Sabemos como a vida imita os filmes.
Paulo Teixeira
Mais um regresso às Greguerias de Ramón Gómez de la Serna:
O mau do molho de tomate é que tenta irresistivelmente o pão.
Franzimos o sobrolho porque queremos agarrar com pinças um grande pensamento que se nos escapa.
Os móveis com bicho ganham ouvido e até ouvem o que diz o silêncio.
O mais maravilhoso da espiga é como leva bem feita a trança.
Os que não querem que se fume no vagão não compreendem que, se a locomotiva não fumasse, o comboio não se movia.
Era um dia tão bom que todas as chaves foram dar um passeio.
O sofá foi feito para receber pedidos de casamento.
Os crocodilos são falsos porque nunca os ouvimos chorar.
Nas caixas de lápis guardam os meninos os seus sonhos.
O maior desejo do abre-livros é ficar perdido entre as páginas, como um peixe num aquário.
Há especialistas em pedir o único prato que se acabou na ementa.
Nome de Toureiro
Luís
Sepúlveda
Tradução:
Pedro Tamen
Capa: João
Machado
Edições Asa,
Lisboa Setembro de 1997
Deixei umas moedas em cima da mesa e, coxeando, saí do bar. A cidade continuava triste, embora fosse Verão, embora nem uma nuvem se interpusesse entre os homens e o céu, embora nenhum pássaro negro planasse sobre a minha cabeça e assim comecei a atravessar a rua, pensando, Verónica, meu amor, pensando porque é que temos tanto medo de olhar de frente para a vida, nós que já vimos as áureas cintilações da morte.
o ministério lírico, o mais grave e
equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do erro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao começo,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o córrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!
Herberto Helder de Ofício Cantante em Resumo: a poesia em 2009
Nem todos os sonhos
precisam de ser concretizados. Era isso o que o Fred costumava dizer.
Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber.
Patti
Smith em M
Train
Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem
sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que,
rigorosamente não sabia o que etava a vender.
Uma colecção, ainda, não lida, mas a que há
que voltar.
Assim irá aconrecendo.
Larry J. Zimmerman
Tradução: Ana Maria Pinto da Silva
Capa. José Neves
Colecção: Cultura e Civilizações
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de
2006
Vamos, hoje, recordá-lo.
A razão pela qual a preocupação mata
mais pessoas do que o trabalho é porque as pessoas se preocupam mais do que
trabalham.
Robert Frost
O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da
cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a viagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa
iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele
O'Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras
mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe
de mais e ri-se
do que neste soneto sobre
si mesmo disse...
Alexandre O'Neill em Poemas com Endereço
A Tia Tula
Miguel de Unamuno
Tradução: Ruy de Oliveira Soares
e G. Martins de Oliveira
Colecção: Livros RTP nº 11
Editorial Verbo, Lisboa s/d
- Mas que depressa vais!... – e voltou a esforçar-se por rir.
- É que se tem de ir depressa, porque a vida é curta
- A vida é curta! Dizes isso aos vinte e dois anos!
Ano X 2ª série,
Agosto de 1961, nº 125
Proprietário e
Editor: Eduardo Nunes
Directora: Maria
Vitória Quintas
Secretário da
Redacção: João José Cochofel
Redacção e
Administração: Academia de Amadores de Música –Rua Nova da Trindade, 18, 2º
Telef. 25022
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.
Gritavam Neruda Allende
deram vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido
- o povo nunca se rende
Mesmo quando morre unido.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Nas suas almas abertas
traziam o sol da esperança
e nas duas mãos desertas
uma pátria ainda criança.
Gritavam Neruda Allende
davam vivas ao Partido
que é a chama que se acende
no povo jamais vencido.
- o povo nunca se rende
mesmo quando morre unido.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Alguns traziam no rosto
um rictus de fogo e dor
fogo vivo fogo posto
pelas mãos do opressor.
Outros traziam os olhos
rasos de silêncio e água
maré-viva de quem passa
uma vida à beira-mágoa.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
Mas não termina em si próprio
quem morre de pé. Vencido
é aquele que tentar
separar o povo unido.
Por isso os que ontem caíram
levantam de novo a voz.
Mortos são os que traíram
e vivos ficamos nós.
Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que nasceram para o Chile
morrendo de corpo inteiro.
José Carlos
Ary dos Santos, poema Homenagem ao Povo do Chile de O Sangue das Palavras em Vinte Anos de Poesia
«Os EUA no mundo 25 anos depois do 11 de
Setembro
Dedicamos hoje
uma parte importante da nossa primeira página, que é sempre uma espécie de
cápsula do tempo para efeitos de memória futura, aos 25 anos passados sobre os
ataques às Torres Gémeas, ao edifício do Pentágono e ao voo United 93. A 11 de
Setembro de 2001 morreram 2977 pessoas, incluindo 19 terroristas, e não se sabe
quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então.
Na sequência
do 11 de Setembro, os Estados Unidos fecharam-se ao mundo e instalou-se uma
lógica securitária motivada pelo medo, pela necessidade de proteger as
fronteiras e pela luta contra o terrorismo. Foi aprovada a Patriot Act, nasceu o Department of Homeland Security e o (agora
famoso) ICE Immigration and Customs Enforcement, o controlo de vistos foi
reforçado (sobretudo para cidadãos oriundos de países muçulmanos) e teve início
uma “caça ao homem” que só terminou quando Osama Bin Laden foi morto, em
Trípoli.»
Sónia Sanage no Editorial do Público de hoje.
Caramba! Já passaram 25 anos sobre o ataque aos Estados
Unidos.
Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol
Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?
Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?
Que estranho abjeto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?
(Um tigre humano vem
a cada esquina oculto
no rumor da manhã
saciar-se de sangue)
Daniel Filipe
Se alguém, no meio do silêncio, tropeçar
nestas páginas e encontrar nelas um fio por onde se segurar, a certeza mínima
de que não está sozinho, de que houve quem passasse por ali e continuasse,
então este texto terá feito o seu trabalho.
Fabian Figueiredo
Je laisse passer les bateaux les
nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
António Ramos Rosa de Viagem por uma Nebulosa em Obra Poética Volume I
A história já aqui foi contada, mas a ela voltamos porque, muito naturalmente, é abordada na Biografia de Herberto Helder escrita por João Pedro George.
No ano de 1994 o júri atribuiu o prémio a Herberto Helder.
«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»
Era uma pipa de massa para quem tinha, por escassez de dinheiros, uma vida muito, mesmo muito difícil.
Mas Herberto Helder recusou a distinção.
António
Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso,
tentaram demovê-lo.
Conta o António Alçada Baptista:
«O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.
Eu disse, meio a
brincar meio a sério:
- Vimos numa difícil missão...
Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.
Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:
- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...
- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...
Ele ainda acrescentou:
- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.
Sobre
o episódio do Prémio Pessoa, João Pedro Jorge coloca a viúva de Herberto, Olga
Lima, a contar a cena:
«Fiquei cheia de raiva
porque estávamos tesos, “Herberto, mas não temos dinheiro e estás armado em
vivaço!?” Aquilo não tinha jeito nenhum, O Herberto queria era que o deixassem
em sossego. Agora, os valores dos outros prémios que ele tinha recusado eram
irrisórios, mas dizer que não a sete mil contos, hoje cerca de 35 mil euros?
Nessa altura o Herberto disse-me: “Sei que querias, uma vida mais descansada mas,
desculpa lá, eu prémios não aceito. Se querias mais convívio ou mais dinheiro,
casaste com o homem errado.»
A
recusa do prémio causou um circo de prosas e opiniões, algumas tocando o
ridículo.
Mas
João Pedro George lembra:
«Luiz Pacheco, que não
se levava muito a sério, nem ele nem a estes foguetórios da cultura, adiantou
uma explicação alternativa, talvez plausível: «Ele sempre disse que nunca
receberia prémios, deram-lhe um balúrdio de um prémio, era dele, ninguém lhe
podia levar a mal mas ele disse logo: “Não quero!”. Há uma hipótese sacana: não
havia dinheiro para o prémio, então deram-no a um gajo que já sabiam que não
recebia.»
escrevo-o porque é o mais difícil
de fazer sem ti, que
foste corpo
boia às minhas mãos, bordão
torto
mas para vir à terra o
mais fiel
ferro. E se eu na pela
nem soube
do mal que me avisaram
que me fazes
e já sou mestra em largar-te
quase
tanto como a gritar
lobo
até morrer de facto,
eis o tributo
ao que passámos:
rumores de noites,
copos, cafés,
suspensões de céus
e sol manchado após o
mar ou coito
e o pasmo sobretudo
libertado
do vazio – que triste,
cigarro, adeus.
Margarida
Vale de Gato em Atirar para o Torto
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que mais oculto havia
na secreta ternura de
uma boca
que era a única boca do
seu povo
Que posso eu fazer
senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada
António
Ramos Rosa
Chamava-se Vasco Gonçalves.
Este livro é algo de importante para os que esqueceram,
para os que não sabem o que foram aqueles mágicos e muito difíceis dias.
O título do livro diz tudo: «Não Pode Haver Neutros»,
todos aqueles que pensaram, que pensam, que ficar no meio é o espaço ideal para
poder ver os dois lados. Também não pode haver sacanas que, então, apareceram
em quantidade desmesurada, quando o que se podia era algo diferente:
«Nós também precisamos de aliados nesta
revolução; precisamos de pequenos empresários, médios empresários, que
compreendam esta revolução, que caminhem ao nosso lado; nós precisamos também
de alianças porque isto é uma tarefa muito grande. Mas, repito, a revolução só
comporta duas situações: ou se está com ela ou contra ela. Não há tipos que
possam dizer «eu sou neutral, não me interessa nada a política.»
Vasco Gonçalces do Discurso da Sorefame, 17 de Maio de
1975.
Naturalmente, nem tudo correu como se esperaria.
Sobre Vasco Gonçalves fica uma opinião do pintor João
Abel Manta:
Não Pode Haver Neutros!
António Amaral
Capa: V. Tavares
Edições
Tinta-da-China, Lisboa Junho 2026
Os discursos de Vasco Gonçalves devem, por conseguinte, ser abordados não apenas como reflexo dos acontecimentos, mas antes como acontecimentos doadores de sentido à «articulação política» entre orador e auditório e, sobretudo, entre estes e o processo mais amplo que colectivamente os interliga.
Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.
Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.
Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.
Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.
Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.
Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha