António Lobo Antunes em
Livro de Crónicas
Legenda: imagem tirada daqui.
Porque
és o retrato dos meus olhos
Onde as fontes do sol vêm beber
Este mar de setembro azul perfeito
Que nas pedras acaba de morrer.
Porque na noite clara do teu peito
A lua é só um pássaro ferido
E as palavras nascem dos meus dedos
Carregadas de sonho e de sentido.
Porque és a cor dos rios em cada fonte
No silêncio da terra desvelada
Lágrima orvalho pétala horizonte
Onde se abre verde a madrugada.
António Lobo Antunes em Livro de Poemas
Vinicius de Moraes
Selecção e Prefácio
de Sérgio Buarque De Holanda
Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro,
1979
Poema dos Olhos da Amada
Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.
Ó minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.
Lê-se no Público de hoje:
«Portugal é a 26.ª democracia do mundo, mas qualidade está a
descer
A democracia recuou 50 anos no plano global, tendo regressado “a níveis
semelhantes a 1978". Portugal resiste a esta tendência, mantendo uma
posição elevada no índice de democracia liberal do projecto internacional Variedades
da Democracia. Mas há sinais de alerta: a qualidade da democracia tem vindo a
baixar nos últimos dez anos, fruto do crescimento da extrema-direita ou da
"politização da administração pública».
Pelo seu lado, o governo de Luís Montenegro arrasta-se pelos gabinetes.
António Lobo Antunes em tempos lembrou que George Steiner
comentou com ele «que nenhum dos bons
alunos de Cambridge ia para a política: só os medíocres vão para a política.»
O mesmo António Lobo Antunes queixava-se do autoritarismo dos governos e acima de tudo queixava-se da arrogância e da falta de diálogo dos governantes.
Não há nenhuma lei para o dia de hoje.
Os momentos são teus. As tuas bicicletas.
Podes ama no cinema com a boca
colada à tela gigante.
Perguntar pelo poeta Rilke no silêncio
branco das sentinas públicas
ou no silêncio cinza
das outras sentinelas.
Podes voar desesperadamente de encontro
Aos automóveis e lá no fundo sobre o riso do óleo
descobrir um anjo infecto a lamber o asfalto. Desliga
devagar as luzes assassinas.
Destila rápido as frases recortadas
do magarefe e da prostituta
do alfaiate e da pianista que se espraia
louca sobre refinados jogos aquáticos.
O céu hoje é uma triste ciência
de judeus errantes.
O mar, distante, um curso adiado
de linguística, uma malha na meia,
as bocas ferocíssimas do metro
em plena cheia.
Armando Silva Carvalho de Armas Brancas
em O Que Foi Passado a Limpo.
«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é um itinerário de saudades».
Três livros de Miguéis
podem ser destacados como o itinerário
dessa saudade: A Escola do Paraísos,
Léah e Outras Histórias, O Milagre Segundo Salomé.
«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é esta – a da saudade inconformista que
lamente alto e bom as modificações urbanas, os prédios desaparecidos e depressa
substituídos por outros, vazios de memórias e vivências, para, timidamente,
dizer também da morte dos vizinhos a que nos habituámos, Em comum com todos os
que vociferam contra a delapidação do património das suas cidades, o escritor
tem o sentimento de que era esta ou aquela demolição são apenas o princípio de
um redemoinho maior e mais forte em que ele próprio e os seus serão levados.»
Maria João Martins, a
determinado ponto do texto, lembra a frase de José Cardoso Pires:
«Uma parte importante da cidade perdeu a cor quando acabaram com os
cafés e com as tabernas.»
No que a Rodrigues
Miguéis toca, os cafés marcaram-lhe a vida, o convívio, os amigos queridos:
José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, outros mais.
E o seu exílio nos
Estados Unidos, para além de tudo, o que o desgosta e torna inconsolável é a falta
dos cafés de Lisboa.
É Camila Miguéis,
viúva do escritor, que lembra a angústia de José:
« Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»
Conta-se que, na década de 30, sentado a uma mesa de A Brasileira, escreveu as primeiras páginas de O Milagre Segundo Salomé.
Ainda Miguéis e A
Escola do Paraíso:
«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? E para onde?»
Voltamos ao
texto de Maria João Martins para dar a fala a Cardoso Pires:
«Na zona da Almirante Reis passei grande parte da minha infância. No Jardim Constantino havia uma biblioteca e ali pude ler os primeiros livros. Mais tarde, ali me iniciei na literatura com os escritores que vieram a ser os surrealistas (Mário Cesariny, O’Neil e Vespeira). Frequentámos muito um café chamado Herminius que, mais tarde, deu lugar a uma agência funerária»
O café Herminius
já não uma agência funerária, é um Centro Acústica Médica.
O texto do José Cardoso Pires pertence à crónica Café Des Artistes e faz parte do livro de crónicas ACavalo no Diabo:
«Hoje o Café Hermínius está transformado em agência funerária – quere-se maior ironia? Talvez que, numa noite em que eu passe por lá, me apareça no vidro da montra o eco dos rostos duma juventude que ali criou uma parte da sua visão do mundo para lá do real imediato, a sua libertação; e que por trás desse vidro, deposta sobre um chão de violetas, esteja a cabeça da Dona Sol, rodeada de coroas funerárias e iluminada por um sorriso de ternura».
Para além dos
cafés, outra referência de Cardoso Pires debruça-se sobre as grandes tabernas que
eram frequentadas pelos condutores e cobradores da Carris, que ali faziam as
suas rendições: «ali havia tudo, peixe frito a choco, sandes, bom vinho.»
Lembro duas dessas tabernas: uma no Campo Pequeno, outra, a Cova Funda na Praça do Chile.
Cardoso Pires
refere ainda o Miradouro do Monte Agudo, na Penha de França, «onde ninguém
vai».
Abertura de Lisboa,
Livro de Bordo, de José Cardoso Pires:
« Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»
Guia de Portugal
Raúl Proença
1º Volume
Generalidades, Lisboa e Arredores
Apresentação e Notas de Sant’Anna Dionísio
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Fevereiro de 1983
Lisboa é servida por 108,5 Km de linhas eléctricas, que ligam os principais pontos da cidade, e são explorados pela Comp.ª Carris de Ferro de Lisboa. Os carros são asseados e confortáveis, alguns deles fechados e com assentos cómodos assentos de junco, mas em número hoje insuficiente para as necessidades da população.
Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.
Raul de Carvalho
Começo de O
Que Diz Molero de Dinis Machado.
«Teve uma infância estranha», disse
Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe.
«Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente
estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele,
simultaneamente, ator e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um
pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse
do corpo que transportava e, muitas vezes, o projetasse brutalmente contra a
realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a
espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»
Teremos que
pegar num artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular de 5 de
Março de 1977, para percebermos o que é O Que Diz Molero.
O assombro
está logo no título do texto:
«Descobri um
autor: Dinis Machado».
Há que ter em
atenção que a Pachecal Figura era um exímio crítico do que por aqui se escrevia
e muito pouco dado a lambidelas de botas:
« Um livro-bomba. Uma obra referenciada
para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa
praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum,
o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da
última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso
e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar
Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).
Podiam ser frases publicitárias. Quem ler
«O Que Diz Molero», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos
ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará
que não: é que é mesmo assim, como eu digo.Fiquei banzado. Para já, para já,
não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha
lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado,
se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de
marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de
Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no
Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração
cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.»
E a terminar:
«Repito e finalizo: um livro-bomba, uma
obra d’arromba.»
Antes de ter
fechado portas, o semanário publicou umas separatas em que pudemos constatar o
que a censura cortou aos escritos que se pretendiam publicar e que já por aqui
apresentámos, em Velhos Recortes, alguns exemplos.
Aqui fica
mais um, e voltamos a lembrar palavras de Mário Castrim:
«Porque neste País houve uma censura. Às
imagens, ao pensamento. E a propósito: estes censores que mutilaram, castraram,
destruíram, odiaram, onde estão eles agora? Em que lugar do Estado? Com que
votos? Que espécie de democracia estarão a levantar? Que direitos humanos estão
a defender?»
Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo
As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.
É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.
Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.
Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!
Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.
José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia
António
Guerreiro
Crime no Clube de Xadrez
Rex Stout
Tradução: J.
Lima da Costa
Capa: A.
Pedro
Colecção
Campiro nº 518
Livros do
Brasil, Lisboa 1990
Aos vinte e sete minutos depois das onze
daquela manhã de segunda-feira, dia do aniversário de Lincoln, abri a porta
ente o escritório e a sala da frente, entrei, fechei a porta e disse:
- Miss Blount está aqui.
Sem virat a cabeça, wolfe soltou um
grinhido, arrancou mais algumas páginas, atitou-as para o fogão e perguntou:
- Quem é Miss Blount?
«Um septuagenário brasileiro, fundador
de uma igreja evangélica na Amora, Seixal, e a sua mulher, de 65 anos, foram
recentemente condenados por 13 crimes de auxílio à imigração ilegal e
falsificação de documentos, no Tribunal de Almada. Adulteravam documentos para
a obtenção da extinta autorização de residência e, sob a capa de base
missionária, arrendavam espaços insalubres a compatriotas em situação ilegal. A
pena, de cinco anos para cada um deles, foi suspensa mediante o pagamento de
2500 euros ao Alto Comissariado para as Migrações.»
Jornal de Notícias, 17 de Agosto
«O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, defendeu publicamente a realização de assassinatos seletivos em Gaza, propondo a morte de “30 a 40 pessoas” por noite. As declarações foram feitas num podcast publicado este domingo, 16 de agosto, numa altura em que o Governo israelita reduziu os ataques à Faixa para tentar avançar com o plano de paz promovido pelos Estados Unidos.
“Creio que deveriam ser realizados
assassinatos seletivos em Gaza, eliminando entre 30 e 40 pessoas por noite”,
afirmou Ben Gvir, citado pela agência espanhola EFE, acrescentando que a
operação não deveria limitar-se a pessoas que representassem uma ameaça
imediata: “Há pessoas ali que não merecem viver. Não deveriam viver. Nem sequer
são pessoas.”
Ben Gvir, uma das figuras mais à direita
no Governo de Benjamin Netanyahu, disse também discordar da redução dos ataques
israelitas e voltou a defender a expansão dos colonatos judaicos na Faixa de
Gaza. “Considero que toda a Gaza é nossa”, afirmou. O ministro defendeu “a
maior emigração possível” de palestinianos, bem como a criação de colonatos em
toda a Faixa de Gaza, acrescentando, sobre os membros do Hamas: “Para os
terroristas, nada de emigração, nada, simplesmente matá-los um por um.”
Ben Gvir não tem autoridade para
ordenar operações militares, mas controla a polícia e o sistema prisional
israelitas enquanto ministro da Segurança Nacional. As suas declarações sobre
os palestinianos têm sido apresentadas perante o Tribunal Internacional de
Justiça como possível evidência de “intenção genocida”, acusação rejeitada por
Israel.
Antigo militante do movimento
Kach, considerado organização terrorista por Israel, Gvir defende há anos
posições ultranacionalistas e a expulsão de palestinianos de Gaza.»
Diário de Notícias, 17 de Agosto
Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.
Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.
Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.
António Gedeão em Obra Completa
Diário de um Sentimental Killer
Seguido de
Jacaré e Hot Line
Luís Sepúlveda
Tradução de
Pedro Tamen
Colecção
PequenosPrazeres
Asa Editores,
Porto, Julho de 1999
O dia começou mal, e não é que eu seja supersticioso, mas acho que em dias como este o melhor é não aceitar nenhuma encomenda, ainda que a recompensa tenha seis zeros à direita, livro de impostos.