quinta-feira, 2 de abril de 2026

REOLHARES


Definitivamente, não sei explicar mas, em tempo de Semana Santa, vêm-me sempre, mas sempre, à memória duas ou três coisas:

A parede do antigo Cinema Lys, a que estava voltada para a Avenida Almirante Reis, com os grandes cartazes de A Túnica de Henry Koster com o Richard Burton, a Jean Simmons, o Victor Mature.

A Emissora Nacional a interromper o silêncio radiofónico para transmitir os jogos de Hóquei em Patins do Torneio de Montreux.

 O Carlos Alberto que aparecia de gravata preta.

 Os putos da rua que éramos, perguntavam sempre do porquê, e a resposta também a sabíamos:

- Cristo morreu!

A minha avó apenas respeitava a quinta e a sexta-feira santas  e nesses dias não havia carne para ninguém.

Curiosamente, também não abundava nos outros dias.

Porque o pequeno mundo caseiro vivia do rol fiado do merceeiro, Francisco de seu nome, estabelecimento na esquina da Castelo Branco Saraiva com a Vila Gadanho. 

À LUPA

Leio espantado, completamente espantado:

 «A União Europeia condenou inequivocamente os ataques indiscriminados do Irão. Desde 28 de Fevereiro de 2026, e tem estado em contacto constante com dirigentes de todo o Médio Oriente e da Europa, solidarizando-se com os países atacados pelo Irão e apoiando as aspirações democráticas do povo iraniano.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, bem como a alta representante/vice-presidente, Kaja Kallas, reafirmaram o empenho da União Europeia na estabilidade regional, instando a

 

desescalada imediata e retenção máxima

protecção da população civil e das infra-estruturas civis

pleno respeito pela Carta das Nações Unidas

 

A posição da União Europeia E foi reiterada nas conclusões do Conselho Europeu de 19 de março de 2026, em que todos os 27 dirigentes condenaram os ataques do Irão, exigiram um cessar-fogo imediato e apelaram a uma moratória aos ataques às infraestruturas energéticas e hídricas.»

OLHAR AS CAPAS


As Minas de Salomão

Rider Haggard

Tradução: Eça de Queiroz

Capa: Lima de Freitas

Ilustrações: Will Nikeless e Peter Branfield

Edição Livros do Brasil, Lisboa s/d

Agora que este livro está impresso, e em vésperas de correr o mundo largo, começa a pesar fortemente sobre mim a desconfiança de que, para ele ser aceitável, muito lhe falta como estilo e como história. Enquanto à história, realmente, não pretendi nem tentei meter nestas páginas tudo o que fizemos e tudo o que vimos na nossa viagem à terra dos Cacuanas. Há, todavia, nesse estranho povo, coisas que mereciam exame detalhado e lento: a sua fauna, a sua flora, os seus costumes, o seu dialeto (tão aparentado com a língua dos Zulus), o magnífico sistema da sua organização militar, a sua arte subtil em trabalhar os metais... Que interessante estudo se faria, além disso, com as lendas que ouvi e colecionei acerca das armaduras de malha que nos salvaram na batalha de Lu! Que curiosa, também, a tradição que entre eles se tem perpetuado sobre os «Silenciosos», os dois colossos que jazem à entrada das cavernas de Salomão! No entanto pareceu-me (e assim pensaram o barão Curtis e o capitão John) que seria mais eficaz contar a história a direito, e secamente, deixando todas estas particularidades sobre a região e sobre os homens para serem tratadas mais tarde, num tomo especial, com minudência e largueza.

Resta-me, pois, implorar a benevolência para a minha tosca maneira de escrever. Estou mais habituado a manejar a carabina do que a pena e sempre me foi alheia a fina arte dos arrebiques e floreios literários. Talvez os livros necessitem esses floreios e ornatos: não sei nem possuo autoridade para o decidir; mas, na minha bárbara ideia, as coisas sim decidir; mas, na minha bárbara ideia, as coisas simples são as mais impressionadoras e mais facilmente se deve acreditar e estimar o livro que venha escrito com séria e honesta singeleza. «Lança aguda não precisa brilho», diz um provérbio dos Cacuanas; e, movido por este conselho da sabedoria negra, arrisco-me a apresentar a minha história, nua, lisa, nas suas linhas verdadeiras, sem lhe pendurar por cima, para a tornar mais vistosa, os dourados galões da eloquência.

                                                            

                                                                         ALÃO QUARTELMAR

CULTIVO DOMÉSTICO

O cheiro da menta

no canteiro improvisado

entrou depressa demais

nos meus pulmões.

O ar tornou-se um silêncio incómodo

- pouco e frio. Essas palavras,

que íamos agora ouvir, a apagarem-se

diante dos meus olhos. E a acenderem-se

logo depois, debaixo das tuas pálpebras.

Os néons substituíram toda a mobília

Do quarto: já não a vejo.

 

Descobrimos a seguir os vapores

que se levantaram das minhas

mãos, até das chávenas vazias.

E calámo-nos.

Quase nada do que foi plantado

resistiu ao domínio da hortelã.

Os outros versos nunca chegaram a existir.

 

Margarida Ferra em Curso Intensivo de Jardinagem

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Uma parte dos livros da Biblioteca da Casa foi comprada em alfarrabistas, feiras, sejam do livro ou de ocasião.

Duas vezes por mês o meu pai reservava as tardes de sábado para uma visita ao Fausto, alfarrabista com porta aberta, a meio da Rua Angelina Vidal, lado esquerdo de quem desce.

Mais ou menos os alfarrabistas sabiam o que vendiam, e os preços estavam de acordo com esse saber. Hoje pedem exorbitâncias por qualquer livro e que eles compraram por tuta e meia e, na maior parte das vezes, nem sabem de que tratam os livros, quem são os autores.

Hoje, no que foi a excelente Pastelaria Suprema, na Avenida de Roma, encontra-se a Re-Read, uma cadeia de livros espanhola que tem por slogan: "Livros quase novos a preços quase impossíveis".

Compram livros por um preço pífio e depois colocam, alguns, a preços bastamente acessíveis.

Passo por lá volta e meia e trago sempre um ou mais livros.

Foi o caso deste livro do Lauro António que me ficou por 4 euros e que se encontrava em falta nas as muito boas colecções das Publicações Dom Quixote que fui adquirindo quando saíam e custavam  35 escudos, ao cambio de hoje seria 1 euro e 75 cêntimos.

O que acima se vê, é o recibo do então comprador-assinante, a 15 de Fevereiro de 1970 do livro do Lauro António e, curiosamente no topo pode ler-se:

Publicações Dom Quixote- Sociedade Editora Abecassis, Lda.

Trata-se de Snu Abecassis que a Wikipédia diz quem foi:

«Ebba Merete Seidenfaden, mais conhecida como Snu Abecassis, foi uma editora dinamarquesa. Fundou as Publicações Dom Quixote, editora que se notabilizou por publicar livros considerados de esquerda, com ideias contrárias à ditadura do Estado Novo.»

Mais:

« Filha de um casal de jornalistas dinamarqueses, Erik Seidenfaden e Jytte Kaastrup-Olsen, desde pequena foi chamada de Snu, que quer dizer "esperta" na língua dinamarquesa.

Em 1961, casou-se com o português Alberto Vasco Abecassis. Mudou-se para Portugal passado um ano e aí nasceram os três filhos do casal: Mikaela Linea, Ricardo Fortunato e Rebecca Sofia. Em 1965, sob sua direção, foi fundada a editora Publicações Dom Quixote, em Lisboa.

Já em época pós-revolucionária, Ebba começou a relacionar-se com o também casado Francisco Sá Carneiro. Conseguiu divorciar-se de Abecassis, mas Sá Carneiro não conseguiu obter o divórcio. Apesar disso, começaram a viver juntos e também juntos vieram a morrer no dia 4 de dezembro de 1980, no acidente de Camarate, que para além de Snu e Sá Carneiro, vitimou Adelino Amaro da Costa. Isto quando os três se dirigiam para o encerramento da campanha presidencial de António Soares Carneiro. Snu contava então 40 anos de idade.»

Foi realmente uma excelente editora que, mercê de certas ligações ,se movimentava bem entre a clique da ditadura,  conseguindo coisas de esquerda que eram rigorosamente proibidas a outros editores.

Cada volume da Dom Quixote trazia estes postais de encomenda que outras editoras como a Seara Nova, a Portugália, as Publicações Europa-América também praticavam. 


OLHAR AS CAPAS


O Cinema Entre Nós

Lauro António

Colecção Cadernos de Cinema nº 8

Capa: Fernando Felgueiras

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1970

Rompendo o silêncio comprometido que a envolveu nos últimos anos, a Cinemateca Nacional iniciou em 21 de Março de 1968, um ciclo de exibições semanais subordinado ao título Os Filmes da Cinemateca, durante o qual projectou (sem qualquer critério que não fosse o enunciado no próprio título, ou seja: filmes que a Cinemateca guarda postos à disposição de todo o público galardoado com a sorte de um convite) algumas obras importantes na história da cinematografia mundial.

TODOS OS MEUS AMIGOS VIAJAM SEMPRE EM 1.ª CLASSE...

Todos os meus amigos viajam sempre em 1.ª classe…

Pelo menos levam a cabeça em 1.ª classe.

 

Do Universo, vêm ter comigo

E me dizem:

“O senhor não pode ir aqui,

“O seu lugar não é aqui,

“O senhor tem que ir para a 3.ª classe do seu corpo

“ o senhor tem que viajar onde os seus olhos dizem

Sim, porque esta é que é a verdade;

Os meus olhos dizem sempre:

3.ª classe, 3.ª classe. 3.ª classe…

 

Um dia tive uma rapariga

Pareceu-me que ela era como eu,

Que viajava em 3.ª classe.

Gostava dela porque era macia

E boa para tudo quanto vivia.

Gostava dela porque acendeu duas luzes

Na minha 3.ª classe sempre tão escura,

Sempre tão 3.ª classe.

E ela viajou comigo muitas horas

Brilhantes de 1.ª classe.

Mas não.

Não… de facto ela viajava comigo

Porque não tinha mais ninguém.

 

Mário-Henrique Leiria de Poesia Édita, Inédita e Dispersa em Poesia

terça-feira, 31 de março de 2026

SOLTAS


 António Bagão Félix é um apaixonado pela natureza, pelo seu Benfica, foi ministro e secretário em alguns governos de direita, é profundamente católico, aparenta um interessante sentido de humor.

Contudo, não me perguntem como apareceu por aqui esta ampulheta de palavras, apenas a reproduzo porque, nestes dias da loucura-trágica-da-guerras, achei piada.

1.

A Igreja Católica vai pagar, ao redor do mundo, muitos e milhões de euros às vítimas de abuso sexual perpetradas pelos seus padres.  

A Conferência Episcopal Portuguesa deu por concluído o processo de atribuição de compensações financeiras às vítimas de abusos sexuais no âmbito da Igreja Católica em Portugal com a atribuição de entre nove mil e 45 mil euros a pelo menos 66 dos 78 pedidos elegíveis apresentados. Há 57 pedidos já totalmente finalizados e nove em fase de análise para definição do montante, além de um outro a aguardar decisão da Santa Sé. Os montantes já definidos são superiores a 1,6 milhões de euros. A associação que representa as vítimas diz que valores são “uma afronta”.

A face negra da igreja pelo mundo.

2.

Morreu Noelia Castillo, a espanhola de 25 anos tinha pedido morte medicamente assistida, depois de ter ficado paraplégica na sequência de uma tentativa de suicídio, e o pedido foi aceite em 2024, mas o processo arrastava-se devido a uma batalha legal com o pai. A eutanásia é legal em Espanha e foi o quarto país da União Europeia a legalizar a morte assistida.

Defender a morte assistida de quem já não pode viver bem não é defender a morte: é defender a vida. 

3.

Lisboa está um caos!

Carlos Moedas é um péssimo presidente de Câmara, mas acaba de contratar um “chef” para ter “refeições com serviço de qualidade superior” em eventos organizados pela Câmara e tem uma despesa de 33.600 euros + IVA e é válido por 2 anos.

Se soubessem disto, que diriam os sem-abrigo da cidade?

4.

Lifeboat, em português chamou-se Um Barco e Nove Destinos,  é um filme dirigido, em 1944, por Alfred Hitchcock e baseado numa história de John Steinbek. O realizador explicou que era um filme de guerra mas em que quis mostrar que havia duas forças no mundo: as democracias e o nazismo.

5.

Lemos e ouvimos que o estado de Israel é uma democracia.

Tomámos, agora, conhecimento, com profunda preocupação, do impedimento imposto pelas autoridades israelitas ao Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, de celebrar a missa de Domingo de Ramos no Santo Sepulcro, situação sem precedentes em séculos recentes.

A mesma democracia israelita  aprovou, também agora,  uma lei que torna a pena de morte a sentença padrão para palestinianos condenados por tribunais militares por ataques letais, concretizando assim uma das principais promessas dos aliados de extrema-direita do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, como Itamar Ben-Gvir, que ocupa actualmente o cargo de ministro da Segurança Interna de Israel. há muito defende a pena de morte.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

Intitula-se  «Saramago e a escola que desiste de pensar», o artigo que Daniel dos Reis Nunes publica, hoje, no Público.


«Como professor, inquieta-me a velocidade e a intensidade com que tantas mudanças estão hoje a ser impostas à escola. A escola pública, em particular, vai-se transformando quase sem ruído, mas nem por isso de forma menos profunda. E é precisamente por isso que recuso a ideia de uma escola que, aos poucos, vá desistindo daquilo que lhe dá vida no essencial: a exigência, o debate e a construção do pensamento.»

OLHAR AS CAPAS


Na Jogada

William Riordan

Tradução: M. Ferreira

Capa: João Botelho

Colecção: Série Negra nº 1

A Regra do Jogo, Lisboa, 1979

- Pois é, Joe. Claro. Bom, sou eu que o tenho. Mal te reformes e depois de contares toda a história à comissão criminal e não te esqueças de que estão proibidos por lei de perseguir quem quer que seja incluindo tu próprio, pode rematá-la dizendo que eu o conservo em gelo no porão do iate. Ele sempre foi um grande viajante, não é?

Bem, meus senhores, é tudo. Nada mais tenho a dizer. 

MENINO

Em mim

a infância permanece,

tal num jardim

o canteiro se aquece

de rosas e alecrim.

 

De encontro ao velho muro

que ruir de ilusões!

 

E eu continuo

a ter medo do escuro

e a sonhar com ladroes!

 

Saul Dias

segunda-feira, 30 de março de 2026

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


«José Saramago pode deixar de ser um autor de leitura obrigatória no 12.º ano, podendo os professores escolher em alternativa uma obra de Mário de Carvalho. Esta é uma das alterações previstas na proposta de revisão das aprendizagens essenciais de Português, um documento do Ministério da Educação, que está em consulta pública até dia 28. Alunos do secundário devem ler 60 minutos por dia, ser capazes de interpretar, recriar e debater os textos que lêem e serão avaliados também pela postura e dicção nas apresentações orais.»

Inês Schreck no Público, 30 de Março

A posição da Fundação José Saramago:

«E agora quero também agradecer aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de agora: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar.»

Com esta frase terminava José Saramago o seu discurso  de agradecimento do Prémio Nobel, a 10 de dezembro de 1998. A Fundação José Saramago considera conveniente recordá-la diante das notícias ontem tornadas públicas, relativas a uma possível alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano, que se encontra em consulta pública até ao dia 28 de abril.

A posição da Fundação José Saramago será sempre a de agregar, de não excluir, não colocar em comparação ou oposição. Daí que deixemos à Comissão responsável por esta alteração na lista de livros de leitura obrigatória para o 12.º ano a sugestão de trocar a palavra “ou” pela palavra “e”, juntando a José Saramago o escritor Mário de Carvalho, merecedor de toda a admiração e abrindo assim a porta a que outras e outros escritores participem também na formação das novas gerações de leitores.

De qualquer forma, não podemos deixar de colocar duas questões:
— Qual o critério para esta alteração?
— Se esta alteração também abrangerá outros autores que integram o cânone da Literatura Portuguesa, colocando-os como de leitura sugerida e não obrigatória?

 

Lisboa, 30 de março de 2026

DO PECADO ORIGINAL

 “Lideramos a luta contra o wokismo. O CDS é o original"

Paulo Núncio, in Expresso, 19/03/2026


Se eu pudesse recrutar os bons ofícios deste destemido deputado, recrutá-lo-ia um dia para pôr ordem no meu jardim porque nele abundam as plantas hermafroditas. Aquele pequeno território não é governado pelas leis do binarismo e já várias vezes fiz esta pergunta: o que se passou no Jardim do Éden, que outros pecados nele foram cometidos para além daqueles em que caíram Adão e Eva? Terá o Jardim do Éden sido afinal a estação originária para orgulhosas manifestações do wokismo das plantas? Estamos aqui perante uma questão ideológica ou teológica? Se o CDS “é o original”, talvez o original deputado saiba muita coisa desconhecida sobre o pecado original.

António Guerreiro no Público de 27 de Março

OLHAR AS CAPAS


A Filha do Arcediago

Camilo Castelo Branco

Colecção: Livros de Bolso Europa-América nº 144

Publicações Europa-América, Lisboa, Janeiro de 1977

Leitores! Se há verdade sobre a Terra, é o romance, que eu tenho a honra de oferecer ás vossas horas de desenfado.

Se sois como eu, em cousas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vós, ou Deus me livre a mim) gostareis de povoar a imaginação de cenas, que se viram, que se realizaram, e deixaram de si vestígios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracteriza todas as cousas deste globo, onde somos inquilinos por mercê de Deus, é de per si um infalível sintoma de que o meu romance é o único verdadeiro.

Eu sou um homem, que sabe tudo e muitas outras cousas. Não espreito a vida do meu próximo, nem ando pelos salões atrás duma ideia, que possa estender-se por um volume de trezentas páginas, que, depois, vil espião, venho vender-vos por 480 reis. Isso, nunca.

À LUPA

O presidenta da República convidou o escritor Francisco José Viegas para integrar a Casa Civil. Viegas, também jornalista e editor, foi, durante um ano, secretário de Estado da Cultura no Governo de Passos Coelho.

Como é sempre tarde quando se chora, entendeu que se ter metido a secretário de estado da cultura de um governo de Pedro Passos Coelhos foi uma péssima ideia.

Alguém que se diz de inteligência acima da média, evita cascas de banana nos passeios para não ter que invocar problemas de tensão arterial para evitar saídas pela direita baixa

Diz gostar de livros mas só os dos seus amigos e dos interesses livreiros dos mesmos de sempre.

António José Seguro escolheu pessimamente, ou foi mal aconselhado…

ROMANCE DE NÓS

Estou à beira do mar,
estou à beira de ti.
Ardem no meu olhar
os sonhos que não vi.
Tudo em nós foi naufrágio,
não quisemos saber:
fizemos nosso adágio
do que não pôde ser.
Que resta do amor
a quem é como nós?
Envergonha-me pôr
em verso: «somos sós;
sós como amanhecer
às avessas do mundo;
sós como podem ser
as areias no fundo;
somos sós e sabê-lo
é negar o pronome
que de nós fez novelo
e por nós se consome.

Luis Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

domingo, 29 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou.

Vergílio Ferreira 

À LUPA


 Ateu que é, agradou-se com o Papa Francisco e admitiu que a bispalhada iria encontrar alguém com o sentir, com aquela luz, aquele sorriso de Francisco.

Mas não, não, não!

Arranjaram um carrancudo norte-americano, um papa à antiga, que vota no partido republicano e provavelmente amigo de Trump.

E Leão XIV, na sua primeira viagem à Europa, decidiu-se pelo principado do Mónaco, onde permaneceu nove horas.

Que faz um papa entre milionários jogadores de casinos, meretrizes, príncipes. sabe lá mais o quê?

Foi pedir esmolas para o Vaticano?

Foi pedir que ajudassem os pobres povos do mundo?

MÚSICA PELA MANHÃ

Antes de chegarmos a outros lugares, as músicas que o rádio nos trazia eram portuguesas, francesas, espanholas, italianas, brasileiras.

Aos domingos, com música pela manhã, iremos bater as essas portas.

Alguns perguntarão:

-Mas como é que estes gajos podiam ouvir estas músicas?

Ouvíamos e, que se saiba, ninguém morreu por as ouvir.

Legenda: pintura de Renoir





SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Segundo o Expresso, José Saramago pode deixar de ser obrigatório no 12.º ano; Camilo Castelo Branco passa a leitura obrigatória.

A proposta de revisão das Aprendizagens Essenciais de Português, atualmente em consulta pública pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação, retira a obrigatoriedade de obras de José Saramago no ensino secundário.

Na prática, as escolas deixam de estar obrigadas a escolher uma obra do escritor no 12.º ano, passando a poder optar por outros autores. Atualmente, o programa prevê a leitura integral de “Memorial do Convento” ou de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A proposta prevê ainda que Camilo Castelo Branco passe a leitura obrigatória neste nível de ensino e abre a possibilidade de escolha de obras como “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde”, de Mário de Carvalho.

Segundo responsáveis da área, a revisão procura aumentar a diversidade de autores e temas trabalhados nas escolas, permitindo maior flexibilidade na escolha das obras.

A alteração, que retira da obrigatoriedade o único Nobel português da Literatura, poderá suscitar debate no meio académico e cultural.

O documento está em consulta pública até 28 de abril e poderá ser ajustado antes de entrar em vigor no próximo ano letivo.

Entretanto, o Rui Ornelas enviou-nos um texto, da autoria de Daniel Bento, publicado na NetLetter, e que passamos a apresentar:

«A vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas”. Quando se lembraram da famosa citação de José Saramago em “Memorial do Convento”, Rui Taveira, José Taveira e Sofia Oliveira não tiveram dúvidas: tinham encontrado a frase que inspiraria o projeto que tinham em mãos.

“Todas as nossas ideias começam com uma frase, geralmente de um autor que gostamos. Tentamos fazer uma ligação da arquitetura com o mundo das artes. Pode ser a literatura, o cinema ou qualquer outra área”, explicam à NiT, acrescentando que olham para o seu trabalho como “poesia materializada”.

Fiel a esta visão, o trio desenhou uma casa inovadora na ilha de Yakushima, no Japão, local classificado como Património Mundial da UNESCO. Batizada “Life could just be” — como no início das palavras de Saramago — o projeto foi criado para o prestigiado concurso internacional NOT A HOTEL Design Competition 2026.

O resultado final tornou Rui, José e Sofia parte dos 10 finalistas da segunda edição da competição, tendo-se destacado entre as mais de mil submissões de 113 países. 

Os três arquitetos decidiram participar um mês antes do fim das submissões. “Uma equipa espanhola entrou em contacto connosco para entrarmos juntos. Ainda não estávamos a par, mas respondi logo a dizer que também estávamos a concorrer”, recorda Rui, que se apressou a ligar ao irmão e à amiga para os desafiar.

Nenhum hesitou. Até porque, ao contrário dos concursos em que já tinham participado, em Portugal, “havia muito menos limitações”. A única exigência era que todos os profissionais tivessem menos de 40 anos e desenhassem um T3, com suites e piscina, em Yakushima. “A nível de criatividade, estávamos soltos.”

Os três têm valências em áreas complementares. Rui trabalha no atelier de arquitetura Frederico Valssassina, enquanto o irmão, José faz parte do estúdio de imagens em 3D uto.vz. Conheceram Sofia durante a faculdade, criativa que agora trabalha a solo. “Somos super próximos e, sempre que há uma competição, queremos participar”, confessa.

O primeiro passo foi estudar o “ambiente super específico” da região, um local tropical e com muita chuva. Através de videos e imagens, perceberam que naquele terreno, onde não havia grande envolvente, poderia haver problemas como a humidade ou a densidade da vegetação.

A solução foi a escolha de materiais que pudessem envelhecer bem e não “propostas artificiais”. Optaram por opções como o betão para que, ao longo do tempo, o musgo que pode aparecer no exterior ou manchas mais escuras “não fossem vistas como algo a evitar, mas como a casa a pertencer cada vez mais à ilha.”

Vista de fora, a habitação foi pensada como um volume mais pesado, quase como uma pedra que pertence aquele solo. “Tentámos encontrar um bom equilíbrio entre aquilo que a [plataforma japonesa de casas de férias de luxo com design de autor] Not a Hotel gosta e o que a localização pedia”, explica Rui.

Juntaram ainda uma pala na parte da frente, “como uma folha suspensa” que esconde o resto da moradia. É um “momento mais leve” que recebe a pessoa e que lhe permite “absorver o máximo possível da ilha” com relativa proteção: não estamos fechados, vemos a chuva e sentimos o vento, mas ao mesmo tempo é um espaço coberto.

Todos os detalhes foram pensados para fazer uma casa luxuosa, mas não de forma convencional. Rui, José e Sofia interpretaram o conceito do “luxo do tempo” à sua maneira, respondendo a uma questão que se colocaram uns aos outros várias vezes: o que é uma casa de férias que seja uma pausa neste ritmo frenético?

Acabaram por perceber, explicam, que “a ilha, por si só, já tinha todo o valor necessário” e que a abordagem nunca seria competir com a beleza do local. “Decidimos fazer um projeto que passasse despercebido, quase invisível. Algo que fosse aceite e que permitisse conhecer a ilha por dentro.”

Quanto à possibilidade de ver a casa construída, começam por defender que, mais do que “aos problemas do mundo real”, é a parte criativa da arquitetura que os três mais gostam de explorar. “Damos muita importância a esta parte teórica. As formas representam essa ambição criativa e poética.”

Não escondem, por isso, a felicidade de terem sido reconhecidos por um júri que incluiu nomes como Bjarke Ingels ou Sou Fujimoto. “Tentámos manter uma postura confiante, mas sabíamos que podia não dar certo. A oportunidade de fazer esta viagem, conhecer estes arquitetos é o prémio mais incrível.”

A verdade é que já se imaginam sentados num terreno em Yakushima, a segurar um malmequer, mas sem lhe arrancar as pétalas. “Por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância que descobri-las não valeria a vida de uma flor”, como termina a citação de Saramago.»

sábado, 28 de março de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

 


Cuba vive momentos muito difíceis.

Quando Fidel de Castro e seus companheiros meteram pés e mãos à empreitada, Cuba deixava de ser o quintal, o casino, a casa de putas dos Estados Unidos e um punhado de homens devolvia a dignidade a todo um povo.

 

O jornalista António Rodrigues escreveu, no Público, sobre os tempos difíceis que o Trump-das-guerras irá impor a Cuba:

 

«Perante a possibilidade de os Estados Unidos invadirem Cuba para derrubar o Governo de Miguel Díaz-Canel, depois de terem estrangulado o acesso de petróleo à ilha, deixando o país parado e às escuras, o cantor e compositor Silvio Rodríguez, nome maior da trova cubana, pediu uma espingarda para, aos 79 anos, também ele defender o seu país do ogre do Norte.

Por agora, recebeu do executivo cubano uma arma simbólica, de imitação, acompanhada de um papel que, em caso de agressão armada dos EUA a Cuba, poderá trocar em qualquer unidade militar por uma de verdade. Uma invasão que ele “vê como possível”, em entrevista ao diário espanhol El País.

Com “a grandíssima história de intervenções dos EUA, sabotagens, invasões”, não seria de admirar que Donald Trump e Marco Rubio anseiem por derrubar uma revolução que tanta água lhes tem dado pela barba desde que fez cair o deboche cubano-mafioso-norte-americano da ditadura de Fulgencio Batista. Rubio nasceu em Cuba de uma família que fugiu para a Florida ainda no tempo de Batista, mas que finge ter saído só quando Fidel Castro chegou ao poder.

Na terça-feira, a congressista norte-americana Nydia Velázquez, de origem porto-riquenha, uma política veterana que há 33 anos representa Nova Iorque na Câmara dos Representantes, apresentou uma resolução para impedir que os EUA invadam Cuba. “Enquanto ameaça ‘tomar’ Cuba, o seu bloqueio petrolífero está a piorar uma crise humanitária e a castigar o povo cubano”, escreveu no X.

“Li que em Miami houve uma manifestação de cubanos pedindo para derrubarem o Governo pela força, ou seja, praticamente pedindo uma invasão. Nem vou dizer o que penso daqueles que bombardeiem o seu país e o invadam”, disse Silvio Rodriguez. Desiludido também com os líderes da América Latina que se juntam a Washington no esforço para fazer cair Cuba: “É amargo que se tenha lutado tanto por uma unidade latino-americana e que, de repente, haja países que se vendam.”»


POEMAS AUTOGRAFADOS


 A Portugália entregou a Mário Dionísio a tarefa de escrever o prefácio para o 7º volume da Colecção Poetas de Hoje, que é Poemas Completos do Manuel da Fonseca.

Mário Dionísio foi o melhor, o mais puro historiador do neo-realismo português, tão vilmente depreciado por críticos e autores.

«Não sei compreender um poeta e a sua obra, desligando-o e desligando-a da realidade em que nasceu, de que nasceu, que ele veio, a seu modo, enriquecer e, enriquecendo, transformar.»

Alentejano, um extraordinário contador de histórias, Manuel da Fonseca escreveu poemas de uma simplicidade cativante - «Ser espontâneo dá-me muito trabalho.»

Assim como «Domingo que vem eu vou fazer as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida.» parece tão fácil, tão fácil como aquele endeusar dos tangidos bandolins, fitas violas gritos da heroica marcha Almadanim tocada pela Tuna do Zé Jacinto.

E um homem nunca é uma ilha isolada, um homem só não pode nada e «dá-me raiva ouvir seja quem for lamentar-se. Eu nunca me lamento».

Aldeia é o poema que Manuel da Fonseca deixou para seu autógrafo. E sempre o largo, que «antigamente era o centros do mundo».

   

Aldeia   

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

sexta-feira, 27 de março de 2026

DAS CITAÇÕES


 Sempre entendi que quando há quem diga as coisas melhor do que possa dizer, não hesito em fazer citações.

«"Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria! Do humor visionário
Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.

Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre jeito. De pois há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizado.»

Ana Cristina Leonardo, Público 20 de Fevereiro

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi

Legenda: Ilustração de Willard Metcaff

POEMA DA NOITE PLÁCIDA

A multidão em fúria

passeia placidamente nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

enquanto os homens que orientam placidamente

a multidão em fúria

que placidamente passeia nas ruas da cidade.,

procuram furiosamente

as soluções plácidas

que orientarão a multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

e os sábios buscam furiosamente

as fórmulas plácidas

que, placidamente,

resolverão as dificuldades da multidão em fúria

que passeia nas ruas da cidade

de mente plácida

plácida mente,

e todos, todos em suma,

placidamente,

procuram furiosamente,

de todas as formas plácidas,

atender às inquietações e aos anseios plácidos

da multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

e placidamente se assenta nos plácidos bancos das

                                                                    avenidas,

bebendo o ar plácido da noite,

e esperando, placidamente,

as soluções plácidas

para os seus anseios e inquietações furiosas.


António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

quinta-feira, 26 de março de 2026

OLHR AS CAPAS


O Adeus à Brisa

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: ilustração de Manuela Pinheiro

Colecção Contemporânea nº 6

Publicações Europa-América, Lisboa, Outubro de 1998

Doem-lhe as pernas de tanto andar. Mais ainda lhe dói o peito, opresso, de tanta humilhação que tem enxugado, tanta indiferença a repeli-lo. Lá do cimo da Ajuda, onde mora ainda com os pais (sem isso como sobreviver?) vira logo de manhã o cavalo cor-de-rosa da alvorada empinar-se sobre o Tejo, esparzindo com os cascos as suas chamas subtis. Podia ser bom sinal. Mas não. Os dias bonitos até são às vezes os mais cruéis.