terça-feira, 14 de abril de 2026

OLHAR AS CAPAS


A Maldição Dain

Dashiell Hammett

Tradução: Manuel Grangeio Crespo

Capa: João Botelho

Colecção Série Negra nº 7

A Regra do Jogo Edições, Lisboa, Novembro de 1980

Mas ela não o amava. Pelo menos não há razão nenhuma para supor que sim. Ele não passava para ela dum troféu de caça; e isso é um valor que a morte não apaga. Embalsama-se a cabeça e pendura-se na parede.

A ORDEM DO MAR

À medida que ver se completa em arco
de uma harmonia que reúne o espaço inteiro
a flor se ergue em fantasia calma e se decanta
na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.

Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais
as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção
do mar, a sua ordem múltipla e monótona,
os seus artifícios frescos, a sua fragrância funda.

É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha
mais azul. É o conhecimento de uma ordem
em que as sombras se combinam com o vento,
em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.



António Ramos Rosa de No Calcanhar do Vento em Obra Poética Vol. I


segunda-feira, 13 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


Donald Trump apagou da internet, depois de várias críticas, uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparecia no papel de Jesus Cristo. A fotografia foi publicada pouco depois da troca de acusações com o Papa Leão XIV. Trump recusa pedir desculpa.

John Brennan, ex-director da CIA, declarou, no sábado, numa entrevista, que Donald Trump “está claramente fora de si” e que a 25ª emenda foi escrita a pensar em Donalad Trump.

Criticado por Donald Trump, o Papa Leão XIV diz que vai continuar “a falar claramente contra a guerra, a promover a paz, a promover o diálogo e as relações multilaterais entre os Estados para encontrar soluções justas para os problemas”.

É a resposta do pontífice ao Presidente norte-americano, que o considerou “fraco” por ter criticado a guerra contra o Irão. Leão disse não querer entrar em debate directamente com Trump, mas acrescentou que há “abusos” à mensagem cristã.

«Há demasiada gente a sofrer no mundo actualmente. Demasiados inocentes estão a ser mortos. E penso que alguém tem de dizer que existe um caminho melhor. A mensagem da Igreja, a minha mensagem, a mensagem dos Evangelhos: bem-aventurados os que fazem a paz. Não olho para este papel como sendo político”, disse o Papa.

“Não tenho medo da administração Trump nem de falar abertamente sobre a mensagem do Evangelho, que é o propósito da Igreja. Não somos políticos. 

"O papa Leão é fraco no combate ao crime e péssimo na política externa", escreveu Donald Trump na Truth Social no domingo à noite. "Não quero um papa que acha OK o Irão ter uma Arma Nuclear. Não quero um papa que pensa que é terrível a América ter atacado a Venezuela, um país que estava a enviar quantidades massivas de droga para os Estados Unidos e, ainda pior, esvaziando as suas prisões, incluindo assassinos, traficantes de droga, para o nosso país", prosseguiu. "E não quero um papa que crítica o presidente dos Estados Unidos porque estou a fazer exatamente aquilo para que fui eleito, de forma esmagadora".

O líder dos Estados Unidos referiu ainda que Leão XIV devia "estar agradecido" porque apenas foi eleito papa "porque era americano, e eles pensaram que seria a melhor forma de lidar com o presidente Donald J. Trump". "Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano", acrescentou, referindo ainda que o Sumo Pontífice "é fraco no crime, fraco nas armas nucleares".

OLHAR AS CAPAS


Delineamentos da Filosofia

Bertrand Russell

Tradução: Brenno Silveira

Companhia Editora Nacional, São Paulo 1956

Talvez se pudesse esperar que eu começasse este livro com uma definição de “filosofia”, mas, erradamente, não me proponho fazê-lo. A definição de filosofia variará de acordo com a filosofia que adotamos; tudo o que podemos dizer, para começar, é que há certos problemas, considerados interessantes por certas pessoas, que não pertencem, pelo menos no momento, a nenhuma das ciências existentes. Todos esses problemas são de molde a despertar dúvidas quanto ao que se considera, comumente, como conhecimento; e se tais dúvidas devem ser respondidas, isso só pode ser feito mediante um estudo especial, ao qual damos o nome de filosofia.

E NÃO TE VEREI MAIS NESTA BABILÓNIA...


Recorte da Visão de 12 de Março de 2026.

POEMA DA MORTE NA ESTRADA

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

domingo, 12 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


«Ao aceitar ser arrastado por Israel para a guerra e ao ameaçar dizimar a civilização persa numa noite, o presidente dos EUA não afundou apenas o seu já reduzidíssimo capital ético e político. Donald Trump ultrapassou uma linha que nem muitos dos seus radicalizados apoiantes ousou admitir. Pela primeira vez desde o regresso à Casa Branca, membros MAGA, a base de apoio de Trump, levantaram a voz – em uníssono com os Democratas – para criticar o presidente e admitir a invocação da 25ª Emenda constitucional que prevê a destituição. A admissão do recurso ao genocídio para acabar com aquele que já foi um dos maiores impérios do Mundo só poderia envergonhar os americanos, da mesma forma que deixou perplexos muitos de nós. E nem o anúncio de frágil cessar-fogo, feito pouco antes da hora-limite da infame ameaça, apaga a errância de Trump na tentativa de sair de um conflito que não está a vencer, por muito que grite vitória. A guerra inútil de Trump não mudou o regime em Teerão, não é certo que abra o estreito de Ormuz, não obliterou o poder militar da Guarda Revolucionária, não travou o enriquecimento do urânio iraniano e aumentou a morte de civis no Líbano. Trump é o grande derrotado desta guerra e, mais cedo ou mais tarde, vai pagar por isso.» 

Alfredo Leite no  Correio da Manhã.

1.

Os Estados Unidos e o Irão não alcançaram qualquer acordo de paz no final de 21 horas de negociações no Paquistão.

É provável que existisse alguém que ainda acreditasse em algo diferente do que veio a acontecer.

Vance disse que os Estados Unidos apresentaram a sua "melhor oferta final", mas que os iranianos recusaram a proposta, bem como qualquer compromisso para não desenvolver armas nucleares.

A delegação iraniana, por seu turno, acusa os norte-americanos de terem apresentado "exigências irrazoáveis" e "ilegais". Para além do nuclear, continuam a ser pontos de discórdia o controlo do estreito de Ormuz, o levantamento de sanções e o pagamento de indemnizações de guerra. Não houve acordo em nenhuma das frentes.

A reacção de Donald Trump, é de indiferença. 

"Aconteça o que acontecer, nós ganhamos", declarou ainda na noite de sábado e foi assistir a um combate de luta livre em Miami.

NOTÍCIAS DO CIRCO

A reforma laboral, ou o que lhe quiserem chamar é uma das muitas incompetências do governo de Luís Montenegro:

Final do artigo de opinião de São José Almeida no Público:

«…será necessário que o Governo aja de boa-fé e reconheça que, em democracia, não pode afrontar e desrespeitar o movimento sindical que representa os trabalhadores. E que negociações implicam que haja cedências concretas e reais também da sua parte. Mas negociar nunca passa por tentar “quebrar a espinha aos sindicatos”.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Antes de chegarmos a outros lugares, as músicas que o rádio nos trazia eram portuguesas, francesas, espanholas, italianas, brasileiras.

Aos domingos, com música pela manhã, iremos bater a essas portas, também a outras.




DITOS & REDITOS


O segredo da felicidade são as baixas expectativas.

A laranja de manhã é oiro, à tarde prata, à noite mata.

Envelhecer não é para cobardes.

Vogar nas asas da fantasia.

Quem quer respeito dá-se ao respeito.

Do vinho e da mulher livre-se o homem se puder.

Não há bom caldo só com água.

Fazemos amanhã o que podemos fazer hoje.

sábado, 11 de abril de 2026

SOLTAS


Religiosamente, sou ateu.

Já por aqui contei a história:

Um dos livros herdados da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial Inquérito: A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.

Tinha os meus 17 anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos, não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.

Quanto a religiões fiquei vacinado.

Respeito a fé, as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.

Gostaria que respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.

Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.

O que a igreja portuguesa está a fazer com as vítimas das sevícias dos padres é um nojo!

Leia-se o artigo de Susana Peralta no Público de 10 de Abril: «Generosa com abusadores, avara com vítimas».
“Se há um mal feito por alguém, é esse alguém que é responsável. É uma questão individual” – foram as palavras de José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), duas semanas depois de serem conhecidas as conclusões da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa (CI), coordenada por Pedro Strecht.

Ornelas errou; a Igreja, enquanto instituição, é cúmplice ativa dos crimes. Cito partes do Relatório da CI ao qual voltei nestes dias.

Em primeiro lugar, porque os crimes não são alheios ao ambiente religioso que os propicia. Quando a CI perguntava às vítimas “O que lhe dizia a pessoa abusadora para se aproximar de si?”, uma resposta comum era “Nada”. “Aparentemente redutor, este 'Nada' é bem revelador da perceção do 'direito/poder' que o adulto sente em relação à criança sobre a qual age sem que nada lhe seja devido verbalizar. (...) E é um 'nada' que assenta numa estrutura de poder e de domínio (...).” À pergunta “O que lhe dizia [o abusador] durante o abuso?”, uma resposta comum envolvia “a invocação verbal do (...) desígnio divino e a consequente necessidade de o mesmo ter de ser cumprido (...)”.

Em segundo lugar, porque os abusadores não agiram sozinhos. Uma vítima mulher (página 229) conta o abuso semanal por um padre, a partir dos 5 anos, no orfanato onde cresceu, “com a conivência das freiras”, que a levavam ao abusador quando ele a mandava chamar. Quando se queixou a uma freira, foi tratada de maluca e mentirosa e ficou três dias sem comer. Uma vítima do sexo masculino, na página 224: “Os outros padres nunca nos perguntaram porque faltávamos aos momentos de orientação espiritual — eu acho que, no fundo, sabiam, ou pelo menos desconfiavam [de] que algo estranho se passava.” Mais uma vítima, também homem (página 244), desta feita no hospital de uma ordem religiosa: “Havia um enfermeiro que se chamava Y e que ainda é vivo e que sabia de tudo. Outro auxiliar V também dizia umas coisas tipo: 'cuidado com os padres e com as festas [no sentido de carícias]'.”.


Em terceiro lugar, porque o encobrimento organizado dos abusos propicia o crime, e a solução de rodar os abusadores por paróquias só serve para lhes oferecer mais vítimas numa bandeja.»

Foram pelo menos 4815 as crianças abusadas no seio da Igreja em Portugal, segundo o estudo retrospectivo sobre os abusos sexuais cometidos no seio da Igreja em Portugal desde 1950 até à actualidade. Segundo o coordenador da comissão, Pedro Strecht, esse é o número "absolutamente mínimo", a que foi possível chegar após terem sido validados 512 testemunhos.

Soube-se agora que Igreja Católica vai pagar mais de 1,6 milhões de euros às vítimas de abuso sexual
Foram considerados elegíveis 78 pedidos e 57 já têm os montantes de compensação definidos. Há nove casos a aguardar a definição do montante. Compensações variam entre os nove mil e os 45 mil euros.

Sem perdão!

1.

O objectivo de Rosário Palma Ramalho, ministra do Trabalho, é claro: esmagar os trabalhadores e acabar com os sindicatos. Só há uma resposta para toda esta sanha.

2.

Corridas ao armamento implicam pesados aumentos da despesa, de défices e subidas da dívida pública. Para compensar, FMI vê cortes de 25% nos apoios sociais, de 26% na Saúde e 14% na Educação. 

POEMAS AUTOGRAFADOS


José Gomes Ferreira é o único autor que tem 3 livros publicados na Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora.

Em 20 de Março de 2025 apresentámos o Poema Autografado da Poesia I , no dia 21 de Março de 2026 apresentámos o da Poesia II e hoje apresentamos o da Poesia III.

Na Poesia III encontro os poemas do Zé Gomes de que mais gosto.

Temos por lá «Eléctrico», poemas de 1943 – 1944 – 1945, «Província» 1945 e «Café».

Zé Gomes o poeta de andar a falar sozinho pelas ruas de Lisboa, pontapeando pedras e José Manuel Mendes fala da mágoa de não o considerarem neo-realista:

«O Mário Dionísio, que tinha sido e se manteve, até ao fim da vida, uma referência do movimento em apreço, um crítico finíssimo e escrupuloso, tinha as suas reservas, expressas em textos bastante conhecidos que não vale a pena aqui reproduzir. Mas aquela mágoa, uma mágoa muito mais encenada do que real, que o Zé Gomes alardeava, por não ter sido considerado neo-realista numa época de neo-realismo, mágoa do avesso, uma espécie de enunciação saboreada de singularidade, apenas sublinhava o quanto a sua obra era contaminada não só pelas referências finisseculares  a que aludi, também por uma tangência surrealizante, no Eléctrico notória, entre experimentações e ousadias de vária índole.»

E é este o Poema Autografado de José Gomes Ferreira:

 

Dia de chuva na cidade

triste como não haver liberdade.

 

Dia infeliz

com varões de água

a fecharem o mundo numa prisão.

E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:

“está a cair pao.”

 

Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua

sem pão, nem sol de roupa:

“Eh pequena! Deita-te na rua

e abre a boca…”

 

(Dia em que urdo

este sonho absurdo.)

DESTRUIR UMA CIVILIZAÇÂO É POSÍVEL? É


«A absurda e perigosa ameaça de Trump de destruir uma civilização ,neste caso a milenária civilização persa que, aliás, verdadeiramente não existe nos nossos dias, levanta um conjunto de problemas que revelam tendências profundas do grupo que está à frente dos EUA. Digo isso em primeiro lugar porque duvido muito que tenha sido Trump a escrevê-lo por sua iniciativa. Mas ouviu alguém dizer isso, achou graça, e reproduziu-o. Duvido que Trump saiba alguma coisa da civilização persa antiga e, mesmo apesar da sua loucura, não deve saber nada para se apresentar como um herói moderno da batalha de Maratona. Mas quem falou à sua frente da civilização persa pode pertencer a um grupo de “trumpistas” evangélicos que tomam à letra a ideia de que uma espécie de Armagedão, lá para as terras do Médio Oriente, pode ter o efeito de um regresso de Cristo envolto em chamas purificadoras, ou para fazer uma nova Jerusalém divina, ou para abrir portas ao Juízo Final.»

José Pacheco Pereira no Público

MÚSICA PELA MANHÃ


Guerras.

Sempre as guerras espalhadas por todos os cantos do mundo.

Apenas mortes e destruição.

 As guerras sempre foram um enorme maná para empresas gigantes, e não só, da produção de materiais de guerra.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, em Fevereiro de 2023, fez com que passasse a ser premente, tanto para o Ocidente, como para a Rússia, o aumento da capacidade de produção de equipamento militar.

E assim aconteceu.

As maiores cinco empresas do sector da defesa do mundo (todas norte-americanas), anunciaram uma chuva de receitas no ano de 2023.

E ainda não tínhamos chegados às decisões assassinas de destruição e morte do duo de loucos Donald/Netanyahu, que estão patentes aos olhos incrédulos do mundo, sem que acha alguém, uma organização que ponha fim a esta monstruosidade.  

 

Tempo para ouvir, em Música pela Manhã, Bob Dylan no seu segundo álbum The  Freewheelin’Bob Dylan (1963), a faixa Masters of War que poderão encontrar no 1º Volume das Canções de Bob Dylan, publicadas pela Relógio d’Água:

Vinde, senhores da guerra

Vós que construís todas as armas

Vós que construís os aviões da morte

Vós que construís as grandes bombas

Vós que vos escondeis atrás de muros

Vós que vos escondeis atrás de secretárias

Eu só quero que vocês saibam

Que consigo ver através das vossas máscaras

 

Vós que nunca fizestes nada

Senão construir para destruir

Vós brincais com o meu mundo

Como se fosse o vosso brinquedinho

Vós colocais-me uma arma na mão

E escondei-vos dos meus olhos

E virais as costas e fugis para bem longe

Quando voam as balas velozes

 

Como o Judas de outrora

Vós mentis e enganais

Uma guerra mundial pode ser ganha

Vós quereis que acredite

Mas vejo através dos vossos olhos

E vejo atrvés da vossa mente

Como vejo através da água

Que se escoa pelo cano abaixo

 

Vós firmais os gatilhos

Para os outros dispararem

Depois recuais e ficais a ver

Quando a contagem de mortes se eleva

Vós escondei-vos na vossa mansão

Enquanto o sangue dos jovens

Lhes escorre dos corpos

E se enterra na lama

 

Vós lançastes o pior dos medos

Que alguma vez se pode proferir

Medo de trazer filhos

Ao mundo

Por ameaçardes o meu filho

Por nascer e sem nome

Não valeis o sangue

Que vos corre nas veias

 

Quando é que eu sei

Para falar o que não devo

Vós podeis dizer que sou ignorante

Mas uma coisa há que eu sei

Ainda que seja mais novo que vós

Nem mesmo Jesus jamais

Perdoaria o que fazeis

 

Deixai-me fazer-vos uma pergunta

O vosso dinheiro é assim tão bom

Comprar-vos-á o perdão

Achais que poderia

Penso que descobrireis

Quando a vossa morte vier cobrar o seu direito

Que todo o dinheiro que ganhastes

Jamais vos resgatará a alma

 

E espero que vocês morram

E a vossa morte chegue depressa

Seguirei o vosso caixão

Na pálida tarde

E ficarei a ver até vos baixarem

Ao vosso leito de morte

E vou vigiar a vossa campa

Até ter a certeza que estai mortos

sexta-feira, 10 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


 Definitivamente, há que chamar os bois pelos nomes.

É o que faz, hoje, António Guerreiro no Público, numa crónica a que colocou o título: O demente da Casa Branca.

CÂNTICO

Belo é ver florir os galhos

das velhas árvores.

E ver chegar as aves

que voltam do Sul.

Belo é o sangue rubro

dum lanho fresco,

e o riso que nasce

das nossas palavras.

Belo é o vir da manhã

sobre os telhados nus

das cidades brancas.

E mais belo ainda

que este sol visível

enflorando, amor,

teus longos cabelos

de guizos dourados:

mais belos que os ventos

cavalgando as nuvens

e dizendo-nos: vinde!,

e que o meu gênio abrindo

suas asas nos céus:

 

Mais belo que o fluir

silente desta célula

fluindo nos cosmos:

Mais belo, amor,

que a tua própria beleza

 

é este sol inviolável,

rútilo, no fundo de nós.


Papiniano Carlos

quinta-feira, 9 de abril de 2026

À LUPA

Para além de profundamente ignorante, estúpido e corrupto, Donald Trump é um péssimo carácter.

Vingativo que é, anda a pensar em retirar os Estados Unidos da NATO por a organização não o ter ajudado nos disparates que, juntamente, com Benjamin Netanyahu anda a cometer no Médio Oriente.

Diga-se que Mark Rutte, secretário-geral da NATO, é mais um, dos muitos, capachos de Trump.

Na reunião de quarta-feira, ontem, com Trump, outra coisa não disse que se mostrou muito desapontado com a aliança.

TRUMPALHADAS


 «Lembram-se da rábula do Gato Fedorento em que um funcionário pedia "o papel" a um utente, este perguntava "qual papel", o funcionário respondia "o papel" e os dois ficavam presos num loop interminável? A mais recente comédia de erros da Administração Trump no Médio Oriente parece ter entrado nesse registo absurdo.»

Pedro Guerreiro no Público de hoje.

DAI-ME UMA LEI

Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
por que a guarde, sob pena de enojar-vos;
pois a fé, que me obriga a tanto amar-vos,
fará que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
e dentro na minha alma contemplar-vos;
que, se assi não chegar a contentar-vos,
ao menos que não chegue a aborrecer-vos.

E, se essa condição cruel e esquiva
que me deis lei de vida não consente,
dai-ma, Senhora, já, seja de morte.

Se nem essa me dais, é bem que viva
sem saber como vivo, tristemente,
mas contente porém de minha sorte.

Luís de Camões em  Sonetos

quarta-feira, 8 de abril de 2026

TRUMPALHADAS


O mundo entregue a loucos, a assassinos, a aldrabões.

Na noite de ontem o louco presidente norte-americano  avisou que uma civilização inteira iria morrer, para nunca mais voltar.

«Não quero que isso aconteça, mas provavelmente vai acontecer.»

Antes, utilizando linguagem imprópria para um chefe de Estado, Donald Trump prometeu ao Irão, numa mensagem publicada na Truth Social, que a próxima terça-feira, 7 de Abril, será “Dia das Centrais Nucleares” e “Dia das Pontes”, sugerindo uma forte ofensiva militar norte-americana caso o Irão não cumpra a sua principal exigência: "Abram o raio do estreito, seus sacanas loucos, ou viverão no inferno" (“Open the Fuckin’ Strait, you crazy bastards, or you’ll be living in Hell - JUST WATCH! Praise be to Allah”.

Mas a hora e meia do fim do ultimato que aniquilaria uma civilização para sempre, sabia-se que Washington e Teerão aceitam uma proposta paquistanesa de cessar-fogo de duas semanas.

E agora, o que irá acontecer?

Trump mostra-se desesperado perante uma guerra para a qual foi conduzido por Netanyahu.

O assassino israelita, como se diz na esplanada do Café do Bairro, comeu Donald de cebolada.

O primeiro-ministro israelita afirmou que está pronto para retomar a guerra contra o Irão a qualquer momento, defendendo que o cessar-fogo temporário acordado entre Washington e Teerão "não é o fim" e que Israel ainda tem objectivos a cumprir.

"Ainda temos objectivos a alcançar e iremos alcançá-los, seja através de um acordo, seja através da força", afirmou Benjamin Netanyahu num discurso ao país. Netanyahu disse ainda que a trégua foi decidida "em plena coordenação" com Washington, garantindo que Israel não foi "apanhado de surpresa".

Também o ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Gideon Sa'ar, considerou que "nada está acabado": "Não vejo como é possível aproximar as posições dos Estados Unidos e do Irão."

O mundo permitiu-se respirar de alívio.

Que alívio?

OLHAR AS CAPAS


Alfred Eisenstaedt

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Sonho que algum dia não seja necessário a passagem da mente para o meu dedo.

E em que poderei tirar fotografais com um simples pestanejar.

RETRATOS


Tinha 47 anos, quando morreu a 1 de Abril de 1996.

Por isso, a denominada morte de Mário Viegas, é uma redonda mentira.

Porque ele ainda anda por aí, a beber gin-tónico, a sair do «João Sebastião Bar», cigarro ao canto da boca, abraçado a um rapaz.

No meio de um gin, dizia poemas e palavras.

 Como estas:

« O Humor é a coisa mais séria do mundo.

Esta frase já toda agente conhece… mas tem muita graça! E a mais triste e solitária do Mundo, digo eu. É muito triste e angustiante fazer rir.»

Ou estas:

«Quem não aguenta o silêncio não aguenta a vida».

No tal dia da mentirosa morte de Mário Viegas, José Saramago estava em Lanzarote, e escreveu:

«Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargão da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.» 

ORAÇÃO

Para os meus dias peço,
Senhor dos naufrágios,
não água para a sede, mas a sede,
não sonhos
mas o desejo de sonhar.
Para as noites,
toda a escuridão que seja necessária
para afogar a minha própria escuridão.

Piedad Bonnett


terça-feira, 7 de abril de 2026

À LUPA


 As operações de Páscoa 2026 da PSP e da GNR registaram até ao início da madrugada de domingo 18 mortos, em mais de dois mil acidentes, de que resultaram 42 feridos graves e 668 feridos ligeiros. O ministro da Administração Interna, Luís Neves, já lamentou estes números, bem superiores aos da Páscoa de 2025, e fez um "apelo muito forte" a quem circula nas estradas para que conduzam com precaução: "Nenhuma viagem vale uma vida.

Nos actos de propaganda dos 2 anos de governos liderados por Luís Montenegro, surge um vídeo com um sorridente Luís Montenegro a viajar no banco de trás do carro do estado sem cinto de segurança.

Para que conste:

«A não utilização do cinto de segurança constitui uma contraordenação grave, punível com coima entre 120 e 600 euros, de acordo com o Código da Estrada

O governo de Luís Montenegro é uma feira de vaidades de gente incompetente a pensar em tudo menos no que deviam pensar e para isso são pagos com acresvento de diversas mordomias.

Legenda: fotografia do Correio da Manhã.

OLHAR AS CAPAS

Morte aos Feios

Vernon Sullivan

(Boris Vian)

Tradução: António Sabler

Capa: António S.

Série Negra nº 10

A Regra do Jogo, Lisboa 1981

Levar uma paulada na cabeça, não é nada. Ficar drogado duas vezes na mesma noite, enfim… Mas asir para o fresco e calhar num quarto desconhecido, mais uma mulher, na indumentária de Adão e Eva, aí já começa a ser um pouco forte. Quanto ao que veio a seguir…