terça-feira, 14 de julho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 A pacata vida intelectual portuguesa funciona entre os artistas como vasos comunicantes. Somos uma pequena banheira e entre editores e escritores há uma troca habitual de favores.

Neste Somos Livros, Francisco José Viegas debruça-se sobre um livro de Gerald Murnane publicado pela Relógio d’Água. Apenas conheço o autor de nome e o que li levou-me a interessar-me pelo livro e debrucei-me sobre o catálogo da Relógio d’Água:

Sobre As Planícies, de Gerald Murnane

 «Aos 87 anos, Gerald Murnane continua a ser o mais provável candidato australiano a juntar-se ao panteão do Nobel, onde já está o seu compatriota Patrick White, vencedor em 1973. […]

Murnane é um autor das vastas extensões australianas, de onde na verdade nunca quis sair. “As Planícies”, de 1982, provavelmente a sua obra-prima e texto mais conhecido, prova-o à saciedade. Trata-se de uma narrativa estranha, esquiva, sempre a deslizar-nos nas mãos, sobretudo quando pensamos que finalmente a agarrámos. […]

O prodígio de “As Planícies” está na forma como Murnane consegue arrancar tanta coisa de quase nada.» José Mário Silva no Expresso de 10 de Abril de 2026.

«Nos seus vastos terrenos, as famílias proprietárias das planícies preservaram uma cultura rica e singular. Obcecadas pelo próprio habitat e pela sua história, contratam artesãos, escritores e historiadores para registarem, com o máximo pormenor, todos os aspetos das suas vidas e da natureza das suas terras.

Um jovem cineasta chega às planícies, na esperança de dar o seu contributo para a elaboração dessa história. Numa biblioteca privada, começa a tomar notas para um filme e escolhe a filha do seu mecenas para o papel principal. Vinte anos mais tarde, inicia o relato da sua inquietante história de vida nas planícies.                                                                  

«O maior escritor vivo da língua inglesa de que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.» [The New York Times]

«Murnane, um génio, é um herdeiro digno de Beckett.» [Teju Cole]

«A convicção emocional é de tal intensidade, o lirismo sombrio de tal forma comovente, a inteligência por detrás das frases lapidadas tão inegável, que suspendemos toda a incredulidade.» [J. M. Coetzee]

«Como em Proust, a especificidade das imagens que persegue e cataloga proporciona um prazer próprio. Mas o efeito da sua escrita reside menos nas imagens em si e mais na forma como o pensamento funciona na mente humana.» [The Guardian]

Gerald Murnane, nascido a 25 de fevereiro de 1939, é um romancista, contista, poeta e ensaísta australiano. Sobretudo conhecido pelo romance As Planícies, publicado em 1982, conquistou reconhecimento pela sua prosa distinta que explora a memória e a identidade, frequentemente esbatendo as fronteiras entre ficção e autobiografia.»

Sobre o livro e o autor retenho uma frase de Francisco José Viegas:

«O estilo tardio e descarnado de Murnane não tem enredo, nem personagens, só memórias e reflexões do narrador. E não pretende mostrar o mundo como ele é, mas como ele nos “parece”, neste caso “lhe parece”, o mundo através da mediação das mente e da memória.»


OLHAR AS CAPAS


Livro de Poemas

António Lobo Antunes

Prefácio: Vitorino Salomé

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2026


Este Fio de Ouro

 

Este fio de oiro ao pescoço

É sinal de que me amas

Mesmo que queira não posso

Ir atirar-me a um poço

Só porque tu não me chamas.

Se chamares talvez eu venha

Ou talvez fique parada

Que o amor é um perde-ganha

E por mais sorte que eu tenha

Ainda não ganhei nada.

Perder sim sei o que é

E no entanto estou aqui.

Vou continuando de pé

Mesmo que a vida me dê

Razões para fugir de ti.

Este fio de oiro afinal

Não é um sinal nenhum

Por meu bem ou por meu mal

Não sou pitada de sal

Que tu tomes em jejum.

E portanto meu amigo

Decide a tua vidinha:

Se és homem fica comigo

E se não ficares te digo

Que me sinto bem sozinha. 

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS

Mais Greguerías de Ramón Gómez de la Serna: 

Quando o comboio acaba de passar ao sol-pôr, dá ao rabo alegremente

Mexia nas chaves de dentro do bolsos para chegar a casa mais cedo.

Quando a navalha do barbeiro apara a nuca, o cliente guarda um minuto de silêncio.

No bilhete de ida e volta, receamos que nos furem a volta em vez da ida, obrigando-nos a voltar às avessas, começando por ir outra vez para de novo voltar.

Ressonar é comer ruidosamente sopa de sonhos.

Quando sentimos um pé frio e outro quente, suspeitamos que um dos dois não é nosso.

Há casais que dormem de costas para não roubarem um ao outro os sonhos ideais.

O que define as mulheres é pensarem que todos os homens são iguais, enquanto que o que perde os homens é crerem que todas as mulheres são diferentes.

Falar ao telefone: fumar cachimbo pelo ouvido.

As recordações encolhem como as camisolas.

O cinema nasceu quando as nuvens paradas das fotografias se puseram a mexer.

S não fôssemos mortais, não podíamos chorar.

AMANTES

sem casa um beco de vento os chama

céus seus a solidão o silêncio o

segredo tremendo que boca de incêndio

os traga

e solta na noite irrestrita vasta

 

céus seus a inconvenção a demora

o denodo furtado ao mito denso

de que o amor se faz—e é—agora

alegre

trilo mútuo sopro recomeço

 

stacatto em loop ao fio do disco

céus seus o risco o riso o raio aí

acaba

a língua rompida cantando o atrito

veloz tristitia do fruto aberto

 

selo

a tenra polpa soluçante ao grito

céus seus o sismo a fita telepática

tão impante falta que falo nihil

placet inestimável nu abjeto

belo

 

ó Paixão rasgo impérvio e lasso

ato

espelhado com colapso sedutor

à escarpa—de onde raro em rigor

se morre ou se tanto só no palco

a luz a paga

 

e cobra

que ávida no tal morro se contrai

morderá sarará escalada dobra

céus seus o susto a vista a vertigem

se se cai

e se resvala céus seus a corda


 Margarida Vale de Gato em Atirar para o Torto

segunda-feira, 13 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Não concebo a vida sem humor; até quando sou eu o motivo de riso.

Inês Meneses

OLHAR AS CAPAS


 Somos Livros

 Nº 43 - Verão de 2026

Revista da Bertrand Livreiros

Periodicidade: Trianual.

Revista gratuita

Ultimamente estamos a apanhar com um tsunami Valter Hugo Mãe.

Entrevistas numa série de jornais de que não anotei as procedências, as datas.

Alguma coisa me está a falhar… mas também nunca li qualquer livro de Hugo Mãe…

No mesmo número da revista um outro rapaz aparece: Francisco José Viegas. Também surge por todo o lado, é director da revista Ler do Círculo de Leitores, editor da Quetzal, escreve uns postais no Correio da Manhã, também assessor cultural do Presidente José António Seguro.

Faz uma abordagem ao livro do escritor australiano Geral Murnane e o seu livro As Planícies, publicado pela Relógio D’Água.

Sobre o escritor:

«Não vê televisão. Nunca andou de avião. Nunca saiu da Austrália. Não vê cinema. Escreve à mão e usa uma velha Monarch com mais de 60 anos».

À LUPA

No melhor pano cai a nódoa?

O ministro da Administração Interna, Luís Neves, quebrou este domingo  o silêncio sobre a polémica que envolve as obras na sua propriedade privada em Odemira.

Tanto quanto se ouviu, apareceu mal preparado e sem colocar qualquer ponta de luz no túnel destas coisas extravagantes que acontecem qundo os governantes se colocam a jeito, sabe-se lá do quê.

Lembre-se o recente caso de Luís Montenegro ainda a percorrer o caminho das pedras.

NOTÍCIAS DO CIRCO

O Governo de Luís Montenegro nomeou, nos últimos dias, 14 dirigentes de topo para os centros distritais do Instituto da Segurança Social (ISS), a maioria dos quais tem ligações ao PSD. Estas nomeações acontecem na sequência da reestruturação do ISS, o que levou à cessação automática das comissões de serviço que estavam em vigor.

OS NOMES

 

Duas vezes se morre:
Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
— Tantos gestos, palavras, silêncios —
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.
Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.
Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer "Meu Deus, valei-me".

Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopéia.
Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.
Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

Manuel Bandeira em Obras Poéticas


domingo, 12 de julho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ

Quando My Fair Lady foi um estrondoso êxito em exibição no esplendor do Cinema Monumental, apareceu este EP com versões de quatro canções do filme nas vozes de Simone de Oliveira e António Calvário.
As canções tiveram uma constante divulgação na rádio, mas nunca tive este disco.
Os parcos tostões não davam mesmo para tudo. 
Melhor dito: não davam para nada.
Encontrei o disco na Loja do Nuno Potes e coloco-o aqui.
Acho a capa uma delícia.
Simone e Calvário são acompanhados pela Orquestra de Jorge Costa Pinto e do Conjunto Sem, e cantam: 

A Rua Onde Mora Meu Bem - Eu Dançaria Assim - O Rei De Roma - Um Bocadinho Só.

Colaboração de Aida Santos





 

DITOS & REDITOS

Que ninguém trabalhe de sol a sol.

Não basta quereres ter a lua, mas não há outra forma de um dia ela ser tua.

Aquele que sabe, não fala; aquele que fala, não sabe.

O pior exemplo que os adultos podem dar aos mais novos: nada é para cumprir.

Descuidar os idosos, ignorar os deficientes.

Seria racista pensar que os estrangeiros não têm direito a ser parvos.

Cada caso é um caso.

A pensar na morte da bezerra.

Legenda: fotografia de Luís Eme

sábado, 11 de julho de 2026

SOLTAS


«Diziam que este ia ser o mundial de futebol da vergonha, e é, por causa dos presidentes do EUA e da FIFA. Nem vale a pena recordar as razões. Personagens como Trump e Gianni Infantino, ou o nosso cruzado André Ventura, são tão coiso que todas as palavras que possamos usar acabam por sair prejudicadas na sua dignidade e importância. Vale mais recorrer ao cartoon, como o do ilustrador Vincent L'Epée para a revista satírica suíça Vigousse, em que o rosto do Presidente americano aparece em forma de sanita aberta. O tampo é dourado, como o seu cabelo.»

Pedro Garcias no Público

1.

A água é um bem precioso, quase ninguém o considera ou protege.

Falta água em Almada.

O jornal coloca em título:  

«O Governo não pode esconder-se atrás da incompetência da autarca»

O Correio da Manhã publicou uma crónica:

«Foi tudo lamentável no maldito baile de máscaras ocorrido ontem em Almada. Claro que a responsabilidade por uma situação tão grave quanto a falta de água é necessariamente da autarquia. A presidente da câmara fica na galeria dos piores autarcas da democracia ao sujeitar a população a viver semanas sem água, sem qualquer plano para evitar o pior, sem a mínima noção do que é preciso fazer, pelos vistos com o drama ainda longe do fim. Mas a forma como o Governo procurou desligar-se do problema, endossando a culpa ao poder camarário, dessa forma partidarizando o drama da falta de água, não foi bonito. A saída de cena da ministra do Ambiente, quando Inês de Medeiros procurava fugir às perguntas dos jornalistas, abandonando a presidente da câmara à sua sorte, não foi uma cena edificante. Naquela circunstância, exigia-se trabalho de equipa, um plano de contingência imediato. As torneiras vão continuar sem água à espera de obras, muito bem. E o abastecimento de emergência? E o pedido de ajuda aos bombeiros para distribuírem água à população? E a solidariedade inter-regional, a articulação de um sistema de transporte de líquido de outras paragens? Até no Algarve, no pico da seca, entretanto minimizada pelas chuvas, e com a pressão do turismo no máximo, foi possível criar abastecimentos de emergência. O Governo não pode esconder-se atrás da incompetência da autarca de Almada. É sua máxima responsabilidade o bem-estar das populações.»

2.

«O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, admitiu numa entrevista ao Financial Times que o rearmamento europeu é uma excelente notícia para os EUA, uma vez que sustentará 195 mil empregos na indústria bélica americana.»

Lido em Abril,Abril

 

Legenda: fotografia de Luís Eme 

MÚSICA PELA MANHÃ


 Bonnie Tyler: uma bela voz e grandes canções.

Morreu aos 75 anos e são dela as canções desta manhã.





sexta-feira, 10 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


De uma palavra sei que tem sentido: é desespero: não importa a causa.

Jorge de Sena

À LUPA

Não há água em Almada mas há um Falcon para o PM ir à bola.

Ana Sá Lopes no Público

NOTÍCIAS DO CIRCO

 Lido no Público, artigo de Samuel Alemão:


«As intenções até são boas, mas os efeitos práticos, em muitas áreas da zona central de Lisboa, têm sido, precisamente, o oposto do idealizado. Mais grave, o sistema Volta, criado para incentivar a devolução de embalagens metálicas e de plástico, contra uma remuneração de dez cêntimos por unidade, tem estado a contribuir para o agravamento de um cenário cronicamente complicado ao nível da higiene urbana em algumas das freguesias do coração da capital. Um facto confirmado ao Público por vários presidentes de junta e reconhecido também pela Câmara de Lisboa.
O assunto tem motivado reclamações em catadupa dos moradores e dos empresários, tendo as freguesias já alertado a Câmara de Lisboa para a necessidade de se tomarem medidas para alterar o actual cenário. Isto porque há agora áreas da capital onde a sujidade é bem maior do que antes da entrada em funcionamento, em Abril passado, do sistema de reciclagem gerido pela SDR Portugal (Sistema de Depósito e Reembolso), formado pelas principais empresas da indústria de bebidas refrescantes, águas e cervejas.»

Há dias, à porta de um supermercado, dois grupos de sem-abrigo, carregados com sacos cheios de latas e garrafas, envolveram-se em forte pancadaria.

TRUMPALHADAS

Há um tempo atrasado, não muito, Donald Trump declarou que as forças militares norte-americanas tinham destruído, por completo, a marinha, a força aérea, o exército do Irão, não restando absolutamente nada.

Uma mentira a juntar a tantas e tantas outras, pelo que, nestes dias, voltou, com o amigo Bibi, a bombardear o Irão.

Continuam a não perceber, para mal do mundo, onde se foram meter!

Entretanto, Israel terá partilhado, recentemente, informação dos Serviços de Segurança com os Estados Unidos que apontam para a existência de um novo plano do Irão para assassinar o Presidente Donald Trump.

OLHAR AS CAPAS


Duplo Crime na Rádio

Rex Stout

Tradução: L. de Almeida Campos

Colecção Vampiro nº 409

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Pela terceira vez voltei a verificar as somas e subtracções finais da primeira página do impresso Modelo 1040, para ficar com a certeza de não me ter enganado. Depois rodei a cadeira de modo a ficar para Nero Wolf, que se encontrava sentado em frente da secretária, situada à direita da minha, a ler um livro de poemas da autoria de um tipo chamado Van Doren, Mark Van Doren. Por isso pensei que também eu poderia  utilizar uma palavra poética.

- É desolador – pronunciei.

Ele não deu qualquer sinal de ter ouvido.

- Desolador – repeti. – Se é que a palavra significa aquilo que julgo. Desolador!

Os olhos dele não se ergueram da página, mas Wolfe murmurou:

- O que é desolador?

- Os números. – Debrucei-me para fazer deslizar sobre o tampo de madeira encerada da sua secretária o Modelo 1040.

-Hoje é o dia treze de Março. Quatro mil trezentos e doze dólares e sessenta e oito cêntimos, a acrescentar às quatro prestações trimestrais já pagas. Depois temos ainda que mandar o 1040-ES referente a 1948, juntamente com um cheque de dez mil dólares. – Fiz estalar os dedos atrás da minha cabeça e perguntei sombriamente: - Desolador ou não?

Wolfe perguntou qual era o saldo da conta bancária e eu disse-lho.

COM ESTA MOEDA

 Com esta moeda

vou comprar

um bouquet de céu

e um metro de mar,

o bico de uma estrela,

um sol a sério,

um quilo de vento,

e nada mais.

Maria Elena Walsh

quinta-feira, 9 de julho de 2026

BOMBARDEAMENTO DE POEMAS


O Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, só foi bombardeado duas vezes na sua existência, a primeira, de má memória, quando os aviões da Força Aérea chilena atacaram o palácio governamental para derrubar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, a 11 de Setembro de 1973. A segunda, de uma forma bem mais bela e criativa, com milhares de poemas soltados de um helicóptero. Foi em 2001, na primeira vez em que o colectivo Casagrande realizou a performance a que chamou, simplesmente, Bombardeamento de Poemas. Desde então, passou por Dubrovnik, Guernica, Varsóvia, Berlim, Londres, Madrid e Roterdão

Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
Este sábado, o grupo chileno (Julio Carrasco, Cristóbal Bianchi e Joaquín Prieto) volta a fazê-lo, desta vez em Barcelona, soltando milhares de poemas sobre a Plaça Nova, para assinalar a iniciativa do governo catalão para assinalar o 50.º aniversário da recuperação da democracia depois da ditadura de Franco. A capital catalã foi uma das mais bombardeadas durante a Guerra Civil espanhola entre 1937 e 1939: 1903 impactos e mais de um milhão de quilos de bombas mataram mais de 2700 pessoas. E o bairro da Catedral, onde está a Plaça Nova, foi um dos mais fustigados pela aviação de Mussolini, vinda a pedido do general Franco e das suas forças subversivas.

Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
“A nossa acção inverte o significado do bombardeio, substituindo as bombas por poemas”, explica Julio Carrasco, citado no site Espanha em Liberdade. “Este deslocamento não procura apagar o trauma histórico, mas tornar visível a memória inscrita no espaço urbano e reactivar a relação emocional das comunidades com o seu passado.”
Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
Os cem mil poemas, que vão descer dos céus impressos em marcadores de página em espanhol e catalão, foram escritos por 50 poetas catalães e outros 50 chilenos (Valeria Marchant entre eles), com menos de 50 anos, e falam de liberdade através da memória, do corpo, da resistência, do exílio e do silêncio.»


António Rodrigues, Público, 19 de Junho

DESENCANTO

Eu faço versos como quem chora

De desalento... de desencanto...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.

 

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...

Tristeza esparsa... remorso vão...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.

 

E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.

 

- Eu faço versos como quem morre.

 

Manuel Bandeira 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Para que serve a utopia?

Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Eduardo Galeano

OS DIAS VISTO DO CAFÉ DO MONTE

Ana Cristina Leonardo preguiçando pelos alentejos-quase-espanha- pouco mais de 200 metros de largura de água fluvial a separar os dois países –:

«A vida decorre, pois, sem novidade, e só o preço da gasolina e das frutas e hortaliças nos relembra que há guerras a decorrer no mundo.»

HÁ SIM! OS SILÊNCIOS...


 «O impacto do som do silêncio é mais forte do que um vídeo milhões de vezes partilhado. Quando é que o silêncio se vai tornar viral? Quando é que vamos perceber que só conseguimos pensar de forma clara e com discernimento se não estivermos atordoados em mil estímulos que nos derrubam a força e o ânimo? As pessoas esquecem-se que precisam de silêncio porque não conseguem chegar a essa conclusão no meio de tanto alarido. 

Continuo a gostar do meu silêncio. Às vezes fecho os olhos e ainda acho que tudo pode ser possível.  

O coração ainda bate.»

Inês Meneses, no Público

SONETO INCOMPLETO

Como foi, meu amor, que não nasceste,

e, onde não sonho, um berço me ficou?

Eu cartas escrevi, que nunca leste;

desejos tive de quem nunca amou.

 

De me fugires, andei quando perdeste,

e de tão pouco resisti qual sou.

Como foi, meu amor, que não nasceste,

e, onde não sonho, um berço me ficou?


Jorge de Sena em 40 Anos de Servidão