Em Novembro de 2015, por aqui, olhámos o livro Greguerías de Ramón Gómez de la Serna, selecção e tradução de Jorge Silva Melo.
Greguerias é uma palavra
que não significa nada, nem em castelhano, nem em qualquer outra língua, é um
género literário inventado pelo próprio autor. Jorge Silva Melo, no prefácio,
lança pistas para que possam ser aforismos, adágios, refrões, mas não é
conclusivo. Pouco importa.
O que quer que sejam,
merece que se apresentem algumas dessas greguerías, que também, por aqui, já
foram utilizadas em alguns Postais sem Selo.
Como dava beijos
lentos, duravam-lhe mais os amores.
À morte não a
ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos
Onde o tempo e a
poeira mais se unem é nas bibliotecas.
Olharam-se de janela
a janela em dois comboios que iam em direcções opostas, mas tal é a força do
amor que logo os dosi comboios se puseram a andar para o mesmo lado.
Às vezes, os beijos
são só chewing-gum repartido.
As estrelas-do-mar
são as mãos que constatam que o barco se afundou.
Sofá-cama: os sonhos
ficam em baixo a conversa em cima.
O grande problema do
gato é como dar futuro a esses seis gatinhos que vieram ao mundo de uma só vez.
Nervosismo da
cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açúcar para o café.
Amor é acordar uma
mulher e ela não se irritar.
Escrever é que nos
deixem rir e chorar sozinhos.
Quando se entorna um
copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.
Velho actor: deixou
uma dentadura que declamava Shakespeare.
Pôr as peúgas do
avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.
A gaivota rema ao voar.


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