Writer's block issues out of fear
– but of what?
Dawn Raffel,
The Truth about Writer’s Block
«Li
no Público um
conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher)
continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles
sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer
sentido em começar o dia.”
Enquanto
reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”),
confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta
situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe,
felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito
que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido:
a escrita da poesia.
Eu
sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade
de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas,
depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros
entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da
escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua
noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno
Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E
interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a
minha vida e os meus projetos.
Nada
há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência
da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício
implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os
acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente
encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais
felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...
Não
sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que
posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na
sua Metafísica, estabelece
que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não
passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não
fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida,
do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o
nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.
O
vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que
ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos
de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas
funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou,
nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções
utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.
Então
será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta
jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.»
Luís
Filipe Castro Mendes, crónica no Diário
de Notícias