Quando eu morrer sentirei saudade de mim.
Clarice
Lispector
Legenda:
Clarice Lispector
Lembram-se
daquela gentinha que, nos tempos áureos do BES, nos dizia que iam para aComporta «brincar aos pobrezinhos»?
Sim, adeptos
incondicionais do vazio, da estupidez, daquilo a que se entende chamar «estação
estúpida».
Coisas e
coisinhas que me colocam no limiar do vómito.
Aqui se
apresentam 4 capas de revistas ditas cor-de-rosa.
Gente de que
nunca ouvi falar, gente de que ouvi falar, a maior parte, por péssimas razões.
Uma tristeza
muito grande.
Há muitos anos
que somo assim e sem qualquer luzinha ao fundo de um túnel que nos possa dizer
que vamos mudar.
Muito pelo contrário!
Hoje, fui
buscar um EP de Mário Lanza, de que gosto muito.
Colaboração de
Aida Santos.
Silenciar é pior que dizer mal, é matar em
vida.
A beleza não está na cara nem no corpo, mas
sim no coração.
A gentileza dos desconhecidos.
Seremos sempre cúmplices do silêncio.
Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza.
Ficar a saber que ninguém tem a última
palavra.
São assim as mais pequenas histórias do
mundo.
Uma cabala nunca vem só.
Quando Ana Cristina Leonardo, volta e meia, conta esta
história do seu pai, apresto-me a reproduzi-la:
«No final da década de 40, inícios de 1950, os EUA e o sonho americano tinham
mais fãs do que muitos imaginam dentro das fileiras dos que lutavam contra o
regime de Salazar. Numa reunião de oposicionistas em Olhão, uma arrebatada
plateia criticava a miséria portuguesa enquanto exaltava o progresso do
Eldorado americano onde toda a gente tinha emprego, casa e viatura própria. E
foi no meio dos gritos de “Um Cadillac para cada olhanense!” que o descansado
do meu pai pediu a palavra e, tentando acalmar os ânimos, contrapôs: “Para já,
uma bicicleta a pedais para cada português. Os Cadillac, logo se verá”».
1.
Estrangeiros conseguem pagar em média mais 43% por uma casa em Portugal, inflacionando o mercado imobiliário, agravando a sobrevalorização e os problemas de acessibilidade da habitação no país
Jornal de Notícias, 27 de Maio
2.-
Duplo emprego atinge máximo num mercado de trabalho instável e de baixos salários. O número de trabalhadores com com dois ou mais empregos em Portugal tem vindo a crescer e atingiu em 2025 o seu recorde com um afluxo superior a 267 mil pessoas.
Jornal de Notícias, 1 de Maio
3.
À boleia do disparo dos preços do
petróleo nos mercados internacionais, a Galp Energia registou uma melhoria de
44% dos lucros nos primeiros seis meses do ano.
4.
«Portugal registou quase 700 mortes
acima do esperado este Verão
Até ao momento "foram identificados três períodos onde ocorreram mortes em
excesso" durante o Verão, dos quais resultaram 680 mortes acima do
esperado para a época, segundo as estimativas da Direcção-Geral da Saúde e do
Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Os valores observados
"ficaram abaixo do impacto na mortalidade estimado pelo Índice
Ícaro", um sistema que estima o possível impacto das elevadas temperaturas
na mortalidade. Vários países europeus estão por esta altura a enfrentar
novamente temperaturas excessivas, mas para já Portugal está a escapar à
situação. As autoridades de saúde mantêm-se atentas.»
Público 7 de Agosto
5.
Os
técnicos do INEM fizeram 365 mil horas extras em 2025.
6.
O número de moradores da avenida da Liberdade passou de escassa meia centena de pessoas há 15 anos para cerca de um milhar hoje em dia.
Hoje, ficamos com Elgar.
«Ao longo dos tempos, o meu pai foi um
atento espectador das transmissões televisivas dos “Concertos para Jovens” de
Leonard Bernstein, dos “Concertos Promenade”, dos “Concertos de
Ano Novo.”
Dos “Concertos Promenade” gostava
particularmente da última noite, onde infalivelmente, aparecem
a "Marcha de Pompa e Circunstância" de Elgar, o “Rule,
Britannia”, e “Jerusalem", com toda a sala a cantar em coro. Nunca
conseguiu encontrar um disco, ao vivo, de uma das últimas noites dos Proms, mas
ouvia, com regularidade, a “Marcha de Pompa e Circunstância”.
Lembro-me do dia em que telefonou a dizer que comprara o disco na “Discoteca
Melodia” e que isso merecia uma garrafinha.
Comovia-se com os “Concertos de Ano
Novo”, principalmente quando o maestro se dirigia ao público, na Grande
Sala do Musikverein cheia de glamour e flores, e aos milhões de espectadores
espalhados pelo Mundo, gritava o seu “Prosit Neujahr”, a habitual
saudação de Ano Novo.
E nos anos em que, juntamente com o meu
pai, vi o concerto, lá estava ele a informar que os bilhetes para o
concerto do ano seguinte esgotavam logo nos primeiros dias de Janeiro.
Curiosamente, na entrevista que, em finais
de Outubro, António Lobo Antunes concedeu a Ricardo Araújo Pereira, e publicada
pela “Visão”, ele diz:
“Eu vejo sempre o concerto de Ano Novo, com música do Strauss, e comovo-me ate
às lágrimas.”».
Um tribunal federal de recurso decidiu, esta sexta-feira, que a administração de Donald Trump deve interromper a construção do salão de baile de 400 milhões de dólares na Casa Branca, alegando que o projecto não tem apoio do Congresso. O presidente já confirmou que vai recorrer para o Supremo Tribunal.
O Autómato
Alberto Moravia
Tradução: Manuel Martins de Sá
Capa: Vítor Ribeiro
Colecção: Os Livros das Três
Abelhas
Publicações Europa-aAmérica,
Lisboa Novembro de 1964
- Para mim, minha irmã é como se tivesse morrido – disse inesperadamente
Marco.
Mas eu não compartilhava desta sua tristeza; a inutilidade dos seus esforços fazia-me quase sorrir, como aquelas leves angústias que nunca se sabe muito bem se trazem prazer ou sofrimento.
para o Miguel Martins
Não estejas só. Tu também és
o que já foste e o que esperaste
vir a ser . A manhã que se aproxima
há-de passar, não importa. Para já,
os diligentes aviões da madrugada
sobrevoam o desenho das colinas
de Lisboa – e cá dentro, muito fundo,
numa redoma de música, os amigos
ainda bebem para esquecer
o futuro, que outro remédio
não têm, se a hora não se repete
e a vida é só espuma
Rui Pires
Cabral em Resumo: a poesia em 2012
Chamou-se Ponte
Salazar até ao dia da madrugada clara e limpa, e passou a chamar-se Ponte 25 de
Abril.
Oliveira
Salazar nunca concordou com a obra e nem por escassas horas um dia se dignou
visitar as obras.
Calcula-se que
cerca de 150 mil veículos e 174 comboios passam diariamente na Ponte 25 de
Abril, totalizando mais de 300 mil pessoas.
Ainda temos governo?
Tudo aquilo parece um KAOS.
Um ministro do governo, Rita Júdice, ministra da Justiça, ordena avaliação ao ministro da Administração Interna enquanto ministro e enquanto director da Polícia Judiciária.
Luís Montenegro emite umas frases inconsequentes.
Luís Neves mostra-se “absolutamente
tranquilo.”
O Presidente da República, em
silêncio, aguarda resultados de todos os inquéritos.
Naquela feira
de ocasião que, às quartas-feiras, se realiza no Jardim Constantino, encontrei este
livro.
Achei
interessante.
Não conheço o
autor mas Manuel Antunes Marques, numa homenagem ao poeta António Aleixo,
engendrou:
«Para continuar a obra de António
Aleixo, o autor glosou algumas quadras dos seus livros, dando ao poema uma
forma diferente, ao mesmo tempo que se misturam dois pensamentos políticos:
- o pensamento de António, cujo mote
reflecte a sua maneira de sentir;
- as glosas que, enquadradas no mote,
dão uma nova forma à poesia de António Aleixo, sem contudo a desvirtuar.».
Tão simples, e
tão bonito, quanto isto!
Colaboração de
Aida Santos.
Manuel Antunes Marques
Capa e ilustrações de Lourenço
Maria
Editorial Minerva, Lisboa Maio
de 2003
A Fartura ao Pé da Fome
A fartura ao pé da fome
Raramente se dão bem
Quase sempre quem tem come
À custa de quem não tem
António Aleixo
Casas lindas e casas feias
Ruas com nome e sem nome
Já vivem paredes meias
A fartura ao pé da fome
Têm uma vida diferente
Uma tem muito, outra não tem
Morando perto, esta gente
Raramente se dá bem
É a pobreza quem cria
O que a riqueza consome
E do pão que sobra, a fatia
Quase sempre que tem come
Come o rico, jejua o pobre
Como à riqueza convém
Come o pão sem que sobre
À custa de quem não tem.
Colaboração de Aida Santos
Que domingo solene, ocioso e lasso!
Tão triste; o sol inunda a tarde toda,
Festivo como um guizo numa boda
Onde a noiva morreu, desfeita em espaço...
Medeia a eternidade, em cada passo
Que, sem intuito, dá quem passa; à roda
Parece dormir tudo; e incomoda,
Ponderável, no ar, um embaraço...
Toda a tristeza do domingo à tarde.
Sobe dos homens para o céu, que arde,
O apego à vida dum olhar que morre.
Sombras sugerem aflições incertas...
E das janelas sôfregas, abertas,
Morno, o silêncio como num pranto escorre...
Reinaldo Ferreira em Poemas
O número de migrantes detidos pelas autoridades norte-americanas
durante o mandato do Presidente Donald Trump atingiu em Julho o nível mais
elevado, com mais de 50.000 detenções, confirmou o Departamento de Segurança
Interna.
O aumento
ocorre no meio de pressões da Administração republicana para aumentar as
detenções de migrantes, com o objetivo de alcançar as 2.000 detenções diárias,
e de uma expansão das operações do Serviço de Imigração e Alfândegas, o ICE,
incluindo detenções em aeroportos.
Em junho, o
Governo comunicou, por sua vez, cerca de 43.000 detenções, um número também
recorde durante este Governo, acrescentou um alto funcionário da DHS, que pediu
para não ser identificado.
Estes dados, indicados pelo funcionário à agência EFE e que ainda não foram publicados oficialmente, revelam um aumento das operações do ICE, apesar das críticas da oposição e de organizações de direitos humanos às táticas do Governo, especialmente depois de duas pessoas terem morrido baleadas por agentes de imigração em Julho.
1.
BPI, BCP, CGD, Santander e Novo
Banco registaram, no total, lucros de 2,4 mil milhões de euros este semestre.
Foram 562 mil euros por hora, com a subida do crédito à habitação e as
comissões a impulsionar os ganhos.
2.
Há mais de três mil doentes na lista de espera para receber cuidados continuados em unidades especializadas, obrigando muitos utentes a permanecer nos hospitais mesmo depois terem recebido alta médica.
Até quando
este bosque sem fim de sombra iluminante
por onde vamos sem bem saber aonde vamos
de mudança em mudança protegidos
só da mesma incerteza de mudança?
As estrelas que luzem entre os troncos e
os ramos
são janelas de lenhadores tranquilos gozando
a segurança
da lareira e dos filhos dormindo e do
pão e do vinho
a opaca segurança de nada haver à volta
de sonhador e exaltante
Estelas da lei contra o amor são eles
que ao só rumor deste outro fogo
invisível que o mundo todo muda
acorrerão aos gritos com lampiões de
raiva
e com espingardas
Para eles é crime
o que não há ainda
Mário
Dionísio em Memória dum Pintor Desconhecido
- Tens isto?
- Conheces?
- Já leste?
no orgulho humilde, fraternal, de que a
sua amizade é feita. Se não fosse o José Ribeiro detestava a Avenida do Uruguai.»
António Lobo
Antunes em Livro de Crónicas, 1º volume, «Homenagem a José Ribeiro»,
página 357.
Um vagabundo
perdido no meio de uma intelectualidade, em que a esmagadora maioria, não o quis
compreender, aceitar.
Nos dias que
correm, a Editora Tinta-da-China terá encetado um trabalho de trazer para a
mesa, este quase desprezado Luiz Pacheco.
Começa a aprendizagem com
a Antologia Ser Livre em Português.
A Biblioteca
da Casa, em livros, em antologias, nos folhetos-dá-cá-vintes!, está bem
representado, mas numa antologia, o caso de que temos vindo a falar, há sempre qualquer coisa que vale a
pena conferir e para quem ainda não o conhece, está aqui o melhor que Pacheco
nos deixou e sabe-se que o filho Paulo, o Paulocas, tem em casa um baú como o
do Fernando Pessoa.
Serenamente,
vamos esperar.
Ser Livre em Português
Uma Antologia
Luiz Pacheco
Edição: Rui
Sousa e Sofia A. Carvalho
Com apoio è
edição de Jessica Dias, Pedro Meneses e Sofia Casaleiro Roque
Capa: P.
Serpa
Tinta-daChina,
Lisboa Junho de 2026
Chamo-me Luiz José Machado Gomes
Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem, casado. Lisboeta, português.
Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo
visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.
Muita gente me tem falado a meu respeito
como quem me chamasse pelo nome e eu me voltasse
e nesse nome dito nessa boca fosse toda a minha vida
e eu morresse quando entre pinhais quem me chamara a fechasse
Muita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e decresço não reparo e anoitece
e já nem sei ao certo quantos dias meço
Regresso com o gado contra o sol rasante
Mas é de névoa ou fumo o algodão que cobre as casas
aonde regressamos atraídos pela luz que já nos campos se consome?
Os ciprestes os pássaros saúdam-me e eu passo
com um olho vasado transpareço o meu passado
e tudo esqueço e peço mesmo a Deus que esqueça quanto sou
além dessa medida simples onde me vasou
Sabermos nós que a face de algum mar ao pôr-do-sol pode mudar
e nenhum dia-a-dia consentir ao homem mais que a morna superfície
dos gestos por que troca a mais íntima morte que merece
Nada na minha poesia é meu
juro por Deus dizer toda a verdade
Ponho a mão na cabeça o dia é escuro e vago e eu respiro
Espero pela manhã como quem nasce
Ninguém sabe o meu nome porque
eu já perdi ao longe alguns dos olhos
e fui feliz em cafés de província onde me vi sentar
Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum
É de manhã caminho nem meus passos oiço
oitenta passos diz-se que darei
Vão-se fechando os dois alinhamentos das moradas
arredonda-se o largo, alguns problemas camarários
Duvido de mim próprio: quem serei?
O carro rega coisas tão profundas como esta
Meu Deus meu Deus, que mal eu fiz?
Eu estive em Dinard e vou talvez casar
Acordo e transistorizo os dois ouvidos numa música abundante
Muita gente me tem falado a meu respeito
mas eu cresço e minguo certas vezes anoitece
Sou coisa que se molha encolhe e envelhece
tudo me aquece e tudo me arrefece
Dois pés e duas mãos, algumas pás de terra
E sabem mesmo que o meu nome é Rá, por isso me conhecem
Sou a doença e sou onde me dói
sou sítio onde se nega que se morre
Tem graça haver quem fale a meu respeito
Ruy Belo