Mais livros de Viagens.
Colaboração de Aida
Santos.
A Lupa, inclina-se num
trabalho de Nuno
Pacheco, no Público, sobre o novo disco de Cristina Claro, e copia:
«As mulheres são as grandes transmissoras, tanto nas canções como nas histórias».
A editora Tinta-da-China
colocará nas livrarias, a partir de 19 de Novembro, uma Antologia Fotográfica
de Augusto Cabrita, um dos grandes fotógrafos portugueses do Século XX.
«O legado de Augusto
Cabrita é de sobremaneira singular. Nenhum outro autor português do século XX
desenvolveu atividade simultânea na fotografia, no cinema e na televisão com
conjunta qualidade e profusão. Este livro de fotografia reflete o seu elevado
sentido estético, a sua mundividência e cultura visual.»
— Augusto António Cabrita,
coordenador editorial do álbum que custará 45,00 euros.
«A tarefa do fotógrafo
é «aprisionar a luz». E como era difícil — confessava Cabrita — levar o Sol
para casa, «encaixotado» dentro de uma câmara escura. Tinha que «ser
‘amansado’, ‘domesticado’, na sua explosão petrificada, quando quer[ia]
‘nascer’ para fora do ampliador». […] Das janelas da sua casa no Barreiro (um
quarto andar na Rua Almirante Reis), desfrutava uma vista magnífica sobre o
rio. Não queria cortinas nas janelas, nada que se interpusesse entre ele e a
luz.»
Jorge Calado sobre Augusto Cabrita, parafraseando a célebre formulação de Louis Daguerre sobre a fotografia.
A família Bolsonaro é um enorme conjunto de trastes.
Flávio Bolsonaro, não
reconheceu a vitória de Lula da Silva, fugiu do Brasil e escreveu uma carta declarando-se
“presidente eleito do Brasil”, mas voltou atrás declarando-se, apenas "líder" e não "presidente».
Donald Trump que
pessoalmente, ou através dos seus “rapazes”, patrocinou a fuga bolsonarista, acha que a
família Bolsonaro são boas pessoas.
Flávio Bolsonaro está
a ser investigado por corrupção, branqueamento de capitais e evasão fiscal no
Brasil.
O povo brasileiro
reconheceu, a tempo, que Lula da Silva não será o melhor presidente do Brasil
mas está muitíssimos furos acima do que aconteceria se Flávio Bolsonaro tivesse vencido as eleições de domingo.
«Era um velho que
pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra já por oitenta e
quatro noites sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora
com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este
que o velho estava definitivamente “salao”, o que é a pior forma de azar, e o
rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou
três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com
o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o
croque e o arpão e a vela enrolada no mastro»
Original é o poeta
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia
Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.
Incapaz de assistir n'um só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernaes lethal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) n'um só momento,
E sómente no altar amando os frades,
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Sahiram d'ele mesmo estas verdades
N'um dia em que se achou mais pachorrento.
Bocage em Sonetos
«Olhando para o rosto dos miúdos, milagre de hoje,
esperança de amanhã.»
Colaboração de Aida Santos
«Morri…
E, em vez de me enterrarem na Lua,
longe da Guerra
e do Cárcere,
atiraram-me para aqui
onde o meu drama continua…
Pois hoje pertenço à Terra
e o planeta há-de vingar-se»
José Gomes Ferreira em Poesia II
Limpa-se
o pó aos livros, limpa-se o pó aos discos, limpa-se o pó aos jornais.
O
Outono é o tempo dessas limpezas.
Os
jornais estão na arca, junto aos Pequenos Cadernos.
Nos
jornais que por lá se encontram está um suplemento do Público: Fugas.
Está datado de 27 de Fevereiro de 2021.
Guardei
o suplemento por mera curiosidade.
Alguns
dos livros fazem parte da Biblioteca da Casa, a maior parte não estão por cá.
Entretanto
fui desafiada para ir reproduzindo por aqui todos - eles disseram todos! – os livros
que o Público apresentou.
Assim vai ser, e assim começo.
seguido
de
Mundo do Sem Fim
Luís
Sepúlveda
Tradução:
Pedro Tamen
Círculo
de Leitores, Lisboa, Abril de 1997
Com
as primeiras sombras da tarde desatou-se o dilúvio, e poucos minutos depois era
impossível para ver para além de um braço estendido. O velho deitou-se na rede
à espera que chegasse o sono, agitado pelo violento e monocórdico murmúrio da
água omnipresente.
Antonio José Bolívar dormia pouco. Quando muito cinco horas de noite e duas à sesta. Bastava-lhe isso. O resto do tempo, dedicava-o aos romances, a divagar acerca dos mistérios do amor e a imaginar os lugares onde aconteciam as histórias.
Velho
que já é, causa-lhe, agora, um certo engulho um tal Luís Neves, ministro da Administração
Interna aqui do reino, antes polícia-mor da Judiciária do mesmo reino.
Mais
ainda quando um tal Luís Montenegro, primeiro-ministro, também do reino, o
mantém como horrível personagem governamental.
Conclusão
básica:
O
reino está ingovernável!
Digo: “Lisboa”
Quando
atravesso – vinda do sul – o rio
E
a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se
e ergue-se em sua extensão noturna
Em
seu longo luzir de azul e rio
Em
seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a
melhor porque a digo
Tudo
se mostra melhor porque digo
Tudo
mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque
digo
Lisboa
com seu nome de ser e de não-ser
Com
seus meandros de espanto insónia e lata
E
seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu
conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto
o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa
oscilando como uma grande barca
Lisboa
cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo
o nome da cidade
–
Digo para ver.
Sophia
de Mello Breyner Andresen
Ontem,
mudou a hora no relógio da cozinha, também no velho despertador, tão velho como
ele, que está na mesa de cabeceira ao lado de livros para ler.
Lembra-se
que ainda não contou a história de, há muitos longos anos, não usar relógio de pulso,
ou qualquer outro.
Há-de
contar.
Por um destes últimos dias escreveu por aqui que os livros são muitos e após a 1ª leitura, voltamos a pegar neles, alguns para releituras, outros por circunstâncias várias.
Agora pegou em Por Saramago, por todos os motivos, um livro muito, mas mesmo muito bonito com que Anabela Mota Ribeiro entendeu homenagear, em Novembro de 2018, o nosso único Nobel da Literatura e que começa assim:
«Como
uma pedra que faz círculos num rio de águas paradas. Uma reverberação lenta, um
murmúrio longínquo e ainda assim audível. Tenho esta estranha sensação (de
irrealidade) quando recupero a primeira entrevista que fiz a José Saramago. O
escritor tinha 84 anos, o ponto de partida e columa da entrevista era um livro
de memórias, a minha primeira pergunta apontava para uma despedida».
Lembra-se que esteve uma única vez com José Saramago, porque nunca o encontrou na rua, nunca
foi a uma apresentação dos seus livros, estar na fila para um autógrafo, o encontro
único aconteceu na Festa do Avante de 1977, aguardávamos vez para comer uma
sandes de presunto, beber um copo de vinho da região, no pavilhão de São Pedro
do Sul, terra do Carlos Carvalhas. Proveitosa conversa, apesar de curta, disse
que estaria na cidade do livro para autógrafos. Já tinha todos os livros de
Saramago, mas comprou O Ano de 1993,
para aproveitar o registo do encontro e da conversa.
Agora vai reproduzir os sublinhados que fez no livro da Anabela Mota Ribeiro:
A
pergunta apontava para o que, em circunstâncias normais, comovia Saramago:
«Se
for ali na rua com o seu marido, noivo, irmão, a sua mãe, e se você, ou um
deles, lhe puser a mão no ombro, esse gesto tão simples pode comover-me. Não
estou a afalar do abraço erótico.O abraço, os braços que rodeiam o corpo do
outro, essa proximidade entre dois seres, comove-me. Comovem-me as grandes
tragédias, silenciosas ou não. Sou realmente uma pessoa sensível. A gente com a
idade torna-se mais frágil, está tudo à flor da pele, ao contrário daquilo que
se crê, que com a idade se endurece. Pelo menos não é o meu caso.» (pág. 27).
«E
os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose.
Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar,
como vai?, gosto muito daquilo qu escreve.” São pequenas glórias praticamente
quotidianas.»
(pág. 30).
«Limito-me
a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho
direito a tê-lo, é poder dizer que a mim ninguém me cala.
(…)
No
outro dia estava na Itália e disse, com grande escândalo do Vaticano, que achou
que era uma provocação infame, mais uma da minha parte, que o mundo seria mais
pacífico se fôssemos todos ateus.»
(pág.
36).
«O
Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: «A tua vida é
um milagre.» E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.» (pág.38).
CONTINUA
Legenda: Ilda Reis, então mulher de Saramago, a filha Violante.
É
esse o tempo.
Outros
se seguirão, de certeza muito complexos.
Lula
da Silva disse, ontem, que irá modificar sua maneira de governar.
Esperemos
que sim.
O traste Flávio Bolsonaro, vai exigir a anulação das eleições, e talvez peça refúgio em braços trumpistas!
Para Maria Lamas
Porque
trazes na voz a voz das companheiras
Companheira te chamamos
Porque
no teu olhar se alargam os olhos que semeiam e vigiam
o sol a todas as alturas, o sol dos meninos e das colheitas
Porque nele se tornam mais límpidos os olhos das namoradas
Companheira te chamamos
Porque
nele gelam as lágrimas do medo e da dor
Gelam e estalam desfeitas num pranto de calor
Porque
nos teus olhos continuam acesos os olhos vendados de encontro às paredes
Porque
trazes no peito o sopro das nossas irmãs
O sopro resoluto do trabalho, o verde e dourado sopro que branqueia o pão
O sopro das que amam
E amando crescem e envelhecem ao nosso lado
Das que amam
E amando tombam em cada dia num só momento por milhões partilhado
Porque
caminhas na terra dividida
Por uma estrada aberta pelo esforço dos povos
Onde cada presença é um apelo e cada apelo uma conquista
Porque até o sol remoça na neve tranquila dos teus cabelos
E o vento sopra-te com a mesma força que a nós
Companheira te chamamos
Porque
as palavras na tua boca
Têm a medida do mundo e a face dos mortais
Porque no teu ventre a fome e a vida se completam
Porque no teu rosto fala o tempo até nós
Mãe te chamaríamos
Companheira te chamamos.
Orlando da Costa
Títulos
e palavras:
Polícia
volta a avançar sobre manifestantes pacíficos em protestos pela habitação
Houve 31 detenções, 11 pessoas feridas de acordo com a PSP. Foram retiradas tendas.
Sinto vergonha do meu País: manifestante
emociona-se a descrever intervenção policial durante protestos em Lisboa
31
pessoas foram detidas e pelo menos 11 ficaram feridas, na madrugada deste
domingo
"O que eu vi foi força física para
fazer cumprir a lei", afirma Luís Neves sobre carga policial nas
manifestações pela habitação.
O presidente daquela coisa defende a intervenção da polícia nas manifestações e volta a criticar silêncio de Montenegro.
José Luis Carneiro exige ao
primeiro-ministro que quebre o silêncio e que assuma "a sua
responsabilidade".
O porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho,
defendeu que existiu proporcionalidade na resposta policial às manifestações
desta madrugada pelo direito à habitação e acusou o secretário-geral do PS de
irresponsabilidade e hipocrisia.
Afirmou
ainda que o PSD recusa "uma falsa clivagem" entre a autoridade dos
polícias e a liberdade de expressão dos manifestantes, dizendo que houve
arremesso de objetos por parte dos segundos contra a polícia.
Em
reação às críticas de José Luís Carneiro, que exigiu esclarecimentos ao
primeiro-ministro, o porta-voz do PSD Bugalho disse que Luís Montenegro
"não entra em torneios de conferências de imprensa" com deputados ou
líderes partidários.
Alexandra
Leitão, dirigente do PS, também pede a intervenção do presidente da República
António José Seguro.
Entre um incêndio,
Junto ao modelo das
searas,
na aprendizagem da
paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco,
um pouco
de beleza».
Herberto
Helder
Brasil dividido: quando o
destino de um país se decide nas redes sociais.
Chegados a isto, que mais
há para dizer?!...
Sonhar mas um sonho
impossível
Lutar quando é fácil ceder
Vencer o inimigo invencível
Negar quando a regra é vender
Sofrer a tortura
implacável
Romper a incabível prisão
Voar num limite improvável
Tocar o inacessível chão
É minha lei, é minha
questão
Virar esse mundo, cravar esse chão
Não me importa saber se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão
que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu, delirar e morrer de paixão
E assim, seja lá como
for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão
The Impossible Dream,
versão de Chico Buarque de Holanda
Abordamos a página 15 de Biografia de Herberto Helder, em que João Pedro George aborda indícios do gosto de Herberto pela Arquitectura e copiamos:
«Talvez
Herberto se tenha fixado na notícia sobre Os Arquitectos São Poetas Também, o
título e o lema da exposição do Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, sobre
José Ângelo Cottinelli Telmo (que além de arquitecto era cineasta, bailarino,
poeta e autor de banda desenhada, fotógrafo, ilustrador e músico).
Conhecendo-se
a sua ligação à arquitectura (trabalhou com Tomás Taveira no atelier do
arquitecto Francisco da Conceição Silva, tendo colaborado no projecto da loja
Valentim de Carvalho, em Cascais, e conviveu de perto com José Trofa Real,
quando vivia em Angola, e pensando na sua poesia escreveu uma «Ode aos
Arquitectos.
Herberto concordaria, decerto, com o texto que
apresentava a exposição:»Cotinelli Telmo – autor do Padrão dos Descobrimentos –
reclamava para os arquitectos o direito e a liberdade de afirmarem a sua
subjectividade, de fintarem a racionalidade, de contornarem imposições
imperialistas. E resumia o modo como entendia a arquitectura: em comunhão com
todas as artes, com todas as disciplinas.»
Pensando
na arquitectura, Herberto terá idealizado o poema Prefácio, primeiro poema de
A Colher na Boca, publicado em 1961 que na publicação de Poesia Toda, editado
pela Plátano Editora, aparece no conjunto Ofício Cantante.
É
este o poema:
«Falemos
de casas, do sagaz exercício de um poder
tão
firme e silencioso como só houve
no
tempo mais antigo.
Estes
são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo
com ironia e doçura no fundo
de
um alto segredo que os restitui à lama.
De
doces mãos irreprimíveis.
–
Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as
casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a
boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.Digamos que descobrimos
amoras, a corrente oculta
do
gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos
corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável
das fontes –
pensamentos
nas pedras de alguma coisa celeste
como
fogo exemplar.
Digamos
que dormimos nas casas, e vemos as musas
um
pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas,
e temos memória
e
absorvente melancolia
e
atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.Estas são as casas. E se
vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos
um pouco, e muito, com tais arquitectos
que
não viram as torrentes infindáveis
das
rosas, ou as águas permanentes,
ou
um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
–
Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos
muitos sentidos dos meses,
dizendo:
aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para
que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
Alguém
trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém
viera do mar.
Alguém
chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém
lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
–
Estas casas serão destruídas.
Como
um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no
seu casamento solar, assim
se
esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando
a demorada cabeça para os rios misteriosos
da
terra
onde
os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas,
as caras ardendo nas velozes
iluminações.
Falemos
de casas. É verão, outono,
nome
profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam
o sal, os construtores
da
alma, comportavam em si
restituidores
deslumbramentos em presença da suspensão
de
animais e estrelas,
imaginavam
bem a pureza com homens e mulheres
ao
lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando
uns nos outros –
comovidos,
difíceis, dadivosos,
ardendo
devagar.
Só
um instante em cada primavera se encontravam
com
o junquilho original,
arrefeciam
o resto do ano, eram breves os mestres
da
inspiração.
–
E as casas levantavam-se
sobre
as águas ao comprido do céu.
Mas
casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce
e obsessiva – tudo isso
está
longe da canção que era preciso escrever.
–
E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.
Falemos
de casas, da morte. Casas são rosas
Para
cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos
abandona para sempre.
Casas
são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes
que fulguram lentamente
Até
uma baía fria – que talvez não exista,
como
uma secreta eternidade.
Falemos
de casas como quem fala da sua alma,
Entre
um incêndio,
Junto
ao modelo das searas,
na
aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e
morrer com um pouco, um pouco
de
beleza».
Legenda: capa de A Colher na Boca de Herberto Helder, editado pelas Edições Ática em 1961, tirada da Internet.