quarta-feira, 4 de novembro de 2026

NÃO NOS DEIZAM CANTAR

Não nos deixam cantar, Robeson

meu canário com asas de águia

Meu irmão negro com dentes de pérola

Não nos deixam cantar as nossas canções.

Têm medo, Robeson

medo da aurora, medo de olhar

medo de ouvir, medo de tocar.

Têm medo de amar,

medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.

(Decerto que também vocês, irmãos negros,

têm um Ferhat, como é que tu lhe chamas, Robeson?)

Têm medo da semente e da terra,

medo da água que corre,

medo da lembrança.

A mão de um amigo que não deseja

nem desconto nem comissão nem moratória

igual a um pássaro quente

não apertou nunca a sua mão.

Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!

Têm medo, meu canário com asas de águia,

Têm medo das nossas canções, Robeson…


Nazim Hikmet

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