quarta-feira, 13 de maio de 2026

UM FILHO DA PUTA DE UM SANGUE QUENTE

Um filho da puta de sangue quente
e um filho da puta de sangue frio
distinguem-se instantaneamente:
este tem só tesão de calafrio!

O calor do sentir nada lhe diz:
destruir catedrais sem nada fremir,
por nada ver à frente do nariz,
nada, mas nada lhe faz pressentir.

O filho da puta absoluto simples
destrói cidades e vidas e arte
e cria tragédias dignas de Sófocles.

Invoquemos um raio que o descarte
e o entregue a um feio urubu,
que dele faça infame menu!

Eugénio Lisboa

terça-feira, 12 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial.

Patti Smith em Pão de Anjos

OLHAR AS CAPAS


 Hammett

Joe Goes

Tradução: Helena Domingues

Capa: João Botelho

Colecção:  Série Negra nº 14

A Regra do Jogo, 1983

E para se vingar, usaria toda a gente. A não ser o herói. Ninguém conseguia usar o… Ned? Certo. Ned. Fisicamente, podia servir-se do LeGrand Dedod. E até talvez não só fisicamente.

Mas ninguém conseguia usá-lo, a não ser que fosse ele a querê-lo. Cínico, sempre nos copos, leal, incorruptível…

Claro, pensou, e desatou a andar de um lado par o outro, entre a janela do living e a porta. Ia funcionar. Ia funcionar perfeitamente.

TRUMPALHADAS

Pentágono calcula que guerra no Irão já custou 24,7 mil milhões de euros.

GIN SEM TÓNICA

Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar
que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher
foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?
telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher
nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic

segunda-feira, 11 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Há tempos o professor Olívio perguntou-me:

- Que esperas vir a ser quando fores crescido?

- Revisor de comboios – respondi.

O professor Olívio não foi capaz de esconder a sua surpresa:

- E por quê, não me dirás?

- Para me fartar de andar de comboio. Não é maravilhosos viajar durante o dia inteiro?

 

Júlio Conrado em O Deserto Habitado 

OLHAR AS CAPAS


Redescoberta da França

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Acácio Santos

Seara Nova, Lisboa Abril de 1973

Quando se vive da escrita e para a escrita, quando se faz da pena e não pròpriamente uma arma (que a pena é a pena e a arma é a arma) mas o veículo necessário, imprescindível de uma comunicação sentida como imperativo ético, social, político (sem abdicar de uma rigorosa exigência estética), acontece perderem-se coisas pelo caminho, caídas em escuros alçapões ou dispersas ao acaso, no efémero quotidiano da imprensa. A esses salvados aqui reunidos sob uma epígrafe comum que, não os abrangendo embora todos, porventura lhes dará sombra da consistência que houveram podido ter, se redigidos ab initio sem condições limitativas, acrescem as advertências, prognósticos e esperanças que o título sugere: «Redescoberta da França. 

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Em viagens ao Porto cheguei a viajar no Rápido e no Foguete.

Noutro tempo, uma reunião que derrapou, perdemos o último Alfa e viemos num lentíssimo comboio que partiu de Campanhã cerca da meia-noite e chegou a Lisboa às seis da manhã.

 A CP chegou a ser uma razoável companhia.

Ainda me lembro dos jardins nas estações e apeadeiros que envolviam concursos e com placa do lugar conquistado.

A CP nos dias que correm, e não estou a falar das ferrovias nas beiras e nos alentejos, é um perfeito desastre.

Pelas esquinas fala-se que está em andamento a entrega das linhas mais rentáveis a privados… fala-se… e, tantas vezes…,  não há fumo que não dê em fogo…

A tentar deitar fora papelada e mais papelada, encontrei este livreco com distribuição gratuita nos, comboios nos «Alfa Pendular», com excertos de «grandes obras literárias» em que os editores presentes na edição são: Babel, Civilização Editora, Editorial Presença, Bertrand Editora, Porto Editora.

Claro que é publicidade paga.

Hoje já ninguém lê, seja o que for, num comboio, apenas dedilham tele-móveis e coisas quejandas.

Mas se com este livreco, pelo menos, alguém foi à procura de um livro, diga-se que nem tudo se perdeu.

Fica também o anúncio que as viagens nos alfas tinham um «toque gourmet».

Hoje, dizem-me, que não há qualquer serviço de bar/snack/cafetaria!...

Ah, e nestas coisas, há sempre um «chef» metido...

NOTÍCIAS DO CIRCO


Há alguns anos atrás, familiares de Ricardo Salgado “brincavam aos pobrezinhos nos fins-de-semana que passavam na Comporta”.

Agora, Carlos Moedas, inenarrável presidente da Câmara de Lisboa, está a ser contestado por ter subsidiado um piquenique de gente fina. A notícia é retirada do Jornal de Notícias:

«O apoio de 75 mil euros atribuído pela Câmara de Lisboa ao "chic-nic", um piquenique realizado no domingo passado no Parque Eduardo VII para assinalar o Dia da Mãe, continua a gerar forte polémica nas redes sociais, sobretudo devido aos preços praticados no evento, com experiências e cestos de piquenique a chegarem aos 300 euros. Uma semana depois, a autarquia ainda não assumiu posição pública sobre o caso.»

A sério: E não se pode demiti-lo?

TRUMPALHADAS

O modo como Donald Trump trata a guerra que mantém com o Irão, lembra uma frase de Pimenta Machado, então presidente do Vitória de Guimarães, que ficou para a história do futebol , e não só:

«O que hoje é verdade, amanhã é mentira!»

Trump, umas vezes diz que as «negociações» estão a correr muito bem, para quase de imediato dizer o contrário.

Ontem, rejeitou a resposta do Irão à mais recente proposta norte-americana para um acordo de paz.

 «Acabei de ler a resposta dos supostos representantes do Irão. Não gosto — totalmente inaceitável", escreveu Trump na rede social Truth Social, sem acrescentar pormenores sobre a recusa. Noutra publicação feita horas antes, o chefe de Estado acusou o Irão de "enganar" e "gozar" com os Estados Unidos há décadas e avisou que isso iria acabar: "Não se vão rir por muito mais tempo!» 

UM SENHOR DE MATOSINHOS

andava eu no liceu: no salão nobre
dos paços do concelho em matosinhos,
um professor, o óscar lopes, vinha

mostrar à noite que a literatura
importa a toda a dignidade humana.
iam autores ouvi-lo, jornalistas,

estudantes, gente que ali morava
e outra que do porto em carro eléctrico,
o “um” para leixões, o “dezasseis”,

passando à carvalhosa, vinha sempre,
lá estavam joão guedes, tonitruante,
e júlio gesta, afável e risonho,

manuel dias da fonseca, mais calado,
augusto gomes e suas lentes grossas
a enevoar-lhe o olhar de ver as praias

rasas de cinza e luto, com vareias
por trágicos naufrágios ululando,
o egito, que então já se escrevia

com os poetas todos deste mundo,
o eugénio, de cachecol esvoaçante,
a modelar os gestos e os ditongos

medindo mãos e frutos, depurando
sílaba a sílaba, a sua incandescência
devia ser outono, ou mesmo inverno,

e fazer frio, e não faltava um torpe
sujeito de soslaio e bloco-notas,
tomando apontamentos com minúcia,

que a subversão quanto mais culta mais
impalatável era. fuzilavam-no
amigas minhas com o olhar, ficavam

mais belas só por essa exaltação
contida e faiscante de amazonas,
foi quando eu soube que as mulheres sabiam

resistir por instinto e se tornavam
mais agilmente elásticas no corpo,
mais livres e arriscadas nos seus gestos,

e no limite a cor afogueava-as,
e tão fulva energia em nenhum verso
coube jamais, que eu saiba, então na sua

voz calma e portuense, óscar falava
dos livros, dos autores, como quem trata
de assuntos de família e os desarruma

para os mostrar melhor, e acontecia
que isso era irrepetível e sem pompas,
como outra intimidade ao nosso alcance:

é sempre desconforme a literatura.
é mal-estar, princípio de prazer,
é trabalho forçado e liberdade

e um modo mais verbal de estar no mundo,
e nesse mar óscar lançava as redes
da pesca milagrosa, aquela terra

tinha essas tradições mais literais,
orlas de oralidade e maresia,
e embarcávamos todos na traineira

e era outra vez o senhor de matosinhos
com ex-votos à roda: impaciências
de passado e presente na palavra

e, entre a vida e a morte, o seu fulgor
em que, por crespas ondas, falar era
também filosofar e rebeldia.

tinham saído alguns discos recentes,
gravados por poetas: eu recordo
a voz do régio num, que achei roufenha

dos ensimesmamentos presencistas,
e vozes de combate que também
prestavam para pouco, mas sabia

tão bem partir a louça no salão
daquela edilidade, assim nas barbas
de toda a gente, era porém mais justa

a medida de que óscar nos falava
pois fazia pensar e punha em causa.
e alguém pedia às vezes um poema

quando a noite avançava e alguém dizia
outras coisas em código e ficavam
depois pequenos grupos à saída

como em cinemas de província, como
quem tem mais a dizer e veio vindo
devagar até aqui e aqui se encontra,

à espera de outro eléctrico ronceiro,
e vai falando tempos esquecidos,
sem pressa e sem vontade de ir embora.

 

Vasco da Graça Moura

domingo, 10 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Mas as vidas nunca são perfeitas e a tal perfeição ninguém sabe o que é.

Marguerite Yourcenar

Legenda: fotografia de André Kertézs

MÚSICA PELA MANHÃ


 ATLANTIC - 756 78-1233-1 - edição portuguesa (1984)


Side One

Route 66 – Jeannine – My Cat Fell In The Well (Well! Well! Well!) – The Duke Of Dubuque – How High The Moon

Side Two

Baby Come Back To Me (The Morse Code Of Love) – Safronia B – Heart’s Desire – That’s The Way It Goes – Unchained Melody

Nos tempos maravilhosos das rádios pirata, havia muita merdice, mas também aconteceram excelentes projectos.

Um dos melhores locutores portugueses, Cândido Mota, o melhor apresentador do «Em Órbita» – «um programa feito por todos e dito por mim» - tinha um programa, aos domingos à tarde, na Telefonia de Lisboa, que, agora não lembra o nome, era mais de conversa do que de música.

Numa dessas tardes, lembra-se que era Verão, o Cândido Mota, um bom e largo pedaço de tempo andou às voltas com The Manhattan Transfer.


Ele que, como já disse, só os conhecia de nome e, no ouvido, tinha o registo de uma canção: Chanson d'Amour
, ficou, desde essa tarde de domingo, fã dos The Mannhatan Transfer, muito para aquém de saber porquê.

E, passado o tempo que já foi, continua sem saber o porquê.

Acontece-lhe muito…

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2014 no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.



DITOS & REDITOS


O que o berço deu, a tumba leva.

Ter ideias é um perigo e as pessoas têm medo dos perigos.

Como diriam os godos do Astérix: pode-se ser bárbaro e gostar de flores.

É melhor estar no inferno com gente inteligente do que no paraíso com estúpidos.

O possível é sempre o ideal.

Não acordes cão que dorme.

Bom ter amigos, ainda que seja no inferno.

Mais vale bom vagar que má pressa.

sábado, 9 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 

O Em Órbita teve a sua aparição no FM do Rádio Clube Português às 19 horas de 

1 de Abril de 1965.

O primeiro locutor foi Pedro Castelo, mais tarde surgiria a voz única de Cândido Mota.

O primeiro indicativo musical do Em Órbita foi "Revenge" um instrumental dos Kinks.

Os autores do Em Órbita foram, entre outros, Jorge Gil, José Gil, João Manuel Alexandre e Pedro Albergaria.

Tenta-se a reprodução desse “Revenge”, bem como algumas músicas passadas no Em Órbita. 

Em relação ao Alan Price Set, Cândido Mota dizia «o set de Alan Price».






sexta-feira, 8 de maio de 2026

À LUPA

Da crónica de António Guerreiro no suplemento Ipsilon do Público de hoje.

O OUTRO LADO DAS CAPAS

 É assim que começa o livro do Abel Rosa sobre os Beatles e a Censura em Portugal.

OLHAR AS CAPAS


Os Beatles e a Censura em Portugal

Abel Rosa

Prefácios.

Lauro António

Rui Zink

Âncora Editora, Lisboa, Agosto de 2021

Foi com uma notícia, publicada em Inglaterra no dia 28 de Setembro de 1964, que começou a história deste livro.

Um dos maiores especialistas sobre os Beatles, Mark Lewisohn, presentemente a escrever uma trilogia sobre os quatro de Liverpool, cujo primeiro volume, All These Years Volume One- Tune In. Já foi editado em 2013, enviou um email com dois recortes de jornal e um pedido de informação. A notícia, a mesma nos dois jornais, Liverpool Echo e Liverpool Daily Post, tinha a data de 28 de Setembro de 1964 e Mark pedia-me que confirmasse se era verdadeira e, a sê-lo, quais as cenas ou os diálogos que tinham sido alvo de cortes por parte da censura portuguesa. 

OS DIAS DA RÁDIO


The Golden Age of Old American Radio
Starring Bing Crosby
United Artists Records  UAK  30115

With Jud Conlon’s Rhythmaires
John Scott Trotter and His Orchestra

Apresentador: Ken Carpenter     

Side One

1-Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day - Orchestra   
2- Lady Of Spain – Bing Crosby 
3 - Hello, Hello – Kay Thompson and The William Brothers   
4 -For Me And My Gal - Judy Garland and Bing Crosby
5 - Young At Heart – Bing Crosby
6 - Lazy River And Paper Doll       - The Mills Brothers and Bing Crosby
7 - Where Is Your Heart – Bing Crosby 
8 - Lullaby Of Broadway – Dick Powell and Bing Crosby       
9 - It Might As Well Be Spring – George Burns abd Bing Crosby     
10 - It's Only A Paper Moon – Bing Crosby       
11 -That's A Plenty – Connie Bonwell and Bing Crosby         
12 - You Go To My Head – Bing Crosby
13 - Where The Blue Night Meets The Gold Of The Day (Reprise) – Orchestra


1- Zip-A-Dee-Doo-Dah – Bing Crosby   
2 - I Can Dream Can't I? – The Andrews Sisters and Bing Crosby   
3- Tell Me Why – The Four Aces and Bing Crosby     
4 - Two To Tango – Rosemary Clooney and Bing Crosby       
5 - Mona Lisa – Bing Crosby       
6 - If I Knew You Were Coming I'd Have Baked A Cak - Bob Hope and
     Bing Crosby   
7 - On A Slow Boat To China – Peggy Lee and Bing Crosby 
8 - Medley   
     (You Gotta Start Off Each Day With A Song - Maurice Chevalier and Bing
     Crosby, My Love Parade – Maurice Chevalier- Louise – Maurice Chevalier and
      Bing Crosby - Mimi – Maurice Chevalier)
9 - You Gotta Start Off Each Day With a Song – Jimmy Durante and Bing
      Crosby
10 -You Belong To Me – Bing Crosby     
11 -Wish You Were Here – Bing Crosby
12 - May The Good Lord Bless And Keep You - Nat King Cole, The Andrew
        Sisters and Bing Crosby   
13 - Orchestral Closing
       Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day

Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobrevive na memória.

Se bem que o malandro do José Gomes Ferreira lhe tenha dito que «saudades, só do futuro», mas há coisas em que gosta mesmo de voltar lá atrás.

Cresceu a ouvir rádio.

 Primeiro num velho «Pilot», mais tarde, muito mais tarde, num «Blaupunkt já com dois altifalantes laterais, um luxo!, diziam que era estéreo.

 O rádio tocava todo o dia.

 O avô chamava-lhe telefonia.

Os mais variados programas, das mais variadas estações: o folhetim do «Tide» da mãe e da avó, a música clássica do avô, os relatos de hóquei em patins do Torneio de Montreux em cada tempo de Páscoa, ao domingo os relatos de futebol.

 De todas as músicas, ficou-lhe um gosto por «big bands», por «crooners».

 As canções dos primeiros amores, os primeiros bailes, slows, boleros - «a menina dança?»

O modo como uma mão nas costas nos conduzia, podia mudar tudo, passagem quase certa para lá do arco-íris.

 Aquilo a que chamaram a idade da inocência.

 O tempo, onde as promessas, as causas, porque também nos fomos apaixonando por ideias, nos preenchiam os quotidianos.

 Quando ainda acreditávamos, que iríamos ficar fiéis àqueles amigos, àqueles ideais.

 As músicas é que ficaram.

Memórias também: Brigitte Bardot a acenar num velho filme a preto e branco, Sophia Loren a não caber no écran do Cine-Oriente, Eusébio no Mundial de 66 em Inglaterra.

Não vivíamos para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.

«Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.

Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.

Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets

Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?»

Diálogo do filme «Smoke» de Paul Auster/Wayne Wang

Extinta está a rádio que grande parte da vida o acompanhou.

Degradou-se a partir de um tempo que não sabe onde mora.

 Ou melhor: quando os programas de autores e de vozes eméritos deram lugar às «play-lists», em que uma garotada inculta, aos guinchos, às piadolas sem graça alguma, às conversinhas parvas tiraram o lugar a profissionais como Cândido Mota, Rui Morrison, Maria José Mauperrin, Jaime Fernandes, António Cartaxo, José Duarte, Adelino Gomes, António Curvelo, Aníbal Cabrita, António Sérgio, João David Nunes, Luís Pinheiro de Almeida - «why not?»

E não tem qualquer ponta de esperança que essa rádio regresse nos tempos que ainda terá para andar por aqui.

 Razão única para ter uma ternura especial por este velho LP, que o leva, volta e meia, a pôr o disco a rodar e amiúde senta-se no sofá a ver Os Dias da Rádio do Woody Allen, copo de gin ao lado.


Texto publicado em 11 de Maio de 2018 no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

TRAGÉDIA

Foi para a escola e aprendeu a ler

e as quatro operações, de cor e salteado.

Era um menino triste:

nunca brincou no largo.

Depois, foi para a loja e pôs a uso

aquilo que aprendeu

- vagaroso e sério,

sem um engano,

sem um sorriso.

Depois, o pai morreu

como estava previsto.

E o Senhor António

(tão novinho e já era «o Senhor António»!...)

ficou dono da loja e chefe da família...

Envelheceu, casou, teve meninos,

tudo como quem soma ou faz multiplicação!...

E quando o mais velhinho

já sabia contar, ler, escrever,

o Senhor António deu balanço à vida:

tinha setenta anos, um nome respeitado...

- que mais podia querer?

Por isso,

num meio-dia de Verão,

sentiu-se mal.

Decentemente abriu os braços

e disse: - Vou morrer.

E morreu!, morreu de congestão...

 

Manuel da Fonseca

quinta-feira, 7 de maio de 2026

FEITO POR TODOS E DITO POR MIM


 

RCA VICTOR - TP 328 - edição portuguesa

Dedicated To The One I Love (Bass/Pauling) - Free Advice (M. Gilliam/John Phillips) - Even If I Could (John Phillips) - Once Was A Time I Thought (John Phillips)

Se uma modificação profunda se processou no gosto musical de uma geração, isso deve-se ao "Em Órbita". Raros foram os dias em que o não ouvi no velho “Blaupunkt”, de olho verde à esquerda,” de casa do meu pai.

Isso até Junho de 1967 porque por esses dias assentei praça em Tavira e chegou um tempo em que o FM do Rádio Clube Português não chegava às ondas do transístor de fancaria que ouvia na caserna do CISMI.

Quando passados tempos regressei, o “Em Órbita”, entrara em novas aventuras e deixara de ser o programa que conhecera.

Quem não o ouviu não sabe o que foi e não dá para explicar, se isso, naturalmente, fosse possível – "Um programa feito por todos e dito por mim", como dizia o Cândido Mota, em minha modesta opinião, a melhor voz que o “Em Órbita” teve. (estou de acordo! - nota do editor).

Este disco, com esta bonita capa, Made in Portugal, é um dos muitos que comprei por causa do “Em Órbita” e escolho este porque “Dedicated to the One I Love” se tornou uma das canções das minhas diversas vidas.

“While I'm far away from you, my baby
I know it's hard for you, my baby
Because it's hard for me, my baby
And the darkest hour is just before dawn".

Como diria o Tom Waits, esta é do fundo do coração e como a vida nunca é exactamente o que queremos, transportamos, por vezes, algumas canções que associamos a memórias mágicas.

Mas isto já está a resvalar para a lamechice e por aqui me fecho. Até porque os silêncios são mais preciosos que as palavras e eu só queria lembrar o “Em Órbita”, mostrar esta capa e concluir que, como dizia alguém que agora não lembro o nome, é preciso chegar aos sessenta anos para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

 

Texto publicado em 30 de Junho no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

NESTE DIA


Neste dia, que verdadeiramente serão os dias 6 de Setembro de 1969 (carta de Óscar Lopes para António José Saraiva) e Outubro de 1970 (carta de António José Saraiva para Óscar Lopes).

Estamos a consultar a Correspondência trocada entre António José Saraiva e Óscar Lopes).

Amiúde verificamos que o neo-realismo é tratado a pontapé por críticos, escritores, jornalistas, várias outras gentes.

Nas cartas que consultamos, cita-se a de Óscar Lopes e causa alguma perplexidade o seu «ódio» ao neo-realismo.

Vejamos:

«Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neorrealistas do que eu. O próprio Eduardo Lourenço parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel e o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia do Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou, E nunca fui grande admirador de Ferreira de Castro, como creio que tu.»

 

Cita-se agora António José Saraiva:

 

«Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um único grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.

E não há só falta de Invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do Redol e outros.

(…)

Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.

Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte .»

Legenda: pintura de Rogério Ribeiro.

CHORAI NINFAS

Chorai, Ninfas, os Fados poderosos
daquela soberana formosura!
Onde foram parar na sepultura?
Aqueles reais olhos graciosos?

Ó bens do mundo, falsos e enganosos!
Que mágoas para ouvir! Que tal figura
jaza sem resplendor na terra dura,
com tal rostro e cabelos tão formosos!

Das outras que será, pois poder teve
a morte sobre cousa tanto bela
que ela eclipsava a luz do claro dia?

Mas o mundo não era digno dela,
por isso mais na terra não esteve;
ao Céu subiu, que já se lhe devia.

 
Luís de Camões em Sonetos

quarta-feira, 6 de maio de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


Há um poema de Alexandre O’Neill na Feira Cabisbaixa que tem por título Três Carneiros do Tejo que começa: «Nasce na Serra de Albarracin, em Espanha e, entre outras coisas, há um rapaz que, sem malícia, veio, da sombra sei lá de que sobreiro, para dar em alguém, cá na cidade e que terá acabado em polícia porque, diz o poeta:

Ser da polícia, dá cantina, barbeiro, autoridade.

Tempos da ditadura salazarista, negros tempos, em que ser polícia, mesmo sem quaisquer qualificações, para a cantina, o barbeiro, também emprestava um sentido de autoridade sobre os outros.

Hoje, notícia do Público estampada na 1ª página, ficou-se a saber que:

«Há dois chefes da PSP entre os 16 detidos esta terça-feira por suspeitas de envolvimento em mais de duas dezenas de episódios de agressões e tortura ocorridos entre 2024 e 2025 em Lisboa, naquele que ficou conhecido como o caso da Esquadra do Rato.

Tal deve-se ao facto de os dois primeiros agentes detidos, em Julho do ano passado, serem ambos dessa esquadra, onde terão ocorrido alguns dos mais graves episódios de violência. As vítimas seriam na maioria pessoas vulneráveis, como toxicodependentes, estrangeiros e sem-abrigo.»

UMA VOZ ÚNICA


A cremação de Cândido Mota, segundo Teresa Mota, sua filha, ocorreu ontem pelas 13,00 horas no Cemitério do Alto São João.

Segundo reconheceu Herman José: «a melhor voz de sempre da rádio e da locução portuguesas».

Já não veremos mais o rigor das suas eficientíssimas apresentações de artistas e convidados nos palcos das Festas do Avante.

Por estes dias, irei desencantar coisas e loisas do velho Em Órbita onde Cândido Mota foi brilhante mestre.


DECCA - PEP 1159 - 1966

You Were On My Mind – Wat I’m Gonna Be – The Pied Piper – Sweet Dawn My True Love

Neste disco sei que “You Were on My Mind” é a canção forte, de referência, “o grande êxito de Crispian St. Peters”, tal como se pode ler na capa. 

Mas gosto muito de “The Pied Piper”.

Cândido Mota, no “Em Orbita”, a anunciar o disco, as primeiras espiras a rodarem e ele a dizer: “sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica".

Disco comprado na Discoteca Universal, em Lisboa, no dia 30 de Junho de 1966, por expressa e oportuna indicação do “Em Órbita”.



(nota do editor: eu, por mim, tenho a subida honra de ter sido o introdutor de Crispian St. Peters e de "You Were On My Mind" em Portugal, em 1965. Não mais me esqueci disso. Mal recebi o disco, fui imediatamente levá-lo à "23ª Hora", de João Martins. Foi o êxito total! O "Em Órbita" ainda estava a dar os primeiros passos).

 

Texto publicado em 7 de Julho de 2008 no inesquecível «IÉ-IÉ», blogue do Luís Pinheiro de Almeida.