sexta-feira, 16 de outubro de 2026

RETRATOS


Na secreta raiz de algum poema

tu nasceste por dentro das palavras.

 

Cantar era para ti uma viagem.

Sentias a revolta, nervo a nervo,

como um pássaro ferido.

 

Neste tempo rasteiro e abafado,

guardavas o veneno precioso.

 

Ias para longe de mais e o tempo passa:

os milhafres do nojo prosseguiam,

rasgando a carne pura do teu sonho.

 

Matavas o silêncio.

Mas na sombra do tempo houve uma pausa,

um outono mais rápido,

um inverno mais súbito.

E as pétalas da noite desabaram,

corroendo o teu nome de grinaldas perdidas.

 

Rui  Namorado

O CANTO E AS ARMAS


ORFEU - STAT 003 - 1970

FACE 1

E De Súbito Um Sino (poema dito por Ruy Mendes) - Raiz (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - E A Carne Se Fez Verbo (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - E O Bosque Se Fez Barco (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Peregrinação (Adriano Correia de Oliveira) - A Batalha de Alcácer-Quibir (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Regresso (Manuel Oliveira/Adriano Correia de Oliveira)

FACE 2

Canção da Fronteira (António Cabral/Adriano Correia de Oliveira) - Por Aquele Caminho (José Afonso/Adriano Correia de Oliveira) - Canto Da Nossa Tristeza (Manuel Alegre/Luís Colaço) - Trova Do Vento Que Passa Nº 2 (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - As Mãos (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Post-Scriptum (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira)

Capa de J. Bugalho, acompanhamento à viola de Rui Pato.

Foram dois militares que gravaram este LP num estúdio de Campolide, em Lisboa: o aspirante a oficial miliciano de Cavalaria, Rui Pato, e o alferes miliciano da Polícia Militar, Adriano Correia de Oliveira.

O LP foi gravado em duas noites de patrulha de Adriano. Com a cumplicidade dos restantes militares, o jeep andava na ronda, enquanto o alferes pousava a pistola em cima do piano: o canto e as armas.

Testemunho de Luís Colaço, autor da música de "Canto Da Nossa Tristeza":

O poema "Canto da Nossa Tristeza" faz parte do livro do Manuel Alegre "O Canto e As Armas", sendo o único poema deste disco que não foi musicado pelo Adriano.

Musiquei-o em Lisboa, quando alguns dos meus camaradas nacionalistas angolanos que estudavam em Coimbra, foram presos pela PIDE, após a Crise Académica de 1969, incluindo o meu irmão Joca Colaço (já falecido), estudante do 2º ano de Medicina (colega do Rui Pato) e que também era um bom músico pop e tocava no conjunto Os Pops.

Nessa altura tive plena consciência de que teria de rapidamente sair clandestinamente de Portugal.

Tinha obtido o livro do Manuel Alegre e o poema que mais me sensibilizou, pela tristeza combatente que transpirava e que era semelhante à que eu sentia ao ter de abandonar tudo e todos - família, namorada, amigos, o último ano do curso de engenharia civil no I.S.T, os Álamos, o Rádio Clube Português, a editora Movieplay etc. - em prol das minhas opções ideológicas e nacionalistas, foi o "Canto Da Nossa Tristeza".

Musiquei-o com esse sentimento, daí a sua harmonia nostálgica tão bem interiorizada pelo Rui Pato no seu arranjo musical para o disco, com uma bela introdução e um solo de viola sensacional.

Obrigado meu grande amigo Rui!

Soube pelo técnico de som Moreno Pinto, da Polysom, que me contactou na Movieplay, onde eu era o Chefe do Departamento de Promoção, que o Adriano iria gravar com o Rui Pato um disco baseado nos poemas do livro de Manuel Alegre.

Desloquei-me no dia anunciado para a gravação (em finais de Fevereiro de 1970, se não estou em erro) aos estúdios da Polysom, em Campolide, disse ao Adriano (que chegou ao Estúdio fardado e armado de pistola à cintura) que tinha uma composição para o "Canto da Nossa Tristeza", poema que ele não havia musicado e propus-lhe que a cantasse no disco.

O Rui emprestou-me a viola dele, cantei-lhe a música "em bruto", ele gostou bastante e depois de ouvir a opinião do Rui Pato pediu-lhe para fazer ali mesmo os arranjos musicais que eu achei óptimos, e depois das outras faixas do disco terem sido gravadas a minha música foi finalmente gravada com o acompanhamento do Rui Pato!

Só grandes músicos conseguiam fazer tal proeza, com tanta qualidade e em tão pouco tempo!

Do que me recordo, todo o disco foi gravado em menos de 24 horas! Uma obra…

Começou de manhã e só acabou alta madrugada quando todas as faixas tinham sido gravadas! E eram 13! Os arranjos musicais do Rui Pato iam sendo feitos música a música, logo seguida da respectiva gravação. Assisti a todas as gravações e no final ouvimos tudo seguido, bem cansados! Só voltei a ouvi-las 2 anos depois! Já nem me lembrava delas.

Esta gravação foi em Março de 1970 e por isso situo a gravação de "O Canto E As Armas" no final de Fevereiro de 1970. Mas, como já disse, já lá vão muitos anos…Uma coisa é certa: o disco não foi gravado em 1969 como por lapso aparece no disco.

Só ouvi pela primeira vez o disco já editado, em 1972, em Argel, nos estúdios da Radiotelevisão Argelina, onde era gravado o programa do Manuel Alegre “A Voz da Liberdade”.

Era um Long Play (LP) com a capa da “manifestação estudantil de 1969” e um pequeno texto “muito cuidadoso” do Adriano, sem falar nunca do Manuel Alegre, para não alertar a PIDE (DGS) e o disco ser confiscado.

Acompanhei pessoalmente o Adriano nessa música, pela primeira e única vez, em Luanda, em 1976, logo após a Independência de Angola, quando ele cá veio com o Zeca Afonso, por proposta minha, a convite do Governo angolano, acompanhado do Fausto.

Saí clandestinamente de Portugal em Abril de 1970, logo após ter chegado de Londres, onde acompanhei com o Bóris (Carlos Correia), o Zeca Afonso na gravação do disco "Traz Outro Amigo Também", depois de várias peripécias com a PIDE, inclusivé ter sido preso dentro do avião, minutos antes do embarque para Londres. Consegui apesar de tudo embarcar uma semana depois do Zeca e do Bóris partirem!

Já agora, um último detalhe: já fora de Portugal soube que o disco "O Canto E As Armas" ia ser corajosamente editado e pedi, a partir de França, em Agosto de 1970, ao meu amigo Magalhães Pereira, Chefe do Departamento ZIP-Música das Organizações ZIP-ZIP Publicidade, Lda, que salvaguardasse por contrato os meus direitos de autor da música.

Infelizmente nunca recebi o Contrato de Edição que me foi enviado para França, provavelmente por o correio enviado ter sido confiscado pela PIDE (DGS).

Rui Pato

Copiado de «IÉ-IÉ», blogue de Luís Pinheiro de Almeida

VERDE QUE TE QUERO VERDE

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Federico Garcia Lorca

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

GUERNICA


«Havia no País basco uma cidade santa chamada Guernica. Ao longo dos séculos, os reis de Espanha vinham, uma vez por ano, diante do velho carvalhão de Guernica, prestar juramento de respeitar as liberdades dos Bascos. Sob o carvalho de Guernica-a-Santa, os anciãos vinham fazer justiça.

Domingo, 26 de Abril de 1937, era, como todos os domingos, dia de feira em Guernica, às cinco da tarde…Os aviões eram “Heinkel 111” e “Junker 52”.

O bombardeamento durou três horas.

As vagas sucediam-se com precisão de vinte em vinte minutos.

As bombas pesavam quinhentos quilos.

Todo o centro de Guernica foi destruído.

Mil seiscentos e cinquenta e quatro mortos, oitocentos e oitenta e nove feridos.

Havia sete mil habitantes em Guernica.

O general alemão Galland, comandante da esquadrilha alemã, dirá mais atrde: »Guernica não era um objectivo militar, foi apenas um lamentável erro.»

Madeleine Chapsal em Morrer Em Madrid

Legenda: pintura de Pablo Picasso. Por ordem do pintor, a pintura só foi vista em Espanha depois da morte de Francisco Franco.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Um grupo de manifestantes, reunidos numa praça do Porto, protestavam pela habitação e o aumento do custo de vida, acabaram por ser barbaramente agredidos e perseguidos.

Imagens televisivas, e outras, mostram agressões, pontapés. algo a lembrar um tal Capitão Maltês de péssima memória.

O presidente da Câmara do Porto, o chefe das polícias. apressaram-se a dizer que os manifestantes não respeitaram as ordens policiais.

O presidente da república gaguejou qualquer coisinha, o primeiro-ministro, mais o seu sorrisozinho, pediu que não caíssemos “na tentação, por razões meramente egoísticas da sua própria acção, de importarem para Portugal climas de instabilidade, de contestação, que não tenham de facto respaldo na sociedade portuguesa”.

SÍTIOS POR ONDE OS AMIGOS ANDAM


 


A Luísa e o Rui Ornelas mandam-nos mais fotografias de Hokkaido no Japão.

HABITAÇÃO

Muito antes do chalet

Antes do prédio

Antes mesmo da antiga

Casa bela e grave

Antes de solares palácios e castelos

No princípio

A casa foi sagrada -

Isto é habitada

Não só por homens e por vivos

Mas também pelos mortos e por deuses

 

Isso depois foi saqueado

Tudo foi reordenado e dividido

Caminhamos no trilho

De elaboradas percas

 

Porém a poesia permanece

Como se a divisão não tivesse acontecido

Permanece mesmo muito depois de varrido

O sussurro de tílias junto à casa de infância

Sophia de Mello Breyner Andresen em Cem Poemas de Sopohia

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Morrer em Madrid começou por ser um documentário realizado, em 1963, por Frédéric Rossif.

A Guerra Civil Espanhola começou a 17 de Julho de 1936 e terminou a 1 de Abril de 1939.

Espanha, 1939.

Quinhentos e três mil e sessenta e um quilómetros quadrados – quase a França.

Dois milhões de prisioneiros.

Quinhenta mil casas destruídas, cento e oitenta e três cidades gravemente devastadas.

Em três anos, um milhão de mortes violentas.

Quinhentos mil exilados.

Um exército de seiscentos mil soldados.

Um partido único: a Falange.

Uma religião de Estado: a religião católica.

Um chefe único: o Caudilho.

Os salários voltaram ao nível de 1936.

Os grandes proprietários recuperaram as suas terras.

A igreja reencontra os seus grandes domínios.

OLHAR AS CAPAS


Morrer em Madrid

Madeleine Chapsal

Tradução Maria Piedade Ferreira

Capa: José Cãndido

Livraria Bertrand, Lisboa, Junho de 1975

Espanha, 1931

503 o61 Km2 – quase a França

Vinte quatro milhões de pessoas.

Neste ano de 1931, metade da população – doze milhões – é analfabeta

Há oito milhões de pobres

Vinte mil pessoas são donas de metade da Espanha.

Províncias inteiras são propriedade de um só homem.

Salário médio dos trabalhadores: de uma a três pesetas por dia.

Um quilo de pão custa uma peseta.

Vinte mil frades, trinta e um mil padres, sessenta mil religiosas e cinco mil conventos.

Quinze mil oficiais, oitocentos, um general para cada cem soldados.

Um rei, Afonso XIII, o décimo quarto soberano depois de Isabel, a Católica.

Subitamente , a 12 de Abril de 1931, os candidatos monárquicos são batidos nas eleções municipais. O rei Afonso XIII retira-se.

É a República de surpresa.

O povo descobre que existe, tem direito à palavra, direito aos discursos.

CHAVE UNIVERSAL

uma partida com o mal que se salda afinal

na dádiva do embuste. E ao mesmo tempo

um aspeto assinalável de bazar Tanta vida

 

reordenando corpos e passados: mister

rebarbativo essa arrumação, depois

a linha é ténue entre ficção e imagem

 

do arquivo. Podes podar desgostos,

esgalhar rentes sentidos, uma pista:

podes procurar onde foi omitido.

 

Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto

terça-feira, 13 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Senhor, dai-me uma santa paciência, para viver comigo mesmo: pois de contrário, como saberei viver com os outros?

José Rodrigues Miguéis

À LUPA

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu à embaixadora norte-americana em Atenas, Kimberly Guilfoyle, que apresente a demissão. A informação foi dada nesta terça-feira pela nova secretária de imprensa da Casa Branca, Katie Zacharia, no seu primeiro briefing. "Pedimos à embaixadora Guilfoyle que se demitisse. Ela foi um maravilhoso activo para a equipa e desejamos-lhe o melhor."

Uma série de escândalos, revelados pelo Wall Street Journal, levaram a Casa Branca a um ataque de nervos.

Contudo, A Lupa, atentou que, para além dos diversos escândalos em que o tráfico de influências ocupa um largo espaço, que Kimberley Guilfoyle, durante um jantar em Atenas, que os Estados Unidos podiam derrubar derrubar qualquer governo, incluindo o grego!...

MEUS PARADOXOS PREDILECTOS

Se Deus me der força e saúde, hei-de provar que ele não existe.

Aquele dono de empresa ferroviária morreu de desgosto quando o filho arranjou emprego como salva-vidas.

Ele tinha uma paixão gigantesca por uma mulher pequenina.

Era u infeliz – sofria de gota e catarata.

Já tenho idade bastante para não saber muitas coisas.

Ele só pintava mulheres de corpo escultural.

Quando o professor acabou sua conferência sobre a estratosfera, todos os cumprimentaram dizendo que ele tinha falado com muita profundidade,

Suicidou-se porque não tinha onde cair morto.

Há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos.

Em certos raros momentos temos uma opinião unânime de nós mesmos.

Millôr Fernandes em Pif-Paf

OLHAR AS CAPAS


O Sono da Morte

Rex Stout

Tradução: Mascarenhas Barreto

Capa: A. Pedro

Colecção Vampiro nº 458

Não seria estrictamente verdadeiro dizer que Wolfe e eu não nos falámos, nessa manhã de Maio, depois do que acontecera na véspera à noite

Ao chegar a casa (entenda-se por casa o prédio de pedra castanha, na West 33ty Street que pertence a Wolfe e onde com ele coabitamos, Fritz, Theodore e eu) por volta das duas da manhã, fiquei surpreendido por Vê-lo ainda a pé, ou melhor, sentado à secretária, embrenhado na leitura de um livro.

Pelo olhar com que me prendou percebi que havia qualquer coisa a roê-lo, lá por dentro, mas atravessei o escritório, direito ao cofre, para assegurar-me que estava fechado (o que faço todas as noites), fazendo de conta que não queria interromper-lhe a leitura.

-Onde tem estado? – inquiriu de chofre.

Virei-me e arvorei uma expressão reprovativa.

- Francamente! A que propósito?

- Devia ter-lhe perguntado, mais precisamente «onde é que não tem estado». Miss Rowan telefonou cinco vezes, a primeira, pouco depois das oito, e a última, há meia hora. Se me tivesse ido deitar, não teria conseguido dormir. Como sabe, Fritz esteve esta tarde de folga.

- E ainda não veio?

- Veio mas como tem de levantar-se cedo para preparar o pequeno-almoço, não o quero amanhã mal disposto. 

TRUMPALHADAS

 «Enquanto alivia as sanções à Rússia, os EUA agravaram as retaliações ao Tribunal Penal Internacional, que condenou Ratko Mladić à prisão perpétua e cuja morte Dodik celebrou como a de um autêntico herói, horas a seguir à nomeação da ex-juíza sul-africana Navi Pillay como vencedora do Prémio Nobel da Paz. Pillay liderou a comissão da ONU que investigou o massacre de 7 de Outubro e denunciou o genocídio em Gaza.


A política externa de Trump assenta na marginalização das instituições multilaterais (como a ONU ou a NATO) e na sua substituição por relações bilaterais. Ao atacar a principal instituição de justiça global, os EUA atacam as vítimas de crimes de guerra e os países que a criaram.

O homem que queria ganhar o Nobel da Paz está em guerra com a justiça internacional e em defesa dos acusados de crimes de guerra que trata como aliados favoritos: Putin e Netanyahu.»

Amílcar Correia no Público

ALFAMA

Tens a certeza de que é tudo para continuar

exactamente assim? A laranjeira quase seca

no meio daquele pátio, a escada que leva

a um terraço onde já ninguém quer ir?

Há sítios demasiado velhos para serem

visitados por quem nunca os viu intensos

 

Não, não foi a pensar em gente como nós

que toda esta calçada envelheceu. As esquinas,

como sempre, são perguntas sem resposta. E as placas

toponímicas incapazes de fingir que nos conhecem.

Não há – já reparaste? – uma só porta

Que se abra se a olharmos fixamente.

Vítor Nogueira em Os Cem Melhores Poemas

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Bem, estas contas ainda sei fazer, é fácil, foi o senhor doutor quem me ensinou. «Governar a acas ou governar o país é a mesma coisa. É precisoi é equilibrar as receitas com as despesas.»

Maria do Céu Ricardo, fala da peça Salazar, Deus, Pátria, Maria. 

O QUE A CENSURA CORTOU

Maria do Céu Ricardo escreveu a peça Salazar, Deus, Pátria, Maria, tendo por personagem única D. Maria, e por cenário a cozinha de S.Bento em dias de Estafo Novo.

Fernando DaCosta, no final do livro, faz uma apreciação sobre a governanta de Salazar:

«Era uma mulher – convivi com ela – esperta, irónica, atenta, dura, auto-controlada, íntegra, fidelíssima. A encenação que montou à volta de Salazar (moribundo) foi cenicamente espantosa, politicamente audaz, socialmente desafiadora, espantosa, politicamente  audaz, socialmente desafiadora, psicologicamente demencial. Com vontade de ferro, impôs ao regime, à Pide, à comunicação Social, ao mundo, a espantosa ficção de um chefe de governo a dirigir semicomatosos, a governação do País.

Ela, foi, por cero, a máscara mais perturbadora de Salazar.»

Voltamos a O Que a Censura Cortou e ficamos perante Memórias, livro do embaixador Pedro Theotónio Pereira, em que ressalta a influência, o poder que a governanta de Salazar exerceu.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Josefa, avó de José Saramago, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada, para o céu de que nada sabia e por onde nunca viajaria, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disse, com a serenidade dos seus noventa anos e o fogo duma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo e disto se sabe por que Saramago estava lá nessa noite estrelada e imensa e, com ternura, deixou testemunho nas suas Pequenas Memórias.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Sustos atrás de sustos.

Pedro Passos Coelho apareceu na SIC numa entrevista a Maria João Avillez, mas quem, senão esta senhora, se lembraria do dito ex-presidente que afirma não ser candidato a nada mas vai adiantando o elogio ao presidente da «tal coisa» e se Montenegro falhar,  ele avança, pois então…

Se isto não são sustos, atrás de sustos, o que lhe poderemos chamar?...

RÉPLICA AO EPIGRAMA DE SCHILLER «DIGNIDADE DO HOMEM»


                                  O EPIGRAMA


Não me falem mais disso, por favor!

Dai-lhe de comer, dai-lhe onde morar, dai-lhe de vestir

- e a dignidade, essa, virá por si.

 

                                  A RÉPLICA

 

Deram-lhe de comer

(As grandes telas fauves das charcuteries

 

Deram-lhe onde morar

(E não só onde morar: televisões e frigoríficos…)

 

Deram-lhe de vestir

(Os nylons, as peliças, a indiferença…)

 

E a dignidade, essa

Continua habitando

Os que lutam por ela.


José Fernandes Fafe em Poesia Amável

domingo, 11 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


As palavras saltam. Se permitires, elas farão o que querem e o que precisam fazer.

Anne Carson

MÚSICA PELA MANHÃ


 A Biblioteca da Casa tem dois discos dos Agua Viva: Cada Vez Más Cerca e Apocalipsis. Sammy quase garante que existia, pelo menos, mais um do conjunto espanhol, mas aconteceu-lhe qualquer coisa…

Dos dois discos da casa, recolho canções para esta manhã, cinzenta, de domingo.






Colaboração de Aida Santos.

DITOS & REDITOS


Quem trabalha merece o melhor.

Permitem-lhe supor que tinha razão.

… como todas as afirmações de paixão, não é exacto.

Espera pela deixa.

Se não gostarmos de nós próprios, quem é que vai gostar.

Caçador furtivo não guarda troféus.

Estúpido e feliz são palavras quase sempre sinónimas.

O amor é uma longa paciência.