domingo, 10 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 ATLANTIC - 756 78-1233-1 - edição portuguesa (1984)


Side One

Route 66 – Jeannine – My Cat Fell In The Well (Well! Well! Well!) – The Duke Of Dubuque – How High The Moon

Side Two

Baby Come Back To Me (The Morse Code Of Love) – Safronia B – Heart’s Desire – That’s The Way It Goes – Unchained Melody

Nos tempos maravilhosos das rádios pirata, havia muita merdice, mas também aconteceram excelentes projectos.

Um dos melhores locutores portugueses, Cândido Mota, o melhor apresentador do «Em Órbita» – «um programa feito por todos e dito por mim» - tinha um programa, aos domingos à tarde, na Telefonia de Lisboa, que, agora não lembra o nome, era mais de conversa do que de música.

Numa dessas tardes, lembra-se que era Verão, o Cândido Mota, um bom e largo pedaço de tempo andou às voltas com The Manhattan Transfer.


Ele que, como já disse, só os conhecia de nome e, no ouvido, tinha o registo de uma canção: Chanson d'Amour
, ficou, desde essa tarde de domingo, fã dos The Mannhatan Transfer, muito para aquém de saber porquê.

E, passado o tempo que já foi, continua sem saber o porquê.

Acontece-lhe muito…

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2014 no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.



DITOS & REDITOS


O que o berço deu, a tumba leva.

Ter ideias é um perigo e as pessoas têm medo dos perigos.

Como diriam os godos do Astérix: pode-se ser bárbaro e gostar de flores.

É melhor estar no inferno com gente inteligente do que no paraíso com estúpidos.

O possível é sempre o ideal.

Não acordes cão que dorme.

Bom ter amigos, ainda que seja no inferno.

Mais vale bom vagar que má pressa.

 

sábado, 9 de maio de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 

O Em Órbita teve a sua aparição no FM do Rádio Clube Português às 19 horas de 

1 de Abril de 1965.

O primeiro locutor foi Pedro Castelo, mais tarde surgiria a voz única de Cândido Mota.

O primeiro indicativo musical do Em Órbita foi "Revenge" um instrumental dos Kinks.

Os autores do Em Órbita foram, entre outros, Jorge Gil, José Gil, João Manuel Alexandre e Pedro Albergaria.

Tenta-se a reprodução desse “Revenge”, bem como algumas músicas passadas no Em Órbita. 

Em relação ao Alan Price Set, Cândido Mota dizia «o set de Alan Price».






sexta-feira, 8 de maio de 2026

À LUPA

Da crónica de António Guerreiro no suplemento Ipsilon do Público de hoje.

O OUTRO LADO DAS CAPAS

 É assim que começa o livro do Abel Rosa sobre os Beatles e a Censura em Portugal.

OLHAR AS CAPAS


Os Beatles e a Censura em Portugal

Abel Rosa

Prefácios.

Lauro António

Rui Zink

Âncora Editora, Lisboa, Agosto de 2021

Foi com uma notícia, publicada em Inglaterra no dia 28 de Setembro de 1964, que começou a história deste livro.

Um dos maiores especialistas sobre os Beatles, Mark Lewisohn, presentemente a escrever uma trilogia sobre os quatro de Liverpool, cujo primeiro volume, All These Years Volume One- Tune In. Já foi editado em 2013, enviou um email com dois recortes de jornal e um pedido de informação. A notícia, a mesma nos dois jornais, Liverpool Echo e Liverpool Daily Post, tinha a data de 28 de Setembro de 1964 e Mark pedia-me que confirmasse se era verdadeira e, a sê-lo, quais as cenas ou os diálogos que tinham sido alvo de cortes por parte da censura portuguesa. 

OS DIAS DA RÁDIO


The Golden Age of Old American Radio
Starring Bing Crosby
United Artists Records  UAK  30115

With Jud Conlon’s Rhythmaires
John Scott Trotter and His Orchestra

Apresentador: Ken Carpenter     

Side One

1-Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day - Orchestra   
2- Lady Of Spain – Bing Crosby 
3 - Hello, Hello – Kay Thompson and The William Brothers   
4 -For Me And My Gal - Judy Garland and Bing Crosby
5 - Young At Heart – Bing Crosby
6 - Lazy River And Paper Doll       - The Mills Brothers and Bing Crosby
7 - Where Is Your Heart – Bing Crosby 
8 - Lullaby Of Broadway – Dick Powell and Bing Crosby       
9 - It Might As Well Be Spring – George Burns abd Bing Crosby     
10 - It's Only A Paper Moon – Bing Crosby       
11 -That's A Plenty – Connie Bonwell and Bing Crosby         
12 - You Go To My Head – Bing Crosby
13 - Where The Blue Night Meets The Gold Of The Day (Reprise) – Orchestra


1- Zip-A-Dee-Doo-Dah – Bing Crosby   
2 - I Can Dream Can't I? – The Andrews Sisters and Bing Crosby   
3- Tell Me Why – The Four Aces and Bing Crosby     
4 - Two To Tango – Rosemary Clooney and Bing Crosby       
5 - Mona Lisa – Bing Crosby       
6 - If I Knew You Were Coming I'd Have Baked A Cak - Bob Hope and
     Bing Crosby   
7 - On A Slow Boat To China – Peggy Lee and Bing Crosby 
8 - Medley   
     (You Gotta Start Off Each Day With A Song - Maurice Chevalier and Bing
     Crosby, My Love Parade – Maurice Chevalier- Louise – Maurice Chevalier and
      Bing Crosby - Mimi – Maurice Chevalier)
9 - You Gotta Start Off Each Day With a Song – Jimmy Durante and Bing
      Crosby
10 -You Belong To Me – Bing Crosby     
11 -Wish You Were Here – Bing Crosby
12 - May The Good Lord Bless And Keep You - Nat King Cole, The Andrew
        Sisters and Bing Crosby   
13 - Orchestral Closing
       Where The Blue Of The Night Meets The Gold Of The Day

Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobrevive na memória.

Se bem que o malandro do José Gomes Ferreira lhe tenha dito que «saudades, só do futuro», mas há coisas em que gosta mesmo de voltar lá atrás.

Cresceu a ouvir rádio.

 Primeiro num velho «Pilot», mais tarde, muito mais tarde, num «Blaupunkt já com dois altifalantes laterais, um luxo!, diziam que era estéreo.

 O rádio tocava todo o dia.

 O avô chamava-lhe telefonia.

Os mais variados programas, das mais variadas estações: o folhetim do «Tide» da mãe e da avó, a música clássica do avô, os relatos de hóquei em patins do Torneio de Montreux em cada tempo de Páscoa, ao domingo os relatos de futebol.

 De todas as músicas, ficou-lhe um gosto por «big bands», por «crooners».

 As canções dos primeiros amores, os primeiros bailes, slows, boleros - «a menina dança?»

O modo como uma mão nas costas nos conduzia, podia mudar tudo, passagem quase certa para lá do arco-íris.

 Aquilo a que chamaram a idade da inocência.

 O tempo, onde as promessas, as causas, porque também nos fomos apaixonando por ideias, nos preenchiam os quotidianos.

 Quando ainda acreditávamos, que iríamos ficar fiéis àqueles amigos, àqueles ideais.

 As músicas é que ficaram.

Memórias também: Brigitte Bardot a acenar num velho filme a preto e branco, Sophia Loren a não caber no écran do Cine-Oriente, Eusébio no Mundial de 66 em Inglaterra.

Não vivíamos para ouvir rádio. Somente para melhorar essa vida.

«Rashid: é a primeira casa que vejo sem televisão.

Paul : Já tive uma, mas estragou-se aqui há uns anos e nunca me decidi a substituí-la. De qualquer das maneiras, prefiro não ter nenhuma. Odeio essas porcarias.

Rashid: Mas assim não pode ver os jogos. Disse-me que era fã dos Mets

Paul: Ouço pela rádio. Assim consigo ver muito bem os jogos. O mundo está na nossa cabeça, lembras-te?»

Diálogo do filme «Smoke» de Paul Auster/Wayne Wang

Extinta está a rádio que grande parte da vida o acompanhou.

Degradou-se a partir de um tempo que não sabe onde mora.

 Ou melhor: quando os programas de autores e de vozes eméritos deram lugar às «play-lists», em que uma garotada inculta, aos guinchos, às piadolas sem graça alguma, às conversinhas parvas tiraram o lugar a profissionais como Cândido Mota, Rui Morrison, Maria José Mauperrin, Jaime Fernandes, António Cartaxo, José Duarte, Adelino Gomes, António Curvelo, Aníbal Cabrita, António Sérgio, João David Nunes, Luís Pinheiro de Almeida - «why not?»

E não tem qualquer ponta de esperança que essa rádio regresse nos tempos que ainda terá para andar por aqui.

 Razão única para ter uma ternura especial por este velho LP, que o leva, volta e meia, a pôr o disco a rodar e amiúde senta-se no sofá a ver Os Dias da Rádio do Woody Allen, copo de gin ao lado.


Texto publicado em 11 de Maio de 2018 no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

TRAGÉDIA

Foi para a escola e aprendeu a ler

e as quatro operações, de cor e salteado.

Era um menino triste:

nunca brincou no largo.

Depois, foi para a loja e pôs a uso

aquilo que aprendeu

- vagaroso e sério,

sem um engano,

sem um sorriso.

Depois, o pai morreu

como estava previsto.

E o Senhor António

(tão novinho e já era «o Senhor António»!...)

ficou dono da loja e chefe da família...

Envelheceu, casou, teve meninos,

tudo como quem soma ou faz multiplicação!...

E quando o mais velhinho

já sabia contar, ler, escrever,

o Senhor António deu balanço à vida:

tinha setenta anos, um nome respeitado...

- que mais podia querer?

Por isso,

num meio-dia de Verão,

sentiu-se mal.

Decentemente abriu os braços

e disse: - Vou morrer.

E morreu!, morreu de congestão...

 

Manuel da Fonseca

quinta-feira, 7 de maio de 2026

FEITO POR TODOS E DITO POR MIM


 

RCA VICTOR - TP 328 - edição portuguesa

Dedicated To The One I Love (Bass/Pauling) - Free Advice (M. Gilliam/John Phillips) - Even If I Could (John Phillips) - Once Was A Time I Thought (John Phillips)

Se uma modificação profunda se processou no gosto musical de uma geração, isso deve-se ao "Em Órbita". Raros foram os dias em que o não ouvi no velho “Blaupunkt”, de olho verde à esquerda,” de casa do meu pai.

Isso até Junho de 1967 porque por esses dias assentei praça em Tavira e chegou um tempo em que o FM do Rádio Clube Português não chegava às ondas do transístor de fancaria que ouvia na caserna do CISMI.

Quando passados tempos regressei, o “Em Órbita”, entrara em novas aventuras e deixara de ser o programa que conhecera.

Quem não o ouviu não sabe o que foi e não dá para explicar, se isso, naturalmente, fosse possível – "Um programa feito por todos e dito por mim", como dizia o Cândido Mota, em minha modesta opinião, a melhor voz que o “Em Órbita” teve. (estou de acordo! - nota do editor).

Este disco, com esta bonita capa, Made in Portugal, é um dos muitos que comprei por causa do “Em Órbita” e escolho este porque “Dedicated to the One I Love” se tornou uma das canções das minhas diversas vidas.

“While I'm far away from you, my baby
I know it's hard for you, my baby
Because it's hard for me, my baby
And the darkest hour is just before dawn".

Como diria o Tom Waits, esta é do fundo do coração e como a vida nunca é exactamente o que queremos, transportamos, por vezes, algumas canções que associamos a memórias mágicas.

Mas isto já está a resvalar para a lamechice e por aqui me fecho. Até porque os silêncios são mais preciosos que as palavras e eu só queria lembrar o “Em Órbita”, mostrar esta capa e concluir que, como dizia alguém que agora não lembro o nome, é preciso chegar aos sessenta anos para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

 

Texto publicado em 30 de Junho no inesquecível «IÉ-IÉ» blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

NESTE DIA


Neste dia, que verdadeiramente serão os dias 6 de Setembro de 1969 (carta de Óscar Lopes para António José Saraiva) e Outubro de 1970 (carta de António José Saraiva para Óscar Lopes).

Estamos a consultar a Correspondência trocada entre António José Saraiva e Óscar Lopes).

Amiúde verificamos que o neo-realismo é tratado a pontapé por críticos, escritores, jornalistas, várias outras gentes.

Nas cartas que consultamos, cita-se a de Óscar Lopes e causa alguma perplexidade o seu «ódio» ao neo-realismo.

Vejamos:

«Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neorrealistas do que eu. O próprio Eduardo Lourenço parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel e o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia do Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou, E nunca fui grande admirador de Ferreira de Castro, como creio que tu.»

 

Cita-se agora António José Saraiva:

 

«Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um único grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.

E não há só falta de Invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do Redol e outros.

(…)

Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.

Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte .»

Legenda: pintura de Rogério Ribeiro.

CHORAI NINFAS

Chorai, Ninfas, os Fados poderosos
daquela soberana formosura!
Onde foram parar na sepultura?
Aqueles reais olhos graciosos?

Ó bens do mundo, falsos e enganosos!
Que mágoas para ouvir! Que tal figura
jaza sem resplendor na terra dura,
com tal rostro e cabelos tão formosos!

Das outras que será, pois poder teve
a morte sobre cousa tanto bela
que ela eclipsava a luz do claro dia?

Mas o mundo não era digno dela,
por isso mais na terra não esteve;
ao Céu subiu, que já se lhe devia.

 
Luís de Camões em Sonetos

quarta-feira, 6 de maio de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


Há um poema de Alexandre O’Neill na Feira Cabisbaixa que tem por título Três Carneiros do Tejo que começa: «Nasce na Serra de Albarracin, em Espanha e, entre outras coisas, há um rapaz que, sem malícia, veio, da sombra sei lá de que sobreiro, para dar em alguém, cá na cidade e que terá acabado em polícia porque, diz o poeta:

Ser da polícia, dá cantina, barbeiro, autoridade.

Tempos da ditadura salazarista, negros tempos, em que ser polícia, mesmo sem quaisquer qualificações, para a cantina, o barbeiro, também emprestava um sentido de autoridade sobre os outros.

Hoje, notícia do Público estampada na 1ª página, ficou-se a saber que:

«Há dois chefes da PSP entre os 16 detidos esta terça-feira por suspeitas de envolvimento em mais de duas dezenas de episódios de agressões e tortura ocorridos entre 2024 e 2025 em Lisboa, naquele que ficou conhecido como o caso da Esquadra do Rato.

Tal deve-se ao facto de os dois primeiros agentes detidos, em Julho do ano passado, serem ambos dessa esquadra, onde terão ocorrido alguns dos mais graves episódios de violência. As vítimas seriam na maioria pessoas vulneráveis, como toxicodependentes, estrangeiros e sem-abrigo.»

UMA VOZ ÚNICA


A cremação de Cândido Mota, segundo Teresa Mota, sua filha, ocorreu ontem pelas 13,00 horas no Cemitério do Alto São João.

Segundo reconheceu Herman José: «a melhor voz de sempre da rádio e da locução portuguesas».

Já não veremos mais o rigor das suas eficientíssimas apresentações de artistas e convidados nos palcos das Festas do Avante.

Por estes dias, irei desencantar coisas e loisas do velho Em Órbita onde Cândido Mota foi brilhante mestre.


DECCA - PEP 1159 - 1966

You Were On My Mind – Wat I’m Gonna Be – The Pied Piper – Sweet Dawn My True Love

Neste disco sei que “You Were on My Mind” é a canção forte, de referência, “o grande êxito de Crispian St. Peters”, tal como se pode ler na capa. 

Mas gosto muito de “The Pied Piper”.

Cândido Mota, no “Em Orbita”, a anunciar o disco, as primeiras espiras a rodarem e ele a dizer: “sigam-me que eu sou o tocador da flauta mágica".

Disco comprado na Discoteca Universal, em Lisboa, no dia 30 de Junho de 1966, por expressa e oportuna indicação do “Em Órbita”.



(nota do editor: eu, por mim, tenho a subida honra de ter sido o introdutor de Crispian St. Peters e de "You Were On My Mind" em Portugal, em 1965. Não mais me esqueci disso. Mal recebi o disco, fui imediatamente levá-lo à "23ª Hora", de João Martins. Foi o êxito total! O "Em Órbita" ainda estava a dar os primeiros passos).

 

Texto publicado em 7 de Julho de 2008 no inesquecível «IÉ-IÉ», blogue do Luís Pinheiro de Almeida.

O PRIMEIRO POEMA


In my End is

my Beginning
 

T.S. Eliot
 
 

É difícil não falar aqui, no meio destas prosas soltas, a resvalar aqui e além em confissões pessoais, naquilo que senti ao confrontar-me com este livro póstumo de Nuno Júdice, primeiro poema que inaugura o seu encontro com a morte, essa margem incontornável que envolve de luz negra toda a poesia.

Como apontou certeiramente Tatiana Faia, na apresentação que fez deste livro (Primeiro Poema, Dom Quixote, 2026), aquando do seu lançamento, os últimos versos são o explícito olhar sobre a morte do poeta que maior lucidez sobre a poesia revelou em todo o seu percurso. Organizado, com cuidado atento e permanente fidelidade ao que seria desejo do autor, por Manuela Júdice e Ricardo Marques, este livro culmina nos versos que a seguir reproduzo:

o que eu queria era medir a distância a partir de um relógio

cuja corda se partiu, posso dar voltas ao ponteiro e é

sempre a mesma hora, não se assustem, o tempo não parou

nem vai parar, o que eu tenho no pulso é esse falso

relógio

de luz radioactiva que se pode ver do fundo da

carruagem,

se alguém estiver muito interessado em saber que

horas

são e, na verdade, ninguém precisa disso para nada,

como se o tempo tivesse mesmo parado e está na altura de recomeçar do zero, onde tudo recomeça.

Maurice Blanchot, em La littérature et le droit à la mort, considera a escrita literária como a palavra essencial que nasce do silêncio e da ausência e onde o autor se apaga para dar lugar a uma voz impessoal. Por isso, considera a criação literária como uma experiência de “morrer sem morte”.

Em toda a poesia de Nuno Júdice, o autor apaga-se para dar lugar a um sujeito poético irónico e mesmo, por vezes, divertido. Tornando menos grave essa ausência e dando máscaras à impessoalidade, Nuno Júdice não deixa de entrar plenamente, com a sua poesia, nessa separação das coisas e da vida que funda a palavra literária, mesmo nos belíssimos poemas de amor que põe na boca de Pedro dirigindo-se a Inês ou em múltiplos dizeres de amor desse “ser suposto” (Emily Dickinson) em que todos os grandes poetas transformam a sua subjetividade.

Mas o choque e a revelação que o último (verdadeiramente o último) poema de Nuno Júdice me trouxe foi esse olhar soberano sobre a morte, quando os relógios param e está na altura de recomeçar do zero. Do zero que é o vazio da morte, que a poesia conhece, mas em que por fim o poeta nos deixa, para que nós leitores recomecemos em cada leitura de cada poema a dar sentido às palavras da poesia.

Indo agora talvez demasiado longe na confidência pessoal, tenho andado bloqueado na minha escrita poética pela tentação da prosa, como já escrevi, mas descobri, com a perda do Nuno, que a sua falta foi também uma das causas deste bloqueio.

A amizade do Nuno vem de muito longe na minha vida. O meu projeto poético tem pouco a ver com o seu, mas a palavra poética que nos deixou está sempre presente na minha consciência. Entre os muitos vazios que se me abrem nesta difícil fase da vida, a perda do Nuno avulta, e com a leitura do Primeiro Poema (todos os poemas são um primeiro poema) essa perda ganhou um relevo ainda mais nítido na minha consciência.

Mas ele diz-nos como devemos reagir à sua ausência:

Mas não te obstines: nada do que aqui está, ou

estiver para vir, precisa de mim.

Dirigindo-se a nós do próprio lugar da morte, ele insta-nos a recomeçar (recomeçar do zero, onde tudo recomeça) e recomeçar é o nosso trabalho de leitores, que em cada leitura dos seus poemas vimos recomeçar a obra infinita que ele nos deixou.

Nuno Júdice fica assim sempre connosco.t
 
 

Dedicado à Manuela e à Didas, os dois pilares da nossa amizade


Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

OLHAR AS CAPAS


Willy Ronis

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Nunca procurei o insólito, o nunca visto, o extraordinário, mas sim aquilo que é mais típico da nossa vida quotidiana.

COMO QUEIRAS

Como queiras, Amor, como tu queiras.

Entregue a ti, a tudo me abandono,

seguro e certo, num terror tranquilo.

A tudo quanto espero e quanto temo,

entregue a ti, Amor, eu me dedico.

 

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,

e nada, não, ainda há por que eu não espere

como de quem ser vida é ter destino.

 

As pequeninas coisas da maldade, a fria

tão tenebrosa divisão do medo

em que os homens se mordem com rosnidos

de malcontente crueldade imunda,

eu sei quanto me aguarda, me deseja,

e sei até quanto ela a mim me atrai.

 

Como queiras, Amor, como tu queiras.

De frágil que és, não poderás salvar-me.

Tua nobreza, essa ternura tépida

quais olhos marejados, carne entreaberta,

será só escárneo, ou, pior, um vão sorriso

em lábios que se fecham como olhares de raiva.

Não poderás salvar-me, nem salvar-te.

Apenas como queiras ficaremos vivos.

 

Será mais duro que morrer, talvez.

Entregue a ti, porém, eu me dedico

àquele amor por qual fui homem, posse

e uma tão extrema sujeição de tudo.

 

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

 

Jorge de Sena 

terça-feira, 5 de maio de 2026

CONVERSANDO


Lembrar que, 3 vezes por semana, ás vezes mais porque eles comiam vorazmente, ia de casa até perto do Cine-Oriente buscar folhas de uma enorme amoreira que, por ali existia, para alimentar os meus bichos-da-seda.

Os miúdos, hoje em dia, de volta dos seus, ou alheios, telemóveis sabem lá o que são bichos-da-seda, tê-los em casa, assistir ao evoluir até aos casulos que metia numa caixa de sapatos que guardava na despensa.

Diz a Wikipésia que:

Os bichos-da-seda nascem geralmente no início da Primavera (por volta de Abril), coincidindo com o aparecimento das primeiras folhas da amoreira, que servem de alimento. Em regiões mais quentes, a eclosão pode estender-se até maio ou junho. 

Não que Patti Smith fale de bichos-da-seda no seu Pão de Anjos, mas pelas muitas memórias da infância que ela transporta para o livro: «Deus sussurra através de uma prega no papel de parede, uma gota de água a estalar como uma equação. A luz cai na floresta. Um ancião sentado num barril canta Encontrei uma moeda de ouro num campo, quem ma trocará» Uma criança responde-lhe. Talvez a minha boneca quando a encontrar. Ela tem uma mala cheia de moedas», lembrei-me dos meus bichos-da-seda.

OLHAR AS CAPAS


O Falcão de Malta

Dashiel Hammett

Tradução: Helena Domingos

Capa: João Botelho

A Regra do Jogo Edições, Lisboa Setembro de 1970

O maxilar de Samuel Spade era comprido e ossudo, o queixo era um V saliente e sob o V mais flexível da boca. As narinas desciam recortando outro V mais pequeno. Os olhos cinzentos amarelados abriam-se horizontalmente. Espessas sobrancelhas que emergiam de duas rugas paralelas ao cimo de um nariz adunco formavam novo V e o cabelo castanho adensava-se, a partir de têmporas altas e lisas, no cimo da testa. Tinha o ar agradável de um demónio loiro.

TEU ROSTO

Uma mão – de quem?,

a pele azul, as unhas vermelhas,

segura uma paleta.

Quero ser uma cara, diz a paleta.

E a mão converte-se em espelho

e no espelho aparecem teus olhos

e teus olhos tornam-se árvores, nuvens, colinas.

Um carreiro serpeia entre a fila dupla

das insinuações e alusões.

Por esse carreiro chego à tua boca,

fonte de verdades recém-nascidas.

 

Octavio Paz

segunda-feira, 4 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Será tempo de dizer que gosto mais da escrita de Patti Smith do que das suas músicas, canções.

Suponho que isto deverá incomodar algumas gentes mas é o que me ocorre e cada vez, à medida que a velhice avança, estou mais surdo, mais dado a disparatar.

Mas é a própria Patti Smith que, numa entrevista disse: «reafirmei para mim mesma o desejo de escrever — mais do que cantar, gravar, fazer shows. Ser uma escritora é a coisa mais importante para mim. É o que me dá mais prazer e, também, me exige mais esforço.»

O último livro de Patti Smith é, como os anteriores, uma viagem pelas memórias de toda uma vida. 

 «Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial».

Uma outra citação:

«Com a minha mãe e o meu pai a trabalhar e os meus irmãos longe, ficava deitada sozinha com os meus livros, bem aconchegada, a telefonia sintonizada na estação de música clássica que o meu pai preferia. Por vezes, ouvia alguma coisa que me enchia de uma emoção sem nome. Certa manhã, ouvi uma voz tão bela que me senti transportada para outro reino. Anotei o nome da canção, uma ária da Madame Butterfly, e escutava atentamente a telefonia, na esperança de tornar a ouvi-la.»

O livro, citado na badana, tem um feitiço poderoso, escreveu um crítico no The Guardian e eu apresso-me a concordar.

OLHAR AS CAPAS


Pão de Anjos

Patti Smith

Tradução: João Pedro Vala

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Abril de 2026

Que valor tem o sangue em comparação com as necessidades de uma criança faminta? Onde se situam os nossos esforços na balança do valor? O pergaminho desenrola-se, os anjos guiam a minha pequena barcaça. Arrasto uma rede e retiro o casaco descartado, a pele, os amores, células moribundas das marés do corpo de água. Vejo-me na tal varanda do Hotel Suisse, uma simples escritora de férias, vestida de branco, a contemplar fixamente uma mancha triangular no centro da baía. A vaga comichão regressa. O que devo escrever e juntar? Prometo ser boa. Escreverei sobre uma rapariga que encontra um pequeno espelho de mão pousado na relva. Gesticula na direcção dessa mancha, tão distante porém tão próxima. Saltita alegremente, suspensa no ar, e depois aterra, de braços estendidos. Bem-vinda, bossa rebelde, grita ela. Eu sou tu.

À LUPA

A pesca da sardinha reabre hoje após quase cinco meses encerrada, mas com um limite de 33.446 toneladas para a frota portuguesa, confirmou o Ministério da Agricultura e Mar. 

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Cada vez que o Estado falha, faz um plano. Cada vez que esse plano falha, faz outro plano. Quando esse falha, faz-se um plano para coordenar os planos anteriores. Uma matrioska de planos.»

Mariana Leitão, líder parlamentar da Direita Liberal sobre o PTRR.

QUANDO CHEGASTE

Quando chegaste, eu já tinha a morte

dentro do meu sono; e só por isso não

sentia a pedra do coração nem o corpo

quase tão frio. Tu não notaste

 

que os corvos negros carpiam já sobre

o meu telhado – e ninguém te disse que

eu estava a morrer, porque só eu sabia

que desistir é coisa de um momento.

 

Juram, porém, que ouviste o sangue

cansar-se nas minhas veias e as larvas

estrebucharem rente à terra; e que então

afirmaste, sem dominar um grito, que o

quarto te cheirava absurdamente a flores.

 

Não me contaram se chamaste por mim,

Se pela morte. Mas fui eu que acordei.


Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

domingo, 3 de maio de 2026

REOLHARES


Pelos idos de 67, o Em Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito, enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no programa.

O prémio consistia numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a realização do programa feito por nós e dito por mim.

Por esses tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.

Esgalhei um arrazoado sobre essas músicas.

 Os rapazes gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.

Lamentavelmente, perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda está por aqui, como peça de museu.

Foi um belo pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.

Como convidado, alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas, hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson Airplane.

Disseram-me que aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.

Com o João Manuel Alexandre nasceram laços de estima e consideração.

Numa das conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.

Falei-lhe, então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar  uma sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.

Acertámos em ir falar com o Adriano.

Assistimos ao concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa serena com o Adriano.

Só que o Adriano era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano esqueceu a conversa.

Nada havia a fazer.

Eu, o João e a mulher regressámos a Lisboa no seu Carocha.

Não houve mais oportunidade de voltar ao assunto.

Poucas semanas depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.

Para ser preciso no dia 10 de Julho de 1967.

Em Órbita não chegava à caserna do CISMI.

No dia 29 de Julho de 1967 o Em Órbita passava A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111.

Cândido Mota dixit:

É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação.

Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.

Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.

Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português tocado e cantado por portugueses.

Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo, focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais.

O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados.

Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.

É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.

Nunca soube de como se chegou ao Quarteto 1111.

Uma coisa é certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.


Legenda: a capa do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.