segunda-feira, 2 de agosto de 2021

SEM SABER EM VERDADE

13 de Abril de 1943

-Posso então sair amanhã?

- Pode. Um passeio pequeno, a experimentar.

- Não. Se puser os pés na rua, tenho de ir à Rainha Santa pagar a promessa que lhe fiz.

- Ah! fez-lhe uma promessa?

-Então a quem é que eu me havia de apegar, na aflição em que me vi?

- Evidentemente…

E desci as escadas atordoado, sem saber em verdade se tinha sido eu que curara aquela alma da labirintite, ou se teria sido de facto a mulher de D. Dinis.

Miguel Torga em Diário. Volume II

domingo, 1 de agosto de 2021

OLHAR AS CAPAS


Granta

Nº 1

Direcção e Editorial: Carlos Vaz Marques

Textos de Dulce Maria Cardoso, Valério Romão, Saul Bellow, Hélia Correia,  

                  Ricardo Felner, Fernando Pessoa, Ryszard Kapusciriski, Afonso Cruz,

                  Daniel Blaufuks, Simon Gray, Rui Cardoso Martins, Orhan Pamuk,

                  Rachel Cusk, Valter Hugo Mãe

Capa: Daniel Blaufuks

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Maio de 2013

No conceito de deus, há o horror ao seu próprio vazio, Nuns tempos comos os de hoje, a abundância de recursos preencheu o espaço em que a fatalidade e o capricho, instrumentos da infelicidade, nos atiravam de uma esquina para a outra, como tremendos bofetões divinos. Vestimos os coletes insufláveis e nada pode golpear-nos, nem a água, nem as arestas, nem sequer a idade. Corremos muito à frente do destino com os mistérios do corpo e os da alma consideravelmente diminuídos. Temos o organismo escrutinado e não somente por transparecer mas por se revelar quimicamente. Se pensarmos no tanto que sofreram os investigadores renascentistas a fim de dissecarem um cadáver, não deixaremos de nos sentir gratos pelo sorteio cronológico que pôs o nosso nascimento nesta época.

Do texto Intervencionados de Hélia Correia

sábado, 31 de julho de 2021

OLGA PRATS (1938-2021)


Morreu OlgaPrats.

Os nossos melhores vão partindo.

Fernando Lopes Graça morava na Parede. Olga Prats também. Numa noite de Verão, em que o acompanhava a casa, Olga Prats ouviu o Graça dizer:

«Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.»

 Andei à procura de uma fotografia de um Concerto na Academia dos Amadores de Música em que o coro é acompanhado pela pianista Olga Prats e em que na pimeira fila da plateia se vê a cabeleira branca do poeta José Gomes Ferreira. Uma fotografia lindíssima mas estará por aí. Um dia destes caba por aparecer.

 Recordo um velho texto, datado de  23 de Junho de 2009:


GUILDA DA MÚSICA/SASSETTI - SST 3001 - s/data

Naqueles tempos em que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem entrar, batessem na cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos impressões, experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras improváveis do tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se poderia chamar a memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles tempos.

"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".

Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio. Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia de trabalho.

"Para a próxima quem é que trás os discos?”

Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós. Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.

Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça “compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito Canções das Barcas Novas”.

Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.

O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos.

O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho, escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs para serem cantados.

Mais tarde, muito depois de escritas estas palavras, seria secretário de Estado da Cultura de um governo de José Sócrates. Dizem as más-linguas que ele e a ministra, para além de umas guerras intestinas e perfeitamente inúteis (Cinemateca, São Carlos etc.) não deixaram nada de registo. Também só agora é que o Primeiro-Ministro reconhece que errou ao não apostar mais na Cultura e que tenha sido tratada “como um parente pobre”.

Pois!...

 


sexta-feira, 30 de julho de 2021

PRIMEIRO DIA SEM PEDRO TAMEN


Amar-te é vir de longe,
descer o rio verde atrás de ti,
abrir os braços longos desde os sete
anos sob a latada ao pé do largo,
guardar o cheiro a figos vistos lá,
a olho nu, ao pé, ao pé de ti,
parar a beber água numa fonte,
um acaso perdido no caminho
onde os vimes me roçam a memória
e te anunciam mãos e te perfazem;
como se o sino à hora de tocar
já fosse o tempo todo badalado,
e a tua boca se abrisse atrás do tojo,
e abaixo dos calções as pernas nuas
se rasgassem só para o pequeno sangue,
tal o pequeno preço que me pedes.
Atrás da curva estavas, és, serias,
nos muros de granito, nas amoras.
Amar-te era lembrança e profecias,
uma porta já feita para abrir,
e encontrar o lar ou música lavada
onde, se nasces, vives, duras, moras
— meu nome exacto e pão
no chão das alegrias.


Pedro Tamen de Escrito de Memória em Tábua das Matérias

quinta-feira, 29 de julho de 2021

POSTAIS SEM SELO


Agora eu sabia que em cada manhã

Nasceria o sol atrás dos teus ombros.

Pedro Tamen

 

Legenda: pintura de Joni Mitchell, contracapa do álbum "Both Sides Now"

PEDRO TAMEN (1934-2021)


Morreu Pedro Tamen.

Um poeta de mão cheia, um Príncipe.

É uma grande perda, mas ficamos com o agasalho dos seus versos, das suas traduções, do enorme exemplo que nos deixou como pessoa e como intelectual,

sempre a fugir dos holofotes, das parangonas de jornais e revistas.

 

Chave, Klee

 

És, como Klee

a máquina de chilrear

a liquidez perfeita dos passos,

a música dos surdos.

 

Que húmido pilar

sustenta, amor, o paço

em que me acoito e durmo

que não seja teu canto

 

ao canto do meu dia?

És, como Klee,

a virgem matemática

que tudo me desvenda

 

e sem que eu faça contas

calculas somas, sumos,

entre o covo das ondas

e azul astronomia.

 

És, como no mundo,

a pintura delida

de que sobrou apenas

um osso branco e flauta.

 

Pedro Tamen em Rosado Mundo


domingo, 25 de julho de 2021

OTELO SARAIVA DE CARVALHO (1936-2021)


Morreu Otelo Saraiva de Carvalho.

Controverso, nunca intocável, mas uma referência da nossa História recente.

Em pequeno quis ser actor, mas nunca pensou que a História já lhe reservara um papel transcendente.

Numa daquelas anormalidades com que a justiça, civil e militar, perseguiu Otelo, em Junho de 1979, passaram-no à reserva.

Maria Velho da Costa um dia escreveu: VOCÊS PAGAM!

Não pagaram.

Talvez ainda paguem!

Nesse tempo de Junho de 1979, foi lembrado que há os que ganham mesmo quando perdem e Manuel Alegre escreveu um poema.

 

A ORDEM RESTABELECIDA

 

«Otelo foi passado a reserva.

A ordem foi restabelecida e nessa noite

as pessoas de bem dormiram descansadas.

Mas nalguns bairros de Lisboa

ouvi dizer que os pobres e os sonhadores

alguns poetas

e outros descamisados

da vida

sentiram-se uma vez mais despromovidos.

Eu mesmo

(que não estava de acordo com Otelo)

senti dentro de mim

a página a virar ou se preferem

uma passagem à reserva compulsiva

de qualquer coisa como que partida.

Não propriamente da esperança

(porque essa não será despromovida).

Mas talvez da alegria. Aquela parte de alegria

que não cabe na ordem restabelecida.»

 

sábado, 24 de julho de 2021

UM CERTO PÂNICO

9 de Janeiro de 1967

Durante certas leituras noto às vezes, com pânico, a despreocupação com que salto palavras e períodos, sem me sentir aflito de não perceber o que leio.

Que significa verdadeiramente isto? Cansaço? Incapacidade de manter a atenção? Velhice impersistente? Carência vital?

Ou apenas busca rápida do que interessa à necessidade da minha sede – para então parar e beber com sofreguidão?

Claro que acabo sempre por me inclinar para esta hipótese – assim me consolo.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Nesta semana, discutiu-se, na Assembleia da República, o Estado da Nação.

O governo que nos assiste diz-se de centro-esquerda, é mais centro que esquerda, mas é preferível a um governo de direita.

O governo tem ministros que não lembrariam ao careca, mas António Costa já disse que «não está prevista nenhuma remodelação no horizonte».

Penso que não será bem assim e, mais dia menos dia, teremos por aí remodelação, provavelmente para depois das eleições autárquicas.

Diga-se, no entanto, que a oposição, que tão mal diz do governo e dos ministros, é um perfeito desastre.

Rolava a bola há alguns minutos e Adão e Silva, líder parlamentar do PSD, saiu-se com esta pérola:

«No âmbito da saúde, senhor primeiro-ministro, que fique claro: nós, PSD, somos fundadores do Serviço Nacional de Saúde [SNS]. Estamos no SNS. E senhor primeiro-ministro, não é uma questão ideológica, é uma questão prática. É uma questão de sentido prático das coisas.»

Em Setembro de 1979, a lei do Serviço Nacional de Saúde foi aprovada na Assembleia da República com os votos do PS, do PCP, da UDP e do deputado independente Brás Pinto tendo votado contra todos aqueles que já, então, estavam contra o espírito da socialização da saúde, preconizado pelo deputado socialista António Arnaut: o PS, o CDS e os deputados independentes do PSD.

O governo pode ser a coisa terrível que as direitas dizem que é, ou querem que seja, mas, como oposição, são um perfeito desastre.

António Costa bem pode estar de cadeirinha a olhar.

1.

Bonita e justa homenagem.

O Auditório do Museu do Fado passou a chamar-se Auditório Ruben de Carvalho.

2.

No mínimo dos mínimos, deveria haver um médico e um enfermeiro de saúde pública por cada 20 mil habitantes.

3.

O Cardeal Angelo Becciu, ex-responsável pelas finanças, e afastado pelo Papa Francisco em Setembro do ano passado, é a figura mais alta do Vaticano a ser acusada de crimes financeiros: desvio de fundos, fraude e abusos do poder. Em causa estão 350 milhões de euros da Santa Sé,  aplicados num negócio de imobiliário em Londres.

4.

A Câmara Municipal de Lisboa tem cerca de 13.000 funcionários, ou seja um por cada 38 habitantes da cidade. Entre os funcionários da CML contam-se 381 advogados, 159 relações públicas, 443 arquitectos e 168 historiadores, entre muitas outras profissões.

5.

«Eu então vivo sozinho, absolutamente sozinho. Nunca falo a ninguém; não me dão, não dou nada a ninguém. O Autodidacta não conta. É verdade que há Françoise, a patroa do Rendez-vous dos Ferroviários. Mas pode dizer-se que falo com ela? Às vezes, depois do jantar, quando vem servir-me uma cerveja, pergunto-lhe:

«Esta noite você tem tempo?»

Nunca diz que não, e então sigo-a a um dos quartos grandes do 1º andar, que ela aluga à hora ou ao dia. Não lhe pago senão o quarto. Ela goza (precisa dum homem por dia, e além de mim, tem muitos outros) e eu purgo-me assim de certas melancolias cuja causa conheço perfeitamente. Mas mal trocamos algumas palavras. Para quê? Cada um por si; aos olhos dela, de resto, continuo a ser, antes de mais um freguês do café. Diz-me assim, ao despir o vestido:

«Ouça lá, você conhece um aperitivo chamado Bricot? É que houve dois fregueses, esta semana, que pediram. A rapariga não sabia, veio prevenir-me. Eram caixeiros viajantes; foi coisa que beberam em Paris, com certeza. Mas não gosto de comprar sem saber. Se não se importa, não tiro as meias.»

Jean-Paul Sartre em A Náusea

sexta-feira, 23 de julho de 2021

OLHAR AS CAPAS


Rente ao Dizer

Eugénio de Andrade

Prefácio: Federico Bertolazzi

Capa: desenho de Ilda David

Assírio & Alvim, Lisboa, Fevereiro de 2018

 

Rente ao Chão

 

1.

Era azul e tinha os olhos de deus,

o meu pequeno persa

- agora rente ao chão onde iria?,        

a voz quebrada,

o peso da terra sobre os flancos,

a luz deserta na pupila.

 

2.

Chamo por ti; digo o teu nome

tropeçando sílaba

a sílaba; repito o teu nome

para que voltes com a lua

nova, o sol de março,

o pão de cada dia;

chamo por ti:

o rigor do frio, a sua teia branca

por companhia


Colaboração de Aida Santos

quinta-feira, 22 de julho de 2021

O PAÍS QUE FOMOS


Há os que viveram e nunca perceberam, ou quiseram perceber, o país em que viviam.

Há os que perceberam e quiseram esquecer.

Há os outros.

Nesses outros há os que não quiseram, ou não conseguiram, ou não souberam dizer aos filhos o país em que tinham vivido.

O recorte pertence a um artigo de opinião de Isabel do Carmo, A Propósito de Vencedores e Vencidos no 25 de Abril de 1974, publicado no Público de 4 de Julho de 2021.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

IREI POR SETEMBRO, NUNCA EM AGOSTO!


A 92.ª edição da Feira do Livro de Lisboa vai realizar-se entre 26 de Agosto e 12 de Setembro, no Parque Eduardo VII.

Sempre me lembro da Feira por Maio e Junho.

Mas, a exemplo do ano passado, a pandemia manda-nos o evento para Agosto e Setembro.

O único problema que a nova data tem, é que esse não é o tempo dos jacarandás.

Livros e jacarandás é um gosto de muita gente.

Jorge Silva Melo, por exemplo:

Eu só gosto do Parque Eduardo VII em Maio, nunca lá vou noutra altura. Mas gosto de subir e de descer, sobretudo ao sábado e ao domingo, com gente que nunca vi nas livrarias, gente que mexe em livros, dicionários tantas vezes, livros do dia, livros mais baratos, gente, tanta gente, fico sempre com a sensação que há pessoas, que os livros servem as pessoas, que os editores são gente honesta que quer um mundo melhor, gosto de coleccionar os catálogos, de marcar com cruzinha os livros a comprar, de nem sequer comprar esses mas outros que me aparecem, esquecidos, de encontrar livros insuspeitos que nem sabia estarem editados, gosto de pedir autógrafos, há muitos anos foi lá que falei com a Maria Judite de Carvalho e lhe disse quanto a admirava, gosto de ver escritores sentados, gosto dos altifalantes a anunciarem escritores e descontos, gosto das farturas que ainda o ano passado engorduraram um livro de poesia acabadinho de comprar e até carote, não me tirem a ruados livros ao sol, não me fechem a Feira do Livro, deixem-me, uma vez por ano, passear pelo Parque Eduardo VII de todos os jacarandás, ao cair da noite, pela fresca, deixem-me encontrar os amigos, são cada vez menos!, deixem-me queixar-me de já não ter dinheiro, nem espaço em casa para mais papelada, deixem-me voltar a casa com quilos de sacos, deixem-me a minha Feira do Livro onde ela é, é onde todos os anos eu respiro um mundo que talvez fosse maior, com mais gente, mais livros, histórias, poesias, gente a subir e a descer aos sábados à tarde, com tanto calor. E um dia gostava de filmar, porque não filmar a descoberta do amor entre um rapaz de uma barraquinha de livros em segunda mão e uma jovem escritora neurasténica, rapariga loira com as suas singularidades. Ou vice-versa, em Maio, no Parque Eduardo VII." 

SER TESTEMUNHA É PIOR DO QUE SER RÉU

Por algum motivo os cidadãos têm hoje medo dos tribunais. Se o leitor tiver a infelicidade de se envolver num pequeno acidente de automóvel há-de ver as testemunhas fugirem do local, de si e das suas razões, como o diabo foge, diz-se, da cruz. Porque hoje, ser testemunha é, às vezes, pior do que ser réu. Uma testemunha não é tratada (nem respeitada) como um desinteressado colaborador da justiça, mas como um intruso; e quem se presta a depor em juízo é porque não está no seu juízo… A partir do momento fatídico em que dá o «nome, estado, profissão e morada», um homem deixa de ser senhor do seu destino; será notificado para diligências que, sem que ninguém lhe dê uma explicação, não se realizam; para julgamentos sucessivamente e infinitivamente protelados; perderá o tempo e a paciência; praguejará vezes sem conta em silêncio; e, quando, finalmente chegar (se chegar) a entrar na sala de audiências, será invectividado e vexado, ouvirá palavras duras, insinuações, alusões, indignidades, e não terá, a mais das vezes, a protecção de quem, nos tribunais, está acima das partes e do resultado do litígio.

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

OLHAR AS CAPAS


O Caso da Empregada Em Apuros

Erle Stanley Gardner

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 243

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Perry Mason e Della Street estavam a almoçar no Madison’s Midtown Milestone

O advogado começara a dizer qualquer coisa à secretária quando notou que alguém se aproximava. Levantou a cabeça e deparou com o olhar sorridente de Kelsey Madison o proprietário.

- Que tal o almoço, Mr. Mason?

- Excelente. A comida está boa, como sempre.

E o serviço?

-Maravilhoso!

Madison lançou um olhar rápido, por cima do ombro, e depois baixou a voz:

-Não tem realmente nada a dizer, Perry?

- Não- respondeu-lhe o advogado, um pouco surpreendido. – está tudo perfeito.

- Perguntei porque acabo de descobrir que a empregada que os serve comprou a mesa a outra.

- Que quer dizer? – inquiriu Mason, sem perceber.

- Talvez tenha reparado que a rapariga que trouxe a manteiga, a água, os talheres e as ementas não foi a mesma que veio receber a encomenda?

- Confesso que não reparei. A Della e eu estamos um pouco preocupados e…

- Também me pareceu. Custou-me interrompe-los, mas aqui em casa não aprovamos a compra de mesas

- O que quer dizer ao certo, Madison?

- ´E um costume corrente em certos restaurantes. A chefe das criadas encarrega uma rapariga de servir determinada mesa, mas se o cliente é daqueles que dão gorjetas liberais, outra empregada pode querer comprar a mesa. 

terça-feira, 20 de julho de 2021

NÃO SUBESTIMAR O ADVERSÁRIO

17 de Julho de 1967

Quantas vezes tenho ouvido dizer, nestes 30 anos: o fascismo está isolado, no plano interno e no plano externo… É o optimismo da miopia, que conduz ao precipício. Nunca ninguém ganhou batalhas subestimando o adversário.

Mário Sacramento em Diário

OLHARES

Os dias em que não tem visitado o Cais, revelam a clara angústia que a pandemia vai deixando.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

ARQUITECTURA E CRIME


Jornais e revistas dormem longos sonos descansados numa cesta de vime onde os vou colocando.

Volta e meia pego neles. Desta vez deu para ler uma crónica semanal de António Guerreiro no suplemento Ipsilon do Público de 4 de Junho.

Não pela marquise do CR7, tem todo o direito de gastar o dinheirão que ganha, antes pela observação de que certos arquitectos, com conivências várias, têm, ao longo dos anos, destruído esta cidade.

domingo, 18 de julho de 2021

POSTAIS SEM SELO


O passado é um lugar estranho quando se sai dele como se nunca lá tivesse entrado.

Luís Cardoso, escritor timorense 

UM EFEITO DE EVIDÊNCIA

Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Lembram-se que ele ter confessado que o blogue andava a passar por momentos pouco claros e prometia um ultrapassar de barreiras?

Conversa mole e, no fundo dos fundos, nem ele próprio acreditava no que dizia.

É certo que no meio da caminhada recuperatória aconteceu a tempestade que transformou o Benfica num saco de boxe em que todos aparecem a dar murros e pontapés.

Mas nem isso o desculpa porque de há muito sabia, juntamente com milhares de benfiquistas, que o clube estava a entregue, há largos anos, a um gangue de mafiosos.

 O crápula já pediu a demissão.

Os restantes estão à espera de quê?

Apenas lamentará a circunstância de a justiça, por falta de meios, ou vontade?, não lançar uma enorme varredela na corrupção que grassa no futebol.

Num seu livro, Alexandra Alpha, um livro não muito cativante, José Cardoso Pires, tem este desabafo:

«Isto não é um país, é um sítio mal frequentado».

1.

As pessoas estão cansadas com as restrições impostas pelo governo?

Imagino que sim, todos estamos, isto tem sido um imenso sofrimento.

Continuo a não entender a relutância em que milhares de pessoas caíram, ao ponto de não quererem ser vacinadas.

Estarão cansadas de viver?

2.

Caiu o Carmo e a Trindade quando Cristiano Ronaldo, na sua penthouse lisboeta, sem pedir licença a ninguém, construiu uma marquise?

Os arquitectos do edifício sentiram-se chocados, o clã Ronaldo disse que isto era uma palhaçada de país.

Não sei se alguém um dia disse aos arquitectos que o edifício é um horror ambiental e não seria a marquise CR7 que está fora da situação: é todo o edifício!

A chinfrineira foi muita mas de repente aconteceu o silêncio.

Nunca mais ninguém falou do atentado marquisiano.

Terão circulado envelopes com notas ronaldianas?

O Dudu, no café do bairro, chegou a dizer que o CR7 ameaçou não jogar na selecção se continuassem a embirrar com a marquise.

Sarri, que foi treinador de Cristianos Ronaldo na Juventus, chegou a dizer:

 «Gestão de Ronaldo não é fácil. Ele é uma multinacional»

3.

«Sentado ao fogo, junto da minha mulher, inquilina da minha solidão, recordo os anos da juventude. Nessa altura, o mosto fermentava nas caves da idade, e nós aguardávamos o vinho maduro com a impaciência dos sóbrios. Tudo foi preparação. Os enforcados amavam as nossas travessias, as mães rezavam com as mãos postas sobre o linho corrompido pelo sal. Onde as aves desertavam, erguíamos um templo de suspeita e sedução. Eram os dias do amor e do arrependimento. Hoje sei que a embriaguez é só esta indiferença com que pressinto o sangue nos dedos da minha mulher, que borda, e que a sabedoria nos abandona no fim. Ainda esta noite comungarei com deus. Amanhã serei as uvas frescas na videira.
Sentado ao fogo, junto da minha mulher, inquilina da minha solidão, recordo os anos da juventude. Nessa altura, o mosto fermentava nas caves da idade, e nós aguardávamos o vinho maduro com a impaciência dos sóbrios. Tudo foi preparação. Os enforcados amavam as nossas travessias, as mães rezavam com as mãos postas sobre o linho corrompido pelo sal. Onde as aves desertavam, erguíamos um templo de suspeita e sedução. Eram os dias do amor e do arrependimento. Hoje sei que a embriaguez é só esta indiferença com que pressinto o sangue nos dedos da minha mulher, que borda, e que a sabedoria nos abandona no fim. Ainda esta noite comungarei com deus. Amanhã serei as uvas frescas na videira.»
                                                

João Moita

quarta-feira, 14 de julho de 2021

OLHAR AS CAPAS


Poirot e o Jogo Macabro

Agatha Christie

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 252

Livros do Brasil, Lisboa, s/d

Foi Miss Lemon, a eficiente secretária de Poirot, quem atendeu o telefone.

Pôs de parte o livro de apontamentos estenográficos, levantou o auscultador e disse, sem ênfase:

- Trafalgar 8137.

Hercule Poirot recostou-se na cadeira de espaldar direito e fechou os olhos, enquanto tamborilava suavemente no tampo da secretária. Mentalmente, continuava a compor os períodos burilados da carta que estivera a ditar e o toque do telefone interrompera.

- Deseja atender uma chamada pessoal, de Nassecombe, Devon? Perguntou-lhe a secretária. Com a mão a tapar o bocal do aparelho.

segunda-feira, 12 de julho de 2021

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O exemplo encontrado saiu por acaso. Podia ser um outro qualquer livro.

Terna é a Noite tem uma forte influência autobiográfica e o filme realizado por Henry King não chega aos calcanhares do livro, tão pouco a Riviera e as excelentes Jennifer Jones e Joan Fontaine, ajudaram à missa.

Tudo isto vem apenas para lembrar uma velha história:

Duas cabras estão num estúdio de Hollywood a comer uma bobine de filme. Poderia ser do filme de King. Diz uma das cabras:

-Então, está tudo bem?

A outra responde:

- Está, mas gostei mais do livro.

Em OJogo do Reverso, António Tabucchi tem um conto à volta do livro de Fitzgerald:

«À noite falávamos de Fitzgerald ouvindo Tony Bennett que cantava Tender is the Night. Do filme, para dizer a verdade, ninguém tinha gostado, nem sequer o senhor Deluxe, embora não fosse de gostos difíceis. Mas o Tony Bennett tinha uma voz «pungente como o romance», e o Gino tinha de voltar a pôr o disco uma quantidade de vezes. Inevitavelmente pediam-me o início do livro, todos achavam delicioso que eu soubesse de cor o início dos romances de Fitzgerald: só os inícios, que eram uma das minhas paixões. O senhor Deluxe, sério como de costume, pedia silêncio, eu procurava esquivar-me, mas não era possível dizer que não, o disco do Tony Bennett tocava em surdina, o Gino tinha servido os bacardis, eu olhava fixamente para ti, tu sabias qua quele início te era dedicado, era quase como se tivesse sido eu a escrevê-lo, acendias um cigarro na boquilha, também aquilo fazia parte da representação, brincavas à flapper, mas não tinhas nada de uma flapper, nem a franja, nem as meias de rayon e muito menos o espírito; tu pertencias a outra categoria, poderias ter entrado talvez num romance de Drieu, ou de Pérez- Galdós, tinhas um sentimento trágico da vida, talvez fosse o teu egoísmo sem solução como um castigo.» 

domingo, 11 de julho de 2021

POSTAIS SEM SELO


 Toda a morte deixa um vazio à espera de ser preenchido.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

NOTÍCIAS DO CIRCO



A notícia da detenção de Luís Filipe Vieira, presidente do Sport Lisboa e Benfica, já há muito deveria ter acontecido.

Se houvesse ética, transparência, amor ao clube, tanto os restantes dirigentes do clube, como da SAD, deveriam, desde já, ter colocado os seus lugares à disposição e, com bom senso, sem pontas de histerismo, mandatarem o presidente da Assembleia Geral para a convocação de eleições intercalares.

Gostaria muito que este episódio, fosse o primeiro passo para uma verdadeira limpeza, e consequente destruição da máfia do futebol pátrio

Que ninguém, mas mesmo ninguém, se ponha, agora, a assobiar para o lado.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

OLHAR AS CAPAS


Cuidado Com as Curvas

A.A.Fair

Tradução: Mascarenhas Barreto

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 170

Livros do Brasil s/d

Bertha Cool assemelhava-se muitíssimo ao grande hipopótamo, na época dos amores. Isso transparecia em todos os seus gestos.

-Donald, quero apresentar-lhe Mr. Ansel, John Dittmar Ansel, Donald Lam, meu sócio…

O homem era grande e delicado. Parecia um poeta: nariz fino, boca sensual, cabelos negros ondulados e mãos compridas de artista. O vestuário era sóbrio e elegante. Quando se levantou, calculei que tivesse um metro e oitenta e quatro à vontade. A sua voz, harmoniosa e calma, e o modo de apertar a mão revelavam um homem adverso a toda a violência.