sábado, 7 de março de 2026

OS POBREZINHOS


«Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

- Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

- O que é que o menino quer, esta gente é assim

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis»

António Lobo Antunes em Livro de Crónicas 1º volume

MÚSICA PELA MANHÃ


Os livros do António Lobo Antunes que constam da Biblioteca da Casa, acabam em 1999 com A Exortação dos Crocodilos,  mas há a acrescentar os cinco livros de Crónicas e mais não há, porque alguém, num acto sem nome, entendeu não mais publicar as crónicas que Lobo Antunes ia deixando em jornais e revistas

De que músicas, de que canções, gostava António Lobo Antunes?

Teria que percorrer os livros para encontrar algumas citações, se é que as há, não tenho grande memória mas também há que dizer que metade, ou mais, da minha memória está em branco.

Apenas restavam as epígrafes, mas dos livros que a Biblioteca da  Casa tem, encontrei duas: The Boxer do Paul Simon em Fado Alexandrino e Bob Dylan, em Auto dos Danados, por mor de uma citação de «11 Outlines Epitaphs» que é o título de um poema escrito no início dos anos 60.

Lonely? Ah yes

But it is the flowers and the mirrors

of flowers that now meet my

loneliness

an mine

shall be a strong

loneliness

dissolvin' deep

to the depths of my freedom

and that, then, shall

remain my song.

Assim sendo, como Músicas pela Manhã, teremos The Boxer de Paul Simon.

De Dylan ficaremos com The Times They Are a changing.



RETRATOS


«A atriz norte-americana Susan Sarandon está em Barcelona para receber o Prémio Internacional Goya 2026. Na conferência de imprensa que antecedeu a cerimónia, criticou as políticas anti-imigração do presidente dos EUA, Donald Trump, ao mesmo tempo que elogiou a posição de Espanha em relação à Palestina.

Sobre o primeiro-ministro espanhol disse:

«Bonito, alto... Bem, não sei muito sobre ele, exceto que está do lado certo da história.

Venho de um país onde existe censura e repressão; por isso, ver a posição de Espanha é tão significativo para o povo americano. Faz-nos sentir menos sozinhos.

O silêncio é muito perigoso. Devemos poder dizer o que pensamos sem sermos ameaçados de nunca mais trabalhar.»

Dos jornais

NOTÍCIAS DO CIRCO

A semana, prestes a terminar, foi marcada pela loucura trumpiana, pela tentativa do passismo, não se sabe bem como, a morte física de António Lobo Antunes, sim porque os livros estão ali, naquela parte da estante, apenas à espera de serem relidos uns, lidos outros.

Sobre o passismo deverá ler-se o artigo de José Pacheco Pereira no Público de hoje.

«Seria bom que Passos desse passos para entrar a todo o vapor na política partidária de uma forma mais transparente do que o alimento cínico do sebastianismo».

Atente-se nesta frase que marca os nossos dias:

«O bloqueio do elevador social em Portugal, como noutros países da Europa, foi um dos factores do ascenso do populismo e da extrema-direita».

sexta-feira, 6 de março de 2026

A MORTE PODE DESTRUIR-ME MAS NÃO ME MATA


 Noutro dia apercebi-me de que os grandes génios da música popular brasileira, Chico, Caetano, Gil, Bethânia, compositores e cantores da banda sonora da vida de tantos de nós, são todos octogenários. Meu Deus, como deixámos que isto nos acontecesse. E agora já não temos José Saramago: perdemos a nossa voz. E Lobo Antunes morreu: perdemo-nos neste labirinto de gritaria, cuspo e fúria desenfreada, e não temos nem um fiozinho de Ariadne para nos resgatar.

Eu, que sempre achei que a arte, fosse a literatura ou a música, não servia para rigorosamente nada, a não ser para ser arte (e isso é tudo), penso nestes anos de fim do mundo, de atrocidades medonhas, em que se dizimam países, se arrasam gerações, se contamina o planeta, com a exaltação vampírica e bélica dos comentadores, que salivam em êxtase, que a literatura, não tendo superpoderes para nos salvar, ao menos serve para nos confrontar com a nossa própria humanidade. É o que nos distingue dos animais e da selvajaria: a capacidade de criar, de imaginar outros mundos, outras vidas, de sermos um bocadinho deus.

Como Lobo Antunes desprezaria estas pessoas, que, das suas cadeiras-gaming, espumam beligerância, e discorrem sobre drones de combate e mísseis hipersónicos. Ele que se arrepiava com os dedinhos ao alto a fazer aspas e com a palavra viral. Que conviveu tão de perto com a morte, com o sofrimento, alheio e próprio, sobreviveu a três cancros agressivos, tratamentos violentos de quimioterapia, cirurgias, internamentos, a uma guerra colonial, à morte de irmãos, amigos e companheiros de batalha. Ele que não suportava o ridículo cheio de pose, a arrogância dos simplórios, mas tinha um carinho quase ternurento pelo napperon em cima do televisor, pelas marquises dos subúrbios, pelas viúvas solitárias que distribuem milho aos pombos. Enfadavam-no as conversas intelectuais, pretensamente eruditas, não frequentava o meio literário, recusava sentar-se com certos (quase todos) escritores portugueses à mesma mesa, não suportava a mediocridade.

Lobo Antunes jogou a sua vida nos romances, também nas crónicas, que eram extraordinárias, mas ele desvalorizava-as. Não gostava de falar delas, eram, dizia, apenas um complemento ao orçamento doméstico. Não apreciava entrevistas, mas não suportava que os jornais ignorassem o seu mais recente romance. Entediavam-no as perguntas do costume, não admitia explicar os seus livros, não assumia "técnicas literárias", nem "estruturas narrativas", detestava "proezas literárias", misturava presente, passado e futuro, porque estava convencido de que os tempos se cruzam e indistinguem, não falava em personagens: eram vozes, que nos sopravam ao longo das linhas dos seus livros.

A força torrencial da sua linguagem alagava tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num delírio caótico. Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Dizia que o jazz que o pai lhe dava a ouvir o ajudou no frasear, no seu trânsito poético, que às vezes se suspende: "Não é cantilena para adormecer", dizia Maria Alzira Seixo, "mas advertência para acordar. A frase não chega até ao fim. A vida não chega…"

Gosto de pensar na sua escrita como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele, que nem sabia abrir um computador e escreveu sempre em caligrafia de formigueiro miniatural. Por isso, nas entrevistas, preferia desconcertar o interlocutor, divergir em direcções improváveis, embaraçá-lo com comentários provocadores, destilar ódio e simpatia em doses iguais, largar com estrondo, em cima da mesa, um comentário brilhante, uma citação das tantas que sabia de cor, sobretudo quando o gravador já estava desligado. No espaço de meia hora conseguia ser superiormente inteligente, louco, enraivecido, ternurento, tortuoso, filosófico, sedutor, cruel, vingativo, encantador… Sempre irresistível.

Às vezes penso que ele próprio foi a mais fascinante personagem que criou. A sua memória de baú sem fundo, a sua enorme atenção, que o acompanhou desde a infância, atenção a tudo, aos detalhes ínfimos, a que mais ninguém reparava, às frases literárias e brilhantes que reproduzia na parede do seu apartamento. Algumas eram suas. Lembro-me de o ver seduzir plateias de centenas de pessoas. De as ver ficar rendidas. De as desiludir também, com o seu ar négligé, misto de fleuma altiva com indiferença estudada, meio distraído, ar de quem já nem está ali naquele palco, porque se evadira para outro lugar, porventura, mais interessante.

Era sempre uma forma de causar desalinho e um certo desconforto. Isso parecia agradar-lhe. E o desalinho e desconforto foram matéria e material dos seus romances. Queria que os livros agarrassem o leitor pelo pescoço, à bruta. E também, por isso, eram maravilhosos e inigualáveis. Parecia gostar de se estar nas tintas, porque tinha alcançado esse estatuto, se lhe apetecia dizia coisas desagradáveis sobre Pessoa e Eça. Olhava para os melhores da literatura com admiração e raiva e pensava: tenho de ser melhor que eles. Leitor insaciável: se um dia não lesse era como se se vestisse sem tomar banho, comentava .
Lembro-me de lhe assistir a momentos de uma alacridade tão infantil e contagiante, em que cantava em voz alta e recitava poemas, e a outros de desdém, perante um público distinto que o homenageava: "Era tão bom que esta gente lesse", segredou-me. Citava o general do século XVII Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Talvez fosse o escritor que conheci que mais se preocupava com a posteridade, mas negava-o: "O que me interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo nos salve, e de que… olhe, de que haja manhã…" E lembrava Hemingway: "A morte pode destruir-me, mas não me mata."

Um dia perguntou-me: "Posso dizer-lhe uma coisa em off?" E fixou-me com aquele olhar muito azul e muito sério: "Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal… Mas é só uma opinião."


Ana Margarida de Carvalho no Público

RETRATOS


Não relia os livros. Não gostava de falar sobre eles. Não sabia como escolhia os títulos das suas obras. Não se achava vaidoso. Não gostava de crónicas. Não lia notícias. Não quis ser nada mais do que escritor, apesar de ter sido também psiquiatra. Não se interessava pelas elites. Não foi consensual. Não chegou a receber o Nobel da Literatura. Não fugiu aos próprios traumas. Foi pelo “não” que tantas e tantas vezes António Lobo Antunes se definiu em entrevistas ao longo da vida, porque nunca estava satisfeito com nada.

Sónia Sapage no editorial do Público de hoje.

OLHAR AS CAPAS

Ler

Nº 37 – Inverno de 1997

Entrevista de António Lobo Antunes

Capa: fotografia de João Francisco Vilhena

Direcção gráfica: Henrique Cayatte

Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Nunca li um livro meu.

ESTOU AQUI

Estou aqui como se te procurasse

a fingir que não sei aonde estás

queria tanto falar-te e se falasse

dizer as coisas que não sou capaz.

 

Dizer, eu sei lá, que te perdi

por não saber achar-te à minha beira

e na casa deserta então morri

com a luz do teu sorriso à cabeceira.

 

Queria tanto falar-te e não consigo

explicar o que se sofre, o que se sente

e perguntar como ao teu retrato digo

se queres casar comigo novamente…

 

António Lobo Antunes em Letrinhas de Cantigas 

quinta-feira, 5 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram.

António Lobo Antunes  de uma crónica na Visão.

VELHOS RECORTES

Curiosamente, a minha descoberta do escritor António Lobo Antunes nasce com uma entrevista di jornalista Carlos Miranda e publicada em A Bola de 12 de Abril de 1980, em que o autor quando o jornal não era o pasquim que hoje é, e em que Lobo Antunes declara a sua loucura benfiquista ao ponto de se sentar nas bancadas de gorro e bandeira.

Li o livro, fiquei um entusiasta-mor de Lobo Antunes e comprei, mal punham pé em escaparate de livraria, os que se seguiram.

Mas à medida que foram sendo publicados ia também crescendo um certo esmorecimento.

Os livros continuavam a ser bem escritos mas tornaram-se pouco entusiasmantes. 
Passei a demorar muito tempo para que terminasse um livro. Desde  Exortação aos Crocodilos que já não os acabo – e o que detesto não conseguir acabar um livro!... – e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, uma oferta natalícia, nem o iniciei.

O novo livro chama-se Comissão das Lágrimas – Lobo Antunes continua encontrar títulos felizes para os seus livros – e anda à volta do período da vida política angolana, Março 1977, que envolveu Nito Alves e Agostinho Neto.

Diz quem já leu o livro, que Lobo Antunes continua a não fazer muita pesquisa histórica apenas se orientando por vozes, vozes que lhe chegam, e com essas vozes conta a história.

Não irei comprar o livro e, como este Natal é um Natal negro, não dou prendas – apenas a netaria está a salvo – e já declarei que também não as quero receber pelo que nem sequer corro o risco de me ser oferecido.

Não é que me orgulhe – nem pouco, nem muito - pela companhia, mas Clara Ferreira Alves deixa cair, na revista Actual do Expresso, palavras que compreendo muito bem:

Alguns livros são ilegíveis, puro contorcionismo e acrobacia palavrosa, discursos e vozes sem rumo nem identificação, narrativa sem estrutura, personagens apenas nomeadas que nunca chegam a formar-se, muito menos a identificar-se fora da cabeça do escritor. Ele sabe do que está a falar, os leitores. O escritor deixa os livros.

Estas palavras fazem-me lembrar o meu pai, quando dizia que, mal do escritore que tem de ir a casa de cada leitor explicar o que escreveu, o que, no fundo, pretendeu dizer.

Dentro desta amargura gostaria de ressalvar que aprecia muito as crónicas do António Lobo Antunes que as leio, com agrado e gosto, em jornais e revistas e depois, mal sejam reunidas em livro, apresso-me a comprá-lo.

As crónicas de António Lobo Antunes falam do quotidiano das gentes. Numa linguagem simples (por vezes não tão simples quanto isso…), clara, bonita e terna.

É pelas suas crónicas que ainda saúdo António Lobo Antunes.

Legenda: pormenores – naquele tempo A Bola era um jornal de tamanho quase gigantesco, e não deu para a minha nabice crónica o reproduzir.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES (1942-2026)


António Lobo Antunes deixou-nos aos 83 anos.

O ACENDER DAS LUZES

Quem ordena estes sonhos

coordena, conduz

os tractores cuidadosos

do ocaso; êmbolos

com frio; quando lavram

o seu frágil fio de fogo

nas árvores, na memória.

 

E mais lentas ainda

as turbinas: turbilhão

que perturba vagarosamente

a ordem interior das coisas

que se deixam sonhar. Com

a polpa dos dedos

colhe-se a demora

para ver melhor. Nenhuma

colagem sublimar;

nem linhas de lume,

chispas, flechas.

 

Adormece talvez

quem ordena; se as lâmpadas

vagueiam e explodem

entre ramagens excessivas;

estes sonhos.


Carlos de Oliveira em Trabalho Poético 2º volume

quarta-feira, 4 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS

 

A Águia

N.º 52, 53, 54 – Abril, Maio e Junho de 1916

Director: Teixeira de Pascoaes

Teófilo Braga, Gomes Leal, Raul Proença, Jaime Cortesão, Marcelino Mesquita, João de Barros, Leonardo Coimbra, Augusto de Castro,  Augusto Gil, Augusto Casimiro, entre outros

Renascença Gráfica, Porto



NOTÍCIAS DO CIRCO

Passos Coelho ex-primeiro ministro e Sérgio Sousa Pinto, ex-deputado, são amigos de longa data e preparam um estudo sobre bloqueios da economia abrangendo reformas estruturais, seja lá o que isso for, a convite da Associação Comercial do Porto e com a colaboração da Faculdade de Economia da Universidade nortenha.

Miguel Relvas diz que Passos é o “navio almirante” da direita, sobre Sousa Pinto nada adiantou.

Que pensará Luís Montenegro – ele pensa!?... – e seus companheiros de governo?

CONVERSANDO


Saiu o último livro do Julian Barnes e é mesmo o último.

Li apenas O Papagaio de Flaubert e gostei. 

Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».

Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de 46, eu nasci em Março de 45.

Deveria ter lido os restantes livros de Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida, que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram. Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros que me querem oferecer.

Neste momento, Barnes, luta contra um cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

A Quetzal, que edita o livro, publicita:

«Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas expressões da vida. E despede-se deles.

Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco».

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Uma despedida elegante de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review

«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal

«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»

Na crítica que Helena Vasconcelos fez para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes

Partida, o romance em que Julian Barnes nos diz adeus.

Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.


Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.

Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.

PARÁBOLA

Que dúvida tinhas que o fogo passaria por ti?

Bastava ficares em silêncio, aguardares a passagem do vento

a crueldade das flores acesas, outras luzes ao sul.

 

O tempo passou, como a carroça dos ciganos a fechar a feira.

Aqui só ficaram as tendas mais pobres e escuras.

Ainda acreditas que o fogo passará por ti?


Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

terça-feira, 3 de março de 2026

TRUMPALHADAS

1.

Sem alguns assassinos como Maduro e Khameney o mundo fica melhor.

Sem o Trump, o Netanyahu, o Putin, e mais alguns espalhados por aí, o mundo ainda ficaria melhor.

Mas… a morte de toda esta gentalha não trás a paz e a democracia.

O actor Robert de Niro disse há dias:

«Trump nunca vai sair. Temos de o obrigar a sair»

Trump classificou-o:

«É um doente e demente!»

2.

A utilização da Base das Lages é um negócio há longos anos nascido,

Nas letras pequeninas do contrato deverá estar o como e o quando os Estados Unidos a poderão utilizar.

Paulo Rangel, ministro dos negócios estrangeiros de Luís Montenegro, gagueja nas explicações.

Quando, por hipótese, os Estados Unidos invadirem a Gronelândia, bater três vezes na madeira, quais serão as explicações que o ilustre ministro dará?

3.

«Israel e EUA atacaram o Irão no intervalo de negociações (que o mediador classificara como positivas), sem provas de que o país constituía um ameaça nuclear (que os bombardeamentos de Junho teriam eliminado de vez) e sem enquadramento legal (um grande contributo para destruir o direito internacional). Badr al Busaid, ministro das Relações Exteriores de Omã, mediador das negociações entre Washington e Teerão, observou que o ataque “não beneficia os interesses dos EUA nem a causa da paz mundial” e instou os norte-americanos a “não se deixarem arrastar mais: esta não é a sua guerra”. Esta é a guerra de Israel.

Israel não tem interesse em negociar a paz com iranianos ou palestinianos e sabota qualquer hipótese de isso acontecer. O que move Benjamin Netanyahu é a destruição do Irão e aliados. O primeiro-ministro israelita e o seu Governo messiânico convivem bem com a permanência da guerra.»

Amilcar Correia no Público

4.

«A morte de Ali Khamenei na primeira vaga de bombardeamentos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel encerra um ciclo de quase quatro décadas de poder absoluto no Irão. Mas abre outro, potencialmente mais perigoso, e mostra que a guerra lançada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, mais do que responder a uma ameaça iminente demonstrável, visou acima de tudo o derrube do regime iraniano.»

 Tiago Luz Pedro

5.

«Donald Trump arrisca-se a envolver os EUA num conflito prolongado, altamente destrutivo e com potenciais danos significativos nos seus meios militares e aliados do Médio Oriente.»
José Pedro Teixeira Fernandes

6.

Zalenski admitiu esta estar preocupado com uma possível escassez de munições para os sistemas de defesa aérea ucranianos, cruciais para neutralizar os ataques russos, caso a guerra no Médio Oriente se prolongue.



Um artigo desta extensão sobre este tema e nem uma palavra sobre o genocídio dos palestinianos. Mais de 75 mil mortos e as cidades de Gaza arrasadas - nem uma palavra. Como se Netanyahu não tivesse a menor participação no que está a acontecer a esta hora no Irão e em todo o Médio Oriente. Sem Netanyahu este ataque não teria metade da eficácia que demonstra. Mas arranjou espaço para mais uma festinha no lombo do Estado Novo. A menos de 2 meses de se completarem 100 anos sobre a instauração da ditadura em Portugal. Não há acasos.

 

 


«Donald Trump arrisca-se a envolver os EUA num conflito prolongado, altamente destrutivo e com potenciais danos significativos nos seus meios militares e aliados do Médio Oriente.»
José Pedro Teixeira Fernandes

O OUTRO LADO DAS CAPAS

O livro está repleto de calão.

Não é que algum desse calão não fosse perceptível,  mas um glossário sempre ajuda a compreender melhor a atmosfera. Foi isso a que se dedicou, para além de tradução, o Mário Henrique-Leiria.

Se bem que as traduções, por aqueles tempos, não fossem bem pagas, mas esperemos que lhe tivesse dado para umas cigarradas e uns bons gins tónicos.



OLHAR AS CAPAS


Rififi

Auguste le Breton

Tradução: Mário-Henrique Leiria

Prefácio: Marcel Sauvage

Capa: Zé Paulo

Colecção Alibi nº 2

Edições 70, Lisboa s/d

Os arredores, Paris, o pesadelo, as ruas, os fantasmas…

Quando a barraca do Sueco ficou à vista, tirou o pé do acelerador e, num último reflexo, arrumou o carro junto ao passeio.

Foi meia hora depois que dois pasmas de giro encontraram o carro. O garoto continuava a dormir. Tony, o tísico, estava caído sobre o volante. Os braços tinham escorregado para o assento. As suas tripas formavam um avental sangrento, sobre as galdinas.

RETRATOS


«E cá voltamos nós ao modo josé. O modo josé, pelos vistos, é a pederneira dos poetas quando vêm para o espelho.

Rememoras e futuras, o mal é esse.

José, na pastelaria da esquina há um pide a fazer horas, e acolá, como veio anunciado na imprensa, à hora xis o burro Canário desce à cidade transportando uma bomba em forma de miosótis, enfiada no cu. Claro, tu já nem pestanejas. Chegas-te ainda mais ao espelho, fechas-te com ele, de ti para ti. Com raiva.

Os censores?, perguntas daí a nada ao espelho. Não dão sinal , os censores?

Não te preocupes. Não te ouvem por enquanto, têm outras vidas.

De resto quem te ouve? Quem dá crédito à tua liberdade? Vamos, fuma, José. Pensa bem esse cigarro. Mede e golpeia a memória, repisa nos teus avisos enquanto o cabelo te embranquece. Olha, é entardecer. E está tão claro.

Aí, nesse espelho, há um não sei quê de pobre diabo no cidadão que te faz frente, aferrado a um orgulho de pataco. Orgulho? Pior para ele, que pouco fez para mudar. Razão? Vigilância? Está bem, deixa-o dizer.

Deve andar nos cinquenta, mais ano, menos ano, e se calhar é por isso que sonda com tamanha inclemência. Cinquenta, meio século de vislumbrada malícia de si mesmo e de nicotina. Cancro apalavrado, ai coitadinho. De quando em quando noto-lhe talvez um perpassar de ironia a traquinar-lhe no rosto, mas se o tem é luz breve e para mais magoada. Não dá sequer para temperar o ar endurecido que há nele e que provém mais do desalinho e do à-balda que doutra coisa. No resto, pouco a acrescentar. Visagem martelada, máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar – e disse. Acta est fabuka, se assim me posso exprimir.

É este o homem que te contempla, José. Que te fuma. Que te duvida.»

José Cardoso Pires em E Agora, José?


DOCE SONHO, SUAVE E SOBERANO

Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,
se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

 

Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 2 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que não nos mata, só fortalece.

Nietzsche

NOTÍCIAS DO CIRCO

Como o outro, ele também anda por aí!

Lido no Público:

«Passos Coelho diz que não anda “à procura de nada em particular”.

Em entrevista ao jornal digital Eco, diz estar bem “com a política, o país” e ainda que não tem “desforras para fazer” nem “necessidade de querer provar ou mostrar o que quer que seja”.


No entanto, à pergunta sobre “o que o motiva, afinal?”, Passos Coelho dá uma resposta que pode estar mais próximas das especulações sobre um eventual regresso que têm dominado a discussão política nos últimos tempos. Diz o ex-primeiro-ministro: “As pessoas, no fundo, acham que eu contraí algumas obrigações que não se esgotaram no meu mandato de Governo. Eu compreendo que seja assim e sinto que seja assim”. Passos Coelho não falou em “vaga de fundo”, mas a ideia das “obrigações que não se esgotaram”, sentidas por outros e por si mesmo, abrem margem para várias interpretações.»

Em suma: «Quando quiser candidatar-me, candidato-me e anuncio»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Não havia televisão.

O meu avô paterno era um leitor compulsivo e lia os autores franceses no original.

Durante um tempo, exercitava as traduções e deixou, em cadernos, a tradução de dois livros de Anatole France: Thais e A Ilha dos Pinguins.

Uma letra muito bem desenhada, a caneta de tinta permanente, ainda não tinha chegado o tempo das esferográficas, e os eventuais enganos eram apagados com borracha de tinta.

O meu avô era um simples caixeiro de praça do J. Português da Silva, estabelecimento na esquina na esquina da Rua dos Fanqueiros e percorria Lisboa de eléctrico a vender os Da Senhora da Hora

O meu avô, Mário de seu nome, que, orgulhosamente, se apresentava como republicano histórico, benfiquista e anticlerical, foi toda a sua vida um simples caixeiro caixeiro-de-praça do J. Português da Silva, na Rua da Betesga, esquina com a rua dos Fanqueiros, percorria as lojas dos bairros lisboetas vendendo, linhas meias. lenços e panos de cozinha da Fábrica da Senhora da Hora.

Ganhava uma miséria e, de segunda a sábado, transportava uma enorme mala com as amostras da fábrica da Senhora da Hora.

Mas o meu avô traduziu:

«Apesar da diversidade de distrações que parecem atrair-me, a minha vida só tem um objectivo. Uma grande tendência para o acabamento de um grande desejo.

Escrevi a historiados Pinguins. Trabalhei nelka assiduamente, sem me deixar desanimar pelas dificuldades frequentes, que algumas vezes me pareceram insuportáveis.»

 

 

OLHAR AS CAPAS


A Ilha dos Pinguins

Anatole France

Tradução: Sampaio Marinho

Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 176

Publicaçõs Europa-América, Lisboa s/d

Mael, oriundo de uma família real da Câmbria, foi mandado aos nove anos para a Abadia de Yern, a fim de de aí estudar as letras sagradas e profanas. Aos catorze anos renunciou à sua herança e fez voto de servir o Senhor. Repartia as suas horas, segundo a regra, entre o canto dos hinos, o estudo da gramática e a meditação das verdades eternas.