sexta-feira, 11 de setembro de 2026

RETRATOS


Nas suas almas abertas

traziam o sol da esperança

e nas duas mãos desertas

uma pátria ainda criança.


Gritavam Neruda   Allende

deram vivas ao Partido

que é a chama que se acende

no povo jamais vencido

- o povo nunca se rende

Mesmo quando morre unido.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Nas suas almas abertas

traziam o sol da esperança

e nas duas mãos desertas

uma pátria ainda criança.

 

Gritavam Neruda Allende

davam vivas ao Partido

que é a chama que se acende

no povo jamais vencido.

- o povo nunca se rende

mesmo quando morre unido.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Alguns traziam no rosto

um rictus de fogo e dor

fogo vivo fogo posto

pelas mãos do opressor.

Outros traziam os olhos

rasos de silêncio e água

maré-viva de quem passa

uma vida à beira-mágoa.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que tombaram pelo Chile

morrendo de corpo inteiro.

 

Mas não termina em si próprio

quem morre de pé. Vencido

é aquele que tentar

separar o povo unido.

Por isso os que ontem caíram

levantam de novo a voz.

Mortos são os que traíram

e vivos ficamos nós.

 

Foram não sei quantos mil

operários trabalhadores

mulheres ardinas pedreiros

jovens poetas cantores

camponeses e mineiros

foram não sei quantos mil

que nasceram para o Chile

morrendo de corpo inteiro.

José Carlos Ary dos Santos, poema Homenagem ao Povo do Chile  de O Sangue das Palavras em Vinte Anos de Poesia

SETEMBROS 11


«Os EUA no mundo 25 anos depois do 11 de Setembro
Dedicamos hoje uma parte importante da nossa primeira página, que é sempre uma espécie de cápsula do tempo para efeitos de memória futura, aos 25 anos passados sobre os ataques às Torres Gémeas, ao edifício do Pentágono e ao voo United 93. A 11 de Setembro de 2001 morreram 2977 pessoas, incluindo 19 terroristas, e não se sabe quantas mais foram vítimas indirectas da tragédia desde então.

Na sequência do 11 de Setembro, os Estados Unidos fecharam-se ao mundo e instalou-se uma lógica securitária motivada pelo medo, pela necessidade de proteger as fronteiras e pela luta contra o terrorismo. Foi aprovada a
​Patriot Act, nasceu o Department of Homeland Security e o (agora famoso) ICE Immigration and Customs Enforcement, o controlo de vistos foi reforçado (sobretudo para cidadãos oriundos de países muçulmanos) e teve início uma “caça ao homem” que só terminou quando Osama Bin Laden foi morto, em Trípoli.»

Sónia Sanage no Editorial do Público de hoje.

 

Caramba! Já passaram 25 anos sobre o ataque aos Estados Unidos.

Também houve um outro 11 de Setembro, ano de 1973, no Chile, que tentava seguir a política de Salvador Allende, e aí os Estados Unidos estiveram como mentores e actuantes do tenebroso Pinochet. 

RECADO PARA A AMIGA DISTANTE


Dorme Menino dorme
teu sonho quieto lúdico
enquanto longe estoura
a bomba no atol

Que outra coisa Menino
poderemos fazer
ante o inominado
desconhecido crime
que de entre as chamas nasce
no silêncio da noite?

Que palavra inventada
que rubro gládio pode
definir o temor
do começo do mundo?

Que estranho abjeto ritmo
em cogumelo alastra
sobre o teu sono puro
Menino sobre a esperança?

(Um tigre humano vem
a cada esquina oculto
no rumor da manhã
saciar-se de sangue)

 

Daniel Filipe

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Se alguém, no meio do silêncio, tropeçar nestas páginas e encontrar nelas um fio por onde se segurar, a certeza mínima de que não está sozinho, de que houve quem passasse por ali e continuasse, então este texto terá feito o seu trabalho.

Fabian Figueiredo

DEIXAS PASSAR OS BARCOS E AS NUVENS

          Je laisse passer les bateaux les nuages.
          P.E.

Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas

Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes

O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada

O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera

O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada

António Ramos Rosa de Viagem por uma Nebulosa em Obra Poética Volume I

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

HERBERTIANAS

A história já aqui foi contada, mas a ela voltamos porque, muito naturalmente, é abordada na Biografia de Herberto Helder escrita por João Pedro George.

 Existe o livro, editado pelo Expresso em que são referidos os Prémio Pessoa desde 1987 a 2007.

No ano de 1994 o júri atribuiu o prémio a Herberto Helder.

«O grande interesse nesta publicação, que reúne fotos e entrevistas com os galardoados de uma década, reside no facto de testemunhar, num registo verdadeiramente patético, o embaraço dalguns membros do júri mais audazes quando, rumo a Cascais em demanda do nosso maior poeta vivo, Herberto Helder, portadores do “ouro” do Prémio Pessoa 1994, encontraram o caminho de volta na simplicidade inflexível da palavra de um pobre guardador do seu crisol: «Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...»

Era uma pipa de massa para quem tinha, por escassez de dinheiros, uma vida muito, mesmo muito difícil.

Mas Herberto Helder recusou a distinção.

António Alçada Baptista e Clara Ferreira Alves, em nome próprio e do Expresso, tentaram demovê-lo.

Conta o António Alçada Baptista:

«O Herberto estava na sala. Falou à Clara e depois a mim.

Eu disse, meio a brincar meio a sério:

 - Vimos numa difícil missão...

Ele, com toda a simplicidade dele, disse-me logo que não, calculando que era um prémio.

Não foi possível demovê-lo e sentimos que aquilo era tão fundo e tão importante para ele que não devíamos insistir. Ele disse:

- Vocês não digam a ninguém e dêem o prémio a outro...

- Não pode ser, o júri escolheu-te a ti, a decisão está tomada; respeitamos que digas que não...

Ele ainda acrescentou:

- Peço que sejam meus mandatários e digam ao júri que eu agradeço mas não posso aceitar.

Sobre o episódio do Prémio Pessoa, João Pedro Jorge coloca a viúva de Herberto, Olga Lima, a contar a cena:

«Fiquei cheia de raiva porque estávamos tesos, “Herberto, mas não temos dinheiro e estás armado em vivaço!?” Aquilo não tinha jeito nenhum, O Herberto queria era que o deixassem em sossego. Agora, os valores dos outros prémios que ele tinha recusado eram irrisórios, mas dizer que não a sete mil contos, hoje cerca de 35 mil euros? Nessa altura o Herberto disse-me: “Sei que querias, uma vida mais descansada mas, desculpa lá, eu prémios não aceito. Se querias mais convívio ou mais dinheiro, casaste com o homem errado.»

A recusa do prémio causou um circo de prosas e opiniões, algumas tocando o ridículo.

Mas João Pedro George lembra:

«Luiz Pacheco, que não se levava muito a sério, nem ele nem a estes foguetórios da cultura, adiantou uma explicação alternativa, talvez plausível: «Ele sempre disse que nunca receberia prémios, deram-lhe um balúrdio de um prémio, era dele, ninguém lhe podia levar a mal mas ele disse logo: “Não quero!”. Há uma hipótese sacana: não havia dinheiro para o prémio, então deram-no a um gajo que já sabiam que não recebia.»  

VER SE DESTA ACABO TEU PRAZER

escrevo-o porque é o mais difícil

de fazer sem ti, que foste corpo

boia às minhas mãos, bordão torto

mas para vir à terra o mais fiel

 

ferro. E se eu na pela nem soube

do mal que me avisaram que me fazes

e já sou mestra em largar-te quase

tanto como a gritar lobo

 

até morrer de facto, eis o tributo

ao que passámos: rumores de noites,

copos, cafés, suspensões de céus

 

e sol manchado após o mar ou coito

e o pasmo sobretudo libertado

do vazio – que triste, cigarro, adeus.

 

Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto

terça-feira, 8 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Que tenho eu a dizer

neste país

se um homem levanta os braços

e grita com os braços

o que mais oculto havia

na secreta ternura de uma boca

que era a única boca do seu povo

 

Que posso eu fazer senão

daqui

deste deserto

em que persisto

chamar-lhe camarada

 

António Ramos Rosa

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Já não assim muitos os que se lembram da alvorada de Abril, das aventuras e desventuras do nosso caminhar naquele Verão dito quente de 1975, do homem que acreditava no povo e disso vez bandeira e luta.

Chamava-se Vasco Gonçalves.

Este livro é algo de importante para os que esqueceram, para os que não sabem o que foram aqueles mágicos e muito difíceis dias.

O título do livro diz tudo: «Não Pode Haver Neutros», todos aqueles que pensaram, que pensam, que ficar no meio é o espaço ideal para poder ver os dois lados. Também não pode haver sacanas que, então, apareceram em quantidade desmesurada, quando o que se podia era algo diferente:

«Nós também precisamos de aliados nesta revolução; precisamos de pequenos empresários, médios empresários, que compreendam esta revolução, que caminhem ao nosso lado; nós precisamos também de alianças porque isto é uma tarefa muito grande. Mas, repito, a revolução só comporta duas situações: ou se está com ela ou contra ela. Não há tipos que possam dizer «eu sou neutral, não me interessa nada a política.»

Vasco Gonçalces do Discurso da Sorefame, 17 de Maio de 1975.

Naturalmente, nem tudo correu como se esperaria.


Sobre Vasco Gonçalves fica uma opinião do pintor João Abel Manta:

«Conheci o Vasco Gonçalves mal. Ele gostou muito desse cartaz “Povo MFA/MFA Povo”, e quis oferecer-lhe o original. Fui a São Bento, ele disse-me que gostava muito dos meus bonecos, nem era dos meus cartazes, era mais dos meus desenhos. Fui recebido, ofereci-lhe o original e ele ficou muito agradecido. O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros. Depois, tinha aquele ar. Os outros tinham um ar dúbio. Tinha-lhe uma grande admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em que fui odiado em Portugal por isso, coloquei-o entre o soldado e o camponês. O cartaz foi arrancado por tudo o que é sítio. O Mário Soares ficava histérico quando vis esse cartaz! Também lhe ofereci esse cartaz. Concluindo: tenho uma boa impressão do Vasco Gonçalves».

OLHAR AS CAPAS


Não Pode Haver Neutros!

António Amaral

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa Junho 2026

Os discursos de Vasco Gonçalves devem, por conseguinte, ser abordados não apenas como reflexo dos acontecimentos, mas antes como acontecimentos doadores de sentido à «articulação política» entre orador e auditório e, sobretudo, entre estes e o processo mais amplo que colectivamente os interliga.

AOS MEUS OLHOS

Aos meus olhos
a cidade organiza
a sua tristeza.

Uma cintura aperta
a asfixia.
Um furo mais.

Um riso eleva-se
e sou eu que rio
sou eu que amo.

Auxilio a cidade
a suportar.
Um furo menos.

Não há pedras bastantes
para o nosso túmulo.

 

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


SOLTAS


  

Em tempos não muito distantes, as vindimas realizavam-se por finais de Setembro e iam por Outubro dentro.

E eram uma festa!

Devido às variações climáticas provocadas pelos humanos passaram a acontecer em finais de Agosto e entram por Setembro dentro.

Pedro Garcia, em crónica no Público de 4 de Setembro, fala das vindimas no seu Douro:

«Uma vindima de velório e a maldição do carvalho grande de Joseph Wayne
O abismo em que está a mergulhar a vitivinicultura, pela queda contínua do consumo de vinho, não é o fim do mundo, mas é uma boa metáfora da vida, de darmos tudo como garantido, e até do que nos espera, se seguirmos sem perceber a força e a verdade da natureza e se insistirmos em a desafiar, como estamos a fazer com a Inteligência Artificial, por exemplo, cujas infinitas possibilidades que ela nos abre dependem de mais consumo de electricidade e de água, para alimentar e arrefecer os grandes centros de dados. A IA é o novo combustível fóssil e pode ser ainda mais letal.
O leitor já percebeu que a vindimafoi um velório. Deve ser do meu natural pessimismo, que a idade vai agravando, mas colher uvas sem ver futuro no vinho não é uma tarefa agradável. E ter uvas e não encontrar quem as compre, como está a acontecer a muita gente, ainda é pior. O meu tio esteve certo no seu tempo. Hoje, não. As vinhas já não dão casas, é o contrário.»

1.

Um dia Benjamim Franklin, um dos principais Pais Fundadores dos Estados Unidos, cientista, inventor, diplomata e escritor, não esteve de modas, e disse:

«O vinho é a prova provada de que Deus nos ama e nos deseja ver felizes».

2.

Importante a opinião de João Paulo Martins, jornalista, escritor, um apaixonado por vinhos:

«O melhor vinho que bebi não foi seguramente o melhor vinho que já provei. O melhor que bebi foi-o porque eu estava no ambiente certo, com as pessoas certas, no momento certo».

3.

Tragam o vinho dos vivos, o vinho dos mortos, o vinho dos amanhãs perdidos. Não entregar o coração ao infortúnio. Nada se lucra com tristezas. O melhor remédio é pedir mais uma garrafa.

4.

Saímos de cena lembrando uma canção do filme The Young Ones, Cliff Richard com Os Shadows

«Amanhã

Por que esperar até amanhã?

Porque amanhã

Por vezes nunca vem.»

RETRATOS


«Deixemos pois o Goulart falar, A estalada que lhe deste, porém, não é coisa de que te possas gabar na praça pública, nem na tua consciência. Digo-te porquê, gravemente e medindo bem o peso das minhas palavras to digo; porque é uma cobardia. Conforme me contaste, não julgo que o tivesses feito de caso pensado, na plena posse da tua calma e da tua lucidez. Faço-te honra de supor que já estás arrependido – ainda que não confessas, por um pudor descabido, de que o Padre Zósima (dos irmãos Karamazoff) te daria a desrazão e o remédio.

Este caso do Goulart é sintomático: todos gostam de bater no Goulart é um dos poucos idealistas (taradinho, com as ideais todas torcidas está visto) que andam por essas ruas. Tem um ideal (taradinho, etc.), e luta por ele. Depois, é coxo, paneleiro, fraco de ombros. É monárquico e católico. É um tipo com uma cultura muito acima do vulgar e é sério. Dá ou não vontade de bater (bater com tanta facilidade) num tipo destes? Dá. O medo que as pessoas têm de bater num polícia e a vontade transferem-se psicaliticamente para os lombos e os bochechos do Florentino. Vem no Freud explicado.


Luiz Pacheco, de uma Carta ao actor Fernando Gusmão em Textos Avulsos, Inéditos eDispersos.

Legenda: Goular Nogueira

INTERIORES

Onde estamos agora que não nos vemos,
tu sentada diante da TV
e eu escrevendo isto, não sei o quê,
como outros dois que nós não conhecemos?

Será que alguma coisa permaneceu
do nosso amor como uma inevitabilidade,
uma saudade pousada agora na mão de Deus
existindo para sempre na sua breve eternidade?

Talvez percorramos uma rota circular
através da curvatura do espaço e do tempo
onde haveremos de nos reencontrar;
será que então de alguma forma nos reconheceremos?

Manuel António Pina em Os Livros

domingo, 6 de setembro de 2026

CRONICANDO POR AÍ

Há países que medem o seu desenvolvimento pelo PIB, pelos mísseis balísticos, pelos arranha-céus, pela quantidade de milionários, de cirurgias plásticas ou de bocas cheias de dentes de ouro. Ocorre-me outro indicador, pouco modestamente: o Produto Interno Estendido.

Nada é mais democrático do que o estendal. Uns têm melhores varandas, quintais, traseiras, seja o que for. Mas acabarmos todos no estendal é tão certo como nascer e morrer. Mesmo que alguém estenda a roupa por eles, são do senhor ministro as cuecas no estendal.

Abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco. Mas estender a roupa é fazer o inverso: é a casa a expirar-nos e deixar o bairro respirar-nos.

E não vai mal ao mundo adivinhar a vida uns dos outros através dos estendais. O estrangeiro recém-chegado com os seus panos. Os miúdos e as camisolas do futebol. Os mais velhos e os seus abafos. Os estendais foram as redes sociais antes da Internet, mas com menos filtros. Cuecas, ceroulas, combinações, junto de lençóis, toalhas, meias com par ou desirmanadas.

Que dizer da arquitectura popular do estendal? Há estendais tímidos, escondidos nas traseiras. Há estendais orgulhosos, de peito feito para a rua. E há os que atravessam a rua, como se dois prédios estendessem as mãos, num aperto por cima das nossas cabeças.

E nós? Gostamos tanto de nos estender. Nos bancos dos jardins, nas esplanadas. E se formos à praia, nas toalhas. Num sofá ao domingo. Gente amarfanhada é como roupa que não foi ao estendal. É bom estendermo-nos ao comprido, sem vergonha do espaço que ocupamos, do sol que recebemos, do vento que nos seca. Nada disso é de ninguém.

Cidades tristes? Digam quantos estendais atravessam a vossa rua e já vos digo quanta vizinhança ainda praticam. Cidades gentrificadas? Os turistas conhecem uma cidade pelos monumentos. Mas ela conta-se a sério nos estendais. Às vezes basta um vestido a dançar na corda para imaginarmos uma vida inteira.
Estendais
À Barbárie Seguem-se os Estendais é um livro de poesia de Miguel Cardoso (&etc., 2015). O título enuncia um programa, os versos estendem-no sem molas: “as camisas nos estendais/ a pedir albas/ chuva, felicidade, isso”.

André Barata, Público de 4 de Setembro

MÚSICA PELA MANHÃ


 O disco escolhido para a Música Pela Manhã deste domingo recaíu sobre Herbert Pagani, concerto no Bobino


LADO 1

Le Show Biznesse –Leçond de Peinture – Le Train de L’Espoir – Gracias A La Vida /(Merci L’Existence) – Serenade – La Cuisine, Le Menage Et L’Amour

LADO 2

Monologue de la Solitude – Berger d’Artiste – Messieurs Les Presidents – L’Étoile D’Or – L’Amitie – Le Reseau

Sammy considera-o um disco fascinante.

Eu também.

"Pagani A Bobino" é o registo ao vivo de um espectáculo realizado em Paris e que Herbert Pagani repetiu em diversas cidades, Lisboa incluída, em Abril de 1980

Vítima de uma leucemia galopante, Herbert Pagani morreu a 16 de Agosto de 1988. Tinha 44 anos.


«Pelos pequenos regatos, cobertos de espuma branca, pelos pequenos peixes, que nascem já cosidos, pelas florestas que os nossos jornais cortam em tiras, pelo passarinho, que em vão procura o seu ninho e pelos nossos telefones, sempre com três na Lina, nós dois e depois um chui com os seus auscultadores, e a nossa vida vivida que é posta de castigo dentro das tripas de aço dos vossos ordenadores e por essas cruzes gamadas, surgidas dos anos 30 que se vêem sobre os anúncios nos quiosques e nas estações, e por tudo o que faz um certo grupo que tenta fazer pender à direita as jovens gerações, por esses putos que lançam granadas, pelos que financiaram os seus campos de treino antes de os terem visto a fazer footing nos estádios, dizemos-vos:
Bravo, senhores presidentes».


sábado, 5 de setembro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ



Dolly Parton morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80 anos.

David Pontes, no editorial do Público, deixou bem vincado:

 «O mundo era melhor com Dolly Parton».


“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country, mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que, tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.

Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis” (na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e, quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram a perda.

Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que, “se agora aceitasse, estaria a fazer política”.

Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles: dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre, estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência. Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.

Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de que o mundo anda tão falho.»

Quando deixei de poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:

 

ADEUS POR UM CASACO

 

«É tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.

Pela Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.

Comprei-o na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.

Quando senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um outro semelhante, mas nunca consegui.

Olhava-os mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.

Nos últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.

A minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal vestido.

Tentei explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela mandou-me um tá bem abelha!

O próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.

Não sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.

Também a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.

Pelo andar da carruagem, débil esperança…

Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»


 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Ninguém sabe o que é a morte, mas não faz muita diferença porque também nunca sabemos o que é a vida.

António Lobo Antunes

SOLTAS

Hoje, para abrir, detemo-nos numa frase de Karl Marx, citada por Ana Cristina Leonardo na crónica das sextas-feiras no suplemento ípsilon do Público:

 

         PRIMEIRO A TRAGÉDIA, DEPOIS A FARSA

 

1.

Portugal é o 3.º país da UE com maior índice de envelhecimento: um rácio de 182 idosos por cada 100 jovens.

2.

António Guerreiro, na sua crónica no Ipsilon do Público, aborda o populismo. 

Há uma grande conveniência em que seja lida:

«A noção de populismo, que surgiu nos anos 80 do século XX, tornou-se actualmente um conceito vazio, uma palavra que significa tudo e não significa nada, como aquelas a que Lévi-Strauss, lendo Marcel Mauss, chamou “significantes flutuantes”. Sob essa condição vazia, o populismo não passa de uma “coisa”.
Originalmente, ele foi designado como uma ideologia fraca, sem espessura (uma “
thin ideology”, dizem os teóricos de língua inglesa), caracterizada pelo apelo de um chefe carismático a um antagonismo político e moral, eminentemente maniqueísta, entre dois campos: de um lado, o “povo”, simples e puro; do outro, as “elites” maléficas e corruptas. O populismo, na sua acepção primeira, é um fascismo em potência: tem alguns traços do fascismo, mas evita deslizar completamente até aí. Tal como o fascismo, ele participa de uma metafísica; e tal como o fascismo, opera através da mobilização reaccionária de um povo que ele próprio fabrica.»

3.

Limite de voos nocturnos em Lisboa só foi cumprido em duas semanas de 2026.

4.

O governo, a uma só voz, defende o ministro Luís Neves. O mesmo não acontece nas sedes do PSD, em que pelos corredores, em surdina, ou não, se critica largamente o ministro.

5.

A frase da secção Escrito na Pedra do Público, de hoje, pertence a Simone de Beauvoir.

«O homem sério é perigoso, pode transformar-se em tirano».

6.

«DANÇAR È REZAR COM AS PERNAS».

HERBERTIANAS


A Biblioteca da Casa não é apenas depositária de livros e discos, também de uma série numerosa de diversos dossiers respeitantes a escritores e artistas que merecem a nossa atenção.

É o caso de Herberto Helder.

Do dossier de Herberto Helder tiramos, hoje, uma entrevista-relâmpago feita pela escritora Maria Teresa Horta, e publicada no suplemento literário de A Capital de  10 de Abril de 1968.

Maria Teresa Horta foi uma das suas amigas e confidentes.

Na biografia de João Pedro George, pode ler-se na página 309:

«Era uma daquelas noites em que Herberto, depois das suas caminhadas pelas ruas de Lisboa, acabava em casa de Maria Teresa Horta. Passou-se provavelmente no último semestre de 1962 e Herberto apareceu-lhe com um manuscrito, algo que tinha começado a escrever no estrangeiro, entre a Bélgica e a Holanda, passando por França e outros países, e que foi continuando a compor em Lisboa e em Santarém. Luiz Pacheco lembrava-se, inclusive, de o ter ouvido ler alguma partes de Os Passos em Volta.»


CONVERSANDO

Se os viajantes deste Cais gostam de biografias, mais ainda do poeta Herberto Helder, não poderão deixar de ler a Biografia do Herberto que João Pedro Jorge levou cerca de oito anos a fazer, a detectivar, a escrever.

«Alguém que está a esconder alguma coisa exerce um fascínio enorme sobre o público».

Assim era Herberto Helder.

E é preciso perceber «o inesgotável e enigmático Herberto Helder».

Estas 895 páginas de Se Eu Quisesse Enlouquecia, ajuda-nos a essa tarefa.

Em Março de 2025 o meu amigo António Abaladas ofereceu-me a Biografia doHerberto.

Fui folheando, lendo aqui e ali, apenas isso.

A leitura atenta e necessária ocorreu nos breves dias da semana passada.

O livro ficou largamente sublinhado, com comentários nas margens, sei lá mais o quê, um livro de que poderia dizer «lido à antiga».

Apercebi-me, então, que talvez fosse interessante mostrar aos viajantes o como foi a minha leitura à antiga, se isso é possível.

Vou tentar.

A todas essas intervenções, chamar-lhe-ei Herbertianas.

Começam hoje.

Legenda: pormenor de uma Carta a M.R. sobre «Photomaton  & Vox», escrita por Luna Levi e publicada num suplemento literário do Diário Popular s/d, talvez no ano de 1979.

NÃO HÁ FESTA COM ESTA!

Já vão 50 anos.

Só uma vez, não se realizou.

Sempre o tempo de se dizer que: «Não Há Festa Como Esta!»

Hoje, já se pode ir jantar à Festa e conviver!

«Eu tinha passado anos a dizer: “Vou à Festa do Avante!” Até compreender que talvez tivesse dito a frase errada durante todo aquele tempo. Porque Avante nunca foi, para mim, apenas um lugar para onde se vai. Avante é uma direção. Avante é aquilo que fazemos quando o medo diz: recua. Avante é cantar quando nos aconselham silêncio. Avante é continuar humano quando o mundo tenta convencer-nos de que o outro é nosso inimigo. Avante é não permitir que ninguém pense por nós.»

Dino d’Santiago, na revista Visão

A CIDADE ADORMECIDA

Foi decretada a mobilização geral.
Bom,   isso   não   teve   importância nenhuma
tanto mais que era simplesmente
por causa de haver guerra.
Era uma guerrazinha pequena
que estava metida numa gaiola
e piava muito,
sempre a pedir alpista e arroz do Sião.

Davam-lhe alpista,
mas arroz nunca lhe davam e,
por isso,
foi   decretada   a  mobilização geral.
A guerra piava cada vez mais.
Trouxeram-lhe um cunhado
muito lavado,
muito engomado
e zás, comeu-o.
Então começou a tocar o tambor
e lá fomos todos,
com a espingarda na algibeira
e a mochila cheia de não-fazer-nada.
Na guerra só o que se fazia era comer.
comiam-se nabos,
comiam-se lições de inglês
e comia-se muito mêdo
que nos era dado todos os dias
pelos majores que lá não iam
porque ali era longe.
No fim
comeu-se o decreto de mobilização geral
com o arroz do Sião
que não foi posto na gaiola da guerra.

Voltamos todos a tocar corneta
e sem a espingarda na algibeira
pois se tinha gasto tôda
com o andar,
porque não lhe tinham dado botas.

 

Mário-Henrique Leiria

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

A arte é a forma mais elevada de esperança.

Gerhard Richter