sexta-feira, 6 de março de 2026

A MORTE PODE DESTRUIR-ME MAS NÃO ME MATA


 Noutro dia apercebi-me de que os grandes génios da música popular brasileira, Chico, Caetano, Gil, Bethânia, compositores e cantores da banda sonora da vida de tantos de nós, são todos octogenários. Meu Deus, como deixámos que isto nos acontecesse. E agora já não temos José Saramago: perdemos a nossa voz. E Lobo Antunes morreu: perdemo-nos neste labirinto de gritaria, cuspo e fúria desenfreada, e não temos nem um fiozinho de Ariadne para nos resgatar.

Eu, que sempre achei que a arte, fosse a literatura ou a música, não servia para rigorosamente nada, a não ser para ser arte (e isso é tudo), penso nestes anos de fim do mundo, de atrocidades medonhas, em que se dizimam países, se arrasam gerações, se contamina o planeta, com a exaltação vampírica e bélica dos comentadores, que salivam em êxtase, que a literatura, não tendo superpoderes para nos salvar, ao menos serve para nos confrontar com a nossa própria humanidade. É o que nos distingue dos animais e da selvajaria: a capacidade de criar, de imaginar outros mundos, outras vidas, de sermos um bocadinho deus.

Como Lobo Antunes desprezaria estas pessoas, que, das suas cadeiras-gaming, espumam beligerância, e discorrem sobre drones de combate e mísseis hipersónicos. Ele que se arrepiava com os dedinhos ao alto a fazer aspas e com a palavra viral. Que conviveu tão de perto com a morte, com o sofrimento, alheio e próprio, sobreviveu a três cancros agressivos, tratamentos violentos de quimioterapia, cirurgias, internamentos, a uma guerra colonial, à morte de irmãos, amigos e companheiros de batalha. Ele que não suportava o ridículo cheio de pose, a arrogância dos simplórios, mas tinha um carinho quase ternurento pelo napperon em cima do televisor, pelas marquises dos subúrbios, pelas viúvas solitárias que distribuem milho aos pombos. Enfadavam-no as conversas intelectuais, pretensamente eruditas, não frequentava o meio literário, recusava sentar-se com certos (quase todos) escritores portugueses à mesma mesa, não suportava a mediocridade.

Lobo Antunes jogou a sua vida nos romances, também nas crónicas, que eram extraordinárias, mas ele desvalorizava-as. Não gostava de falar delas, eram, dizia, apenas um complemento ao orçamento doméstico. Não apreciava entrevistas, mas não suportava que os jornais ignorassem o seu mais recente romance. Entediavam-no as perguntas do costume, não admitia explicar os seus livros, não assumia "técnicas literárias", nem "estruturas narrativas", detestava "proezas literárias", misturava presente, passado e futuro, porque estava convencido de que os tempos se cruzam e indistinguem, não falava em personagens: eram vozes, que nos sopravam ao longo das linhas dos seus livros.

A força torrencial da sua linguagem alagava tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num delírio caótico. Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Dizia que o jazz que o pai lhe dava a ouvir o ajudou no frasear, no seu trânsito poético, que às vezes se suspende: "Não é cantilena para adormecer", dizia Maria Alzira Seixo, "mas advertência para acordar. A frase não chega até ao fim. A vida não chega…"

Gosto de pensar na sua escrita como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele, que nem sabia abrir um computador e escreveu sempre em caligrafia de formigueiro miniatural. Por isso, nas entrevistas, preferia desconcertar o interlocutor, divergir em direcções improváveis, embaraçá-lo com comentários provocadores, destilar ódio e simpatia em doses iguais, largar com estrondo, em cima da mesa, um comentário brilhante, uma citação das tantas que sabia de cor, sobretudo quando o gravador já estava desligado. No espaço de meia hora conseguia ser superiormente inteligente, louco, enraivecido, ternurento, tortuoso, filosófico, sedutor, cruel, vingativo, encantador… Sempre irresistível.

Às vezes penso que ele próprio foi a mais fascinante personagem que criou. A sua memória de baú sem fundo, a sua enorme atenção, que o acompanhou desde a infância, atenção a tudo, aos detalhes ínfimos, a que mais ninguém reparava, às frases literárias e brilhantes que reproduzia na parede do seu apartamento. Algumas eram suas. Lembro-me de o ver seduzir plateias de centenas de pessoas. De as ver ficar rendidas. De as desiludir também, com o seu ar négligé, misto de fleuma altiva com indiferença estudada, meio distraído, ar de quem já nem está ali naquele palco, porque se evadira para outro lugar, porventura, mais interessante.

Era sempre uma forma de causar desalinho e um certo desconforto. Isso parecia agradar-lhe. E o desalinho e desconforto foram matéria e material dos seus romances. Queria que os livros agarrassem o leitor pelo pescoço, à bruta. E também, por isso, eram maravilhosos e inigualáveis. Parecia gostar de se estar nas tintas, porque tinha alcançado esse estatuto, se lhe apetecia dizia coisas desagradáveis sobre Pessoa e Eça. Olhava para os melhores da literatura com admiração e raiva e pensava: tenho de ser melhor que eles. Leitor insaciável: se um dia não lesse era como se se vestisse sem tomar banho, comentava .
Lembro-me de lhe assistir a momentos de uma alacridade tão infantil e contagiante, em que cantava em voz alta e recitava poemas, e a outros de desdém, perante um público distinto que o homenageava: "Era tão bom que esta gente lesse", segredou-me. Citava o general do século XVII Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Talvez fosse o escritor que conheci que mais se preocupava com a posteridade, mas negava-o: "O que me interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo nos salve, e de que… olhe, de que haja manhã…" E lembrava Hemingway: "A morte pode destruir-me, mas não me mata."

Um dia perguntou-me: "Posso dizer-lhe uma coisa em off?" E fixou-me com aquele olhar muito azul e muito sério: "Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal… Mas é só uma opinião."


Ana Margarida de Carvalho no Público

RETRATOS


Não relia os livros. Não gostava de falar sobre eles. Não sabia como escolhia os títulos das suas obras. Não se achava vaidoso. Não gostava de crónicas. Não lia notícias. Não quis ser nada mais do que escritor, apesar de ter sido também psiquiatra. Não se interessava pelas elites. Não foi consensual. Não chegou a receber o Nobel da Literatura. Não fugiu aos próprios traumas. Foi pelo “não” que tantas e tantas vezes António Lobo Antunes se definiu em entrevistas ao longo da vida, porque nunca estava satisfeito com nada.

Sónia Sapage no editorial do Público de hoje.

OLHAR AS CAPAS

Ler

Nº 37 – Inverno de 1997

Entrevista de António Lobo Antunes

Capa: fotografia de João Francisco Vilhena

Direcção gráfica: Henrique Cayatte

Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Nunca li um livro meu.

ESTOU AQUI

Estou aqui como se te procurasse

a fingir que não sei aonde estás

queria tanto falar-te e se falasse

dizer as coisas que não sou capaz.

 

Dizer, eu sei lá, que te perdi

por não saber achar-te à minha beira

e na casa deserta então morri

com a luz do teu sorriso à cabeceira.

 

Queria tanto falar-te e não consigo

explicar o que se sofre, o que se sente

e perguntar como ao teu retrato digo

se queres casar comigo novamente…

 

António Lobo Antunes em Letrinhas de Cantigas 

quinta-feira, 5 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram.

António Lobo Antunes  de uma crónica na Visão.

VELHOS RECORTES

Curiosamente, a minha descoberta do escritor António Lobo Antunes nasce com uma entrevista di jornalista Carlos Miranda e publicada em A Bola de 12 de Abril de 1980, em que o autor quando o jornal não era o pasquim que hoje é, e em que Lobo Antunes declara a sua loucura benfiquista ao ponto de se sentar nas bancadas de gorro e bandeira.

Li o livro, fiquei um entusiasta-mor de Lobo Antunes e comprei, mal punham pé em escaparate de livraria, os que se seguiram.

Mas à medida que foram sendo publicados ia também crescendo um certo esmorecimento.

Os livros continuavam a ser bem escritos mas tornaram-se pouco entusiasmantes. 
Passei a demorar muito tempo para que terminasse um livro. Desde  Exortação aos Crocodilos que já não os acabo – e o que detesto não conseguir acabar um livro!... – e Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, uma oferta natalícia, nem o iniciei.

O novo livro chama-se Comissão das Lágrimas – Lobo Antunes continua encontrar títulos felizes para os seus livros – e anda à volta do período da vida política angolana, Março 1977, que envolveu Nito Alves e Agostinho Neto.

Diz quem já leu o livro, que Lobo Antunes continua a não fazer muita pesquisa histórica apenas se orientando por vozes, vozes que lhe chegam, e com essas vozes conta a história.

Não irei comprar o livro e, como este Natal é um Natal negro, não dou prendas – apenas a netaria está a salvo – e já declarei que também não as quero receber pelo que nem sequer corro o risco de me ser oferecido.

Não é que me orgulhe – nem pouco, nem muito - pela companhia, mas Clara Ferreira Alves deixa cair, na revista Actual do Expresso, palavras que compreendo muito bem:

Alguns livros são ilegíveis, puro contorcionismo e acrobacia palavrosa, discursos e vozes sem rumo nem identificação, narrativa sem estrutura, personagens apenas nomeadas que nunca chegam a formar-se, muito menos a identificar-se fora da cabeça do escritor. Ele sabe do que está a falar, os leitores. O escritor deixa os livros.

Estas palavras fazem-me lembrar o meu pai, quando dizia que, mal do escritore que tem de ir a casa de cada leitor explicar o que escreveu, o que, no fundo, pretendeu dizer.

Dentro desta amargura gostaria de ressalvar que aprecia muito as crónicas do António Lobo Antunes que as leio, com agrado e gosto, em jornais e revistas e depois, mal sejam reunidas em livro, apresso-me a comprá-lo.

As crónicas de António Lobo Antunes falam do quotidiano das gentes. Numa linguagem simples (por vezes não tão simples quanto isso…), clara, bonita e terna.

É pelas suas crónicas que ainda saúdo António Lobo Antunes.

Legenda: pormenores – naquele tempo A Bola era um jornal de tamanho quase gigantesco, e não deu para a minha nabice crónica o reproduzir.

ANTÓNIO LOBO ANTUNES (1942-2026)


António Lobo Antunes deixou-nos aos 83 anos.

O ACENDER DAS LUZES

Quem ordena estes sonhos

coordena, conduz

os tractores cuidadosos

do ocaso; êmbolos

com frio; quando lavram

o seu frágil fio de fogo

nas árvores, na memória.

 

E mais lentas ainda

as turbinas: turbilhão

que perturba vagarosamente

a ordem interior das coisas

que se deixam sonhar. Com

a polpa dos dedos

colhe-se a demora

para ver melhor. Nenhuma

colagem sublimar;

nem linhas de lume,

chispas, flechas.

 

Adormece talvez

quem ordena; se as lâmpadas

vagueiam e explodem

entre ramagens excessivas;

estes sonhos.


Carlos de Oliveira em Trabalho Poético 2º volume

quarta-feira, 4 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS

 

A Águia

N.º 52, 53, 54 – Abril, Maio e Junho de 1916

Director: Teixeira de Pascoaes

Teófilo Braga, Gomes Leal, Raul Proença, Jaime Cortesão, Marcelino Mesquita, João de Barros, Leonardo Coimbra, Augusto de Castro,  Augusto Gil, Augusto Casimiro, entre outros

Renascença Gráfica, Porto



NOTÍCIAS DO CIRCO

Passos Coelho ex-primeiro ministro e Sérgio Sousa Pinto, ex-deputado, são amigos de longa data e preparam um estudo sobre bloqueios da economia abrangendo reformas estruturais, seja lá o que isso for, a convite da Associação Comercial do Porto e com a colaboração da Faculdade de Economia da Universidade nortenha.

Miguel Relvas diz que Passos é o “navio almirante” da direita, sobre Sousa Pinto nada adiantou.

Que pensará Luís Montenegro – ele pensa!?... – e seus companheiros de governo?

CONVERSANDO


Saiu o último livro do Julian Barnes e é mesmo o último.

Li apenas O Papagaio de Flaubert e gostei. 

Diverti-me bastante. Ainda lembro: «A felicidade é como o sarampo. Se se apanha muito cedo arruína-nos a saúde».

Barnes tem 80 anos. Nasceu em Janeiro de 46, eu nasci em Março de 45.

Deveria ter lido os restantes livros de Barnes. Não se proporcionou. Estive, agora, na livraria, com a Partida, que é o seu último livro, nas mãos. Os livros estão caros, sempre estiveram. Folheei-o, não o comprei porque, um dia destes, hão-de perguntar-me por livros que me querem oferecer.

Neste momento, Barnes, luta contra um cancro, ou o cancro luta contra ele, depende dos pontos de vista. Poderá fazer mais alguma coisa? Na livraria, pacientemente copiei:

“Será que tenho uma lista de desejos, agora que alcancei mais de três quartos de século de idade? Machu Pichu? Angkor Wat? A Antártida? Um safari em África? Não, não sou colecionador geográfico obsessivo. Estive em Ayer’s Rock (quando se chamava assim) e no deserto de Atacama, no Taj Mahal e no Grand Canyon. Pisei todas as massas de terra firme, excepto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio”.

A Quetzal, que edita o livro, publicita:

«Partindo da história de um casal de namorados que se reencontrou quarenta anos depois da separação e que decide tentar «a última possibilidade de ser feliz», Julian Barnes embarca numa deambulação sobre a memória, a doença, a velhice — e, inevitavelmente, a morte.

Barnes não perdeu a leveza, a inteligência aguda nem o sentido de humor neste balanço de vida. E adverte: ao contrário do que a religião e os filmes americanos prometem, a vida é (na melhor das hipóteses) «uma comédia ligeira com um final triste».

Mais do que em qualquer outro dos seus livros, o autor conversa com os leitores, sentados lado a lado numa esplanada, comentando as muitas e variadas expressões da vida. E despede-se deles.

Envolto em grande secretismo até à data de publicação, no octogésimo aniversário de Julian Barnes, Partida é, nas palavras do autor, «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco».

CRÍTICAS DE IMPRENSA

«Uma despedida elegante de um escritor cuja obra não será esquecida tão cedo.»
Kirkus Review

«Barnes explora a memória, a identidade e o envelhecimento neste romance elegíaco e espirituoso. E mantém-se em excelente forma.»
Library Journal

«Barnes tem um espírito extremamente vivo e uma voz distinta que dão alegria e vivacidade às meditações mais profundas.»
The New York Review of Books»

Na crítica que Helena Vasconcelos fez para o Público deu-lhe 5 estrelas, adianto que acho uma idiotice colocar estrelas nas críticas aos livros e aos filmes

Partida, o romance em que Julian Barnes nos diz adeus.

Para um livro sobre as indecências da velhice e a aproximação da morte, Partida é, surpreendentemente, muito divertido. Julian Barnes diz ser um alegre pessimista, facto amplamente demonstrado neste sombrio relato das inúmeras “partidas” que a natureza prega, ao mostrar que nenhum de nós tem o poder de controlar as mutações do corpo e da mente na cavalgada a caminho do desaparecimento e do olvido.


Julian Barnes resolveu despedir-se dos seus leitores.

Sim, claro, ficam os livros e após a Partida, todas as partidas são sempre difíceis, mas pela parte que me toca, terei ainda que ler os livros de Barnes que não li, certamente me divertirei e voltarei sempre a O Papagaio de Flaubert.

PARÁBOLA

Que dúvida tinhas que o fogo passaria por ti?

Bastava ficares em silêncio, aguardares a passagem do vento

a crueldade das flores acesas, outras luzes ao sul.

 

O tempo passou, como a carroça dos ciganos a fechar a feira.

Aqui só ficaram as tendas mais pobres e escuras.

Ainda acreditas que o fogo passará por ti?


Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

terça-feira, 3 de março de 2026

TRUMPALHADAS

1.

Sem alguns assassinos como Maduro e Khameney o mundo fica melhor.

Sem o Trump, o Netanyahu, o Putin, e mais alguns espalhados por aí, o mundo ainda ficaria melhor.

Mas… a morte de toda esta gentalha não trás a paz e a democracia.

O actor Robert de Niro disse há dias:

«Trump nunca vai sair. Temos de o obrigar a sair»

Trump classificou-o:

«É um doente e demente!»

2.

A utilização da Base das Lages é um negócio há longos anos nascido,

Nas letras pequeninas do contrato deverá estar o como e o quando os Estados Unidos a poderão utilizar.

Paulo Rangel, ministro dos negócios estrangeiros de Luís Montenegro, gagueja nas explicações.

Quando, por hipótese, os Estados Unidos invadirem a Gronelândia, bater três vezes na madeira, quais serão as explicações que o ilustre ministro dará?

3.

«Israel e EUA atacaram o Irão no intervalo de negociações (que o mediador classificara como positivas), sem provas de que o país constituía um ameaça nuclear (que os bombardeamentos de Junho teriam eliminado de vez) e sem enquadramento legal (um grande contributo para destruir o direito internacional). Badr al Busaid, ministro das Relações Exteriores de Omã, mediador das negociações entre Washington e Teerão, observou que o ataque “não beneficia os interesses dos EUA nem a causa da paz mundial” e instou os norte-americanos a “não se deixarem arrastar mais: esta não é a sua guerra”. Esta é a guerra de Israel.

Israel não tem interesse em negociar a paz com iranianos ou palestinianos e sabota qualquer hipótese de isso acontecer. O que move Benjamin Netanyahu é a destruição do Irão e aliados. O primeiro-ministro israelita e o seu Governo messiânico convivem bem com a permanência da guerra.»

Amilcar Correia no Público

4.

«A morte de Ali Khamenei na primeira vaga de bombardeamentos conjuntos dos Estados Unidos e de Israel encerra um ciclo de quase quatro décadas de poder absoluto no Irão. Mas abre outro, potencialmente mais perigoso, e mostra que a guerra lançada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, mais do que responder a uma ameaça iminente demonstrável, visou acima de tudo o derrube do regime iraniano.»

 Tiago Luz Pedro

5.

«Donald Trump arrisca-se a envolver os EUA num conflito prolongado, altamente destrutivo e com potenciais danos significativos nos seus meios militares e aliados do Médio Oriente.»
José Pedro Teixeira Fernandes

6.

Zalenski admitiu esta estar preocupado com uma possível escassez de munições para os sistemas de defesa aérea ucranianos, cruciais para neutralizar os ataques russos, caso a guerra no Médio Oriente se prolongue.



Um artigo desta extensão sobre este tema e nem uma palavra sobre o genocídio dos palestinianos. Mais de 75 mil mortos e as cidades de Gaza arrasadas - nem uma palavra. Como se Netanyahu não tivesse a menor participação no que está a acontecer a esta hora no Irão e em todo o Médio Oriente. Sem Netanyahu este ataque não teria metade da eficácia que demonstra. Mas arranjou espaço para mais uma festinha no lombo do Estado Novo. A menos de 2 meses de se completarem 100 anos sobre a instauração da ditadura em Portugal. Não há acasos.

 

 


«Donald Trump arrisca-se a envolver os EUA num conflito prolongado, altamente destrutivo e com potenciais danos significativos nos seus meios militares e aliados do Médio Oriente.»
José Pedro Teixeira Fernandes

O OUTRO LADO DAS CAPAS

O livro está repleto de calão.

Não é que algum desse calão não fosse perceptível,  mas um glossário sempre ajuda a compreender melhor a atmosfera. Foi isso a que se dedicou, para além de tradução, o Mário Henrique-Leiria.

Se bem que as traduções, por aqueles tempos, não fossem bem pagas, mas esperemos que lhe tivesse dado para umas cigarradas e uns bons gins tónicos.



OLHAR AS CAPAS


Rififi

Auguste le Breton

Tradução: Mário-Henrique Leiria

Prefácio: Marcel Sauvage

Capa: Zé Paulo

Colecção Alibi nº 2

Edições 70, Lisboa s/d

Os arredores, Paris, o pesadelo, as ruas, os fantasmas…

Quando a barraca do Sueco ficou à vista, tirou o pé do acelerador e, num último reflexo, arrumou o carro junto ao passeio.

Foi meia hora depois que dois pasmas de giro encontraram o carro. O garoto continuava a dormir. Tony, o tísico, estava caído sobre o volante. Os braços tinham escorregado para o assento. As suas tripas formavam um avental sangrento, sobre as galdinas.

RETRATOS


«E cá voltamos nós ao modo josé. O modo josé, pelos vistos, é a pederneira dos poetas quando vêm para o espelho.

Rememoras e futuras, o mal é esse.

José, na pastelaria da esquina há um pide a fazer horas, e acolá, como veio anunciado na imprensa, à hora xis o burro Canário desce à cidade transportando uma bomba em forma de miosótis, enfiada no cu. Claro, tu já nem pestanejas. Chegas-te ainda mais ao espelho, fechas-te com ele, de ti para ti. Com raiva.

Os censores?, perguntas daí a nada ao espelho. Não dão sinal , os censores?

Não te preocupes. Não te ouvem por enquanto, têm outras vidas.

De resto quem te ouve? Quem dá crédito à tua liberdade? Vamos, fuma, José. Pensa bem esse cigarro. Mede e golpeia a memória, repisa nos teus avisos enquanto o cabelo te embranquece. Olha, é entardecer. E está tão claro.

Aí, nesse espelho, há um não sei quê de pobre diabo no cidadão que te faz frente, aferrado a um orgulho de pataco. Orgulho? Pior para ele, que pouco fez para mudar. Razão? Vigilância? Está bem, deixa-o dizer.

Deve andar nos cinquenta, mais ano, menos ano, e se calhar é por isso que sonda com tamanha inclemência. Cinquenta, meio século de vislumbrada malícia de si mesmo e de nicotina. Cancro apalavrado, ai coitadinho. De quando em quando noto-lhe talvez um perpassar de ironia a traquinar-lhe no rosto, mas se o tem é luz breve e para mais magoada. Não dá sequer para temperar o ar endurecido que há nele e que provém mais do desalinho e do à-balda que doutra coisa. No resto, pouco a acrescentar. Visagem martelada, máscara prevenida, assimetrias de quem se talhou ao azar – e disse. Acta est fabuka, se assim me posso exprimir.

É este o homem que te contempla, José. Que te fuma. Que te duvida.»

José Cardoso Pires em E Agora, José?


DOCE SONHO, SUAVE E SOBERANO

Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!

Ah! deleitoso bem! ah! doce engano,
se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.

Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!

Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.

 

Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 2 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


O que não nos mata, só fortalece.

Nietzsche

NOTÍCIAS DO CIRCO

Como o outro, ele também anda por aí!

Lido no Público:

«Passos Coelho diz que não anda “à procura de nada em particular”.

Em entrevista ao jornal digital Eco, diz estar bem “com a política, o país” e ainda que não tem “desforras para fazer” nem “necessidade de querer provar ou mostrar o que quer que seja”.


No entanto, à pergunta sobre “o que o motiva, afinal?”, Passos Coelho dá uma resposta que pode estar mais próximas das especulações sobre um eventual regresso que têm dominado a discussão política nos últimos tempos. Diz o ex-primeiro-ministro: “As pessoas, no fundo, acham que eu contraí algumas obrigações que não se esgotaram no meu mandato de Governo. Eu compreendo que seja assim e sinto que seja assim”. Passos Coelho não falou em “vaga de fundo”, mas a ideia das “obrigações que não se esgotaram”, sentidas por outros e por si mesmo, abrem margem para várias interpretações.»

Em suma: «Quando quiser candidatar-me, candidato-me e anuncio»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Não havia televisão.

O meu avô paterno era um leitor compulsivo e lia os autores franceses no original.

Durante um tempo, exercitava as traduções e deixou, em cadernos, a tradução de dois livros de Anatole France: Thais e A Ilha dos Pinguins.

Uma letra muito bem desenhada, a caneta de tinta permanente, ainda não tinha chegado o tempo das esferográficas, e os eventuais enganos eram apagados com borracha de tinta.

O meu avô era um simples caixeiro de praça do J. Português da Silva, estabelecimento na esquina na esquina da Rua dos Fanqueiros e percorria Lisboa de eléctrico a vender os Da Senhora da Hora

O meu avô, Mário de seu nome, que, orgulhosamente, se apresentava como republicano histórico, benfiquista e anticlerical, foi toda a sua vida um simples caixeiro caixeiro-de-praça do J. Português da Silva, na Rua da Betesga, esquina com a rua dos Fanqueiros, percorria as lojas dos bairros lisboetas vendendo, linhas meias. lenços e panos de cozinha da Fábrica da Senhora da Hora.

Ganhava uma miséria e, de segunda a sábado, transportava uma enorme mala com as amostras da fábrica da Senhora da Hora.

Mas o meu avô traduziu:

«Apesar da diversidade de distrações que parecem atrair-me, a minha vida só tem um objectivo. Uma grande tendência para o acabamento de um grande desejo.

Escrevi a historiados Pinguins. Trabalhei nelka assiduamente, sem me deixar desanimar pelas dificuldades frequentes, que algumas vezes me pareceram insuportáveis.»

 

 

OLHAR AS CAPAS


A Ilha dos Pinguins

Anatole France

Tradução: Sampaio Marinho

Colecção Livros de Bolso Europa-América nº 176

Publicaçõs Europa-América, Lisboa s/d

Mael, oriundo de uma família real da Câmbria, foi mandado aos nove anos para a Abadia de Yern, a fim de de aí estudar as letras sagradas e profanas. Aos catorze anos renunciou à sua herança e fez voto de servir o Senhor. Repartia as suas horas, segundo a regra, entre o canto dos hinos, o estudo da gramática e a meditação das verdades eternas.

EM NOME DOS QUE CHORAM

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo

 

José Carlos Ary dos Santos

domingo, 1 de março de 2026

POSTAIS SEM SELO


 A democracia é um sistema horrível, mas melhor do que os outros.

Winston Churchill

TRUMPALHADAS

1.

Donald Trump vangloria-se do “sucesso” que tem tido no Irão, mas há dúvidas sobre se terá um plano para o dia seguinte. Encurralada, a cúpula do poder iraniano escolhe um novo líder e a acontecer será mais radical que Khamenei.

2.

Este domingo, Donald Trump descreveu toda a situação como uma vitória: “Está a movimentar-se de forma rápida, ninguém acredita no sucesso que temos tido. Quarenta e oito líderes iranianos foram-se de uma vez”, disse à Fox News.

3.

Em declarações à The Atlantic, Donald Trump pareceu convicto de que existe uma solução: a liderança iraniana está pronta para falar – pelo menos, a que resta. “A maioria destas pessoas já foi. Algumas das pessoas com quem falávamos já foram, porque foi um golpe grande”, afirmou. “Deviam ter chegado a um acordo mais cedo.”

4.

Donald Trump é de opinião que a intervenção no Irão deverá durar 4 semanas e insta os Guardas da Revolução do Irão a “pousarem as armas ou enfrentarem morte certa”
O Presidente norte-americano, Donald Trump, publicou este domingo um vídeo na rede Truth Social onde exortou os Guardas da Revolução do Irão: "Pousem as armas e recebam imunidade total ou enfrentem morte certa. Não vai ser bonito”.

5.

Receando o desenrolar do conflito no Médio Oriente, Israel vai convocar 100 mil soldados na reserva.

RETRATOS


 «Andar no cinema para ser contaminado por gravíssimos defeitos de carácter não é coisa que se faça a um velho católico e apostólico romano. Não acredito que se possam fazer bons filmes em pecado mortal e, por isso, espanta-me que a cólera do Senhor não se tenha ainda abatido sobre mim. É certo que o Senhor conhece a extrema pobreza em que vivo e, não obstante os caminhos da perdição serem infinitos, tem-me guiado certeiramente no exercício da minha arte.»

João César Monteiro