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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

SOLTAS


Alexandra Lucas Coelho, no Público, diz que as Acampadas são a coisa mais bonita desde o 25 de Abril.

«Eu tinha 6 anos no 25 de Abril. Ter 58 agora serve para saber que desde então nada foi tão bonito em Portugal como estas acampadas, organizadas por quem podia ser meu filho.»

Ainda nas acampadas, fazemos uma paragem na crónica de Fernando Alves no Jornal de Notícias, para destacar este pedacinho:

«Na praça, rostos sorridentes dentro de casas de cartão. Há frases de humor ácido: "Ter casa já era". Uma mulher diz: "Sou privilegiada, tenho casa. Partilho-a com um filho de 28 anos e com o banco". Isto, sim, é pedagógico.»

1.

 Ninguém, mas mesmo ninguém, gosta de ver a polícia bater em pessoas.

2.

O Luís não tem mesmo habilidade para ser primeiro-ministro do reino.

Juntou-se à tal coisa, não quer e, aparentemente, não consegue demitir o despenteado mental que aterrou na administração interna.

No final da palração de ontem, os jornalistas fizeram perguntas a que o Luís fez desvios para não responder ao que lhe perguntaram.

Os jornalistas não deviam ter deixado o Luís sair da sala sem responder ao que lhe foi perguntado. 

Calaram-se e o silêncio nem sempre cai bem

3.

Citando Luís Filipe Castro Mendes: «um velho exclama: “Que querem os novos? Têm o futuro à frente e nós não”, a que um outro, mais avisado, responde: “Pois é esse mesmo o problema.”»

4.

O Eugénio de Andrade dizia que não se aprende muito com a idade

5.

Faltam poucos dias para ser Natal e o António Lobo Antunes, martirizava-se:
«desde que cresci o Natal tornou-se uma multidão de gente enervada e com pressa.»

6.

A esperança de vida aos 65 anos praticamente não sofreu alterações no triénio 2023-2025, pelo que os dados provisórios agora divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística vão manter a idade de acesso à reforma para 2027 nos 66 anos e 11 meses.

7.

Habitantes do concelho de Vimioso queixam-se do atraso na entrega da correspondência por parte dos CTT, garantindo que, "por falta de pessoal, deixaram de entregar correio há vários meses" em algumas aldeias e ainda no concelho de Miranda do Douro.

8.

A TAP já custou 3,255 mil milhões de euros ao erário público, está avaliada em cerca de dois mil milhões e será vendida por pouco mais de mil milhões;

9.       

Os 318 trabalhadores da Schmidt Light Metal, uma das empresas de referência de Oliveira de Azeméis ligada ao setor automóvel, vão ficar no desemprego. A administração comunicou o encerramento da unidade até ao final do ano, após uma tentativa de recuperação da empresa pelos novos proprietários ter fracassado.

10.

Portugal é o quarto país da União Europeia no ranking do desperdício alimentar e a maior parte da comida vai para o lixo dentro de casa; Portugal desperdiça 161 kgs de alimentos por habitante anualmente, 24,8% acima dos valores registados na média comunitária;

11.

Segundo o INE quase um terço das pessoas entre os 25 e os 44 anos toma medicação para tratar a ansiedade.


Legenda:fotografia de Filipe Amorim/AFP via Getty Images.

terça-feira, 21 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar o coração, a minha face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu…

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

NESTE DIA


Neste Dia, o dia para José Saramago é 30 de Setembro de 2008, página 43 do 1º volume de O Caderno.

O escrevinhador que sou, pontuou lá para trás, que a esperança não pode ser um nome como outro qualquer.

Álvaro Cunhal disse um dia que «a esperança pode ser um sentimento em relação a algo que não se confia que possa ser alcançado». E fez um largo risco em O Ano da Morte de Ricardo Reis quando Saramago lhe diz: «A esperança, só esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há mais nada senão ela, é então que descobrimos que ainda temos tudo.»

Estaremos cansados de esperar?, poematizou Eugénio de Andrade.

Miguel Torga, indo mais longe, a dizer-nos que a angústia é o rosto sério da esperança.

Mas estávamos aqui pela leitura do Caderno de Saramago:


«Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se neste nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.»

domingo, 28 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 O domingo está apenas nos meus olhos e é grande.

Eugénio de Andrade

Legenda: fotografia de Júlio Amorim

quinta-feira, 13 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


 Um Olhar Português

Textos de:

Regina Louro, Francisco José Viegas, Mário Cláudio, Fernando DaCosta, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, Hélia Correia, José Cardoso Pires, Mário Ventura, Al Berto, Lídia Jorge, Viale Moutinho, João de Melo

Capa: João Machado

Círculo de Lisboa, Dezembro de 1991.

A vila de Peniche estava toda retalhada por água. Uma pequena casa envelhecera mesmo dentro do mar, sobre um montículo de pedra e sedimento. Os pássaros soltavam os seus gritos, feitos para superar o estrondo das tormentas. Os barcos acolhiam-se ao redor do grande lombo de cimento e rocha que com eles dormitava, num embalo.

- Foi uma ilha, sabe?

- O quê?

- Peniche.

Mas sob as rodas sentia-se a firmeza do alcatrão.

Mário parou o carro junto ao forte que era agora um museu da Resistência.

-Quer entrar? – perguntou.

- Não – disse a mãe. Parecia muito desinteressada. Talvez sentisse fome ou não quisesse, não suportasse recordar-se mais. Dava aquela viagem por cumprida.

A prisão, pensou ele, tinha a matéria e a alma de um rochedo. Estava misturada com as ondas. Talvez o seu avô se confortasse com aquela presença familiar, talvez se distraísse com as fúrias e os arrulhos da rebentação. Alguns homens haviam-se atirado, nadado para longe, confiando no mar e não na terra para fugir. Isso fora ainda antes de ele nascer, supunha; fora há muito tempo já. As coisas que os moveram, que os trouxeram para aqui, também se consumiram e passaram. «Nunca conhecerei as suas vidas.»

Arrancou devagar, contra o sol baixo.

- No Verão, é tudo bem diferente – disse a mãe. – Há muita gente, os dias são compridos. Espero que fosse Verão quando ele vinha. Hás-de pintar um qiadro do Verão.

 Mário riu-se:

- Para quê? A mão não gosta.

- Gosto – respondeu ela. – Não entendo, mas nós nunca entendemos muita coisa.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 Desde cedo me encontrei desinteressado de coisas que interessavam à maioria. Na adolescência, tive duas fascinações: a santidade e a poesia. A santidade, adeus, aos catorze anos isso estava arrumado. Ficou a poesia.

Eugénio de Andrade

Legenda: Eugénio de Andrade

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Sê paciente; espera que a palavra amadureça e se desprenda como um fruto ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 27 de agosto de 2024

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Vimos o Evangelho Segundo S. Mateus no Cinema Monumental.

A Aida guardou os bilhetes.

Eugénio de Andrade dizia que pouco sabia de  Pasolini, mas naquele tempo eu não sabia nada sobre Pasolini.

Seriamente mutilado pela censura de Salazar, o filme mostrava um Cristo que pouco correspondia ao Cristo que a Igreja nos mostrava, que queria que víssemos.

Uma inquietude.

Outra inquietude se vai instalando a juntar ao crime de Abecassis quando mandou destruir o Cinema/Teatro Monumental.

Notícias vindas no Público, Setembro de 2023, Outubro do mesmo ano, revelavam que havia propostas para o espaço Monumental. O ministro da Cultura de então, Pedro Adão e Silva defendia que Lisboa precisava de salas de cinema com porta para rua e não encafuadas em centros comerciais rodeados de baldes com pipocas.



Não voltámos a ter notícias sobre estes projectos, entretanto o governo já é um outro.

Até quando?

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS



Acima se reproduz o Relatório nº 5244, datado de Setembro de 1954, bolsado pelo capitão José Brandão Pereira de Melo, censor pidesco do regime salazarista, que proibiu Encontro-Antologia de Autores Modernos.

O militar-censor-analfabeto começa o vómito dizendo que a esta “Antologia de Autores Modernos” melhor se lhe podia chamar “Antologia de autores comunistas, comunistoides ou comunisantes”.

 O livro faz parte da Colecção «Biblioteca da Censura», publicada pelo Público com curadoria de Álvaro Seiça, contém  textos de Eugénio de Andrade, Federico Garcia Lorca, José Fernandes Fafe, Luís Francisco Rebello e Miguel Torga e traduções de André Gide, Henri Lefebvre, Pablo Neruda, René Leibowitz e Walt Whitman, todos os textos estão antecedidos por curtas introduções assinadas por Alexandre Pinheiro Torres, Correia Alves, António Pinheiro Guimarães, Carlos F. Barroso, Manuel Dias da Fonseca e Eugénio de Andrade.

O censor-militar-analfabeto analisa o texto de Henri Lefebvre, o poema “O Canto de Mim Mesmo” de Walt Whitman e a peça teatral “O Dia Seguinte” de Luís Francisco Rebelo e termina o relatório:

 «Estes trechos da Antologia bastam, quanto a mim, para justificar ou dictar a proibição da obra, mas até, parece-me, só o último referido tal imporia.»

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

QUOTIDIANOS

O mês de Janeiro do ano que corre quase a despedir-se – adeus, adeus, adeus… - e ele ainda não veio aqui lamentar qualquer coisinha sobre os ódios aos meses de Janeiro e Fevereiro que o avô, em tempos de meninice, lhe foi transmitindo e ele tem arrastado por uma vida quase a bater os 78 anos e quando disto fala, nunca se esquece de ir buscar o velho Eugénio:

«Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados.»

Curiosamente, o avô nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1883 e morreu no dia 27 de Fevereiro de 1969.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Recomeço. Não tenho outro ofício.

 Eugénio de Andrade

 Legenda: pintura de Marcel Duchamp

CONVERSANDO


 Neste dia, há cem anos nascia José Fontinhas, mais conhecido por Eugénio de Andrade, um poeta único, o Geninho como dizia o José Leal Ferreira.

«Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar o coração, a minha face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu…»

Numa das crónicas que, semanalmente, publica no Expresso, José Tolentino Mendonça começa assim:

«Em Portugal, que eu saiba, o melhor lugar para ouvir as cigarras é a poesia de Eugénio de Andrade. Ao menos para mim representa o sítio onde verdadeiramente as escutei pela primeira vez.»

Conheci Eugénio de Andrade, corriam os primeiros meses do ano de 1967, nos Poemas, 23º volume da excelente Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora, que comecei a adquirir quando um livreiro aconselhou o meu pai que esse seria o melhor caminho para conhecer boa parte da nova Poesia Portuguesa e Despedida é o antepenúltimo poema do livro:

«Colhe

todo o oiro do dia

na haste mais alta

da melancolia.

Escreve Luís Miguel Queiros no Público de hoje:

«… cem anos após o nascimento do poeta na freguesia de Póvoa de Atalaia, no concelho do Fundão, e decorridas quase duas décadas desde a sua morte, em 2005, a presença de Eugénio parece estar a esbater-se mais depressa do que poderia esperar quem testemunhou a generalizada admiração de que gozou em vida, mesmo que esta possa ter sido sempre um pouco menos consensual em Lisboa do que no seu Porto adoptivo.»

Que se pode esperar de um país em que poucos, mesmo muito poucos, são os que lêem livros?

O sobressalto de um número recentemente  divulgado: 61% dos portugueses não leram qualquer livro impresso de espaço de um ano.

Um povo inculto apenas com os olhos para o que lhes aparece nos telemóveis.

E, no entanto, está tudo nos livros!

«Boa noite. Eu vou com as aves», como diria o Eugénio.

 

Legenda: fotografia de Paulo Pimenta no Público de hoje.

MAR DE SETEMBRO/OSTINATO RIGORE

Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

João Miguel Fernandes Jorge

EUGÉNIO DE ANDRADE

Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico – o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas ê sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz cindida, o bem e o mal compartimentados; e ainda uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.

Eugénio de Andrade 

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO

Colhe todo o oiro do dia na haste mais alta da melancolia. 

 Eugénio de Andrade

quarta-feira, 8 de junho de 2022

POSTAIS SEM SELO

Mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?

Eugénio de Andrade

domingo, 13 de março de 2022

OU APENAS MUDAR O SENTIDO DA VIDA


Pergunta do poeta Eugénio de Andrade:

«Mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém?»

1.

A Rússia pede ajuda militar e económica à China. Os Estados Unidos temem que a China aceda a esse pedido.

Com as sanções económicas decretadas contra Putin, este fica na única dependência da ajuda chinesa.

Uma só palavra da China chegaria para rever toda a sua posição nesta tragédia.

Mas são caríssisimas as palavras chinesas.

2.

O Papa Francisco fez este sábado um novo apelo para acabar com a invasão russa da Ucrânia e a guerra, denunciando as duras repercussões nas crianças :

 «Nunca  a guerra! Pensem acima de tudo nas crianças, cuja esperança de uma vida digna é tirada: crianças mortas, feridas, órfãs, crianças que têm resíduos de guerra como brinquedos. Em nome de Deus, parem!

3.

A Rússia efectuou, hoje, um ataque aéreo a uma base militar ucraniana a cerca de 20 quilómetros da Polónia, que é um país da NATO.

Existe o registo de 35 mortes e 134 feridos.

4.

A China decretou o isolamento das cidades de Changchun e Shenzhen devido a novos surtos de Covid-19.

Entretanto sobem  os casos em vários países europeus. 

Portugal pode registar uma sexta vaga de infecções.

5.

Mais de 200 empresários do sector do transporte de mercadorias decidiram para esta segunda-feira a paralisação de 20% das suas frotas, em protesto contra a subida dos preços dos combustíveis.

terça-feira, 8 de março de 2022

SEM VÍCIOS A VIDA É UMA CHATICE!


 Manuel António Pina e as suas inseparáveis cigarrilhas.

Continuo com a leitura, lenta e saborosa, da biografia de Manuel António Pina, «Para Quê Tudo Isto?», escrita por Álvaro Magalhães.

«Uma vez, com o carro também cheio de amigos, queixou-se do nevoeiro, que não o deixava ver a estrada. «Não está nevoeiro, é o fumo aqui dentro», explicou Germano Silva, que ia ao lado dele. O Honda verde cheirava tanto a tabaco que ele o mandava lavar na véspera dos encontros com o poeta Eugénio de Andrade, que detestava esse cheiro.»

Quando apagaram os cigarros icónicos de livros e filmes, numa crónica, o Pina denunciou que tinham tirado o cachimbo a Tati, o charuto a Groucho Marx, o cigarro a Humphrey Bogart, a boquilha a Marlene Dietrich.

Também lhe tocou a ele o estalinismo antitabagista. 

Na crónica que, quinzenalmente, publicava na revista Notícias Magazine, da fotografia que ilustrava a crónica, tiraram-lhe a cigarrilha que exibia entre os dedos.

Seis anos após a sua morte, numas jornadas dedicadas à sua obra, «Desimaginar o Mundo», o irmão de Manuel António Pina também queria que retirassem a cigarrilha da fotografia do cartaz que publicitava o evento.

«Ana, a filha mais nova de Pina, insistiu para que a mantivessem e fez bem. Não estivesse ali a cigarrilha e como poderíamos nós ter a certeza de que ele era ele.»

Legenda: cartaz de «Desimaginar o Mundo», Porto de 16 a 21 de Novembro de 2018.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

CONVERSANDO

 Agora que já entrámos por Fevereiro dentro, ele ainda anda às voltas com a história do avô e asua raiva aos meses de Janeiro e Fevereiro que, este ano, provocaram o disparate de zarpar do blogue sem avisar que isso iria acontecer, e o seu porquê.

Agora que anda a ler a excelente biografia de Manuel António Pina, escrita por ÁlvaroMagalhães, confirmou que o poeta foi um homem marcado pela sua atribulada infância.

Já encontrou uma frase de Clarice Lispector «Nunca é tarde para se viver uma infância», também o título da 1ª parte do livro «A infância não se vê da infância», e num pedacinho que aproveitou para o lançamento do Olhar asCapas de há dias, leu palavras de Ruy Belo é apenas por termos perdido a infância que a amamos tanto e, inevitavelmente, Eugénio de Andrade  a lembrar que a infância aquece à medida que se distancia.

Altura de ter vontade de perguntar:

Será que andamos, toda uma vida, de mão dada com a criança que fomos?

Talvez por isto, e algo mais, voltou a publicar o poema de Álvaro Campos de que muito gosta:

« Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.»

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Para Quê Tudo Isto?

Biografia de Manuel António Pina

Álvaro Magalhães

Capa: Rui Rodrigues

Contrponto Editores, Lisboa, Setembro de 2021

A infância é uma estação poética por excelência, mesmo porque recria esse melancólico original que é a infância do mundo: o início do espaço e do tempo. Na infância, não estamos ainda separados do mundo, somos parte dele. Porém, estamos então demasiados próximos dessa infância, demasiado imbuídos dela para a reconhecer como tal. Sim, a infância não se vê da infância. Eugénio de Andrade dizia que ela «nos aquece à medida que se distancia», que é um modo elegante de dizer que só a temos quando a perdemos. «E apenas por a termos perdido a amamos tanto», (Ruy Belo). Sim, só depois de se perder esse estado de graça, essa simples felicidade, se toma consciência disso, e se reconhece o «pecado da infelicidade». Portanto, só possuímos a infância quando ela já é apenas distância, ou seja, uma construção da memória. E a memória partilha da mesma condição ilusória da literatura e do ser. Ela mente, frequentemente («nós é que construímos o nosso próprio passado», dizia Pina, mas é tudo o que temos para nos aguentarmos à tona nas águas turbulentas da existência.)