Durante a Ditadura salazarista/marcelista a censura, por ignorância, por maldade pura e dura, foi aplicada nas coisas mais incríveis.
Legenda: recorte tirado de Os Beatles e a Censura em Portugal
Durante a Ditadura salazarista/marcelista a censura, por ignorância, por maldade pura e dura, foi aplicada nas coisas mais incríveis.
Legenda: recorte tirado de Os Beatles e a Censura em Portugal
1.
Contratações
acima dos 50 anos são raras nas grandes empresas. O mercado fecha as portas aos
trabalhadores seniores e menos de 5% dos contratados têm mais de 50 anos.
2.
O CDS está em
congresso. Ter-se agarrado à AD foi uma débil possibilidade de sobrevivência.
3.
Na Grã-Bretanha o rei disse ao povo que «um mundo cada vez mais perigoso e volátil ameaça o Reino Unido».
A propósito, lembra-se a frase de Rimbaud que Patti Smith colocou, como epígrafe, em «O Ano do Macaco»
«Abate-se sobre o mundo uma loucura fatal.»
4.
Por causa da
guerra Estados Unidos/Irão a crise mundial aumenta. Por aqui, a crise dos fertilizantes
agrava os custos na agricultura e pressiona o preço do cabaz alimentar. Segundo
a DECO aumentou 7,68% entre 14 de Janeiro e 13 de Maio.
5.
O Escrito na Pedra do Público de hoje apresenta uma frase de S. Chamfort, poeta, jornalista, humorista e moralista francês:
«A sociedade
é composta por duas grandes classes: aqueles que têm mais jantares que apetite
e os que têm mais apetite que jantares».
Um dos
patrões da Aida dizia-lhe que só há duas vidas: uma é boa, a outra não presta.
6.
Dados da
APAV, que presta apoio às vítimas, revelam que agressões de pais a filhos
aumentaram 40% e a maioria das vítimas são mulheres com 65 anos ou mais anos.
7.
Pedro Garcias na sua crónica de hoje no Fugas/Público:
«Luís Montenegro não consegue falar sem sorrir, pelo que de certeza nem ele acredita no que diz, que o país está muito bem, que o mundo nos admira e elogia e que este Governo vai ficar na história».
Pé
ante pé, estamos a chegar aos Santos Populares.
Tempo de festa, tempo de fogueiras, tempo de cheiros: bailaricos, sardinhas assadas, iscas, bifanas, manjericos, caldo verde, sangrias, cheiro e mais cheiros.
Lisboa já tem Sol mas cheira a Lua
Quando nasce a madrugada sorrateira
E o primeiro elétrico da rua
Faz coro com as chinelas da Ribeira
Se chove cheira a terra prometida
Procissões têm o cheiro a rosmaninho
Nas tascas da viela mais escondidas
Cheira a iscas com elas e a vinho
Um cravo numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa
Uma rosa a florir na tapada
Cheira bem, cheira a Lisboa
A fragata que se ergue na proa
A varina que teima em passar
Cheiram bem porque são de Lisboa
Lisboa tem cheiros de flores e de mar
Lisboa cheira aos cafés do Rossio
E o fado cheira sempre a solidão
Cheira a castanha assada se está frio
Cheira a fruta madura quando é verão
Nos lábios tem um cheiro de um sorriso
Manjerico tem cheiro de cantigas
E os rapazes perdem o juízo
Quando lhes dá o cheiro a raparigas
Um cravo numa água furtada
Cheira bem, cheira a Lisboa
Uma rosa a florir na tapada
Cheira bem, cheira a Lisboa
A fragata que se ergue na proa
A varina que teima em passar
Cheiram bem porque são de Lisboa
Lisboa tem cheiros de flores e de mar
Comprei ontem o primeiro manjerico no Pingo Doce.
Custou-me 1,29 euros, vaso de plástico,
folha grossa.
Há uns anos, também no Pingo Doce, o
majerico custou-me 0,95 euros.
Mas a guerra faz aumentar tudo, tudo, tudo.
Em outros tempos, o Largo de Camões, o
Martim Moniz, o Rossio, enchiam-se de pequenas barracas com montanhas de
manjericos em prateleiras. Pediam um preço, o freguês virava costas e elas
marchavam atrás e em cada passo desciam o preço.
Hoje, os manjericos vendem-se no Pingo Doce,
não sei se em mais alguma grande superfície. Também os encontramos nas
floristas, mas pedem em balúrdio.
Cheguei a comprar sementes de manjerico, mas
não deram em nada.
Dum velho Fugas do Público, deixo-vos
cuidados a ter com os manjericos.
No dia 9 de Dezembro de 2025, Clara Pinto Correia é encontrada morta pela sua empregada doméstica, na casa em Estremoz, para onde se havia mudado há alguns anos.
O que tinha
para dizer?
Que, pelo ano
de 1987, olhando as críticas, comprei o policial Adeus, Princesa, e
recordo-me que me diverti à brava.
Pelo meio,
soube, vagamente, da paixão assolapada que Clara Pinto Correia manteve
com António Mega Ferreira, que deu em casamento.
Era uma das
mulheres mais belas de Lisboa.
Também,
vagamente, soube, algures, de ter sido acusada de plágio relativamente a um
artigo publicado na revista Visão.
Pouco mais
vim a saber sobre Clara Pinto Correia até ter aparecido morta na sua casa de
Estremoz.
Escritora,
jornalista, professora universitária, bióloga e divulgadora e uma vida em que o
mistério, as sombras a envolveram.
Adeus Princesa foi publicado quando tinha 25 anos e marcou
um tempo.
Sabia que o
livro existia na Biblioteca da Casa mas por mero capricho, ou qualquer
outra cousa, tardei em encontrá-lo e acabei por o reler.
Sorri, mas
não me diverti tanto como na primeira leitura.
É natural…
mais que natural…
Não se sabem
os motivos da morte mas lembro-me de ter lido sobre depressão, vícios,
isolamento, problemas financeiros, traumas pessoais derivados dos amigos que a
abandonaram.
A eterna
solidão que, por vezes, invade os artistas, e não só…
Recordo
sempre, ou quase sempre, Tomás da bolandeira no romance Vidas
Secas de Graciliano Ramos, quando Fabiano muitas vezes dissera:
- “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”.
Clara Pinto Correia
Capa: Jorge Colombo
Relógio d’ Água Editores, Lisboa 1987
Não quis acreditar,
mas ela sorria-lhe na escada sem lux. Tinha emagrecido, muito pouco, não lhe
ficava mal. Tão bonita, tão escura. Tão redonda, gritou-lhe Sbastião Curto de
um canto qualquer da memória.
- Posso entrar?
- Bárbara Emília,
tu tem cuidado com o que fazes. Tu entra se tu quiseres, mas eu aviso-te, eu
aviso-te, Bárbara Emília, se entras já não sais. Eu aviso-te, Bárbara Emília,
vê o que estás a fazer. A carne é fraca.
Ela sorria,
vitoriosa.
- Eu sei. Eu sei
que a carne é fraca.
Sem se voltar,
fechou a porta da rua atrás de si. Tinha uns dentes magníficos.
- Mas o molho é
óptimo, Joaquim Peixoto.
…Meu amor países
pátrias têm todos um nome
de letras imundas que não é para escrever
Se ainda podes ouvir o búzio da infância
ouvirás com certeza o sinal de partir
... está escrito que o homem livre fará o seu aparecimento
sob a forma de um cometa de cauda fascinante
que arrastará os amorosos até ao centro do mundo
donde partirão na rosa-dos-ventos e este será o sinal
António
José Forte
SOLTAS DESTA QUINTA-FEIRA
Hoje, foi Dia da Espiga.
Festa da tradição pagã,
também festa religiosa, designada como Quinta-Feira da Ascensão, que é o 40º
dia a partir da celebração da Páscoa.
Em alguns lugares do país,
hoje é feriado local, tradição de outros tempos em que se ia para os campos,
apanhar a espiga, bailaricos, merendar, aquele pic-nic de burguesas em que o
encanto supremo da merenda foi um apanhar de papoilas num granzoal, seios como
duas rolas saindo do ramalhete rubro das papoilas, tal como Cesário Verde
deixou desenhado.
As mulheres que vendiam
ramos de espiga pela cidade, já lhe colocam outros adornos, mas o verdadeiro
ramo de espiga, aquele que a minha avó pendurava atrás da porta da cozinha,
para dar sorte, tinha uma espiga de trigo (pão), malmequeres (ouro e prata),
papoilas (amor e vida), um ramo de oliveira (azeite e paz), um esgalho de
videira (vinho e alegria), alecrim (saúde e força).
Diz-se (ainda se diz?) que
o ramo da espiga deve ser guardado em casa e “não deve ser perturbado na sua
quietude, sendo substituído apenas no ano seguinte por outro igual mas mais
viçoso”.
1.
O presidente daquela coisa está disponível para negociar a proposta laboral, Luís Montenegro, que no dia 13 foi a Fátima, também está disponível para tudo.
Quanto ao Partido Socialista quer conhecer a proposta mas não se mostra disponível para discussões.
2.
Comida ficou mais cara agora do que no início da guerra da Ucrânia.
Em Fevereiro de 2022, Rússia invadiu a Ucrânia. Em janeiro e Abril desse ano, o aumento dos preços de alimentos frescos e essenciais foi de 5,7%. Agora, já vai em 7%.
3.
Rui Manuel Amaral leu no jornal que os assessores mais próximos do presidente norte-americano evitam dar-lhe informações negativas sobre as campanhas militares porque «o Presidente detesta más notícias».
4.
Xi Jinping ,apesar dos muitos sorrisos, avisou Donald Trump de que Taiwan, que reivindica como parte do seu território, pode estragar as relações entre os dois países.
5.
Cuba anuncia esgotamento das reservas de combustível e pede ajuda.
“Não temos absolutamente nenhuma gasolina nem de gasóleo. Já não temos reservas”, declarou o ministro da Energia e Minas, Vicente de la O Levy.
SOLTAS DE OUTROS DIAS
1.
O valor da água que é anualmente desperdiçada em Portugal
devido a rupturas, fugas ou avarias é de cerca de 158 milhões de euros por ano.
2.
Segundo a Pordata quase 40% dos trabalhadores portugueses com menos de 30 anos têm contratos temporários, colocando o país como o quarto com maior precariedade jovem na União Europeia.
3.
Em 10 anos, a venda de antidepressivos e antipsicóticos
cresceu respectivamente 82% e 72%. Em 2025 foram dispensadas por dia, em
Portugal continental, cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos, totalizando
quase 29,4 milhões, o valor mais elevado da última década, com encargos do SNS
a rondar os 152 milhões de euros.
4.
“A Democracia deixa viver os amigos de Ventura e do Chega. Não é certo que os amigos de Ventura deixassem viver as esquerdas e os democratas”
António Barreto, no
Público.
5.
«Quando Maria Antonieta se irritou com o povo faminto que
pedia pão e o mandou comer brioche, inaugurava uma condição a que o futuro
chamaria 'não saber ler a sala'. Não percebeu a brisa a tornar-se vento, nem
que o aroma do ar dos tempos era já mais acre do que rosa. »
Rodrigo Guedes de Carvalho
6.
Indignados, católicos acusam bispos de “desastre” no
tratamento das vítimas de abuso
Cerca de 70 católicos, das mais diferentes dioceses do país, assinaram uma
carta aberta manifestando “perplexidade e indignação” pela forma como a Igreja
Católica em Portugal, e em particular a Conferência Episcopal Portuguesa, tem
lidado com toda a situação dos abusos sexuais. Contestam a linguagem utilizada,
a forma como o processo de compensações foi dirigido e o modo como os bispos
decidiram reduzir os valores a atribuir às vítimas. “Um desastre”, dizem,
acusando os bispos de “falta de empatia”. Prometem que não se vão calar.
Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seca e pálido
quando havia antes um caminho
Não houve nunca amigos nem, pureza
Nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar
A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos álacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insetos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
O mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o ver e as lâminas solares
António Ramos Rosa de Viagem Através de Uma Nebulosa em Obra Poética Vol. I
Ramalho Eanes
O pensamento de Bertrand Russell
Bertrand Russell
Selecção de
textos e Introdução de Romeu de Melo
Tradução: Manuel
Freazão
Capa: A. Dias
Colecção
Perspectivas nº 12
Editorial
Presença, Lisboa, 1966
Qualquer homem que deseje, como eu, uma mudança
fundamental na estrutura da sociedade, é forçado, mais tarde ou mais cedo, a
pôr a si mesmo a questão: o que é que lhe faz parecer um sistema social bom e
outro mau?
Tiveste jeito, como
qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.
Que é a poesia mais que
o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.
Campeões com jeito
é nossa vocação, nosso trejeito.
Esperam de 1 a 10 que a
gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.
Mas do miudame levámos
cada soco!
Achas que foi pouco?
Belarmino:
quando ao tapete nos levar
a mofina,
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.
Um filho da puta de sangue quente
e um filho da puta de sangue frio
distinguem-se instantaneamente:
este tem só tesão de calafrio!
O calor do sentir nada lhe diz:
destruir catedrais sem nada fremir,
por nada ver à frente do nariz,
nada, mas nada lhe faz pressentir.
O filho da puta absoluto simples
destrói cidades e vidas e arte
e cria tragédias dignas de Sófocles.
Invoquemos um raio que o descarte
e o entregue a um feio urubu,
que dele faça infame menu!
Eugénio Lisboa
Tudo em nosso redor são
destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta
minguante, a nossa pele primordial.
Patti Smith em Pão de Anjos
Joe Goes
Tradução: Helena
Domingues
Capa: João
Botelho
Colecção: Série Negra nº 14
A Regra do Jogo,
1983
E para se
vingar, usaria toda a gente. A não ser o herói. Ninguém conseguia usar o… Ned?
Certo. Ned. Fisicamente, podia servir-se do LeGrand Dedod. E até talvez não só
fisicamente.
Mas ninguém
conseguia usá-lo, a não ser que fosse ele a querê-lo. Cínico, sempre nos copos,
leal, incorruptível…
Pentágono calcula que guerra no Irão já custou 24,7 mil milhões de euros.
Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar
que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher
foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?
telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher
nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin
Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic
Há tempos o professor
Olívio perguntou-me:
- Que esperas vir a ser
quando fores crescido?
- Revisor de comboios –
respondi.
O professor Olívio não
foi capaz de esconder a sua surpresa:
- E por quê, não me
dirás?
- Para me fartar de
andar de comboio. Não é maravilhosos viajar durante o dia inteiro?
Júlio Conrado em O Deserto Habitado
Redescoberta da França
Urbano Tavares
Rodrigues
Capa: Acácio
Santos
Seara Nova,
Lisboa Abril de 1973
Quando se vive da escrita e para a escrita, quando se faz da pena e não pròpriamente uma arma (que a pena é a pena e a arma é a arma) mas o veículo necessário, imprescindível de uma comunicação sentida como imperativo ético, social, político (sem abdicar de uma rigorosa exigência estética), acontece perderem-se coisas pelo caminho, caídas em escuros alçapões ou dispersas ao acaso, no efémero quotidiano da imprensa. A esses salvados aqui reunidos sob uma epígrafe comum que, não os abrangendo embora todos, porventura lhes dará sombra da consistência que houveram podido ter, se redigidos ab initio sem condições limitativas, acrescem as advertências, prognósticos e esperanças que o título sugere: «Redescoberta da França.
Noutro tempo, uma reunião que derrapou, perdemos o último Alfa e viemos num lentíssimo comboio que partiu de Campanhã cerca da meia-noite e chegou a Lisboa às seis da manhã.
A CP chegou a ser uma razoável companhia.
Ainda me lembro dos
jardins nas estações e apeadeiros que envolviam concursos e com placa do lugar
conquistado.
A CP nos dias que
correm, e não estou a falar das ferrovias nas beiras e nos alentejos, é um
perfeito desastre.
Pelas esquinas
fala-se que está em andamento a entrega das linhas mais rentáveis a privados…
fala-se… e, tantas vezes…, não há fumo que não dê em fogo…
A tentar deitar fora
papelada e mais papelada, encontrei este livreco com distribuição gratuita nos,
comboios nos «Alfa Pendular», com excertos de «grandes obras literárias» em que
os editores presentes na edição são: Babel, Civilização Editora, Editorial Presença,
Bertrand Editora, Porto Editora.
Claro que é
publicidade paga.
Hoje já ninguém lê,
seja o que for, num comboio, apenas dedilham tele-móveis e coisas quejandas.
Mas se com este livreco, pelo menos,
alguém foi à procura de um livro, diga-se que nem tudo se perdeu.
Fica também o anúncio
que as viagens nos alfas tinham um «toque gourmet».
Agora, Carlos Moedas, inenarrável presidente da Câmara
de Lisboa, está a ser contestado por ter subsidiado um piquenique de gente
fina. A notícia é retirada do Jornal de
Notícias:
«O
apoio de 75 mil euros atribuído pela Câmara de Lisboa ao "chic-nic",
um piquenique realizado no domingo passado no Parque Eduardo VII para assinalar
o Dia da Mãe, continua a gerar forte polémica nas redes sociais, sobretudo
devido aos preços praticados no evento, com experiências e cestos de piquenique
a chegarem aos 300 euros. Uma semana depois, a autarquia ainda não assumiu
posição pública sobre o caso.»
O modo como
Donald Trump trata a guerra que mantém com o Irão, lembra uma frase de Pimenta
Machado, então presidente do Vitória de Guimarães, que ficou para a história do futebol
, e não só:
«O que hoje é
verdade, amanhã é mentira!»
Trump, umas
vezes diz que as «negociações» estão a correr muito bem, para quase de imediato
dizer o contrário.
Ontem, rejeitou
a resposta do Irão à mais recente proposta norte-americana para um acordo de
paz.
«Acabei de ler a resposta dos supostos representantes do Irão. Não gosto — totalmente inaceitável", escreveu Trump na rede social Truth Social, sem acrescentar pormenores sobre a recusa. Noutra publicação feita horas antes, o chefe de Estado acusou o Irão de "enganar" e "gozar" com os Estados Unidos há décadas e avisou que isso iria acabar: "Não se vão rir por muito mais tempo!»
andava eu no liceu: no
salão nobre
dos paços do concelho em matosinhos,
um professor, o óscar lopes, vinha
mostrar à noite que a
literatura
importa a toda a dignidade humana.
iam autores ouvi-lo, jornalistas,
estudantes, gente que ali
morava
e outra que do porto em carro eléctrico,
o “um” para leixões, o “dezasseis”,
passando à carvalhosa,
vinha sempre,
lá estavam joão guedes, tonitruante,
e júlio gesta, afável e risonho,
manuel dias da fonseca,
mais calado,
augusto gomes e suas lentes grossas
a enevoar-lhe o olhar de ver as praias
rasas de cinza e luto,
com vareias
por trágicos naufrágios ululando,
o egito, que então já se escrevia
com os poetas todos
deste mundo,
o eugénio, de cachecol esvoaçante,
a modelar os gestos e os ditongos
medindo mãos e frutos,
depurando
sílaba a sílaba, a sua incandescência
devia ser outono, ou mesmo inverno,
e fazer frio, e não
faltava um torpe
sujeito de soslaio e bloco-notas,
tomando apontamentos com minúcia,
que a subversão quanto
mais culta mais
impalatável era. fuzilavam-no
amigas minhas com o olhar, ficavam
mais belas só por essa
exaltação
contida e faiscante de amazonas,
foi quando eu soube que as mulheres sabiam
resistir por instinto e
se tornavam
mais agilmente elásticas no corpo,
mais livres e arriscadas nos seus gestos,
e no limite a cor
afogueava-as,
e tão fulva energia em nenhum verso
coube jamais, que eu saiba, então na sua
voz calma e portuense,
óscar falava
dos livros, dos autores, como quem trata
de assuntos de família e os desarruma
para os mostrar melhor,
e acontecia
que isso era irrepetível e sem pompas,
como outra intimidade ao nosso alcance:
é sempre desconforme a
literatura.
é mal-estar, princípio de prazer,
é trabalho forçado e liberdade
e um modo mais verbal
de estar no mundo,
e nesse mar óscar lançava as redes
da pesca milagrosa, aquela terra
tinha essas tradições
mais literais,
orlas de oralidade e maresia,
e embarcávamos todos na traineira
e era outra vez o
senhor de matosinhos
com ex-votos à roda: impaciências
de passado e presente na palavra
e, entre a vida e a
morte, o seu fulgor
em que, por crespas ondas, falar era
também filosofar e rebeldia.
tinham saído alguns
discos recentes,
gravados por poetas: eu recordo
a voz do régio num, que achei roufenha
dos ensimesmamentos
presencistas,
e vozes de combate que também
prestavam para pouco, mas sabia
tão bem partir a louça
no salão
daquela edilidade, assim nas barbas
de toda a gente, era porém mais justa
a medida de que óscar
nos falava
pois fazia pensar e punha em causa.
e alguém pedia às vezes um poema
quando a noite avançava
e alguém dizia
outras coisas em código e ficavam
depois pequenos grupos à saída
como em cinemas de
província, como
quem tem mais a dizer e veio vindo
devagar até aqui e aqui se encontra,
à espera de outro
eléctrico ronceiro,
e vai falando tempos esquecidos,
sem pressa e sem vontade de ir embora.
Vasco da Graça Moura
Mas as vidas nunca são
perfeitas e a tal perfeição ninguém sabe o que é.
Marguerite Yourcenar
Legenda: fotografia de André Kertézs