domingo, 8 de novembro de 2026

DITOS & REDITOS


Cada um sobrevive como pode.

Vale mais viver com alguém do que viver sozinho.

Calado, és um poeta!

Chegar atrasado não é faltar.

Mas de um botão faz-se um fato.

Fugimos do abraço com medo de uma faca nas costas.

A culpa é um tanto nossa: andar por cá a demorar-se…

Para onde vai o que se perde?

sábado, 7 de novembro de 2026

OLHAR AS CAPAS

Ensaios

Tomo IV

António Sérgio

Guimarães Editores, Lisboa, Fevereiro de 1959

Por sacrificarmos o desgraçado agrícola (só o Mouzinho da Silveira é que pensou nele) e por não corrigirmos o ambiente geográfico como nosso «sacrifício e diligência», não colhemos da terra o que se deveria colher; por não cooperativizarmos os pescadores, não tiramos da pesca o seu máximo proveito máximo; por carência de um bom sistema de educação, por falta de difusão de instrução primária (pois não está o povo, desde que existe, «deixado à disposição da natureza»?) não tiramos partido dos dotes inatos, de numerosas aptidões que a natureza pródiga faz surgir nas ladeias de Portugal. Assim é agora, como já era então. Quase não há cultura, não é só um escol de catividades mentais (filósofos, cientistas, escritores, artistas) que vem falar à comunidade: são os próprios homens de objectivos práticos, desde os piedosos aos capitães.  

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

De que cor são os comboios? Sei que os há de várias, mas, para mim, são sempre pretos. Circulam sobretudo de noite e associo-os a silvos como os das aves nocturnas, elas que também têm os olhos abertos à escuridão.

João Bénard da Costa

DOURO OUTONAL


 Na sua essência, o Outono é feito de doçura e de tristeza. Olha-se e não parece haver nada de derradeiro nas cores quentes que vêm das vinhas, dos soutos e dos carvalhais. Mas, quando o sol se põe e o latir longínquo dos cães e o toque dos sinos das igrejas quebram o silêncio do entardecer, aí, sim, a euforia perante tanta beleza dá lugar a uma desolada melancolia. Os dias de Outono são como as melhoras da morte, porque já sabemos que a paisagem em fogo apenas se está a despedir.

É assim todos os anos, mas já não com a mesma e previsível ordem temporal das coisas. A vindima, por exemplo, começava no Outono e agora arranca no Verão, terminando aos primeiros alvores do Outono. A apanha da azeitona passou a ser outonal, quando antes era de Inverno. Por esta altura, também ainda ninguém comia dióspiros, só pelo Natal, e agora já estão a cair ao chão de tão maduros.

Pedro Garcias no Público

PEQUENOS CADERNOS

Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.  

RISCADO HÁ MUITO

Riscado há muito,

estou longe desse dia de sorte

para principiantes. Gastei

quase todas as vidas,

é esta a última

 

Perdi sempre casacos

vários

no mesmo cabide

e qualquer benefício dos iniciados.

 

Como refrões repito números desfocados

em medalhas de plástico colorido

e velhas lições de autodefesa,

 

impossíveis de aplicar na minha rua,

talvez te sirvam pela manhã.

 

Margarida Ferra em Sorte de Princpiante

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos. 

NOTÍCIAS DO CIRCO

 Cristiano Ronaldo não esperou pelo anúncio de convocatória de Jorge Jesus desta sexta-feira e despediu-se da Seleção Nacional: 23 anos depois da estreia, após 234 jogos, ao fim de 146 golos e três títulos conquistados: o Euro-2016 e duas Ligas das Nações.

Lembrar Bruno Vieira Amaral num ensaio no Público:

«Trágico é travar um combate do qual não se pode sair vencedor e, mesmo assim, insistir em travá-lo, não por galhardia ou coragem, mas por ignorância. E é essa a tragédia de Cristiano Ronaldo.»

HEI-DE ENTRAR NAS CASAS

Hei-de entrar nas casas

também

como o luar

 

A ver as faltas de roupa interior

e de cama

 

os rostos preocupados

com os avisos da luz e da água

 

com a máquina de petróleo apagada

jornais nas paredes

e um pássaro na varanda

a cantar

ao lado de um flor

 

António Reis em Poemas Quotidianos

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

SOLTAS


Alexandra Lucas Coelho, no Público, diz que as Acampadas são a coisa mais bonita desde o 25 de Abril.

«Eu tinha 6 anos no 25 de Abril. Ter 58 agora serve para saber que desde então nada foi tão bonito em Portugal como estas acampadas, organizadas por quem podia ser meu filho.»

Ainda nas acampadas, fazemos uma paragem na crónica de Fernando Alves no Jornal de Notícias, para destacar este pedacinho:

«Na praça, rostos sorridentes dentro de casas de cartão. Há frases de humor ácido: "Ter casa já era". Uma mulher diz: "Sou privilegiada, tenho casa. Partilho-a com um filho de 28 anos e com o banco". Isto, sim, é pedagógico.»

1.

 Ninguém, mas mesmo ninguém, gosta de ver a polícia bater em pessoas.

2.

O Luís não tem mesmo habilidade para ser primeiro-ministro do reino.

Juntou-se à tal coisa, não quer e, aparentemente, não consegue demitir o despenteado mental que aterrou na administração interna.

No final da palração de ontem, os jornalistas fizeram perguntas a que o Luís fez desvios para não responder ao que lhe perguntaram.

Os jornalistas não deviam ter deixado o Luís sair da sala sem responder ao que lhe foi perguntado. 

Calaram-se e o silêncio nem sempre cai bem

3.

Citando Luís Filipe Castro Mendes: «um velho exclama: “Que querem os novos? Têm o futuro à frente e nós não”, a que um outro, mais avisado, responde: “Pois é esse mesmo o problema.”»

4.

O Eugénio de Andrade dizia que não se aprende muito com a idade

5.

Faltam poucos dias para ser Natal e o António Lobo Antunes, martirizava-se:
«desde que cresci o Natal tornou-se uma multidão de gente enervada e com pressa.»

6.

A esperança de vida aos 65 anos praticamente não sofreu alterações no triénio 2023-2025, pelo que os dados provisórios agora divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística vão manter a idade de acesso à reforma para 2027 nos 66 anos e 11 meses.

7.

Habitantes do concelho de Vimioso queixam-se do atraso na entrega da correspondência por parte dos CTT, garantindo que, "por falta de pessoal, deixaram de entregar correio há vários meses" em algumas aldeias e ainda no concelho de Miranda do Douro.

8.

A TAP já custou 3,255 mil milhões de euros ao erário público, está avaliada em cerca de dois mil milhões e será vendida por pouco mais de mil milhões;

9.       

Os 318 trabalhadores da Schmidt Light Metal, uma das empresas de referência de Oliveira de Azeméis ligada ao setor automóvel, vão ficar no desemprego. A administração comunicou o encerramento da unidade até ao final do ano, após uma tentativa de recuperação da empresa pelos novos proprietários ter fracassado.

10.

Portugal é o quarto país da União Europeia no ranking do desperdício alimentar e a maior parte da comida vai para o lixo dentro de casa; Portugal desperdiça 161 kgs de alimentos por habitante anualmente, 24,8% acima dos valores registados na média comunitária;

11.

Segundo o INE quase um terço das pessoas entre os 25 e os 44 anos toma medicação para tratar a ansiedade.


Legenda:fotografia de Filipe Amorim/AFP via Getty Images.

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos. 

MÚSICA PELA MANHÃ

Donald  Trump reconhece os resultados das eleições intercalares, mas rejeita responsabilidade pessoal e garante que o resultado seria outro se o seu nome estivesse no boletim de voto.

Trump promete cooperação com os democratas.

Alguém acredita?

TRUMPALHADAS


Um tsunami desfez-se  sobre a Casa Branca.

Um povo ofendido e desgastado, obrigou Donald Trump, que pensava mais nos novos salões de baile da Casa Branca do que no quotidiano, a reconhecer a derrota, bem como o desvario das suas loucas propostas para a América e o Mundo.

Tempo de lançar o estúpido boné, onde se lia fazer a América grande outra vez, para o chão, e confidenciar a um dos seus muitos assessores-capachos:

«Quando os ventos de mudança sopram, meto-me debaixo da mesa.»

NÃO NOS DEIXAM CANTAR

Não nos deixam cantar, Robeson

meu canário com asas de águia

Meu irmão negro com dentes de pérola

Não nos deixam cantar as nossas canções.

Têm medo, Robeson

medo da aurora, medo de olhar

medo de ouvir, medo de tocar.

Têm medo de amar,

medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.

(Decerto que também vocês, irmãos negros,

têm um Ferhat, como é que tu lhe chamas, Robeson?)

Têm medo da semente e da terra,

medo da água que corre,

medo da lembrança.

A mão de um amigo que não deseja

nem desconto nem comissão nem moratória

igual a um pássaro quente

não apertou nunca a sua mão.

Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!

Têm medo, meu canário com asas de águia,

Têm medo das nossas canções, Robeson…

 

Nazim Hikmet

terça-feira, 3 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

A casa compõe uma por uma as suas sombras, a casa prepara a tarde, frutos e canções se multiplicam, nua e aguda, a doçura da vida.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Legenda: pintura de Diego Rivera

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos. 

FAZE QUE A VIDA SEJA O QUE TE NEGA

Faze que a vida seja o que te nega.

A luta é tua: fá-la.

Agora, os sonhos em farrapos,

melhor é a luta que pensá-la.

 

Ergue com o vigor do teu pulso;

solda-o em aço.

E da tua obra afirma:

- Sou o que faço.

 

João José Cochofel em 46º Aniversário

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Pela noite adiante, com a sorte na algibeira, cada homem procura um rio onde dormir.

Eugénio de Andrade

PEQUENOS CADERNOS


Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos. 

OS VELHOS E OS MORTOS


Velho recorte de um belíssimo texto do Mário Castrim, escrito com a sua letra, lembrando que Castrim, entre tantas outras coisas, foi professor de Caligrafia na Escola Francisco de Arruda.

PARA TODOS A MORTE TEM UM OLHAR


Aos poucos vamos deixando para trás o culto dos mortos.

Por este dia de finados, os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de carros e pessoas como há uns anos atrás.

Os cemitérios já são pouco visitados.

Lembro que a Rua Morais Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás, era um mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.

Aos poucos, vai-se perdendo o culto dos mortos.

A incineração emprestou ao ritual da morte, outros olhares.

José Gomes Ferreira, no dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns

«Hoje, dia de esquecer os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas, crepes, luto, flores para coroar caveiras…»

A minha avó marcava o dia de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.

O  meu avô exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas devemos deixá-los em seu sítio.

Muitos anos depois, hei-de ler em Dóris Graça Dias:

«Apaixonamo-nos pelas pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando deixamos de as ouvir.»

Creio que foi em José Tolentino Mendonça que li a interrogação:

E se pensar na morte fosse a melhor maneira de dar valor à vida?

Escreveu ainda:

À beira do fim há sempre tanta coisa que começa! 

Mas o poeta russo, Vladimir MaiaKovski, expressava:

Não é difícil morrer. Viver é muito mais.

Outro russo, Anton Tchekov:

«Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde estará ela? Qual morte” Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto? – disse ele de súbito em voz alta. Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. “Acabou-se a morte – disse a si mesmo – Já não existe.”
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

Há aquela fala na Grande Paz de Edward Bond:

«Se eu pudesse tirar o ar do corpo dos mortos com o cuidado de quem põe um grão de areia em cima de outro, quando o ar lhes saísse da boca talvez as línguas deles falassem e me dissessem porque razão vivemos e sofremos e porque vivemos nesta terra e somos enterrados nela.»

Legenda: pintura de Jakub Schikaneder.


O título do texto é um verso de Cesare Pavese.

A MEU PAI

                                                                          A Meu Pai

                                                                          No Santo Dia de Finados

Pai! quando às horas do findar do dia,
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…

Pai! Diz-me: sabes que secreto laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo?…

Pai! sou teu filho! – sou teu filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as aguas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?

Pois, como à nave que não tem nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!

Pai! meu sincero, meu finado amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…

Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…

Pai! A Desgraça se enlaçou comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Dize-me o rumo, quero ver se o sigo…

Pai! Tua pobre campa, tão singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

Ao menos, Eva, o nosso encanto, – vê-lá? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!

 

Ângelo de Lima

domingo, 1 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Aquele momento em que alguns dizem que há algo para lá e os que, pura e simplesmente, dizem que não há nada.

Autor desconhecido

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ

Ontem, a polícia voltou a carregar violentamente sobre manifestantes em Lisboa e no Porto.

Diana Andringa talvez lembre que continuam a partir o espelho dos sorrisos de Abril, ou José Gomes Ferreira na sua Intervenção Sonâmbula: «Estamos no fim da Revolução», mesmo Mário-Henrique Leiria:

 «Porque foi isto assim possível? propomos a explicação de que houve, como "originalidade" típica, muito improviso no processo revolucionário, que esqueceu a sua defesa, criando a alastrando a angústia na pequena burguesia, camada significativa na sociedade portuguesa, a que até muitos trabalhadores as piram por força das motivações que o obscurantismo fascista teve longo tempo para semear.

Angústia semelhante à que agora ressurge com o agravamento das condições de vida, a subida arrogante da reacção, a incerteza do futuro que tem que ser construído de novo.
O Povo terá pois que teimar para que respeitem a sua vontade de acabar com a exploração do homem trabalhador pelo homem esperto. Para que as condições de vida sirvam as classes desfavorecidas. Para que acabem as perseguições aos que olham o futuro sem medo da mudança. porque a justiça social deixe de ser uma miragem evangélica no mundo dos mortos. Para quem produz trabalhando, exerça o poder, Para que sejamos verdadeiramente um país Democrático.»


Legenda: Celeste dos Cravos