sexta-feira, 9 de outubro de 2026

ANDO CANSADO

Ando cansado, amargurado, sem um sorriso, e os olhos

doem-me ao cair da tarde. Como um anjo aborrecido,

lento, aproximo-me dos livros, dos papéis e tento acender

um fósforo inutilmente. Já não conheço a literatura, meu amor.

 

A literatura não vem nos jornais, embora tropece nos silêncios,

nos degraus, nos bancos do jardim, embora tenha nascido

nocturna. Ando perdido, e nas pedras negras da costa

vejo o último atalho, a garrafa dos apelos finais abandonada.

 

José Viale Moutinho, tirado daqui

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen

OLHAR AS CAPAS


O Imaginário de Lisboa

Na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis

Teresa Martins Marques

Capa: Soares Rocha

Colecção Imprensa Universitária nº 103

Editorial Estampa, Lisboa, 1994

A cidade é a experiência que dela temos.

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

SÍTIOS POR ONDE OS AMIGOS ANDAM


 A Luísa e o Rui, vizinhos do 4º andar, voaram para o Japão, paixão eterna.

Prometeram que mandavam fotografias.

Começaram a chegar.

Esta é de Hokkaido.

O OUTONO

O outono

ainda tem a cor da areia

e já a luz passa

as folhas no teu rosto

 

Segues as ramagens

no vestido

e são naturais amor

as sombras inquietas


António Reis em Poemas Quotidianos

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Quando passo junto ao que foi o "QUARTETO" confesso que sinto arrepios de um luto que nunca consegui fazer.

Um leitor do Público.

RETRATOS


«Eu não fazia parte do elenco da peça, estava sentado na coxia da terceira fila, talvez perdido entre dois blues, mas ergui-me da poltrona e galguei os degraus para o proscénio. Chabela Vargas cantava nas minhas veias? O Manuel Freire era a voz da razão, soava Paul Robson no Old Man River. A sala ainda estava iluminada e situei-me logo ali. Mostrei à vontade ao erguer uma perna e pousar a alpargata sobre a caixa do ponto, impedindo que ele iniciasse a leitura murmurada da comédia, a comédia que se encontrava em cartaz. E declarei aos que procuravam sentar-se nas poltronas correspondentes aos seus bilhetes, o meu nome e acrescentei que chegara, havia muito, de uma ilha perdida no Atlântico, e que eu nascera quando os canhões começavam a calar-se pela segunda vez em todo o mundo. Falei que estava agora a lançar raízes na ilha, a Ilha do Ogre, mas arrepiei caminho. Um gracioso, num dos camarotes, perguntou em falsete se eu queria dizer que nascera na Madeira em meados de 1945. Aplaudiram-no, mas a mim apetecia-me, como sempre, dizer as coisas de modo mais sinuoso, acrescentando ser filho de um homem do Douro, extraordinário efabulador, desinteressado das vinhas e dos olivais da família, dele e de uma inglesa, que levara como dote, uns brincos de sua mãe e memórias de uma riqueza palaciana, carregada de preconceitos, inclusive de classe.

Assim, entre a realidade quotidiana e as memórias ficcionadas, ou apenas inacreditáveis, montes de livros, férias no Douro, onde os personagens eram escritos por mim sobre as histórias de meu pai, e a figura mítica de um avô, que andava pelos campos em misteriosos trabalhos que eu não entendia muito bem. Ah, e as pessoas, já sentadas nas suas poltronas, impacientavam-se porque, segundo diziam, eu estava a impedir o início da representação. Teria sido muito simples se se erguesse o pano, surgisse o primeiro cenário e os actores começassem a função, naqueles jogos de deixas garantidos pelo homenzinho da caixa sobre a qual eu tinha pousado a alpargata.

Na verdade, eu nem precisava de cenários nem de mais actores ou de que quem quer me sussurrasse os passos da minha vida, que eu me dispusera a contar naqueles momentos. Havia um foco que percorria a sala e, de quando em quando, mas cada vez mais insistentemente, se fixava em mim. Eu calculava que uma certa percentagem do sucesso que ali pudesse ter assentaria no facto dos gordos serem considerados pessoas bem dispostas. A plateia, mulheres e homens de rostos atónitos, era constituída por gente que me parecia demasiado magra. Nas histórias de meu pai havia sempre um frade imponente e eu imaginava-o sentado a uma grande mesa, e eles, bocas abertas, olhos bugalhudos, vendo as suas poderosas mãos agitando talhadas de presunto, coxas de capões assados, côdeas de broa, pernis de porco negro, grandes malgas de vinho tinto, um bródio à antiga! E aquele frade era eu, possivelmente o meu fantasma. Essa era a maneira que tinha de lhes mostrar bem saber como entrar na dimensão por onde andaria, com as mesmas glórias, vícios, vaidades e saberes de sempre. E se um lugar há dentro da minha cabeça, que, cuido como poiso da memória de toda a família, esse é o Quarto dos Santos da casa dos meus avós. Havia aí um oratório, com a Senhora do Campo, milhares de velas de cera, cujo arder empestava até ao corredor, uns diplomas que davam alguns dos avós como terceiros de ordens e de confrarias, centenas de figuras de santos, anjos e arcanjos, suponho quase todos apócrifos, uma espécie de santíssimo exército a vigiar a fé da minha avó e de todas as velhas murmuradeiras nas rezas e jaculatórias ao quotidiano toque das Trindades.

Eu tinha um fascínio por aquilo tudo e, de noite, vinha do meu quarto, espreitar aquela população prodigiosa, que parecia adquirir vida com o tremular das lamparinas eternamente acesas. Havia ainda o gavetão de uma cómoda onde eram guardadas umas esporas douradas, cuja origem ninguém condescendia em contar-me. Numa caixa de velas, era guardado um enorme revólver de espigão, hoje aqui a defender alguma papelada dos ventos do Porto que me devassam o lugar de trabalho.

Vivi em Espinho, onde se passeavam vários fantasmas, o de Amadeo e o de Laranjeira, de um pintor espanhol que tinha uma orelha de cera e uma escritora de romances cor-de-rosa. Como professor, no Colégio de S. Luís, tive o novelista José Marmelo e Silva, uma lição de intelectual que encolhia os ombros à glória efémera. Em segredo, falava-se muito do assassínio de um médico comunista, Ferreira Soares. E ali havia uma feira enorme e cheia de sugestões, que era a minha perdição às segundas, quando escutava romances de cego, a conversa fiada dos vendedores de banha de cobra com a jibóia ao pescoço, transportada numa mala de cartão, cobra que comia coelhos vivos à nossa vista. Um corcunda vestindo de branco, com um tabuleiro ao pescoço, rondava o colégio, expressão sardónica, a guinchar: «Chupa-chupa, caramelo, estica!» Um perfeito do colégio pedia-nos calendários para os trocar por copos de vinho numa taberna ao fundo da rua. E as incursões ao estranho universo do mosteiro de Grijó, em cuja quinta, parte do cenário de um romance de Júlio Dinis, dizia-se, passei a odiar leite quente quando o parvo do moço da vacaria ordenhou umas sujas tetas lançando-me jactos de leite branco, espesso, gorduroso, directamente para a boca escancarada.

De Espinho, de Almendra, mudei-me para o Porto, o que eu aprendia parecia-me que era o arrastar de uma espada do tamanho da que é atribuída a Afonso Henriques e está no Museu de Soares dos Reis. Ganhei mais o gosto da História e de alguns caminhos da Antropologia. Entrei para o Jornal de Noticias, em cujo suplemento literário já colaborava. Fiz a via-sacra dos hospitais, da morgue, dos acidentes, das lixeiras. A primeira grande entrevista foi com o Eugénio de Andrade. Eu já sabia que não levava a melhor com a puta da Censura, mas procurava iludi-la. Comecei a ir a Lisboa, onde conheci alguém que foi decisivo na minha vida de escritor, o Urbano Tavares Rodrigues. Colaborava no República. Em 1966, mando imprimir um livro de prosa poética, O Corredor, capa do Zé Rodrigues. A exemplo não sei de que poeta francês, ainda não sabia do gesto semelhante do Trindade Coelho, queimei a edição toda! Nem um exemplar tenho, só se salvaram quatro páginas de provas. Dois anos depois saiu Natureza Morta Iluminada, uma narrativa, 32 páginas, ilustrada pelo pintor Fernando de Oliveira, meu compadre. Irritei-me muito com um idiota a quem ofereci o livro e, dez dias depois, me disse que andava a lê-lo! Depois, de 1975 a 2003, estive no Diário de Notícias.

Fraternalmente, conto com o António Rebordão Navarro, o Marco, o Méndez Ferrín, o Manuel Maria, a Fedra Santos, o Fernando Lanhas e alguns outros mais. Em relevo tenho dívidas antigas com a Ana Hatherly, mesmo com o Michel Butor, e modernas com o José da Cruz Santos, mais recentes ainda com o Edgar Silva. Poderia contar mais coisas, mesmo sobre amigos deportados em campos de concentração nazis, mas para quê? E aqueles que ficaram pelo caminho?

Bem, na verdade, há um estranho silêncio no teatro, afinal um dos muitos teatros que arderam sem eu ter dado por ela. Andei pelo mundo, entre bruxas da Chã de Ferreira e meigas galegas, escutei histórias mágicas por toda a parte, até contei caveiras nos tzompantlis e bailei o danzón em Veracruz, escrevi muitos livros, e apetece-me continuar a escrevê-los. Vivi intensamente o 25 de Abril, conheci a Liberdade. E fui vidente em Seide, vi Camilo à janela de sua casa quando lá fui receber o Grande Prémio do Conto por aquele livro Cenas da Vida de um Minotauro. Acenou-me, daí eu ter começado a falar logo com ele, o que levou os presentes – o Zé Manel Mendes, o Navarro, a Cristina Robalo Cordeiro e Aníbal Pinto de Castro – julgaram ser boutade e não era senão uma aparição pagã privada. Por isso, na pedra de Seide apareceu o meu nome.

Andei pelo associativismo cultural, mas desencantei-me. Porém, estou encantado noutro nível, pois aos 60 anos, ainda agora cumpridos, continuo apaixonado e não só pela vida. E cá ando, atraído pelos muitos rostos de um universo plural. A História parece que, cada vez me absorve mais, em termos de testemunho e de base para ficção, da Guerra Civil de Espanha aos campos de concentração. Depois, por um bando de pardais que se renova, escrevo para a miudagem. E quando julgava que não tinha mais nada a fazer nessa área, a minha afilhada Francisca, sem se aperceber, contratou-me para eu reaprender a encarar a vida, e a missão está atribuída e não posso esmorecer.

Ah, mas afinal isto não é teatro coisa nenhuma, estou é encafuado no velho  Quarto dos Santos. As lamparinas é que provocam estas visões e a herança das fábulas potencia a memória. E quanto não disse, sem o esconder! De quando em longe, sento-me à mesa com um bom amigo de infância, o Jorge Carvalho, da Quinta do Mocho. Ou com o Zé Ilídio. Ou com os meus primos das duas partes paternas, por um lado a Uli e o Tony, e por outro a tribu dos Trabulos, com as Márcias, o Toneca, a Mariazinha, o Zé Luís, por aí fora. Mas, nestas ladeiras que calcorreio por receita médica, penso muito nos que vão ficando pelo caminho – o Adriano, a Fernanda e o Fernando, a Maria Virgínia, o António Sampaio, o Egito, o Veiga Leitão, o Eugénio, o Companheiro Vasco, o Manuel Maria, o Uxio, tantos outros. Mas também penso na bela maneira de encarar a vida de uns amigos especiais – o patriarca Francisco Mangas, que me ensinou a pescar, o Tony, um primo do fundo dos séculos, e o grande João Cid, pintor, poeta, neto do Manuel, íntimo do António Nobre.

Ah, mas já não está aí ninguém? Pois, nunca aí esteve ninguém. Também me vou embora, só me resta ser o escritor e o bonhomme que me parece sempre fui.»

José Viale Moutinho

Poderei não ter sido assim, é um arremedo autobiográfico do jornalista e escritor José Viale Moutinho, que nos deixou no dia 22 de Setembro.

À LUPA

«O outono dos heróis é o nosso outono e, por isso, tantos aderem à recusa passional de Cristiano Ronaldo. Eu não sei, nem procuro saber, o que se passou entre aquelas pessoas, cujos nomes agora cobrem as manchetes dos jornais. O que me parece é que ninguém neste caso foi minimamente delicodoce – ou tão somente delicado.»

Luís Castro Mendes no Diário de Notícias

NOTÍCIAS DO CIRCO


«Há um grito de alerta que deve ser dado para que não se perca a memória e a experiência que estão ligadas à casa de António Sérgio, na Travessa do Moinho de Vento, em Lisboa. Muitas vezes, as reformas no papel, sobretudo quando visam reduzir efetivos ou encargos, ficam-se pela forma, mas falta-lhes o planeamento e a ponderação das consequências. Arriscamo-nos a ficar numa situação lamentável que, sem ponderação devida, pode ter consequências muito negativas.

A pequena moradia de que falo, foi construída em 1925 segundo um projeto do arquiteto Raúl Lino, constituindo uma das referências paradigmáticas das “Casas Portuguesas”. António Sérgio habitou com grande gosto pessoal a casa até à sua morte em 1969, e introduziu-lhe pequenas alterações funcionais. É um ponto crucial do roteiro sergiano da cidade de Lisboa, no coração da freguesia da Estrela. Aí tiveram lugar as famosas tertúlias de sábados à tarde, animadas pelo ensaísta, onde avultaram as presenças marcantes de: Álvaro Salema, Agostinho da Silva, Castelo Branco Chaves, mas também de Natália Correia, Fernando Ferreira da Costa e José-Augusto França, não faltando Luísa Sérgio, terna anfitriã.

(…)

A casa de António Sérgio está em perigo. Tem um património único que não se pode perder. Lá estão uma Biblioteca do mestre, de valor incalculável, e espólios como o de Fernando Ferreira da Costa, pioneiro do cooperativismo, que exigem intervenção imediata para evitar a degradação.

(…)

Há, pois, uma preocupação múltipla que não pode ser analisada de ânimo leve, exigindo orientações determinadas para que se não crie um estranho vazio, devido a ignorância e desatenção.»

Guilherme de Oliveira Martins no Diário de Notícias

Legenda: fotografia de Ana Padilha no Público

ESTE POEMA FOI ESCRITO

este poema foi escrito ontem hoje não

vou escrever (na face nego sorrisos como

quem fecha janelas) hoje só preciso de

 

mim (este poema é grátis: não está

incluído no preço do livro). hoje

não tocarei o corpo da Corona Four

 

uma azerty americana já com uma certa

idade (ainda é das que escreve poesia a

preto e  ranco) faz um mês que se perdeu

a tecla da letra « » só por isso não

 

tenha escrito sobre o   rilho dos teus

olhos, o meu copo está vazio (hoje

não é poedia) depois eu mando alguém

 uscar as minhas palavras

 

João Luís Barreto Guimarães 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

À LUPA


«Christa Pike, condenada à morte em 1996 por homicídio, sobreviveu a duas doses letais de pentobarbital.» À beira disto, a história entre o Ronaldo e o Jesus não vale nada.»

Cristina Fernandes no Bicho Ruim

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Só tardiamente comecei a ler Clarice Lispector.

Encontrei este livro na Re-Read da Avenida de Roma, onde antes era a Leitaria Suprema.

Escreve o seu biógrafo Benjamim Moser que investigou a vida de Clarice em tês continentes, desde Tchechelnik até ao Recife, depois ao Rio de Janeiro e mais tarde, como esposa de diplomata, a Nápoles, Berna e Washington, até ao regresso definitivo ao Rio de Janeiro:

«Nascida em 1920, numa Ucrânia devastada pela Primeira Guerra Mundial e a Revolução Bolchevique, com a família forçada à emigração pelos pogroms que violentaram a mãe e arruinaram o pai, Clarice Lispector tornou-se no Brasil uma mulher cujos talento literário, beleza e originalidade intrigaram muitos escritores e artistas»

Maçã no Escuro é um livro sereno.

«O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu.»

É o primeiro dos três romances que publicou nos anos sessenta.

Numa das numerosas versões de A Maçã no Escuro que escreveu, Clarisse ouviu até à exaustão a Quarta Sinfonia de Brahms, número que se exprime no livro como símbolo do mundo criado e de vida.

Copio a epígrafe escolhida pela autora:

«Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que ´informe; tornou-se o que pode ser definido; e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é subtil. Tornou-se toda a espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no real.»

Vedas (Upanichade)

Só os mais atentos conseguem encontrar esta maçã no escuro.

Teremos que tentar.

Já agora, ouçamos a 4ª sinfonia de Brahms


OLHAR AS CAPAS


 A Maça No Escuro

Clarice Lispector

Capa: Fernando Mateus

Relógio D’Água Editores, Lisboa, Novembro de 2000

Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme. O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu. Até que mais profundamente tarde também a lua desapareceu.
Nada agora diferenciava o sono de Martim do lento jardim sem lua: quando um homem dormia tão no fundo passava a não ser mais do que aquela árvore de pé ou o pulo do sapo no escuro.
Algumas árvores haviam ali crescido com enraizado vagar até atingir o alto das próprias copas e o limite de seu destino. Outras já haviam saído da terra em bruscos tufos. Os canteiros tinham uma ordem que procurava concentradamente servir a uma simetria. Se esta era discernível do alto da sacada do grande hotel, uma pessoa estando ao nível dos canteiros não descobria essa ordem; entre os canteiros o caminho se pormenorizava em pequenas pedras talhadas.
Sobretudo numa das alamedas o Ford estava parado há tanto tempo que já fazia parte do grande jardim entrelaçado e de seu silêncio.
No entanto, de dia a paisagem era outra, e os grilos vibrando ocos e duros deixavam a extensão inteiramente aberta, sem uma sombra. Enquanto o cheiro era o seco cheiro de pedra exasperada que o dia tem no campo. Ainda nesse mesmo dia Martim ficara de pé na sacada procurando, com inútil obediência, não perder nada do que se passava. Mas o que se passava não era muito: antes de começar a estrada que se perdia em suspensa poeira de sol, apenas o jardim nada mais que contemplável; compreensível e simétrico do alto da sacada; emaranhado quando se fazia parte dele — e esta lembrança o homem há duas semanas guardava nos pés com aplicação cuidadosa, conservando-a para um uso eventual. Por mais atenção, no entanto, o dia era inescalável; e como um ponto desenhado sobre o mesmo ponto, a voz do grilo era o próprio corpo do grilo, e nada informava. A única vantagem do dia é que na extrema luz o carro se tornava um pequeno besouro que facilmente alcançaria a estrada.


AREEIRO

O sinal vermelho, o carro

travado. À esquerda, a bomba de gasolina;

à direita, a gaiola equívoca.

Duram um minuto e meio,

a minha espera

e os contos que me visitam,

rápidos monogramas em ponto cruz

dessa louca sem nome.

 

Morou ali no tempo

Em que a cidade acabava antes.

Gritava no corredor

que era um pássaro, nascia de manhã

com asas, as penas caíam-lhe à mesa.

Ao fim do dia, abria-se a porta

da varanda. Arrancou

e comeu todas as petúnias brancas.

Depois, o bordado caído

e os olhos atirados para o céu,

por onde hão-de passear estes aviões

agora. Presos: o tecido no bastidor e o ar no peito

(ao contrário daquele que ainda circula –

a única coisa que as grades não podem segurar).

 

Margarida  Ferra em Curso Intensivo de Jardinagem

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

RETRATOS


No tempo em que o futebol era mesmo futebol, e não a trapalhada dos dias que vão correndo, havia quem desse futebol, dissesse que era dos mais belos espectáculos do mundo.

Um desses intérpretes chamou-se Chalana, um tipo franzino que num leve dançar, muitas vezes, sem tocar  na bola, desviava os adversários, criava jogadas e metia golos de levantar estádios.

Deixou-nos em Agosto do ano de 2022, mas eu ainda estou nas tardes de domingo, no alto do 3º anel, a ver os dribles dançantes daquele que José Neves de Sousa, sportinguista e jornalista do Diário de lisboa, aos primeiros olhares, não teve qualquer dúvida em chamá-lo  «pequeno genial», que aos 17 anos começou a jogar na primeira equipa do Benfica.

«O que se poderá dizer mais sobre Fernando Chalana que ainda não tinha sido dito»?, perguntou a jornalista Leonor Pinhão, na hora da sua morte.

Genial futebolista, de uma humildade completamente desconcertante, que depois do campeonato europeu de 1984, foi contratado pelo Bordéus por 220 mil contos, dinheiro que o presidente Fernando Martins, o pedreiro, aproveitou para fechar o terceiro anel do Estádio da Luz, promessa eleitoral que talvez não tivesse concretizado se não fosse a cedência do Chalana ao Bordéus

Por mim, ainda não saí da bancada do 3º anel a ver os dribles dançantes daquele miúdo que adorava o Benfica e, nos tempos livres, criava pombos-correios tal, como José Torres, outro benfiquista.

O MEU AVÔ E O HOMEM DA BANDEIRA


O meu  avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e adolescente.

Sempre que necessário, apresentava-se assim:

«Mário Santos, republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»

Todos os anos, pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de Almeida para uns «Viva à República».

Morreu em 1968, com 93 anos.

Foi um dos muitos que morreu sem saber qual a cor da liberdade.

Estava na Praça António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General Humberto Delgado.

O meu pai dizia-lhe que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.

«Dizes tu! Eu e o homem da bandeira nunca falhamos!»

Referia-se a um republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa. Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do Partido Socialista.

O meu pai morreu em Junho de 1990.

Num 25 de Abril, 1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantava Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos históricos.

Sucedeu nascer um desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio escorrer…

Que nada perturbe esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem, admito ver o meu avô e o homem da bandeira…

UMA PEQUENA LUZ, BRUXULEANTE

Uma pequenina luz bruxuleante

 não na distância brilhando no extremo da estrada

 aqui no meio de nós e a multidão em volta

 une toute petite lumière

 just a little light

 una picolla… em todas as línguas do mundo

 uma pequena luz bruxuleante

 brilhando incerta mas brilhando

 aqui no meio de nós

 entre o bafo quente da multidão

 a ventania dos cerros e a brisa dos mares

 e o sopro azedo dos que a não vêem

 só a adivinham e raivosamente assopram.

 Uma pequena luz

 que vacila exacta

 que bruxuleia firme

 que não ilumina apenas brilha.

 Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.

 Muda como a exactidão como a firmeza

 como a justiça.

 Brilhando indeflectível.

 Silenciosa não crepita

 não consome não custa dinheiro.

 Não é ela que custa dinheiro.

 Não aquece também os que de frio se juntam.

 Não ilumina também os rostos que se curvam.

 Apenas brilha bruxuleia ondeia

 indefectível próxima dourada.

 Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.

 Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.

 Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.

 Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.

 Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:

 brilha.

 Uma pequenina luz bruxuleante e muda

 como a exactidão como a firmeza

 como a justiça.

 Apenas como elas.

 Mas brilha.

 Não na distância. Aqui

 no meio de nós.

 Brilha.

Jorge de Sena

domingo, 4 de outubro de 2026

À LUPA


Perplexa a Lupa, lê no Público:

«Morre um golfinho por dia em Portugal. Bruxelas ameaça com tribunal
A Comissão Europeia decidiu avançar para a segunda fase do processo de infracção contra Portugal por alegadas falhas na protecção de golfinhos e outros cetáceos, concluindo que o país continua sem cumprir plenamente as obrigações europeias destinadas a monitorizar e prevenir as capturas acidentais em actividades de pesca.»

NOTÍCIAS DO CIRCO


Ele não é ninguém, mas não aceita que um qualquer humano, que ande aos pontapés numa bola, sela o símbolo do país que o viu nascer e de que gosta muito.

Não! E não, é não mesmo!

Que lhe diriam os escritores – temos um Nobel da Literatura! – os poetas, os homens do teatro e do cinema, os pintores, os cantores, os músicos que o ajudaram a pensar e ser gente?

Claro que se lembra que num qualquer Natal, o primeiro-ministro Luís Montenegro teve a infelicidade de numa mensagem de Natal, ter dito que teremos de ter a «mentalidade de Cristiano Ronaldo» para mudarmos o país.

Também se lembra que o escritor Claudio Hochman no seu livro Ilhas, deixou o lamento: 

«Quando morreu Herberto Helder, houve quem pensasse que dariam o seu nome ao aeroporto da Madeira, a ilha onde o poeta nasceu. Mas não. Deram-lhe o nome de Cristiano Ronaldo. Mais uma vez, a poesia do futebol ganhou à poesia pura e dura.»

De uma vez por todas acabem com esta palhaçada!

sábado, 3 de outubro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


O escriba solicita uma desculpa, pequenina que seja, por o tempo climático, dado que o Verão ainda não saiu do jardim à beira mar plantado, não lhe estar favorável seja ao que for.

Sempre gostou do Outono, da Primavera, talvez alguns dias de Inverno, mas o resto sempre o deixou com vontade de lagartar.

Deste modo foi buscar um textinho feito há longo tempo, mesmo muito longo tempo:

 
«O poeta polaco Zbigniew Herbert teve o cuidado de dizer a si próprio: «deverás ir tranquilo ao teu próprio funeral.»

Razão suficiente para que, quando a dita lhe bater à porta, deixar recado aos amigos e  familiares:

Embarquem no cacilheiro da rota da Trafaria, onde o Tejo se faz ao mar, a meio caminho, despejem as cinzas, de quem muito gostou de andar por aqui, depois almoço na Antiga Casa Marítima: filetes de tamboril, arroz de feijão, salada, não se esqueçam de pedir para a cozinheira lançar uma boa mão cheia de coentros, vinho da casa.

E não se ponham com veleidades, com mariquices, com isto, com aquilo, porque ele está a espreitar dos bastidores.

Também na morte é importante saber dar uma festa, disse aos netos a rainha-mãe, devoradora de gin-tonic, viciada em corridas de cavalos, que também adorava uma boa cachimbada.

»A história dos homens é desde sempre mistério de vida e de morte. Choramos os nossos mortos e outros chorarão a nossa morte. Assim se faz o nosso caminhar sobre a terra.»

Ficou-lhe gravada uma frase do jornalista Victor da Cunha Rego: «uma pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.».

Foi em Setembro do ano de 1977, na casa que, então, o pai tinha em Almoçageme, que se lembra de ter pensado, pela primeira vez, no assunto.

Tinha despachado o «Alta Fidelidade» do Nick Hornby, num só fôlego.

Há por lá uma passagem em que Hornby escreve:

«Não há propriamente muitas canções pop acerca da morte: pelo menos canções boas. Talvez seja por isso que eu gosto de muita pop e acho a música clássica um bocado tétrica. Havia aquele instrumental do Elton John, “Song for Guy”, mas não passava de umas marteladas no piano que tanto podiam ser ouvidas no aeroporto como no mosso funeral.

- Vamos lá pessoal, as cinco melhores canções pop sobre a morte.


- Genial – diz o Barry. – Uma lista de Homenagem ao pai da Laura. Fixe. “Leader of the Pack”. O tipo morre a andar de mota. E a seguir temos “Dead Man’s Curve” dos Jan e Dean, e “Terry” da Twinkle… e aquela do Bobby Goldsmoro, “ And Honey, I Miss You”…


- E que tal “Tell Laura I Love Her”? Ia ser um êxito.


Ainda bem que a Laura não está aqui para ver como nos divertimos à custa do pai dela.


- Já resolvi que música vou querer no meu. “One Step Beyond”, dos Madness. “You Can’t Always Get What You Want”.»


À noite, debaixo da parreira de uva americana, ou morangueira, sentindo o aroma, ouvindo o silêncio dos ralos e das cigarras, lembra-se de lhe ter contado o episódio e, ao mesmo tempo, perguntado, que música ele escolheria.

Uma pausa muito grande, e depois a resposta:

O Requiem de Mozart.

Passados meses, pensando que a morte é o único destino que temos assegurado, por mera brincadeira, começou a alinhar uma cassette (os CDs eram, ainda, uma miragem) de músicas e canções para serem ouvidas antes de o fogo o devorar.

Ainda nem sequer tinha chegado ao princípio dos princípios e desistiu.

Os amigos não mereciam tal castigo.

Mas algum toque teria que existir.

Foi quando concluiu que bastava uma única canção: «Bye, Bye Love», na versão de Simon and Garfunkel, «bye, bye love, bye, bye happiness.»

Esperança para o futuro: a de aprender a morte serena, a que contemplava a luz no musgo daquela parede da casa de Almoçageme, a parede junto ao celeiro, onde o Marcolino guardava as maçãs reinetas, as batatas, as cebolas, as enxadas, o aroma das uvas americanas, ou morangueiras, o silêncio dos ralos e das cigarras.

Nunca aprendemos tudo sobre despedidas e o grande problema é que o tal dia, dura uma eternidade.

Entrada para uma solicitação do poeta José Gomes Ferreira:

«Enterrem também comigo na cova,
Graças a um novo invento de gravação magnética nas pedras
Música de Bach e de Mozart
É o único ar
Que os mortos podem enigmaticamente respirar»


Outras versões de Bye, Bye, Love:




sexta-feira, 2 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 O impossível, em geral, é o que não se tentou.

Jim Goodwin

OLHAR AS CAPAS


História de Uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar

Luís Sepúlveda

Tradução Pedro Tamen

Asa Editores, Porto Janeiro de 2003

-Estou a voar! Zorbas! Sei voar! Grasnava ela, eufórica, lá da vastidão do céu cinzento.

O humano acariciou o lombo do gato.

- Bem, gato, conseguimos – disse ele suspirando

- Sim, à beira do vazio compreendeu o mais importante – miou Zorbas

- Ah, sim? E o que ela compreendeu? – perguntou o humano.

- Que só voa quem se atreve a fazê-lo – miou Zorbas.

-Suponho que agora te estorva a minha companhia. Espero-te lá em baixo.

NOTÍCIAS DA CRISE

É de todo incompreensível que um pobre país, rodeado de gravíssimos problemas de sobrevivência, assista a horas e horas e horas seguidas de discussão nas televisões, nos jornais, nas rádios, do que se terá passado entre um jogador e um treinador de futebol.

Jorge Jesus terá dito o elementar: «sou eu que mando na equipa!»

Cristiniano Ronaldo não gostou e, em vez de ficar para discutir o que ele pensa ser um problema, chamou o seu jacto particular e regressou a casa, abandonando o estágio da selecção.

Agora enfrentamos uma verdadeira novela mexicana.

Soube-se, entretanto, que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro, sempre a trabalhar, já se movimenta nos bastidores da crise da selecção nacional, após a saída de Cristiano Ronaldo.

Facto:

Durante anos e anos, Cristiano Ronaldo jogava sempre. Quando fazia sentido, jogava. Quando não fazia, jogava também.

Opiniões:

«Obrigado, Cristiano, mas agora deixa a Seleção jogar. Deixa Jorge Jesus ser treinador. Deixa os outros jogadores crescerem. E deixa que a tua vida seja aquilo que merece ser: uma história extraordinária, não uma guerra pelo direito a continuar a ser aquilo que já foste.

Porque o futebol não é uma cerimónia de homenagem. É um jogo. E o jogo seguinte nunca se joga ontem.

Talvez tenha sido o dia em que Jesus percebeu isto, que pôs fim ao Cristianismo.»

Nuno Saraiva em A Bola

«Só Ronaldo não quis ver que o tempo do esplendor da glória desportiva era passado e que se iniciara a sua caminhada em direção ao esquecimento.»

Pedro Adão e Silva no Público

Voltar, sempre, ao poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade:

«Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.»

A NOSSA VEZ

É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar

e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez
.

Rui Pires Cabral