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terça-feira, 28 de julho de 2026

OLHARES


O ar estava quente, mas uma aragem vinha do mar, de vez em quando, trazer um pouco de fresco àqueles, poucos, que ainda passeavam depois da meia noite. Lisboa meio apagada, estava já a mergulhar no seu habitual torpor provinciano. Não era a capital dos grandes desfiles nocturnos. Deitavam-se cedo nos bairros pobres, faziam serão em casa, nos bairros ricos e era dia da semana. Decidi voltar apé, ao longo do Tejo.

Pierre Kyria em A Morte Branca

Legenda: fotografia de Daniel Blaufuks

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

QUOTIDIANOS


Estava em minha casa, ou seja, em lado nenhum. Levava o meu sorriso, as minhas palavras para cada refeição, como o cortador entregava cada manhã a carne, à frente da vedação do jardim. Falávamos sobre a estação, a colheita da fruta, os acontecimentos do dia – mais uma pessoa que se tinha afogado! – e sobre o custo de vida. Estávamos em Agosto, começavam-se a fazer os preparativos para o outono. Estava calor e o meu pai cortava já madeira para o inverno. Andavam sempre à frente do tempo e eu atrás, o que representava muitos silêncios a eliminar nas nossas relações.

Pierre Kyria em A Morte Branca


Legenda: pintura de Jean-François Millet

quinta-feira, 31 de julho de 2014

OLHAR AS CAPAS


A Morte Branca

Pierre Kyria
Capa: avenida Designers
Tradução: Marai Antónia Câmara Manuel e Patrick Quillier
Edições Salamandra, Lisboa, Novembro de 1986


Se algum dia tivesse de falar da memória, dar-lhe-ia uma cor. Branca, como a tela dos écrans, a margem dos livros, o olhar dos afogados. No seu vai e vem fulgurante, dar-me-ia a posse do território da ausência que é de todos o mais vasto. Aí encontraria de novo rostos, palavras, talvez mesmo nomes.