terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

GENTE MINHA, MINHA GENTE

O Armindo descobriu o Daniel Filipe quando, aos 39 anos, o poeta morreu.

Não que os jornais tivessem feito um cântico da sua morte, mas porque os amigos do Daniel Filipe desataram a passar os seus poemas de mão em mão.

Um dia subindo a Rua do Carmo, na grande montra da Discoteca Melodia, vi, em destaque, o Lp  A Invenção do Amor de Daniel Filipe.

«Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares, um cartaz denuncia o nosso amor.»

Assim começa o belíssimo, o extraordinário poema de Daniel Filipe:

«Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com carácter de urgência»

Nos tempos cinzentos, trágicos do salazarismo/caetanismo, Daniel Filipe fez parte de uma longa lista de gente que me ajudou a enfrentar esses dias – Gente Minha, Minha Gente.

Daniel Filipe lutou contra o obscurantismo, a opressão, a ignorância, a insensibilidade. A cidade sufocante, a placidez burguesa dos que faziam por não ver, dos que denunciaram, dos que traíram, a angústia, os amigos presos - «não posso amar serenamente com tantos amigos na prisão», escreveu. Fernando Assis Pacheco, cantou Adriano Correia de Oliveira.

Daniel Filipe foi um homem perseguido e torturado pela Pide,

privado de voz durante o período da ditadura.

«Se um homem de repente interromper as pesquisas e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão já sabeis o que tendes a fazer. Matai-o. Amigo Irmão que seja. Matai-o. Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.»

Levou o tempo que teve de levar, mas escaparam.

Por mais que levantassem os muros.

A censura salazarista proibiu romance de Daniel Filipe O Manuscrito na Garrafa, publicado em 1960.

Proibido por ser considerado “inconveniente, sob os aspectos político, social e moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, to, 73,75, 77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141, 149, revelam a sua índole.”

Um tal José de Sousa Chaves, coronel-trambolho da censura, foi implacável e proibiu o livro: «entendo que não deve ser autorizado a circular no país».

Esta gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira, capacho-mor-do-botas-santa-combista, foram os polícias do nosso pensamento, da nossa liberdade.

Quase meio século de obscurantismo, uma luta desigual, porque os que combatiam estes trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que cortassem a raiz ao pensamento, mas sabia-se que as cantigas podem ajudar, mas não eram armas e o tempo crescia como um deserto e com ele a dor, o desespero, a cólera.

José Osório de Oliveira, escreveu o prefácio do Discurso Sobre a Cidade, livro de crónicas de Daniel Filipe e esgalhou este maravilhoso, perfeito pedacinho:

 «Possuo uma faculdade que tem sido a minha melhor defesa, senão a única de que disponho para não sofrer: a de matar, no meu espírito, aquilo ou aquelas pessoas que passaram a repugnar-me».

RELENDO DANIEL FILIPE

Desertar do céu deste inverno a andorinha

bem pouco diz talvez não o notar

Mas não a ver nem quando o sol domina

que terra tenho eu para me perdoar?

Ruy Belo em Transporte no Tempo (1973) em Todos os Poemas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa com qualquer outro nome teria o mesmo cheiro doce.

William Shakespeare em Romeu e Julieta.

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


Ainda  há milhares de portugueses sem electricidade, sem água, sem comunicações, sem telhas, sem lonas, para cobrir  os telhados que a depressão lançou pelos ares.

As gentes, onde a depressão Kristin foi mais feroz, sentem-se abandonadas.

Mais ainda porque sentem que o governo, as diversas autoridades que as deviam proteger, falharam.

Um homem de 63 anos morreu hoje quando caiu de um telhado que reparava no concelho de Porto de Mós.

Não é o primeiro, talvez não seja o último.

Apesar de a Protecção Civil avisar que, dadas as condições meteorológicas, estes trabalhos não podem ser realizados, mas o desespero destes homens ao verem a chuva continuar a entrar-lhes casa dentro, leva-os a arriscar.

Entretanto o que se passa no campo da tragédia, é muito pior do que podemos imaginar, ou que vamos vendo no corrupio das reportagens televisivas.

2.

A tempestade obrigou a libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água em dois dias para evitar cheias, equivalente ao consumo anual de 3 milhões de pessoas.

Em dois dias, foi preciso libertar, de forma controlada, 500 milhões de metros cúbicos de água das albufeiras de todo o país, por causa da tempestade Kristin. É uma quantidade que equivale a três vezes o consumo anual da Área Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes.

3.

Com as ajudas monetárias, e outras, às povoações, o Governo parece ter dois objetivos: não comprometer as contas públicas, revelando qual é a sua prioridade, e deixar para o sector financeiro toda a acção, de forma a que este lucre com o desespero das pessoas.

É neste sentido que os principais bancos portugueses Caixa Geral de Depósitos e Novo Banco anunciaram linhas de crédito bonificado no total de 400 milhões de euros para as famílias e empresas afetadas pela tempestade Kristin. Para os particulares, a CGD abriu uma linha de financiamento de 300 milhões de euros com uma taxa de juro de 2.15% (taxa mista a 1 ano). Já o Novo Banco abriu uma linha  de 100 milhões de euros, sendo que a linha de crédito para Famílias será bonificado, ou seja, terá uma taxa de juro correspondendo a 65% da taxa de referência do Banco Central Europeu. 

No caso de ambos os bancos, apesar do spread a 0% e isenção de comissões, com o desastre, os bancos estão a procurar atrair novos clientes e a gerar um fluxo futuro de juros. Importa relembrar que em 2025 os cinco maiores bancos a operar em Portugal lucraram mais de 13 a 14 milhões de euros por dia. Só a CGD alcançou um lucro recorde de 1,4 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano, mais 2% do que no período homólogo. 

No blogue Abril, Abril

4

«Árvores arrancadas ao chão, troncos partidos, casas destelhadas, cheias, zonas balneares atapetadas de areia, montras quebradas, postes de alta tensão dobrados, publicidade espalhada pelo chão, lixo, muito lixo, campos de cultivo destruídos, um cenário de quilómetros e quilómetros de destruição. Sem água, sem luz, sem telecomunicações, as pessoas lembram-se de que são pessoas. «Sejam férteis e cresçam; encham a terra e dominem-na; dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» Assim fizemos, esquecendo de que mais do que dominar a terra seria importante preservá-la, prestar-lhe culto, protegê-la, porque, feitas as contas, concluímos que somos parte integrante da terra. Não estamos separados, estamos dentro. Deus que se foda.»

hbmf na Antologia do Esquecimento

5.

A Ministra da Administração Interna deu uma boa ensaboadela à Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. É assim, e não de outro modo, que devemos negociar as leis laborais: lutar pelo direito a trabalhar em contexto de invisibilidade.

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

6. 

«A depressão Kristin não arrancou só vidas, telhados, árvores, postes de alta tensão, mas deixou também expostas as falhas de um Estado que voltou a não estar à altura num momento crítico. Quando foi ao terreno, Marcelo Rebelo de Sousa quis passar a mensagem de que, desta vez, não se terá tratado de uma falta de prevenção. Permita-me discordar, Sr. Presidente: foi precisamente o que aconteceu. Falhamos, uma e outra vez, por falta de prevenção nas políticas públicas, por falta de escolhas responsáveis ao longo de anos, capazes de preparar o país para fenómenos que já não podem ser tratados como inesperados.»

Rui Frias no Diário de Notícias

7.
 
Outra carruagem do comboio de depressões vem a caminho.

O estado do tempo em Portugal continental vai ser afetado entre a tarde de terça-feira e sábado pela depressão Leonardo, prevendo-se chuva persistente e por vezes forte, queda de neve, vento e agitação marítima forte, indicou  o IPMA.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

POSTAIS

 

 Já ninguém escreve cartas, postais.

Noé Cardoso, tripulante de um navio português, a caminho de Buenos Aires, manda saudações - a data não está legível -, para o amigo Raul Ferreira que vivia em Angeja, vila perto de Aveiro.

Curiosamente, em 1965, passei férias em casa da minha avó Brígida no Fontão, uma terreola perto de Angeja.

Colaboração de Aida Santos

POEMAS AUTOGRAFADOS

Alberto de Lacerda e Exílio veio naquela vaga  em que pedi ao meu pai que me ajudasse a encontrar os novos poetas portugueses. O meu pai não era um conhecedor dessa poesia, mas tentou encontrar quem o ajudasse. Disseram-lhe que o melhor caminho era a Colecção Poetas de Hoje, editada pela Portugália Editora.

A vantagem desta colecção única, para além da qualidade dos poetas, residia no facto de a Portugália convidar um poeta para fazer a apresentação do autor.

A Alberto Lacerda calhou o grande poeta e amigo António Ramos Rosa.

Exílio é o nº 13 da Colecção Poetas de Hoje.

Lembro que a poesia de Alberto Lacerda trouxe-me dificuldades, só muito mais tarde debeladas. Nem todas.

Nascido na Ilha de Moçambique, passou pelo Brasil, pelos Estados Unidos e viveu mais de 50 anos em Londres.

O poeta, crítico, e seu grande amigo, Eduardo Pitta, escreveu que Alberto de Lacerda «nunca acertou contas com Portugal que não passou de um intervalo na sua vida.»

Alberto de Lacerda é uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Poucos repararam. Muitos, oh! tantos, tantos, continuam sem reparar.

Morreu em Londres, tinha 78 anos, a 26 de Agosto de 2007. 

John McEwen, o crítico de arte com quem tinha combinado almoçar nesse domingo, estranhou o atraso e acabou por arrombar a porta.

Escreveu Eduardo Pitta:

«Alberto de Lacerda ainda estava vivo, porém em coma. Morreria horas depois. Conhecendo-o como conheci, sei que teria apreciado o detalhe final.»

O POEMA TRANSGRIDE PELA MANHÃ

O poema transgride pela manhã
e cobre gloriosamente a trepadeira púrpura;
agora, que tudo e todos se odeiam,
na impenetrável aurora
sentem-se melhor.

A precisão maligna de impulsos
à astúcia de um pressuposto de luz
(pedaço a pedaço revelando a morte
e o nojo reprimidos)
declina o Tempo zodiacal:
a violenta partição do fluxo:
da Via Láctea ao vírus;
da epifania à produção em série;
do incesto ao tributo pago;
do continente à subida das ágüas;
da fala à sílaba;
da geografia à Arca; …

A gavinha do poema lambe caliça
num recanto de sombra, re-canta:
as escolhas e permutas na cidade-cluster.

De mão estendida o poema alastra.
Já sem núcleo, uma onomatopeia cindida.

Paulo da Costa Domingos

domingo, 1 de fevereiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


Nunca tivemos um Governo tão mau.

Cinco dias depois da passagem da tempestade Kristin, Luís Montenegro, anunciou um conjunto de medidas destinadas às populações e empresas das zonas afectadas, num pacote que ascenderá a 2,5 mil milhões de euros, respondendo de forma indirecta às críticas perante a lentidão da actuação do Estado, mas sem reconhecer falhas na resposta à crise. 

Aumentam para oito as vítimas mortais da passagem da depressão Kristin.

1.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, classificou este domingo, em Roma, como "impressionante" o conjunto de medidas aprovado pelo Governo para apoiar as famílias e empresas fustigadas pela depressão Kristin.

Em declarações aos jornalistas o Chefe de Estado sublinhou a diversidade e a rapidez das intervenções planeadas pelo Executivo de Luís Montenegro.

2.

Joaquim Leitão, que teve cargos de direcção e comando no sector da protecção e socorro, considera que, perante a dimensão das consequências da tempestad Kristin, as Forças Armadas deveriam ter sido mobilizadas mais cedo e requisitadas em bloco.

3.

O parque industrial da Marinha Grande foi severamente afectado pelo mau tempo. Muitos pavilhões ficaram sem tecto e sem paredes, o que obrigou à suspensão da actividade. Sem conseguir produzir e com a maquinaria exposta à chuva e ao vento, empresários enfrentam prejuízos de milhões de euros, mas as contas ainda estão a ser feitas.

4.

"Foi feito tudo aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão", diz Montenegro

Questionado pelos jornalistas sobre as críticas de que a reacção do Governo aos efeitos da depressão Kristin foi tardia, Luís Montenegro disse que "foi feito tudo aquilo que era possível fazer para prevenir e colocar todas as forças em prontidão no terreno. Do ponto de vista daquilo que era possível fazer-se, foi feito".

5.

Situação de calamidade até 8 de fevereiro.

O Governo anunciou ainda que vai apoiar a reconstrução de habitação própria e permanente em intervenções até 10 mil euros "sem necessidade de documentação" para os casos em que não haja cobertura de seguro. As obras de reconstrução dispensarão licenciamento e controlo prévio. O mesmo montante estará disponível para situações relacionadas com agricultura e floresta exatamente no mesmo montante.

6.

Cinco dias depois da Kristin, ainda só há uma rede de telemóvel a funcionar em pleno na Vila Nova de Anços, que se prepara para ser abastecida por água, pelos Bombeiros Voluntários de Soure.

Emília Belém tem 59 anos e uma empresa familiar, com o marido e um dos três filhos, cujo armazém sofreu danos muito significativos, que justificam o fim do negócio. "Ficámos sem nada, temos um prejuízo de mais de 500 mil euros" contou à agência Lusa, adiantando que tinha já material para entregar que "ficou todo desfeito". "Fomos das empresas mais afetadas do concelho", referiu Emília Belém que disse estar "sem forças" para reerguer a empresa Vilagrês.

7.

Fernando Ramos é o proprietário da padaria que neste domingo não conseguiu entregar pão em pelo menos cinco instituições do concelho e que abastece diariamente. A luz só chegou de manhã, mas não havia água. Uma interrupção, porque no próprio dia do temporal, tiveram tudo, menos comunicações e ainda só tem uma rede móvel estável.

8.

Falta de energia agrava perdas das empresas: “Há centenas de empregos em risco”
Ainda se está longe de se poder fazer uma avaliação aproximada dos prejuízos provocados pela tempestade Kristin na região Centro onde, na manhã deste domingo, ainda existiam cerca de 180 mil clientes (empresas e particulares) sem energia eléctrica. Mas a apreensão é muito grande entre os empresários, não só pelos danos provocados pela tempestade da passada quarta-feira, mas também pelos atrasos na reposição de energia — e outras dificuldades de reparação de danos.

Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

NESTE DIA


O ano é o de 1968, estamos a 22 de Dezembro, um domingo.

Jorge de Sena faz o sumário das longas viagens que de 11 de Setembro a 22 de Dezembro fez: 70 cidades, 12 países em 4 meses.

Está em Madrid e ainda pensa ir a Santiago, Burgos, Léon, Valladolid; e é claro, 

Évora, Coimbra, Porto (e rever a Batalha e Alcobaça).

É aqui que queremos registar as agruras por que Jorge de Sena passa antes de entrar em Portugal, país que tanto ama e tantas tristezas lhe tem reservado e que o obrigou a exilar-se  primeiro no Brasil, depois na América:


«Parti às 10,45, perpassam os campos de Castela.

Viagem boa até Marvão – Beirã, por uma paisagem muito semelhante à do Alto Alentejo. Em Marvão, a polícia portuguesa  fez-me sair do comboio, pois eu figurava incrivelmente na lista das pessoas sem direito de entrada. E o chefe trouxe-me de automóvel a Valência de Alcântara, não me sendo possível nada telefonicamente de lá. Foi muito amável. Na estação de Valência, onde fiquei, foram gentis comigo, e consegui lugar para dormir na fonda da Estação. E à conta do cônsul de Portugal, Dom Ramon, telefonei para casa do Presidente Marcelo Caetano. Não estava, mas disseram-me que perto das 8 estaria. Telefonei para o Zé que saíra a esperar-me, e falei com o filho. À 8 voltei a ligar para casa do Presidente do Conselho, que pessoalmente falou comigo, dizendo que o Zé o inteirara da situação e que ia dar ordem à polícia para deixar-me entrar. E terminou dizendo: - Seja bem-vindo – Telefonei então para Marvão, a comunicar ao chefe da polícia a conversação. Irei no comboio das 5 da manhã. Mas ele recomendou-me que falasse primeiro com o chefe da C.P. aqui, a quem telefonariam a recomendação. Escrevia eu isto, telefonou ele, a dizer que estava tudo em ordem, e não havia problema nenhum. E mesmo me lembrou que eu poderia tomar um carro aqui, e ir dormir a Marvão. Mas não há necessidade desta despesa, para tomar meia hora mais tarde o mesmo Lusitânia que tomarei aqui. De resto, ao chegar à fronteira, a alfândega estaria fechada e seria impossível passar. Claro que, com a preocupação de que não me acordem, não vou dormir nada – telefonaram-me duas vezes de Lisboa, entretanto o Notícias e o Século, que, com a Sophia e o Tareco parece insistem em vir buscar-me a Marvão, às 5,50 da manhã. Insisti que não era necessário, mas ficou assim combinado.»

MÚSICA PELA MANHÃ


Ficamos mais uma vez com música portuguesa, concretamente com  um enorme poema de Natália Correia musicado por José Mário Branco.

 

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão

não é a vida, nem é a morte 

sábado, 31 de janeiro de 2026

AS TRAGÉDIAS QUE NOS ATINGEM


JÁ SABÍAMOS, HÁ QUE REPETIR:

O GOVERNO DE LUÍS MONTENEGRO É DE UMA NULIDADE, DE UMA INCOMPETÊNCIA DE BRADAR AOS CÉUS!

Luís Montenegro como primeiro-ministro, tem dificuldade em encaixar a crítica, é teimoso, amiúde, por tudo e por nada, transforma-se em Kalimero.

Não tem uma pontinha que seja de sentido de humor, não é honesto. 

Subiu no PSD, até chegar a presidente, rodeado de gente sem escrúpulos, que lhe permitiram todas as habilidades, autênticos «yes men».

Nos anos que leva de governo, nunca soube rodear-se de pessoas competentes, bem pelo contrário: exemplos gritantes são as ministras da saúde, da administração interna, do trabalho.

Tem um sorriso cínico que lhe serve para todas as ocasiões.

1.

Milhares de casas e estabelecimentos continuam sem luz, sem água, sem comunicações.

2.

O governo decretou tardiamente o estado de calamidade nas áreas mais afectadas.

Nenhum governo pode ser responsável pelos ciclones que assolam o país mas pode ser criticado pelo modo como reage.

3.

O governo precisa de uma remodelação quase total.

Ou por outra: não podemos ter um primeiro-ministro como Luís Montenegro.

Não é admissível ouvir a ministra da administração interna, face à tragédia, dizer que estamos numa aprendizagem colectiva.

4.

Alguém das editorias noticiosas das televisões, TEM que dizer aos seus repórteres que NÃO podem, a alguém que ficou sem casa, ficou sem nada, perguntar: «Como se sente?» ou «qual é o valor do prejuízo», quando ainda o homem nem sequer conseguiu entrar na loja.

5.

António Leitão Amaro, ministro da presidência é um «totó» que tem a mania que é inteligente, que tem graça, e mandou montar um vídeo para as redes sociais em que aparece de mangas arregaçadas, a roer as unhas, a meditar, rodeado de walk-talkies e papelada, em plena tragédia espalhada pelo país, pretendeu mostrar serviço, mas face às amplas críticas que lhe foram dirigidas pelo oportunismo, apagou o vídeo.

“Se vivêssemos em tempos de gente com o mínimo sentido de Estado ou que a ainda restasse alguma decência e o Leitão Amaro não passava nem mais um dia como ministro", como disse Pedro Marques Lopes na SIC.

6.

Em Leiria, Marinha Grande Coimbra assiste-se à queda de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações foram as principais consequências materiais da passagem violenta da depressão “Kristin”7

7.

O Governo decretou situação de calamidade entre as 00h00 de quarta-feira até às 23h59 de dia 01 de Fevereiro para cerca de 60 municípios, número que pode aumentar.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, admitiu em visita ao centro de Leiria, que o Estado tardou a compreender a verdadeira escala da destruição causada pela tempestade Kristin.

8.

Grande número de casas, supermercados, diversos serviços públicos ficaram sem telhados.

Dado que as previsões apontam para mais chuva e vento para domingo e dias seguintes, as pessoas desesperadamente colocam telhas, plásticos e lonas para mais água não entre nas suas casas, nas suas empresas.

Dois homens, um na Batalha, outro em Alcobaça morreram ao caírem de telhados que estavam a reparar-

9.

O dramático quotidiano da tragédia, copiado do Correio da Manhã:

10. 

Segundo a Lusa o o furto de cabos e de gasóleo de geradores tem afectado a reposição do abastecimento de água no concelho de Porto de Mós, no distrito de Leiria, disse o vereador Eduardo Amaral, que manifestou revolta.

"É mesmo revoltante. Depois de uma catástrofe natural, quando as pessoas já estão fragilizadas e a tentar sobreviver, ainda ter de lidar com esse tipo de atitude é de cortar o coração. Roubar cabos e gasóleo não é só roubo, é tirar luz, água, cuidados médicos e segurança a quem mais precisa"

11.

Crónica de Eduardo Dâmado no Correio da Manhã:

«Nas tragédias devemos sempre voltar ao básico. A democracia ergue-se com os pilares da justiça e da lei, da responsabilidade civil, penal e política. Ergue-se com os pilares do serviço e do interesse público. Ergue-se com a prestação de contas. Do Governo perante o Parlamento, dos partidos perante os portugueses, do Presidente da República perante todos. Nas tragédias devemos, por isso, voltar ao essencial da política. Ela não é um mero simbolismo. Deve procurar a sua razão de ser e materialidade no serviço às pessoas. E aí, os portugueses continuam a não ter respostas sérias dos sucessivos Governos na preparação contra os perigos previsíveis, venham eles dos incêndios ou de temporais. Os portugueses continuam a não ter respostas para os apagões, para a catástrofe das mortes na estrada, para as mortes por falta de socorro na saúde, para as vítimas de crimes ou das muitas omissões do Estado. Os portugueses não são protegidos com as frequentes mudanças de políticas, com a privatização de recursos naturais, como tem acontecido com a energia. Os portugueses não são protegidos por ministros que fazem da política exercícios de puro narcisismo, construindo vídeos de autopromoção em plena tragédia. Nem pelos que premeiam a incompetência de colegas, premiando-os para a gestão de empresas públicas. Ao não invertermos o rumo, isto vai acabar mal. A responsabilidade política não pode ser apenas uma folha seca ao sabor do vento».

12.

David Neves, presidente da Federação Portuguesa das Associações de Suinicultores descreveu ao Diário de Notícias que em Leiria e concelhos vizinhos reina a desgraça. A situação nas explorações pecuárias é crítica. Sem eletricidade, água ou acesso a rações, os produtores enfrentam o desespero de não conseguir manter os animais vivos. Estão "com os corações devastados, completamente devastados. E isto é gravíssimo, as empresas da região ficaram "completamente devastadas", especialmente nas zonas mais florestais, onde as infraestruturas de suinicultura são predominantes e onde as consequências da tempestade foram "absolutamente catastróficas".

13.

O ministro da defesa Nuno Melo levou 30/40 militares, mais as televisões, para uma mata qualquer para fazer a limpeza. Acabadas as fotografias, o ministro,  mais a troupe acompanhante, foram-se embora e os militares arrumaram a trouxa e também saíram de cena e ficou o espanto, a revolta dos habitantes que olharam o triste e incrível espectáculo.

14.

Centenas de unidades fabris e supermercados ficaram destruídas após a passagem da tempestade. Trabalhadores vigiam instalações para evitar roubos.

 Se considerarmos que há nas empresas máquinas que custaram mais de um milhão de euros e que não trabalham... temos prejuízos de milhões de certeza.

15.

O município de Proença-a-Nova alertou para a presença de burlões no concelho que se fazem passar por prestadores de serviços de reparação ou fornecimento de matéria e alerta para a necessidade de máxima atenção na contratação de qualquer serviço.

Segundo a autarquia, estas situações ocorrem, sobretudo, em habitações desabitadas e têm resultado em furtos e aconselha a população a contactar imediatamente as autoridades perante qualquer situação suspeita.


16.

Dias de tempestade: a vida sem água nem luz e, para muitos, sem trabalho.

Há centenas de empresas destruídas, algumas não sabem se vão reabrir. Milhares de pessoas sem luz, água e comunicações.  As noites parecem intermináveis.

Mais uma vez, as populações face às catástrofes, sentem-se fragilizadas, desamparadas, as ajudas não chegam ou tardam em chegar e concluem:

NÃO SE PODE CONFIAR NOS GOVERNOS DA NAÇÃO!


Fontes:

Público

Diário de Notícias

Jornal de Notícias

Correio da Manhã

Lusa

MÚSICA PELA MANHÃ


 Luís Carandell, jornalista e escritor catalão disse um dia «Que melhor destino pode ter um bom poema do que ser cantado».

Alain Oulman musicou poemas dos melhores poetas portugueses.

Sabia que Alexandre O’ Neill era um enorme poeta e persegui-o para que lhe arranjasse um poema a que emprestasse a sua música. Demorou o seu tempo mas O’ Neill também entendeu que Oulman érea um grande amigo, um grande músico e num bom qualquer dia saiu-se com Gaivota.

E aí temos um lindíssimo poema, uma lindíssima música a que a grande Amália Rodrigues deu a sua melhor voz e interpretação, ah! aquele se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse

 

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro
dos sete mares andarilho
fosse, quem sabe, o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
ao meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito,
meu amor, na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

LIVROS AUTOGRAFADOS

É vulgar os escritores queixarem-se que as editoras que lhe publicam, atribuem um pequeníssimo número de exemplares das obras destinados a ofertas.

Para as muitas ofertas que têm que fazer a amigos e familiares têm que comprar os livros.

Torna-se estranho, que sabendo-se das queixas dos escritores, João Gaspar Simões que nunca terá sido um salazarista, quando publicou o seu livro Crítica em 1942,  tempos de ditadura, tenha oferecido um exemplar do livro à redacão do jornal A Voz, jornal católico, monárquico, ultra-salzarista, «o jornal diário de maior publicação em Portugal», dirigido por Pedro Correia Marques.

Autor do editorial, que intitulava «Das Ideias e dos Factos», muitas vezes, quase em fecho do jornal, ouvia Emídio Navarro, chefe de redacção:

- Então Sr. Correia Marques, hoje não há ideias?

À LUPA

O governo demorou mais de um dia para perceber a calamidade que se abateu na região centro na madrugada e no dia 28 de janeiro. Provavelmente não sabia, porque aconteceu um apagão na rede de comunicações. E é nestes casos que perguntamos: onde estão os meios do SIRESP que custam tantos milhões aos contribuintes? E a Proteção Civil? Como a Cova da Iria também foi afetada, desta vez nem a proteção divina foi suficiente. Ouvir o autarca de Figueiró dos Vinhos contar ontem de manhã o desespero vivido naquele concelho, bem no centro de Portugal, sem energia, nem comunicações, apenas com o telefone de satélite dos bombeiros, com o qual se ligou ao mundo, pedir ajuda e a declaração de calamidade, mostra o estado frágil do Estado que temos. 

Mais de 30 horas depois do pico da devastação, centenas de milhares de pessoas ainda estavam sem luz. E a ironia é que o governo que incentiva (e bem!) as pessoas a passarem para os eletrodomésticos mais amigos do ambiente ,incluindo os fogões, quando há um apagão elétrico, ficam à toa com saudades do seu velho fogão alimentado pela cara botija de gás.   É  inadmissível que uma região tão importante fique tanto tempo sem energia elétrica e sem comunicações.  

Armando Esteves Pereira no Correio da Manhã

NOTÍCIAS DO CIRCO


Somos um país pobre.

Um comboio de depressões caiu sobre nós.

As depressões têm nomes: «Ingrid», «Joseph», «Kristin».

Pobres que somos, desleixados também, vimos pelas televisões meio país, ou mais, ficar destruído, inundado, sem electricidade, sem comunicações, sem abastecimento de água, sem supermercados ou mercearias e, até agora, seis mortes, muitos feridos atendidos nos hospitais e centros de saúde com "cirurgias e consultas adiadas" e "vacinas em risco de ir para o lixo" um rasto de destruição, um cenário de uma qualquer guerra.

Este pobre país são 4 ou 5 cidades no litoral.

O resto não existe, é um esquecimento, um país à beira da resignação, sem largar um grito.

Um governo fraquíssimo, em que os ministros, os secretários de estado desaparecem, ninguém os vê e não atendem telefones dos autarcas em desespero.

O primeiro-ministro, um rural de Espinho, como lhe chamou Marcelo Rebelo de Sousa, aparece, sem soluções, uma enorme cara de enterro, entremeada com o habitual sorriso cínico, acaba por decretar «estado de calamidade», mas não para todas as autarquias atingidas, Alcácer do Sal, completamente inundada, é um gritante exemplo.

E sempre que uma tragédia acontece, sejam incêndios, apagões, inundações, o que for, bate-se à porta da Europa, que sim senhor…iremos prestar ajuda… e a Van der Leyn a manifestar a Luís Montenegro “a mais profunda solidariedade pelos mortos e danos das tempestades” e que a Comissão Europeia está pronta para apoiar a recuperação…

CANÇÃO DO SEMEADOR

Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.

Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.

Miguel Torga

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Os filhos dos nossos filhos hão-de insultar-nos: «covardes! que nos deram um planeta sujo.

José Gomes Ferreira em Poesia II

Legenda: uma rua de Leiria após a passagem da depressão "Kristin"

JOÃO CANIJO (1957-2026)


Repentinamente, aos 68 anos, morreu o cineasta João Canijo.

À LUPA

A posição de neutralidade assumida pela direcção do CDS em relação à segunda volta das eleições presidenciais não é bem aceite por várias personalidades do partido, cujo antigo líder Paulo Portas já veio dar apoio a António José Seguro.

A Lupa pergunta:

Mas o CDS ainda existe?

ANTÓNIO CHAÍNHO

Aos88 anos, morreu o guitarrista António Chaínho.

«Tudo na vida de António Chaínho parece ter sido obra de pequenos “milagres” ou de inexplicáveis acasos. Até mesmo a sua morte, que de mansinho, sem aviso, nos privou da sua presença física no exacto dia em que ele completava 88 anos, nesta terça-feira, 27 de Janeiro, como confirmou o seu agente artístico.»

Do álbum A Guitarra e Outras Mulheres, escolhemos Sombra com a voz de Teresa Salgueiro.

PERCA

Ainda há luz e já o rumor da tarde
Me separa da sombra do pinhal

Como viver de novo a alegria una
De ter sido nova que falhei

Só o tempo e bem tarde
Me envelheceu
Depois perdi sem saber como o andar
Dos meus passos.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

VELHOS RECORTES


 Recorte do República de 29 de Junho de 1973.

À LUPA


 O debate de ontem nas televisões ajudou a concluir que o presidente «daquela coisa» não é flor que se cheire e que não basta António José Seguro vencer a 2ª volta das presidenciais, é muito importante que ninguém fique em casa e demonstre nas urnas que «aquela coisa» não pode continuar a ofender, a criar cenas de ódio, a desestabilizar um país, já em si tão frágil.

É importante reconhecer, apesar de tudo, a importância do momento que vivemos, representa a necessidade de lutar para que as a esperança em tempos melhores não morra de vez.

Tal como se pode ler na Antologia do Esquecimento:

«Ventura acha que está no caminho certo porque estão todos contra ele. Na verdade, não estão todos contra ele. Mais de 1 milhão de palermas votaram nele. Ele próprio, nas eleições anteriores em que foi candidato, todas e mais algumas, tem vindo a gabar-se de arrasar com este e com aquele porque os portugueses estão do seu lado. Ora, há nesta lógica propagandística uma contradição que não é de admirar. Ventura diz e desdiz a cada hora que passa. O que me parece interessante, desde já, sublinhar é a importância de estarmos todos contra as pragas de ratos, independentemente do caminho que elas sigam. O discurso dos estão todos contra mim é ainda interessante por vir de um bully que passa a vida a estar contra tudo e todos, nomeadamente o PSD e PS, que ele faz equivaler em cartazes sobre corrupção, ou os ciganos, assim generalizados como se no interior da comunidade não houvesse tanta gente diferente. Ventura está constantemente a pôr-se no centro do mundo, as televisões ajudam. Também por isto é tão importante ir votar contra ele, para que finalmente ele perceba que os que estão com ele não são assim tantos como ele apregoa. O que está em causa nas próximas eleições não é a direita versus a esquerda, é indecência versus a decência, não é o socialismo versus as democracias liberais, é o respeito pela Constituição da República versus o desrespeito por uma Constituição que se pretende mudar para favorecer elites contra os direitos de todos, o que está em causa não é 52 anos de corrupção versus três Salazares para acabar com a mama, é a possibilidade de o país continuar a progredir versus um cheque em branco aos pardais das mamadas.»

O SOL DO MENDIGO

Olhai o vagabundo que nada tem
e leva o Sol na algibeira!
Quando a noite vem
pendura o Sol na beira dum valado
e dorme toda a noite à soalheira...
Pela manhã acorda tonto de luz.
Vai ao povoado
e grita:
- Quem me roubou o Sol que vai tão alto?
E uns senhores muito sérios
rosnam:
- Que grande bebedeira!

E só à noite se cala o pobre.
Atira-se para o lado,
dorme, dorme...

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Antoine de Saint-Exupéry

Legenda: fotografia de Vivian Maier