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sexta-feira, 21 de novembro de 2025

VELHOS RECORTES


Foi diversa, difícil, dura, a luta de muitos de nós contra a ditadura de Salazar/Caetano.

Este recorte é da revista Seara Nova nº 1458 de Abril de 1967.

Sempre a margem esquerda: Almada, Baixa da Banheira, Seixal, Cova da Piedade.

Por ocasião do 74º aniversário da Cooperativa Piedense, diversas iniciativas registavam a efeméride e sempre a cultura. «Não há machado que corte a raiz ao pensamento», como escreveu o poeta Carlos de Oliveira e que Manuel Freire fez música e deu canção.

Além de um sarau consagrado à música popular portuguesa, apresentava-se o Coro da Academia de Amadores de Música, sob a direcção de Fernando Lopes-Graça e também poesia e música com Carlos Paredes, José Carlos de Vasconcelos, Adriano Correia de Oliveira.

domingo, 19 de outubro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

Ontem lembrámos Adriano Correia de Oliveira e voltamos às suas canções.

António Borges Coelho, enquanto preso em Peniche, escreveu um livro de poemas Fortaleza, e de um desses poemas Luís Cília fez música e o Adriano deu voz.

A canção consta de alguns singles e Eps de Adriano e na sua obra completa publicada, pela Orfeu/MoviePlay, faz parte do disco A Noite dos Poetas.

Nas suas Crónicas e Discursos, António Borges Coelho, dedicou um capítulo do Fernando Lopes Graça. Ambos foram militantes do Partido Comunista e viviam na mesma rua na Parede:

Tempo exacto para lembrarmos o Coro da Academia dos Amadores de Música do Graça, tal como lhe chamavam os camaradas e amigos.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Vértice

Nº 473-475  Julho- Dezembro  1986

Homenagem a José Gomes Ferreira após a sua morte.

Colaboração.

António Ramos Rosa, Fernando Piteira Santos, Maria Velho da Costa, Fernando Lopes Graça, Artur Ramos, Baptista-Bastos, José Cardoso Pires, José Manuel Mendes, Mário Dionísio, Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Armando Alves

Preço deste número: 500 escudos

Sonho, morte, frio, terra, pedras, árvores, nuvens, estrelas, astros – eis algumas das palavras que se nos deparam com mais frequência nos poemas de José Gomes ferreira. O sonho não é mais que um momento, um ímpeto que se realiza no movimento do poema e só nele, dado que o sonho é impossível total. Assim, o sonho ou o desejo, só na linguagem encontra a totalidade que o revela como possibilidade poética ou seja, como palavra que, opondo-se à negação, se afirma independentemente da lógica negativa que muitas vezes domina este discurso poético.

 

                Se eu ao menos construísse

                a casa num terreno de cristal

                que o meu olhar atravessasse

                lâmpada de água que sobe à superfície

                para a luz ter face.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

REOLHARES


Aproveitemos Reolhares para lembrar como as Marchas, as Danças, as Canções nasceram, criadas por gente única do nosso património, gente irremediavelmente esquecida:


MARCHAS, DANÇAS E CANÇÕES


Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel,  no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Na Sala Ping-Pong, nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Na contra capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

«O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.»


Um ministro de Salazar disse: 

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?


- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.»

Novamente José Gomes Ferreira:

«Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.»

Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

(Texto publicado em 29 de Março de 2017)

Legenda:

Na primeira fotografia vêem-se João José Cochofel, Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira.
Na segunda fotografia João José Cochofel e Carlos de Oliveira.

Fotografias retiradas da Fotobiografia de José Gomes Ferreira 

 

(Em Reolhares vamos publicando textos publicados, nos últimos 15 anos no Cais do Olhar.).

MÚSICA PELA MANHÃ

A especulação imobiliária que invadiu o país nas últimas décadas, vai obrigar que a Academia dos Amadores de Música tenha que procurar um outro espaço. Centenas de alunos irão ser prejudicados. Algumas manifestações têm ocorrido mas nada está fácil.

A Câmara Municipal de Lisboa, dirigida pelo Sr. Moedas, tem outras preocupações. Essa história das Lojas com História é uma quimera, algo para adormecer camelos.

Como diria o Zé Gomes Ferreira:

«Os parvos pertencem todos à mesma Pátria com nomes diferentes.»

De novo José Gomes Ferreira:

14 de Maio de 1969

 

Fui esta noite à Academia dos Amadores de Música ouvir o coro do Graça que está em boa forma…

Na assistência muitas caras conhecidas. Caras antigas. Mas o fio encantado que nos unia a todos noutros tempos quebrou-se.

José Gomes Ferreira no 7º volume dos Dias Comuns.

A Música desta manhã é Acordai, poema de José Gomes Ferreira, música de Fernando Lopes Graça:

Acordai

acordai

homens que dormis

a embalar a dor

dos silêncios vis

vinde no clamor

das almas viris

arrancar a flor

que dorme na raíz

Acordai

acordai

raios e tufões

que dormis no ar

e nas multidões

vinde incendiar

de astros e canções

as pedras do mar

o mundo e os corações

Acordai

acendei

de almas e de sóis

este mar sem cais

nem luz de faróis

e acordai depois

das lutas finais

os nossos heróis

que dormem nos covais

Acordai!


Legenda: A 12 de Novembro de 1966, o Diário de Lisboa-Juvenil retomava, com a presença de Eduardo Prado Coelho, os seus Encontros.
No dia 26 de Novembro foi a vez do jornalista Manuel de Azevedo.
Fernando Lopes Graça e Dulce Cabrita, foram os convidados para o Encontro realizado no dia 21 de Janeiro de 1967.

sexta-feira, 22 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


  

          Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                   João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Permitam que a música e as canções continuem a ocupar estas Viagens por Abril.

Hoje, aqui se traz Fernando Lopes Graça e Fiama Hasse Pais Brandão. Tal como o José Gomes Ferreira dizia, nos seus poemas para as Heróicas do Graça, «até mortos vão ao nosso lado.»

Naqueles tempos em que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem entrar, batessem na cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos impressões, experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras improváveis do tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se poderia chamar a memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles tempos.

"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".

-

Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio. Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia de trabalho.

"Para a próxima quem é que trás os discos?”

Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós. Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.

Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça “compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito Canções das Barcas Novas”.

Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.

O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos qualquer coisa, ao cambio de hoje, como 0,3675 euros. Mas façam contas e acreditem que aqueles 73,50 escudos obrigavam a sacrifícios.

O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho, escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs para serem cantado

Os comandos militares informam que um capitão morreu na Guiné e um alferes em Moçambique, ambos “por acidente de viação”, e que cinco outros militares morrerem em combate, também nestas duas províncias.

Num serviço da ANI para os jornais lia-se que “ao contrário do que tem sido noticiado no estrangeiro, não foi expulsa de Moçambique a Irmã Maria del Cali, apenas se verificou o facto de não haver sido renovado o visto de residência. Um informador oficial esclarece que a freira italiana subscrevera uma carta que criticava a acção do Bispo de Tete e certo documento capturado pelas forças portuguesas a um terrorista, indicava-a como uma pessoa ideal para ser contactada pela FRELIMO.”

Em informação, assinada pelo Capitão Correia de Barros, para os jornais, os serviços de censura determinavam: “Em títulos ou subtítulos dos casos passados em Moçambique não pôr: “padres acusados de traição” – como fez “A Capital”.

Um comunicado do Comando-Chefe das Forças Armadas informava que a Srª D. Cecília Supico Pinto, presidente do Movimento Nacional Feminino, continuava a sua visita a zonas no interior da Guiné.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

REVISÃO DE NOTÍCIAS LIDAS


 A Fundação Calouste Gulbenkian, o ano passado, celebrou o centenário do nascimento de Madalena Perdigão.

Esta é a biografia de Margarida Perdigão postada pelo Centro Nacional de Cultura:

«Maria Madalena Bagão da Silva Biscaia de Azeredo Perdigão licenciou-se em Matemática (1944), em Coimbra, e concluiu o Curso Superior de Piano (1948) do Conservatório Nacional, seguindo depois estudos de aperfeiçoamento em Paris. Na Emissora Nacional, foi responsável pelo programa radiofónico A Música e os Seus Sortilégios.
Ingressou na Fundação Calouste Gulbenkian em 1958 e até 1974 dirigiu o seu Serviço de Música, criando os Festivais de Música (1958-1970), a Orquestra (1962), o Coro (1964) e o Ballet Gulbenkian (1965). Entre 1978 e 1984, convidada pelo ministro Sottomayor Cardia, dirigiu o Gabinete Coordenador do Ensino Artístico do Ministério da Educação para definir uma proposta de um Plano Nacional de Educação Artística. Em 1983, organizou o I Festival Internacional de Música de Lisboa. Em 1984, regressou à Gulbenkian, para criar o ACARTE- Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte que dirigiu até 1989, ao mesmo tempo que criou o CAI – Centro Artístico Infantil da Fundação Gulbenkian, tendo concretizado três edições dos Encontros ACARTE – Novo Teatro/Dança da Europa (1987, 1988 e 1989). Foi condecorada com a Ordem do Infante D. Henrique e as insígnias da Ordem do Cavaleiro da Legião Francesa.
Casada com José de Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Gulbenkian, Madalena Azeredo Perdigão desenvolveu um diversificado trabalho em prol da cultura portuguesa durante o Estado Novo e o período democrático.».

Hoje, relemos um artigo que Bárbara Reis publicou no Público de 17 de Junho de 2023, em que entre outras coisas, pergunta:

«Sabia que em 1974 quiseram sanear Madalena Perdigão da Gulbenkian porque ela era “incompetente” e 2Fascista”? Se não sabia, não está sozinho.»

«Outra pergunta: pensa que os colóquios a celebrar 100 anos disto e daquilo só servem para elogiar os mortos? Se sim, está enganado.

Um exemplo: foi preciso um colóquio sobre os 100 anos do nascimento de Madalena de Azeredo Perdigão (1923-1989) para eu aprender que nos anos do PREC (Processo Revolucionário em Curso), a era da pré-democracia portuguesa, ela foi insultada e chamaram-lhe tudo e mais alguma coisa.

Desconhecia a história e só sabia sobre Madalena Perdigão aquilo que sabem muitos dos que eram adolescentes nos anos 1980: que era culta, moderna, vanguardista e enérgica, que trouxe o melhor do mundo para Portugal, que acreditava na importância da educação artística e musical, que ajudou a criar a orquestra, o coro e o ballet Gulbenkian, que inventou o Jazz em Agosto e os Encontros Acarte.

Logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, houve uma “campanha de imprensa hostil” contra Madalena Perdigão, com “ataques injustos, tendenciosos e assentes em informação falsa ou parcelar”, escrevem Rui Vieira Nery e Inês Thomas Almeida em Vamos Correr Riscos. Textos escolhidos de Madalena de Azeredo Perdigão, acabado de editar pela Fundação Calouste Gulbenkian e Tinta-da-china.

Um é o Manifesto sobre a situação da música em Portugal, publicado no Diário de Lisboa a 14 de Maio de 1974 e assinado por 50 pessoas, entre as quais Fernando Lopes Graça, António Victorino d'Almeida, Sequeira Costa, Filipe de Sousa, Jorge Peixinho, Manuel de Lima, Mário Vieira de Carvalho, Manuel Jorge Veloso, Francisco D’Orey, Olga Prats, João José Cochofel, Francine Benoît, António de Oliveira e Silva, Maria Regina de Vasconcelos, Clotilde Rosa, etc. — é assim que está assinado.

No colóquio, José Sasportes disse que não queria “entrar numa zona infecta, em parte estimulada pelo Partido Comunista e pelo controleiro do sector intelectual — ‘controleiro do sector intelectual’, belo título de glória — que me diziam ser Mário Vieira de Carvalho”.

Não queria, mas entrou. Disse que, na altura, “o Carvalho” escreveu no
Diário de Lisboa “artigos em termos tão falsos e imperdoáveis como os que se podem ler nos relatórios soviéticos para isolar compositores como Shostakovich ou eliminar o encenador Meyerhold”.

E rematam dizendo que é urgente acabar com “o escândalo” de manter a Gulbenkian “nas mãos de uma ‘clique’ fascista”.

António Pinto Ribeiro disse no colóquio que Madalena Perdigão foi “a mais importante programadora cultural da segunda metade do século XX”. Sabendo tudo o que sabemos dos excessos, loucuras e erros do PREC, ingenuamente pensava que Madalena Perdigão, matemática, pianista, cosmopolita e “agitadora cultural”, tinha sido poupada às injustiças primárias do PREC. Estava enganada.»

A releitura deste artigo de Bárbara Reis tem o intuito de marcar alguns dos episódios negros que o PREC trouxe, vindos de pessoas que admiramos e situávamos longe de estarem de acordo com propósitos, não só injustos, como caluniosos.

Diga-se, por fim, que o sinistro Mário Vieira de Carvalho acabou por deixar o Partido Comunista e partiu para outros ventos, outras aventuras.

sábado, 31 de julho de 2021

OLGA PRATS (1938-2021)


Morreu OlgaPrats.

Os nossos melhores vão partindo.

Fernando Lopes Graça morava na Parede. Olga Prats também. Numa noite de Verão, em que o acompanhava a casa, Olga Prats ouviu o Graça dizer:

«Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.»

 Andei à procura de uma fotografia de um Concerto na Academia dos Amadores de Música em que o coro é acompanhado pela pianista Olga Prats e em que na pimeira fila da plateia se vê a cabeleira branca do poeta José Gomes Ferreira. Uma fotografia lindíssima mas estará por aí. Um dia destes caba por aparecer.

 Recordo um velho texto, datado de  23 de Junho de 2009:


GUILDA DA MÚSICA/SASSETTI - SST 3001 - s/data

Naqueles tempos em que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem entrar, batessem na cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos impressões, experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras improváveis do tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se poderia chamar a memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles tempos.

"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".

Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio. Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia de trabalho.

"Para a próxima quem é que trás os discos?”

Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós. Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.

Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça “compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito Canções das Barcas Novas”.

Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.

O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos.

O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho, escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs para serem cantados.

Mais tarde, muito depois de escritas estas palavras, seria secretário de Estado da Cultura de um governo de José Sócrates. Dizem as más-linguas que ele e a ministra, para além de umas guerras intestinas e perfeitamente inúteis (Cinemateca, São Carlos etc.) não deixaram nada de registo. Também só agora é que o Primeiro-Ministro reconhece que errou ao não apostar mais na Cultura e que tenha sido tratada “como um parente pobre”.

Pois!...

 


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

DO TEU POEMA À ESTRELA DA TARDE


No Festival RTP da Canção de 1976, Carlos do Carmo foi escolhido para único intérprete das oito canções selecionadas por um júri onde se encontravam Manuel da Fonseca e Pedro Tamen. 

Eram estas as canções:

No teu poema José Luís Tinoco, 

Novo Fado alegre José Carlos Ary dos Santos/Fernando Tordo, 

Os lobos e Ninguém José Luís Tinoco, 

Maria-Criada, Maria-Senhora Tozé Brito

Flor de verde pinho Manuel Alegre/José Niza

 Onde é que tu moras Joaquim Pessoa/ Paulo de Carvalho

 Estrela da Tarde José Carlos Ary dos Santos/Fernando Tordo.

Por votação do público saiu vencedora Flor de Verde Pinho que representou Portugal no XXI Festival Eurovisão da Canção.

As interpretações de Carlos do Carmo estão registadas no disco Uma Canção Para a Europa.

Neste bom naipe de canções, estão duas excelentes canções: Estrela da Tarde e No Teu Poema e uma delas é que deveria ter sido a representação portuguesa na Eurovisão, mas quando se coloca a escolha no público, os desarranjos acontecem!...

No artigo de opinião que escreveu para o Público, Augusto M. Seabra, faz notar que No Teu Poema era uma canção que calhava particularmente bem a Carlos do Carmo mas que, e bastante surpreendentemente, não a retomou e dir-se-ia que a entregou a Simone de Oliveira.

Fica aqui a interpretação de Carlos do Carmo com o pianista Bernardo Sassetti.

Carlos do Carmo, politicamente, sempre se situou à esquerda, foi aquilo que a gíria política designa por compagnon de route do Partido.

Mas por ali o fado não era muito bem visto, criava pele de galinha a muita gente, e devemos lembrar-nos que o excelente Fernando Lopes Graça era o chefe de fila do preconceito anti-fado.

A participação de Carlos do Carmo, na 1ª Festa do Avante, realizada na FIL em 1976, esteve para não acontecer, pois não fazia qualquer sentido alguém do fado subir ao palco, se bem que no Palco nr. 5, na tarde de domingo houvesse uma «Tarde de Fado Amador», e à noite, no mesmo palco, houvesse uma «Noite do Fado» com actuações de Adriano Correia de Oliveira, Fernando Farinha, Fernando Tordo, José Manuel Osório, Samuel e Saudade dos Santos, já para não referir o Concerto de Carlos Paredes, no palco nr. 2, nesse mesmo domingo.

A birra tinha a ver com o nome de Carlos do Carmo.

Mas foi aí que o calmeirão Adriano Correia de Oliveira, levantou a voz e disse a quem de direito:

«Ou o Carlos do Carmo canta, ou eu não canto».

Certas coisas que se dizem, pagam-se.

E Adriano Correia de Oliveira pagou.

O Adriano não era um sectário, nem alinhava em capelinhas, pela simples razão que entendia que o Partido não é nenhuma congregação religiosa.

Pensar pela própria cabeça tem riscos, e o sectarismo de muitos dos seus camaradas, afectou-o profundamente.

Junto a outras pequenas-grandes-coisas levaram o Adriano à morte.

Tinha 40 anos.

Cantou muitas vezes que a saudade é um luto e José Carlos Ary dos Santos retratou-o assim:

«Nas tuas mãos tomaste uma guitarra
copo de vinho de alegria sã
sangria de suor e de cigarra
que à noite canta a festa de amanhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra
o que à terra chamou amante e irmã
mas também português que investe e marra
voz de alaúde rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro
num barco de vindimas de cantigas
tão generoso como a liberdade.

Resta de ti a ilha dum tesouro
a jóia com as pedras mais antigas.
Não é saudade, não! É amizade.»

sábado, 25 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

AMÁLIA CANTA LUÍS DE CAMÕES

Há uma Amália antes e depois de Alain Oulman.

Não sou dado a grandes conhecimentos da matéria, mas se assim penso assim, escrevo.

Quando, em Outubro de 1965, Alain Oulman musicou poemas de Camões para a voz de Amália, Amália Canta Camões, os intelectuais tiveram reacções diversas.

José Gomes Ferreira não concordou e respondeu assim ao Diário Popular:

«Não estou disposto a ouvir. Não quero ouvir. Mas acho mal. Existem obras-primas da música portuguesa, como por exemplo, “Os Madrigais”, de Luís de Freitas Branco, inspiradas em poesias de Camões. Claro que também existiu a Engraxadoria Camões. Para cada um - seu paladar».

Se bem que tenha um número bem razoável de poemas seus musicados, José Gomes Ferreira nunca simpatizou com a ideia.

A excepção é o trabalho com Fernando Lopes Graça.

A tal ponto que, em 28 de Setembro de 1970, enviou à Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais a seguinte carta:

«De regresso de férias, encontrei a vossa carta de 21 de Setembro de 1970 a que me apresso a responder, com os meus melhores cumprimentos.
O pedido de autorização ao sr. José António Matildes para musicar o meu poema de Poesia III, “Ó pinheiro verdadeiro” honra-me muito, mas infelizmente não posso conceder-lha por motivo de “princípios estéticos” pois discordo inteiramente da chamada música ligeira quando adaptada aos meus versos, escritos sem essa intenção.
Claro que esta recusa nada tem de pessoal. Peço-lhe até que explique ao Sr. José António Matildes que as canções e as baladas aparecidas recentemente na rádio e em discos com versos meus são todas clandestinas, feitas sem a minha autorização. Ao Sr. José António Matildes devo, pelo menos, essa delicadeza que muito me sensibilizou.
Em resumo: incito-o a fazer a música que lhe apetecer sem me pedir licença!»

Em contraste, é interessante ir buscar o exemplo de António Gedeão que, nas suas Memórias, escreve que muito deve a Manuel Freire e às músicas que fez para poemas seus:
 «Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.»

Texto publicado em 30 de Março de 2019


domingo, 12 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

MARCHAS,DANÇAS E CANÇÕES

Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel,  no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Na Sala Ping-Pong, nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Na conta capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

«O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.»



Um ministro de Salazar disse: 

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…


- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.»



Novamente José Gomes Ferreira:

«Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.»



Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

Texto publicado em 29 de Março de 2017

Legenda:

Na primeira fotografia vêem-se João José Cochofel, Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira.
Na segunda fotografia João José Cochofel e Carlos de Oliveira.

Fotografias retiradas da Fotobiografia de José Gomes Ferreira 

sábado, 18 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

O LUGAR DA SOLIDÃO

Era assim que Fernando Lopes Graça se passeava nas ruas da Parede quando saía para fazer compras.

A fotografia é de Rui Ochoa e faz parte de um trabalho de Joaquim Vieira, publicado no Expresso de 31 de Dezembro de 1981.

Não é uma reprodução de qualidade mas não quis deixar de a publicar.

A vida é isto, os homens são assim.

Álvaro Guerra escreveu que nascer é inaugurar a solidão.

Nem todos os bi menois que Fernando Lopes Graça escreveu, por vezes, lhe permitiram ultrapassar a esquina terrível da solidão.

Escolheu-a porque, para fazer o seu trabalho, não queria intromissões.

O preço que pagou para deixar uma obra grandiosa.

José Gomes Ferreira tinha razão:

Olhem-no bem, porque nunca mais veremos um homem assim.

Numa noite Olga Prats acompanhava-o  a casa, e o Graça disse-lhe:

Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse, homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.

José Saramago:

Morreu o Fernando Lopes-Graça. Telefonaram hoje da TSF, muito cedo, para pedir-me, como depois verifiquei no gravador, o cumprimento desse dever mediático a que se dá o nome de depoimento. Deixaram números de telefone, mas não liguei. Por pudor acho eu. E agora acabo de saber, por Carmélia, que o Graça morreu sozinho. Creio que esta última solidão me doeu mais ainda que a própria morte. Não vai faltar quem diga que o Lopes Graça morrendo aos 88 anos, tinha vivido já a sua vida. Como frase de consolação, talvez sirva para quem se satisfaça com o que lhe foi dado. Por mim, penso que nunca acabamos de viver a nossa vida.

Texto Publicado em 17 de Outubro de 2015.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

EM ARANJUEZ PASSANDO POR COCHOFEL


João José Cochofel é um amável poeta.

Claro que já ninguém o lê, muito poucos saberão quem seja.

Quando havia tertúlias nos cafés de Lisboa, lá estava ele juntamente com o Carlos de Oliveira, o Augusto Abelaira, o José Gomes Ferreira, o Manuel Mendes.

Penso na casa de campo que tinha no Senhor da Serra, em Semide, onde na sala Ping-Pong nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Um ministro de Salazar disse:

«É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.»

José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

«Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.»

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.

Tudo isto para vos dizer que ao folhear o 46º Aniversário de João José Cochofel, pág. 127, encontrei o poema XI de Emigrante Clandestino, com estes versos sublinhados:

«O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.»

A tal ponto que chegou a comprar um EP do Richard Anthony em que o francês canta um excerto do Concerto. Chegou a falar-me se quando encontrasse interpretações cantadas do Concerto lhe dissesse. Prazeres secretos nunca revelados.

Aqui há uns largos tempos, a Aida falou-me de que existia uma interpretação de Dulce Pontes. 

O meu já há muito que não anda por aqui, e eu não sou fã da cantora, mas o ter encontrado o poema do Cochofel fez-me lembrar que deveria ir à procura da interpretação da Dulce Pontes.

Estou certo que o meu pai gostaria e, por ele, nesta tarde asfixiante de calor, deixo-vos a Dulce Pontes com um trecho do Concerto de Aranjuez e o poema do João José Cochofel:

Aranjuez surge
com as suas águas mais vivas,
as suas sombras mais densas,
o seu sol mais estival,
que os olhos cegos de Rodrigo
trouxeram até à lonjura sem distância de ouvir
entre a pedra violenta de Toledo
 a carne lilás da caixeirinha da Gran Via
a guitarra de Yepes
O concerto de Aranjuez aquece e refresca
esta tristeza de emigrar
sem ter para onde na bagagem.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

LEVEI TEMPO A ENTENDER QUE SIM


Tudo se complicava muito porque nós (mas quais de nós?, quantos de nós?) sentíamos, como um espinho na carne, o dever de lutar pela felici­dade dos outros. Não o fazer era uma espécie de pecado. Não sabíamos viver com esse peso, essa hi­pótese sequer, na consciência. Mas lutar seria obe­decer de olhos fechados a uma orientação que (e assim me parecia mais e mais) não levaria a lado algum, à transformação dos homens certamente não? E o papel do intelectual (como o de qualquer outro militante) poderia limitar-se a subir e descer escadas com o único objectivo de subir e descer es­cadas? Não seria sua estrita obrigação (não só dele, mas sobretudo dele) esclarecer, esclarecer, esclare­cer os que só o não são, à partida, por defeituosa, criminosa organização da sociedade? Uns, como eu, pensavam (o Cochofel, o Carlos de Oliveira, o Lopes Graça, não só estes) que a militância do ar­tista deveria ser sobretudo (sobretudo, não só) no campo cultural. E que ela de modo nenhum deve­ria impedir o artista de dedicar-se ao conhecimento profundo da linguagem específica da arte e seus problemas. Que não havia arte revolucionária sem começar por ser arte. Que a desejada acção da arte junto do público, além de arte ser, exigia um míni­mo de preparação da parte deste, a incluir nas tare­fas políticas dos intelectuais. Que — princípio e fim de tudo — considerar a chamada «forma» e o chamado «conteúdo» elementos (metafisicamente) separáveis revelava, não um conceito marxista, mas um «mecanicismo pré-dialéctico», como já lhe chamara, sem que qualquer de nós o pudesse então saber, o insuspeito Mikail Bakhtine. Outros (muito mais poderosos na organização, deliberando o que pensar, desde o vértice da pirâmide a toda a base) defendiam, e com que intransigência!, precisamen­te o contrário.
 Coisas graves me pareciam que a crítica de bai­xo para cima (a inversa nunca esteve em causa), embora muito apregoada, nunca fosse possível exercê-la, que a repetição de palavras de ordem até ao atordoamento, mesmo no interior, substituísse uma cultura cientificamente indagadora, que qual­quer discordância de fundo obtivesse invariavel­mente como resposta: «terás razão, mas não é este o momento de». Quando a cultura não é nunca para amanhã, é sempre para já. O futuro o diria, o presente o está dizendo.
 Por que não se esquecem certas coisas? Ao pas­sar a simples «simpatizante» (era tudo afinal o que então queria e, a custo, consegui), um «amigo» — entre aspas a partir desse preciso instante — disse-me de olhinhos fixos e brilhantes: «Nunca mais farás nada». Mau agoiro para quem queria fa­zer tanto.
 Uma ameaça? Levei tempo a entender que sim.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Mário Dionísio. Fotografia tirada do catálogo Passageiro Clandestino

domingo, 17 de dezembro de 2017

O CENTENÁRIO DO GRAÇA


Fernando Lopes-Graça faria hoje 100 anos.
Foi um dos maiores maestros e compositores portugueses do século XX.
A sua vida foi uma longa luta contra a ditadura, o obscurantismo.
Esteve preso nas masmorras do Aljube e em Caxias.
Era militante do Partido Comunista Português.
Como escreveu José Saramago, quando soube da sua morte: «o querido Graça, o amigo do coração, o camarada fidelíssimo e leal.»

quarta-feira, 29 de março de 2017

MARCHAS, DANÇAS E CANÇÕES


Em Setembro de 1945, a casa de João José Cochofel no Senhor da Serra, em Semide, juntou Fernando Lopes-Graça, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira e João José Cochofel.

Na Sala Ping-Pong, nasceu o projecto musical Marchas, Danças e Canções.

O Acordai nasceu durante o reino do medo, quando os frutos amargavam e o luar sabia a azedo e é uma das muitas canções a que alguns dos nossos melhores poetas emprestaram palavras e que foram musicadas por Fernando Lopes Graça.

Na contra capa do disco, explica ao que vinham essas canções:

O que são as “Canções Heróicas” que, pela primeira vez, se oferecem ao público editadas em disco? Resumidamente, podemos dizer que são obrinhas de circunstância ou, se quisermos ser mais explícitos e sem temer o uso rigoroso das palavras, defini-las-emos como canções politicamente empenhadas. Politicamente empenhadas no sentido, ou na medida, em que pretenderam contribuir – e cremos que de facto contribuíram – para a luta do povo português, a que primordialmente foram destinadas, contra o regime despótico, anti-democrático e violentador de corpos e almas que durante cerca de cinquenta anos lhe foi imposto.

Um ministro de Salazar disse:

É mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.

Por sua vez, José Gomes Ferreira, em A Memória das Palavras ou o Gosto de Falar de Mim, conta como, naquele ano de 1945, tudo começou:

Nesse Verão, como lhe contasse que eu ainda não tinha encontrado poiso no campo para convalescer, Fernando Lopes Graça, propôs-me:

-Venha comigo para o Senhor da Serra, perto de Semide…

- Há por lá alguma pensão?

- Pensão propriamente dita não há. Mas a srª Rosinha costuma receber hóspedes num quartito muito limpo e com uma vista extraordinária para o Vale da Lousã… E fica a dois passos da casa do João José Cochofel, onde vou instalar-me.

Na casa de João José Cochofel juntaram-se, então, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira.

Novamente José Gomes Ferreira:

Por esses dias, com tantos poetas às ordens, ensejou-se a Fernando Lopes Graça realizar um velho sonho que expôs em meia dúzia de frases sóbrias aos circunstantes. Queria letras para canções. Marchas, danças, rondas infantis, hinos… O que nos apetecesse. Contanto que não nos demorássemos muito, pois a inspiração já ardia.

Esgotada a inspiração dos poetas circundantes, Fernando Lopes Graça implorou o auxílio a Coimbra (Joaquim Namorado, Arquimedes, Ferreira Monte) e a Lisboa, donde acudiram ao chamamento Mário Dionísio, Armindo Rodrigues e Edmundo Bettencourt.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

AS UTOPIAS TAMBÉM SE REALIZAM


As entrevistas que Baptista- Bastos publicou no semanário O Ponto, fizeram um tempo.
O autor entendeu, muito bem, seleccionar algumas e reuni-las em livro, publicado em Abril de 1984.
São notáveis entrevistas, provavelmente datadas, mas mesmo assim importantes para se ficar a conhecer algumas das personagens que fizeram esse tempo.
São intérpretes: Otelo, Manuel da Fonseca, António Victorino d’Almeida, João Camossa. Fernando Lopes-Graça, Artur Correia. Lucas Pires. António Arnaut, Maria João Seixas, Manuel Alegre, Guilherme de Melo, Lena d’Água, Almeida Santos Davis Mourão Ferreira, Helena Roseta, Fernando Lopes, Ary dos Santos, Alexandre O’Neill, Lídia Jorge, José Mário Branco.

Reproduzo a abertura da entrevista a Fernando Lopes Graça,  a que Baptista-Bastos chamou As Utopias Também se Realizam, feita na sua casa, um modesto segundo andar de uma vivenda, na Parede: