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segunda-feira, 9 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Eça de Queirós: Uma Estética da Ironia

Mário Sacramento

Coimbra Editora, Coimbra 1945

Assim o jovem Eça de Queirós que, pelo verão de 1866, abandona Coimbra e se instala em Lisboa, traz consigo, embrionários, quási todos os elementos da personalidade que virá a possuir. Lisboa vai ser apenas a estufa das germinações, o cadinho em que se realizarão as suas reacções anímicas. Em Coimbra conhecera os contemporâneos que mais profunda influência exercerão no seu espírito; em Coimbra realizara aas leituras que nele mais profundamente agirão; por lá se iniciara na Arte e balbuciara a Política. Bem se compreende, portanto, aquela frase do Ega de Os Maias: «- É curioso. Só vivi cinco anos nesta Coimbra e é nela que parece estar metida a minha vida inteira.»

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 A Revolta de Ontem Nas Palavras de Hoje

Coordenação e edição de Júlio Sereno Cabral

Textos de Óscar Lopes, Joaquim Felgueiras, Velosos de Pinho, Ribeiro da Silva,

                  Armando Bacelar, Mário Sacramento, Virgínia Moura, Alexandre

                  Ferreira Barros, Fernanda Gonçalves, Mário Brochado Coelho

Edição de Autor, Porto s/d

A República está por fazer, como em 31 de Janeiro de 1891! Não basta retirar um rei e pôr nesse mesmo trono outro homem, para se fazer a República. É nosso dever lutar por ela, hoje como ontem. E só a unidade pode vencer a opressão!

(Do discurso de Mário Sacramento).

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 
É bom voltar a Mário Scaramento.

Foram os autores do neo-realismo português e italiano que me abriram os caminhos dos dias no mundo atribulado em que os li. Não foi o pouco que li de Karl Marx que me levaram a esses caminhos. Junto-lhes Albert Camus, Roger Vailland, Roger Marin do Gard, autores americanos, foram eles que me deram, sela lá o que isso for, a visão marxista do mundo.

Num livrinho de Mário Sacramento, Há Uma Estética Neo-Realismo?, lido  pr’aí em 1968, o autor coloca uma epígrafe de Almeida Garrett: «A história do mundo não é senão uma série de reacções e contra-reacções. A da literatura é o mesmo. O que unicamente fica imutável são os eternos princípios da verdade, do gosto e da razão em tudo.»

Mário Dionísio, dos mais inteligentes e claros intérpretes do neo-realismo, mas não se pode esquecer Alexandre Pinheiro Torres, lembrou Fernando Namora que já escrevera que não se pode escrever sobre camponeses que só se tinham visto da janela do comboio.

O Neo-Realismo teve entre nós imensos detractores, provavelmente o mais incompreendido dos movimentos literários do século passado. Tão adulterado, tão vilipendiado pelos que nunca puderam sentir-lhe as raízes e o significado. Ainda por aí andam uns jovens que, sem terem lido nada de nada, bolsam disparates aterradores.

Claro que a expressão neo-realismo tem hoje uma expressão nitidamente datada. Mas foi ali que aprendi parte importante dos parcos conhecimentos que tenho. Foram aqueles autores que intentaram a literatura como instrumento de luta política e ideológica, num tempo de trevas colocado em cena por um botas vindo de Santa Comba, e acolitado por uma série de gente sem escrúpulos, profundamente analfabetos, de baixíssima moral e maus. Talvez, escreveu Alves Redol, «o embalar da esperança valha mais do que o desespero da realidade desesperada»

E não esqueço uma frase do poeta Joaquim Namorado: «Nós dizíamos que éramos neo-realistas porque não podíamos dizer que éramos comunistas.»

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Mário Sacramento: A Hora do Ensaio

Catálogo da exposição de 4 de Junho a 30 de Outubro de 2022

Curadoria: António Pedro Pita e Odete Belo

Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Julho de 2022

Por mais realista e empenhada neste Mundo que se mostre a Arte, ela aliena o homem da realidade imediata por todo o tempo em que dura, pois, a evasão que assim lhe concede não é apenas um relaxe da atenção ou um interesse novo que se cria, mas qualquer coisa como umas asas de Ícaro com que se pode voar transitoriamente outro.

Mário Sacramento 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

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Cartas de Estalinegrado

Prefácio de Mário Sacramento
Tradução: Helena Rosado
Colecção Documentos Vivos nº 8
Editora Arcádia, Lisboa, Junho de 1960

Em Estalinegrado, pensar em Deus é deixar de acreditar n’Ele. Acho que devo dizer-te isto, querido pai, e custa-me muito fazê-lo. Foste tu que me criaste, porque me faltou a mãe e sempre me quiseste gravar na alma o nome de Deus.
E lamento duplamente as minhas palavras, porque são as últimas e porque depois delas não posso escrever mais nenhumas, que atenuem ou apaguem o efeito destas.
És um salvador de almas, pai, e sabes bem que na última carta só se diz o que é verdade ou o que se julga ser verdade. Tenho procurado Deus no troar dos canhões, em todas as casas destruídas, em todos os cantos, junto de todos os camaradas, quando estou acocorado nos esconderijos, até O procurei no céu... E Deus não respondeu quando o meu coração gritou por Ele. As casas estavam destruídas, os meus camaradas eram tão corajosos ou tão cobardes como eu, na terra havia fome e assassínios, no céu havia bombas e havia fogo, só não havia Deus.
Não, pai, Deus não existe! Repito-o, e sei que é horrível não mudar de ideias. E supondo que existia um Deus, só existiria junto de vós, junto dos livros dos cânticos e de orações, dos versículos pios dos padres e dos pastores, junto do som dos sinos e do cheiro do incenso, mas nunca em Estalinegrado.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

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Teatro Anatómico

Mário Sacramento
Atlântida, Coimbra 1959

YVONNE – Antígona foi uma pobre mulher, Michel. Uma pobre mulher empenhada na sua própria dignidade. Não perca de vista o drama familiar! Despedindo-se dela e do irmão, o pai predissera-lhes o escárnio público, filhas da ignomínia que eram. Elas seriam a posteridade monstruosa, a progénie do crime. Antígona era noiva do filho de Creonte, mas o incesto dos pais estava de permeio entre eles. Repare que ela faz notar ao rei que o irmão não morrera como escravo. Foi portanto a tragédia familiar que sobretudo a moveu. Ela perdeu o chão sob os pés. E, não podendo resgatar os erros dos seus, solidarizou-se com o que lhes restava de dignidade na desgraça. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

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Há Uma Estética Neo-Realista?

Mário Sacramento
Capa; Fernando Felgueiras
Cadernos de Literatura nº 1
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 1968

Está dito e redito que onde a arte se remete à expressão dum impasse, pingueponga em espelhos paralelos o ar rarefeito duma agonia. Em contrapartida, onde o realismo parte do conhecimento objectivo para a expressão directa do factual, é linguagem híbrida. O neo-realismo português tem kmuito disso, expressão circunstancial que é. Ao procurar-lhe, nas páginas que vão ler-se, uma matriz estética, abstraí desse caduco e procurei delimitar o que nele reascende do impacte científico à especificidade literária.
Processo em marcha ainda, deixo o seu encadeamento para o estudo histórico que um dia terá de fazer-se. Concebido como depoimento pessoal para um livro de colaboração colectiva que não chegou a sair, o presente ensaio é o que é e nada mais. Aos que fiquem decepcionados só há que dizer: tirem dos seus tinteiros o que aqui não coube.

terça-feira, 1 de maio de 2018

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Diário

Mário Sacramento
Capa: Armando Alves
Editora Limiar, Porto, Junho de 1975

Aveiro, 20 de Julho de 1968

Ex.mo Senhor Director da Polícia Internacional e de Defesa do Estado
Lisboa

Ex.mo Senhor:

Baseando-me em informações da Polícia que V. Exª Dirige, o sr. Governador Civil de Aveiro indeferiu por duas vezes, no ano transacto e neste, o requerimento para passaporte que lhe dirigi. Para cúmulo, o segundo indeferimento abrangeu também a minha Mulher. Tal circunstãncia impediu-me de participar no Congresso de Radiologia de Barcelona e de acompanhar um doente grave a uma clínica estrangeira.
Médico especializado em França, mercê de uma Bolsa de >Estudo, vejo-me assim impedido não só de actualizar os meus conhecimentos científicos, o que contraria, como é óbvio, a política de Saúde adoptada pelo Governo, mas de me deslocar a Espanha, país onde vigora um regime cujas afinidades com o de Portugal é desnecessário encarecer.
Estou em crer que só por mal-entendido tais factos se verificam. Nessa conformidade, venho solicitar de V.Exª que mande averuiguar o que se passa e dê informação que me permita requerer passaporte para Espanha, pelo menos, ou para Espanha, França e Inglaterra, se possível.
Com os meus cumprimentos
                                                         Mário Sacramento

domingo, 21 de janeiro de 2018

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Ensaios de Domingo
3º Volume

Mário Sacramento
Capa: Jorge Machado Dias
Veja, Lisboa s/d

Não me levem a mal se apoiando-me apenas num livro que pode considerar-se de estreia, eu me afortunar a dizer que com Manuel Alegre nasceu o maior poeta do neo-realismo português. Assim o sinto, assim o devo escrever, muito embora não esqueça todos os que foram ou são maiores poetas do que ele em definidos (ou restritos) rumos ou tonas e modos do que em poesia podemos abarcar pela designação de neo-realismo. É que em Manuel Alegre não há singularidade, mas sim a espontaneidade dum lirismo vigilante que tem um só tema, um só modo e um só nome: poesia, e pelo qual desabrocha em plenitude e maturidade uma vocação que integra o que antes dele for sobretudo ensaio, esboço ou realização parcelar e mitigada.

(Da crítica a Praçada Canção de Manuel Alegre, publicada na Seara Nova, Maio de 1965).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS


Ensaios de Domingo
1º Volume

Mário Sacramento
Coimbra Editora, Limitada, Coimbra 1959
Capa Gaspar Albino

Morei sucessivamente, na infância, junto às casas dos «novos» e dos «velhos» filarmónicos locais. Foi isso que fez de mim um ensaísta? Apraz-me supô-lo. Gostava de vê-los a caminho do ensaio, ainda em fatos de trabalho, rumorosos e barbudos, sopesando os instrumentos envoltos em guardas de chita ou cotim. E ouvi-los, pela noite dentro, ensopar o silêncio em saliva e suor.
Como eles, sou e serei um ensaísta de retalho, que semeia a escuridão de clangores torturados e síncopes desabridas, alanceado por dispneias em falsete, e invariavelmente impróprio para o consumo em coreto. Ensaio, como eles, nas horas de folga, manhãs de domingo e serões da semana. E como eles sofro o terror da batuta, gavião insaciável do melhor que o peito dá e o sopro leva.
Aqui lhes deixo o meu solfejo. Aos novos e velhos. Homens de fé e surdina. De trenos e amavios. Matutos e salivares. Com sonho ensacado em chita.

domingo, 22 de abril de 2012

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Carta-Testamento

Mário Sacramento
Direcção gráfica de Armando Alves
Editorial Inova Sarl, Porto, Março 1973

Nasci e vivi num mundo de inferno. Há dezenas de anos que sofro, na minha carne e no meu espírito, o fascismo. Recebi dele perseguições de toda a ordem — físicas, económicas, profissionais, intelectuais, morais. Mas, que não as tivesse sofrido, o meu dever era combatê-lo. O fascismo é o fim da pré-história do homem. E procede, por isso, como um gangster encurralado. Fiz o que pude para me libertar, e aos outros, dele. É essa a única herança que deixo aos meus Filhos e aos meus Companheiros. Acabem a obra! Derrubem o fascismo, se nós não o pudermos fazer antes! Instaurem uma sociedade humana! Promovam o socialismo, mas promovam-no cientificamente, sem dogmatismos sectários, sem radicalismos pequeno-burgueses! Aprendam com os erros do passado. E lembrem-se de que nós, os mortos, iremos, nisso, ao vosso lado!

Não veremos o que quisemos, mas quisemos o que vimos. E este querer é um imperativo histórico. Há milhões de mortos a dizer-vos: avante!

 Para a Mulher, um abraço, simples e esquivo como eu sempre fui. Para os Filhos, um beijo, frio e recalcado como eu sempre lhes dei. Para todos, um afecto. Quem tinha tão pouco que dar a tantos, teve de ser avaro... Mas morre convencido de que não guardou nada para si. Ou de que teve, pelo menos, essa intenção.

 Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!


Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.