor-literário-chefe na Editorial Livros do Brasil; 4- revisor-aprendiz no jornal “O Século”. Três deles , porém, seriam mais empregos em perspectiva que outra coisa: “de todos este grande futuro, só comecei ainda a trabalhar na Seara”. Menos de um mês depois, em 1 de Novembro, informa Ant´nio José Forte que perdeu em Lisboa “os empregos todos, com certa alegria”»

Um ligeiro chamar de atenção de Bernardo Sá-Nogueira:

«Dos textos transcritos irrompem, singulares, Luiz Pacheco e a sua opinião. A leitura de quaisquer cartas por si escritas, antigas ou noivas, deixa-nos sempre a mesma dúvida: escrita premeditada, no pressuposto da publicação – como acusou Manuel de Lima».

Jorge Listopad numa entrevista de Luiz Pacheco:

Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca mais me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca eram mais de 100 ou 200 paus…

Finalizo com um sublinhado meu:

Carta – 1 de Novembro de 1961. Cacilhas. De regresso de Santarém e a caminho de Sesimbra/Almoinha:

Caríssimo

Recebida hoje rua carta no Gelo, quando voltava de Santarém com o Herberto Helder. O livro dele, edição Contraponto a pagar em futuro incerto (pelo Autor, tá visto), está quase pronto. Chama-se Poemacto e acho que é o melhor que ele fez. Uma grande saltada para fora daquele seu estilo habitual e um pouco arrebicado dos livros anteriores

 

LUIZ PACHECO
org. e notas de Bernardo de Sá Nogueira
capa de Rui Ochôa (fotog.)

Lisboa, 2002
Livraria Alexandria
1.ª edição
186 mm x 130 mm
176 págs.
exemplar em muito bom estado de conservação; miolo limpo mas com apontamentos manuscritos de Luiz Pacheco
PEÇA DE COLECÇÃO
VALORIZADO PELA ASSINATURA DE POSSE DO AUTOR («EXEMPLAR N.º 814 – O MEU – 19/4/2002»)
250,00 eur (IVA e portes incluídos)

Volume constituído por cartas de Luiz Pacheco (1925-2008) dirigidas ao poeta surrealista António José Forte (1931-1988), a que se seguem incontornáveis anotações do organizador, quer acerca dos autores, quer de livros ou textos avulsos referidos.

pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089   [chamada para rede móvel nacional]

OLHAR AS CAPAS


 Poesia Completa e Prosa

Vinicius de Moraes

Organização Eucanaã Ferraz

Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, Outubro 2004


São demais os perigos desta vida

Para quem tem paixão, principalmente

Quando uma lua chega de repente

E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado

Vem se unir uma música qualquer

Aí então é preciso ter cuidado

Porque deve andar perto uma mulher.

 

Deve andar perto uma mulher que é feita

De música, luar e sentimento

E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria lua:

Tão linda que só espalha sofrimento

Tão cheia de pudor que vive nua.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Se encontrar uma vaga num lar de idosos privado já é uma tarefa difícil, suportar os seus custos pode ser mesmo impossível. A pensão média de velhice paga pela Segurança Social (691,31 euros vezes 14 pagamentos por ano) apenas garante ao idoso cerca de cinco meses e meio de estadia em quarto duplo num lar privado em Portugal, que custa em média 1717 euros por mês. Se a opção for um quarto triplo, partilhado com outras duas pessoas, o idoso consegue prolongar a permanência por quase mais um mês.


Lido no Público

IMAGEM

Desce do verão com as suas mãos cansadas
de sombra. Encosta-se ao ombro da nuvem
mais branca, onde o seu rosto se reflecte.
Deixa que os meus dedos a toquem, como
se fosse uma harpa de silêncio. A música
demora-se no abraço da tarde. e os seus
olhos têm a luz lenta de uma despedida.

Nuno Júdice

terça-feira, 20 de outubro de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO

Cristiano Ronaldo, por ter abandonado o estágio da selecção nacional, foi sancionado com uma suspensão de 30 dias pela Federação Portuguesa de Futebol e uma multa de 255 euros

Há dias, o músico e cantor Salvador Sobral, num programa de televisão espanhol, comentou a atitude do capitão da selecção nacional:

«O problema de Cristiano Ronaldo é que tem a síndrome do semideus, custa-lhe entender essas coisas, que o treinador é que decide quem entra e quem não entra. E depois as pessoas misturam tudo, que tem a ver a gratidão a Ronaldo e o facto de agora não poder jogar da mesma maneira? Já no Mundial foi assim, como o jornal The Guardian escreveu, dez jogadores e uma estátua», notou. Foi-se embora, chamou o avião privado e foi-se... o que o capitalismo está a fazer ao futebol...E depois aquele comunicado com o que devia dizer o selecionador...»

BUCÓLICA

A vida é feita de nadas;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Não há ninguém que eu odeie, acho que dá muito trabalho odiar. Há é pessoas que me são indiferentes.

António Lobo Antunes

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Mais de mil imóveis, um valor patrimonial conjunto superior a 55 milhões de euros, mais de 807 mil euros de rendimentos prediais declarados e participações accionistas em dezenas de empresas do sector imobiliário. Assim se faz o retrato do património imobiliário dos 220 políticos que compõem o Governo e os grupos parlamentares do PSD, Chega, Iniciativa Liberal e CDS-PP. Este grupo, que conta com 41 senhorios e 31 investidores do sector imobiliário, tem vindo a aprovar uma série de medidas que beneficiam proprietários, incluindo alívios fiscais já em vigor e alterações às leis do arrendamento que estão prestes a ser votadas na Assembleia da República.»

Rafaela Burd Relvas, Público

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 O editor realça na contra capa de As Casas Chinesas o que António Mega Ferreira entende por memória.

OLHAR AS CAPAS

As Caixas Chinesas

António Mega Ferreira

Capa: José Teófilo Duarte

Edições Rolim, Lisboa, Lisboa, Abril, 1988

As pás da ventoinha giram lentamente, com um ruído regular, seco. Devia ser alguma mola solta, uma após outra, as pás embatiam no obstáculo, abrandavam, depois retomavam o movimento. Martinho Dante viu o criado aproximar-se. Deteve-se junto `*a mesa, com as mãos cruzadas à frente do corpo. Marinho pediu com aplicação um gin tonic. O outro repetiu, como a certificar-se de que tinha ouvido bem: “Com água tónica?”

TRUMPALHADAS

Terá que se considerar definitivo.

Trump, aos poucos, e enquanto puder, está a cortar a ajuda à Ucrânia.

Agora bloqueou diversas sanções contra a Rússia, aprovadas em Congresso e que, em Setembro, transformara em lei.

Hipocritamente, afirmou que a suspensão dessas sanções atende ao interesse nacional dos Estados Unidos!...

Putin sorri e manda descer uma garrafa de champanhe.

O HOMEM DOS PÉS DOURADOS DE BARRO

Olho para ti e fico a pensar:

“tantas coisas que se esqueceram

de te dizer e de te ensinar”.

Não sei se cresceste antes do tempo ou

se foi o tempo que não te deixou crescer

 

Sei sim, que logo no começo de tudo

surgiu o dinheiro. Muito dinheiro!

Eram muitos, muitos tostões!

Descobriste que ele servia

para comprar mais coisas,

além do pão, da manteiga e do leite…

 

Depois empurraram-te

para o território dos deuses

e tu deixaste que pensassem

que eras muito mais

que um simples mortal

 

Mas ainda não estavas satisfeito.

Nunca estavas.

Querias sempre mais, mais…

 

E quem circulava à tua volta

em vez de te trazer de regresso à Terra

continuava a alimentar o teu ego

e a chamar-te “deus maior”.

 

Fingiam-se esquecidos

de que eras apenas um ser humano,

que os bonecos de cera estavam no 

 museu da madame qualquer coisa.

E a tua estátua na Madeira,

era apenas isso, uma estátua…

 

Esqueceram-te de dizer

que ninguém é maior que o mundo,

por mais talento que tenha…

 

Luís  Eme

sábado, 17 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


A noite era de uma grande e escura delicadeza.

Clarice Lispector em A Maçã no Escuro.

TRUMPALHADAS

Donald Trump afirmou não ser um grande admirador do homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, considerando que é mais difícil negociar com o líder de Kiev do que com o Presidente russo, Vladimir Putin.

“Não sou grande fã de Zelensky”, admitiu o Presidente norte-americano, sublinhando que o presidente da Ucrânia “destruiu aquele país”. As declarações foram feitas numa entrevista à estação norte-americana Newsmax, na quinta-feira, e surgem num momento de crescente tensão entre Washington e Kiev, devido às divergências sobre a estratégia para pôr fim à guerra na Ucrânia.

“Zelensky não é uma boa pessoa com quem possamos negociar”, acrescentou.

O chefe de Estado norte-americano voltou também a criticar a decisão da Ucrânia de retomar os ataques contra refinarias petrolíferas russas, alegando que estas operações contribuem para a subida dos preços internacionais da energia.

Trump classificou os ataques como uma “vergonha” e defendeu que existem outros alvos militares que Kiev poderia atingir. O Presidente norte-americano questionou ainda a vontade de Zelensky em alcançar um acordo de paz com Moscovo e voltou a defender a realização de eleições na Ucrânia, adiadas devido à lei marcial em vigor desde a invasão russa, em fevereiro de 2022.

As declarações aprofundam o afastamento entre os dois líderes, depois de Trump ter sugerido, no passado fim de semana, que a Ucrânia deveria escolher um novo Presidente capaz de negociar o fim da guerra. “Sugiro-lhes que elejam um novo líder capaz de chegar a um acordo”, afirmou perante a imprensa na Casa Branca.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Este mundo é essencialmente antidemocrático, conflitual, com exclusão do “outro”, e legitimador da violência. Os direitos constitucionais da greve, da manifestação, não valem nada. E, mesmo quando há violação da lei por parte dos manifestantes, há uma completa duplicidade em relação às violações da lei, por exemplo, por parte do Chega. O que provocaria uma fúria nestes comentadores se o que fez Rita Matias ilegalmente em Coimbra, invadindo uma estação de rádio, fosse feito por um “esquerdalho”, ou se se vier a concluir que o “alegado” assalto ao gabinete de Ventura fosse mesmo “alegado”?

Este mundo é pobre, ignorante, agressivo, violento e muitas vezes cruel. É um mundo antipatriótico, anticristão, mas encontra pouca resposta numa denúncia clara do que ele significa. É só esperar algum tempo para percebermos a metáfora do “ovo da serpente”.

José Pacheco Pereira no Público


«Mais do que a liquidação progressiva – já de si criminosa – das liberdades e dos direitos das democracias liberais, é a violência que marca a extrema-direita como anunciadora de futuros fascismos. Por mais que Milei, Trump, Bolsonaro, Abascal ou Ventura se reclamem defensores da democracia (exigindo liberdade de expressão, moralidade política, justiça anticorrupção, etc., e procurando apresentar-se como verdadeiros democratas), eles destacam-se sempre no uso desbragado da violência, no insulto, no apelo à força excessiva na aplicação das leis e, por vezes, até à supressão física – de múltiplas maneiras – dos adversários (ou melhor, dos inimigos, porque, para eles, só existem inimigos)».


José Gil no Público

À LUPA

«Um regresso de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD e a eventual aliança política de governação com o Chega podem até vir a acontecer, mas isso significará o fim do PSD, que ajudou a construir a democracia portuguesa.»

São José Almeida no Público

OLHAR AS CAPAS


Ensaios

Tomo III

António Sérgio

Renascença Portuguesa, Lisboa 1932

Revejo a minha primeira ida ao Parlamento, como uma tela acinzentada num lusco-fusco de imaginação.

MÚSICA PELA MANHÃ


 

Os velhos, perante as insónias, aconselhavam a que se contassem carneiros.

As terríveis insónias!...

Vergílio Ferreira: Comum ouvir dizer-se que os velhos dormem pouco porque sabem que não tardará o dia em que dormirão infindavelmente.

Dennis McShade. «Durmo muito pouco, três ou quatro horas em cada noite. As noites são sempre longas, estiradas, e eu fico deitado na cama como num rio de silêncio, ouvindo o marulhar do próprio coração.»

Marcelo Rebelo de Sousa dizia que lhe bastava dormir quatro horas por noite.

Já ultrapassei os 80 anos, cada vez durmo menos e o pouco que durmo é uma treta, não presta para nada.

Qualquer zumbido de mosquito, desprega-me do sono.

Estúpidas insónias acometem-me quase todas as noites.

O médico de família receitou-me um comprimidinho indutor do sono mas evito tanto quanto possível entrar no hábito rotineiro.

Resolvo as insónias lendo livros, lendo livros, lendo livros…

Há uma lenda que suporta que Bach compôs as Variações Goldberg para combater as insónias,

Abençoadas insónias!...

O extraordinário poeta Jorge de Sena tem um livro a que chamou Arte de Música.

Este é o poema a que chamou BACH: VARIAÇÔES GOLDBERG:

«A música é só música, eu sei. Não há

outros termos em que falar dela anão ser que

ela mesma seja menos que si mesma. Mas

o caso é que para falar de música em tais termos

é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem

mostrá-lo ou sem querer havê-lo visto alguma vez.

Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música

for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,

nenhum silêncio recolhido nos persiste além

de alguns minutos. E não dura na memória como

silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala

a própria música que adora. Porque a música

não é silêncio mas silêncio que

anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.

Se os sons, porém, não são de devaneio,

e sim a inteligência que no abstracto busca

ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;

se tudo se organiza como a variada imagem

de uma ideia despojada de sentido;

se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos

que os grupos, e os grandes números, e as proporções

conhecem necessários; se tudo repercute como

em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem

um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;

se tudo se acumula menos como som que como pedras

esculpidas em volutas brancas e douradas cujos

recantos de sombra são um trompe-l’oeil

para que elas mais sejam em paredes curvas;

se uma alegria é força de viver e de inventar e de

bater nas teclas em cascatas de ordem;

e se tudo existiu na música para tal triunfo

e dele descende tudo o que de arquitectura

possa existir em notas sem sentido – COMO

não proclamar que essa grandeza imensa

não se comove com íntimos segredos (mesmo implica

que não haja segredo em nada que se faça

a não ser o espanto de fazer-se aquilo),

é como que uma cúpula de som dentro da qual

possamos ter consciência de que o homem é por vezes,

maior do que si mesmo. E que nada no mundo,

ainda que volte ao tema inicial, repete

o que só foi proposto como tema para

se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,

aquele tema torna não é para encerrar

num círculo fechado uma odisseia em teclas,

mas para colocar-nos ante a lucidez

de que não há regresso após tanta invenção.

Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.

Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,

para  sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque

o virtual de um pensamento se tornou ali

uma evidência: se tronou concreto.

Um concreto de coisas exteriores – e o espanto é esse –

Igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam.

Será que alguma vez, senão aqui,

aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto

de real e virtual serem idênticos, e de nós

não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de

nós termos sido música somente?»