Aos poucos vamos deixando
para trás o culto dos mortos.
Por este dia de finados,
os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de carros e
pessoas como há uns anos atrás.
Os cemitérios já são pouco
visitados.
Lembro que a Rua Morais
Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás, era um
mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.
Aos poucos, vai-se
perdendo o culto dos mortos.
A incineração emprestou ao
ritual da morte, outros olhares.
José Gomes Ferreira, no
dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns
«Hoje, dia de esquecer
os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas, crepes, luto, flores para
coroar caveiras…»
A minha avó marcava o dia
de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas
que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos
santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.
O meu avô
exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar
as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas
devemos deixá-los em seu sítio.
Muitos anos depois, hei-de
ler em Dóris Graça Dias:
«Apaixonamo-nos pelas
pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando
deixamos de as ouvir.»
Creio que foi em José
Tolentino Mendonça que li a interrogação:
E se pensar na morte
fosse a melhor maneira de dar valor à vida?
Escreveu ainda:
À beira do fim há
sempre tanta coisa que começa!
Mas o poeta russo, Vladimir
MaiaKovski, expressava:
Não é difícil morrer.
Viver é muito mais.
Outro russo, Anton
Tchekov:
«Procurava o seu
habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde estará ela?
Qual morte” Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto? – disse ele de súbito em voz alta. Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse
instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele
prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o
seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se
menos frequentes.
- Acabou-se! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. “Acabou-se a morte – disse a
si mesmo – Já não existe.”
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»
Há aquela fala na Grande
Paz de Edward
Bond:
«Se eu pudesse tirar o
ar do corpo dos mortos com o cuidado de quem põe um grão de areia em cima de
outro, quando o ar lhes saísse da boca talvez as línguas deles falassem e me
dissessem porque razão vivemos e sofremos e porque vivemos nesta terra e somos
enterrados nela.»
Legenda: pintura de Jakub
Schikaneder.
O título do texto é um verso de Cesare Pavese.