Percorra os seus dedos pelas Páginas Amarelas.
Colaboração de Aida Santos.
Este é o cartão do associado nº 38315, de "A Voz do Operário" de Afonso Borges Correia, meu avô materno.
Funcionário
da Câmara Municipal de Lisboa, republicano histórico, era um pândego patusco,
castiço, um gozador da vida, tocava “caixa” na Banda da
Câmara.
Nos domingos em que não havia concertos, manhã cedo, saía de casa, máquina “à la minute”, ele dizia à la minuta, e arrancava para as praias, para as feiras nos arredores, para tirar fotos de “olhó passarinho”.
Dizia à minha
avó que assim fazia um dinheirinho para compor o curto ordenado de funcionário
da Câmara. Mas isso, era apenas um pedaço de treta, tirava, quando tirava, uma
ou duas, ou três fotos, o resto era copos e convívio com os amigos. Pelava-se
por polvo seco assado na brasa, na Feira da Luz, ou na das Mercês, e é fácil
imaginá-lo naqueles restaurantes de feira, mesas com toalhas de plástico,
petiscos, jarros de barro com tintol e lá fora, a máquina, em cima do tripé,
a olhar para ele, ou vice-versa.
Claro que nos domingos de concerto, também saía manhã cedo, mais petisco, mais copitos, o chegara casa, ao cair da noite, e a ouvir a minha avó: “maior fosse o dia maior era a romaria”.
Reformado da Câmara, já com pouca estaleca para transportar a la minuta, conseguiu alvará de guarda de automóveis num espaço junto à Sé de Lisboa. Um fino humor, uma figura garbosa, davam-lhe o toque de charme que cativa damas e cavalheiros das missas de domingo, das missas de fim de tarde, e as gorjetas eram cantantes.
Fumava dois maços de "Definitivos" por dia. Copos e tabaco, outras coisas, provocaram-lhe graves problemas de circulação, ao ponto de lhe terem amputado as pernas.
O médico
proibira-lhe os cigarros, o copito.
Assim, um
pouco sem jeito, ia-lhe lembrando esses cuidados, e o avô andarilho que foi,
acamado que estava, a dizer-me: “é pá! A vida são dois dias e o
qué que queres que p’raqui esteja a fazer?
Nunca hei-de esquecer o prazer com que puxava cada fumaça de “Definitivos”.
As consoadas eram preenchidas com as suas anedotas que, invariavelmente, repetia todos os anos. Recordo esta:
Um homem entra pela drogaria a pedir uma
esmola para o ceguinho..
- Mas onde está o
ceguinho? pergunta uma cliente
- Está lá fora a ver a montra!
Pelos cigarros, pelo copito, terá morrido mais cedo… mas morre-se por tantos motivos…
Foi “A Voz do Operário” que lhe tratou do funeral.
Já não lembro o que aconteceu à máquina à la minuta e ao boné com a placa de guarda de automóveis.
Do meu avô apenas guardo um relógio de pulso de marca “Invicta” e este cartão de sócio de “A Voz do Operário”.
Sou o único da família, que saiu com os olhos azuis do meu Afonso.
(Texto publicado em 29 de Setembro de 2011).
Legenda: a
imagem do fotógrafo “à la minuta” foi tirada daqui.
A outra imagem, mostra o espaço, junto à Sé, onde o meu avô foi
guarda-de-automóveis.
Noutro tempo, uma reunião que derrapou, perdemos o último Alfa e viemos num lentíssimo comboio que partiu de Campanhã cerca da meia-noite e chegou a Lisboa às seis da manhã.
A CP chegou a ser uma razoável companhia.
Ainda me lembro dos
jardins nas estações e apeadeiros que envolviam concursos e com placa do lugar
conquistado.
A CP nos dias que
correm, e não estou a falar das ferrovias nas beiras e nos alentejos, é um
perfeito desastre.
Pelas esquinas
fala-se que está em andamento a entrega das linhas mais rentáveis a privados…
fala-se… e, tantas vezes…, não há fumo que não dê em fogo…
A tentar deitar fora
papelada e mais papelada, encontrei este livreco com distribuição gratuita nos,
comboios nos «Alfa Pendular», com excertos de «grandes obras literárias» em que
os editores presentes na edição são: Babel, Civilização Editora, Editorial Presença,
Bertrand Editora, Porto Editora.
Claro que é
publicidade paga.
Hoje já ninguém lê,
seja o que for, num comboio, apenas dedilham tele-móveis e coisas quejandas.
Mas se com este livreco, pelo menos,
alguém foi à procura de um livro, diga-se que nem tudo se perdeu.
Fica também o anúncio
que as viagens nos alfas tinham um «toque gourmet».
É
uma constante dos dias, ouvirmos que os
jornais vão acabar.
Os
tempos estão muito difíceis: quase ninguém compra, lê jornais. Está tudo na
net.
No
sábado, o tempo estava tempestuoso, e nos poucos quiosques que conseguir atingir,
o Público já não havia.
- Eles mandam cada vez
menos jornais…
Foi
o que ouvi no último quiosque a que cheguei.
Frequentei-a
enquanto por lá, António Lobo Antunes publicava algumas das suas Crónicas.
Deixei
a revista de vez, quando um oportunista chamado Luís Delgado a adquiriu a
Francisco Pinto Balsemão. Calculei o que iria acontecer.
Comprei
a Edição Especial saída para as bancas na passada 5ª feira.
Não
gosto de ver morrer jornais, revistas.
A
Visão está a ser feita em casa dos 12 jornalistas que não a querem ver
morrer.
A
redacção actual da Visão quer continuar a fazer a revista. Estão
a fazê-la em teletrabalho desde 1 de Agosto de 2025, mediante requerimento
apresentado em tribunal, após liquidação da empresa detentora do título, e tem
vários salários em atraso.
Precisam
de dinheiro para comprar o título e manter a sua publicação
«Temos um plano de negócios, prudente e realista, com um horizonte a 10 anos, que demonstra que a Visão é financeiramente sustentável com as receitas que gera».
Sempre
que sair, serei um comprador da revista Visão para que jornais e
revistas não se extingam.
Este
encontrava-se para os lados de Marvila.
Já
há muito que as pernas não caminham para queles lados e não sei se ainda por lá
se encontra.
Se
um cidadão se quer aliviar já não os apanha e os cafés e os restaurante agora
só têm os WCs para os clientes e como nos foi ensinado não nos podemos aliviar
numa qualquer esquina.
Sou
do tempo em que era proibido pisar a relva dos jardins, jogar à bola na rua,
mas havia outras possíveis e diversas brincadeiras.
Um
tempo em que as avós, as mães diziam aos gaiatos: «vai brincar lá para fora».
Agora ficam em casa agarrados a um telemóvel a fazer jogos, a ver e ouvir o que,
por vezes, não se sabe o quê.
José
Saramago em As Pequenas Memórias:
«Então digo à minha
avó: «Avó, vou dar por aí uma volta.» Ela diz «Vai, vai, mas não me recomenda
que tenha cuidado.»
Nos
dias de férias de Natal, Carnaval, Páscoa, que passava em casa da minha avó
paterna, na Rua da Senhora do Monte, saía porta fora e percorria as ruas da
Graça, olhava o abundante comércio local, lembro uma pequeníssima tipografia,
compunha folhetos para festas e bailes, cartões-de-visita, e ficava por ali a
ver as máquinas, aqueles trabalhos, conheci a Vila Berta, a Vila Sousa, perdia
largos tempos no Miradouro junto à igreja da Graça, hoje Jardim Sophia de Mello
Breyner Andresen, ou no Miradouro da Senhora do Monte, a olhar a cidade.
Ainda Saramago: «Nesse tempo os adultos tinham mais confiança nos pequenos a quem educavam.»
Algo
que os miúdos de hoje não sentem: saudades de brincar na rua.
Dallas,
Texas. Linotipistas no Dallas Morning News.
Quando
havia jornais, jornalistas, linotipistas, quando havia que cumprir
escrupulosamente os horários para o jornal não perder as camionetas, os comboios
que levavam os exemplares pelo país.
Legenda: imagem Shorpy
Esta é a capa do JL nº 1429, que se supõe ser o último
número.
O director, José Carlos de Vasconcelos, escreve um
angustiante texto em que nos diz que o «JL
não pode morrer?...»
«… porque não sei o que dizer aos nossos
leitores e amigos sobre o futuro do JL. Não sei mesmo se ele voltará a sair…»
Quando em Março de 1981, surgiu o JL, Fernando Namora
gostou muito «sob todos os aspectos»,
Natália Correia também, porque «vem dar a
mão àqueles que estão ávidos de estímulos culturais para se libertarem da
intoxicação política», Miller Guerra também gostou porque há muito se
aguardava um jornal como o JL, mas acabou por notar que a «natureza da colaboração e a sua qualidade, embora excelentes, tornam a
sua leitura, pelo menos para algumas camadas de leitores, um pouco pesada.».
Teresa Clara Gomes foi taxativa:
«Desiludiu-me. Esperava um jornal que me
desse gosto ler., saiu-me mais um dever que um prazer. Acho o conjunto pesado,
tanto na paginação como no conteúdo. Lamento, além disso, o tradicional
elitismo do conceito de cultura subjacente à maioria dos textos. Diz-se que é
um jornal de letras, artes e ideais, e os ideais quase não tocam o tecido cultural
do nosso quotidiano. Esquecem-se, além disso, certas expressões culturais que
nascem de criadores não intelectuais. Espero que isso seja e acidental e não
corresponda a uma intenção dos responsáveis.»
No editorial poderia ler-se: «O JL é, ou pretende ser – na sua origem, no seu estilo e nos seus
objectivos, -algo de novo entre
Nós (…) queremos ser um quinzenário de
cultura potencialmente para toda a gente. Recusamos, pois os códigos das
linguagens cifradas e os exercícios herméticos para pretensos iluminados».
Havia um espaço a ocupar e entendeu-se que o JL iria preencher
esse espaço. Passados 44 anos, salvo alguns episódios, não o terá conseguido.
O JL saía, então, às terças-feiras e custava vinte e
cinco escudos.
É esta a ficha técnica e os colaboradores do 1º número do JL.
Sabia que o tinha guardado algures.
Encontrei-o hoje, numa caixa de folha cheia de
coisas-guardadas-não-sei-para-quê.
Fornecido pelos TLP, o último número do telefone da
casa do meu pai.
«Não marcar sem ouvir o sinal.»
O telefone de casa do meu pai começou por ser 40951,
anos mais tarde passou a ser 840951 e por fim ficou 21840951.
Não havia telefones e toda essa parafernália comunicante
que se passeia por aí.
Odeio telefones.
Li não sei onde:
Se o telefone não tocar sou eu!
O Pedro Alvim escreveu que
«Somente
as pessoas solitárias
é que atendem o telefone
imediatamente»
Lidia Jorge em O Vento Assobiando nas Gruas:
Do outro lado, Milene discou os velhos
números do telefone que ainda erma de rodar e fazer ruído, como se lá dentro
houvesse uma cremalheira.
Quando tínhamos um
Império do Minho a Timor, quando tínhamos Marinha Marcante, quando os nossos
paquetes passaram a transportar jovens para uma guerra estúpida, inútil.
Um anúncio da
Companhia Colonial de Navegação tirado do jornal A Capital de 24 de Abril de
1968.
Em
cada esquina de Lisboa encontramos, dizem, os melhores hostels do mundo,
mas deixámos de ter livrarias, exceptuando as dos grandes blocos editoriais
como a leya que agora é fnac e antes foi a Barata.
A
Pó dos Livros foi uma das boas livrarias de Lisboa, mas as rendas
altíssimas, a especulação desenfreada, a concorrência estúpida e desleal das
grandes cadeias, ditaram o seu fim a 31
de Março de 2018.
Qualquer
livro fora do tempo de edição, batíamos à porta e, diligentemente e com amor,
demandavam a sua procura.
Saudades!...
Terei
um dia, se para tanto tiver tempo e engenho, fazer o roteiro das livrarias e
alfarrabistas que frequentei.
Legenda: o meu cartão de leitor da Pó dos Livros.
Entretanto, João
Pedro Pincha colocava, na edição do Público
de 3 de Dezembro, a notícia que o
Atlântida Cine, o último cinema de bairro da linha de Cascais, está à venda.
O Atlântida Cine
abriu portas em 1983 na cave do Centro Comercial de Carcavelos. Em Maio
anunciou um encerramento temporário com a velha lenga-lenga que o encerramento
servia para «férias e obras de
melhoramento».
No Facebook do
Atlântida surgiram muitas mensagens: «Voltem
rápido! Melhor cinema da linha», «O Atlântida é um bem cultural raro. Não se
pode perder».
Fonte da autarquia de
Cascais já confirmou que já iniciou conversações para a compra do Atlântida.
Também sabemos destas
lengas-lengas.
A linha de Cascais
chegou a ter uma razoável quantidade de salas de cinema. O Atlântida era a
última.
O repórter finaliza a
notícia dando conta que «as sessões eram precedidas por Nat King Cole, Ella
Fitzgerald e outras vozes do jazz. O gong suava duas vezes e a cortina abria-se
de par em par enquanto as luzes diminuíam.
Os últimos filmes a
serem exibidos foram a Natureza do Amor
e Ainda Teremos Amanhã. Os cartazes
ainda lá estão».
Sempre se foi dizendo que a televisão haveria de roubar espectadores ao cinema!...
Um, ou os dois, não deveriam ter telefone.
No Largo da Graça, junto à Vila Sousa, vila operária, que ao contrário da Vila Berta não mereceu os cuidados do escriba José Cardoso Pires, no seu Livro de Bordo, Livro de Bordo, encontrou uma velha carvoaria e entusiasmou-se.
Chamou-lhe O Botequim.
Por ali, antes e depois de 25 de Abril, passou toda, ou quase toda, a intelectualidade, portuguesa, gente interessante, nem toda, também políticos, militares, que dissertavam sobre cultura, política e muita má-língua.
Melo Antunes pelas suas ideias progressistas teve vários bates-boca com Natália.
José Saramago também teve direito a uma natalice.
Segundo Joaquim Vieira, no seu mal-amanhado livro no seu mal-amanhado livro sobre o Nobel português, conta:
«Até mesmo a intuitiva Natália Correia, em conversa que terá tido com Saramago a propósito de O Evangelho Segundo Jesus Cristo se alhear da temática nacional, entrevira uma aproximação ao Nobel – no relato de Fernando Dacosta como testemunha: »A Natália falava da “desterritorialização” da literatura em Portugal, de autores que escolhiam temas que não tinham que ver com o país, pois achavam que assim eram mais fáceis de traduzir e editar lá fora. E disse ao Saramago, a propósito disso: "E tu também enveredaste por esse processo, porque queres ganhar o Prémio Nobel. Vais ganhá-lo, mas como és um tipo sério, vais voltar aos temas portugueses.”»
A um canto do bar havia um piano e por aquele tempo gente vária andava com uma viola a tiracolo. Bebia-se do fino, teceram loas ao Rosbife da casa, também ouvi dizer que por lá se comia um razoável Bacalhau à Brás.
Quando, após a sua morte, O Botequim deixou de ser da Natália Correia, ainda funcionou uns meses como bar mas, como faltava a presença real da Diva, acabou por fechar.A
Associação José Afonso chegou a sediar-se por ali e num São Martinho, no pátio
central da Vila Sousa, organizou uma
castanhada, comeram-se bifanas e entremeadas, beberam-se fartos packs de tintol.
Os jogadores? O futebol?
Venha o diabo e escolha.
José Augusto, Simões, Eusébio,
jogadores dum futebol que ainda tinha os seus encantos.
Legenda: imagem Planeta DeAgostini
Na
Parede, por onde andei estes dias, tentei encontrar postais da vila para enviar
a uns amigos alemães. Percorridas umas cinco papelarias não consegui encontrar
um único postal, tão pouco de Carcavelos, Estoril ou Cascais. Na Livraria da Europa-América
só havia postais de Lisboa!...
Na
papelaria junto à Estação do comboio, disseram-me que já ninguém usa postais,
mandam-se «sms». Disse-lhe que não tenho telemóvel, a moça ficou espantada a
olhar não sei para onde…
Reconheço
que sou um tipo antigo, agarrado a coisas extintas ou em vias de o serem,
coisas completamente desactualizdas, tudo tão de outro tempo.
Mas é bom
escrever aos amigos e um postal talvez seja uma maneira de estar perto desses amigos.
Um tempo outro de coisas modernas mas que não conseguem juntar as pessoas.