Noutro dia apercebi-me de que os grandes génios da música popular brasileira, Chico, Caetano, Gil, Bethânia, compositores e cantores da banda sonora da vida de tantos de nós, são todos octogenários. Meu Deus, como deixámos que isto nos acontecesse. E agora já não temos José Saramago: perdemos a nossa voz. E Lobo Antunes morreu: perdemo-nos neste labirinto de gritaria, cuspo e fúria desenfreada, e não temos nem um fiozinho de Ariadne para nos resgatar.
Eu, que sempre achei que a arte, fosse a literatura ou a música, não servia
para rigorosamente nada, a não ser para ser arte (e isso é tudo), penso nestes
anos de fim do mundo, de atrocidades medonhas, em que se dizimam países, se
arrasam gerações, se contamina o planeta, com a exaltação vampírica e bélica
dos comentadores, que salivam em êxtase, que a literatura, não tendo
superpoderes para nos salvar, ao menos serve para nos confrontar com a nossa
própria humanidade. É o que nos distingue dos animais e da selvajaria: a
capacidade de criar, de imaginar outros mundos, outras vidas, de sermos um bocadinho
deus.
Como Lobo Antunes desprezaria estas pessoas, que, das suas cadeiras-gaming,
espumam beligerância, e discorrem sobre drones de combate e mísseis
hipersónicos. Ele que se arrepiava com os dedinhos ao alto a fazer aspas e com
a palavra viral. Que conviveu tão de perto com a morte, com o sofrimento,
alheio e próprio, sobreviveu a três cancros agressivos, tratamentos violentos de
quimioterapia, cirurgias, internamentos, a uma guerra colonial, à morte de
irmãos, amigos e companheiros de batalha. Ele que não suportava o ridículo
cheio de pose, a arrogância dos simplórios, mas tinha um carinho quase
ternurento pelo napperon em cima do televisor, pelas marquises dos subúrbios,
pelas viúvas solitárias que distribuem milho aos pombos. Enfadavam-no as
conversas intelectuais, pretensamente eruditas, não frequentava o meio
literário, recusava sentar-se com certos (quase todos) escritores portugueses à
mesma mesa, não suportava a mediocridade.
Lobo Antunes jogou a sua vida nos romances, também nas crónicas, que eram
extraordinárias, mas ele desvalorizava-as. Não gostava de falar delas, eram,
dizia, apenas um complemento ao orçamento doméstico. Não apreciava entrevistas,
mas não suportava que os jornais ignorassem o seu mais recente romance.
Entediavam-no as perguntas do costume, não admitia explicar os seus livros, não
assumia "técnicas literárias", nem "estruturas narrativas",
detestava "proezas literárias", misturava presente, passado e futuro,
porque estava convencido de que os tempos se cruzam e indistinguem, não falava
em personagens: eram vozes, que nos sopravam ao longo das linhas dos seus livros.
A força torrencial da sua linguagem alagava tudo, num emaranhado de vozes,
obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem,
atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num delírio caótico. Como uma
partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Dizia que o
jazz que o pai lhe dava a ouvir o ajudou no frasear, no seu trânsito poético,
que às vezes se suspende: "Não é cantilena para adormecer", dizia Maria
Alzira Seixo, "mas advertência para acordar. A frase não chega até ao fim.
A vida não chega…"
Gosto de pensar na sua escrita como um ecrã com várias janelas abertas, em que
um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em
simultâneo. Logo ele, que nem sabia abrir um computador e escreveu sempre em
caligrafia de formigueiro miniatural. Por isso, nas entrevistas, preferia
desconcertar o interlocutor, divergir em direcções improváveis, embaraçá-lo com
comentários provocadores, destilar ódio e simpatia em doses iguais, largar com
estrondo, em cima da mesa, um comentário brilhante, uma citação das tantas que
sabia de cor, sobretudo quando o gravador já estava desligado. No espaço de
meia hora conseguia ser superiormente inteligente, louco, enraivecido,
ternurento, tortuoso, filosófico, sedutor, cruel, vingativo, encantador… Sempre
irresistível.
Às vezes penso que ele próprio foi a mais fascinante personagem que criou. A
sua memória de baú sem fundo, a sua enorme atenção, que o acompanhou desde a
infância, atenção a tudo, aos detalhes ínfimos, a que mais ninguém reparava, às
frases literárias e brilhantes que reproduzia na parede do seu apartamento.
Algumas eram suas. Lembro-me de o ver seduzir plateias de centenas de pessoas.
De as ver ficar rendidas. De as desiludir também, com o seu ar négligé, misto
de fleuma altiva com indiferença estudada, meio distraído, ar de quem já nem
está ali naquele palco, porque se evadira para outro lugar, porventura, mais
interessante.
Era sempre uma forma de causar desalinho e um certo desconforto. Isso parecia
agradar-lhe. E o desalinho e desconforto foram matéria e material dos seus romances.
Queria que os livros agarrassem o leitor pelo pescoço, à bruta. E também, por
isso, eram maravilhosos e inigualáveis. Parecia gostar de se estar nas tintas,
porque tinha alcançado esse estatuto, se lhe apetecia dizia coisas
desagradáveis sobre Pessoa e Eça. Olhava para os melhores da literatura com
admiração e raiva e pensava: tenho de ser melhor que eles. Leitor insaciável:
se um dia não lesse era como se se vestisse sem tomar banho, comentava .
Lembro-me de lhe assistir a momentos de uma alacridade tão infantil e
contagiante, em que cantava em voz alta e recitava poemas, e a outros de
desdém, perante um público distinto que o homenageava: "Era tão bom que
esta gente lesse", segredou-me. Citava o general do século XVII
Montecuccoli, "que sem saber fez mais pela teoria da literatura do que
qualquer académico" ao dizer "é preciso agarrar a oportunidade pelos
cabelos, mesmo sabendo que ela é careca". Talvez fosse o escritor que
conheci que mais se preocupava com a posteridade, mas negava-o: "O que me
interessa a mim ter estátuas equestres? A minha única chance é segurar uma
caneta. Talvez haja dentro de nós uma esperança de eternidade. E de que algo
nos salve, e de que… olhe, de que haja manhã…" E lembrava Hemingway:
"A morte pode destruir-me, mas não me mata."
Um dia perguntou-me: "Posso dizer-lhe uma coisa em off?" E fixou-me
com aquele olhar muito azul e muito sério: "Eu acho que nunca ninguém
escreveu como eu em Portugal… Mas é só uma opinião."
Ana Margarida de Carvalho no Público





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