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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

TOP FIVE DE CANÇÕES DE (NÃO) NATAL


Nick Hornby começa assim o seu “Febre no Estádio”:

«Apaixonei-me pelo futebol tal como viria, mais tarde, a apaixonar-me pelas mulheres: de súbito, inexplicavelmente, sem o menor sentido crítico, sem pensar na dor ou perturbação que me viria a provocar.»

Hornby é um fanático adepto do Arsenal, cliente fiel da bancada norte de “Hughbury”, o velho estádio do Arsenal em Londres. Agora andará por uma qualquer bancada do Emyrates Stadium, mas onde, livremente, possa chamar nomes ao árbitro e mandar os jogadores do Arsenal àquela parte…

Hornby também escreveu Alta Fidelidade, que deu num filme de Stephen Ferars, com o John Cusak a fazer de Rib Gordon, o dono de uma loja, mais que falida, a Championship Vinyl, que só vende discos de vinil: «punk, blues, soul e R&B, um pouco de ska, alguns discos de independentes, algum pop dos anos 60 - tudo para o coleccionador sério».

Gordon é um chalado de fazer listas de cinco-qualquer-coisa. Aliás o livro abre com ele a fazer uma lista de namoradas: «As minhas cinco namoradas mais memoráveis de todos os tempos, que levaria para uma ilha deserta, por ordem cronológica».

E surgem os nomes das cinco pequenas.

Foi quando sorveu a última gota de gin, quando as pedras de gelo tilintaram no fundo copo, junto à rodela de limão amarelo, e a olhar o piscar das luzinhas da árvore de Natal, que lhe deu, à boa maneira de Rib Gordon, para elaborar uma lista de cinco canções de Natal que não são propriamente de Natal. mas que ele entende como tal:

1) If I Should Fall From Grace With God – The Pogues
2) Innocent When You Dream (Barroom) – Tom Waits
3) Like An Angel Passing Through My Room – Anne Sofie Von Hotter
4) Smile – Nat “King” Cole
5) Love Been Good To Me – Frank Sinatra

Uma em cada dia, Será aqui colocada, se Mr. You Tube consentir, estas cinco canções.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE EXTINÇÃO...


Que farei com as minhas cassettes?

Sou um tipo antigo. No meio da parafernália de aplicações que existem ainda ouço cassettes, ainda ouço discos de vinil.

Há uns anos o velho reprodutor de cassettes deu o grande berro.

Não encontrei quem mo reparasse.

Na Feira da Ladra comprei um outro. O rapaz que mo vendeu não me deu grandes garantias. Mas ainda durou três anos. Agora recusou-se a emitir mais sons.

Voltei à velha feira.

O tal rapaz ainda lá está mas não tem nenhum reprodutor para vender. Disse mesmo que depois de me ter vendido o que trouxe para casa, nunca mais lhe apareceram outros.

Perguntei por perspectivas.

Abanou a cabeça.

Que farei com as minhas cassettes?

Aquelas horas e horas em que passei a gravar as mais variadas e espectaculares selecções de música. Sâo 387 cassettes e já não estou a incluir todas as cassettes que gravei para o meu pai.

Quando gravava aquelas cassettes sentia-me membro de um clube exclusivo e em que me espantava, tal  como Groucho Marx, pela existência de um clube que me aceitava como sócio.

Sinto que me invade uma imensa tristeza, uma tristeza sem nome se é que a tristeza precisa de ter nome

Que farei com as minhas cassettes?

Para já, à parte, irei rever High Fidelity, aquele filme de Stephen Frears, saído do livro homónimo de  Nick Hornby.

E enquanto isso não acontece, saco o livro da estante e apresso-me a reproduzir este pedacinho:

«Passei horas a alinhar a cassete. Para mim, gravar uma cassete é como escrever uma carta – tenho de apagar muito, repensar e começar outra vez de início, e eu queria que a cassete ficasse boa, porque… para falar verdade, porque nunca tinha conhecido nenhuma mulher tão promissora como a Laura desde que tinha começado a pôr música, e conhecer mulheres promissoras era parte da profissão.
É difícil fazer uma boa cassete de compilação, tal como é difícil acabar uma relação. É preciso abrir com uma música surpreendente, para captar a atenção (comecei com “Got To Get You Off My Mind”, mas a seguir percebi que ela podia não passar da primeira faixa do lado A se eu desse logo tudo, por isso encaixei-a a meio do lado B), e depois sem se pôr uma mais enérgica ou mais calma, e não se pode misturar música branca com música negra, a menos que a música branca seja parecida com música negra, e não se pode pôr duas faixas do mesmo artista ao lado uma da outra, a menos que se tenha posto todas aos pares, e… oh, há imensas regras.
Seja como for, fartei-me de trabalhar, e ainda tenho meia dúzia de “demos” antigas espalhadas pela casa, cassetes-protótipo em relação às quais fui mudando de ideias. E na sexta-feira à noite, tirei-a do bolso do blusão quando ela veio ter comigo, e seguimos caminho a partir dai. Foi um bom início.»

sábado, 11 de maio de 2019

PANCADAS POR LISTAS


Mas a conversa dele é apenas uma enumeração: se viu um bom filme, não descreve o argumento, nem o que sentiu, mas sim em que posição o colocaria na sua lista dos melhores do ano, na sua lista dos melhores de sempre. Na sua lista dos melhores da década – ele pensa e fala em dez e cincos, e em consequência disso, o Dick e eu também. E ele está sempre a obrigar-nos a fazer listas: “OK, rapazes. Os cinco melhores filmes do Dustin Hoffman”. Ou solos de guitarra, ou discos gravados por músicos cegos, ou espectáculos do Gerry e da Sylvia Anderson (“Para começar não posso crer que tenhas o Captain Scarlet, Dick. O tipo era imortal! Que piada é que isso tem?”), ou doces que vêm em frascos (“Se algum de vocês tiver Ruibarb and Custard nos cinco melhores, demito-me).

Nick Hornby em Alta Fidelidade

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

POSTAIS SEM SELO


É como discutir a diferença entre o McDonalds e o Burger King. Tenho a certeza que há-de haver uma diferença, mas quem é que vai ralar-se a descobrir qual é?

Nick Hornby em AltaFidelidade

CANÇÔES PARA O MEU PAI


O meu pai gostava das canções do Simon and Garfunkel.

Quando íamos ao cinema, tínhamos preferência pelo Apolo 70, pela projecção, o som, a comodidade da sala e dava para petiscar no «snack», e sempre com um salto à livraria e à discoteca.

Numa dessas idas, tinha acabado de sair um «Best do Art Garfunkel» e o meu pai não hesitou: comprou-o de imediato.

Acabou por se apaixonar por «Bright Eyes» que não conhecia.


Logicamente «Bright Eyes» teria de entrar numa das cassettes que lhe fui gravando.


Por «Bright Eyes», há uma passagem deliciosa no «Alta Fidelidade» de Nick Hornby:

 - Não és mesmo capaz de ver a diferença entre «Bright Eyes» e «Got To Get You Off My Mind»?
- Claro que sou. Uma é acerca de coelhos e a outra tem uma banda de metais a tocá-la.
- Qual banda de metais. É uma secção de instrumentos de sopro. Porra!
- Seja lá o que for. Eu percebo porque preferes o Solomon ao Art. Eu compreendo, a sério. E se me pedissem para dizer qualquer era o melhor dos dois escolhia o Solomon sem hesitar. É genuíno, e negro, e lendário, e essas coisas todas. Mas gosto de «Brighr Eyes». Acho que tem uma melodia bonita, e além disso, estou.me nas tintas. Há tantas outras coisas para nos preocuparmos. Bem sei que pareço a tua mãe a falar, mas isto são apenas discos de música pop, e quem é que se importa realmente que um seja melhor do que o outro, tirando tu e o Barry e o Dick? Para mim, é como discutir a diferença entre o McDonalds e o Burger King. Tenho a certeza que há-de haver uma diferença, mas quem é que vai ralar-se a descobrir qual é?

A canção do Solomon Burke não entrou em nenhuma cassette para o meu pai, fugia um tanto ou quanto aos seus padrões de gosto musical.

Mas é mesmo uma grande canção.

Fica aqui, por mera curiosidade.


sábado, 27 de fevereiro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Febre No Estádio

Nick Hornby
Tradução: Maria Augusta Júdice
Capa: Fernando Mateus
Editorial Teorema, Lisboa, Março de 2001

Apaixonei-me pelo futebol tal como viria, mais tarde, a apaixonar-me pelas mulheres: de súbito, inexplicavelmente, sem o menor sentido crítico, sem pensar na dor ou perturbação que me viria a provocar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Encontrei este anúncio dentro do Alta Fidelidade do Nick Hornby.
As coisas que um gajo vai guardando.
Não faço a mínima ideia do que seja Soupirs d'Amour.
Nunca vi nenhuma.
Mas tem uma certa piada venderem-se cassettes para ouvir em reuniões de amigos e para dar cabo de noites solitárias.
O que se inventa!
O recorte é do Jornal Novo de 24 de Novembro de 1975, véspera do tal dia que matou os sonhos a muita gente - houve alguém que se enganou tal como canta o Zé Mário Branco


COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Já não há cassettes.

Pior: já não há, à venda, leitores de cassettes.

O meu leitor de há muito que pifou e não há disponibilidade de borrachas para o por a rodar.

Fiquei com uma montanha de cassettes sem saber o que delas fazer.

Arrepio-me cada vez que penso que tenho de as colocar n o ecoponto.

Selecções de músicas colocadas ao pormenor, muitas delas gravadas com dois gira-discos e recorrendo a um misturador.

Arrepio-me cada vez que penso que tenho de as despejar no ecoponto.

Há um livro de Nick Hornby, Alta Fidelidade de que Stephen Frears com John Cusak, Tim Robbins, Catherine Zeta-Jones, realizou uma honesta adaptação, onde ressalta toda a ambiência do pensar e gravar uma cassette.

Não desgostando do filme, prefiro o livro. 

Há um espírito e uma graça difíceis de passar ao celulóide.

Atentem nestas citações:

Passei horas a alinhar a cassete. Para mim, gravar uma cassete é como escrever uma carta – tenho de apagar muito, repensar e começar outra vez de início, e eu queria que a cassete ficasse boa, porque… para falar verdade, porque nunca tinha conhecido nenhuma mulher tão promissora como a Laura desde que tinha começado a pôr música, e conhecer mulheres promissoras era parte da profissão.

É difícil fazer uma boa cassete de compilação, tal como é difícil acabar uma relação. É preciso abrir com uma música surpreendente, para captar a atenção (comecei com “Got To Get You Off My Mind”, mas a seguir percebi que ela podia não passar da primeira faixa do lado A se eu desse logo tudo, por isso encaixei-a a meio do lado B), e depois sem se pôr uma mais enérgica ou mais calma, e não se pode misturar música branca com música negra, a menos que a música branca seja parecida com música negra, e não se pode pôr duas faixas do mesmo artista ao lado uma da outra, a menos que se tenha posto todas aos pares, e… oh, há imensas regras.

Seja como for, fartei-me de trabalhar, e ainda tenho meia dúzia de “demos” antigas espalhadas pela casa, cassetes-protótipo em relação às quais fui mudando de ideias. E na sexta-feira à noite, tirei-a do bolso do blusão quando ela veio ter comigo, e seguimos caminho a partir dai. Foi um bom início.

Antes de lançar as cassettes ao ecoponto, ainda passarei pela Feira da Ladra a ver se consigo qualquer coisa que faça com que aquelas cassettes voltem a brilhar

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Alta Fidelidade

Nick Hornby
Tradução: Maria Augusta Júdice
Capa: Fernando Mateus
Editorial Teorema Lisboa Maio de 1997

Ela não sorri, não me oferece uma chávena de café nem me pergunta se consegui encontrar a casa apesar da chuva gelada que apanhei pelo caminho e me impedia de ver um palmo à frente do nariz. Limita-se a conduzir-me até um gabinete que dá para o átrio, acende a luz e aponta para os singles na prateleira de cima – há centenas deles, todos em caixas de madeira feitas por medida – e deixa-me ficar a vê-los.
Não há caixas mas prateleiras ao longo das paredes, apenas álbuns, CDs, cassetes e equipamento de alta fidelidade; as cassetes têm pequenas etiquetas numeradas, o que indica sempre que se trata de uma pessoa séria. Há algumas guitarras encostadas às paredes, e uma espécie de computador com ar de conseguir produzir alguma música se se estiver para aí virado.
Subo para cima de uma cadeira e começo a tirar cá para baixo as caixas dos singles. São sete ou oito ao todo, e, embora eu tente não ver o que têm dentro quando as ponho no chão, dou uma olhadela ao primeiro da última caixa: é um single do James Brown na King, com trinta anos, e começo a ficar em pulgas.
Quando começo a vê-los decentemente, percebo logo que é tudo o que sempre sonhei adquirir desde que comecei a coleccionar discos. Há singles do clube de fãs dos Beatles, e a primeira meia dúzia de singles dos Who, e originais do Elvis do início dos anos 60, e montes de singles raros de blues e de soul, e… há um exemplar de “Go Save The Queen” pelos Sex Pistols na A&M! Nunca tinha visto isto! Nunca vi ninguém que tenha visto isto! E oh não, oh, não, céus – “You Left The Water Runnibg” do Otis Redding, editado sete anos depois da sua morte, mandado retirar imediatamente pela viúva por não…
- Que tal? – ela está encostada à aduela da porta, de braços cruzados, a olhar meio meio a sorrir para a cara que eu devo estar a fazer.