sexta-feira, 14 de agosto de 2026

RETRATOS


 

RETRATO DE MANUEL DA FONSECA

 

Eram campos   campos   campos

abertos de humanidade

era um vento que rasgava

apenas a claridade.

 

Eram palavras jorrando

de um olhar de escaravelho

era um homem inventado

a grandeza de ser velho.

 

Era terra   fome   sede

urze   tojo   trigo   vinho

alcateia   e   almocreve

alfazema   e   rosmaninho.

 

Era um fogo aprisionado

uma explosão de romãs.

Era um menino alumbrado

entre as pernas da manhã.

 

José Carlos Ary dos Santos em Fotos-Grafias

OLHAR AS CAPAS

Fado

José Régio

Ilustrações de Stuart Carvalhais

Capa: João da Câmara Leme

Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1969

 

Fado Alentejano

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Pátria que à força escolhi!

Quando cheguei quis-te mal,

Alentejo –ai- solidão...

Julguei eu que te quis mal,

Chegava do vendaval,

Tão cego que nem te vi!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Adro de melancolia!

Tua tristeza me pesa,

Alentejo –ai- solidão...

Quanto às vezes me não pesa,

Mas fora dessa tristeza,

Pesa-me toda a alegria!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Meu Norte-Sul- Este Oeste!

Voltei ferido da guerra,

Alentejo –ai- solidão...

Faminto voltei da guerra,

Mendiguei de terra em terra,

Esmola só tu ma deste!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão, ai Alentejo,

Oceano de ondas de oiro!

Tinhas um tesouro perdido,

Alentejo –ai- solidão...

Que eu já dera por perdido,

Nos teus ermos escondidos,

Vim achar o meu tesoiro!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Convento de céu aberto!

Nos teus claustros me fiz monge,

Alentejo –ai- solidão...

Em ti por ti me fiz monge,

Perdeu-se a terra ao longe,

Chegou-se –me o céu mais perto!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Padre nosso dos infelizes!

Vim coberto de cadeias,

Alentejo –ai- solidão...

Coberto de vis cadeias,

Mas com estas com que me enleias,

Deram-me asas e raízes!

DA SOLIDÃO DA LUZ

A casa em ruínas que vejo daqui
salta da janela, entra nesta sala,
mas não tem janelas que a façam brilhar,
as molduras rotas carregadas de ar,
as portas cobertas da hera mais pura,
as telhas brilhantes de ausência de cor,
e um buraco imenso onde o coração
devia luzir, se as ruínas não –
 
Morre devagar, como o universo,
galáxias e mares de estrelas e sóis:
política rara sem reis nem senhores,
mas tenso equilíbrio de forças sem luz.
 
Morrem devagar o tempo e os livros,
as estantes todas que habitam a sala:
pobre microcosmo do Bem e do Mal,
e do que nem isso, que é o mais vulgar.
 
Lembra-me, escarlate, só pela memória,
um livro maior de forças a sério:
o claro e o escuro de um igual terror
 
À casa em ruínas salvam-na essas asas
que vejo daqui, saltam da janela
e entram nesta sala. Não são as do anjo,
mas têm nas penas um sistema hidráulico
que as faz oscilar e rasar os ventos.
 
Olham-me, sombrias, dentro de um futuro
liso e sem ruínas – só de um chão mais puro
onde a casa houve, de janelas rasas
carregadas de ar. Só ele é comum
ao anjo e a elas, elas cheias dele,
ele, transportando e oscilando em paz.
 
Quando for sem ser? Só um limpo instante
de equalizador: ruínas e ventos,
janelas e anjo, heras e senhores
em mudas frequências, enxutos os sons?
 
E um poço vazio onde o coração
foi visto bater: partícula igual
ao pó de um cometa que um dia rompeu,
devorando o ar. E a casa em ruínas
abrandada em tempo, vogando no branco
de resplandecentes seis sílabas. Sós.

Ana Luísa Amaral

 

 

 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A morte essa é um maravilhoso número indivisível.

Alexandre Pinheiro Torres

O QUE A CENSURA CORTOU


 

Um livro que se encontra no Outro Lado das Estantes, que apresentámos en  29 de Julho, irá servir-nos para reproduzir alguns cortes que um conjunto de censores-militares-analfabetos exerceram no jornal Expresso, bem como em outros jornais portugueses.

OLHARES


O Sol, no dia em que, por breves instantes, a Lua o escondeu, deixou-nos às 20h34m.

Legenda: fotografia tirada do sítio do costume. 

O OUTRO LADO DAS CAPAS


João Carlos Raposo Nunes, nasceu em Lisboa, em 1955 é livreiro e alfarrabista na baixa de Setúbal, perto da Câmara Municipal.

O Raposão passou a ser um dos comparsas do Luiz Pacheco e que amiúde lhe mandou, durante 13 anos bilhetes-postais, cartas, o que calhava.

Convém lembrar, se há escriba que deram largo trabalho aos Correios portugueses, Luiz Pacheco está em lugar de topo.

Segundo João Pedro George, Luiz Pacheco sofria «de compulsão epistolar.»

O próprio Pacheco escreveu:
«No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo».

Postal de Pacheco para o poeta Zé Gomes Ferreira em 14 de Abril de 1968:

«Chego a Lisboa de Albarraque e encontro um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz Pacheco a pedir-me 50 escudos.

«Encontro-me numa fase em que não me repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome. Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao Queneau.»

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Temos, pois, mais um livro de cartas do Pacheco.

Talvez coisas banais mas, acima de tudo o livro vale pelo prefácio e as notas do António Cândido Franco. 

OLHAR AS CAPAS


Cartas ao Léu

Luiz Pacheco

Correspondência de Luiz Pacheco

Para João Carlos Raposo Nunes

(1990-2003)

Edição: António Cândido Franco

Capa: Luís Henriques

Maldoror, Lisboa, Junho de 2020


2º feira, 11 de Novembro 2002

Dia de S. Martinho!


Meu caro Raposão

És capaz de já saber. No dia 23 deste mês, um sábado, é lançado aqui na Livraria Ler Devagar, no bairro Alto, um livrinho meu, um conto de Natal. Gostava que viesses. A distribuição é da Editorial Notícias. Tens crédito lá? Para mim é uma ALEGRIA. O Carlos Curto organiza uma Performance, com o actor João LAGARTO; é um BOM actor, conheço da televisão. Eu andava à rasca e talvez assim equilibre as finanças.

Esteve aqui um velho Amigo meu que mora ao lado do teu pai, na Graça. É o Benjamim Monteiro, ilusionista e grande

PÂNDEGO

Ele falou com o teu Pai. Vou escrever-lhe para ele assistir ao lançamento.

Aquele MARAU do Capêlo tem aparecido? O Carlos Dutra contou-me uma cégada em Évora com ele e com o escritor que é irmão do Orlando Vitorino (ou estarei enganado? o Telmo.

Aparece

Abraços castos do

Luiz Pacheco

APOCALIPSE

Enquanto o sol arrefece

Aproveitemos o tempo,

Pois nem sempre o que acontece

Muda o sentido do vento.

 

Abraçamos – de mãos postas –

A esperança da redenção,

Mas se há vento pelas costas

Mudamos de direcção…

 

Espada de ferro temperado

As limalhas no cinzeiro,

Como o vento moderado

Pode atrasar um veleiro…

 

A Terra tem duração,

Como embalagem perdida,

O nosso mundo é balão

Ameaçando descida…

 

Não te detenhas e esquece

O peso desta ameaça,

Enquanto o sol arrefece,

Fica no tempo que passa!

             Lisboa, 24 de Janeiro de 1997

Henrique Segurado em Resumo: a poesia em 2012

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Um livreiro é alguém que tem de ser um bom leitor antes de tudo, tem de ter alguma cultura e sabendo que é uma profissão para empobrecer alegremente. É alguém que acredita que um mundo sem livros seria um mundo muito mais pobre.

José Antunes Ribeiro

Legenda: cena do filme What´s New Pussycat? De Clive e Donner, 1965, com Woody Allen e Romy Schneider.

AO CAIR DO PANO

 

Tanta gente para, ao longo do país, olharem a lua tapar o sol.

A Maria Judite de Carvalho, num dos seus livros, diz: «Todos estamos sozinhos, Mariana; Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.».

As televisões, com a mediocridade, a banalidade habituais, com que abordam tudo o que tocam, ocuparam todo o tempo, do antes e do depois, do eclipse do sol.

cmtv colocou em «alerta»: «o eclipse está a fascinar os portugueses».

Algures, um português diz ao repórter: «a graça disto, deixa um gajo maravilhado!»

O primeiro-ministro, ainda antes do eclipse, afirmou, em Cascais, aos jornalistas:

«O governo trabalha todos os dias, 24 horas por dia, sete dias por semana", deixando ainda um pedido, uma reflexão à comunicação social sobre as suas prioridades.

E, ternamente, voltei a ouvir falar de Rio de Onor, uma aldeia com 43 habitantes, que recebeu centenas de visitantes, pois era aí que o eclipse se mostraria a 100%.

À LUPA

«Além de ser uma notícia com carga emocional positiva, é um fenómeno irrepetível para muitos de nós, pelo menos em Portugal: o último (total) foi em 1912- e o próximo será em 2144. A excepção são os caçadores de eclipses, que andam pelo mundo à procura de ver a Lua ensombrar o Sol: alguns podem ficar-se apenas pela Península Ibérica (caçadores parciais) e terão a sorte de poder assistir a três entre 2026 e 2028 — e temos alguns desses nesta redacção.

A corrida aos óculos, que a 24 horas do eclipse surgiam à venda com preços que iam dos 10 aos 100 euros em plataformas de revenda online, comprova que há um certo fascínio na escassez e que fenómenos destes são imperdíveis.

Logo à tarde, haverá milhares, quiçá milhões, de telemóveis apontados ao céu. Teremos apenas 20 segundos, um minuto ou quase dois de eclipse total, consoante o sítio onde estivermos. Numa altura em que fotografamos tudo aquilo que receamos esquecer, do mais banal prato de comida ao nascimento de um filho, deixo-vos um dilema muito contemporâneo: quanto desse (breve) tempo queremos passar a olhar para um ecrã?»

Do editorial de Sónia Sapage  no Público de hoje

CRONICANDO POR AÍ

 

Writer's block issues out of fear

– but of what?

Dawn Raffel,

The Truth about Writer’s Block

«Li no Público um conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher) continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer sentido em começar o dia.”

Enquanto reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”), confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe, felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido: a escrita da poesia.

Eu sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas, depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a minha vida e os meus projetos.

Nada há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...

Não sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na sua Metafísica, estabelece que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida, do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.

O vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou, nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.

Então será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.»

Luís Filipe Castro Mendes, crónica no Diário de Notícias

QUOTIDIANOS

Discussão entre vendedores de louro prensado na Baixa de Lisboa, acaba com homem a puxar de pistola e atirar contra rival. Falhou o alvo, mas acertou numa mulher sueca que estava a comprar pastéis de nata.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Um velho recorte de uma crónica de António Guerreiro publicada no Público de

10 de Setembro de 2021

DE UMA PARAGEM A OUTRA

Quando me sentei na mesma mesa de café

em que o pessoa tomava café, no martinho da arcada,

e o eléctrico que passava era oi mesmo

que ele apanhava para ir trabalhar, tinha

uma dúvida se não tivesse com ele algum papel

para escrever o poema que tinha na cabeça,

conseguiria escrevê-lo no bilhete, parindo

do princípio de que se consegue meter num bilhete

de eléctrico, uma ode, mesmo que não seja

tão triunfal como a outra? E apanhei o mesmo

eléctrico que ele, embora não tivesse

a certeza de que me estava a sentar

no mesmo banco em que ele se sentava,

e comecei a escrever nas costas do bilhete

uma ode inteira:

Um poema não precisa

de caber num bilhete, se um bilhete

nos levar para o poema.

Na realidade,

a ode coube no bilhete, só não sei

se o bilhete chegou para me levar

onde eu queria.


Nuno Júdice em Primeiro Poema

terça-feira, 11 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO



 

Cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas.

Sérgio Godinho

Legenda: pintura de Georg Schrimpf

TRUMPALHADAS

Soube-se agora.

Donald Trump, o presidente do país mais poderoso do mundo, depois da cimeira da NATO, no mês passado, saiu de Ancara num avião secreto, numa operação simulada e desencadeada por uma alegada ameaça de assassinato por parte do Irão, avança o The Washington Post.

De acordo com informações avançadas pelo jornal norte-americano, a operação envolveu três aeronaves diferentes. Donald Trump embarcou em Ancara, para seguir para Mildenhall, no Reino Unido, num primeiro momento e diante das câmaras, no avião Air Force One, tendo depois sido transportado para uma outra aeronave militar secreta - um Boeing 757. O presidente dos EUA foi levado até à aeronave num camião de catering, geralmente utilizado para transporte e serviços de alimentação.

Ao mesmo tempo, jornalistas e funcionários da Casa Branca também embarcaram no Air Force One, acreditando que Donald Trump estava a bordo. Relatos apontam que os passageiros foram previamente instruídos a baixar as persianas das janelas. Depois de chegar a Mildenhall, como previsto, os fotógrafos registaram imagens de Trump a desembarcar do avião presidencial, sugerindo que reembarcou no Air Force One fora da vista do grupo de jornalistas que pensavam estar a viajar com ele. Em declarações aos jornalistas, Trump referiu a ameaça iraniana, mas não mencionou a troca de aviões.

Após a breve visita à base em Mildenhall, Trump embarcou no novo Air Force One para seguir viagem até Washington.

Quando questionado sobre as ameaças do Irão, Trump respondeu: "Bem, recebo ameaças a toda a hora. Sou o número um na lista deles, antes de vocês", disse.

Com Donald Trump tudo pode acontecer!

VISITAS À LOJA FRENESI


José Afonso

org. e pref. José Viale Moutinho
capa de Sousa Pereira s/ fotog. de Viseu Caldeira

 

Porto, 1972

Livraria Paisagem

1.ª edição

200 mm x 125 mm

128 págs.

exemplar em muito bom estado de conservação; miolo irrepreensível

35,00 eur (IVA e portes incluídos)

 

Reunião de notas críticas e de textos de apoio à edição dalguns discos de Zeca Afonso, em que avultam os nomes de Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Assis Pacheco, Bernardo Santareno, António Cabral, etc. O compilador, José Viale Moutinho, completa o volume acrescentando-lhe uma longa antologia de poemas para as canções e uma dezena de inéditos. Daqui, o poema «Fui à Beira do Mar» (que veio, posteriormente, a surgir cantado no disco Eu Vou Ser Como a Toupeira, tendo sido substituído o termo «arfar» por «lavrar»)

 

«Fui à beira do mar

Ver o que lá havia

Ouvi alguém cantar

Que ao longe me dizia

 

Ó cantador alegre

Que é da tua alegria

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

 

Desde então a arfar

No meu peito a alegria

Ouço alguém a bradar

Aproveita que é dia

 

Sentei-me a descansar

Enquanto amanhecia

Entre o céu e o mar

Uma proa rompia

 

Desde então a bater

No meu peito em segredo

Sinto uma voz dizer

Teima, teima sem medo»

 

pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089   [chamada para rede móvel nacional]

Este livro de José Afonso encontra-se na Biblioteca da Casa desde Setembro de 1972 e foi comprado na Livraria Opinião de saudosa memória, agora num tempo em que as livrarias já quase desapareceram da cidade.

SÍTIOS POR ONDE ELES ANDARAM


CASA DAS IMAGENS LAURO ANTÓNIO

Rua da Velha Alfândega, N. 8.

2900-660- Setúbal

Telefone: 969754116

 

«A Casa das Imagens Lauro António – Biblioteca, Mediateca e Arquivo, inaugurada a 8 de maio de 2021, reúne o acervo doado pelo cineasta e crítico de cinema Lauro António à cidade de Setúbal.

A Câmara Municipal de Setúbal adquiriu e adaptou um edifício da Baixa, com uma localização privilegiada, para consulta e fruição pública de todos os que nos visitam e têm interesse pela sétima arte.

Tem por missão a recolha, proteção, preservação, conservação, divulgação e dinamização do património audiovisual, promovendo em permanência a construção do conhecimento sobre a sua história, atualidade e futuro.

Neste espaço cultural reúne-se um acervo relacionado com a imagem – com publicações de cinema, audiovisuais e televisão, assim como de banda desenhada e cartoons, revistas especializadas de cinema, DVD, cartazes, documentação e arquivo pessoal de Lauro António reunido durante uma vida.

Na Casa das Imagens encontra-se uma biblioteca especializada na temática da imagem, com foco especial no cinema, e uma sala de audiovisuais, que alberga mais de 3500 filmes.

Afirma-se como espaço de fruição do cinema e do audiovisual, nas suas múltiplas vertentes, promovendo exposições temporárias, ciclos de cinema temáticos, tertúlias com atores, realizadores e outras atividades em torno do cinema, da imagem e do audiovisual, para diferentes públicos.»

«Quando tomei a iniciativa de propor à Câmara Municipal de Setúbal a oferta da minha biblioteca e de grande parte do recheio da minha casa particular, muitos me perguntaram porquê Setúbla?

Desde logo por ser terra de que sempre gostei (..) mas estou ligado a Setúbal por uma série de efemérides, desde o facto de ter sido um dos fundadores, juntamente com o Manuel Costa e Silva, do Festival Internacional de Cinema de Tróia, até à encenação de uma peça minha “A Encenação”, no TAS, a convite do saudoso Carlos César, ainda no velho Luisa Todi»

Lauro António, 18 de Agosto de 2020

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Tem sido uma verdadeira corrida aos óculos de sol para poder observar em segurança o eclipse solar desta quarta-feira. Nas últimas semanas, têm sido muitos os portugueses que procuraram óculos de sol nas farmácias e óticas, primeiro os gratuitos, disponibilizados pela Ciência Viva - e que esgotaram no final da semana passada, mesmo após reposição de ‘stock’ - e posteriormente os de venda, com preços a rondar 3 euros por unidade, que têm esgotado em vários estabelecimentos.»

Correio da Manhã

FADO ALEXANDRINO

Amanhã chegaste a minha vida

e disseste bom dia e era noite lá fora

puseste-me na mesa o prato da comida

acenaste-me adeus e não te foste embora.

 

E como era manhã vestiste o meu pijama

Tomaste um comprimido para dormir acordada

como era hora de almoço chamaste-me para a cama

como era hora da ceia bebeste-me ensonada.

 

E quando temos frio aquecemos à lua

as mãos que penduramos na corda de secar

quanto mais roupa trazes mais eu te sinto nua

e quanto mais te calas mais te sinto cantar.

 

António Lobo Antunes em Livro de Poemas

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

À LUPA

 «Em 15 anos, as piscinas na Charneca de Caparica quase duplicaram. A análise feita pelo PÚBLICO mostra que, entre 2011 e 2026, o número desses equipamentos passou de 1786 para 3469 nesta zona de Almada, que foi aquela em que o consumo de água mais subiu em 2026, o ano em que o concelho tem tido cortes no abastecimento. Não foram só estas infra-estruturas que aumentaram: há mais habitantes, licenciamentos para nova construção e edifícios concluídos.»

Público, 10 de Agosto

E o mar ali tão perto!...

FINDA

A conclusão de tudo é só a morte
e não há mais epílogo nem finda.
Não se termina o verso nem o curso
mudamos à conversa interrompida.

Não findamos o verso nem acaba
o desfazer-se o mar contra esta praia.
A conclusão de tudo é só a morte,
nem o silêncio quebra a sua amarra.

Sequer há conclusão? Sequer há morte
nas palavras deixadas pelos recantos
mais sujos e perdidos do seu norte?

Amor que nos moveu no desalento,
a pátria destes versos foi só pura
imaginação por dentro da memória.

(Mas já outras canções nos estremecem:
longe do coração começa a História.)

Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos


domingo, 9 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


Quando eu morrer sentirei saudade de mim.

Clarice Lispector

Legenda: Clarice Lispector