Segundo o Expresso,
José Saramago pode deixar de ser obrigatório no 12.º ano; Camilo Castelo Branco
passa a leitura obrigatória.
A proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais de
Português, atualmente em consulta pública pelo Ministério da Educação, Ciência
e Inovação, retira a obrigatoriedade de obras de José Saramago no ensino
secundário.
Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas a
escolher uma obra do escritor no 12.º ano, passando a poder optar por outros
autores. Atualmente, o programa prevê a leitura integral de “Memorial do
Convento” ou de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.
A proposta prevê ainda que Camilo Castelo
Branco passe a leitura obrigatória neste nível de ensino e abre a
possibilidade de escolha de obras como “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”,
de Mário de Carvalho.
Segundo responsáveis da área, a revisão procura
aumentar a diversidade de autores e temas trabalhados nas escolas, permitindo
maior flexibilidade na escolha das obras.
A alteração, que retira da obrigatoriedade o único
Nobel português da Literatura, poderá suscitar debate no meio académico e
cultural.
O documento está em consulta pública até 28 de abril e
poderá ser ajustado antes de entrar em vigor no próximo ano letivo.
Entretanto, o Rui Ornelas enviou-nos um texto, da
autoria de Daniel Bento, publicado na NetLetter, e que passamos a apresentar:
«A vida podia
ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as
pétalas”. Quando se lembraram da famosa citação de José Saramago em “Memorial
do Convento”, Rui Taveira, José Taveira e Sofia Oliveira não tiveram dúvidas:
tinham encontrado a frase que inspiraria o projeto que tinham em mãos.
“Todas as nossas
ideias começam com uma frase, geralmente de um autor que gostamos. Tentamos
fazer uma ligação da arquitetura com o mundo das artes. Pode ser a literatura,
o cinema ou qualquer outra área”, explicam à NiT, acrescentando que olham para
o seu trabalho como “poesia materializada”.
Fiel a esta
visão, o trio desenhou uma casa inovadora na ilha de Yakushima, no Japão, local
classificado como Património Mundial da UNESCO. Batizada “Life could just be” —
como no início das palavras de Saramago — o projeto foi criado para o
prestigiado concurso internacional NOT A HOTEL Design Competition 2026.
O resultado
final tornou Rui, José e Sofia parte dos 10 finalistas da segunda edição da
competição, tendo-se destacado entre as mais de mil submissões de 113 países.
Os três
arquitetos decidiram participar um mês antes do fim das submissões. “Uma equipa
espanhola entrou em contacto connosco para entrarmos juntos. Ainda não
estávamos a par, mas respondi logo a dizer que também estávamos a concorrer”,
recorda Rui, que se apressou a ligar ao irmão e à amiga para os desafiar.
Nenhum hesitou.
Até porque, ao contrário dos concursos em que já tinham participado, em
Portugal, “havia muito menos limitações”. A única exigência era que todos
os profissionais tivessem menos de 40 anos e desenhassem um T3, com suites e
piscina, em Yakushima. “A nível de criatividade, estávamos soltos.”
Os três têm
valências em áreas complementares. Rui trabalha no atelier de arquitetura
Frederico Valssassina, enquanto o irmão, José faz parte do estúdio de imagens
em 3D uto.vz. Conheceram Sofia durante a faculdade, criativa que agora trabalha
a solo. “Somos super próximos e, sempre que há uma competição, queremos
participar”, confessa.
O primeiro passo
foi estudar o “ambiente super específico” da região, um local tropical e com
muita chuva. Através de videos e imagens, perceberam que naquele terreno, onde
não havia grande envolvente, poderia haver problemas como a humidade ou a
densidade da vegetação.
A solução foi a
escolha de materiais que pudessem envelhecer bem e não “propostas
artificiais”. Optaram por opções como o betão para que, ao longo do tempo,
o musgo que pode aparecer no exterior ou manchas mais escuras “não fossem
vistas como algo a evitar, mas como a casa a pertencer cada vez mais à ilha.”
Vista de fora, a
habitação foi pensada como um volume mais pesado, quase como uma pedra que
pertence aquele solo. “Tentámos encontrar um bom equilíbrio entre aquilo que a
[plataforma japonesa de casas de férias de luxo com design de autor] Not a
Hotel gosta e o que a localização pedia”, explica Rui.
Juntaram ainda
uma pala na parte da frente, “como uma folha suspensa” que esconde o resto da
moradia. É um “momento mais leve” que recebe a pessoa e que lhe permite
“absorver o máximo possível da ilha” com relativa proteção: não estamos
fechados, vemos a chuva e sentimos o vento, mas ao mesmo tempo é um espaço
coberto.
Todos os
detalhes foram pensados para fazer uma casa luxuosa, mas não de forma
convencional. Rui, José e Sofia interpretaram o conceito do “luxo do tempo” à
sua maneira, respondendo a uma questão que se colocaram uns aos outros várias
vezes: o que é uma casa de férias que seja uma pausa neste ritmo frenético?
Acabaram por
perceber, explicam, que “a ilha, por si só, já tinha todo o valor necessário” e
que a abordagem nunca seria competir com a beleza do local. “Decidimos fazer um
projeto que passasse despercebido, quase invisível. Algo que fosse aceite e que
permitisse conhecer a ilha por dentro.”
Quanto à
possibilidade de ver a casa construída, começam por defender que, mais do que
“aos problemas do mundo real”, é a parte criativa da arquitetura que os três
mais gostam de explorar. “Damos muita importância a esta parte teórica. As
formas representam essa ambição criativa e poética.”
Não escondem,
por isso, a felicidade de terem sido reconhecidos por um júri que incluiu nomes
como Bjarke Ingels ou Sou Fujimoto. “Tentámos manter uma postura confiante, mas
sabíamos que podia não dar certo. A oportunidade de fazer esta viagem, conhecer
estes arquitetos é o prémio mais incrível.”
A verdade é que
já se imaginam sentados num terreno em Yakushima, a segurar um malmequer, mas
sem lhe arrancar as pétalas. “Por serem já sabidas as respostas, ou por serem
estas de tão pouca importância que descobri-las não valeria a vida de uma
flor”, como termina a citação de Saramago.»