sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

DÁ-ME

dá-me         amor

dá-me a folha de árvore

que guardaste na algibeira

pelo menos

dá-me o descanso de dormir

no meu próprio corpo

enquanto o pássaro

- qualquer pássaro –

deixa inesperadamente de cantar

e repousa

enquanto o diálogo

                  o nosso diálogo

se interrompe para que passem

as nuvens

nesse momento          precisamente nessa ocasião

dá-me o teu silêncio

e perguntas

não me faças        não me faças nenhuma

creio que agora é inútil.

 

Mário-Henrique Leiria em Poesia

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Para viver fora da lei tens de ser honesto.

Bob Dylan

OLHAR AS CAPAS


Estudos Sobre Teatro

Bertolt Brecht

Tradução: Fiama Hasse Pais Brandão

Colecção Problemas nº 1

Portugália Editora, Lisboa Março de 1964

O individuo é cada vez mais fortemente impelido a comprometer-se nos grandes sucessos que transformam o mundo. Deixa de lhe ser possível «exprimir-se» apenas. É solicitado a solucionar os problemas comuns e posto em condições de o fazer. O erro reside, tão sòmente, em as engrenagens não serem ainda, hoje em dia, da comunidade, em os meios de produção não pertencerem aos produtores e em se atribuir ao trabalho um carácter mercantil, sujeitando-o às leis gerais da mervadoria. A arte é, pois, uma mercadoria; sem meio de produção (engrenagem) não seria possível produzi-la! Uma ópera só pode ser feita para a ópera.

GESTOS

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio, o silêncio,

como se música fossem

e nela nós viéssemos

perder.


Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

 

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

 

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.


Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


Maria de Lourdes Modesto morreu a 19 de Julho de 2022.

Na crónica que publicou no Expresso de 29 de Julho de 2022, João Paulo Martins, no ponto 2 da sua crónica sobre o Verão e os seus vinhos, não quis deixar de homenagear «a grande senhora da nossa gastronomia»:

 1. Em época de canícula as bebidas frescas são as que nos sabem melhor. Apesar de eu ser grande apreciador de Espumantes/Champanhes, tenho que reconhecer que o calor excessivo obriga os enófilos a uma certa contenção no consumo. A primeira razão é que não se combate a sede com vinho mas sim com água e, no Verão, com muita água mesmo, para evitar desidratações que, dizem os médicos, nos podem afectar terrivelmente sem darmos por isso. Por isso, pelo sim pelo não, vamos assumir, no mínimo, meio litro de manhã e outro tanto à tarde. Não só não custa nada como nos tira a sede. E é sem sede que podemos melhor apreciar o vinho, sobretudo a acompanhar a refeição, como é nossa tradição em Portugal. Convenhamos que há outras bebidas refrescantes como a limonada, à qual deveremos juntar muito pouco (ou nada, mesmo) de açúcar. Se tiver uma Bimby fará uma limonada em três tempos sem qualquer dificuldade. O Verão é também associado com long drinks, como o gin tónico. Esta é, por excelência, a bebida do fim de tarde após regressar da praia. Pode também escolher um Porto tónico ou um menos falado mas também muito bom, Porto rosé com muita hortelã e água tónica. O moscatel também se presta a vários cocktails. No caso dos brancos e rosés é indispensável ter um balde de gelo perto da mesa porque o vinho aquecerá num instante; use também o mesmo balde de gelo para refrescar o tinto que isso do tinto à temperatura ambiente já era…E o generoso do final da refeição também agradece se for servido fresco.

2. Não quero deixar de prestar aqui a minha homenagem a Maria de Lourdes Modesto, uma grande senhora da nossa gastronomia (termo que lhe era caro e ficava muito irritada quando se falava em «gastronomia e vinhos», já que, defendia ela, gastronomia, por si, já inclui os dois temas. Conversadora, sempre muito crítica em relação ao que via, ouvia e provava, sempre a refilar com os menus degustação porque, argumentava, «chego ao fim e não me recordo do que comi, tal foi a quantidade de coisinhas que me serviram…». Gostava de ralhar com os Chefes mas a verdade é que todos tinham por ela um especial carinho. E, em visitas (várias) com direito a chá e bolinhos na sua casa do Estoril, troquei com ela livros e receitas, eu sempre a aprender, claro, e ela sempre muito disponível para conversar e trocar ideias. São pessoas assim que fazem o nosso percurso de cozinheiros amadores, que nos inspiram e nos dão vontade de continuar a eterna descoberta de um novo sabor, uma nova combinação, um ingrediente-surpresa ou um twist, como agora é uso dizer-se. Ela era apreciadora de vinhos e fazia questão de ter os guias que iam saindo, sempre atenta às sugestões que lhe chegavam. E eu, que me recordo dela na televisão nos anos 60, sou um felizardo por ter tido a oportunidade de estar perto de tão ilustre personagem da nossa história recente. Comer bem e saber comer será a melhor homenagem que lhe podemos fazer.

OLHAR AS CAPAS


Uma Época no Inferno

Jean-Arthur Rimbaud

Versão Portuguesa, prefácio e notas de Mário Cesariny de Vasconcelos

Colecção Documento Humanos nº 9

Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1960

Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.

Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E vi que era amarga. E injuriei-a.

Armei-me contra a justiça.

Fugi. Ó feiticeiras, ó mistério, ó ódio, éreis vós a guarda do meu tesoiro?

Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra toda a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas!

E chamei os carrascos para morder, na agonia, a corunha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia, mergulhar em sangue. O infortúnio foi meu vero deus. Estiracei-me na lama. Sequei ao ar do crime. E preguei boas partidas à loucura.

E a primavera trouxe-me a terrível risada do idiota.

FRANÇA DEBAIXO DE ÁGUA - A CRISE QUE QUASE NÃO VEMOS EM PORTUGAL


 Enquanto o debate público se centra nas cheias em Portugal, a França atravessa uma situação excecional que devia preocupar toda a Europa.

As imagens publicadas pelos  média são fortes.

Os números são ainda mais claros:

 900.000 casas sem eletricidade na semana passada

 Cheias generalizadas em várias regiões

 Mais instabilidade prevista, aumentando a pressão sobre a rede elétrica

 Porque é que isto nos deve preocupar?

Porque isto não é um “acidente isolado”.

É a demonstração de que crise climática e vulnerabilidade da nossa sociedade andam de mãos dadas.

Quando centenas de milhares de pessoas ficam sem casa e sem luz, o impacto é económico, social e sistémico.

 Três pontos para reflexão

 Resiliência das redes

Estamos a investir o suficiente para proteger linhas, postes e subestações contra eventos extremos?

 A invisibilidade do risco

Como é possível uma catástrofe desta dimensão num país vizinho ter tão pouco eco no debate público em Portugal?

 Conclusão:

A transição energética já não é só sobre produzir energia limpa.

É, cada vez mais, sobre manter a luz acesa quando o clima testa os limites da engenharia.

Vale a pena ler o artigo do Le Figaro.

A segurança energética europeia é muito mais frágil do que gostamos de admitir.

Pergunta para debate

Estamos a preparar a nosso País para o “novo normal” climático — ou continuamos apenas a reagir depois do choque?

Nota: este texto é de um colega meu.

Pareceu-me interessante.

Colaboração de Rui Ornelas

À LUPA

Mandar os portugueses entregarem os fogões e aquecedores a gás para os substituir por aparelhos a electricidade, nunca pareceu uma medida acertada.

MAS QUE MEMÓRIA

mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?

deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)

é preciso emparedar o demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.

acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.


Alberto Pimenta


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

NESTE DIA


Neste dia, estamos no dia 2 de Maio de 1968, no 4º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira.

 Dois dos escritores que pertencem ao Panteão Literário da Biblioteca da Casa, encontram-se hoje: José Gomes Ferreira e José Saramago.

Para preparar um texto sobre os cafés de Lisboa, de que José Gomes Ferreira foi assíduo frequentador, dei com uma entrada do 4º Volume dos Dias Comuns, referente ao dia 2 de Maio de 1968, em que o Zé Gomes assinalava o número especial da Seara Nova que registava os 50 anos da sua actividade literária, deste modo:

«O Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é o meu maior poeta».

Comoveu-me. (Sintoma de velhice?)

Por fim, José Saramago que mal conheço, termina assim o seu depoimento: «Ao lado da poesia de José Gomes Ferreira está o poeta que ele é: parece um pleonasmo, uma redundância, talvez um lugar-comum, um dizer-por-dizer. Pois muito se engana quem o julga.»

O que é curioso é que, àquela data quase se desconheciam («José Saramago que mal conheço»), («José Gomes Ferreira a quem mal conheço, a quem nada devo senão a alegria e o conforto de o admirar»).

José Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.

José Saramago ganhou o prémio Nobel em 1998.

De certeza garantida o Nobel teria dado uma enorme alegria ao Zé Gomes.

Fica aqui o depoimento de José Saramago sobre José Gomes Ferreira publicado na Seara Nova nº 1471, referente a Maio de 1968:

                   

Fomos em busca do depoimento que José Saramago escreveu para a Fotobiografia de José Gomes Ferreira, organizada pelo seu filho mais velho, Raúl Hestnes Ferreira

Para a cópia que reproduzimos, servimo-nos do aquivo da Fundação José Saramago:

«Em Maio de 1973, o suplemento literário do jornal Diário de Lisboa publicou uma entrevista ao poeta  José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – 1985). Décadas depois, José Saramago escreveria um texto contando que fora ele o autor dessa entrevista que não aparecia assinada. Contou também lembranças e os ensinamentos que guardava daquela conversa realizada há 50 anos.

José Saramago no papel de entrevistador

Saber a idade que José Gomes Ferreira ia cumprindo era facílimo, só tínhamos de pensar nos algarismos das unidades e das dezenas do ano em que estivéssemos. Mas era difícil acreditar que em 1973, por exemplo, ele já enchera 73 anos de vida. Podia-se admitir, sem demasiada discussão, que aquelas rugas, por serem as cabidas, e aqueles cabelos, por terem branqueado, mais ou menos concordassem com o registo do calendário, mas isso era só enquanto elas repousassem e eles esperassem o vento que infalivelmente os haveria de revolver. Então os números, os da idade e os do ano, desandavam, corriam velozmente para trás, e em menos tempo do que leva a contá-lo transfigurava-se o José Gomes Ferreira, tornado outra vez em homem novo, em adolescente entusiasta pronto a correr ao Batalhão Académico Republicano para realistar-se, em menino a olhar fascinado o deslizar de uma gota de água na vidraça, e sempre, em todas as circunstâncias, iluminado por aquele fundo de incorruptível e desconcertante inocência que iria ser, por toda a vida, a sua mais leal companhia.

Não foi casualmente que mencionei acima o ano de 1973. Trabalhava então na redação do Diário de Lisboa, onde, além de exercer a espinhosa e labiríntica função de opinante em tempos de censura, me esforçava, creio que com alguma ventura, por coordenar e fazer publicar todas as semanas as dezasseis páginas de um suplemento literário. Fiquei a dever essa fortuna a quantos colaboradores, em muitos casos por simples gosto pessoal, ou a câmbio de remunerações insignificantes que só o mesmo gosto lograva tornar aceitáveis, generosamente me abasteciam de material obviamente variável na qualidade, mas sempre empenhado, e por mim agradecido. A par dos habituais artigos e críticas, a par dos ensaios, dos poemas, dos contos, o suplemento literário daquele desaparecido Diário de Lisboa foi também palco de algumas das mais suculentas polémicas da época… E, claro está, havia as entrevistas. Em geral, por falta de tempo, sobretudo por falta de jeito, não era eu a fazê-las, mas alguma forte razão, que sou agora incapaz de recordar, me levou a chamar a mim a responsabilidade de entrevistar o José Gomes Ferreira. Que as minhas artes de entrevistador não eram de extremos, ficou logo demonstrado na calina questão inicial que hoje me faz encolher de vergonha: “Tem algum método de trabalho?”, foi a pergunta. À batida ridiculez da questão quis o poeta responder com paciência exemplar, a paciência de quem já tinha visto e ouvido muito do mundo. Disse ele: “Com mais de meio século de vida literária tive, como é óbvio, não um, mas vários métodos de trabalho. E até um método de preguiça com que construí as linhas fundamentais do meu trabalho literário. Pois nos anos de 20, de 30, de 40, etc., trabalhava num ofício que poucos contactos tinha com a literatura, agarrado a uma moviola de escravo. A minha vocação de escritor, que só à custa de muitos sacrifícios e teima consegui preservar, exerci-a nos intervalos desse trabalho, aproveitando a preguiça das horas de descanso para rabiscar papéis, papelinhos e diários, sempre com a sensação de que estava a roubar tempo e dinheiro ao meu bem-estar e ao da família. Era, em resumo, um escritor de Horas Roubadas. Valia-me também o mês de férias anuais em que tentava pôr em ordem os versos rabiscados durante o ano, ou cumprir alguma encomenda que ousava muitas vezes aceitar com uma coragem que ainda hoje me deixa pasmado.

Por exemplo, o prefácio às Folhas Caídas de Garrett escrevi-o em quinze dias de férias passadas em casa do João Cochofel, no Senhor da Serra”. “E hoje?”, perguntei, surpreendido por tal abundância de informação em troca da mais corriqueira das perguntas.

“Bem. Hoje abandonei a moviola, estou reformado, vivo quase exclusivamente dos livros e das minhas colaborações nos jornais e fui obrigado a estabelecer um método de trabalho adaptado à minha idade, sem horários, claro. (Mesmo nos tempos do trabalho-tortura sempre me defendi dos horários.) Actualmente o meu método resume-se a evitar escrever de noite, para escapar às insónias. Não tive outro remédio senão habituar-me a trabalhar de manhã, servindo-me, como já disse, dos materiais que reuni pacientemente durante os árduos anos de preguiça. À tarde, leio, converso com os amigos nos cafés, visito os editores e à noite volto a ler e, às vezes, até a jogar as cartas, para me deitar o mais tarde possível. Pois contínuo a ser noctívago, embora transpusesse as vagabundagens para o corredor da minha casa onde ando quilómetros e quilómetros de ruas desertas imaginárias”..

A pergunta que lancei a seguir – “Obedece ou cumpre conscientemente qualquer ritual que considere propiciatório do trabalho?” – continha a menos original de todas as curiosidades possíveis, certas e prováveis, mas foi tão generosamente atendida como a primeira: “Rodeio-me de livros, de pastas, de apontamentos, de Diários, de cadernos, de improvisos e todo esse caos de papel de que lhe falei e donde arranco, ou tento arrancar, as linhas harmónicas da criação do meu mundo. Porque, como sabe, o que é difícil é criar o caos. Aliás, nos últimos tempos, ensaiei um novo método de criá-lo. É o que eu chamo, no calão íntimo do meu laboratório-oficina, a planificação da cabeça. Assim: estendo na mesa uma folha de papel de máquina e começo a cobri-la, ora em linha recta, ora obliquamente, umas vezes em baixo, outras ao lado, palavras, frases, desenhos mal feitos, pensamentos, ideias, tudo o que me acode à cabeça, que ligo, desligo, formo, deformo e risco, até apurar não sei o quê, quase sempre coisa nenhuma. Porque o que este jogo tem de mais fascinante é o parecer que não serve para nada, pelo menos imediatamente. Só mais tarde, quando junto esses mapas e os analiso, descubro coisas extraordinárias que me sugerem ideias importantes. Flores incríveis enrodilhadas num silvado de teias de aranha incoerentes que depois simplifico em frases e versos aparentemente fáceis. Planificar o cérebro – eis a minha última descoberta”.

Percebia que para José Gomes Ferreira as questões propostas lhe eram de certa maneira indiferentes, que poderiam ser repetitivas, aventureiras, ingénuas, mesmo absurdas, ele se ocuparia de que as respostas lhes dessem sentido. “Emenda, reescreve, ou fixa-se na forma original? Por outras palavras: é um elaborador, ou um impulsivo?” perguntei. E ele respondeu: “Como se subentende do que já disse, sou ao mesmo tempo um impulsivo e um elaborador.

Improviso em rajadas, nos tais papelinhos. E depois trabalho-os com afinco paciente e teimoso, às vezes durante anos. Sim. Corto, emendo, reescrevo, copio, recopio. E até às vezes conservo religiosamente a forma inicial. Sem tocar na mínima palavra para não desmoronar o poema. Gosto também de trabalhar em coisas diversas na mesma ocasião. Agora, por exemplo, publicada a Poesia-V, em que o século vinte continua a viajar em mim, preparo quatro livros. A Poesia-VI, que encerrará porventura o meu ciclo poético, O Sabor das Trevas, longa narrativa alegórica, Gaveta de Nuvens, compilação dos meus escritos de aparência crítica, e Face em espelho torto, biografia inexacta de um homem exacto. O Sabor das Trevas já vai na segunda versão. É um livro difícil. Uma espécie de João Sem Medo nocturno numa atmosfera insólita de realismo fantástico”.

Para não variar, a pergunta seguinte – “Considera que progrediu desde que começou a escrever?’» também viria a ser salva pela resposta: “Como é natural, a experiência da vida enriqueceu-me (a outros empobrece) e, sentindo-me mais rico, a minha linguagem de raiz barroca simplificou-se, embora cada vez escreva com mais dificuldade e suor. Mas (em arte não há progresso, há às vezes traição) continuo basicamente o mesmo de sempre, a cantar o que me apetece, ou o que possa apetecer-me cantar, cada vez mais livre e ajustado à minha sinceridade”. “Mas há quem o considere sectário…”, insinuei, e logo a resposta: “Nunca o fui nem sou. A não ser que se queira chamar sectarismo à intransigência e fidelidade visceral ao que há de mais profundo em mim mesmo: ao que penso, ao que sonho, ao que desejo, ao que não acredito…”.

Continuou a ser assim, sempre, na Revolução, depois dela, até aos últimos dias de vida. Numa carta datada de 23 de Abril daquele ano e referindo-se a esta entrevista, pedia-me insistentemente que recomendasse aos revisores do jornal que não lhe tirasse o não das palavras finais. Ele lá sabia porquê…»

HORAS DE IR PARA O EMPREGO

Deixei em casa

a palavra lua, a palavra flor, a palavra pássaro

e desci as escadas

já com o emperro dos dias

de máquina vã

 

No patamar

uma garrafa de leite

- pequeno monstro branco de sentinela

o mau hálito luminoso da manhã


José Gomes Ferreira em Poeta Militante, 3º volume

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Flores e livros, as consolações da tristeza.

Emily Dickinson

POSTAIS

 

Colaboração de Aida Santos.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Um Governo enrolado na tempestade

As próprias medidas iniciais anunciadas pelo Governo no célebre Conselho de Ministros extraordinário, que ocorreu cinco dias depois da tempestade Kristin ter varrido a zona centro, não são exactamente como Montenegro as comunicou ao país.
O prometido Lay-off pago a 100% não existe: o Estado, afinal, só irá pagar dois terços do salário.

O pagamento imediato de dez mil euros para a reconstrução de telhados mediante provas fotográficas não é bem assim: até cinco mil euros o pagamento é facilitado, mas entre cinco a dez mil euros exige vistorias e o dinheiro poderá demorar duas semanas a ser entregue.


Lê-se no editorial, de hoje, do Público, assinado por Helena Pereira

OLHAR AS CAPAS


Servidão e Grandeza dos Franceses

Louis Aragon

Tradução e nota Preliminar: João José Cochofel

Colecção das Três Abelhas

Publicações Europa-América, Lisboa, Março de 1966

Nada nesta vida é exactamente como se imagina. Não sei, na verdade, se Deus dispõe quando o homem põe. De todo o coração gostaria de me tranquilizar, a capacitar-me de que assim é. Mas, então Deus dispõe de modo bastante estranho…

REOLHARES


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO?

(Publicado em 18 de Abril de 2011)


Numa das cenas mais fortes – e elas são tantas -  de "Apocalypse Now", esse extraordinário filme de Francis Ford Coppola, (1979), sobre a intervenção norte-americana no Vietnam, um coronel de cavalaria (espantoso Robert Duvall) diz para os soldados que o rodeiam:

“Adoro o cheiro a napalm pela manhã. Tem o cheiro da vitória.

 Enquanto monologa com os soldados que o rodeiam, os helicópteros atacam e destroem uma aldeia vietnamita ao som  da “Cavalgada das Valquírias” de Wagner.

De cócoras, em tronco nu, para além do cheiro a “napalm”, o coronel louco, disserta  sobre a onda perfeita para praticar “surf”.

A loucura, os ensandecidos personagens de uma guerra cruel, exemplarmente caracterizados e denunciados por Coppola.

Como é que um povo de anões conseguiu derrotar o poderio bélico dos Estados Unidos.?

“Empenhamos, nesta guerra, o nosso poderio e a nossa honra nacional, o Presidente Johnson em 1965.

Em Março de 2002, centenas de horas de conversas, gravadas na Casa Branca, foram tornadas públicas. Como esta de Richard Nixon com Henry Kissinger, seu secretário de Estado:

“Nixon: Mais valia usar a bomba atómica no Vietname.

Kissinger: Isso, julgo, seria ir longe demais.

Nixon: A bomba atómica perturba-o? A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos. Você está tão preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me interessa isso.

Kissinger: Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.”

Cerca de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.

Cerca de 60 militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos. Foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que, para matar um vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.

Foram transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.

Foram utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.

Ainda hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas. Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.

ROBERT DUVALL (1931-2026)


 Aos 95 anos, morre Robert Duvall.

VELHOS RECORTES


 Público, 2 de Julho de 2021

POEMA

Um sábio

não sabia fumar cachimbo

mas a mulher do sábio sabia

quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria

e assim durante meses e anos

até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia

por isso quando ele chorava
a mulher do sábio sorria

 

António José Forte

domingo, 15 de fevereiro de 2026

SOLTAS


Um quase princípio dos anos 70.

A carreira de eléctricos nº 24 Praça do Chile-Carnide e vice-versa.

O eléctrico com gente a deitar por fora.

É quando uma senhora com um casaco de pele, 40/50 anos, se desequilibra e estatela-se no «banco dos palermas», em cima de um homem de fato-macaco e lancheira.

- Credo! Monstros! Ninguém dá o lugar a uma senhora!

O homem de ganga e lancheira diz-lhe:

- Olhe madame, eu saí de casa às seis da manhã e estive a trabalhar em pé todo o dia e a senhora se calhar vem do chá…

Fica um enorme e agudo silêncio na carreira do eléctrico nº 24 Praça do Chile-Carnide e vice-versa.

1.

O Presidente da República além do conforto às populações, pediu maior celeridade às companhias de seguros. Foram despachadas apenas 12 mil das cerca de 100 mil participações feitas à seguradoras.

Entretanto a situação de calamidade decretada pelo Governo a 29 de Janeiro nas zonas mais afetadas pela depressão Kristin, e duas vezes prolongada após novas tempestades, termina este domingo, bem como a isenção das portagens, apesar das reivindicações de vários municípios.

2.

Quando chatearam a cabeça ao realizador daquele filme sobre um facto histórico, não sei quê os historiadores isto e aquilo, o homem passou-se mesmo e berrou:

«Quando um historiador me chateia os cornos, eu pergunto sempre: “olha lá, tu por acaso estiveste lá? Não? Então cala  a puta da boca!»

3.

«Não, se desligar a TV a chuva não pára de cair, e não, não é por escrever isto que se quer reduzir a importância da comunicação social em momentos de crise ou da gravidade da situação que vivemos. Mas, acreditem, há mesmo alturas em que vale a pena tirar os olhos do ecrã e olhar lá para fora. Quem sabe se não vamos conseguir descobrir um pouco de azul.»

David Pontes de um editorial do Público.

4.

Alguém disse:

«Só existem milhares de influenciadores porque existem milhões de idiotas»

5.

Lido por aí:

«Está na hora dos responsáveis editoriais da informação televisiva fazerem uma autoanálise, porque o empolamento desproporcional de uma só força partidária, além de ser prejudicial ao pluralismo e à democracia, não representa o espectro de eleitores do nosso país. Eleição após eleição, o Chega perde, mas os média preferem dizer que cresce, numa profecia de autor realizável. »

6.

O Jornal de Notícias revela que  "Há quem ligue para o 112 a pedir pizas ou por falta de saldo no telemóvel". 

7.

«Chuva, vento, cheias, telhados pelo ar, lama entre os quartos e a cozinha, trânsito de barcos nas ruas, gente desesperada e sem nada. Não há Governo. É preciso culpar alguém para apaziguar a fúria dos deuses, queimar bruxas, crucificar estrangeiros. As televisões estão prontas, as câmaras ligadas e em directo. O poder à extrema-direita parece que lhe cai do céu.»

Rui Manuel Amaral no Bicho Ruim

8.

 49% dos trabalhadores da agricultura, produção animal, floresta e pesca são imigrantes e 34% dos trabalhadores de alojamento e restauração são imigrantes.

No meio das tempestades que assolaram o país, um empresário numa televisão, dizia ao presidente  «daquela coisa» que nas dezenas de trabalhadores que a sua empresa possui, apenas um é português e que todas as empresas no país, sejam do que forem, precisam, como pão para  a boca, dos trabalhadores imigrantes.

OLHAR AS CAPAS

Os Escritores e a Literatura

Madeleine Chapsal

Entrevistas

Tradução: Serafim Ferreira e Armando Pereira da Silva

Capa: Homero Amaro

Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 1967

Se o escritor não se encontra ligado aos problemas da sua época, nada tem a contar. Mesmo que queira, não se pode encerrar numa torre de marfim. Não existe qualquer torre de marfim. O homem que se fecha, não poderá contar-se a si mesmo indefinidamente e, como não fará nada, terá muito pouco para dizer de si próprio… De outro modo, reflecte-se eternamente a si mesmo, reflectindo-se. O escritor, como homem, está necessariamente comprometido com qualquer coisa, mesmo quando não acredita.

À CONVERSA

No Ípsilon, semanário do Público de 6 de Fevereiro, Màrio Laginha, dá uma entrevista muito interessante. 

Aqui fica um pedaço da conversa que manteve com Sérgio C. Andrade: 

Voltando um pouco atrás: foi agora desafiado a abordar Mozart, depois de o ter feito já com Bach. Qual deles prefere?

É uma resposta facílima: Bach. Mesmo se também adoro Mozart. O seu talento para compor era um absurdo de facilidade. Uma pessoa vê isso quando ouve algumas sonatas e outras coisas do seu reportório, mas também percebe que aquilo era a música pop da época: melodias bastante simples, sempre tudo bem orquestrado, podia-se dançar, eventualmente. Era uma música que comunicava com muita facilidade. O Mozart soa-me sempre a festa, a salão... É claro que o Requiem é outro universo. Já o Bach remete-me para uma ideia de divino. E isto, dito por um ateu, não tem menos força. Oiço aquela música e muitas vezes penso: “Se Deus existe, ele passou por aqui”. Bach eleva-nos sempre, e isso é fascinante. Um dia destes, estava a falar disso com o Pedro [Burmester]: “O Bach é uma música que nunca, nunca, nunca me/nos cansa”.

E Beethoven? Já o abordou na sua música?

Dessa forma, não. Considero-me um músico de jazz. Também tirei o curso de piano, mas não sou daqueles pianistas que viram imenso reportório. Temos de fazer opções, e a minha foi tomada aos 20 e poucos anos. Não queria ser um intérprete de música clássica. Mas há tanta música maravilhosa e, de vez em quando, arranjo um pretexto, e um deles é tocar com o Pedro aquele reportório, que é sempre uma experiência especial.

E Keith Jarrett?

Keith Jarrett, agora oiço menos do que as pessoas possam imaginar. Quando comecei, não fazia mais nada: ou estudava piano ou ouvia Keith Jarrett. Não era jazz, era Keith Jarrett. Isso, entretanto, mudou. Vou contar uma história passada com um guitarrista que sempre adorei, e que morreu há poucos dias [18 de Janeiro], o Ralph Towner [1940-2026], que gravou muito para a ECM, e com quem toquei no disco da Maria João Fábula [1996], para o qual também compus. Estivemos cinco dias em estúdio, também havia o Ricardo Rocha com a guitarra portuguesa, o Manu Katché, na bateria, o Kay Eckhardt, no baixo... Era uma banda incrível. Gravámos o disco em Colónia [na Alemanha], correu incrivelmente e, depois, até tivemos um convite para o importante Festival de Jazz de Berlim. Decidimos, na altura, lançar o barro à parede e convidar o Ralph Towner, uma supervedeta que tinha mais que fazer, a tocar connosco, e ele veio, em dois concertos. Neles, havia um momento em que eu ficava a tocar a solo. No final do primeiro dia, o Ralph veio ter comigo e disse: “O teu solo foi incrível!”. Fiquei nas nuvens. No dia a seguir, voltei a fazer o solo, mesmo se não foi igual. Ele voltou a vir ter comigo: “Gostei muito. Mas tem cuidado, percebe-se muito bem a influência do Keith Jarrett. Tens sempre de ser tu, porque as pessoas querem ouvir o original, não uma imitação”. Eu tinha 30 e tal anos. De vez em quando, nos meus solos, as influências eram tão óbvias... Mas o que o Ralph Towner me disse foi importante, e acho que aprendi a lição.

POSTAIS


 Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ


O filho sempre foi um entusiasta dos Cowboys Junkies.

O Luís Miguel Mira também.

A arrumar prateleiras encontrou os discos que gravou dos Cds do filho.

Não resistiu a reouvir algumas músicas que ficam como as músicas desta manhã.

A história diz que os Cowboys Junkies são uma banda canadiana, formada em Toronto em 1985 por três irmãos da família Timmins mais Alan Anton e Margo Timmins, a extraordinária voz do conjunto, sempre se afirma como guardiões da canção americana.

Por Novembro de 2012 actuaram no Centro Cultural de Belém, o bilhete do espectáculo deve estar a fazer de marcador (velha mania) de um qualquer livro da Biblioteca.




sábado, 14 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Aprendamos a viver em conjunto como irmãos, senão vamos morrer em conjunto como uns idiotas.

Martin Luther King