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domingo, 6 de setembro de 2026

CRONICANDO POR AÍ

Há países que medem o seu desenvolvimento pelo PIB, pelos mísseis balísticos, pelos arranha-céus, pela quantidade de milionários, de cirurgias plásticas ou de bocas cheias de dentes de ouro. Ocorre-me outro indicador, pouco modestamente: o Produto Interno Estendido.

Nada é mais democrático do que o estendal. Uns têm melhores varandas, quintais, traseiras, seja o que for. Mas acabarmos todos no estendal é tão certo como nascer e morrer. Mesmo que alguém estenda a roupa por eles, são do senhor ministro as cuecas no estendal.

Abrimos a janela para deixar entrar o ar fresco. Mas estender a roupa é fazer o inverso: é a casa a expirar-nos e deixar o bairro respirar-nos.

E não vai mal ao mundo adivinhar a vida uns dos outros através dos estendais. O estrangeiro recém-chegado com os seus panos. Os miúdos e as camisolas do futebol. Os mais velhos e os seus abafos. Os estendais foram as redes sociais antes da Internet, mas com menos filtros. Cuecas, ceroulas, combinações, junto de lençóis, toalhas, meias com par ou desirmanadas.

Que dizer da arquitectura popular do estendal? Há estendais tímidos, escondidos nas traseiras. Há estendais orgulhosos, de peito feito para a rua. E há os que atravessam a rua, como se dois prédios estendessem as mãos, num aperto por cima das nossas cabeças.

E nós? Gostamos tanto de nos estender. Nos bancos dos jardins, nas esplanadas. E se formos à praia, nas toalhas. Num sofá ao domingo. Gente amarfanhada é como roupa que não foi ao estendal. É bom estendermo-nos ao comprido, sem vergonha do espaço que ocupamos, do sol que recebemos, do vento que nos seca. Nada disso é de ninguém.

Cidades tristes? Digam quantos estendais atravessam a vossa rua e já vos digo quanta vizinhança ainda praticam. Cidades gentrificadas? Os turistas conhecem uma cidade pelos monumentos. Mas ela conta-se a sério nos estendais. Às vezes basta um vestido a dançar na corda para imaginarmos uma vida inteira.
Estendais
À Barbárie Seguem-se os Estendais é um livro de poesia de Miguel Cardoso (&etc., 2015). O título enuncia um programa, os versos estendem-no sem molas: “as camisas nos estendais/ a pedir albas/ chuva, felicidade, isso”.

André Barata, Público de 4 de Setembro

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CRONICANDO POR AÍ


A primeira vez que conheci  Fernando Hedgar da Silva, impressionou-me. Há cerca de 13 anos, eu e os meus colegas do PÚBLICO estávamos na Guiné-Bissau para contar publicamente, pela primeira vez, a história dos filhos que os militares portugueses fizeram com mulheres guineenses, angolanas e moçambicanas durante a Guerra Colonial (1961-1974) e que deixaram para trás — órfãos de pais vivos. Desde então, conheci mais de uma centena de filhos como Fernando, mas ele deixou uma marca. Impressionou-me muito a sua inteligência, a sua clareza de raciocínio, a sua combatividade, mas também a enorme mágoa e raiva que carregava em si.

Até à juventude, Fernando viveu convencido de que o pai português — um ex-militar que tinha estado na Guiné-Bissau durante a guerra — se chamava Furriel, que furriel era nome próprio, como António ou Luís; era o que a mãe, que não sabia ler, lhe transmitira. E era quase tudo o que sabia sobre o tal português que passou toda a vida a tentar descobrir, que queria a todo o custo conhecer para lhe dizer, cara a cara, que “um pai não abandona um filho”, e ele sabia-o, era pai de 13. Do tal militar também sabia que estivera colocado no quartel de Teixeira Pinto (hoje chamada Canchungo) e que, como ele próprio nascera em 1968, tinha de estar lá colocado pelo menos nove meses antes; a mãe, a guineense Sabadozinha Mendes, vivia numa casa nas traseiras do quartel.

Fernando, que era camionista, teve um AVC no ano passado, ficou com sequelas, morreu aos 58 anos, no Hospital de Canchungo. A sua morte prematura é mais a regra do que a excepção num país onde poucos chegam a velhos. Segundo a Organização Mundial de Saúde, só 4% ultrapassam os 65 anos.

A sua morte pôs-me a pensar no que conseguiu e no que não conseguiu. Foi dele a ideia de dar forma a uma espécie de família informal, criando, em Bissau, a Associação Filho de Tuga, da qual era presidente, onde todos se dizem sentir irmãos, filhos do mesmo pai: o longínquo Portugal. "Filho de tuga" é o nome colectivo pelo qual continuam até hoje a ser conhecidos na Guiné-Bissau; por vezes, há até quem os chame de "restos de tuga".

Encontrei insultos parecidos com este nas viagens que entretanto fiz para contar esta mesma história em Moçambique e Angola; também aí estes homens e mulheres, filhos de mãe africana e pai português, são até hoje vistos como “sobras” do colonialismo português, os últimos filhos mestiços do império. Ainda lhes chegam aos ouvidos frases como "volta para a tua terra" ou "vai para a terra do teu pai". Hoje sei que há milhares de homens e mulheres como Fernando.

Por iniciativa dele, todos os anos, no dia 1 de Novembro, os filhos da associação guineense organizam o que ele quis que se ficasse a chamar Cerimónia de Homenagem ao Pai Desconhecido. Nesse dia, deixam colectivamente uma coroa de flores junto às campas dos militares portugueses mortos durante a Guerra Colonial que nunca foram trazidos para Portugal, abandonados também eles. Fernando explicou-me que, simbolicamente, aqueles homens mortos sempre foram o mais próximo que todos eles estiveram dos pais portugueses vivos. O Cemitério Militar de Bissau foi, para muitos deles, o primeiro sítio onde foram procurar o pai e é lá que alguns deles continuam a ir para sentir essa proximidade.

Lamento não ter feito mais por Fernando, além de contar a sua história no meu livro Furriel não É nome de pai e na série documental da RTP1 Filhos de tuga. Ele queria mais, queria que eu o trouxesse para Portugal. O seu grande sonho era, além de procurar o seu pai sem nome em todos os arquivos possíveis, passar os dias sentado pacificamente em frente da Assembleia da República portuguesa, com um cartaz a dizer "Eu sou Filho de Tuga. Sou português", até lhe darem a ele e aos seus o direito de, ao menos, verem o sofrimento e discriminação de uma vida compensado pela nacionalidade que sempre foi usada para os insultar. Fernando queria ser “tuga” por inteiro. Os seus “irmãos” continuam a querê-lo.

Catarina Gomes, Público 24 de Agosto.

sábado, 15 de agosto de 2026

CRONICANDO POR AÍ

O Homem que lia o jornal é o título de uma crónica de António Guerreiro, publicada ontem no Público:


«Num destes dias de Agosto, vi um homem de meia-idade a ler um jornal no metro. A cena despertou em mim, de repente, a recordação nostálgica de um medium que começou a declinar no princípio deste século e, em poucos anos, quase se tornou um objecto vintage. Num segundo momento, ergui-me do “choque”, achando que tinha caído na amplificação demagógica de um gesto banal, ao sentir que tinha apreendido com um misto de espanto e nostalgia aquele leitor de um jornal impresso que persistia na lenta maneira de viver as emoções suscitadas pela actualidade, pelos rumores do dia.


Claro que a cena me impressionou porque o lugar onde se desenrolava (o metro) a fazia sobressair com um efeito de contraste: à volta do homem que folheava as páginas do jornal e que me fazia ver que há expressões gestuais que se perdem com a mudança de época, toda a gente ia de olhos inclinados para os ecrãs — uma inclinação, aliás, diferente da do homem que lia o jornal: enquanto este mantinha uma posição que lhe permitia, por vezes, lançar um olhar à distância, por cima das páginas do jornal, os passageiros abismados no ecrã do seu smartphone obrigavam a cabeça a uma inclinação mais acentuada, em direcção ao chão da carruagem, repetindo um gesto vertical que não tem fim: o scrolling.

A cena trouxe-me à memória as “pequenas totalidades” de que se ocupou um genial analista (sociólogo? Filósofo? Inventor de uma disciplina sem nome?) das “manifestações de superfície” da sua época que as ruas da grande metrópole berlinense lhe tinham proporcionado: Siefried Kracauer(1889-1966). Em O Ornamento da Massa (ou será que o título original, Das Ornament der Masse, deve antes ser traduzido por A Massa como Ornamento?), de 1930, Kracauer, um intelectual arquetípico da civilização do jornal, escreveu: “Quando pego no meu jornal, pela manhã, sinto-me em companhia de milhões de pessoas que, como eu, lêem nesse mesmo instante as mesmas notícias”. Este forte sentimento de ser parte de uma comunidade invisível, de partilhar com desconhecidos uma mesma experiência do mundo, é um dos fundamentos do espaço público, tal como ele foi criado pela modernidade. O jornal — e o jornalismo —, tal como ele se “modernizou” e desenvolveu no século XVIII, foi um órgão de formação de uma opinião pública racional, de um espaço público.

Jornais e revistas impressos em papel foram, durante cerca de dois séculos, o centro da vida sensível de milhões de leitores. O jornal-papel, que na história mediática que atravessamos se tornou quase invisível, era a janela para a vida cívica, política e cultural.

Esse ciclo chegou ao fim com a entrada em cena, fulgurante, dos artefactos mediáticos digitais, que transformaram completamente o funcionamento do espaço público, fundado em ideais que nos parecem hoje anulados, apesar de nos ter sido prometido que seriam ampliados e fortalecidos: o pluralismo e a transparência. A lição de McLuhan, segundo a qual “o medium é a mensagem”, encontra aqui a sua mais eloquente significação: a cultura do jornal nascida no século XIX desapareceu quando o suporte mudou. A extinção quase completa do jornal impresso, a substituição do gesto de “abrir o jornal” pelo gesto de “imersão no smartphone” (não se diz “abrir o smartphone”, na verdade ele raramente está fechado), implica uma outra relação com o tempo e com o espaço. E o ambiente digital deixa traços sociais e psíquicos diferentes dos que caracterizam a cultura impressa. Entrámos numa nova época dos afectos e a rápida digestão do jornal no ecrã mergulha-nos numa total reconfiguração daquilo a que Yves Citton  chamou médiarchie, “mediarquia”.

É interessante verificar que a sensibilidade mediática que me levou a olhar para o homem que lia o jornal no metro como se fosse uma raridade não é a mesma dos chamados “nativos digitais”. Esta sensibilidade de quem atravessou uma história dos media que na escala do tempo histórico é curtíssima, mas na escala das transformações visíveis é longuíssima, incita-me à análise das manifestações de superfície da época, fiel à lição de Kracauer, segundo a qual essas manifestações ajudam-nos muito mais a determinar o lugar que a época assume no processo histórico do que todos os juízos e interpretações que ela constrói de si própria. Uma época, ensinou-nos Kracauer, pode ser interpretada através dos seus sonhos colectivos, que se desenrolam de olhos abertos. E, no metro, vi bem que o modo como aquele homem abria os olhos para ler o seu jornal-papel era muito diferente do modo como os outros passageiros olhavam para os seus ecrãs. A esses dois olhares correspondem dois sonhos e duas civilizações diferentes. É muito interessante ter vivido numa época de transição.»


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CRONICANDO POR AÍ

 

Writer's block issues out of fear

– but of what?

Dawn Raffel,

The Truth about Writer’s Block

«Li no Público um conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher) continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer sentido em começar o dia.”

Enquanto reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”), confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe, felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido: a escrita da poesia.

Eu sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas, depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a minha vida e os meus projetos.

Nada há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...

Não sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na sua Metafísica, estabelece que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida, do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.

O vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou, nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.

Então será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.»

Luís Filipe Castro Mendes, crónica no Diário de Notícias

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

VELHOS RECORTES


 Recorte do República de 29 de Junho de 1973.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

CRONICANDO POR AÍ


 O gosto pelas Crónicas, o desejo único de que o espírito de Abril se mantenha pelos tempos fora, «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!», Salgueiro Maia ainda em 24 de Abril de 1974:

«Tinha nove anos. Os meus pais eram comunistas: «a nossa senha é Salgado Zenha», naturalmente. Levava para a escola primária dos Olivais autocolantes com um Z. 

Desde cedo, aos seis anos, que ia a pé para a escola, quinze minutos de deslocação com um colega e amigo. Éramos miúdos e estávamos por todo o lado, por toda a cidade. 

Lá estava a inscrição na parede ao pé de casa: «Não à lei Barreto/77». Havia política por todo o lado. Hoje também há, mas é mais invisível, mais elitista, menos democrática. E isto já não é bem um país, como sabeis, dada a perda, sempre reversível, de soberania. Ainda é uma pátria. Mas não há crianças nas ruas, aos bandos. Envelhecer deve ser isto. Prossigamos.

Os meus colegas de direita tinham todo o tipo de bugigangas do Freitas do Amaral, dizia-se que era a primeira campanha «à americana». Na sua autobiografia, Freitas do Amaral, já agora, usa o termo neoliberal para descrever as suas orientações e as do seu CDS. Sim, sou um respigador destes usos de uma palavra que alguns ainda rejeitam de forma ignorante.

Invejava os meus amigos de direita secretamente. Uma vez fui passar a tarde a casa do Pedro e fomos com a mãe dele às compras. De passagem, fomos dizer olá à avó, que estava a trabalhar numa sede de campanha do Freitas, ali na Cruz de Celas. A avó queria dar-me um sortido kit de campanha: «este menino é do Zenha», antecipou a mãe. Pois sou, confirmei, como se uma meta-preferência ético-política contrariasse a preferência imediata pela cor, pelo plástico.

Irritava-me o hino de Freitas do Amaral, o do «prá frente Portugal», que me ficou no ouvido até hoje, tal como o do «pão, paz, povo e liberdade» do cavaquismo ascendente. O Rafael, o meu melhor amigo, era do PSD e eu, aparentemente, tinha-o apodado de «fascista» quando soube disso, no dia em que nos conhecemos, fazia três anos. Conta essa história até hoje, mas eu não me lembro. A memória depende de outros, como tudo na vida. Aprende-se, imitando, claro. 

Lembro-me de ir a um entusiasmante comício de Salgado Zenha, que julgo ter sido no Teatro Avenida. Estava a abarrotar. Agitei uma bandeira com alegria, como ainda hoje gosto tanto de o fazer. O Teatro já não existe, substituído há muito por um mamarracho hediondo. 

Lembro-me de se achar que Maria de Lurdes Pintassilgo só servia os interesses da candidatura de Soares. Soares, esse sim, era odiado. O meu pai tinha sido advogado sindical na última década antes das eleições, a da queda brutal do peso dos salários no rendimento nacional depois do grande avanço do glorioso PREC.

Chorei no domingo da primeira volta, sempre tive a lágrima fácil: «perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra», consolou-me o meu pai, ao mesmo tempo que dizia que jamais votaria em Soares. «É claro que vamos votar no Soares», disse a minha mãe, antecipando a deliberação coletiva proferida por Álvaro Cunhal. 

Andei então com um autocolante de Soares e tive mais companhia no recreio nessa altura. A seguir, logo em 1987, Soares foi Soares, nunca se pôde confiar nele, realmente. Mas a unidade possível era função do inimigo principal num tempo antes deste terrível consenso neoliberal. O neoliberalismo era só um movimento entre outros, não era ainda o regime europeu que Soares sempre endossou, retórica à parte.

E ainda não vi o documentário na RTP da autoria de Ivan Nunes e de Paulo Pena, de que já me falaram, sobre as eleições de 1986. Vou agora ver, provavelmente com melancolia de esquerda. 

Antes, porém, há que dizer e redizer, sem qualquer melancolia: «com o povo, por Abril, por Portugal». Sim, muito obrigado, António Filipe, por esta campanha imprescindível. Poder e razão não são sinónimos e nunca esta distinção foi tão importante. Pode perder-se e ainda assim ter razão, muitas razões.

Agora, vou votar no candidato que não se chama Ventura. Pensarei em Cunhal e no meu pai. Não é difícil votar. Difícil foi conquistar o sufrágio universal. E aí os comunistas foram, como sempre, imprescindíveis.

A vida, a luta e a resistência não terminaram no passado domingo, nem terminarão no dia 8. É papel dos democratas rejeitar Ventura, mas a luta não se esgota aí. De facto, continua a ser imprescindível derrotar o consenso neoliberal, desde logo tendo presente que rejeitar Ventura, não é apoiar as ideias de Seguro. 

A luta social terá de se intensificar e muito. Os perigos para a democracia não se encontram apenas em Ventura, mas nos projetos mais vastos de exploração, desde logo no pacote laboral. Sabemos quem continua a ser imprescindível para derrotar tudo isso.»

João Rodrigues em Abril, Abril

domingo, 2 de novembro de 2025

CRONICANDO POR AÍ


«Gosto tanto do Cemitério dos Prazeres. E ali estava, de novo. Foi, lembro-me, no funeral do Eduardo Prado Coelho. Há quantos anos? Há dez? O Pedro Bandeira Freire ao meu lado, as cinzas iam ser postas numa das pequenas gavetas-túmulo desse extraordinário cemitério com uma das melhores vistas de Lisboa – a do Alto de São João também não é má, e continuo ainda sem saber qual escolher.

O Eduardo, como foi hedonista o último livro que publicou em vida, comigo, o seu Nacional e Transmissível, teria, a essa sua maneira hedonista, gozado a ironia da situação: uma manhã linda, agradabilíssima essa ala do cemitério, a morte como uma gata a ronronar-nos ao ouvido, e dois amigos a segredar coisas, com o Pedro a ter as despesas da originalidade da conversa. E foi o que ele me disse, lendo os nomes dos mortos inscritos nessa vasta parede: “Eh pá, já tenho mais amigos nestes túmulos do que amigos aqui fora.”

Não sou muito de me agarrar a datas ou de deixar que as datas se me agarrem à fraca pele, nem o 25 de Abril, nem o 25 de Novembro, nem os aniversários, muito menos o 5 de Outubro, talvez o Natal por serem dois dias, mas há os Mortos, Dia de Fiéis Defuntos e esse dia deles, por muito pouco mexicano que eu seja e pouco dado a carnavais de açucarados e míticos dias de enterro, que é mais coisa para D. H. Lawrence e, sobretudo, para Malcolm Lowry, mas eh pá, também já tenho mais amigos nas catacumbas da Senhora Dona Morte do que à luz do dia da Menina Vida.

Eu já podia fazer um rosário de nomes, um rosário de amigos. Dividi-lo-ia em mistérios, os dolorosos, os gozosos e os gloriosos, que são exactamente os mistérios do Santo Rosário. É uma ideia que o peculiar catolicismo de João Bénard da Costa, por certo mariano, me aprovaria. Cada um dos meus amigos uma avé-maria. Uma avé-maria é o que era o Chico Grave, falsamente bruto como as casas, um poço de ternura de olhos fechados, que quando aquilo lhe subia do coração tinha mesmo de os fechar. Uma salvé-rainha o Bénard, príncipe cinéfilo, bispo renascentista, amante dos modernos Caravaggio, frequentador das mais escuras salas do século XX. E teria de lembrar, quero dizer, rezar, o Luis de Pina, o Bastos e Silva e mesmo, de tão zangado que foi comigo (e eu com ele) para a Outra Margem, o Emídio Rangel da homérica viagem a Nova Iorque em que até um cenário da Ópera ia tombando sobre o coro de pernas para que te quero, no Lincoln Center.

Os meus mortos. Tu, Pedro Bandeira Freire, com a tua mania de nunca estares sozinho, e que tens ao teu lado o Alface, o Raul Solnado (só agora, passados estes anos voltei à tasca da rua de baixo, desde que, Raul, deixaste de lá vir a um pratinho de caracóis), o Dinis Machado, que para estar bem tinha de estar contigo e a Dulce ali por perto, que deve ser onde ela está agora, a dois passos de vocês, entretida em exercícios de voz. Juntou-se-vos agora o António Escudeiro – que vos vai fazer a fotografia. E ouço uma voz. É a tua voz, bem sei, Manel Cintra Ferreira. Só a voz de um surdo, do mais divertido, musical e cinéfilo dos surdos, se ouve a esta distância. Não te fui acordar, meu Manel, para me vingar do dia em que me deixaste mais de meia hora a bater à tua porta e a atirar cartões de visita pela frincha do chão a ver se tu os vias, por te teres esquecido do jantar que tínhamos com o o Pedro e o Dinis. Vieram  os vizinhos do prédio todo e tu, de costas, na sala, a veres o The Searchers, que não havia cavalo, nem John Wayne que te tirasse dali.

Não sei o que diga aos meus mortos. E lembro-me que houve um Papa, o estranho polaco João Paulo II, que quis acrescentar ao Rosarium Virginis Mariae, novos mistérios, os mistérios luminosos. Eis os meus mortos, derramada luz. Quero que a vossa luz me entre por todos os lados. Que caia sobre mim, quando estou vestido e quando estou nu, quando durmo ou acordado. Só não quero que, mortos omniscientes, me vejam. Não te quero, Pedro, a dizeres coitadinho, desancando na minha elevada forma de vida amorosa, nem o João Bénard a criticar-me por eu escrever crónicas de cinema sem ter pelo menos cinco volumes dos Cahiers du Cinéma ao meu lado. Não quero, e sou capaz de rezar dois rosários seguidos e as salvé-rainhas que forem precisas, para que os mortos não possam ver ou saber o que os vivos fazem. Quero que tenham só saudades, as mesmas saudades que eu tenho deles.

Esclareço. Não quero que sejam cegos os mortos, muito menos os meus mortos. Quero que vejam e que se lhes inundem de luz os olhos, nesse reino de beleza e volúpia onde mortos vivem. E peço aos meus mortos um favor: abram bem esses olhos de luz, João, Pedro, Chico, todos, e vão à procura da Alice e do Artur. Foram, neste vale de risos e lágrimas, os meus pais. Alimentaram a minha boca, deram colo aos meus medos, puxaram lustro às minhas alegrias. Quase ninguém sabe, só os que ainda vivos os amaram, mas a Alice e o Artur fizeram o trabalho de excelência que só o amor incondicional e irretribuível consegue fazer. CEOs da minha alma. Vão encontrá-los à conversa com o Isidoro, meu sogro, ferrenho de tudo o que fosse vermelho. Digam-lhes. Tenho a certeza de que eles sabem, sempre souberam, mas hão-de, executiva e progenitora vaidade, gostar de ouvi-lo, alto e bom som, das vossas bocas amigas.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

terça-feira, 3 de junho de 2025

CRONICANDO POR AÍ

«As pequenas lojas de bairro sempre me atraíram. Na minha rua existia até há pouco tempo uma retrosaria das antigas. Gostava de entrar, de falar com a dona, uma senhora já de alguma idade, muito simpática, sempre disposta a ajudar os clientes com sugestões. Muitas vezes entrava só para a cumprimentar, para ver as prateleiras da loja, as linhas, as lãs, os botões, os fechos, os rolos de tecido, a fascinante mistura de cores e materiais, sempre cuidadosamente arrumados nas prateleiras antigas, de madeira, bem conservadas, que existiam por toda a loja em torno de um belo balcão, também em madeira. Uma vez perguntei-lhe se a podia fotografar e ela, delicadamente, pediu-me para não o fazer mas disse-me que podia fotografar a loja à vontade desde que ela não aparecesse. Foi num desses dias que fiz esta fotografia. Agora, há umas semanas, a loja encerrou, tem a porta fechada e as montras tapadas. Por alguma razão a senhora deixou de ser uma companhia na rua. Não sei o que acontecerá ao interior daquela bela loja, nem como se sentem os vizinhos que ali paravam para dois dedos de conversa com a dona, sempre com um sorridente bom dia a quem entrava.. Resta-me ficar a falar com os meus botões, estes que guardei na memória e que aqui vos deixo com as suas cores e feitios. Termino, para não dizerem que não falo da situação política, com uma citação roubada à coluna de Miguel Esteves Cardoso no Público: “Não há planta tão trepadora como um gato. A planta trepa para poder crescer, para ter onde se agarrar. Mas o gato trepa por trepar (...) Também há políticos assim: sobem aos mais altos postos, gostam durante um minuto, mas depois não sabem o que fazer lá em cima.”»

Manuel Falcão em Esquina do Rio

sexta-feira, 14 de março de 2025

CRONICANDO POR AÍ

HARA-KIRI

«Um dos mistérios desta crise é saber o que levou Luís Montenegro a ignorar todos os avisos e todos os sinais sobre a situação pessoal em que se colocou e da qual não encontrou - ou não quis encontrar - uma forma de sair. O que explica a teimosia em recusar o óbvio? Ao longo de mais de uma semana assistimos a um lento hara-kiri no qual Montenegro foi mutilando a sua credibilidade. O que podia ter sido apenas uma questão pessoal,  escalou para uma crise política e para a queda do Governo. Aquilo que levou à situação em que nos encontramos não foram meros erros de comunicação, como Montenegro a certa altura quis fazer crer. Aquilo que levou à quebra de confiança no Primeiro-Ministro foi a evidência da sua falta de carácter. É curioso ler o que Manuel Carvalho escreveu sobre Montenegro no “Público”. Carvalho, um jornalista que viveu grande parte da sua vida profissional no norte, e que acompanhou a actividade de políticos e empresários nortenhos, descreve assim Montenegro: “Pragmático, cínico, realista, lúcido, sonso, cerebral, meste da dissimulação e da emboscada", useiro na “atitude manhosa perante os adversários que herdou da longa tradição de conflitos internos e golpes de bastidor do partido.” As acções de Montenegro nos dias mais recentes cabem dentro deste retrato. Já se sabia, pela forma como fala e intervém, que não gosta de ser contrariado, que acha ter sempre razão e que se considera acima de tudo e de todos. O que levou um homem assim a não perceber o efeito das suas acções? Ao seu lado perfilou-se todo o Governo mas nem todo o PSD. Os partidos não são equipas de futebol a quem se deve fidelidade. Em política a fidelidade e a coerência são aferidas face às ideias e não às pessoas. Quando surgem dúvidas há respostas que devem ser dadas e uma ética a respeitar: não vale tudo, não pode valer tudo. As eleições que aí vêm servem para avaliar quem esteve bem e quem esteve mal, o voto não é cativo.»

Manuel Falcão em A Esquina do Rio 

domingo, 9 de março de 2025

CRONICAND POR AÍ


 Quem conhece bem Viena por certo já foi a Grinzig, um antigo subúrbio da capital austríaca, hoje já integrado na cidade, onde se bebe um vinho branco característico (eu acho que com algumas semelhanças com o galaico-duriense “vinho verde”), que não deixa especial memória, feito com a casta Grüner Veltliner, numas tabernas que se pretendem típicas (Heuriger). Também já por lá passei, mais do que uma vez, a última das quais tentando esquecer aquilo a que acabara de assistir “ao vivo”: um golo que um tal Frank Rijkaard acabava de marcar mesmo à minha frente e que derrotara sem apelo o “meu” glorioso na sua 7ª final da Taça dos Campeões. O local? Apenas a uma centenas de metros da “grande roda” que marca uma das sequências do filme de que lhes vou falar de seguida, a uns quilómetros (poucos) de Grinzig, hoje em dia local demasiado turístico (já o era), mas que não deixa de valer uma “espreitadela” apesar dos autocarros de japoneses e turistas afins.

Pois nessas tabernas de Grinzig também há música - que se pretende, claro, também ela típica - e foi numa delas que Carol Reed - rezam as crónicas ou as lendas, mas não as certezas – descobriu um tal Anton Karas, a quem convidou criar a música do seu “The Third Man” (1949). Certo é que Anton por lá tocava para arredondar as contas do mês e que Reed em boa hora o contratou, pois este é um daqueles casos em que a música excede o filme em notoriedade, mesmo que por vezes nos interroguemos “onde é que eu já ouvi isto”? Diz o meu amigo “Gin-Tonic”, a quem devo a ideia para este post, que o filme tem mais de Orson Welles (actor no filme) do que de Reed. Bom, eu acrescentaria que tem mais de Welles, Joseph Cotten (que seria do filme sem ele?), Karas e, talvez, Alida Valli, embora esta seja sempre, para mim, a condessa Lívia Serpieri de “Senso”, o mais trágico e operático filme da história do cinema. Mas também muito de uma Viena sombria, do pós-guerra e do início de uma "guerra fria" que quase atirou a Áustria para a órbita soviética.

 Quanto a Karas, o filme mudou a sua vida. Tornado famoso, actuou em todo o mundo, nos locais mais “badalados” de então, e nos anos 50 abriu a sua própria Heuriger. Morreu em 1985. Já Carol Reed, que morreu em 1976, viria a ganhar um Óscar como realizador de “Oliver”, em 1968. Outro dos nomeados nesse ano foi... imaginem lá, Stanley Kubrick pelo seu “2001”. Ao que os Óscares tinham chegado... e chegaram!

 João Cília em O Gato Maltês

sábado, 1 de março de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

Sim, registamos com um sorriso complacente a mão de Emmanuel Macron no braço de Donald Trump e a interrupção a corrigi-lo: “Não, querido Donald, não foram os Estados  Unidos, foi a Europa quem mais ajudou a Ucrânia: 60% de toda a ajuda.”

Foge o tempo e amanhã já o mundo se terá esquecido desse reparo de menino espertíssimo ao pai senil.

Do que nunca nos esqueceremos – pelo menos eu – é de uma canção que nos tenha feito estremecer de vida e desejo. “The first time ever I saw your face” é essa canção. Clint Eastwood sentiu, ao ouvi-la, esse estranho tremor cardíaco a que chamamos emoção. Ligou à cantora desconhecida e pediu-lhe a canção para um filme. A cantora, incrédula, desmaiou. Quando acordou, “The first time” era um êxito galáctico. A cantora morreu agora, aos 88 anos. Era a portentosa Roberta Flack: till the end of time my love.

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

CRONICANDO POR AÍ

«Compreendo o silêncio de Benfica e Sporting perante a morte de Pinto da Costa. Ensaiei na minha cabeça várias reações oficiais, e todas tinham o mesmo problema. As palavras queimam e perseguem-nos quando são mal escolhidas. Seria estranho resumir a duas linhas de circunstância uma reação quando há tanto por dizer, se quisermos ser sinceros. Uma instituição deve representar os seus membros, e seria difícil, provavelmente inadequado, ser uma extensão do que estes pensam no momento atual.

É complicado encontrar algo estruturalmente positivo para dizer acerca de Pinto da Costa, alguém que, com ocasional elegância, irónica souplesse e a tal cultura acima da média que o tornou uma referência entre filisteus, fez do ódio aos rivais uma figura de estilo amplamente apreciada. Tanto que produziu efeito como cultura e forma de estar. Tanto que foi copiada por outros dirigentes, inclusive no meu clube.

Já aqui escrevi que o ex-presidente do FC Porto inventou um clube, mas aquilo que fez, e sobretudo o modo como o fez, alastrou-se em forma de doença. Mais do que uma identidade clubística, a cultura materializada por Pinto da Costa tornou-se um padrão a seguir, a forma correta de fazer as coisas. Essa foi a sua maior conquista enquanto protagonista. Quantas vezes ouvi pessoas justificarem práticas dúbias no futebol com expressões como «as coisas têm de ser assim», «não podemos ser anjinhos», porque, se assim for, «vamos ser comidos», recorrendo às palavras históricas de José Maria Pedroto. O futebol português permitiu que se consensualizasse a ideia de que os «bons rapazes» são comidos e que só os maus ganham. Patrocinou uma nova era de competições em que essas eram as regras do jogo.

Posso recuar até à minha infância. Não me lembro de outro futebol competitivo em Portugal. O que hoje acontece assenta na seguinte dialética: as vitórias dentro de campo nunca são apenas isso. Desde que me recordo, assisto a uma engrenagem imparável de operações nos bastidores, negociatas estranhas, nomeações inexplicáveis, decisões escandalosas, personagens sinistras, critérios desiguais e, no final de tudo, uma série de platitudes proferidas pelas lideranças sobre um desporto aparentemente imaculado. Porque toda a gente tem contas para pagar, a vida continua e o povo mantém-se interessado. O povo, aliás, abraçou tudo isto como parte da diversão.

Criou-se uma nova camada de entretenimento em torno da trama, com muitos vilões, todas as suspeitas e nenhum culpado. Se o termo «verdade desportiva» ganhou relevância, é porque muitos precisaram dele para expor as mentiras em que o futebol português labora, e também porque tudo isto se tornou parte de uma discussão, o mal a combater enquanto parte de uma sociedade do espectáculo. A distinção entre licitude e ilicitude perdeu-se pelo caminho. O que sobra é uma construção social aceite por todos, onde a esperteza e a manha são tão importantes quanto o atleticismo e a vontade de competir.

Eu vejo um legado indissociável de Pinto da Costa e uma herança deixada a todos os que não o aplaudiram com fervor religioso: um futebol em que quase ninguém aceita o resultado final de um jogo, um desporto seguido apaixonadamente por milhões, mas no qual poucos acreditam piamente no que veem. Por muito que se elogie esta indústria pelos seus proveitos financeiros e desportivos, por muito que se reconheça que o desporto cumpre uma função social importante alheia à sua faceta mais pantanosa, o lugar em que o futebol nacional se instalou ao longo dos anos, naquilo que tem de mais doentio e antidesportivo, deve muito a Pinto da Costa. Foi ele quem demonstrou que era possível recorrer a quaisquer meios para atingir os fins pretendidos. Está para chegar o dia em que me sinto convencido de que essa cultura foi absolutamente erradicada do desporto e das principais esferas de decisão.

É natural que muita gente se sinta obrigada a dizer algo mais simpático neste momento. Aqui chegados, depois de tudo o que vimos ou deixámos acontecer com um piscar de olho maroto ou com um assobio para o lado, será mesmo altura de falar a verdade? Mais vale deixar ficar como está. Já passou. Esse foi um enorme mérito de Pinto da Costa: trabalhou nos corredores mais sombrios para vencer vezes suficientes. Fê-lo até conseguir cristalizar como verdadeiro e lícito, até admirável, aquele que foi o seu percurso no desporto. Por isso, se as últimas 72 horas nos mostraram algo, é que os adeptos de um clube não estão prontos para falar abertamente sobre o que se passou ao longo das últimas décadas. Arrisco dizer que nada mudará nesse capítulo, porque, muito antes de clamarmos pela verdade desportiva, já o então presidente do FC Porto mostrava o seu engenho na prática da pós-verdade.

Hoje, parece não ter havido escuta que o desmentisse, da mesma forma que não parece haver pessoa capaz de convencer outra de que uma coisa azul é amarela ou de que a Terra é mesmo redonda. Para o que der e viver, o futebol continuará a ser, depois de Pinto da Costa, um ajuntamento de terraplanistas: uns porque negam o amplo corpo de evidências, outros porque a vida lhes continuará a dar motivos para desconfiar. Talvez seja só isso e não valha a pena aspirar a mais.

Eu percebo. Se um presidente do meu clube vivesse até aos 87 anos e, no entretanto, me tivesse permitido celebrar a conquista de duas Taças dos Campeões Europeus e duas Taças UEFA, eu também estaria grato e tenderia a ignorar o resto. Assim se explica que, após uma eleição que viu Pinto da Costa ser derrotado sem apelo nem agravo, o FC Porto apareça aos olhos do comum adepto de outro clube como uma entidade em profunda angústia existencial. Pudera. O presidente que inventou tudo isto deitou fora o manual. Um clube que durante 40 anos fez da corrupção, das agressões, do ódio aos «vermes que merecem desprezo», da intimidação e da violência, dimensões não escritas da sua identidade. Conseguiu até que tudo isto se tornasse socialmente aceite, uma espécie de mal necessário, uma excentricidade em forma de clube de futebol com a qual tínhamos todos que aprender a viver.

Compreendam por isso o silêncio oficial, sem elogios nem críticas. Compreendam também que os demais adeptos ou as instituições que os representam não sintam o mesmo carinho por esta pessoa que agora nos deixa. O respeito institucional pelo qual tantos clamam hoje não encontrou reciprocidade nos últimos 40 anos. Compreendam que os adeptos questionem as conquistas de um clube ou de um presidente quando estas foram manchadas por décadas de práticas antidesportivas. Compreendam que esses adeptos jamais venham a considerar imaculada uma herança deixada nestes termos.

Pinto da Costa fez tudo o que estava ao seu alcance para ser a melhor coisa que aconteceu aos portistas. Não tenho dúvidas de que conseguiu. No processo, tornou-se a pior coisa que aconteceu ao futebol português. Parece-me que viveu sempre bem com esta minha opinião. Paz à sua alma.»

Vasco Mendonça em A Bola de 18 de Fevereiro de 2025

terça-feira, 19 de novembro de 2024

CRONICANDO POR AÍ


Cada vez mais curto o naipe de estrelas de Do Fundo do Coração, maravilhoso filme de Francis Ford Coppola.

Teri Garr partiu a 29 de Outubro deste ano, Raul Julia a 24 de Outubro de 1994, Frederic Forrest a 23 de Junho de 20123. Resta Nastassja Kinski.

Muito ao seu estilo, Manuel S. Fonseca lembra Teri Garr:

«Começo esta crónica em regime de pura gatunagem. A frase é de Pauline Kael e o que Kael disse foi isto: “Esta é a mais cómica, neurótica e desorientada senhora do ecrã”. Estava a falar de Teri Garr, mulher que eu amei, de baba e ranho, no “One From the Heart”, do saudoso Coppola.

Mel Brooks, o realizador de “Young Frankenstein”, uma daquelas comédias que, de tanto nos fazer rir, temos a tentação de desvalorizar, quando a convidou para o filme, estava cheio de dúvidas que partilhou com Gene Wilder o actor principal: “Ela é deliciosamente linda, mas será que sabe representar?” Gene foi cortante: “Who gives a shit?”, que em bom português quer mais ou menos dizer “Estou-me bem a cagar”.

E agora quero dizer uma coisa elegante. É verdade que Teri Garr tem uma incrível beleza, mas é uma beleza que, apesar da pele brilhante, apesar do sorriso radioso, apesar do porém do seu colo suave (e já lá irei), é, dizia eu, uma beleza que ela embrulha num celofane auto-depreciativo, como se nos estivesse a dizer “caso não percebam que o melhor de mim tem um sabor de especiarias e entontece como um dry-martini, então tomem e embrulhem”. Só a prodigiosa Shirley MacLaine foi capaz de tanto desprendimento: mesmo Nossa Senhora de Fátima tem a sua beleza em mais auto-estima do que Teri a que Deus lhe deu.

E voltemos ao colo de Teri Garr. Antes de fazer a audição para o papel de Inga, a assistente de laboratório de “Young Frankenstein”, Teri olhou-se ao espelho e viu que o seu peitinho era de relativa irrelevância, atendendo ao que deveria ser o pulposo seio de que um verdadeiro cientista gosta. “Caramba, não vou perder o papel por causa das mamas”, pensou. Como é que eu sei que ela pensou isto? Sei. E ainda estou a ver Teri Garr a caminhar para os armazéns da Woolworth, onde se não estou enganado comprei um colchão (ou pelo menos uma almofada) para o minúsculo quarto-kitchenette-wc em que vivi por três meses em Los Angeles. Saí com um colchão, Teri com lenços e peúgas. Aconchegou tudo sob o sutiã, em íntimo convívio com o acetinado e túmido da sua natureza (como é que eu sei? memória minha do fugaz nu com Raul Julia no “Do Fundo do Coração”), fazendo questão em explicar-nos: “As pessoas espatifam milhares de dólares em cirurgias às mamas. Por cinco dólares no Woolsworth fiz a minha: foi dinheiro muito bem gasto”.

Teri começou bailarina nos filmes de Elvis Presley. Foi um cometa a iluminar cenas de filmes como “Os Encontros Imediatos”, de Spielberg, o “After Hours”, de Scorsese, o “The Conversation”, de Coppola, o “Tootsie”, de Sidney Pollack. Sabia dançar – adorei-lhe libidinosamente as pernas no “One From the Heart” – mas sabia sobretudo enternecer.

Nesse “Do Fundo do Coração” deixa o namorado, o Frederic Forrest, preferindo deslizar para uma aventura sexy e selvagem com Raul Julia. Um desolado Frederic vem ao aeroporto para a convencer a ficar: implora, promete e ela já vai a entrar na manga com o amante, quando, último recurso, Frederic começa a cantar o “You’re my sunshine, my only sunshine”.»

Frederic canta maravilhosamente mal, um horror de ternura, um sentimento de perda do quinto dos infernos. Teri pára, no grande plano dela vemos então um carinho deliciado pela amorosa humilhação daquele homem. Como quem diz, e não sei se diz mesmo: “Oh, que querido”. E depois continua, em direcção à aventura, ao lado amante que promete fazer-lhe as coisas, em cima ou em baixo, que ela anda com vontade de experimentar.

Teri Garr foi agora mesmo lá para cima, experimentar as coisas que já não pode ter cá em baixo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«Eusébio, Coluna, o pequenino Simões, o Torres gigante desciam da escada do avião para a pista do Aeroporto de Luanda e uma alucinada onda de perfume descia com eles. Ainda não disse: quem vinha à frente era o senhor Otto Glória, brasileiro, com o seu crespo bigode mestiço, a impor respeito ao miúdo que eu era, talvez 12, 13 anos. O Benfica, o SLB desses anos, cheirava bem. O Benfica perfumava uma noite tropical, resgatava até uma noite colonial. Eu estava lá.

Já cá não estarei em 2050, mas o telepático futuro, em sussurro ou estrépito, vem contar-me à noite as coisas que hão de vir. De 2050, o maléfico futuro deu-me conta de elixires entorpecentes e de um Portugal apocalíptico.

Um spleen baudelairiano afligirá os velhos. Em vez de jogarem à sueca nos jardins e baterem uma camuflada manilha, atacam-se uns aos outros, numa nevrose inexplicável que uma cerrada e negra melancolia há de cobrir.

Os jovens de 2050, conta-me o xamânico futuro, estarão abúlicos, anémicos e anómicos. O sexo é fortuito, destituído de sedução, agora interdita, um sexo imparticipativo, obrigado à repetição de um mecânico vaivém, nem bem que entras, nem bem que sais, sem efusões ou magia.

O pesadelo é a regra de 2050. Os escritores soçobraram, perdido no tempo o segredo da esplêndida prosa, entregues à lamúria de quem ignora o mistério ou o engenho da alegria, o elixir da felicidade.

Toda a música é sonâmbula, e os coros estão proibidos – nos velhos e decrépitos auditórios, os raros espectadores entreolham-se com horror. Não há cânticos na rua, ninguém sabe já o que é uma mole humana unida à volta de um rubro estandarte, narinas sôfregas, mãos trémulas de sentimento, numa só voz a soletrar a vitória e a glória.

De onde vem essa decadência? Foi essa a patética pergunta que fiz ao profeta de 2050. Vi-o ganhar a dimensão do colossal Gulliver. O espírito da nação, gritou-me ele, afundou-se como o imemorial rio que seca. E acrescentou: tudo começou, abrupta, inexoravelmente, dez anos antes, em 2040.

Descubram, então, a labiríntica verdade que nem a mais astuta sociologia antecipou. Num tribunal, sentenciou-se um processo que o Ministério Público começara no remoto, mortalíssimo ano de 2024. Um caso de corrupção desportiva, que se arrastou por penosos e novelescos 14 anos. O réu foi, por fim, em 2040, apostrofado e condenado: era, diz-me o xamã de 2050, um clube de futebol. Condenado a baixar ao Hades que era a 4.ª divisão, o clube foi extinto. Dessa certeza jurídica nasceu, como o perverso Baco da coxa de Zeus, a caducidade e morte da fé de toda uma nação.

Ao primeiro vendaval de incredulidade, sobreveio o tufão da amargura. Um torpe ateísmo sentimental derramou-se como véu negro sobre os corações: todos os corações, o do rico e do pobre, mulheres, homens, as jovens raparigas de perna lábil e lábios rouge, os cândidos rapazes movidos a cerveja e a inescrutável e labiríntica testosterona. Uma inteira nação, os políticos, a Assembleia da República, as forças armadas, o inconsolável Presidente, mesmo o impávido jurista, uma inteira nação, repetiu-me ele, transformara-se numa gigantesca barata kafkiana, e de Dante imitou os nove ciclos do inferno.

O clube, confidenciou o xamã, era o mesmo desses rapazes que eu vira descer as escadas de um avião em Luanda, esses rapazes, Eusébio, José Augusto ou Humberto, que espalhavam fragrâncias na noite de África e nas tardes da Europa.

Sonho ou pesadelo, acordei. Não voltarei a escutar o inverosímil xamã: o futuro ou é glorioso ou nunca será. SLB forever!»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

Legenda: o velho estádio da Luz ainda em construção.

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

VELHOS RECORTES


 Gosto de crónicas

Lidas em jornais e revistas.

Quando publicadas em livro, compro.

Esta é um velho recorte do Expresso  (sem data) que reproduz parte de uma das crónicas que Ana Cristina Leonardo publicava no semanário

A essas crónicas deu título: Isto Anda Tudo Ligado que soa ao título de um livro do Eduardo Guerra Carneiro, por quem, certamente, tinha amizade e admiração

Por motivos que ninguém explicou - pelo menos que tivesse lido... - as crónicas deixaram de ser publicadas. O mesmo aconteceu às crónicas do Manuel S. Fonseca.

Neste momento, Ana Cristina Leonardo publica, todas as sextas-feiras, uma crónica no suplemento Ipsilon do Público.

Posteriormente, publica-as no seu blogue Meditação na Pastelaria. 

sábado, 17 de agosto de 2024

VELHOS RECORTES


Largamente já foi dito por aqui que sou um devorador entusiasta leitor de crónicas.

Lidas em jornais e revistas.

Quando publicadas em livro, compro.

Esta é um velho recorte do Expresso  (3 de Junho de 2011) que reproduz a crónica que Manuel S. Fonseca ali publicava.

A essas crónicas deu título: «O Cinema dá o que a Vida Rouba».

Por motivos que ninguém explicou - pelo menos que tivesse lido... - as crónicas deixaram de ser publicadas.

Manuel S. Fonseca é proprietário da Editora Guerra & Paz e já deveria, como importante serviço público, ter reunido e publicado as crónicas que escreveu para o Expresso.

Talvez no Natal.

Digo eu!

terça-feira, 6 de agosto de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«O Benfica é bom a formar miúdos. Tem é um grande problema com os graúdos. A deformação do clube prossegue, mas não desistamos. Um dia será possível contar outra história

Há uns dias, vi Rui Costa explicar que a transferência de João Neves para o Paris Saint-Germain ainda não era oficial, porque «nestas coisas» há sempre detalhes que é preciso ultimar, arestas que devem ser limadas. Não deixa de ser irónico que os dirigentes do Benfica falem com tanta tranquilidade e seriedade acerca destes negócios. Nunca um dirigente do Benfica nos últimos 20 anos aparentou ser tão profissional quanto no momento em que havia um atleta para vender.

É sempre nestes dias que os dirigentes do Benfica vestem o seu melhor fato para uma cerimónia quase sempre deprimente. Ontem, segunda-feira, minutos depois de confirmada à CMVM a venda de João Neves por uns míseros 59,9 milhões de euros, fui confrontado com um daqueles recordes que parecem ter sido pensados por uma equipa de guionistas. Ao que parece, o Benfica é o clube no mundo com mais vendas por valores superiores a 60 milhões de euros. A coisa é dita como se de uma proeza extraordinária se tratasse. Respiro fundo e olho pela janela. Faço os possíveis por conter as lágrimas de alegria e o orgulho deste desígnio em que se cumpre, afinal, o Benfica contemporâneo. Penso por momentos em marcar encontro com alguns amigos no Marquês, até que dou meia volta e lá abandono a ironia. É então que me lembro do que está quase sempre em causa nestes dias. Um miúdo. Mas não é um miúdo qualquer, como os 54 milhões — depois de comissão — parecem indicar.

É o miúdo da camisola impecavelmente enfiada nos calções, fiel a uma imagem que o precedia em várias gerações de ídolos, capaz de evocar o melhor da história do seu clube sem dizer uma palavra. Não precisou. Estava tudo à vista desde o primeiro momento.

O miúdo com idade para ser tiktoker e jovem promessa que pegou na primeira oportunidade e nunca perdeu tempo. Preferiu chegar a adulto mais depressa e com isso tornou-se referência do balneário e da bancada.

O miúdo bem formado, de maneiras raras no futebol, imediatamente reconhecido pelos seus pares. Pelo que joga e pelo modo como se apresenta. Um embaixador do Benfica e do desporto. Uma razão para se gostar ainda mais de futebol.

O miúdo que sempre representou com a maior elevação o clube do seu coração e que nunca se esqueceu dos seus outros pares, os que estavam na bancada.

O miúdo que sempre compreendeu e abraçou a responsabilidade de nos fazer sentir que quem está no relvado sofre tanto como os que estão cá fora, o que muitas vezes foi tudo.

O miúdo que, de camisola impecavelmente enfiada nos calções, deu tudo o que tinha por um clube com uma liderança desfraldada que não fez nem quis fazer o suficiente para manter alguém que foi Benfica da cabeça aos pés, do primeiro ao último minuto.

O miúdo que se fez homem no Benfica e merecia continuar a escrever essa história. O miúdo que, antes de escrever na sua biografia «capitão do Sport Lisboa e Benfica», viu o seu nome ser escrito no balancete. Em vez de se tornar um inevitável símbolo humano da grandeza do Benfica, o miúdo João Neves tornou-se mais uma página inevitável no rol de transferências do clube que bate recordes de tudo o que diz respeito a dinheiro, mas que, a cada ano que passa, encolhe um pouco mais face aos adversários.

Este é o clube em que o dinheiro é movimento na ordem dos milhares de milhões, mas ninguém considera admissível que se questione que modelo de gestão é este em que há tanto dinheiro para tanta extravagância absolutamente irrelevante, e não há dinheiro para um projeto desportivo mais ambicioso em que atletas como este miúdo sejam sempre os últimos a sair. Neste Benfica, a única coisa cerca quando um jovem talento aparece é que a direção e os empresários de sempre estão prontos, como sempre estiveram ao longo destes anos, para explicar que não havia nada a fazer, mesmo que nunca se tenha tentado algo diferente. Aparentemente, a única coisa que os dirigentes do Benfica têm como absolutamente certa no futebol mundial é que qualquer negócio tem de pagar 10% de custos de intermediação a Jorge Mendes.

Pois bem, o miúdo João entra diretamente para o vasto plantel dos jogadores que podiam ter sido heróis de uma história improvável num clube gigante e contra-cíclico que gere o que é seu para se tornar cada vez maior e não apenas para existir, porque sabe que assim estará mais perto de fazer história. Mas, para surpresa de ninguém, ainda não foi desta. Não sabemos exatamente o que obriga o clube a vender João Neves hoje, porque ninguém não clube parecer realmente capaz de explicar. É mais fácil responder com um sorriso quando nos falam nos golos do Pavlidis e dizer que não se quer agoirar. Compreendo.

Os golos de um novo avançado dão muito jeito para continuarmos a contar com a tolerância de sócios e adeptos, quem sabe até com a sua amnésia ou indiferença face aos gigantescos problemas estruturais que hoje condicionam a afirmação do Benfica. Os mais fortes adversários do clube são, esses sim, aqueles que continuam a navegar à vista, ao sabor de mais uma venda milionária para demonstrar que isto, seja lá o que isto for, funciona, apesar de o dinheiro não trazer felicidade nem vitórias nem grandeza, apenas a sensação desoladora de que somos, há demasiado tempo, uma peça no carrossel de um empresário.

O Benfica é bom a formar miúdos, de facto. Tem é um grande problema com os graúdos. A deformação do clube prossegue, mas não desistamos. Um dia será possível contar outra história do Benfica ao mundo. A de um clube lutador, muito antes de ser vendedor. É inevitável.

Desculpa, João. E obrigado.»

Vasco Mendonça, hoje, em A Bola. 

sábado, 20 de julho de 2024

CRONICANDO POR AÍ

«Segundo Donald Trump, “foi Deus que impediu que o impensável acontecesse”, no atentado de que foi alvo. Ou seja, foi o Criador que evitou que a bala do atirador trespassasse Trump, o que seria impensável, fazendo com que fosse antes atingir um antigo bombeiro, cuja morte é bastante mais pensável. Deus, nos intervalos de governar o universo, acompanha as eleições americanas, provavelmente através da Fox News, e não deixou que o candidato americano fosse abatido a tiro. Em 1914, Deus não interferiu no homicídio do arquiduque, em Sarajevo, e em 1963 não objectou a que Kennedy fosse assassinado, em Dallas.

 Mas, desta vez, o Senhor resolveu salvar a vida de um candidato presidencial. No entanto, Deus fez muito mais do que isso: montou a maior operação de marketing político da História. Luís Paixão Martins, que coordenou várias campanhas vencedoras, nunca concebeu um plano tão bom como este — e dizem-me que Paixão Martins é bastante mais caro do que Deus. Ao permitir que a bala raspasse na orelha de Trump, o Senhor forneceu-lhe o máximo de martírio com o mínimo de dano. Trump pode dizer que levou um tiro, que sobreviveu a uma tentativa de homicídio, que derramou sangue. O preço a pagar por isso foi: uma feridinha na orelha. Eu já tive lesões mais graves a jogar à bola. Mas Deus quis fazer de Trump uma vítima sem lhe infligir sofrimento. Tem sido um procedimento habitual do Senhor. Toda a história da vida de Donald Trump tem sido exactamente assim: obter o maior benefício despendendo o menor esforço. Trump começou com uns milhões de dólares oferecidos pelo pai, e quase não paga impostos sobre os rendimentos que tem. Os escândalos em que se envolve não o beliscam, e nem sequer as condenações em tribunal o afectam. Em princípio, Deus tem tido um papel crucial em todas essas peripécias. É como se o Senhor estivesse a protegê-lo por ter um plano para ele. Fico mais descansado. Talvez isso signifique que a eleição de Donald Trump seja, no entender de Deus, a maneira mais eficaz de evitar uma guerra nuclear. Ou então faz tudo parte de uma estratégia para cumprir o que vem escrito no Livro do Apocalipse. Seja como for, Deus parece saber o que está a fazer. Haja alguém.»

Ricardo Araújo no Expresso.

terça-feira, 16 de julho de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«Pode comparar-se um tractorista português a Sir Winston Churchill, que foi primeiro-ministro de Inglaterra, e tinha a extravagância de charutos, bebidas e outros prazeres hoje chibatados na praça pública? Eu diria que sim, se o tractorista português emergir da longa noite que estava mesmo a acabar na madrugada do dia 25 de Abril de 1974.

Mas antes de darmos essa voltinha de tractor, deixemos entre parêntesis Churchill, bora lá à América e sentemo-nos com o escritor Truman Capote, de quem Marilyn Monroe adorava ser confidente. Deliciadamente gay, Capote atraía as mulheres e lá está uma, em Key West, derretida, a pedir-lhe um autógrafo. O já bem bebido marido da dama, afrontado pela “frociagginice” de Capote – essa qualidade que agora o Papa Francisco tornou famosa –, o marido, dizia, veio à mesa do escritor, tirou para fora aquela ferramenta que, nas calças, um homem não sabe se há de pôr para a direita ou para a esquerda, e disse: “Já que autografas coisas, autografa-me isto!”  Ora, “espontâneo” era o nome do meio de Capote, que logo disparou: “Oh, autografar não consigo, mas pôr as minhas iniciais acho que dá!”

Seria Churchill tão espontâneo como Capote? Consta que não, que agonizava para encontrar a frase certa, até nos discursos, mas quando a irritação o instigava, a maldade tomava conta dele e feria como um escorpião. À dama que em público insinuou que era uma vergonha a bebedeira com que ele estava, logo Churchill esclareceu: “Estarei desagradavelmente bêbado, milady, tal como a senhora é desagradavelmente feia, mas amanhã eu estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia.”

E agora, música para os nossos ouvidos, prestemos atenção a uma lenda da música clássica do século XX, o maestro inglês Thomas Beecham, a quem devemos um precioso conselho: “Experimentem tudo uma vez, menos o incesto e dançar folclore.” Beecham está ali, no palco, a ensaiar com a orquestra. Mas tem em uma nova violoncelista. O maestro enerva-se com a interpretação dela e grita-lhe, em registo mozartiano: “Minha senhora, tem entre as suas pernas um instrumento que é capaz de dar prazer a mil pessoas e tudo o que é capaz de fazer é arranhá-lo?!”

 É altura de subirmos para o tractor: venham dar uma volta com o seu anónimo condutor. Estamos na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 e andaremos pelas 4:30 da manhã. Já passou um mês do falhado golpe militar das Caldas e Portugal está uma pasmaceira expectante. Um homem vai no seu tractor e, de Santarém, começa a ver camiões da tropa, tanques de guerra, uma coluna que lhe parece infindável. Passam por ele, ronronantes, e vão em direcção a Lisboa. É, embora ele não o saiba, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, que irá derrubar Marcello Caetano, e com ele a mais velha ditadura da Europa. O tractorista não sabe nada disso. Pára o tractor, contempla esses veículos gigantes que rodam determinados para Lisboa, levanta-se e grita: “Seja lá o que isto for, viva!” Eis o primeiro slogan do 25 de Abril, uma história que talvez seja só lenda, mas se a lenda é bonita e merece passar a facto, imprima-se e deixe-se entrar na história.

O nosso tractorista vale um Churchill e é bem mais prospectivo do que o grande maestro Beecham. Ou mesmo do que Mark Twain. Enquanto o tractorista de Santarém ou lá próximo está aberto ao futuro, Twain corria a esconder o seu humor no passado. Quando lhe perguntaram o que faria se acontecesse o fim do mundo, disse: “Se o mundo estivesse a acabar ia para Cincinatti: é que lá tudo acontece 20 anos mais tarde!”»-

 

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

sábado, 6 de julho de 2024

CRONICANDO POR AÍ


De que matéria é que se fazem os sonhos? De letras, diria eu. Ora vamos e vejamos, os sonhos dos filmes, antes de serem sonhos, antes de serem aventuras, antes de serem gargalhadas, são palavras escritas. Há, para cada filme, um argumentista, a senhora ou senhor que escreve os textos, que hão de guiar o realizador e ser frases na boca aos actores. Há tempos, os argumentistas mais reputados em actividade elegeram o melhor de sempre na profissão.

Vejam, elegeram Billy Wilder, um austríaco que pronunciava cada palavra inglesa com os pés, mas que tinha ideias e sacava diálogos de uma afrontosa originalidade, para não dizer virgindade. Escreveu coisas geniais e Ninotchka,filme realizado por Ernst Lubitsch, foi uma das obras-primas que saiu da sua máquina de escrever.

Deram-lhe um mote: “Jovem russa impregnada de ideais bolchevistas vai para a assustadora, capitalista e monopolista cidade de Paris. Apaixona-se e passa uns dias de gozo do caneco. Talvez o capitalismo não seja assim tão mau.” Deste briefing, Wilder inventou Ninotchka.

Pois bem, conhecemos a revolucionária Ninotchka na sombria Moscovo e, claro, estamos todos à espera de ver a cena da chegada, a uma gare de Paris, dessa Ninotchka, a que Greta Garbo emprestou rosto, corpo e a rouca voz.

Na gare estão à espera dela três camaradas soviéticos, já inclinados, pela vida que espreitam em Paris, à condescendência social-democrata para a qual, durante os anos da nossa geringonça, até mesmos os inflamados militantes bloquistas se deixaram deslizar, direitinhos ao bolso de António Costa.

Digo isto e não é um despropósito, há qualquer coisa de mortaguiano no primeiro contacto da camarada Garbo com um representante da espécie chauvinista, arrogante, machista, que é o aromático burguês de infeliz produção capitalista. Ela quer estudar a espécie, como um entomologista a sua minhoca.

Como se fosse a inescapável sessão de uma comissão parlamentar, Mortágua, perdão, a camarada Greta Garbo disseca o bicho capitalista e expõe, com uma imbatível lógica escolástica, as misérias que o lacinho de seda, o chapéu de feltro, o delicado fatinho, procuram ocultar. É delicioso ver a comunistíssima Greta Garbo desfazer a miséria do capitalismo.

Parêntesis: verifiquei, com surpresa, tão justa e científica é a previsão do fim do chauvinismo capitalista, que o filme foi, ao tempo, proibido na solaríssima União Soviética, onde julgo que nada era proibido.

 Palpita-me que a culpa foi das palavras que Wilder pôs na boca de Ninotchka, depois dela experimentar uns apaixonados french kisses, arrancados aos lábios e língua do execrável burguês, beijos acompanhados por umas flûtes desse borbulhante champanhe, que faz a glória da França e é a única etílica libação que a minha mulher, a revolucionária Antónia, consente. 

E diz Ninochka, de olhos postos no amado burguês e na taça de champanhe: “Estou tão feliz. Oh, que feliz que estou. Ninguém pode estar tão feliz sem ser castigado. Vou ser castigada. Tenho de ser castigada.

Wilder castiga-a! Se virem o filme, descobrem como: o sólido argumentista austríaco fá-la rir, e rir é o pecado que a velha revolução bolchevista nunca perdoou. Tenho de acrescentar que, hoje, o activismo militante, vetusto, furioso, albardado em culpas, ainda perdoa menos. A conversão de Ninotchka ao riso e ao prazer é o caminho das pedras da sua perdição em Paris e por Paris. As palavras de Wilder fazem com que a camarada Greta Garbo ponha cada pé na pedra certa, ou não fossem as palavras a matéria de que se fazem os sonhos.

Manuel S. Fonseca na sua Pàgina Negra