segunda-feira, 1 de junho de 2026

RECEITA PARA FAZER AZUL

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz — eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé — e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.

Nuno Júdice

domingo, 31 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Quem ama o abismo precisa de ter asas.

Nietzsche

OLHAR AS CAPAS


História da Grande Revolução Socialista

P.N. Sóbolev

Edições Progresso, Moscovo 1977

Na Ucrânia a situação era muito mais complexa. A Ucrânia era uma região economicamente desenvolvida. Nos anos de 1913-1914 fornecera 71% do volume global da extracção do carvão de pedra, 68% da do ferros em lingotes, 58& do aço, 57% da de laminados e 80% da do açúcar. Ali trabalhavam cerca de 3,5 milhões de operários, sendo industriais – 812,5 mil.

MÚSICA PELA MANHÃ


Neste domingo, ninguém dos meus acompanhantes de palmilhar caminhos morreu, e quanto a música, fiquem-se com estas.




sábado, 30 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Não há pior luta do que aquela que não se faz…

Legenda: página 29 de Conheça Karl Marx

OLHAR AS CAPAS


Conheça Karl Marx

Rius

Versão de António Melo

Sobre tradução de Maria Martinez

Capa: Alberto Bemfeita

Tentar resumir Marx é, segundo a maior parte dos estudiosos apenas um “sacrilégio”, como uma inútil perca de tempo, já que Karl Marx é uma autoridade cuja linguagem se apresenta praticamente inacessível aos espíritos simples.

Não há pior luta do que aquela que não se faz…

MÚSICA PELA MANHÃ

Muitos dos que nos acompanharam na vida, fazendo-a diferente, estão a deixar-nos.

Agora foi Sonny Rollins.



sexta-feira, 29 de maio de 2026

À LUPA

«Depois do texto de Cavaco contra Santana Lopes – "A moeda má expulsa a moeda boa" – esta posição de Pedro Passos Coelho, em vésperas de Congresso do PSD, é o maior ataque de um antigo primeiro-ministro ao seu sucessor. Mas Cavaco não queria o lugar de Santana Lopes. Passos Coelho quer. Sem maioria absoluta, com uma crise às portas, as famílias a gastarem tudo no supermercado – para não falar da habitação onde não se vêem melhoras – e com um ex-líder que quer o seu lugar abertamente e sem rodeios, a vida de Montenegro vai ser tudo menos um mar de rosas.»

Ana Sá Lopes no Público

NOTÍCIAS DO CIRCO

O Ministério Público e a Polícia Judiciária avançaram, esta manhã, com cerca de uma dezena de buscas, designadamente em casas de responsáveis da Carris e de uma empresa privada, no âmbito da investigação criminal do acidente do Elevador da Glória, que ocorreu na tarde de 3 de setembro do ano passado e em que morreram 16 pessoas.

O GESTO NECESSÁRIO

 encontrar

o delírio

da noite

 

suspenso

num olhar

de vagabundo

 

e depois

ter fé

na ressurreição

do mundo

 

Félix Borges

(1967)

quinta-feira, 28 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Amo de tal forma a vida que me levanto violentamente contra os que a negam, a destroem, a corrompem.

Joseph Losey

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


 

 José Pacheco Pereira sobre O Evangelho Segundo S. Mateus de Pasolini, publicado no Diário de Lisboa-Juvenil 7 de Março de 1967.

TRUMPALHADAS

 

Que mais há a pensar de Donald Trump?

Inculto, ignorante, populista, demagogo.

O mesmo espanto de sempre: como é que um povo elege um presidente disposto a acabar com os Estados Unidos, com o Mundo?

De uma notícia do Público assinada por Ana Brito:

 «Ao fim de três meses, Trump continua sem resolver o problema que criou no Irão
“O Irão quer muito fazer um acordo”, repete Trump todas as semanas, mas o estreito de Ormuz permanece “encerrado” e o Médio Oriente é uma zona de alta tensão.

Os Estados Unidos continuam a mostrar-se incapazes de resolver o problema que criaram há três meses, quando, ao lado de Israel, atacaram o Irão, mataram as principais figuras do regime – incluindo o Guia Supremo da República Islâmica, o ayatollah Ali Khamenei – fazendo com que o poder caísse nas mãos dos generais, que controlam o dinheiro, as armas e o petróleo e têm pouco incentivo para abrir mão do trunfo estratégico que é o estreito de Ormuz.

Esta quarta-feira, depois de a imprensa iraniana ter divulgado uma espécie de base para um memorando de entendimento entre Irão e Estados Unidos, a que a Casa Branca chamou uma “invenção completa”, Donald Trump voltou a dizer que ainda não está satisfeito com o acordo que supostamente está a ser negociado com Teerão, através da mediação paquistanesa.»


A MULHER SENTADA

Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.


(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).


Mulher sentada. Tranquila
na sala, como se voasse.

João Cabral de Melo Neto em Poemas Escolhidos

quarta-feira, 27 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Chega-se a ser grande por aquilo que se lê e não por aquilo que se escreve.

Jorge Luís Borges

OLHAR AS CAPAS


Revolução

Hugo Gonçalves

Capa: Luísa Cunha

Companhia das Letras, Lisboa, Maio de 2024

Por mais companhias de dinamização cultural e acção cívica, o povo ainda não tinha aprendido as regras da convivência. O povo – ao vivo e aos magotes, rameloso e na disputa de um lugar sentado, com o banho por tomar ou uma sobrecarga de perfume – era menos inspirador do que nas estilizadas pinturas de mural com o punho no ar.

LIVROS QUE SE ESPALHAM PELO PARQUE


Abriu a Feira do Livro e por ali permanecerá até 14 de Junho.

Hei-de lá ir pelos jacarandás, pela frescura que a noite traz, mas este Maio está a ser terrível com um calor de ananases.

E pelos livros também lá irei, claro!

Recordando Francisco Vale, editor da Relógio d’Água:

«Na década de 90, despedia-me por vezes de colegas da Feira do Livro de Lisboa com um «até para o ano, se ainda houver livros».
A frase era irónica, numa época em que os artigos sobre a crise do livro tipográfico formavam uma espécie de género ensaístico menor. Alguns anos depois tingiu-se de humor negro com o surgimento dos leitores de e-books e de uma geração habituada aos écrans e desabituada de livros.
Mas o livro impresso entrou no século XXI com inesperado vigor e as previsões sobre o avanço da edição electrónica revelavam-se apressadas.»

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS


Em Novembro de 2015, por aqui, olhámos o livro Greguerías de Ramón Gómez de la Serna, selecção e tradução de Jorge Silva Melo.

Greguerias é uma palavra que não significa nada, nem em castelhano, nem em qualquer outra língua, é um género literário inventado pelo próprio autor. Jorge Silva Melo, no prefácio, lança pistas para que possam ser aforismos, adágios, refrões, mas não é conclusivo. Pouco importa.

O que quer que sejam, merece que se apresentem algumas dessas greguerías, que também, por aqui, já foram utilizadas em alguns Postais sem Selo.


Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.

À morte não a ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos

Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.

Olharam-se de janela a janela em dois comboios que iam em direcções opostas, mas tal é a força do amor que logo os dosi comboios se puseram a andar para o mesmo lado.

Às vezes, os beijos são só chewing-gum repartido.

As estrelas-do-mar são as mãos que constatam que o barco se afundou.

Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo a conversa em cima.

O grande problema do gato é como dar futuro a esses seis gatinhos que vieram ao mundo de uma só vez.

Nervosismo da cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açúcar para o café.

Amor é acordar uma mulher e ela não se irritar.

Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.

Quando se entorna um copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.

Velho actor: deixou uma dentadura que declamava Shakespeare.

Pôr as peúgas do avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.

A gaivota rema ao voar.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Volta e meia, Pedro Passos Coelho abandona Massamá para nos vir dizer coisas.

Ontem, na apresentação de um livro, criticou os políticos que, para tentarem agradar a todos ainda mais do que os populistas, se tornam postiços, comparando-os a "prostitutos sem carácter".

PLANO DE EVASÃO

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite –

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre as curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

Rui Pires Cabral em Resumo: a poesia em 2012

terça-feira, 26 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


O ímpeto de escrever como fuga à morte.

Helena Vasconcelos 

À LUPA

Dentro de Greguerías, aforismos de Ramón Gómez de la Serna, encontrei um guardanapo de café ou tasco, com esta frase de José Sócrates, enquanto ministro do Ambiente e citada do Dna de 16 de Setembro de 2000:

 «Engenheiro José Sócrates, vamos vê-lo, um dia, primeiro-ministro?»
«Não! Primeiro, porque não tenho o talento e as qualidades que um primeiro-ministro deve ter. Segundo, porque ser primeiro-ministro é ter uma vida na dependência mais absoluta de tudo, sem ter tempo para mais nada. É uma vida horrível e que eu não desejo. Ministro é o meu limite.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Nunca aprendemos tudo sobre despedidas.

O livro do Julian Barnes é um livro do diabo.

Demorei algum tempo a lê-lo. 

São apenas 185 páginas, «composto em caracteres da família Caslon, inspirados na tradição holandesa do século XVII e  originalmente desenhadas, em 1722, pelo tipógrafo William Caslon (1692-1766) – um trabalho que influenciou toda a história da tipografia moderna».

Relembro o que por aqui escrevi, nos princípios de Março, sobre Barnes:

Saiu o último livro do Julian Barnes e é mesmo o último.

Li apenas O Papagaio de Flaubert e gostei. 

Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».

Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de 46, eu nasci em Março de 45.

Deveria ter lido os restantes livros de Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida, que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram. Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros que me querem oferecer.

Neste momento, Barnes, luta contra um cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

A Quetzal, que edita o livro, publicita:

«Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas expressões da vida. E despede-se deles.

Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco».

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Uma despedida elegante de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review

«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal

«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»

Na crítica que Helena Vasconcelos fez para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes

Partida, o romance em que Julian Barnes nos diz adeus.

Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.

Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.

Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.

OLHAR AS CAPAS


Partida

Julian Barnes

Tradução: Salvato Teles Menezes

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa Janeiro de 2026

É óbvio que, como agnóstico/ateu, não vejo muitas vantagens em estar morto.

THE NIGHT YOU SLEPT

Também a noite se parece contigo,
a noite longínqua que chora,
muda, no fundo do coração,
e as estrelas passam cansadas.
Uma face aflora uma face –
é um tremor frio, alguém
se agita e te suplica, só,
perdido em ti, na tua febre.
 
A noite sofre e anseia pelo amanhecer,
pobre coração que estremeces.
Ó rosto fechado, negra angústia,
febre que afliges as estrelas,
os que esperam como tu o amanhecer
sondam o teu rosto em silêncio.
Estendes-te sob a capa da noite
como um horizonte morto e fechado.
Pobre coração que estremeces,
num dia distante foste o amanhecer.

Cesare Pavese em Virá a Morte e Terá os Teus Olhos