A pacata vida intelectual portuguesa funciona entre os artistas como vasos comunicantes. Somos uma pequena banheira e entre editores e escritores há uma troca habitual de favores.
Neste Somos Livros, Francisco José Viegas debruça-se
sobre um livro de Gerald Murnane publicado pela Relógio d’Água. Apenas conheço
o autor de nome e o que li levou-me a interessar-me pelo livro e debrucei-me
sobre o catálogo da Relógio d’Água:
Sobre
As Planícies, de Gerald Murnane
«Aos
87 anos, Gerald Murnane continua a ser o mais provável candidato australiano a
juntar-se ao panteão do Nobel, onde já está o seu compatriota Patrick White,
vencedor em 1973. […]
Murnane
é um autor das vastas extensões australianas, de onde na verdade nunca quis
sair. “As Planícies”, de 1982, provavelmente a sua obra-prima e texto mais
conhecido, prova-o à saciedade. Trata-se de uma narrativa estranha, esquiva,
sempre a deslizar-nos nas mãos, sobretudo quando pensamos que finalmente a
agarrámos. […]
O prodígio de “As Planícies” está na forma como
Murnane consegue arrancar tanta coisa de quase nada.» José Mário Silva no
Expresso de 10 de Abril de 2026.
«Nos
seus vastos terrenos, as famílias proprietárias das planícies preservaram uma
cultura rica e singular. Obcecadas pelo próprio habitat e pela sua
história, contratam artesãos, escritores e historiadores para registarem, com o
máximo pormenor, todos os aspetos das suas vidas e da natureza das suas terras.
Um jovem cineasta chega às planícies, na esperança de dar o seu contributo para a elaboração dessa história. Numa biblioteca privada, começa a tomar notas para um filme e escolhe a filha do seu mecenas para o papel principal. Vinte anos mais tarde, inicia o relato da sua inquietante história de vida nas planícies.
«O maior escritor vivo da língua inglesa de que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.» [The New York Times]
«Murnane, um génio, é um herdeiro digno de Beckett.» [Teju Cole]
«A convicção emocional é de tal intensidade, o lirismo sombrio de tal forma comovente, a inteligência por detrás das frases lapidadas tão inegável, que suspendemos toda a incredulidade.» [J. M. Coetzee]
«Como em Proust, a especificidade das imagens que persegue e cataloga proporciona um prazer próprio. Mas o efeito da sua escrita reside menos nas imagens em si e mais na forma como o pensamento funciona na mente humana.» [The Guardian]
Gerald
Murnane, nascido a 25 de fevereiro de 1939, é um romancista, contista, poeta e
ensaísta australiano. Sobretudo conhecido pelo romance As Planícies,
publicado em 1982, conquistou reconhecimento pela sua prosa distinta que
explora a memória e a identidade, frequentemente esbatendo as fronteiras entre
ficção e autobiografia.»
Sobre o livro e o autor retenho uma frase de
Francisco José Viegas:
«O estilo tardio e descarnado de Murnane não tem enredo, nem personagens, só memórias e reflexões do narrador. E não pretende mostrar o mundo como ele é, mas como ele nos “parece”, neste caso “lhe parece”, o mundo através da mediação das mente e da memória.»







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