quinta-feira, 20 de agosto de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Operário em Construção e Outros Poemas

Vinicius de Moraes

Selecção e Prefácio de Sérgio Buarque De Holanda

Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1979

 

Poema dos Olhos da Amada

 

                       Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...

Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.

Ó minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

VELHOS RECORTES


 A Gazeta Musical e de Todas as Artes nº 125, Agosto de 1961, registava a morte de Hemingway, ocorrida a 2 de Julho de 1961.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Lê-se no Público de hoje:

«Portugal é a 26.ª democracia do mundo, mas qualidade está a descer
A democracia recuou 50 anos no plano global, tendo regressado “a níveis semelhantes a 1978". Portugal resiste a esta tendência, mantendo uma posição elevada no índice de democracia liberal do projecto internacional Variedades da Democracia. Mas há sinais de alerta: a qualidade da democracia tem vindo a baixar nos últimos dez anos, fruto do crescimento da extrema-direita ou da "politização da administração pública».

Pelo seu lado, o governo de Luís Montenegro arrasta-se pelos gabinetes.

António Lobo Antunes em tempos lembrou que George Steiner comentou com ele «que nenhum dos bons alunos de Cambridge ia para a política: só os medíocres vão para a política.»

O mesmo António Lobo Antunes queixava-se do autoritarismo dos governos e acima de tudo queixava-se da arrogância e da falta de diálogo dos governantes.

NÃO HÁ NENHUMA LEI PARA O DIA DE HOJE

Não há nenhuma lei para o dia de hoje.
Os momentos são teus. As tuas bicicletas.
Podes ama no cinema com a boca
colada à tela gigante.
Perguntar pelo poeta Rilke no silêncio
branco das sentinas públicas
ou no silêncio cinza
das outras sentinelas.
Podes voar desesperadamente de encontro
Aos automóveis e lá no fundo sobre o riso do óleo
descobrir um anjo infecto a lamber o asfalto. Desliga
devagar as luzes assassinas.
Destila rápido as frases recortadas
do magarefe e da prostituta
do alfaiate e da pianista que se espraia
louca sobre refinados jogos aquáticos.
O céu hoje é uma triste ciência
de judeus errantes.
O mar, distante, um curso adiado
de linguística, uma malha na meia,
as bocas ferocíssimas do metro
em plena cheia.

 
Armando Silva Carvalho de Armas Brancas em O Que Foi Passado a Limpo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Sonhar é acordar-se para dentro.

Mário Quintana

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS


A revisão que hoje fazemos, incide sobre um texto de Maria João Martins, publicado na revista Ler s/d, editada pelo Círculo de Leitores, e envolve Lisboa e dois escritores que a sentiram intensamente: José Rodrigues Miguéis e José Cardoso Pires.

«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é um itinerário de saudades».

Três livros de Miguéis podem ser destacados como o itinerário dessa saudade: A Escola do Paraísos, Léah e Outras Histórias, O Milagre Segundo Salomé.

«A Lisboa de Rodrigues Miguéis é esta – a da saudade inconformista que lamente alto e bom as modificações urbanas, os prédios desaparecidos e depressa substituídos por outros, vazios de memórias e vivências, para, timidamente, dizer também da morte dos vizinhos a que nos habituámos, Em comum com todos os que vociferam contra a delapidação do património das suas cidades, o escritor tem o sentimento de que era esta ou aquela demolição são apenas o princípio de um redemoinho maior e mais forte em que ele próprio e os seus serão levados.»

Maria João Martins, a determinado ponto do texto, lembra a frase de José Cardoso Pires:

«Uma parte importante da cidade perdeu a cor quando acabaram com os cafés e com as tabernas.»

No que a Rodrigues Miguéis toca, os cafés marcaram-lhe a vida, o convívio, os amigos queridos: José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Augusto Abelaira, outros mais.

E o seu exílio nos Estados Unidos, para além de tudo, o que o desgosta e torna inconsolável é a falta dos cafés de Lisboa.

É Camila Miguéis, viúva do escritor, que lembra a angústia de José:

« Quando chegou aos Estados Unidos a primeira coisa que o ia matando foi quando descobriu que não havia cafés. Como é que podia viver sem um café onde encontrava os amigos, onde se sentava e levantava logo que se sentia desconfortável ou aborrecido, ou quando lhe surgia uma ideia e tinha de regressar a casa para a escrever? Como é que as pessoas podiam viver daquela forma? Isto foi um problema muito, muito difícil para ele, e eu sentia-me desanimada, porque não o podia resolver. Quando lhe disse o que tínhamos – restaurantes, cafetarias, balcões, vários locais -, ele disse: «Mas eu estou a falar de um café; tu não percebes.» E esta situação aborreceu-o a vida toda. Aborreceu-o mesmo.»

Conta-se que, na década de 30, sentado a uma mesa de A Brasileira, escreveu as primeiras páginas de O Milagre Segundo Salomé.

Ainda Miguéis e A Escola do Paraíso:

«Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia. Tudo isto, o rio imenso, os cais, o mar, os horizontes, se integra nele e ficará para sempre dele como um apelo de longe e uma saudade, anseio de partir e de voltar: quando? E para onde?»

Voltamos ao texto de Maria João Martins para dar a fala a Cardoso Pires:

«Na zona da Almirante Reis passei grande parte da minha infância. No Jardim Constantino havia uma biblioteca e ali pude ler os primeiros livros. Mais tarde, ali me iniciei na literatura com os escritores que vieram a ser os surrealistas (Mário Cesariny, O’Neil e Vespeira). Frequentámos muito um café chamado Herminius que, mais tarde, deu lugar a uma agência funerária»

O café Herminius já não uma agência funerária, é um Centro Acústica Médica.

O texto do José Cardoso Pires pertence à crónica Café Des Artistes e faz parte do livro de crónicas ACavalo no Diabo:

«Hoje o Café Hermínius está transformado em agência funerária – quere-se maior ironia? Talvez que, numa noite em que eu passe por lá, me apareça no vidro da montra o eco dos rostos duma juventude que ali criou uma parte da sua visão do mundo para lá do real imediato, a sua libertação; e que por trás desse vidro, deposta sobre um chão de violetas, esteja a cabeça da Dona Sol, rodeada de coroas funerárias e iluminada por um sorriso de ternura».

Para além dos cafés, outra referência de Cardoso Pires debruça-se sobre as grandes tabernas que eram frequentadas pelos condutores e cobradores da Carris, que ali faziam as suas rendições: «ali havia tudo, peixe frito a choco, sandes, bom vinho.»

Lembro duas dessas tabernas: uma no Campo Pequeno, outra, a Cova Funda na Praça do Chile.

Cardoso Pires refere ainda o Miradouro do Monte Agudo, na Penha de França, «onde ninguém vai».

Abertura de Lisboa, Livro de Bordo, de José Cardoso Pires:

« Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não  me admiro sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro, e até  a brisa que corre me sabe  a sal.  Há ondas de  mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa-dos-ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para os oceanos. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado  num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração e Aida Santos.

OLHAR AS CAPAS

Guia de Portugal

Raúl Proença

1º Volume

Generalidades, Lisboa e Arredores

Apresentação e Notas de Sant’Anna Dionísio

Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, Fevereiro de 1983

Lisboa é servida por 108,5 Km de linhas eléctricas, que ligam os principais pontos da cidade, e são explorados pela Comp.ª Carris de Ferro de Lisboa. Os carros são asseados e confortáveis, alguns deles fechados e com assentos cómodos assentos de junco, mas em número hoje insuficiente para as necessidades da população.

CORAÇÃO SEM IMAGENS

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.


Raul de Carvalho

terça-feira, 18 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A sociedade está-se a borrifar para os deficientes. Não são pessoas.

Eduardo Sá

COMEÇOS DE LIVROS


Começo de O Que Diz Molero de Dinis Machado.

«Teve uma infância estranha», disse Austin. «Em última análise, todas as infâncias o são», disse Mister DeLuxe. «Molero diz», disse Austin, «que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, ator e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projetasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então esse cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva.»

 

Teremos que pegar num artigo de Luiz Pacheco, publicado no Diário Popular de 5 de Março de 1977, para percebermos o que é O Que Diz Molero.

O assombro está logo no título do texto:

«Descobri um autor: Dinis Machado».

Há que ter em atenção que a Pachecal Figura era um exímio crítico do que por aqui se escrevia e muito pouco dado a lambidelas de botas:

« Um livro-bomba. Uma obra referenciada para gente nova. Contém cenas eventualmente chocantes aos literatos da nossa praça e já está. Não recomendável a ceguetas, que cinema («o cinema é um álbum, o mais fabuloso e embriagador dos álbuns imaginários», afirma o guarda da última fronteira) e banda desenhada (álbum ou folhetim semanal também fabuloso e embriagador, afirmo agora eu) passeiam-se muito pelas suas páginas. O Gaspar Simões não vai gostar (excelente coisa!). A malta vai (excelentíssima coisa!).

Podiam ser frases publicitárias. Quem ler «O Que Diz Molero», de Dinis Machado (Bertrand), por ruas e montras e olhos ávidos de maravilhados ou espavoridos leitores nos próximos dias, confirmará que não: é que é mesmo assim, como eu digo.Fiquei banzado. Para já, para já, não julgava poder haver disto em português tão cedo. A livralhada de minha lavra envelheceu vinte anos a partir de hoje. Não faz mal. Faço 52 no sábado, se lá chegar, é tempo de reforma. Vou-me dedicar à pesca (de dólares, de marcos, como o nosso Primeiro), vou deixar a Associação Portuguesa de Escritores (é o deixas!, eu cá sei as linhas com que me coso) e ingressar no Mercado Comum dos Cravas. Felizmente não sou invejoso, cada um, cada geração cumpre a sua rábula e passa o facho. É a Lei.»

E a terminar:

«Repito e finalizo: um livro-bomba, uma obra d’arromba.»

VELHOS RECORTES


O semanário Notícias da Amadora foi uma das grandes vítimas da sanha que os capitães-censores-inculto-analfabetos impuseram aos livros, jornais e revistas que, durante 48 anos, nos impuseram.

Antes de ter fechado portas, o semanário publicou umas separatas em que pudemos constatar o que a censura cortou aos escritos que se pretendiam publicar e que já por aqui apresentámos, em Velhos Recortes, alguns exemplos.

Aqui fica mais um, e voltamos a lembrar palavras de Mário Castrim:

«Porque neste País houve uma censura. Às imagens, ao pensamento. E a propósito: estes censores que mutilaram, castraram, destruíram, odiaram, onde estão eles agora? Em que lugar do Estado? Com que votos? Que espécie de democracia estarão a levantar? Que direitos humanos estão a defender?»

RETRATOS


Ary dos Santos: o homossexual politicamente incorrecto que embaraçava o Partido Comunista Português.

MEU CAMARADA E AMIGO

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva   deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida cívica, política e cultural.

António Guerreiro

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

OLHAR AS CAPAS

Crime no Clube de Xadrez

Rex Stout

Tradução: J. Lima da Costa

Capa: A. Pedro

Colecção Campiro nº 518

Livros do Brasil, Lisboa 1990

Aos vinte e sete minutos depois das onze daquela manhã de segunda-feira, dia do aniversário de Lincoln, abri a porta ente o escritório e a sala da frente, entrei, fechei a porta e disse:

- Miss Blount está aqui.

Sem virat a cabeça, wolfe soltou um grinhido, arrancou mais algumas páginas, atitou-as para o fogão e perguntou:

- Quem é Miss Blount?

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Um septuagenário brasileiro, fundador de uma igreja evangélica na Amora, Seixal, e a sua mulher, de 65 anos, foram recentemente condenados por 13 crimes de auxílio à imigração ilegal e falsificação de documentos, no Tribunal de Almada. Adulteravam documentos para a obtenção da extinta autorização de residência e, sob a capa de base missionária, arrendavam espaços insalubres a compatriotas em situação ilegal. A pena, de cinco anos para cada um deles, foi suspensa mediante o pagamento de 2500 euros ao Alto Comissariado para as Migrações.»

Jornal de Notícias, 17 de Agosto

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO

«O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, defendeu publicamente a realização de assassinatos seletivos em Gaza, propondo a morte de “30 a 40 pessoas” por noite. As declarações foram feitas num podcast publicado este domingo, 16 de agosto, numa altura em que o Governo israelita reduziu os ataques à Faixa para tentar avançar com o plano de paz promovido pelos Estados Unidos.

 “Creio que deveriam ser realizados assassinatos seletivos em Gaza, eliminando entre 30 e 40 pessoas por noite”, afirmou Ben Gvir, citado pela agência espanhola EFE, acrescentando que a operação não deveria limitar-se a pessoas que representassem uma ameaça imediata: “Há pessoas ali que não merecem viver. Não deveriam viver. Nem sequer são pessoas.”

Ben Gvir, uma das figuras mais à direita no Governo de Benjamin Netanyahu, disse também discordar da redução dos ataques israelitas e voltou a defender a expansão dos colonatos judaicos na Faixa de Gaza. “Considero que toda a Gaza é nossa”, afirmou. O ministro defendeu “a maior emigração possível” de palestinianos, bem como a criação de colonatos em toda a Faixa de Gaza, acrescentando, sobre os membros do Hamas: “Para os terroristas, nada de emigração, nada, simplesmente matá-los um por um.”

 Ben Gvir não tem autoridade para ordenar operações militares, mas controla a polícia e o sistema prisional israelitas enquanto ministro da Segurança Nacional. As suas declarações sobre os palestinianos têm sido apresentadas perante o Tribunal Internacional de Justiça como possível evidência de “intenção genocida”, acusação rejeitada por Israel.

 Antigo militante do movimento Kach, considerado organização terrorista por Israel, Gvir defende há anos posições ultranacionalistas e a expulsão de palestinianos de Gaza.»

Diário de Notícias, 17 de Agosto

FORMA DE INOCÊNCIA

Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.

António Gedeão em Obra Completa


domingo, 16 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Por vezes, a maior de todas as viagens é a distância entre duas pessoas.

Somerset Maugham

OLHAR AS CAPAS


Diário de um Sentimental Killer 

Seguido de Jacaré e Hot Line

Luís Sepúlveda

Tradução de Pedro Tamen

Colecção PequenosPrazeres

Asa Editores, Porto, Julho de 1999

O dia começou mal, e não é que eu seja supersticioso, mas acho que em dias como este o melhor é não aceitar nenhuma encomenda, ainda que a recompensa tenha seis zeros à direita, livro de impostos.

MÚSICA PELA MANHÃ



Hoje, retiro da prateleira da Biblioteca/Discoteca da Casa um velho disco do Charles Dumont, quando se ouviam canções francesas…

Colaboração de Aida Santos




TRUMPALHADAS

«Assim que acabarmos de derrotar o Irão, que está a sofrer uma derrota esmagadora, vou declarar, muito em breve, o Estreito de Ormuz como território dos Estados Unidos da América.»

Donald Trump, ontem, ou hoje, ninguém sabe quando.

sábado, 15 de agosto de 2026

SOLTAS


«E o pior é pensar onde havemos de arranjar forças para no dia seguinte continuar a fazer o que fizemos na véspera e ainda em tantos outros dias já passados, onde encontraremos forças para tantas diligências imbecis, para mil e um projectos que não conduzem a nada, para as tentativas de vencer uma acabrunhante necessidade, tentativas que acabam sempre por abortar, e tudo isso para nos capacitarmos uma vez mais de que o destino é imutável e que o melhor é conformarmo-nos em ter de cair todas as noites da muralha abaixo, sob a angústia desse dia seguinte, sempre mais instável e sórdido.

É talvez a idade que surge, traidora e nos ameaça com o pior. Já não existe dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está. Toda a juventude nos abandonou para ir morrer no fim do mundo, num silêncio de verdade. Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma bastante de delírio. A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a morte. Precisamos escolher: mentir ou morrer. E eu nunca consegui matar-me.»


Céline em Viagem ao Fim da Noite

1.

«Quatro em cada dez jovens de 18 anos passam pelo menos cinco horas por dia na Internet
Em Portugal, quatro em cada dez jovens de 18 anos dizem passar pelo menos cinco horas por dia na Internet, cerca de um terço do tempo em que estão acordados. O tempo de utilização tem vindo a aumentar ao longo da última década.»


Público, 15 de Agosto


2.

«Onde havia duas salas de cinema no estádio do Sporting, agora vêem-se jogos num lounge
O Sporting Clube de Portugal, proprietário do centro comercial Alvaláxia onde em Janeiro encerraram 12 salas de cinema, está já a usar duas dessas salas para exibição de jogos e espaço
lounge, ainda que sem aprovação de um pedido de desafectação dos espaços à exibição de cinema, obrigatório por lei. As outras dez salas estão totalmente vazias. Porém, a Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) está a “acompanhar” a transformação das duas salas já em novas funções, disse ao PÚBLICO fonte oficial do clube, e algo confirmado pela IGAC aos grupos de moradores que contestam o fim do cinema nos seus bairros.»

Público, 15 de Agosto.

3.

Menor confessou ter assassinado com golpe mata-leão na quarta-feira e só deu o alerta 21 horas depois. Menina de 4 anos, filha da vítima e irmã do suspeito, estava também na habitação.

Legenda: fotografia de Luís Eme