Os velhos, perante as
insónias, aconselhavam a que se contassem carneiros.
As terríveis
insónias!...
Vergílio Ferreira: Comum ouvir dizer-se que os velhos dormem
pouco porque sabem que não tardará o dia em que dormirão infindavelmente.
Dennis McShade.
«Durmo muito pouco, três ou quatro horas em cada noite. As noites são sempre
longas, estiradas, e eu fico deitado na cama como num rio de silêncio, ouvindo
o marulhar do próprio coração.»
Marcelo Rebelo de
Sousa dizia que lhe bastava dormir quatro horas por noite.
Já ultrapassei os 80
anos, cada vez durmo menos e o pouco que durmo é uma treta, não presta para
nada.
Qualquer zumbido de
mosquito, desprega-me do sono.
Estúpidas insónias
acometem-me quase todas as noites.
O médico de família
receitou-me um comprimidinho indutor do sono mas evito tanto quanto possível
entrar no hábito rotineiro.
Resolvo as insónias
lendo livros, lendo livros, lendo livros…
Há uma lenda que
suporta que Bach compôs as Variações Goldberg para combater as insónias,
Abençoadas
insónias!...
O extraordinário poeta
Jorge de Sena tem um livro a que chamou Arte de Música.
Este é o poema a que chamou BACH: VARIAÇÔES GOLDBERG:
«A música é só música, eu sei. Não há
outros termos em que falar dela anão ser que
ela mesma seja menos que si mesma. Mas
o caso é que para falar de música em tais termos
é como descrever um quadro em cores e formas e
volumes, sem
mostrá-lo ou sem querer havê-lo visto alguma vez.
Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música
for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,
nenhum silêncio recolhido nos persiste além
de alguns minutos. E não dura na memória como
silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala
a própria música que adora. Porque a música
não é silêncio mas silêncio que
anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.
Se os sons, porém, não são de devaneio,
e sim a inteligência que no abstracto busca
ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;
se tudo se organiza como a variada imagem
de uma ideia despojada de sentido;
se tudo soa como a própria liberdade dos acasos
lógicos
que os grupos, e os grandes números, e as proporções
conhecem necessários; se tudo repercute como
em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem
um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;
se tudo se acumula menos como som que como pedras
esculpidas em volutas brancas e douradas cujos
recantos de sombra são um trompe-l’oeil
para que elas mais sejam em paredes curvas;
se uma alegria é força de viver e de inventar e de
bater nas teclas em cascatas de ordem;
e se tudo existiu na música para tal triunfo
e dele descende tudo o que de arquitectura
possa existir em notas sem sentido – COMO
não proclamar que essa grandeza imensa
não se comove com íntimos segredos (mesmo implica
que não haja segredo em nada que se faça
a não ser o espanto de fazer-se aquilo),
é como que uma cúpula de som dentro da qual
possamos ter consciência de que o homem é por vezes,
maior do que si mesmo. E que nada no mundo,
ainda que volte ao tema inicial, repete
o que só foi proposto como tema para
se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,
aquele tema torna não é para encerrar
num círculo fechado uma odisseia em teclas,
mas para colocar-nos ante a lucidez
de que não há regresso após tanta invenção.
Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.
Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,
para sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas
sim porque
o virtual de um pensamento se tornou ali
uma evidência: se tronou concreto.
Um concreto de coisas exteriores – e o espanto é esse
–
Igual ao que de abstracto têm as interiores que o
sejam.
Será que alguma vez, senão aqui,
aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto
de real e virtual serem idênticos, e de nós
não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto
de
nós termos sido música somente?»










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