Últimas Cartas
Van Gogh
Tradução:
António Santos
Editora
Ausência, Vila Nova de Gaia, Outubro de 2002
Aliás, é certo que, desde que deixei de beber, tenho
feito um melhor trabalho, e só fico a ganhar com isso.
Últimas Cartas
Van Gogh
Tradução:
António Santos
Editora
Ausência, Vila Nova de Gaia, Outubro de 2002
Aliás, é certo que, desde que deixei de beber, tenho
feito um melhor trabalho, e só fico a ganhar com isso.
o verão
estende a sua sombra até aos joelhos
em que a
luz se dobra: a isso chamávamos Outono
Na
campânula do nevoeiro o plátano
incendeia a
cinza: oiro e vermelho
inverosímeis
como uma tempestade
eléctrica
no écran da janela;
uma
floração delirante do olhar
afectado
pelo crepúsculo
recordado
na paixão.
Depois
a água gris
lavará tudo
excessivamente.
Manuel Gusmão
Neste
dia, o jornalista e escritor Ferreira Fernandes deixou no Mensagem de Lisboa,
a evocação dos 90 anos do Zambujal:
«Um dia, Bernard Pivot foi a um restaurante de província, em França, onde lhe serviram uma soberba brandade provençal de bacalhau. Durante o último quarto do século passado, Pivot foi o mais eficaz divulgador da literatura francesa. Os seus programas televisivos Apostrophes e Bouillon de Culture são uma saudade (em francês culto, diz-se “saudade”).
Apesar de também ter gostos culinários (em português, “bouillon” diz-se caldo), não foi ao prato que ele agradeceu. À saída do restaurante La Lavande, em Lardiers, Bernard Pivot deu um abraço apertado aos dois tomos do dicionário Le Petit Robert, à disposição dos clientes e expostos na sala de jantar.
Em Les Mots de Ma Vie, As Palavras da Minha Vida, Pivot escreveu esta frase: “Amei primeiro as palavras antes de amar os livros”. No começo da Segunda Guerra Mundial, em casa, numa aldeia perto de Lyon, teve mais acesso ao Petit Larousse, outro dicionário, e às Fábulas de La Fontaine, do que eu aproveitei no consumo dos meus tantos livros infantis.
Ele dedicou-se a descobrir, compreender e comparar o que queria dizer aquela condição de “atraída” (a Raposa, pelo cheiro do queijo que o Corvo tinha no bico), ou aquela coisa, a “larva” (que a esfomeada Cigarra cantadeira arrependida implorava à Formiga trabalhadeira).
Tudo a ver com a cerimónia que passo a celebrar. Um absoluto colega do francês, também jornalista, sábio e generoso, o Mário Zambujal – e quase contemporâneo de Pivot – tornou-se hoje centenário!
Sobre a identidade profissional e cívica de ambos, lá irei, sobre as datas explico-as já: Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 e Bernard Pivot nasceu, no mesmo dia, dois meses depois e um ano antes do português. Centenários, ambos! Não venham cá com as vossas pequenas aritméticas, “eh pá, estamos em 2026, ainda falta uma década…” Minudências (ide ver ao José Pedro Machado ou ao Morais).
É interessante que Mário Zambujal, miúdo, também tenha vivido uma guerra e até antes do camarada francês, que só aos quatro anos viu camiões militares de cá, para lá, na França ocupada. Já o português, logo meses depois de nascer, teve a sua alentejana e fronteiriça Amareleja com refugiados espanhóis fugidos à guerra civil. Havia-os acantonados no corredor comprido da sua casa. Se calhar há quem passe todo o período da amamentação indiferente aos vizinhos do corredor, mas há-os, outros. Como o Mário Zambujal.
Quando foi viver para Algarve, aos 5 anos, levou com ele o Alentejo e guardou-o, a mãe fazia migas e ensopado de borrego. Depois, foi o Bairro Alto e os jornais, onde ele chegou para distribuir com critério e beleza o que começara e continuaria a vida toda a colecionar – palavras.
Como disse o tal francês, as palavras da minha vida é a minha vida com as palavras.
Quase nenhum quiosque lisboeta pendura hoje tanto jornal quanto os títulos por onde o Zambujal passou: A Bola, Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, O Jornal, Tal & Qual, Se7e, Record… Estendam o rol, onde ele assentou prosa sua, em programas de sucesso na tevê e rádio, dita por outros, como Carlos Cruz (“Pão Com Manteiga”, na Rádio Comercial) ou Raul Solnado (“Lá em Casa Tudo Bem”, RTP)…
É muita palavra. Mais isto: cada uma feita com pesquisa de sinónimos e escolha da nuance certa. Juntem um breve deitar de olho a dicionários de etimologia, saber dar pelo flash de um calão antigo, ter dúvidas da conjugação. E o que já vos disse, a circunstância divina de ter estado acordado, ao outro, desde miúdo. Não é acaso, é convicção profunda de que se é ignorante esclarecido, quer dizer, pronto para aprender.
Apesar de só nos termos encontrado meia-dúzia de vezes (foram sete, Mário), eu conheço Zambujal ao pormenor. Fui, sou, dele, leitor contumaz e já depois com os outros Presidentes todos. Faltaram-me o Carmona e o Craveiro Lopes, pois Zambujal foi publicado pela primeira vez, aos 15 anos. Isso bate em 1951, no ano em que aqueles dois dividiram Belém, um saiu e o outro entrou. O importante foi a primeiro texto ter sido na revista Os Ridículos. Também bate certo, só goza com estas coisas quem leva a carreira a sério.
A editora Clube do Autor lança hoje uma Edição Comemorativa – 90 anos – republicando três livros de Mário Zambujal, Cafuné, Dama de Espadas e a memória coletiva e a procura em vão em alfarrabistas ainda mais coletiva: Crónica dos Bons Malandro.
A edição comemorativa, já vimos, tem aquela pequena dedução formal: Mário Zambujal nasceu em 1936, faz anos hoje, portanto, Edição Comemorativa – 90 anos…
Não, antes de contagens especiosas, o que conta é a essência do personagem. O que é hoje 05-03-2026? Uma folha que amanhã já substituo por outro no calendário da cozinha.
Ora, o sujeito do assunto é o Mário Zambujal, logo, centenário. O nosso escritor, no ano passado, se escrevesse a crónica de uma comemoração ao Senhor Coluna faria a mesma coisa que eu faria. No ano passado, o seu xará e correligionário Mário Coluna – o capitão glorioso do Benfica – fez 90 anos, pois nasceu em 2035. Mas uma crónica do Mário Zambujal sobre o assunto haveria de se chamar O Centenário do Velho Capitão.
Há gente como os dois Mários acima mencionados para quem as datas nunca são assim-assim, como as calendas gregas. Porque lhes acontece com eles são logo efeméride, número redondo! Há personagens que não cabem em livros de contabilidade, onde não se erra ao cêntimo, mas se peca no estilo. Essas pessoas são para as palavras que tomaram o poder da imaginação. Mário Zambujal, centenário, e não se fala mais disso.
Ou, se calhar, e
isso aplaudo, foi daqueles bons erros malandros dos Correios e até Bancos
Centrais que lançam selos e notas com um pequeno erro de edição. Recolhem a
coisa e é um ver se te avias no mercado paralelo. Os meus três livrinhos já os
fechei no cofre para a herança dos netos.»
Legenda:
fotografia de Rui Ornelas.
1.
Ninguém
sabe que tempo vai durar a guerra Israel-Estados Unidos-Teerão.
Enquanto
o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, continua a sugerir que o
conflito com o Irão vai terminar "brevemente", Teerão ameaçou
"centros económicos e bancos" na região e afirmou que está pronto
para uma guerra longa, alertando que isto "destruiria" a economia
mundial. No estreito de Ormuz, foram registados ataques contra embarcações.
As
mensagens dos Estados Unidos em relação à duração e até aos objectivos da
guerra no Irão mantêm-se contraditórias, com Donald Trump a dizer que a guerra
está quase a terminar ou que durará ainda pelo menos uma semana, enquanto em
Israel há preocupações com a possibilidade de a guerra ser mais curta (e uma
corrente, minoritária, com ser mais longa), e do Irão surge uma atitude de
desafio, recusando um cessar-fogo e prometendo continuar a lutar.
Trump
diz que já ganhou ao Irão, mas que os EUA ainda não se vão retirar
Donald Trump declarou a vitória no Irão, ressalvando que os EUA apenas vão permanecer no terreno para concluir o trabalho. “Nunca se gosta de dizer muito cedo que se venceu. Nós vencemos”, exaltou Trump num comício eleitoral em Hebron, Kentucky, citado pela Reuters.
2.
Pelo
menos três cargueiros, com bandeiras da Tailândia, do Japão e das Ilhas
Marshall, foram atacados no estreito de Ormuz. O tailandês Mayuree Naree foi
atingido por "dois projéteis de origem desconhecida", segundo
operador da embarcação, citado pela agência Reuters. A Guarda Revolucionária,
por sua vez, numa nota divulgada pela agência Tasnim, informou que o navio foi
"alvejado por combatentes iranianos". Vinte membros da tripulação
foram resgatados e levados para Omã, enquanto três continuavam desaparecidos.
3.
Um
erro do Exército norte-americano, devido a coordenadas desactualizadas do alvo,
originou o bombardeamento de uma escola feminina em Minab, no Irão, a 28 de
Fevereiro, noticiou o New York Times, com base em conclusões
preliminares de uma investigação militar interna a que o jornal norte-americano
teve acesso.
Segundo
autoridades iranianas, o ataque fez mais de 175 mortos, a maioria crianças. O
Presidente norte-americano, Donald Trump, chegou a atribuir a autoria do ataque
ao Irão, antes de recuar parcialmente e afirmar que "aceitaria" o
resultado da investigação.
Questionado nesta quarta-feira sobre o artigo publicado pelo New York Times, Trump negou ter conhecimento das informações divulgadas.
André Kertész
Direcão:
Henrique Monteiro
Colecção Mestres
da Fotografia
Edição:
Expresso, Lisboa 2008
O que sinto é o que faço. Isso para mim é o mais
importante. Todos podem ver,
Mas nem sempre vêem.
cego
de ser raiz
imóvel
de me ascender caule
múltiplo
de ser folha
aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo.
Mia Couto
Dona Alfredina, minha porteira, já me tinha dito que todas aquelas canções eram horrorosas, que nem nas festas da terra lá em Fratel, que ela diz ser a capital daa Beira Baixa. alguém teria o despautério de as ir cantar.
Os
Bandidos do Cante ganharam o Festival da Canção e vão à Eurovisão.
Ao
contrário dos outros sete concorrentes, que tinham declarado um boicote à
Eurovisão em protesto contra a manutenção de Israel no concurso, o grupo de
Beja já tinha indicado que, caso ganhasse, iria mesmo a Viena, Áustria, em
Maio.
Na
Esplanada o Dudu declarou que aquilo já estava tudo concertado. Era como as
«bolas quentes» dos sorteios da UEFA…
A
distinta RTP não permitiria que houvesse a vergonha de alguém, por causa de
Israel, não ir cantar ao festival!...
Casa Branca. Grupo de religiosos, alguns com as mãos nos ombros de Trump, rezam pela proteção do presidente, das forças armadas, da América. O vídeo foi compartilhado pelo vice-chefe de gabinete Dan Scavino.
1.
“Trump, olha-os nos
olhos”: jornal iraniano publica fotografias das crianças mortas no ataque a uma
escola.
A capa do jornal iraniano Tehran Times desta segunda-feira foi totalmente
preenchida com as fotografias de 100 crianças alegadamente mortas num ataque
contra uma escola no Sul do Irão, no dia 28 de Fevereiro. As fotografias são
acompanhadas da frase “Trump, olha-os nos olhos”, depois de nem os Estados
Unidos nem Israel terem assumido a autoria do ataque.
Mafalda Fidalgo no Público
2.
A
Índia anunciou uma distribuição prioritária de gás natural para consumo
doméstico e transportes, numa altura em que as perturbações no abastecimento
devido à guerra no Médio Oriente preocupam vários setores da economia.
O
país mais populoso do planeta, com cerca de 1,5 mil milhões de habitantes, é o
quarto maior importador mundial de gás natural liquefeito .
Uma
grande parte do gás natural consumido na Índia é proveniente do Qatar, cujas
unidades de produção foram atacadas pelo Irão desde o início da ofensiva
israelo-americana contra Teerão.
3.
Donald
Trump, manifestou o desagrado com a
eleição de Mojtaba Khamenei como líder supremo iraniano, para suceder ao pai,
Ali Khamenei, morto no início da ofensiva israel-americana contra o Irão.
Donald
Trump queria participar na escolha do novo líder de Teerão.
Israel determinou que o novo líder irá ser morto, esteja ele onde estiver.
4.
Definitivamente não é possível acreditar que as decisões de Donald Trump são tomadas com base nos princípios de racionalidade e da sensatez.
5.
Preço
do petróleo já está 25% acima do valor assumido pelo Governo Luís Montenegro no
Orçamento do Estado de 2026.
Vários analistas temem persistência do valor do barril na casa dos 80 dólares. Outros, mais pessimistas, atiram cenário para 100, 150 dólares ou mais.
Luís Montenegro:
"Tenho a certeza de que não me vou arrepender de nada do que fizemos nestes dias"
6.
Nas suas conferências de imprensa no Pentágono, Pete Hegseth diz que os Estados Unidos “estão decisivamente a ganhar a Operação Fúria Épica". O ataque "tem tido resultados incríveis e os Estados Unidos vão usar todo o tempo necessário para alcançarem os seus objevtivos, nunca houve a intenção de ser, uma luta justa. Nós estamos a atacá-los enquanto eles já estão caídos e é assim que deve ser”
7.
A
Administração Trump reuniu-se com executivos das maiores empresas de defesa dos
Estados Unidos na Casa Branca para discutir a aceleração da produção de
armamento, enquanto o Pentágono trabalha para reabastecer os stocks após os
ataques ao Irão e várias outras operações militares recentes,.
A
reunião sublinha a urgência sentida em Washington para reforçar os stocks de armamento,
depois da utilização intensiva de munições na operação no Irão. Desde que a
Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e Israel iniciou operações militares em Gaza,
os Estados Unidos forneceram milhares de milhões de dólares em sistemas de
artilharia, munições e mísseis antitanque. O conflito com o Irão consumiu, até
agora, um maior número de mísseis de longo alcance do que os que foram
fornecidos a Kiev.
«Há mais de quinze anos que sou testemunha de um labor apaixonante de Marie José Paz tem um labor apaixonante e secreto. Marie José recolhe todo o género de pequenos objectos e coisas atiradas fora, papéis de diferentes cores e texturas, fotografias (às vezes tiradas por ela própria: um centímetro de asfalto, um charco e o seu arquipélago de bolhas, um papel enrugado como a Serra Madre), ilustrações de livros e revistas, recados e bilhetes de transporte, programas de teatro, fósforos, etiquetas, maços de tabaco vazios – os resíduos e os despojos que cada dia abandona à vaga do tempo. A espuma das horas…»
Octavio Paz
Ceifa Vermelha
Dashiell Hammett
Tradução:
Fernanda Pinto Basto e António Sabler
Capa: João
Botelho
Colecção. Série
Negra nº 4
A Regra do Jogo,
Lisboa, 1979
Dum telefone da estação liguei para o Herald, pedi
para falar a Donald Willson e disse-lhe
que tinha chegado.
-Pode vir esta noite a minha casa às dez?
Tinha um voz viva, agradável.
- É no 2101 de Mountain Boulevard. Você toma um
eléctrico de Broadway, sai em Laurel Avenue e anda dois quarteirões para oeste.
Prometi lá ir ter. Fui direito ao Great Western Hotel,
larguei as malas e saí para dar uma volta pela cidade.
Não era uma cidade bonita. A maior parte dos
proprietários só cuidava da ostentação. Talvez tivesse resultado a princípio.
Entretanto as fundições, cujas altas chaminés de tijolo se destacavam da
montanha escura ao sul, tinham coberto tudo com a sujidade uniforme do seu fumo
amarelo.
Comovem-me ainda os
dias que se levantam
no deserto das nossas vidas.
Dos belos palácios da
saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.
Muito além, depois das
casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.
Aqui, tudo se resume a
algumas tâmaras que
secaram ao sol,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.
Comovem-me ainda as
palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.
Lembro-me sempre de ti.
José Agostinho Baptista
Marcelo
Rebelo de Sousa que, após dois mandatos, deixa Belém.
Dois
mandatos presidenciais com algumas sombras:
-
o caso das gémeas luso-brasileiras que levou a um corte de relações com um dos
seus filhos e transformou-se numa autêntica novela mexicana
-
o caso do encobrimento dos crimes sexuais da igreja.
-
o caso de, por uma birra, ter liquidado o governo de maioria absoluta de
António Costa, empurrando o país para eleições que resultariam nos
governos de Luís Montenegro.
Outros
casos de sombra existiram, mas estes foram marcantes.
Ficaram
os afectos, as selfies, Feiras do Livro, por Setembro, nos jardins do Palácio
de Belém.
Marcelo,
como presidente, quis ser um anti-Cavaco Silva.
Certamente, António José Seguro não vai querer ser um anti-Marcelo.
Tem um outro olhar, uma
outra pretensão para o cargo que agora inicia.
Espera-se...
Abecê da Negação
Urbano Tavares
Rodrigues
Capa. José
Araújo
Colecção O Campo
da Palavra nº 8
Editorial
Caminho, Lisboa, Janeiro de 1980
- Você é infeliz, Salvador. E não gosta da vida.
- Sei lá. Não posso queixar-me muito. Nunca passei
fome. Nunca estive desempregado. Nem preso. Tenho os meus livros, a minha luta,
os meus companheiros, a minha razão de viver.
Na mão de Deus, na sua
mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!
Antero
de Quental em Sonetos
Nota do Editor:
António Lobo Antunes, deixou algumas
disposições para o seu funeral: a leitura
deste soneto de Antero de Quental era
uma delas.
«Enviando-lhe Na Mão de Deus, desde
Vila do Conde a um amigo, escrevia-lhe
Antero: «O meu
pessimismo tem-se
desvanecido com esta vista contemplativa
no meio da boa natureza».
O
Inverno não dá muito para ir à Esplanada do Bairro. Mas eles estão lá, os
mesmos de sempre. Foi para saber o que já sabia: que a morte do escritor
António Lobo Antunes não tinha sido motivo de conversa, antes o
eterno-cansativo futebol, as guerrinhas entre os presidentes do Sporting e do
Porto, o próximo Benfica-Porto.
Nunca
esquecerá aquela tarde no RI5, sala de sargentos, hora do café-depois-do-almoço
e a conversa geral era a chegada às Caldas da Raínha da etapa que
acontecera meia hora antes, muitos tinham ver quando nesse preciso dia 21 de
Agosto de 1968 se soube da Operação Danúbio que mais não era
que a invasão soviética que marcou o principio do fim do que a história designa
por Primavera de Praga.
Ainda
hoje olha, solitário que ficou, as paredes da sala de sargentos com fotografias
da apologia da guerra, sem ter ninguém com quem abordar o acontecimento, que
não a etapa da Volta a Portugal.
Legenda: fachada do RI5 nas Caldas da Raínha.
Não, eu não sou malcriado. Conheci-o numa viagem ao Brasil. Apareceu aí uma brasileira que andou com um poeta e levou ao Brasil uma série de escritores, o Zé, o Fernando Assis Pacheco, o Saramago, o Egito Gonçalves, o Alexandre O’Neill, de quem fiquei amigo. Eu era o mais novo de todos. Eles estavam todos publicados no Brasil e eu não. No dia seguinte, aqueles velhos recebiam dez ou 15 cartas e eu zero. Nada. Com o Saramago nunca tive uma conversa. Nesse ano, era também o primeiro ano daquele grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e que o Zé ganhou com “Balada da Praia dos Cães”, contra o “Memorial do Convento”, e o Saramago ficou numa fúria. O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.»
António Lobo Antunes
Gostava de poesia.
Ninguém dizia versos como
ele, tal como disse Pedro, o irmão mais novo, nas exéquias nos Jerónimos.
Gostava de conhecer vozes
novas, quando descobriu o António Franco Alexandre, considerava-o um poeta
extraordinário, escreveu para o Público sobre ele, que não conhecia, nem
sabia quem era, o que fazia, mas pareceu-lhe um escritor de grande qualidade.
Lamentou muitas vezes não
ter sido poeta.
Mas era mesmo um poeta.
Algumas das suas crónicas
são verdadeiros poemas, o mesmo em relação a algumas páginas dos seus livros.
Mas foi escrevendo poesias
e a sua editora, em Outubro de 2002, publicou um livrinho de cantigas que
António Lobo Antunes dedicou a Vitorino:
«Ao Vitorino, para quem estas letrinhas foram
escritas, quase todas em toalhas de papel de restaurante».
Soube-se agora que a
editora publicará em livro, que já andava a preparar, poemas do António Lobo
Antunes.
O livro chama-se Poemas
e sairá em Abril.
Mas não só o Vitorino fez
das letrinhas canções, outros artistas o fizeram.
Serão a Música pela Manhã de hoje.
Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para
poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir
camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões;
de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam
possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os
filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a
quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos,
parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima
distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No
Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei,
saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se
piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma
bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à
Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã,
cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima
e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas,
alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as
costas da mão:
- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres,
presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo,
foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez
tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal
doméstico
- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu
Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e
morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me
dito com um encolher de ombros
- O que é que o menino quer, esta gente é assim
e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação,
como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em
barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais
dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito
chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso
alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter
oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu
a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre,
tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de
limão.
Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num
boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se
narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente
em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente
acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por
essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta
atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da
guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis»
António Lobo Antunes em Livro de Crónicas 1º volume
De
que músicas, de que canções, gostava António Lobo Antunes?
Teria
que percorrer os livros para encontrar algumas citações, se é que as há, não
tenho grande memória mas também há que dizer que metade, ou mais, da minha
memória está em branco.
Apenas restavam as epígrafes, mas dos livros que a Biblioteca da Casa tem, encontrei duas: The Boxer do Paul Simon em Fado Alexandrino e Bob Dylan, em Auto dos Danados, por mor de uma citação de «11 Outlines Epitaphs» que é o título de um poema escrito no início dos anos 60.
Lonely? Ah yes
But it is the flowers and the mirrors
of flowers that now meet my
loneliness
an mine
shall be a strong
loneliness
dissolvin' deep
to the depths of my freedom
and that, then, shall
remain my song.
Assim sendo, como Músicas pela Manhã, teremos The Boxer de Paul Simon.
De Dylan ficaremos com The Times They Are a changing.
Sobre o
primeiro-ministro espanhol disse:
«Bonito, alto... Bem,
não sei muito sobre ele, exceto que está do lado certo da história.
Venho de um país onde
existe censura e repressão; por isso, ver a posição de Espanha é tão
significativo para o povo americano. Faz-nos sentir menos sozinhos.
O silêncio é muito perigoso. Devemos poder dizer o que pensamos sem sermos ameaçados de nunca mais trabalhar.»
Dos
jornais