Habituei-me a calar a dor até não sentir nada. Acreditem. Nada.
Marta
Cristina de Araújo em Os Meios de Transporte
Legenda: pintura de Edward Hopper
Habituei-me a calar a dor até não sentir nada. Acreditem. Nada.
Marta
Cristina de Araújo em Os Meios de Transporte
Legenda: pintura de Edward Hopper
O Governo já se encontra em gestão mas quer passar para os privados 174 centros de saúde agregados aos cinco hospitais que virão a ser PPP.
A
notícia é do Expresso:
«Relançamento das parcerias público-privadas em cinco hospitais inclui todas as estruturas de cada uma das cinco unidades local de saúde. As ULS que têm os hospitais de Braga, Loures, Vila Franca de Xira, Amadora-Sintra e Garcia de Orta servem mais de um milhão e 700 mil pessoas. Privados esperam para ver se as propostas interessam.»
Esta de os privados esperarem para ver se as propostas interessam, não lembraria ao careca!...
O poeta, Nuno Júdice, que nos deixou em 17 de Março de 2024 – um ano, como o
tempo voa! – deixou escrito num poema:
«A medicina é uma arte
do comércio.»
Outro
poeta, Marta Cristina Araújo, também disse que:
« Que importa o nome das doenças, se o dinheiro não chega para pagar a cura? Os pobres quando adoecem deitam-se e tomam chá.»
Sempre
soubemos o que o governo do homem de Espinho tinha como prioridade primeira a
destruição do Serviço Nacional de Saúde e entrega-lo, de mão beijada, aos
privados.
Vamos
deixar?
Temos
a possibilidade de nas eleições de 18 de Maio evitar que isso aconteça.
Pela nossa saúde.
O governo de António Costa estatelou-se, levou um
tempo enorme para colocar um competentíssimo Fernando Araújo e a sua equipa, com
condições de trabalharem para o Serviço Nacional de Saúde.
Quando as coisas começavam a rolar, a maquiavélica – é o comentarista Marcelo
Rebelo de Sousa que o disse, e repetiu – procuradora geral da república –
colocou a maioria absoluta de António Costa em asa delta.
Aconteceu-nos o novo governo da AD cujo chefe há
dias perorou:
«Onde alguns titubearam, tergiversaram, precipitaram
e revogaram, nós decidimos tranquilamente um impasse décadas.»
No que à Saúde diz respeito, encontramos os privados – muitos sem competência, sem instrumentos que o SNS possui – a esfregar
as mãos, a ouvirem o tilintar das contas bancárias.
Entregues aos bichos, arrastamos os dias.
O poeta Nuno Júdice e as sua sábias palavras:
«A medicina é uma arte do comércio.»
Outro poeta, Marta Cristina Araújo:
« Que importa
o nome das doenças, se o dinheiro não chega para pagar a cura? Os pobres quando
adoecem deitam-se e tomam chá.»
Marta Cristina Araújo em O Tear da Casa
Legenda: fotografia de Rui Ornelas
Qual? Serão círculos concêntricos ou espirais sustidas no corte que impede a tentação do infinito? – Trabalhadas à mão reverente naquela estrada miraculosa da inteligência/sensibilidade até à execução do visível? Há sempre uma interrupção, uma paragem (aleatória) do olhar na linha subtil de um rosto perplexo, qual rosa solta de si, voltada para o nosso lado de interlocutor, inventado o mundo maravilhoso da sobrevivência ao tempo do êxtase - Pedaços de epopeias, dos cantos dos grandes livros intemporais, mas que marcam os ciclos da nossa paixão. – Singular de cada plural enganosamente referido.
Como escolher o mais, o mais inquietante, o melhor, o mais próximo, o mais doloroso? À sorte aponta-se um, vários, todos. Sem certezas nem porquês.
Marta Cristina de Araújo
Outubro de 2006
Do catálogo da exposição Vórtice de Paulo Neves
Legenda: Desenho a tinta da china de Paulo Neves
A morte construiu-se rápida e reluzente
por detrás dos taipais. Nunca me disseram podia ter sabido a casa dantes habitada for destruída e dela só haviam
aproveitado os materiais mais resistentes. O granito Certas madeiras as mais caras Outras dos caixilhos queimaram-na os operários no aquecer das suas
comidas.
Sou do tempo – anos 50 - em que os trabalhadores da construção civil levavam a lancheira de casa. Em cada dia um dos trabalhadores – ou era sempre o mesmo negro? - lançava uns bocados de madeira e começava a fazer a fogueira para aquecer a comida das marmitas.
No Verão assavam uns
carapaus e umas sardinhas, juntavam uma salada de tomate e pimentos.
Ganhavam miseravelmente, continuam a ganhar, juntavam gasosa para cortar o vinho – não seven up, era mesmo gasosa - o trabalho duro à procura de um futuro qualquer que nunca chega.