CAIS DO OLHAR
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
OLHAR AS CAPAS
História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar
Luís Sepúlveda
Tradução Pedro Tamen
Asa Editores, Porto
Janeiro de 2003
-Estou a voar! Zorbas! Sei voar! Grasnava ela, eufórica, lá da vastidão
do céu cinzento.
O humano acariciou o lombo do gato.
- Bem, gato, conseguimos – disse ele suspirando
- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas
- Ah, sim? E o que ela compreendeu? – perguntou o humano.
- Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.
-Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo.
NOTÍCIAS DA CRISE
É de todo
incompreensível que um pobre país, rodeado de gravíssimos problemas de
sobrevivência, assista a horas e horas e horas seguidas de discussão nas
televisões, nos jornais, nas rádios, do que se terá passado entre um jogador e
um treinador de futebol.
Jorge Jesus terá dito o
elementar: «sou eu que mando na equipa!»
Cristiniano Ronaldo não
gostou e, em vez de ficar para discutir o que ele pensa ser um problema, chamou
o seu jacto particular e regressou a casa, abandonando o estágio da selecção.
Agora enfrentamos uma
verdadeira novela mexicana.
Soube-se, entretanto, que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro, sempre a trabalhar, já se movimenta nos bastidores da crise da selecção nacional, após a saída de Cristiano Ronaldo.
Facto:
Durante anos e anos,
Cristiano Ronaldo jogava sempre. Quando fazia sentido, jogava. Quando não
fazia, jogava também.
Opiniões:
«Obrigado, Cristiano,
mas agora deixa a Seleção jogar. Deixa Jorge Jesus ser treinador. Deixa os
outros jogadores crescerem. E deixa que a tua vida seja aquilo que merece ser:
uma história extraordinária, não uma guerra pelo direito a continuar a ser aquilo
que já foste.
Porque o futebol não é
uma cerimónia de homenagem. É um jogo. E o jogo seguinte nunca se joga ontem.
Talvez tenha sido o dia
em que Jesus percebeu isto, que pôs fim ao Cristianismo.»
Nuno Saraiva em A Bola
«Só Ronaldo não quis
ver que o tempo do esplendor da glória desportiva era passado e que se iniciara
a sua caminhada em direção ao esquecimento.»
Pedro Adão e Silva no Público
Voltar, sempre, ao poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade:
«Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.»
A NOSSA VEZ
É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar
e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera
e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer
a nossa vez.
Rui Pires Cabral
quinta-feira, 1 de outubro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Saboreei o que a vida
me ofereceu, tudo o que sinto é só meu, eu nunca renunciei! e vou continuar a
estratégia da cigarra, cantando o Inverno a chegar.
Jorge Palma
CRONICANDO POR AÍ
Jorge Palma, Viale Moutinho e vozes que não se rendem
«Foi uma triste despedida do Verão, a dois dias de começar o
Outono. Verão que levou com ele Jorge Palma, que parecia antecipar tal
desfecho quando escreveu estas palavras, precisamente em Outono
(estratégia da cigarra), a que ele chamou “a minha balada de
estimação”: “Saboreei o que a vida me ofereceu/ tudo o que sinto é só meu/ eu
nunca renunciei!/ e vou continuar a estratégia da cigarra/ cantando o Inverno a
chegar.” Certa se mostrou a família, quando, ainda mal refeita da perda e a
começar o luto, sugeriu: preservem-lhe a memória ouvindo as suas criações
musicais.
Aquele Outono, ouvimo-lo em Norte (2004), o primeiro álbum
que fez sem a pressão do álcool, que andava a atormentar-lhe a vida e a
carreira. Reencontrara um Norte, sim, e num período (pós-11 de Setembro) de
grandes angústias. Nesse Norte, escreveu em Optimista céptico (título que apanhou de
uma frase de Saramago): “A hipocrisia deste novo império/ faz-me vomitar (…) só
quero encontrar paz/ sem arrastar atrás nem mestre nem Deus” — e aqui
saltava-nos à memória Ni Dieu Ni Maître, jornal anarquista francês
fundado em 1880. Extraordinária, a capacidade de Jorge Palma ter um estilo tão
próprio e soar como nenhum outro (é fácil perceber quando ouvimos alguém cantar
“à Jorge Palma”) e, ao mesmo tempo, misturar na sua produção tantas inspirações
e referências, de T. S. Elliot a Saint-Exupéry, de Lévi-Strauss a Tagore, de
Prevért a Baudelaire, de Dylan e Cohen a Nino Rotta, de Paul Simon a Jacques
Brel, de Van Morrison a Les Chats Sauvages, de Neil Young ou Tom Waits a Sérgio
Godinho e José Mário Branco. E, no entanto, sempre Jorge Palma.
No álbum Com Todo o Respeito (2011), Palma enfrentou a morte
numa canção, Agora não, ainda não — tal como Kurosawa no seu
último filme, Madadayo (1993), filme que Palma desconhecia. Mas
foi no seu derradeiro disco, Vida (2023), já depois de celebrar em palco 70 anos
de existência (em 2021) e de revisitar os seus 14 álbuns numa maratona de seis concertos em Lisboa (2022), que
voltou ao tema com vários cambiantes. Assim: “Vida/ causa de todas as coisas/ princípio de todo o
princípio/ final de todos os finais/ nasce em mim.” Afastando, mas não
iludindo, a existência da morte: “O futuro vem lá, sinuoso e matreiro/ e o que
deixa antever não é convidativo”; ou “Vejo o princípio e o fim abraçados/ numa
espécie de altar” (Espécie de altar); “Passos de anjo rumo ao destino
final” (Uma estação no inferno); “Mais tarde temos plena
consciência/ de que o final é sempre a sós” (Canção de vida); ou, irónico: “Seja lá quem for o
meu cangalheiro/ tenha a atenção de me vestir a rigor” (Estróina); e “O fim está próximo, não há nada a
fazer” (Plantas na Lua)..
Um dia depois de Jorge Palma, deu-se outra perda assinalável: a do escritor e
jornalista José Viale Moutinho (1945-2026). Além das obras literárias
e dos prémios que justamente o distinguiram, Viale Moutinho também escreveu
sobre o mundo da música, assinando duas obras de referência: a antologia de
canções de resistência à ditadura O Nosso Amargo Cancioneiro (Ed.
Latitude, 1972, com reedição em 1973 pela Livraria Paisagem), que, muitos anos
depois, já em plena democracia, deu origem ao livro Cancioneiro de Abril,
editado pela Ulmeiro em 1999; e Memórias do Canto Livre em Portugal
(Editorial Futura, 1975), “somatório de notas e cantigas” editado em plena
euforia abrilista, com ecos de vozes que não se renderam às perseguições dos
censores.
Por falar em euforia e em canções: não em Portugal, mas nuns Estados Unidos em
efervescência pré-eleitoral, está anunciado para 3 de Outubro, num pavilhão de
Columbia, Maryland, o Festival Power To The People, com nomes como Tom Morello, dos Rage Against The Machine (que o
organizou), Foo Fighters, Dave Matthews, Joan Baez, Public Enemy, Cypress Hill,
Stephen Stills ou Bruce Springsteen, como convidado especial.
Entrevistado por Desi Lydic no The Daily
Show de Jon Stewart (o programa faz agora 30 anos), Morello definiu-o
assim, como se anunciasse um manifesto político: “É um festival de paz, amor,
justiça e música. Em tempos em que a guerra é celebrada, este é um festival de
paz; em tempos em que a divisão e o ódio são a norma, este é um festival de
amor; em tempos em que a injustiça é infligida todos os dias, aqui e no
estrangeiro, este é um festival que celebra a justiça. E num mundo com imensa
música má, só teremos bandas espectaculares.”
Jorge Palma concordaria: “Os músicos, tal como os pintores, poetas, artistas de
teatro e cinema, já que têm tempo de antena, têm a obrigação de falar dessas
coisas, de chamar a atenção para as desigualdades, para as injustiças, tudo”,
disse ele ao PÚBLICO em 2007, quando publicou Voo
Nocturno».
Nuno Pacheco no Público de 1 de Outubro
Legenda: Imagem do Público
D'APRÈS D. FRANCISCO DE QUEVEDO
Também eu ceei com
os doze naquela ceia
em que eles comeram e beberam o décimo terceiro.
A ceia fui eu; e o servo; e o que saiu a meio;
e o que inclinou a cabeça no Meu peito.
E traí e fui traído,
e duvidei, e impacientei-me, e descartei-me;
e pus com Ele a mão no prato e posei para o retrato
(embora nada daquilo fizesse sentido).
Não subi aos céus (nem era caso para isso),
mas desci aos infernos (e pela porta de serviço):
comprei e não paguei, faltei a encontros,
cobicei os carros dos outros e as mulheres dos outros.
Agora, como num filme descolorido,
chegou o terceiro dia e nada aconteceu,
e tenho medo de não ter sido comigo,
de não ter sido comido nem ter sido Eu.
Manuel António Pina de Cuidados Intensivos em Poesia, Saudade da Prosa
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
NOTÍCIAS DO CIRCO
O futebolista Cristiano Ronaldo, em aparente litígio
com o treinador Jorge Jesus, abandonou o estágio da selecção, que decorria em
Copenhague, com vista ao jogo com a Dinamarca, a contar para a Taça das Nações.
Mandou vir o seu jacto particular e regressou a casa.
A seu tempo, as partes envolvidas revelarão as suas verdades!...
CR7 é um menino-crescido que pensa que é dono de tudo
e algo mais.
Há muito deveria ter acabado a carreira em alta, mas
agora arrisca-se a sair pela direita baixa.
No país, continua o aumento do custo de vida, a crise
da habitação, os problemas do Serviço Nacional de Saúde, os baixos salários, as
baixas reformas.
Legenda: fotografia de José Sena Goulão/Lusa.
OLHAR AS CAPAS
O Caminho Imperfeito
José Luís Peixoto
Ilustrações: Hugo
Makarov
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Setembro de 2017
O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.
Colaboração de Aida
Santos
SECRETO APELO
Na floresta silenciosa
Fui encontrar a rosa
Prometida.
Na floresta silenciosa
Fui encontrar,
generosa,
A minha vida.
Ruy Cinatti
terça-feira, 29 de setembro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Só as casas explicam que exista uma
palavra como intimidade.
Ruy Belo
Legenda:
pintura de Jakub
Schikaneder
SOLTAS
Ao longo dos
tempos a Casa onde viveu António Sérgio sempre viveu momentos difíceis, desde
ser vendida, ao abandono a que diversas entidades a submeteram.
Há dias lia-se no Público que a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem futuro incerto.
«Numa cave de uma moradia na Lapa, na
freguesia lisboeta da Estrela, guardam-se à volta de 7500 livros que pertenciam
ao pensador e ensaísta António Sérgio (1883-1969). “Aqui há de tudo: desde
química até filosofia”, nota a técnica documentalista Sónia Queiroga. “Muitos
têm dedicatória ou anotações e vários eram oferecidos.” Uma sala ao lado
reveste-se de diversas publicações sobre cooperativismo e economia social ou de
obras da autoria do próprio António Sérgio. Neste depósito, há ainda espólios
de outros autores.
Com um acervo único, a Casa António Sérgio, em Lisboa, tem um futuro incerto
Neste momento, a Casa António Sérgio tem o seu destino em aberto. Nos últimos
anos, este tem sido um espaço gerido pela CASES, cuja dissolução foi
recentemente aprovada, após a saída do Estado como seu membro. Funcionários e
direcção alertam para um património “único” que se pode perder. Em relação ao
seu proprietário, a Câmara de Lisboa, que o tem cedido desde 1982, refere que
possíveis mudanças ou desenvolvimentos serão analisados em “momento oportuno”.».
A imagem em cima, mostra um recorte do Diário de Lisboa de 5 de Janeiro de 1980 em que se noticiava que um incêndio,dado o abandono que rodeava o edifício, ocorreu na casa onde viveu António Sérgio.
1.
«A amizade é uma coisa
muito complexa… É-se amigo de alguém, na minha opinião, quando se cria uma
exigência em relação a essa pessoa extremamente utópica. Isto é: quando se
pretende que essa pessoa seja o próprio em melhor. Eu sou amigo de alguém,
exigindo dele coisas que não sei que não sei capaz de fazer.»
José Cardoso Pires
2.
Os cortes orçamentais estão a levar as organizações de apoio aos
refugiados ao "ponto de rutura" em áreas cruciais, onde cerca de 8,3
milhões de pessoas arriscam ficar sem ajuda este ano, alertou esta terça-feira
a ONU.
"A proteção não
pode ser reduzida indefinidamente sem provocar o colapso dos sistemas", disse o Alto Comissariado das Nações
Unidas para os Refugiados (ACNUR). Abaixo de um determinado limiar, os serviços
não se limitam a atingir menos pessoas, alertou.
"Podem deixar de funcionar por completo, deixando os mais
vulneráveis sem a proteção de que necessitam", sublinhou Dominique
Hyde, diretora de relações externas do ACNUR, por ocasião da publicação de um
relatório da organização, sedeada em Genebra, na Suíça.
3.
Desde que os EUA iniciaram a onda de ataques ao Irão, a 28 de fevereiro deste ano, não foram só o preço dos combustíveis e a conta do supermercado que passaram a pesar mais no orçamento das famílias. O Banco Central Europeu aumentou por duas vezes as taxas de juro, a última das quais a 10 de setembro, em 0,25 pontos percentuais. Quem tem crédito à habitação com taxa variável - quase um milhão de famílias, segundo dados oficiais do Banco Portugal -, viu as prestações escalarem, para lá, em alguns casos, dos 100 euros.
4.
«Mussolini era mau, mas fazia chegar os comboios a horas), passaram a servir de
inspiração e legitimação sem qualquer pudor, nem rigor.»
José Pacheco Pereira no Público
5.
São mais de 32,5 milhões por ano para
pagar as 381 novas reformas acima de cinco mil euros da Função Pública até
setembro. Médicos, administradores hospitalares e juízes lideram a lista de
reformados e aposentados pela Caixa Geral de Aposentações (CGA) este ano, onde
estão nomes como Carmona Rodrigues, Maria de Lurdes Rodrigues, Barradas Leitão
ou José João Abrantes.
O número de novas reformas acima de cinco mil euros brutos na Função
Pública caiu ligeiramente face a 2025, mas os gastos subiram. As reformas de
381 novos pensionistas dariam para pagar aos 3212 recém-reformados com menos de
mil euros.
HERBERTIANAS
Na Biografia do Herberto Helder escrita pelo João Pedro George, também há um capítulo que poderia entrar na secção de Livros Autografados.
Paramos na página 630 e cito:
«Outro amigo a quem Herberto ofereceu Flash foi
António Barahona. Dias depois. Disse que o tinha perdido e Herberto
ofereceu-lhe outro exemplar. Acontece que, mais tarde, os dois apareceram à
venda num alfarrabista, o que enfureceu Herberto: julgava que tinha um amigo
mas, afinal, o que tinha era um amigo que o estava a usar. Olga Lima recorda a
amarga decepção que Herberto sofreu quando se apercebeu disso: »O Herberto
zangou-se com o Barahona porque lhe ofereceu dos exemplares do Flash
autografados e o Barahona vendeu-os porque precisava de dinheiro. Depois disso
o Herberto nunca mais lhe ofereceu livro nenhum.»
No funeral de Herberto Helder, António
Barahona resolveu aparecer sem ser convidado. Quando Olga, a viúva do Herberto,
o viu, não resistiu e atirou-lhe na cara:
«Tu aqui!!!??? O Herberto dedicava-te livros e depois
ias vendê-los aos alfarrabistas.» Gisela Oliveira estava a sair do elevador do
piso de casa do pai quando deparou com esta cena, Olga à porta, muito exaltada
impedindo Barahona de entrar e dizendo-lhe que estava proibido de ir ao
funeral. Porque Olga, diz a filha, associava também «o Barahona ao grupo de
críticos que tinham dito muito mal do último livro do meu pai. Lembro-me de ver
o Barahona quase em lágrimas, a dizer: “Ola, isso não é verdade, eu amava o
Herberto!”».
Legenda: capa de uma 1ª edição de Flash à
venda, na internet, por 1200 euros.
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Teresa Martins Marques é uma profunda
estudiosa da obra de José Rodrigues Miguéis. Entre 1994/96 dirigiu e
prefaciou, para o Círculo de Leitores, os 13 volumes da edição das Obras
Completas de José Rodrigues Miguéis.
Com essa enorme bagagem da obra de Miguéis,
Teresa Martins escreveu uma biografia do autor como se fosse um romance: Nos Passos de José Rodrigues Miguéis.
Concebido através de diálogos do escritor
com a cientista Maria de Sousa, sua grande amiga e confidente, com quem
convive, desde 1975, quando Maria de Sousa foi fazer pesquisa científica em
Nova Iorque. Numa carta, datada de 1978, dirigida ao amigo e director do Diário
Popular, Jacinto Baptista, confessa que é uma investigadora de categoria,
também poeta.
Para este longo trabalho foram compulsados e
citados numerosos fragmentos, de cartas inéditas de Miguéis a intelectuais e
amigos. São igualmente citados excertos de crónicas, paratextos e aforismos,
bem como excertos de cariz autobiográfico da sua obra ficcional.
O importante é conhecer a obra de José Rodrigues Miguéis, extraordinário escritor, um dos grandes prosadores do século XX, mas Nos Passos de José Rodrigues Miguéis torna-se uma aventura deliciosa a leitura deste retrato em livro de 698 páginas.
OLHAR AS CAPAS
Nos Passos de José
Rodrigues Miguéis
Uma Biografia Como um Romance
Teresa Martins Marques
Prefácio: Onésimo Teotónio Almeida
Capa: Sofia Travassos
Âncora Editora, Lisboa, Junho de 2025
Bem sei que o António
Sérgio escreveu no Diário de
Lisboa (5/4/1935) sobre mim: «é um espírito rico, variado, insinuante, fino
e o mais admirável dos oradores que jamais ouvi na minha língua.» Confesso que
nem sempre terei sido justo com este homem, mas o meu coração pende para o lado
de Raul Proença. O que fazer? Devo-lhes a todos eles o encorajamento para
começar a escrever e até mesmo a bolsa que tive par ir estudar em Bruxelas.
O SILÊNCIO DAS PLANTAS
O relacionamento unilateral entre mim e vocês
não vai mal de todo.
Sei o que são folhinhas, pétalas, espigas, pinhas, caules
e o que se passa convosco em Abril e Dezembro.
E embora a minha curiosidade não seja correspondida,
inclino-me especialmente sobre umas
e ergo a cabeça para outras.
Para mim, vocês têm nomes:
ácer, bardana, amémona,
urze, zimbro, visgo, miosótis,
já eu, para vocês, nenhum.
Viajamos juntas.
E nas viagens conversa-se.
Trocam-se opiniões, nem que seja sobre o tempo
ou sobre as estações velozmente atravessadas.
Temas não faltariam, pois muito temos em comum.
Estamos ao alcance da mesma estrela.
Fazemos sombra, regidas pelas mesmas leis.
Tentamos saber algo, cada uma à sua maneira
e o que não sabemos também nos assemelha.
Perguntem, tentarei esclarecer-vos:
o que é ver com os olhos,
para que me bate o coração
e porque o meu corpo não cria raízes.
Mas como responder às perguntas não colocadas,
ainda por cima, sendo eu para vocês assim,
tão ninguém.
Moitas, pinhas, prados e juncais,
tudo o que vos digo é um monólogo,
mas não são vocês que o ouvem.
Uma conversa com vocês é imprescindível e impossível.
Urgente nesta vida apressada
e adiada para nunca.
Wislawa Szymborska em Instante
segunda-feira, 28 de setembro de 2026
SOLTAS
O Papa Leão XIV visitou a França e não esqueceu as vitimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero e pediu aos bispos franceses que continuem a trabalhar mantendo “a máxima vigilância” face ao flagelo dos abusos, durante uma reunião em Lourdes.
«Nos últimos anos, vocês enfrentaram com firmeza o
doloroso flagelo do abuso de menores cometido por membros do clero ou no seio
da Igreja. Tomaram medidas corajosas para a combater, através da escuta ativa,
da busca da verdade, da justiça, do perdão, da reparação e de um firme
compromisso com uma cultura de prevenção e proteção contra estes crimes.»
Em França, foram identificados aproximadamente 330.000 casos de abusos cometidos por membros do clero entre 1950 e 2020, de acordo com uma investigação de 2021, e pouco menos de 2.000 vítimas receberam uma indemnização por esses crimes.
Assim vai o clero, frouxo quase indiferente,
face aos crimes praticados, seja onde for, pelos seus membros.
A atitude do clero português, face a este
flagelo, nem é frouxa, nem indiferente:
É MISERÁVEL!
1.
Não esquecer nunca que a União Europeia, os Estados Unidos, outros
mais, são cúmplices do genocídio que Netanyahu está a realizar em Gaza.
2.
Alguém terá que
dizer a Cristiano Ronaldo, e Jorge Jesus não é rapaz indicado para isso, que
está a aproximar-se de um fim de carreira sem ponta de glória.
Diz um leitor do Público:
« Ronaldo está a envelhecer muito mal. É
preciso saber sair, é preciso saber carregar todos os records.Fazer figura de
malcriado, reles, mimado e burgesso não é compatível com a sua ambição.Ronaldo
precisa de contratar um gestor de carreira e de liderança para conseguir não
estragar tudo o que alcançou. Pode cobrir-se de ouro, diamantes, pedras
preciosas, jactos privados,iates, carros desportivos bimbos, tudo o que o
dinheiro pode comprar, mas isso não esconde a ignorância, a soberba e falta de
visão. Mais dignidade, gravitas e sabedoria, acorda Ronaldo, já bateste contra
a parede.»
3.
Um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos faz um
levantamento dos 507 ministros da democracia portuguesa, concluindo que
quem tem governado Portugal em democracia são sobretudo homens, com mais
de 50 anos, que pertencem a “elites políticas altamente
profissionalizadas, nas quais a experiência partidária e a competência técnica
se entrelaçam de forma estrutural; de acordo com o estudo, os governos
portugueses estão a ficar mais velhos, mais qualificados e mais partidários e
para entrarem no círculo do poder as mulheres precisam de mais estudos; outro
dado: ser ministro em Portugal não é um emprego estável já que a duração
média no cargo é de um ano e meio, 19% dos membros do governo não
completam o mandato e quatro em cada dez saem devido a escândalos, pressões dos
jornais ou contestação social.
4.
Portugal é o país da
União Europeia (UE) onde mais pessoas bebem álcool diariamente. Quase um quinto
da população (16%) ingere estas bebidas todos os dias, três vezes mais do que a
média europeia. Os homens portugueses consomem o triplo das mulheres e 15,4%
desta população está em risco de pobreza ou exclusão social.
À LUPA
Lido no jornal A Bola:
11 filhos, 7 mulheres e 160 milhões perdidos: a vida 'louca' do ex-jogador Roberto Carlos
O antigo internacional brasileiro Roberto Carlos revelou ter perdido a
totalidade dos ganhos acumulados ao longo da sua carreira desportiva, uma
fortuna estimada em cerca de 160 milhões de euros. Aos 53 anos, o antigo
lateral-esquerdo confessou ter ficado sem dinheiro na sequência de manobras de
falsos amigos, agentes desonestos e familiares, que lhe esvaziaram por completo
as contas bancárias.
Revelação feita
durante o Portugal Football Summit.
OLHAR AS CAPAS
Ensaios
Tomo II
Publicações
Europa-América, Lisboa, Maio de 1957
António Sérgio
Considera todavia, que nem neste volume nem nos outros te requero
adesão a qualquer teoria, qualquer partido, a qualquer fé. Só busco excitar o
teu pensamento: porque pensar, como sabes não é crer; crer na maioria dos
casos, é até a melhor maneira de não pensar.
ÚLTIMA FLOR
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo, que, na ganga impura,
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço e o teu aroma
De virgens selvas e de oceanos largos!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!"
Olavo Bilac
domingo, 27 de setembro de 2026
POSTAIS SEM SELO
Nós somos casas muito grandes, muito compridas. É como se morássemos apenas num quarto ou dois. Às vezes, por medo ou cegueira, não abrimos as nossas portas.
António Lobo Antunes
Legenda: imagem de Paul Bçow/The Guardian
NESTE DIA
È um domingo de 1968, mais precisamente, 30 de Setembro.
Para conversas com o grupo que, na Madeira, fazia o Comércio do Funchal, Mário Sacramento
viaja até à Madeira.
Regressou a Lisboa e foi até à redacção do Diário de Lisboa.
Para saber do andamento das coisas que envolviam a
doença de Salazar e olhou as provas já montadas para saírem quando o ditador
bater a bota.
Escreve Mário Sacramento no seu Diário:
MÚSICA PELA MANHÃ
E continuamos com a minha selecção de canções de domingo.
Estre disco da Elsa Quarta foi comprado e, 23 de Julho de 1966
Por mera curiosidade copio um pormenor da contra capa.








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