Hoje, retiro
da prateleira da Biblioteca/Discoteca da Casa um velho disco do Charles Dumont,
quando se ouviam canções francesas…
Colaboração
de Aida Santos
Hoje, retiro
da prateleira da Biblioteca/Discoteca da Casa um velho disco do Charles Dumont,
quando se ouviam canções francesas…
Colaboração
de Aida Santos
«Assim que acabarmos de derrotar o Irão,
que está a sofrer uma derrota esmagadora, vou declarar, muito em breve, o
Estreito de Ormuz como território dos Estados Unidos da América.»
Donald Trump, ontem, ou hoje, ninguém sabe quando.
É talvez a idade que surge, traidora e nos ameaça com o pior. Já não existe
dentro de cada um de nós música suficiente para fazer dançar a vida, aí está.
Toda a juventude nos abandonou para ir morrer no fim do mundo, num silêncio de
verdade. Para onde ir agora, pergunto, depois de não possuirmos em nós a soma
bastante de delírio. A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a
morte. Precisamos escolher: mentir ou morrer. E eu nunca consegui matar-me.»
Céline em Viagem ao Fim da Noite
1.
«Quatro em cada dez jovens de 18 anos passam pelo menos cinco horas por
dia na Internet
Em Portugal, quatro em cada dez jovens de 18 anos dizem passar pelo menos cinco
horas por dia na Internet, cerca de um terço do tempo em que estão acordados. O
tempo de utilização tem vindo a aumentar ao longo da última década.»
Público, 15 de Agosto
2.
«Onde havia duas salas de cinema no estádio do Sporting, agora vêem-se
jogos num lounge
O Sporting Clube de Portugal, proprietário do centro comercial Alvaláxia onde
em Janeiro encerraram 12 salas de cinema, está já a usar duas dessas salas para
exibição de jogos e espaço lounge, ainda que sem
aprovação de um pedido de desafectação dos espaços à exibição de cinema,
obrigatório por lei. As outras dez salas estão totalmente vazias. Porém, a
Inspecção-Geral das Actividades Culturais (IGAC) está a “acompanhar” a
transformação das duas salas já em novas funções, disse ao PÚBLICO fonte
oficial do clube, e algo confirmado pela IGAC aos grupos de moradores que
contestam o fim do cinema nos seus bairros.»
Público, 15 de Agosto.
3.
Menor confessou
ter assassinado com golpe mata-leão na quarta-feira e só deu o alerta 21 horas
depois. Menina de 4 anos, filha da vítima e irmã do suspeito, estava também na
habitação.
Legenda: fotografia de Luís Eme
O Homem que
lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no
Público:
«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro.
A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que
começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou
um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que
tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha
apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal
impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela
actualidade, pelos rumores do dia.
Claro
que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia
sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas
do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a
mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma
inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este
mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância,
por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma
inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto
vertical que não tem fim: o scrolling.
A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial
analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das
“manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole
berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou
será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido
por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da
civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã,
sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo
instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma
comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do
mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela
modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e
desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública
racional, de um espaço público.
Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o
centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história
mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida
cívica, política e cultural.
Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos
mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço
público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter
sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a
transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”,
encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no
século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do
jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de
“imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele
raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço.
E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que
caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a
rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração
daquilo a que Yves Citton chamou médiarchie, “mediarquia”.
É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar
para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma
dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma
história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala
das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das
manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual
essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época
assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela
constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada
através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no
metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu
jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam
para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas
civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de
transição.»
Recordemos:
«Sempre gostei de Dean Martin, o velho Dino, mesmo quando fazia de canastrão nos filmes com o Jerry Lewis.
Terei comprado este “EP” por volta de 1968.
Para além de “Chapel In The Moonlight, Little Ole Wine Drinker, Me, The Green, Green Grass of Home”, tem “Release Me”.
O meu pai adorava esta canção.
Não há vez alguma que a Aida a ouça, que de imediato não se lembre do meu pai.
Era um excelente contador de histórias e, nas sessões de audição de música, dita ligeira, aproveitava para as contar.
Umas verídicas, outras imaginadas, outras, enfim, não se sabe bem como.
Esta é uma dessas histórias:
O velho morrera.
A família reunida na biblioteca, ouviu o
advogado enumerar a relação dos bens legados.
À medida que a leitura avançava a boca dos familiares ia tomando a aforma e o tamanho de um enorme “Ah!”
- papel e canetas para os que nunca lhe escreveram;
- tesouras de poda e mangueiras de rega
para os que sempre desprezaram as suas rosas e
orquídeas;
- fósforos, cinzeiros e caixas de
charutos para os que se irritavam e ficavam agoniados
cada vez que puxava de um dos seus esplêndidos “Cohiba”;
- o resto, que era tudo, para a
governanta que lhe servia conhaque nas noites de Inverno.»
Comes e Bebes
Quino
Capa:
Fernando Felgueiras
Colecção:
Humor Com Humor se Paga n º 3
Publicações
Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 1982
Ontem, no colorido Algarve, Luís Montenegro fez a apresentação política futura aos seus apoiantes, talvez ao país.
Contudo, o Luís, que exige que o deixem trabalhar, não tinha nada
para dizer.
O trabalho esvaiu-se nas
areias do oásis em que Luís Montenegro e os seus sorridentes comparsas, dizem que se vive.
Que mais nos poderá acontecer?
RETRATO DE
MANUEL DA FONSECA
Eram campos campos
campos
abertos de humanidade
era um vento que rasgava
apenas a claridade.
Eram palavras jorrando
de um olhar de escaravelho
era um homem inventado
a grandeza de ser velho.
Era terra fome
sede
urze tojo
trigo vinho
alcateia e almocreve
alfazema e rosmaninho.
Era um fogo aprisionado
uma explosão de romãs.
Era um menino alumbrado
entre as pernas da manhã.
José Carlos
Ary dos Santos em Fotos-Grafias
Fado
José Régio
Ilustrações de
Stuart Carvalhais
Capa: João da
Câmara Leme
Portugália
Editora, Lisboa, Janeiro de 1969
Fado
Alentejano
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Pátria que à força escolhi!
Quando cheguei quis-te mal,
Alentejo –ai- solidão...
Julguei eu que te quis mal,
Chegava do vendaval,
Tão cego que nem te vi!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Adro de melancolia!
Tua tristeza me pesa,
Alentejo –ai- solidão...
Quanto às vezes me não pesa,
Mas fora dessa tristeza,
Pesa-me toda a alegria!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Meu Norte-Sul- Este Oeste!
Voltei ferido da guerra,
Alentejo –ai- solidão...
Faminto voltei da guerra,
Mendiguei de terra em terra,
Esmola só tu ma deste!
Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Oceano de ondas de oiro!
Tinhas um tesouro perdido,
Alentejo –ai- solidão...
Que eu já dera por perdido,
Nos teus ermos escondidos,
Vim achar o meu tesoiro!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Convento de céu aberto!
Nos teus claustros me fiz monge,
Alentejo –ai- solidão...
Em ti por ti me fiz monge,
Perdeu-se a terra ao longe,
Chegou-se –me o céu mais perto!
Alentejo, ai solidão,
Solidão , ai Alentejo,
Padre nosso dos infelizes!
Vim coberto de cadeias,
Alentejo –ai- solidão...
Coberto de vis cadeias,
Mas com estas com que me enleias,
Deram-me asas e raízes!
A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –
Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.
Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.
Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror
À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.
Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportando e oscilando em paz.
Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?
E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.
Ana Luísa Amaral
Um livro que se encontra no Outro Lado das Estantes, que apresentámos en 29 de Julho, irá servir-nos para reproduzir alguns cortes que um conjunto de censores-militares-analfabetos exerceram no jornal Expresso, bem como em outros jornais portugueses.
O Sol, no dia
em que, por breves instantes, a Lua o escondeu, deixou-nos às 20h34m.
Legenda: fotografia tirada do sítio do costume.
João Carlos
Raposo Nunes, nasceu em Lisboa, em 1955 é livreiro e alfarrabista na baixa de
Setúbal, perto da Câmara Municipal.
O Raposão
passou a ser um dos comparsas do Luiz Pacheco e que amiúde lhe mandou, durante
13 anos bilhetes-postais, cartas, o que calhava.
Convém
lembrar, se há escriba que deram largo trabalho aos Correios portugueses, Luiz
Pacheco está em lugar de topo.
Segundo João
Pedro George, Luiz Pacheco sofria «de compulsão epistolar.»
O próprio
Pacheco escreveu:
«No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que
o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica
com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo».
Postal de Pacheco para o poeta Zé Gomes
Ferreira em 14 de Abril de 1968:
«Chego a Lisboa de Albarraque e encontro
um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz
Pacheco a pedir-me 50 escudos.
«Encontro-me numa fase em que não me
repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um
empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome.
Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao
Queneau.»
Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.
Do prefácio:
«No entanto, talvez seja através das
suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito
de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das
suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou
das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no
percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se
coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por
ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado
apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias
entrevistas e depoimentos que se conhecem.»
Temos, pois, mais um livro de cartas do Pacheco.
Cartas ao Léu
Luiz Pacheco
Correspondência de Luiz Pacheco
Para João
Carlos Raposo Nunes
(1990-2003)
Edição:
António Cândido Franco
Capa: Luís Henriques
Maldoror,
Lisboa, Junho de 2020
2º feira, 11 de Novembro 2002
Dia de S.
Martinho!
Meu caro
Raposão
És capaz de
já saber. No dia 23 deste mês, um sábado, é lançado aqui na Livraria Ler
Devagar, no bairro Alto, um livrinho meu, um conto de Natal. Gostava que
viesses. A distribuição é da Editorial Notícias. Tens crédito lá? Para mim é
uma ALEGRIA. O Carlos Curto organiza uma Performance, com o actor João LAGARTO;
é um BOM actor, conheço da televisão. Eu andava à rasca e talvez assim
equilibre as finanças.
Esteve aqui
um velho Amigo meu que mora ao lado do teu pai, na Graça. É o Benjamim
Monteiro, ilusionista e grande
PÂNDEGO
Ele falou com
o teu Pai. Vou escrever-lhe para ele assistir ao lançamento.
Aquele MARAU
do Capêlo tem aparecido? O Carlos Dutra contou-me uma cégada em Évora com ele e
com o escritor que é irmão do Orlando Vitorino (ou estarei enganado? o Telmo.
Aparece
Abraços
castos do
Luiz Pacheco
Enquanto o sol arrefece
Aproveitemos o tempo,
Pois nem sempre o que acontece
Muda o sentido do vento.
Abraçamos – de mãos postas –
A esperança da redenção,
Mas se há vento pelas costas
Mudamos de direcção…
Espada de ferro temperado
As limalhas no cinzeiro,
Como o vento moderado
Pode atrasar um veleiro…
A Terra tem duração,
Como embalagem perdida,
O nosso mundo é balão
Ameaçando descida…
Não te detenhas e esquece
O peso desta ameaça,
Enquanto o sol arrefece,
Fica no tempo que passa!
Lisboa,
24 de Janeiro de 1997
Henrique Segurado em Resumo: a poesia em 2012
Um livreiro é alguém que tem de ser um
bom leitor antes de tudo, tem de ter alguma cultura e sabendo que é uma
profissão para empobrecer alegremente. É alguém que acredita que um mundo sem
livros seria um mundo muito mais pobre.
José Antunes
Ribeiro
Legenda: cena do filme What´s New Pussycat? De Clive e Donner, 1965, com Woody Allen e Romy Schneider.
Tanta gente para, ao longo do país, olharem a lua
tapar o sol.
A Maria
Judite de Carvalho, num dos seus livros, diz: «Todos estamos sozinhos,
Mariana; Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém
vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma
esperança.».
As
televisões, com a mediocridade, a banalidade habituais, com que abordam tudo o
que tocam, ocuparam todo o tempo, do antes e do depois, do eclipse do sol.
A cmtv colocou
em «alerta»: «o eclipse está a fascinar os portugueses».
Algures, um
português diz ao repórter: «a graça disto, deixa um gajo maravilhado!»
O
primeiro-ministro, ainda antes do eclipse, afirmou, em Cascais, aos
jornalistas:
«O governo trabalha todos os dias,
24 horas por dia, sete dias por semana", deixando ainda um pedido, uma reflexão à
comunicação social sobre as suas prioridades.
E, ternamente, voltei a ouvir falar de Rio de Onor, uma aldeia com 43 habitantes, que recebeu centenas de visitantes, pois era aí que o eclipse se mostraria a 100%.
«Além de ser uma notícia com carga emocional positiva, é um fenómeno irrepetível para muitos de nós, pelo menos em Portugal: o último (total) foi em 1912- e o próximo será em 2144. A excepção são os caçadores de eclipses, que andam pelo mundo à procura de ver a Lua ensombrar o Sol: alguns podem ficar-se apenas pela Península Ibérica (caçadores parciais) e terão a sorte de poder assistir a três entre 2026 e 2028 — e temos alguns desses nesta redacção.
A corrida aos óculos, que a 24 horas do eclipse surgiam à venda com preços que iam dos 10 aos 100 euros em plataformas de revenda online, comprova que há um certo fascínio na escassez e que fenómenos destes são imperdíveis.
Logo à tarde, haverá milhares, quiçá milhões, de telemóveis apontados ao céu.
Teremos apenas 20 segundos, um minuto ou quase dois de eclipse total, consoante
o sítio onde estivermos. Numa altura em que fotografamos tudo aquilo que
receamos esquecer, do mais banal prato de comida ao nascimento de um filho,
deixo-vos um dilema muito contemporâneo: quanto desse (breve) tempo queremos
passar a olhar para um ecrã?»
Do editorial de Sónia Sapage no Público de hoje
Writer's block issues out of fear
– but of what?
Dawn Raffel,
The Truth about Writer’s Block
«Li
no Público um
conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher)
continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles
sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer
sentido em começar o dia.”
Enquanto
reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”),
confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta
situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe,
felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito
que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido:
a escrita da poesia.
Eu
sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade
de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas,
depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros
entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da
escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua
noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno
Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E
interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a
minha vida e os meus projetos.
Nada
há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência
da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício
implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os
acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente
encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais
felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...
Não
sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que
posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na
sua Metafísica, estabelece
que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não
passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não
fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida,
do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o
nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.
O
vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que
ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos
de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas
funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou,
nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções
utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.
Então
será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta
jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.»
Luís
Filipe Castro Mendes, crónica no Diário
de Notícias
Discussão entre vendedores de louro prensado na Baixa de Lisboa, acaba com homem a puxar de pistola e atirar contra rival. Falhou o alvo, mas acertou numa mulher sueca que estava a comprar pastéis de nata.
Quando me sentei na mesma mesa de café
em que o pessoa tomava café, no martinho
da arcada,
e o eléctrico que passava era oi mesmo
que ele apanhava para ir trabalhar,
tinha
uma dúvida se não tivesse com ele algum papel
para escrever o poema que tinha na
cabeça,
conseguiria escrevê-lo no bilhete,
parindo
do princípio de que se consegue meter
num bilhete
de eléctrico, uma ode, mesmo que não
seja
tão triunfal como a outra? E apanhei o
mesmo
eléctrico que ele, embora não tivesse
a certeza de que me estava a sentar
no mesmo banco em que ele se sentava,
e comecei a escrever nas costas do
bilhete
uma ode inteira:
Um poema não precisa
de caber num bilhete, se um bilhete
nos levar para o poema.
Na realidade,
a ode coube no bilhete, só não sei
se o bilhete chegou para me levar
onde eu queria.
Nuno Júdice
em Primeiro Poema
Soube-se agora.
Donald Trump,
o presidente do país mais poderoso do mundo, depois da cimeira da NATO, no mês
passado, saiu de Ancara num avião secreto, numa operação simulada e
desencadeada por uma alegada ameaça de assassinato por parte do Irão, avança o
The Washington Post.
De acordo com
informações avançadas pelo jornal norte-americano, a operação envolveu três
aeronaves diferentes. Donald Trump embarcou em Ancara, para seguir para
Mildenhall, no Reino Unido, num primeiro momento e diante das câmaras, no avião
Air Force One, tendo depois sido transportado para uma outra aeronave militar
secreta - um Boeing 757. O presidente dos EUA foi levado até à aeronave num
camião de catering, geralmente utilizado para transporte e serviços de
alimentação.
Ao mesmo tempo, jornalistas e funcionários da Casa Branca também embarcaram no Air Force One, acreditando que Donald Trump estava a bordo. Relatos apontam que os passageiros foram previamente instruídos a baixar as persianas das janelas. Depois de chegar a Mildenhall, como previsto, os fotógrafos registaram imagens de Trump a desembarcar do avião presidencial, sugerindo que reembarcou no Air Force One fora da vista do grupo de jornalistas que pensavam estar a viajar com ele. Em declarações aos jornalistas, Trump referiu a ameaça iraniana, mas não mencionou a troca de aviões.
Após a breve
visita à base em Mildenhall, Trump embarcou no novo Air Force One para seguir
viagem até Washington.
Quando
questionado sobre as ameaças do Irão, Trump respondeu: "Bem, recebo
ameaças a toda a hora. Sou o número um na lista deles, antes de vocês",
disse.
Com Donald Trump tudo pode acontecer!