«Entrados nos 52 do 25 (não é uma dança de números, são os 52 anos do 25 de
Abril de 1974, que hão-de completar-se no próximo sábado), o mundo continua a
afundar-se em cenários de opereta que tão depressa nos lembram as distopias de
Orwell como as delirantes acrobacias marxistas (de Chico, Harpo e Groucho, não
as do velho Karl). Foi preciso esperar 52 anos para ouvir catalogar, em
televisivo horário nobre, com bastante saliva e fanfarronice, a nossa tão
celebrada “revolução dos cravos” como “revolução miserável”, coisa que Salazar,
lá na tumba, terá decerto apreciado. Lembram-se daquela antiga canção que
Dalida cantava com Alain Delon, Paroles, paroles? Era um caso de amor, aqui é
de ressentimento e ódio. Mas, num ou noutro, são só palavras. E não há
palavras, mesmo as mais infames ou violentas, que apaguem a História. Por mais
que as gritem.
Abril, guerras mil – e há um ogre a querer dançar
Noutro palco, o planetário, estamos em pleno manicómio. Fixemo-nos numa
criatura, a que, por economia de letras, chamaremos ogre (nada que ver com
Shrek, pois este não é verde, anda mais pelos tons alaranjados; nem é muito
dado a atrair simpatias, excepto de acólitos e veneradores). Pois queria o ogre
ser visto como um campeão da paz. Até lhe deram dois prémios e tudo. Como
falhou na paz, atirou-se à guerra, trocando a paz das pombas pelo “pás” das
bombas. Nada que uma canção não tenha já dito, antes do ogre. Ouça-se Amélia
Muge em E viva a paz (1991): “E viva a paz e viva a paz/ p’ra mim, p’ra ti, cá
p’ró rapaz/ pás, pás, pás… pum!/ lá vai mais um!”»
CAIS DO OLHAR
sábado, 25 de abril de 2026
MÚSICA PELA MANHÃ
sexta-feira, 24 de abril de 2026
POSTAIS EM SELO
A minha liberdade não acaba quando começa a do outro; ela acaba quando acaba a do outro.
Mário Sérgio Cortella
Legenda: imagem do filme Primavera Tardia de Yasujiro
Ozu
É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS
De
22 de Abril e até 30 de Junho, de sexta a domingo, das 10h às 18 horas, com
entrada gratuita, nos Pavilhões da Mitra, espaço da Santa Casa, a exposição
“Armas de Papel – Imprensa e Publicações Clandestinas (1926-1974)” . Esta
mostra do arquivo da Associação Cultural Ephemera cobre todo o período da
ditadura e todas as correntes políticas e ideológicas perseguidas, como o
republicanismo democrático, o anarquismo, o comunismo, o socialismo, o
catolicismo progressista ou o esquerdismo.
A
exposição revela a comunicação clandestina na luta contra o regime através de
uma coleção com origem em doações e aquisições, quer de instituições, quer de
pessoas individuais, algumas das quais tiveram um papel relevante na própria
produção e distribuição de materiais clandestinos. Presentes na Mitra estão
documentos do espólio de Carlos da Fonseca (doados pela Fundação Gulbenkian),
de Francisco Martins Rodrigues, de José Miguel Carvalho, de José Pacheco
Pereira, aquisições de coleções do Avante!, entre outros.
OLHAR AS CAPAS
Emigrantes
Shaun Tan
Kalandraka Editora
Portugal, Matosinhos, 2011
O que leva tanta gente a deixar tudo para trás e a partir rumo a um país misterioso, a um lugar onde não têm família, nem amigos, onde tudo é desconhecido e o futuro uma incógnita?
TUDO À FORÇA DOS BRAÇOS
«Fernando Leonardo sabe
o que é pescar nesses tempos de miséria em que as crianças fugiam da escola
para esperarem os barcos e comerem os restos do que os pescadores cozinhavam no
mar, uma sopa, um guisado, o peixe acabado de escamar. Cozinhavam num tacho de
alumínio, num fogareiro à popa do barco, onde não chegava água, aí se guardava
também o pão, o sal, o azeite. As lanchas eram de vela latina, pescava-se das
cinco da manhã às três da tarde. Não é como agora, dois homens é o suficiente,
às vezes um, nesse tempo eram companhas de cinco ou seis homens, quatro ou
cinco no mínimo, quatro aos remos, um ao leme, tudo à força dos braços, sem
avisos meteorológicos, sem GPS nem sombras, sem guinchos de alar, vinha um
temporal e perdiam-se as redes, em havendo nortada não se rompiam avante,
içava-se a vela, metia-se um ou dois riços e ia-se bordejando, bordo de mar,
bordo de terra, a direito, ia-se à Praia Verde ou Cacela, bordo da terra para
lá, bordo de mar para cá, tudo à força de braços, eram outros tempos.»
José Carlos Barros em Os Filhos de Monte Gordo
RETRATOS
«Permito-me reproduzir aqui (plagiando-me a mim próprio) o prefácio que tive o gosto e a honra de escrever para um recente livro de poemas de José Luís Tinoco, editado pela Câmara Municipal de Leiria.
Para além das belíssimas letras de canções que compôs, José Luís Tinoco
trazia ainda dentro de si um exigente e poderoso poeta, mais noturno talvez do
que o resto da sua obra, mas mais perto também da autenticidade de quem
considera, de olhos enxutos, o balanço de uma vida.
A poesia de José Luís Tinoco, de firme apuro formal e sábio
desenvolvimento, isenta de quaisquer fragilidades ou facilidades, apresenta-nos
um mundo distópico e carregado do seu próprio vazio, um mundo cinzento onde
perseguimos em vão as brasas cintilantes das memórias. Elas apagam-se, as
brasas, tão logo as alcançamos, mas conseguimos entrever, por detrás da cinza,
o intenso mundo perdido para que nos chama esta poesia.
E são muitas as memórias que se deixam entrever. Mesmo no meio da mais
cinzenta paisagem, é impossível perder-se o apelo da vida. Porque escrever é
triunfar do vazio e afirmar as cores que resistem para além do cinzento e da
perda.
"E assim nos promete o poeta:
amanhã vou encontrar-te entre as raízes
e o que sobrar da respiração da noite
junto às nascentes
onde bebem os sobreviventes do sol e dos temporais
descobrir-te nesse vago rumor de vidros e de estrelas
que se move sobre as pedras
e só agora começo a entender
nítido azul que há-de cobrir o resto dos teus dias”
E a poesia torna-se nessa intensa e concentrada procura do azul, que
nos faz continuar a poder acreditar na vida.
Assim, a poesia de José Luís Tinoco só a uma primeira e menos atenta
leitura nos parecerá cinzenta e disfórica. Toda a sua obra poética, ainda que
filha da melancolia e da bílis negra que, segundo Aristóteles, carateriza o
génio, constitui um forte apelo à vida, que faz com o seu canto regressar as
cores à paisagem mais mortiça e seca que o poeta possa evocar. E esta
alternância da melancolia da perda com a maravilha da criação é o motor que
alimenta a poesia e é por isso que podemos aqui dizer, com o poeta Manuel
Gusmão:
“Contra todas as evidências em contrário, a alegria.”
É que, se não há vertigem para quem conhece os abismos, como nos ensina
o nosso poeta, ele tem presente também a advertência de Nietzsche: “Quem ama o
abismo precisa de ter asas.”
E não faltaram a José Luís Tinoco as asas da poesia, como ele bem sabe.
Por isso este livro de amadurecida e escorreita poesia, em que vemos emergir
uma nova e original voz poética, na sua plena capacidade, nos agarra de
surpresa para não mais nos largar.
Nesta dolorosa
despedida, são estas as palavras que deixo à memória do arquiteto, músico,
poeta e grande homem da nossa cultura José Luís Tinoco.»
Luís Filipe Castro
Mendes no Diário de Notícias
A PARTIR DESSE DIA
A partir desse dia
poderíamos ter começado a aprender a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários, os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.
A partir desse dia poderíamos ter começado a distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da exclusiva claridade que há
nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.
A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.
Amadeu Baptista em Poemabril
quinta-feira, 23 de abril de 2026
OLHAR AS CAPAS
Causas da Decadência dos Povos Peninsulares
Antero de Quental
Colecção Tempo Social
nº 15
Capa: Mário Andrade
Padrões Culturais Editora, Lisboa, Novembro de 2011
Finalmente, do espírito guerreiro da nação conquistadora, herdámos um
invencível horror ao trabalho e um íntimo desprezo pela indústria. Os netos dos
conquistadores de dois mundos podem, sem desonra, consumir no ócio o tempo e a
fortuna, ou mendigar pelas secretarias um emprego: o que não podem, sem
indignidade, é trabalhar! Uma
fábrica, uma oficina, uma exploração agrícola ou mineira, são coisas impróprias
da nossa fidalguia.
REOLHARES
VELHOS RECORTES
O que aqui se publica, é uma Carta ao Director do Público enviada pelo leitor José da Cruz Santos que, quando o 25 de Abril fez 50 anos, num qualquer momento de inquietação, de desesperança, entendeu que outros leitores do jornal, deveriam conhecer o que lhe ia no pensamento.
Passou um ano.
Que pensará o leitor José da Cruz Santos?
À LUPA
O regresso com estrondo de Pedro Nuno Santos ao Parlamento, após uma
derrota eleitoral que, em tese, recomendaria uma longa travessia do deserto,
está aí para mostrar os inegáveis atributos políticos do ex-líder socialista.
Mas demonstra também a sua desadequação a um partido com as características
históricas do PS. O regresso estrondoso
de Pedro Nuno Santos
Por agora, o interesse que gerou este regresso e o tom das reações que provocou são um bom barómetro, e
demonstram que Pedro Nuno Santos estará para o PS como no passado Pedro Santana
Lopes esteve para o PSD. Um enfant terrible que não deixa ninguém
indiferente, concentra as atenções e revela gosto pelo combate político.
POEMA DA DESPEDIDA
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem
morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quanto tento
o magro invento de um
sonho
todo o inferno me vem à
boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
Escrevo.
Mia
Couto
quarta-feira, 22 de abril de 2026
OLHAR AS CAPAS
Édouard Boubat
Direcão:
Henrique Monteiro
Colecção
Mestres da Fotografia
Edição:
Expresso, Lisboa 2008
Em fotografia há sempre uma dimensão que
ultrapassa a aparência. É o que eu chamo o invisível ou, se preferir, a
atmosfera.
QUANDO
Quando o meu corpo
apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o
céu e o mar,
E como hoje igualmente
hão-de bailar
As quatro estações à
minha porta.
Outros em Abril
passarão no pomar
Em que eu tantas vezes
passei,
Haverá longos poentes
sobre o mar,
Outros amarão as coisas
que eu amei.
Será o mesmo brilho, a
mesma festa,
Será o mesmo jardim à
minha porta,
E os cabelos doirados
da floresta,
Como se eu não
estivesse morta.
Sophia de Mello Breyner
Andresen
terça-feira, 21 de abril de 2026
TRUMPALHADAS
De adiamento
em adiamento, Donald Trump vai mostrando ao mundo que se meteu numa guerra com
o Irão sem cuidar que aquela gente, quando acossados, é capaz de tudo e não é o
constante despejar de misseis e drones
que os fazem recuar.
Poucas horas
antes do findar da actual trégua, Trump avisou que os militares
norte-americanos estavam desejosos para entrarem em acção.
Através da sua rede social, Truth Social, o Presidente dos Estados Unidos anunciou que prolonga o período de cessar-fogo, que terminaria dentro de poucas horas, "até que os líderes e representantes do irão consigam chegar a uma proposta".
Entretanto as
autoridades militares norte-americanas pediram hoje o investimento de dezenas
de milhares de milhões de dólares no próximo ano fiscal em drones,
sistemas de defesa aérea e caças, que têm sido peças-chave na guerra com o
Irão.
No âmbito da
iniciativa do Presidente Donald Trump para aumentar as despesas com a defesa
para 1,5 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros, à taxa de câmbio
actual) no orçamento de 2027, o Pentágono quer triplicar as despesas com drones e
tecnologias relacionadas para mais de 74 mil milhões de dólares e investir mais
de 30 mil milhões de dólares em munições mais críticas, incluindo interceptores
de mísseis, cujos stocks se tornaram criticamente baixos durante a guerra
com o Irão.
As
autoridades militares afirmaram que o plano de despesas foi desenvolvido antes
do conflito no Médio Oriente. Também não discutiram quanto irão solicitar em
fundos adicionais para a guerra, o que seria um acréscimo ao aumento das
despesas de defesa já solicitado pela Casa Branca para o próximo ano fiscal.
OLHAR AS CAPAS
O Verão Quente de 1944
Andrew Bergman
Tradução: Carlos Leite
Capa: João Botelho
Colecção: Série Negra nº 6
A Regra do Jogo, Lisboa, Setembro de 1980
Naquela
manhã de quinta-feira eu só tinha que ir bebendo café por um copo de plástico e
estar à janela a ver os empregados dos escritórios em frente baralharem os
papéis todos. Ia começar a brincar com um dente molar quando ouvi abrir-se a
porta de fora do escritório. Voltei-me para ver uma rapariga loura, aí duns
vinte anos, que fechava a porta e ia sentar-se por baixo do poster dos Bónus de
Guerra, na sala de espera.
-
Pode entrar para qui – chamei. – A maior parte dos clientes já foi embora.
Ela
levantou-se, alisou a saia e entrou rapidamente. Era alta e de aspecto
tranquilo, com os olhos azuis que ardiam através dum excesso de pintura, uma
boca pequena e um nariz perfeito, absolutamente perfeito.
- É
Jack LeVine?
Sentou-se
em frente de mim.
- Até
agora, tenho sido.
RETRATOS
O humor é uma coisa muito séria.
Penso que é uma das
maiores e mais antigas riquezas nacionais
que devem .ser
preservadas a todo o custo.
James Thurber
A coisa mais negligente, para não dizer a mais feia, que podemos fazer, é descobrirmos um tesouro e não badalarmos logo esta descoberta a amigos e conhecidos, para que dela também possam beneficiar. É tão criminoso como descobrir o chocolate e ficar calado. Não se faz! O que é bom é para repartir.
Dei com a Ana Cristina Leonardo, quando o meu filho João Luís me ofereceu o seu pícaro e fabuloso romance O CENTRO DO MUNDO, que desafia a imaginação do mais pintado. Depois, apareceram as suas crónicas no suplemento ´IPSILON, do PÚBLICO, de tal modo cintilantes de inteligência, verdadeira cultura e humor sonso, fininho e manhoso (os ingleses chamam-lhe humor “sly”, que talvez se possa também traduzir por sacaninha), que achei francamente ranhosa a periodicidade com que eram publicadas. Resmunguei com os meus botões: “Se o PÚBLICO desse conta do valor destas crónicas, publicava-as semanalmente.” Acontece que o PÚBLICO ou deu conta ou ouviu o meu resmungo enviado para o éter.
E passámos a ter, todas as semanas, à sexta feira, o prazer e o privilégio de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, que são sérias, da maneira mais séria e competente que há de o ser: recheadas daquele humor que os lusíadas cultivam tão pouco, com excepção de gente (pouca) com o talento de um José Sesinando.
Dos humoristas tem-se dito muita coisa, mas o mais frequente – e tem um fundo de verdade – é dizer-se que não são, em geral, uma tribo feliz. O notável crítico e ensaísta literário britânico, Cyril Connolly, autor do muito conhecido ENEMIES OF PROMISE, punha a coisa nestes termos: ” Os humoristas não são homens felizes. Como Beachcomber e Saki e Thurber, eles ardem enquanto Roma toca violino.”
Ser humorista é uma profissão de alto risco, sobretudo se exercida num milieu de gente com pouca vocação para o humor e que mais depressa afina do que ri. É precisa uma grande arte, para gozar fininho, todo o tempo, com o parceiro, e sair incólume desse exercício. Era isso mesmo que avisava George Bernard Shaw, quando dizia: “Mark Twain e eu estamos muito na mesma posição. Temos de pôr as coisas de tal maneira, que levem as pessoas que, normalmente, nos teriam enforcado, a acharem que estamos só a brincar.”
Ana Cristina Leonardo exercita-se, da maneira mais culta e atrevida, nesta arte de ensinar, divertindo-nos com o seu finíssimo senso de humor e pisando galhardamente a fronteira do risco. E quem não gosta de arriscar-se é melhor não se meter nestas andanças.
Se, como
sugere Connolly, ela também pertence à tribo dos infelizes, não sei, porque não
tenho o privilégio de a conhecer pessoalmente. Mas sempre direi que, quando
leio o seu discurso recheado de ensinamentos e humor sacaninha, prefiro pensar
que talvez ela desminta o aforismo do autor de ENEMIES OF PROMISE.
Eugénio Lisboa, Novembro de 2022
RENÚNCIA
Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será ela só tua ventura...
A vida é vã como a sombra que passa…
Sofre sereno e de alma sobranceira,
Sem um grito sequer tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...
Manuel Bandeira em Obras Poéticas
segunda-feira, 20 de abril de 2026
POSTAIS SEM SELO
- Será que um dia ainda seremos ricos, Tio Donald?
- Qual nada! Como diz o Tio Patinhas: “Quem nasce para
tostão nunca chega a milhão!”
Legenda:
fotografia de Dorothea Lange
REOLHARES
UM VIVA A REPÚBLICA EM CASA DE RESPEITO
Um tasco em Almoçageme, no dia 5 de Outubro de 1966.
Mais tarde, esse tasco daria lugar à adega «Toca do
Júlio», sucesso e sucesso, mais tarde mudou-se para a Estrada do Rodízio a
caminho da Praia das Maças, o mesmo sucesso, mas a perca de certo aconchego que
num tasco é coisa fundamental.
Mas voltemos àquele 5 de Outubro.
Entramos no tasco e antes de se pedirem os copos,
o Helder Pinho lança
um sonoro «VIVA A REPÚBLICA!»
Lança-se o tasqueiro numa corridinha ao longo do
balcão e com cara de mau a dizer ao Helder, futuro D. Pipas:
- Aqui não se
admitem coisas dessas, isto é uma casa de respeito.
À LUPA
Conceição Ramos, a “criada de servir” que fundou um sindicato, morreu nesta segunda-feira, confirmaram amigos ao PÚBLICO. A octogenária estaria internada nos cuidados paliativos do Hospital de Chaves há cerca de um mês.
Cansada de ser explorada como “criada”, Conceição Ramos fundou um sindicato.
A ideia de defender os direitos das empregadas domésticas surgiu na Juventude Operária Católica, grupo que Conceição Ramos liderava, ainda antes do 25 de Abril de 1974. Mais tarde viria a fundar o Sindicato do Serviço Doméstico.Nasceu em 1941 e, desde então, passou por várias casas, onde acumulou más experiências que não queria ver repetidas com as outras trabalhadoras domésticas. Sabia que eram "milhares a passar o mesmo", como contou ao Público em 2024.
AS PALAVRAS LENTAS DE UMA CANÇÃO
Que elas, cadentes estrelas dos bairros de sombra, soltem cabelos e rendas e falsas joias porque a vida é apenas este comboio sem destino nem estações, gritando com esta música sobre as cabeças trepidantes. Já poucos se demoram na contemplação de uns olhos que traziam o mistério dos bosques e dos lagos, ninfas e duendes que perseguiam um homem até aos labirintos da insónia. Agora, quase tudo se desprende e não posso, é verdade, não posso prender os meus dedos nos teus, não posso murmurar as palavras lentas da minha canção. Não posso perguntar: qual é o teu nome, a tua casa, a tua história? Não posso perguntar nada, fazer nada. Sei que de trago em trago vou abrindo uma clareira de medos onde só a minha sombra vai medindo os passos do Sol. Vejo, para trás dos ombros que se desarticulam, um rosto perplexo entre as nuvens de fumo. Soubesses tu, rosto perdido, as raízes do meu desastre e não virias aqui, a esta hora, balbuciando uma prece ou uma maldição. Mas não sabes. Não conheces o fulgor que me abandona, os nervos rebentando à medida das marés que nos empurram para os portos nocturnos, no derradeiro naufrágio. Não conheces o impulso que nos atira contra os recifes quando já não somos mais do que um velho que perdeu o Norte, um porão vazio que os fantasmas do mar que é esta vida visitam com enormes letreiros luminosos: «Foste príncipe, adorador, amante. O Tempo passou. Os teus olhos ficam. Elas giram à tua volta. O teu corpo fica. Já não se move.»
José
Agostinho Baptista, de uma crónica na Ler,
Novembro de 1997.
ESTE HOMEM QUE ESPEROU
Este homem que esperou
humilde em sua casa
que o sol lavasse a cara
ao seu desgosto
Este homem que esperou
à sombra duma árvore
mudar a direcção
ao seu pobre destino
Este homem que pensou
com uma pedra na mão
transformá-la num pão
transformá-la num beijo
Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra
António Ramos Rosa em Obra Poética Vol.I
domingo, 19 de abril de 2026
A SUA MISSÃO DIZIA RESPEITO AOS VIVOS
- Minha gente – disse o Dr. Copeland, sem
expressão, e depois houve uma pausa. E as palavras acudiram-lhe de repente:
É este o décimo nono ano em que nos reunimos nesta
sala para celebrar o Dia de Natal. Foi uma época sinistra, aquela em que o
nosso povo ouviu falar pela primeira vez do nascimento do Nosso Senhor. Os
negros escravos eram vendidos na praça do tribunal desta mesma cidade. Desde
então, temos ouvido e contado a história da Sua vida um sem-fim de vezes.
Assim, hoje a nossa história vai ser outra.
Há cento e vinte anos, outro homem nasceu num país
conhecido pelo nome de Alemanha… longe, do outro lado do oceano Atlântico. Este
homem compreendia, tal como Jesus Cristo. Mas os seus pensamentos não estavam
dominados pela ideia de céu, ou do destino dos mortos. A sua missão dizia
respeito aos vivos. À grande massa de seres humanos que labutam e sofrem, e
mourejam até à morte. Às pessoas que ganham a vida a lavar roupa, a cozinhar
para os outros, a colher algodão, a trabalhar com as tinas de tinturas
escaldantes nas fábricas. A sua missão dizia-nos respeito a nós, e o seu nome
era Karl Marx.
Karl Marx era um homem de senso, um sábio. Estudou e trabalhou e compreendeu o mundo em que vivia. Disse ele que a humanidade estava dividida em duas classes, os pobres e os ricos. Por cada rico havia mil pobres que trabalham para o tornar mais rico. Não dividiu o mundo em negros e brancos ou chineses: segundo Karl Marx, ser um dos milhões de pobres, ou um dos poucos ricos, era mais importante para um homem do que a cor da sua pele. A missão da sua vida era tornar todos os homens iguais, e repartir as grandes riquezas do mundo de tal forma que não houvesse mais ricos nem mais pobres, e que cada qual recebesse a sua quota-parte dos bens do mundo. Eis um dos mandamentos que Karl Marx nos deixou: «De cada um segundo a sua capacidade, a cada qual consoante as suas necessidades.»
Carson McCullerrs em Coração Solitário Caçador



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