quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
CRONICANDO POR AÍ
O gosto pelas Crónicas, o desejo único de que o espírito de Abril se mantenha pelos tempos fora, «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os Estados Sociais, os Estados Corporativos e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem não quiser sair, fica aqui!», Salgueiro Maia ainda em 24 de Abril de 1974:
«Tinha nove anos. Os meus pais eram comunistas: «a
nossa senha é Salgado Zenha», naturalmente. Levava para a escola primária dos
Olivais autocolantes com um Z.
Desde cedo, aos seis anos, que ia a pé para a escola,
quinze minutos de deslocação com um colega e amigo. Éramos miúdos e estávamos
por todo o lado, por toda a cidade.
Lá estava a inscrição na parede ao pé de casa: «Não à
lei Barreto/77». Havia política por todo o lado. Hoje também há, mas é mais
invisível, mais elitista, menos democrática. E isto já não é bem um país, como
sabeis, dada a perda, sempre reversível, de soberania. Ainda é uma pátria. Mas
não há crianças nas ruas, aos bandos. Envelhecer deve ser isto. Prossigamos.
Os meus colegas de direita tinham todo o tipo de
bugigangas do Freitas do Amaral, dizia-se que era a primeira campanha «à
americana». Na sua autobiografia, Freitas do Amaral, já agora, usa o termo
neoliberal para descrever as suas orientações e as do seu CDS. Sim, sou um
respigador destes usos de uma palavra que alguns ainda rejeitam de forma
ignorante.
Invejava os meus amigos de direita secretamente. Uma
vez fui passar a tarde a casa do Pedro e fomos com a mãe dele às compras. De
passagem, fomos dizer olá à avó, que estava a trabalhar numa sede de campanha
do Freitas, ali na Cruz de Celas. A avó queria dar-me um sortido kit de
campanha: «este menino é do Zenha», antecipou a mãe. Pois sou, confirmei, como
se uma meta-preferência ético-política contrariasse a preferência imediata pela
cor, pelo plástico.
Irritava-me o hino de Freitas do Amaral, o do «prá frente
Portugal», que me ficou no ouvido até hoje, tal como o do «pão, paz, povo e
liberdade» do cavaquismo ascendente. O Rafael, o meu melhor amigo, era do PSD e
eu, aparentemente, tinha-o apodado de «fascista» quando soube disso, no dia em
que nos conhecemos, fazia três anos. Conta essa história até hoje, mas eu não
me lembro. A memória depende de outros, como tudo na vida. Aprende-se,
imitando, claro.
Lembro-me de ir a um entusiasmante comício de Salgado Zenha, que julgo ter sido no Teatro Avenida. Estava a abarrotar. Agitei uma bandeira com alegria, como ainda hoje gosto tanto de o fazer. O Teatro já não existe, substituído há muito por um mamarracho hediondo.
Lembro-me de se achar que Maria de Lurdes Pintassilgo
só servia os interesses da candidatura de Soares. Soares, esse sim, era odiado.
O meu pai tinha sido advogado sindical na última década antes das eleições, a
da queda brutal do peso dos salários no rendimento nacional depois do grande
avanço do glorioso PREC.
Chorei no domingo da primeira volta, sempre tive a
lágrima fácil: «perdeu-se uma batalha, mas não se perdeu a guerra», consolou-me
o meu pai, ao mesmo tempo que dizia que jamais votaria em Soares. «É claro que
vamos votar no Soares», disse a minha mãe, antecipando a deliberação coletiva
proferida por Álvaro Cunhal.
Andei então com um autocolante de Soares e tive mais
companhia no recreio nessa altura. A seguir, logo em 1987, Soares foi Soares,
nunca se pôde confiar nele, realmente. Mas a unidade possível era função do
inimigo principal num tempo antes deste terrível consenso neoliberal. O
neoliberalismo era só um movimento entre outros, não era ainda o regime europeu
que Soares sempre endossou, retórica à parte.
E ainda não vi o documentário na RTP da autoria de Ivan
Nunes e de Paulo Pena, de que já me falaram, sobre as eleições de 1986. Vou
agora ver, provavelmente com melancolia de esquerda.
Antes, porém, há que dizer e redizer, sem qualquer
melancolia: «com o povo, por Abril, por Portugal». Sim, muito obrigado, António
Filipe, por esta campanha imprescindível. Poder e razão não são sinónimos e
nunca esta distinção foi tão importante. Pode perder-se e ainda assim ter
razão, muitas razões.
Agora, vou votar no candidato que não se chama
Ventura. Pensarei em Cunhal e no meu pai. Não é difícil votar. Difícil foi
conquistar o sufrágio universal. E aí os comunistas foram, como sempre,
imprescindíveis.
A vida, a luta e a resistência não terminaram no
passado domingo, nem terminarão no dia 8. É papel dos democratas rejeitar
Ventura, mas a luta não se esgota aí. De facto, continua a ser imprescindível
derrotar o consenso neoliberal, desde logo tendo presente que rejeitar Ventura,
não é apoiar as ideias de Seguro.
A luta social terá de se intensificar e muito. Os
perigos para a democracia não se encontram apenas em Ventura, mas nos projetos
mais vastos de exploração, desde logo no pacote laboral. Sabemos quem continua
a ser imprescindível para derrotar tudo isso.»
domingo, 2 de novembro de 2025
CRONICANDO POR AÍ
«Gosto tanto do
Cemitério dos Prazeres. E ali estava, de novo. Foi, lembro-me, no funeral do
Eduardo Prado Coelho. Há quantos anos? Há dez? O Pedro Bandeira Freire ao meu
lado, as cinzas iam ser postas numa das pequenas gavetas-túmulo desse
extraordinário cemitério com uma das melhores vistas de Lisboa – a do Alto de
São João também não é má, e continuo ainda sem saber qual escolher.
O Eduardo, como foi
hedonista o último livro que publicou em vida, comigo, o seu Nacional e
Transmissível, teria, a essa sua maneira hedonista, gozado a ironia da
situação: uma manhã linda, agradabilíssima essa ala do cemitério, a morte como
uma gata a ronronar-nos ao ouvido, e dois amigos a segredar coisas, com o Pedro
a ter as despesas da originalidade da conversa. E foi o que ele me disse, lendo
os nomes dos mortos inscritos nessa vasta parede: “Eh pá, já tenho mais amigos
nestes túmulos do que amigos aqui fora.”
Não sou muito de me
agarrar a datas ou de deixar que as datas se me agarrem à fraca pele, nem o 25
de Abril, nem o 25 de Novembro, nem os aniversários, muito menos o 5 de
Outubro, talvez o Natal por serem dois dias, mas há os Mortos, Dia de Fiéis
Defuntos e esse dia deles, por muito pouco mexicano que eu seja e pouco dado a
carnavais de açucarados e míticos dias de enterro, que é mais coisa para D. H.
Lawrence e, sobretudo, para Malcolm Lowry, mas eh pá, também já tenho mais amigos
nas catacumbas da Senhora Dona Morte do que à luz do dia da Menina Vida.
Eu já podia fazer um
rosário de nomes, um rosário de amigos. Dividi-lo-ia em mistérios, os
dolorosos, os gozosos e os gloriosos, que são exactamente os mistérios do Santo
Rosário. É uma ideia que o peculiar catolicismo de João Bénard da Costa, por
certo mariano, me aprovaria. Cada um dos meus amigos uma avé-maria. Uma
avé-maria é o que era o Chico Grave, falsamente bruto como as casas, um poço de
ternura de olhos fechados, que quando aquilo lhe subia do coração tinha mesmo
de os fechar. Uma salvé-rainha o Bénard, príncipe cinéfilo, bispo
renascentista, amante dos modernos Caravaggio, frequentador das mais escuras
salas do século XX. E teria de lembrar, quero dizer, rezar, o Luis de Pina, o
Bastos e Silva e mesmo, de tão zangado que foi comigo (e eu com ele) para a
Outra Margem, o Emídio Rangel da homérica viagem a Nova Iorque em que até um
cenário da Ópera ia tombando sobre o coro de pernas para que te quero, no
Lincoln Center.
Os meus mortos. Tu,
Pedro Bandeira Freire, com a tua mania de nunca estares sozinho, e que tens ao
teu lado o Alface, o Raul Solnado (só agora, passados estes anos voltei à tasca
da rua de baixo, desde que, Raul, deixaste de lá vir a um pratinho de
caracóis), o Dinis Machado, que para estar bem tinha de estar contigo e a Dulce
ali por perto, que deve ser onde ela está agora, a dois passos de vocês,
entretida em exercícios de voz. Juntou-se-vos agora o António Escudeiro – que
vos vai fazer a fotografia. E ouço uma voz. É a tua voz, bem sei, Manel
Cintra Ferreira. Só a voz de um surdo, do mais divertido, musical e cinéfilo
dos surdos, se ouve a esta distância. Não te fui acordar, meu Manel, para me
vingar do dia em que me deixaste mais de meia hora a bater à tua porta e a
atirar cartões de visita pela frincha do chão a ver se tu os vias, por te teres
esquecido do jantar que tínhamos com o o Pedro e o Dinis. Vieram os
vizinhos do prédio todo e tu, de costas, na sala, a veres o The Searchers,
que não havia cavalo, nem John Wayne que te tirasse dali.
Não sei o que diga aos
meus mortos. E lembro-me que houve um Papa, o estranho polaco João Paulo II,
que quis acrescentar ao Rosarium Virginis Mariae, novos mistérios, os
mistérios luminosos. Eis os meus mortos, derramada luz. Quero que a vossa luz
me entre por todos os lados. Que caia sobre mim, quando estou vestido e quando
estou nu, quando durmo ou acordado. Só não quero que, mortos omniscientes, me
vejam. Não te quero, Pedro, a dizeres coitadinho, desancando na minha elevada
forma de vida amorosa, nem o João Bénard a criticar-me por eu escrever crónicas
de cinema sem ter pelo menos cinco volumes dos Cahiers du Cinéma ao
meu lado. Não quero, e sou capaz de rezar dois rosários seguidos e as
salvé-rainhas que forem precisas, para que os mortos não possam ver ou saber o
que os vivos fazem. Quero que tenham só saudades, as mesmas saudades que eu
tenho deles.
Esclareço. Não quero que sejam cegos os mortos, muito menos os meus mortos. Quero que vejam e que se lhes inundem de luz os olhos, nesse reino de beleza e volúpia onde mortos vivem. E peço aos meus mortos um favor: abram bem esses olhos de luz, João, Pedro, Chico, todos, e vão à procura da Alice e do Artur. Foram, neste vale de risos e lágrimas, os meus pais. Alimentaram a minha boca, deram colo aos meus medos, puxaram lustro às minhas alegrias. Quase ninguém sabe, só os que ainda vivos os amaram, mas a Alice e o Artur fizeram o trabalho de excelência que só o amor incondicional e irretribuível consegue fazer. CEOs da minha alma. Vão encontrá-los à conversa com o Isidoro, meu sogro, ferrenho de tudo o que fosse vermelho. Digam-lhes. Tenho a certeza de que eles sabem, sempre souberam, mas hão-de, executiva e progenitora vaidade, gostar de ouvi-lo, alto e bom som, das vossas bocas amigas.»
Manuel S. Fonseca na sua Página Negra
terça-feira, 3 de junho de 2025
CRONICANDO POR AÍ
«As pequenas lojas de bairro sempre me atraíram. Na minha rua existia até há pouco tempo uma retrosaria das antigas. Gostava de entrar, de falar com a dona, uma senhora já de alguma idade, muito simpática, sempre disposta a ajudar os clientes com sugestões. Muitas vezes entrava só para a cumprimentar, para ver as prateleiras da loja, as linhas, as lãs, os botões, os fechos, os rolos de tecido, a fascinante mistura de cores e materiais, sempre cuidadosamente arrumados nas prateleiras antigas, de madeira, bem conservadas, que existiam por toda a loja em torno de um belo balcão, também em madeira. Uma vez perguntei-lhe se a podia fotografar e ela, delicadamente, pediu-me para não o fazer mas disse-me que podia fotografar a loja à vontade desde que ela não aparecesse. Foi num desses dias que fiz esta fotografia. Agora, há umas semanas, a loja encerrou, tem a porta fechada e as montras tapadas. Por alguma razão a senhora deixou de ser uma companhia na rua. Não sei o que acontecerá ao interior daquela bela loja, nem como se sentem os vizinhos que ali paravam para dois dedos de conversa com a dona, sempre com um sorridente bom dia a quem entrava.. Resta-me ficar a falar com os meus botões, estes que guardei na memória e que aqui vos deixo com as suas cores e feitios. Termino, para não dizerem que não falo da situação política, com uma citação roubada à coluna de Miguel Esteves Cardoso no Público: “Não há planta tão trepadora como um gato. A planta trepa para poder crescer, para ter onde se agarrar. Mas o gato trepa por trepar (...) Também há políticos assim: sobem aos mais altos postos, gostam durante um minuto, mas depois não sabem o que fazer lá em cima.”»
Manuel Falcão em Esquina do Rio
sexta-feira, 14 de março de 2025
CRONICANDO POR AÍ
HARA-KIRI
«Um dos mistérios desta crise é saber o que levou Luís
Montenegro a ignorar todos os avisos e todos os sinais sobre a situação pessoal
em que se colocou e da qual não encontrou - ou não quis encontrar - uma forma
de sair. O que explica a teimosia em recusar o óbvio? Ao longo de mais de uma
semana assistimos a um lento hara-kiri no qual Montenegro foi mutilando a sua
credibilidade. O que podia ter sido apenas uma questão pessoal, escalou
para uma crise política e para a queda do Governo. Aquilo que levou à situação
em que nos encontramos não foram meros erros de comunicação, como Montenegro a
certa altura quis fazer crer. Aquilo que levou à quebra de confiança no
Primeiro-Ministro foi a evidência da sua falta de carácter. É curioso ler o que
Manuel Carvalho escreveu sobre Montenegro no “Público”. Carvalho, um jornalista
que viveu grande parte da sua vida profissional no norte, e que acompanhou a
actividade de políticos e empresários nortenhos, descreve assim Montenegro:
“Pragmático, cínico, realista, lúcido, sonso, cerebral, meste da dissimulação e
da emboscada", useiro na “atitude manhosa perante os adversários que
herdou da longa tradição de conflitos internos e golpes de bastidor do
partido.” As acções de Montenegro nos dias mais recentes cabem dentro deste
retrato. Já se sabia, pela forma como fala e intervém, que não gosta de ser
contrariado, que acha ter sempre razão e que se considera acima de tudo e de
todos. O que levou um homem assim a não perceber o efeito das suas acções? Ao
seu lado perfilou-se todo o Governo mas nem todo o PSD. Os partidos não são
equipas de futebol a quem se deve fidelidade. Em política a fidelidade e a
coerência são aferidas face às ideias e não às pessoas. Quando surgem dúvidas
há respostas que devem ser dadas e uma ética a respeitar: não vale tudo, não
pode valer tudo. As eleições que aí vêm servem para avaliar quem esteve
bem e quem esteve mal, o voto não é cativo.»
Manuel Falcão em A Esquina do Rio
domingo, 9 de março de 2025
CRONICAND POR AÍ
Quem conhece bem Viena por certo já foi a Grinzig, um antigo subúrbio da capital austríaca, hoje já integrado na cidade, onde se bebe um vinho branco característico (eu acho que com algumas semelhanças com o galaico-duriense “vinho verde”), que não deixa especial memória, feito com a casta Grüner Veltliner, numas tabernas que se pretendem típicas (Heuriger). Também já por lá passei, mais do que uma vez, a última das quais tentando esquecer aquilo a que acabara de assistir “ao vivo”: um golo que um tal Frank Rijkaard acabava de marcar mesmo à minha frente e que derrotara sem apelo o “meu” glorioso na sua 7ª final da Taça dos Campeões. O local? Apenas a uma centenas de metros da “grande roda” que marca uma das sequências do filme de que lhes vou falar de seguida, a uns quilómetros (poucos) de Grinzig, hoje em dia local demasiado turístico (já o era), mas que não deixa de valer uma “espreitadela” apesar dos autocarros de japoneses e turistas afins.
Pois nessas tabernas de Grinzig também há música - que se pretende, claro, também ela típica - e foi numa delas que Carol Reed - rezam as crónicas ou as lendas, mas não as certezas – descobriu um tal Anton Karas, a quem convidou criar a música do seu “The Third Man” (1949). Certo é que Anton por lá tocava para arredondar as contas do mês e que Reed em boa hora o contratou, pois este é um daqueles casos em que a música excede o filme em notoriedade, mesmo que por vezes nos interroguemos “onde é que eu já ouvi isto”? Diz o meu amigo “Gin-Tonic”, a quem devo a ideia para este post, que o filme tem mais de Orson Welles (actor no filme) do que de Reed. Bom, eu acrescentaria que tem mais de Welles, Joseph Cotten (que seria do filme sem ele?), Karas e, talvez, Alida Valli, embora esta seja sempre, para mim, a condessa Lívia Serpieri de “Senso”, o mais trágico e operático filme da história do cinema. Mas também muito de uma Viena sombria, do pós-guerra e do início de uma "guerra fria" que quase atirou a Áustria para a órbita soviética.
João Cília em O Gato Maltês
sábado, 1 de março de 2025
MÚSICA PELA MANHÃ
Sim, registamos com um
sorriso complacente a mão de Emmanuel Macron no braço de Donald Trump e a
interrupção a corrigi-lo: “Não, querido Donald, não foram os Estados
Unidos, foi a Europa quem mais ajudou a Ucrânia: 60% de toda a ajuda.”
Foge o tempo e amanhã
já o mundo se terá esquecido desse reparo de menino espertíssimo ao pai senil.
Do que nunca nos esqueceremos – pelo menos eu – é de uma canção que nos tenha feito estremecer de vida e desejo. “The first time ever I saw your face” é essa canção. Clint Eastwood sentiu, ao ouvi-la, esse estranho tremor cardíaco a que chamamos emoção. Ligou à cantora desconhecida e pediu-lhe a canção para um filme. A cantora, incrédula, desmaiou. Quando acordou, “The first time” era um êxito galáctico. A cantora morreu agora, aos 88 anos. Era a portentosa Roberta Flack: till the end of time my love.
Manuel
S. Fonseca na sua Página Negra
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
CRONICANDO POR AÍ
«Compreendo o silêncio de Benfica e Sporting perante
a morte de Pinto da Costa. Ensaiei na minha cabeça várias reações oficiais, e
todas tinham o mesmo problema. As palavras queimam e perseguem-nos quando são
mal escolhidas. Seria estranho resumir a duas linhas de circunstância uma
reação quando há tanto por dizer, se quisermos ser sinceros. Uma instituição
deve representar os seus membros, e seria difícil, provavelmente inadequado,
ser uma extensão do que estes pensam no momento atual.
É complicado encontrar algo estruturalmente positivo
para dizer acerca de Pinto da Costa, alguém que, com ocasional elegância,
irónica souplesse e a tal cultura acima da média que o tornou uma
referência entre filisteus, fez do ódio aos rivais uma figura de estilo
amplamente apreciada. Tanto que produziu efeito como cultura e forma de estar.
Tanto que foi copiada por outros dirigentes, inclusive no meu clube.
Já aqui escrevi que o ex-presidente do FC Porto inventou
um clube, mas aquilo que fez, e sobretudo o modo como o fez, alastrou-se em
forma de doença. Mais do que uma identidade clubística, a cultura materializada
por Pinto da Costa tornou-se um padrão a seguir, a forma correta de fazer as
coisas. Essa foi a sua maior conquista enquanto protagonista. Quantas vezes
ouvi pessoas justificarem práticas dúbias no futebol com expressões como «as
coisas têm de ser assim», «não podemos ser anjinhos», porque, se assim for,
«vamos ser comidos», recorrendo às palavras históricas de José Maria Pedroto. O
futebol português permitiu que se consensualizasse a ideia de que os «bons
rapazes» são comidos e que só os maus ganham. Patrocinou uma nova era de
competições em que essas eram as regras do jogo.
Posso recuar até à minha infância. Não me lembro de
outro futebol competitivo em Portugal. O que hoje acontece assenta na seguinte
dialética: as vitórias dentro de campo nunca são apenas isso. Desde que me
recordo, assisto a uma engrenagem imparável de operações nos bastidores,
negociatas estranhas, nomeações inexplicáveis, decisões escandalosas,
personagens sinistras, critérios desiguais e, no final de tudo, uma série de
platitudes proferidas pelas lideranças sobre um desporto aparentemente
imaculado. Porque toda a gente tem contas para pagar, a vida continua e o povo
mantém-se interessado. O povo, aliás, abraçou tudo isto como parte da diversão.
Criou-se uma nova camada de entretenimento em torno da trama, com muitos
vilões, todas as suspeitas e nenhum culpado. Se o termo «verdade desportiva»
ganhou relevância, é porque muitos precisaram dele para expor as mentiras em
que o futebol português labora, e também porque tudo isto se tornou parte de
uma discussão, o mal a combater enquanto parte de uma sociedade do espectáculo.
A distinção entre licitude e ilicitude perdeu-se pelo caminho. O que sobra é
uma construção social aceite por todos, onde a esperteza e a manha são tão
importantes quanto o atleticismo e a vontade de competir.
Eu vejo um legado indissociável de Pinto da Costa e
uma herança deixada a todos os que não o aplaudiram com fervor religioso: um
futebol em que quase ninguém aceita o resultado final de um jogo, um desporto
seguido apaixonadamente por milhões, mas no qual poucos acreditam piamente no
que veem. Por muito que se elogie esta indústria pelos seus proveitos
financeiros e desportivos, por muito que se reconheça que o desporto cumpre uma
função social importante alheia à sua faceta mais pantanosa, o lugar em que o
futebol nacional se instalou ao longo dos anos, naquilo que tem de mais doentio
e antidesportivo, deve muito a Pinto da Costa. Foi ele quem demonstrou que era
possível recorrer a quaisquer meios para atingir os fins pretendidos. Está para
chegar o dia em que me sinto convencido de que essa cultura foi absolutamente
erradicada do desporto e das principais esferas de decisão.
É natural que muita gente se sinta obrigada a dizer algo
mais simpático neste momento. Aqui chegados, depois de tudo o que vimos ou
deixámos acontecer com um piscar de olho maroto ou com um assobio para o lado,
será mesmo altura de falar a verdade? Mais vale deixar ficar como está. Já
passou. Esse foi um enorme mérito de Pinto da Costa: trabalhou nos corredores
mais sombrios para vencer vezes suficientes. Fê-lo até conseguir cristalizar
como verdadeiro e lícito, até admirável, aquele que foi o seu percurso no
desporto. Por isso, se as últimas 72 horas nos mostraram algo, é que os adeptos
de um clube não estão prontos para falar abertamente sobre o que se passou ao
longo das últimas décadas. Arrisco dizer que nada mudará nesse capítulo,
porque, muito antes de clamarmos pela verdade desportiva, já o então presidente
do FC Porto mostrava o seu engenho na prática da pós-verdade.
Hoje, parece não ter havido escuta que o desmentisse, da mesma forma que não
parece haver pessoa capaz de convencer outra de que uma coisa azul é amarela ou
de que a Terra é mesmo redonda. Para o que der e viver, o futebol continuará a
ser, depois de Pinto da Costa, um ajuntamento de terraplanistas: uns porque
negam o amplo corpo de evidências, outros porque a vida lhes continuará a dar
motivos para desconfiar. Talvez seja só isso e não valha a pena aspirar a mais.
Eu percebo. Se um presidente do meu clube vivesse até
aos 87 anos e, no entretanto, me tivesse permitido celebrar a conquista de duas
Taças dos Campeões Europeus e duas Taças UEFA, eu também estaria grato e
tenderia a ignorar o resto. Assim se explica que, após uma eleição que viu
Pinto da Costa ser derrotado sem apelo nem agravo, o FC Porto apareça
aos olhos do comum adepto de outro clube como uma entidade em profunda angústia
existencial. Pudera. O presidente que inventou tudo isto deitou fora o manual.
Um clube que durante 40 anos fez da corrupção, das agressões, do ódio aos
«vermes que merecem desprezo», da intimidação e da violência, dimensões não
escritas da sua identidade. Conseguiu até que tudo isto se tornasse socialmente
aceite, uma espécie de mal necessário, uma excentricidade em forma de clube de
futebol com a qual tínhamos todos que aprender a viver.
Compreendam por isso o silêncio oficial, sem elogios
nem críticas. Compreendam também que os demais adeptos ou as instituições que
os representam não sintam o mesmo carinho por esta pessoa que agora nos deixa.
O respeito institucional pelo qual tantos clamam hoje não encontrou
reciprocidade nos últimos 40 anos. Compreendam que os adeptos questionem as
conquistas de um clube ou de um presidente quando estas foram manchadas por
décadas de práticas antidesportivas. Compreendam que esses adeptos jamais
venham a considerar imaculada uma herança deixada nestes termos.
Pinto da Costa fez tudo o que estava ao seu alcance
para ser a melhor coisa que aconteceu aos portistas. Não tenho dúvidas de que
conseguiu. No processo, tornou-se a pior coisa que aconteceu ao futebol
português. Parece-me que viveu sempre bem com esta minha opinião. Paz à sua
alma.»
Vasco Mendonça
em A Bola de 18 de Fevereiro de 2025
terça-feira, 19 de novembro de 2024
CRONICANDO POR AÍ
Cada vez mais curto o naipe de estrelas de Do Fundo do Coração, maravilhoso filme
de Francis Ford Coppola.
Teri Garr partiu a 29 de Outubro deste ano, Raul Julia
a 24 de Outubro de 1994, Frederic Forrest a 23 de Junho de 20123. Resta
Nastassja Kinski.
Muito ao seu estilo, Manuel S. Fonseca lembra Teri Garr:
«Começo esta crónica em regime de pura gatunagem. A frase é de Pauline
Kael e o que Kael disse foi isto: “Esta é a mais cómica, neurótica e
desorientada senhora do ecrã”. Estava a falar de Teri Garr, mulher que eu amei,
de baba e ranho, no “One From the Heart”, do saudoso Coppola.
Mel Brooks, o realizador de “Young Frankenstein”, uma daquelas comédias
que, de tanto nos fazer rir, temos a tentação de desvalorizar, quando a
convidou para o filme, estava cheio de dúvidas que partilhou com Gene Wilder o
actor principal: “Ela é deliciosamente linda, mas será que sabe representar?”
Gene foi cortante: “Who gives a shit?”, que em bom português quer mais ou menos
dizer “Estou-me bem a cagar”.
E agora quero dizer uma coisa elegante. É verdade que Teri Garr tem uma
incrível beleza, mas é uma beleza que, apesar da pele brilhante, apesar do
sorriso radioso, apesar do porém do seu colo suave (e já lá irei), é, dizia eu,
uma beleza que ela embrulha num celofane auto-depreciativo, como se nos
estivesse a dizer “caso não percebam que o melhor de mim tem um sabor de
especiarias e entontece como um dry-martini, então tomem e embrulhem”. Só a
prodigiosa Shirley MacLaine foi capaz de tanto desprendimento: mesmo Nossa
Senhora de Fátima tem a sua beleza em mais auto-estima do que Teri a que Deus
lhe deu.
E voltemos ao colo de Teri Garr. Antes de fazer a audição para o papel
de Inga, a assistente de laboratório de “Young Frankenstein”, Teri olhou-se ao
espelho e viu que o seu peitinho era de relativa irrelevância, atendendo ao que
deveria ser o pulposo seio de que um verdadeiro cientista gosta. “Caramba, não
vou perder o papel por causa das mamas”, pensou. Como é que eu sei que ela
pensou isto? Sei. E ainda estou a ver Teri Garr a caminhar para os armazéns da
Woolworth, onde se não estou enganado comprei um colchão (ou pelo menos uma
almofada) para o minúsculo quarto-kitchenette-wc em que vivi por três meses em
Los Angeles. Saí com um colchão, Teri com lenços e peúgas. Aconchegou tudo sob
o sutiã, em íntimo convívio com o acetinado e túmido da sua natureza (como é
que eu sei? memória minha do fugaz nu com Raul Julia no “Do Fundo do Coração”),
fazendo questão em explicar-nos: “As pessoas espatifam milhares de dólares em
cirurgias às mamas. Por cinco dólares no Woolsworth fiz a minha: foi dinheiro
muito bem gasto”.
Teri começou bailarina nos filmes de Elvis Presley. Foi um cometa a
iluminar cenas de filmes como “Os Encontros Imediatos”, de Spielberg, o “After
Hours”, de Scorsese, o “The Conversation”, de Coppola, o “Tootsie”, de Sidney
Pollack. Sabia dançar – adorei-lhe libidinosamente as pernas no “One From the
Heart” – mas sabia sobretudo enternecer.
Nesse “Do Fundo do Coração” deixa o namorado, o Frederic Forrest,
preferindo deslizar para uma aventura sexy e selvagem com Raul Julia. Um
desolado Frederic vem ao aeroporto para a convencer a ficar: implora, promete e
ela já vai a entrar na manga com o amante, quando, último recurso, Frederic
começa a cantar o “You’re my sunshine, my only sunshine”.»
Frederic canta maravilhosamente mal, um horror de ternura, um
sentimento de perda do quinto dos infernos. Teri pára, no grande plano dela
vemos então um carinho deliciado pela amorosa humilhação daquele homem. Como
quem diz, e não sei se diz mesmo: “Oh, que querido”. E depois continua, em
direcção à aventura, ao lado amante que promete fazer-lhe as coisas, em cima ou
em baixo, que ela anda com vontade de experimentar.
Teri Garr foi agora mesmo lá para cima, experimentar as coisas que já não pode ter cá em baixo.
quarta-feira, 6 de novembro de 2024
CRONICANDO POR AÍ
«Eusébio, Coluna, o pequenino Simões, o Torres gigante desciam da escada
do avião para a pista do Aeroporto de Luanda e uma alucinada onda de perfume
descia com eles. Ainda não disse: quem vinha à frente era o senhor Otto Glória,
brasileiro, com o seu crespo bigode mestiço, a impor respeito ao miúdo que eu
era, talvez 12, 13 anos. O Benfica, o SLB desses anos, cheirava bem. O Benfica
perfumava uma noite tropical, resgatava até uma noite colonial. Eu estava lá.
Já cá não estarei em 2050, mas o telepático futuro, em sussurro ou
estrépito, vem contar-me à noite as coisas que hão de vir. De 2050, o maléfico
futuro deu-me conta de elixires entorpecentes e de um Portugal apocalíptico.
Um spleen baudelairiano
afligirá os velhos. Em vez de jogarem à sueca nos jardins e baterem uma camuflada
manilha, atacam-se uns aos outros, numa nevrose inexplicável que uma cerrada e
negra melancolia há de cobrir.
Os jovens de 2050, conta-me o xamânico futuro, estarão abúlicos,
anémicos e anómicos. O sexo é fortuito, destituído de sedução, agora interdita,
um sexo imparticipativo, obrigado à repetição de um mecânico vaivém, nem bem
que entras, nem bem que sais, sem efusões ou magia.
O pesadelo é a regra de 2050. Os escritores soçobraram, perdido no
tempo o segredo da esplêndida prosa, entregues à lamúria de quem ignora o
mistério ou o engenho da alegria, o elixir da felicidade.
Toda a música é sonâmbula, e os coros estão proibidos – nos velhos e
decrépitos auditórios, os raros espectadores entreolham-se com horror. Não há
cânticos na rua, ninguém sabe já o que é uma mole humana unida à volta de um
rubro estandarte, narinas sôfregas, mãos trémulas de sentimento, numa só voz a
soletrar a vitória e a glória.
De onde vem essa decadência? Foi essa a patética pergunta que fiz ao
profeta de 2050. Vi-o ganhar a dimensão do colossal Gulliver. O espírito da
nação, gritou-me ele, afundou-se como o imemorial rio que seca. E acrescentou:
tudo começou, abrupta, inexoravelmente, dez anos antes, em 2040.
Descubram, então, a labiríntica verdade que nem a mais astuta sociologia
antecipou. Num tribunal, sentenciou-se um processo que o Ministério Público
começara no remoto, mortalíssimo ano de 2024. Um caso de corrupção desportiva,
que se arrastou por penosos e novelescos 14 anos. O réu foi, por fim, em 2040,
apostrofado e condenado: era, diz-me o xamã de 2050, um clube de futebol.
Condenado a baixar ao Hades que era a 4.ª divisão, o clube foi extinto. Dessa
certeza jurídica nasceu, como o perverso Baco da coxa de Zeus, a caducidade e
morte da fé de toda uma nação.
Ao primeiro vendaval de incredulidade, sobreveio o tufão da amargura.
Um torpe ateísmo sentimental derramou-se como véu negro sobre os corações:
todos os corações, o do rico e do pobre, mulheres, homens, as jovens raparigas
de perna lábil e lábios rouge,
os cândidos rapazes movidos a cerveja e a inescrutável e labiríntica
testosterona. Uma inteira nação, os políticos, a Assembleia da República, as
forças armadas, o inconsolável Presidente, mesmo o impávido jurista, uma
inteira nação, repetiu-me ele, transformara-se numa gigantesca barata kafkiana,
e de Dante imitou os nove ciclos do inferno.
O clube, confidenciou o xamã, era o mesmo desses rapazes que eu vira
descer as escadas de um avião em Luanda, esses rapazes, Eusébio, José Augusto
ou Humberto, que espalhavam fragrâncias na noite de África e nas tardes da
Europa.
Sonho ou pesadelo, acordei. Não voltarei a escutar o inverosímil xamã:
o futuro ou é glorioso ou nunca será. SLB forever!»
Manuel S. Fonseca na sua Página Negra
Legenda: o velho estádio da Luz ainda em construção.
sexta-feira, 1 de novembro de 2024
VELHOS RECORTES
Gosto de crónicas
Lidas em jornais e
revistas.
Quando publicadas em
livro, compro.
Esta é um velho recorte
do Expresso (sem data) que reproduz parte de uma das crónicas
que Ana Cristina Leonardo publicava no semanário
A essas crónicas deu
título: Isto Anda Tudo Ligado que soa ao título de um livro do Eduardo
Guerra Carneiro, por quem, certamente,
tinha amizade e admiração
Por motivos que ninguém
explicou - pelo menos que tivesse lido... - as crónicas deixaram de ser
publicadas. O mesmo aconteceu às crónicas do Manuel S. Fonseca.
Neste momento, Ana Cristina Leonardo publica, todas as
sextas-feiras, uma crónica no suplemento Ipsilon
do Público.
sábado, 17 de agosto de 2024
VELHOS RECORTES
Largamente já foi dito por aqui que sou um devorador entusiasta leitor de crónicas.
Lidas em jornais e revistas.
Quando publicadas em livro, compro.
Esta é um velho recorte do Expresso (3 de Junho de 2011) que reproduz a crónica que Manuel S. Fonseca ali publicava.
A essas crónicas deu título: «O Cinema dá o que a Vida Rouba».
Por motivos que ninguém explicou - pelo menos que tivesse lido... - as crónicas deixaram de ser publicadas.
Manuel S. Fonseca é proprietário da Editora Guerra & Paz e já deveria, como importante serviço público, ter reunido e publicado as crónicas que escreveu para o Expresso.
Talvez no Natal.
Digo eu!
terça-feira, 6 de agosto de 2024
CRONICANDO POR AÍ
«O Benfica é bom a formar miúdos. Tem é
um grande problema com os graúdos. A deformação do clube prossegue, mas não
desistamos. Um dia será possível contar outra história
Há uns dias, vi Rui Costa explicar que a
transferência de João Neves para o Paris Saint-Germain ainda não era oficial,
porque «nestas coisas» há sempre detalhes que é preciso ultimar, arestas que
devem ser limadas. Não deixa de ser irónico que os dirigentes do Benfica falem
com tanta tranquilidade e seriedade acerca destes negócios. Nunca um dirigente
do Benfica nos últimos 20 anos aparentou ser tão profissional quanto no momento
em que havia um atleta para vender.
É sempre nestes dias que os dirigentes
do Benfica vestem o seu melhor fato para uma cerimónia quase sempre deprimente.
Ontem, segunda-feira, minutos depois de confirmada à CMVM a venda de João Neves
por uns míseros 59,9 milhões de euros, fui confrontado com um daqueles recordes
que parecem ter sido pensados por uma equipa de guionistas. Ao que parece, o
Benfica é o clube no mundo com mais vendas por valores superiores a 60 milhões
de euros. A coisa é dita como se de uma proeza extraordinária se tratasse.
Respiro fundo e olho pela janela. Faço os possíveis por conter as lágrimas de
alegria e o orgulho deste desígnio em que se cumpre, afinal, o Benfica
contemporâneo. Penso por momentos em marcar encontro com alguns amigos no
Marquês, até que dou meia volta e lá abandono a ironia. É então que me lembro
do que está quase sempre em causa nestes dias. Um miúdo. Mas não é um miúdo
qualquer, como os 54 milhões — depois de comissão — parecem indicar.
É o miúdo da camisola impecavelmente
enfiada nos calções, fiel a uma imagem que o precedia em várias gerações de
ídolos, capaz de evocar o melhor da história do seu clube sem dizer uma
palavra. Não precisou. Estava tudo à vista desde o primeiro momento.
O miúdo com idade para ser tiktoker e
jovem promessa que pegou na primeira oportunidade e nunca perdeu tempo.
Preferiu chegar a adulto mais depressa e com isso tornou-se referência do
balneário e da bancada.
O miúdo bem formado, de maneiras raras
no futebol, imediatamente reconhecido pelos seus pares. Pelo que joga e pelo
modo como se apresenta. Um embaixador do Benfica e do desporto. Uma razão para
se gostar ainda mais de futebol.
O miúdo que sempre representou com a
maior elevação o clube do seu coração e que nunca se esqueceu dos seus outros
pares, os que estavam na bancada.
O miúdo que sempre compreendeu e abraçou
a responsabilidade de nos fazer sentir que quem está no relvado sofre tanto
como os que estão cá fora, o que muitas vezes foi tudo.
O miúdo que, de camisola impecavelmente
enfiada nos calções, deu tudo o que tinha por um clube com uma liderança
desfraldada que não fez nem quis fazer o suficiente para manter alguém que foi
Benfica da cabeça aos pés, do primeiro ao último minuto.
O miúdo que se fez homem no Benfica e
merecia continuar a escrever essa história. O miúdo que, antes de escrever na
sua biografia «capitão do Sport Lisboa e Benfica», viu o seu nome ser escrito
no balancete. Em vez de se tornar um inevitável símbolo humano da grandeza do
Benfica, o miúdo João Neves tornou-se mais uma página inevitável no rol de
transferências do clube que bate recordes de tudo o que diz respeito a
dinheiro, mas que, a cada ano que passa, encolhe um pouco mais face aos
adversários.
Este é o clube em que o dinheiro é
movimento na ordem dos milhares de milhões, mas ninguém considera admissível
que se questione que modelo de gestão é este em que há tanto dinheiro para
tanta extravagância absolutamente irrelevante, e não há dinheiro para um projeto
desportivo mais ambicioso em que atletas como este miúdo sejam sempre os
últimos a sair. Neste Benfica, a única coisa cerca quando um jovem talento
aparece é que a direção e os empresários de sempre estão prontos, como sempre
estiveram ao longo destes anos, para explicar que não havia nada a fazer, mesmo
que nunca se tenha tentado algo diferente. Aparentemente, a única coisa que os
dirigentes do Benfica têm como absolutamente certa no futebol mundial é que
qualquer negócio tem de pagar 10% de custos de intermediação a Jorge Mendes.
Pois bem, o miúdo João entra diretamente
para o vasto plantel dos jogadores que podiam ter sido heróis de uma história
improvável num clube gigante e contra-cíclico que gere o que é seu para se
tornar cada vez maior e não apenas para existir, porque sabe que assim estará
mais perto de fazer história. Mas, para surpresa de ninguém, ainda não foi
desta. Não sabemos exatamente o que obriga o clube a vender João Neves hoje,
porque ninguém não clube parecer realmente capaz de explicar. É mais fácil
responder com um sorriso quando nos falam nos golos do Pavlidis e dizer que não
se quer agoirar. Compreendo.
Os golos de um novo avançado dão muito
jeito para continuarmos a contar com a tolerância de sócios e adeptos, quem
sabe até com a sua amnésia ou indiferença face aos gigantescos problemas
estruturais que hoje condicionam a afirmação do Benfica. Os mais fortes
adversários do clube são, esses sim, aqueles que continuam a navegar à vista,
ao sabor de mais uma venda milionária para demonstrar que isto, seja lá o que
isto for, funciona, apesar de o dinheiro não trazer felicidade nem vitórias nem
grandeza, apenas a sensação desoladora de que somos, há demasiado tempo, uma
peça no carrossel de um empresário.
O Benfica é bom a formar miúdos, de
facto. Tem é um grande problema com os graúdos. A deformação do clube
prossegue, mas não desistamos. Um dia será possível contar outra história do
Benfica ao mundo. A de um clube lutador, muito antes de ser vendedor. É
inevitável.
Desculpa, João. E obrigado.»
Vasco Mendonça, hoje, em A Bola.
sábado, 20 de julho de 2024
CRONICANDO POR AÍ
«Segundo Donald Trump, “foi Deus que impediu que o impensável acontecesse”, no atentado de que foi alvo. Ou seja, foi o Criador que evitou que a bala do atirador trespassasse Trump, o que seria impensável, fazendo com que fosse antes atingir um antigo bombeiro, cuja morte é bastante mais pensável. Deus, nos intervalos de governar o universo, acompanha as eleições americanas, provavelmente através da Fox News, e não deixou que o candidato americano fosse abatido a tiro. Em 1914, Deus não interferiu no homicídio do arquiduque, em Sarajevo, e em 1963 não objectou a que Kennedy fosse assassinado, em Dallas.
Ricardo Araújo no Expresso.
terça-feira, 16 de julho de 2024
CRONICANDO POR AÍ
«Pode comparar-se um tractorista português a Sir Winston Churchill, que
foi primeiro-ministro de Inglaterra, e tinha a extravagância de charutos,
bebidas e outros prazeres hoje chibatados na praça pública? Eu diria que sim,
se o tractorista português emergir da longa noite que estava mesmo a acabar na
madrugada do dia 25 de Abril de 1974.
Mas antes de darmos essa voltinha de tractor, deixemos entre parêntesis
Churchill, bora lá à América e sentemo-nos com o escritor Truman Capote, de
quem Marilyn Monroe adorava ser confidente. Deliciadamente gay, Capote atraía
as mulheres e lá está uma, em Key West, derretida, a pedir-lhe um autógrafo. O
já bem bebido marido da dama, afrontado pela “frociagginice” de Capote – essa
qualidade que agora o Papa Francisco tornou famosa –, o marido, dizia, veio à
mesa do escritor, tirou para fora aquela ferramenta que, nas calças, um homem
não sabe se há de pôr para a direita ou para a esquerda, e disse: “Já que autografas coisas, autografa-me isto!”
Ora, “espontâneo” era o nome do meio de Capote, que logo disparou: “Oh, autografar não consigo, mas pôr as
minhas iniciais acho que dá!”
Seria Churchill tão espontâneo como Capote? Consta que não, que
agonizava para encontrar a frase certa, até nos discursos, mas quando a
irritação o instigava, a maldade tomava conta dele e feria como um escorpião. À
dama que em público insinuou que era uma vergonha a bebedeira com que ele
estava, logo Churchill esclareceu: “Estarei
desagradavelmente bêbado, milady, tal como a senhora é desagradavelmente feia,
mas amanhã eu estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia.”
E agora, música para os nossos ouvidos, prestemos atenção a uma lenda
da música clássica do século XX, o maestro inglês Thomas Beecham, a quem
devemos um precioso conselho: “Experimentem
tudo uma vez, menos o incesto e dançar folclore.” Beecham está ali, no
palco, a ensaiar com a orquestra. Mas tem em uma nova violoncelista. O maestro
enerva-se com a interpretação dela e grita-lhe, em registo mozartiano: “Minha senhora, tem entre as suas pernas um
instrumento que é capaz de dar prazer a mil pessoas e tudo o que é capaz de
fazer é arranhá-lo?!”
É altura de subirmos para o tractor: venham dar uma volta com o
seu anónimo condutor. Estamos na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 e
andaremos pelas 4:30 da manhã. Já passou um mês do falhado golpe militar das
Caldas e Portugal está uma pasmaceira expectante. Um homem vai no seu tractor e,
de Santarém, começa a ver camiões da tropa, tanques de guerra, uma coluna que
lhe parece infindável. Passam por ele, ronronantes, e vão em direcção a Lisboa.
É, embora ele não o saiba, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, que
irá derrubar Marcello Caetano, e com ele a mais velha ditadura da Europa. O
tractorista não sabe nada disso. Pára o tractor, contempla esses veículos
gigantes que rodam determinados para Lisboa, levanta-se e grita: “Seja lá o que isto for, viva!” Eis o
primeiro slogan do 25 de Abril, uma história que talvez seja só lenda, mas se a
lenda é bonita e merece passar a facto, imprima-se e deixe-se entrar na
história.
O nosso tractorista vale um Churchill e é bem mais prospectivo do que o
grande maestro Beecham. Ou mesmo do que Mark Twain. Enquanto o tractorista de
Santarém ou lá próximo está aberto ao futuro, Twain corria a esconder o seu
humor no passado. Quando lhe perguntaram o que faria se acontecesse o fim do
mundo, disse: “Se o mundo estivesse a
acabar ia para Cincinatti: é que lá tudo acontece 20 anos mais tarde!”»-
Manuel S. Fonseca na sua Página Negra
sábado, 6 de julho de 2024
CRONICANDO POR AÍ
De que matéria é que se fazem os sonhos? De letras, diria eu. Ora vamos e vejamos, os sonhos dos filmes, antes de serem sonhos, antes de serem aventuras, antes de serem gargalhadas, são palavras escritas. Há, para cada filme, um argumentista, a senhora ou senhor que escreve os textos, que hão de guiar o realizador e ser frases na boca aos actores. Há tempos, os argumentistas mais reputados em actividade elegeram o melhor de sempre na profissão.
Vejam, elegeram Billy
Wilder, um austríaco que pronunciava cada palavra inglesa com os pés, mas que
tinha ideias e sacava diálogos de uma afrontosa originalidade, para não dizer
virgindade. Escreveu coisas geniais e Ninotchka,filme realizado por Ernst Lubitsch, foi uma das
obras-primas que saiu da sua máquina de escrever.
Deram-lhe um mote: “Jovem russa impregnada de ideais
bolchevistas vai para a assustadora, capitalista e monopolista cidade
de Paris. Apaixona-se e passa uns dias de gozo do caneco. Talvez o capitalismo
não seja assim tão mau.” Deste briefing, Wilder inventou Ninotchka.
Pois bem, conhecemos a
revolucionária Ninotchka na sombria Moscovo e, claro, estamos todos à espera de
ver a cena da chegada, a uma gare de Paris, dessa Ninotchka, a que Greta Garbo
emprestou rosto, corpo e a rouca voz.
Na gare estão à espera
dela três camaradas soviéticos, já inclinados, pela vida que espreitam em
Paris, à condescendência social-democrata para a qual, durante os anos da nossa
geringonça, até mesmos os inflamados militantes bloquistas se deixaram
deslizar, direitinhos ao bolso de António Costa.
Digo isto e não é um
despropósito, há qualquer coisa de mortaguiano no primeiro contacto da camarada
Garbo com um representante da espécie chauvinista, arrogante, machista, que é o
aromático burguês de infeliz produção capitalista. Ela quer estudar a espécie,
como um entomologista a sua minhoca.
Como se fosse a
inescapável sessão de uma comissão parlamentar, Mortágua, perdão, a camarada
Greta Garbo disseca o bicho capitalista e expõe, com uma imbatível lógica
escolástica, as misérias que o lacinho de seda, o chapéu de feltro, o delicado
fatinho, procuram ocultar. É delicioso ver a comunistíssima Greta Garbo
desfazer a miséria do capitalismo.
Parêntesis:
verifiquei, com surpresa, tão justa e científica é a previsão do fim do
chauvinismo capitalista, que o filme foi, ao tempo, proibido na solaríssima
União Soviética, onde julgo que nada era proibido.
Palpita-me que a
culpa foi das palavras que Wilder pôs na boca de Ninotchka, depois dela
experimentar uns apaixonados french
kisses, arrancados aos lábios e língua do execrável burguês, beijos
acompanhados por umas flûtes desse
borbulhante champanhe, que faz a glória da França e é a única etílica libação
que a minha mulher, a revolucionária Antónia, consente.
E diz Ninochka, de
olhos postos no amado burguês e na taça de champanhe: “Estou tão feliz. Oh, que feliz que estou. Ninguém pode estar tão feliz
sem ser castigado. Vou ser castigada. Tenho de ser castigada.”
Wilder castiga-a! Se virem o filme, descobrem como: o sólido argumentista austríaco fá-la rir, e rir é o pecado que a velha revolução bolchevista nunca perdoou. Tenho de acrescentar que, hoje, o activismo militante, vetusto, furioso, albardado em culpas, ainda perdoa menos. A conversão de Ninotchka ao riso e ao prazer é o caminho das pedras da sua perdição em Paris e por Paris. As palavras de Wilder fazem com que a camarada Greta Garbo ponha cada pé na pedra certa, ou não fossem as palavras a matéria de que se fazem os sonhos.
Manuel S. Fonseca na sua Pàgina Negra
sábado, 9 de março de 2024
CRONICANDO POR AÍ
A crónica de Manuel S.
Fonseca, lida na sua Página Negra, tem o título de «Dry Martini ou o
Concorrente do Cavaco.
Toda a crónica é um belo
naco de prosa, como habitualmente, e copio estes parágrafos:
«Faulkner, o romancista de “Palmeiras Bravas”, era apreciador de um
rigoroso dry martini – como eu, quando tinha férias, antes de ser editor de
livros –, só o geladíssimo gin, límpido oceano oleado por uma impura azeitona e
pelo não mais do que aroma de uma gota de martini. Dizia Faulkner:
«Quando bebo um dry martini sinto-me gigante, sapientíssimo, elevado. Tomo o
segundo e sinto-me superlativo. Depois disso, não há quem me segure.» O
professor Cavaco que me perdoe, mas tem no dry martini o seu maior concorrente:
o dry martini abre auto-estradas sem precisar de PRRs ou subsídios europeus.
Como disse o superlativo Faulkner e eu mesmo, na minha modéstia, experimentei,
bebe-se e o veludo do gin cria no interior do ser humano uma larga e esplêndida
via de comunicação, um vácuo que precisa de metafísica e transcendência para
ser preenchido, caso de Faulkner, ou para espíritos mais prosaicos, como é o
meu caso, de picanha, churrasco, dantescas doses de queijo da serra.
Dorothy Parker não me desmente: “Adoro beber um ou dois dry-martinis.
Com três, atiro-me para baixo da mesa. Com quatro para o colo do meu parceiro.”
Não admira, por isso, que se diga que muitos escritores americanos que se
conheceram e incendiadamente discutiram noite fora, se se vissem à luz do dia
não se reconheceriam, já que nunca tiveram a infelicidade de se verem sóbrios.
O álcool mata e é duvidoso que os 15 graus de um bom tinto ou os
fulminantes 42,4 de um Laphroaig de 1960, vintage reserve, venham
acompanhados por camonianas “Ninfas amorosas, de amor feridas”, essas que olhos
marinheiros logo cobiçam. Mas também é verdade, o que o actor e cronista Robert
Benchley disse a um amigo que lhe censurava o dilúvio que o via emborcar,
avisando-o de que o álcool era “um veneno lento”: “Pois sim – respondeu
Benchley – e quem é que aqui tem pressa?”
Quem tinha pressa era Marguerite Duras. Levantava-se e esqueçam lá o
cafezinho matinal, Duras ao primeiro contacto com a luz solar precisava de
vinho ou whisky. Tenho de contar isto ao Pedro Nabinho, meu sócio na Guerra e
Paz e com culpas no cartório: ele, nos tempos do Festival de Cinema da Figueira
da Foz, batia-lhe à porta, em Paris, para lhe levar vinhos portugueses. Volto
às ninfas. Raymond Chandler, e bastava a leitura de “The Long Goodbye”, o mais
belo dos mais belos dos seus livros, para que tirássemos a camisa e a
rojássemos pelo chão para que ele nela limpasse os sapatos, confessou: “O
álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico. O segundo é íntimo, o terceiro
rotina. Depois disso, já é só arrancar à amada a roupa toda.” Ou, como um poeta
francês, quase ignorado, escreveu: “Quando o meu copo está cheio, esvazio-o/
Quando o meu copo está vazio, encho-o.” Copo erguido, à vossa!»
domingo, 16 de julho de 2023
CRONICANDO POR AÍ
Este calor de ananases anda a dar cabo de mim. Vingo-me em leituras frescas como esta crónica do Manuel S. Fonseca que roubo do seu blogue.
Também estive naquela mão do Vata, entalado no meio de
120 mil benfiquistas, mesmo no lado norte, no enfiamento da baliza, e juro que
não vi mão nenhuma e não vi por circunstâncias várias.
O Vata também não, e até morrer dirá que não houve mão
nenhuma, Talvez um ombro… «e cada um é
livre de pensar o que quiser…»
«O Valdo
cobrou um canto, o Magnusson saltou à minha frente e desviou de cabeça na área
e a bola veio ter na minha direção. Meti o ombro e foi golo.»
O Manuel S. Fonseca coloca uma imagem da mão do
Maradona, eu coloco uma imagem da mão do Vata, exactamente no dia em que ali
atrás declaro que irei comprar a «Vida de
Beethoven» da «Guerra & Paz», editora de que é proprietário este mesmo
Manuel S. Fonseca.
Saravá!
«Houve uma guerra, é bom que se diga. Eu
vou, é certo, falar de paz, da paz gritada, apupada, esfusiante e delirante,
que é um jogo de futebol. Não posso é esconder que houve antes uma guerra e que
as tropas inglesas da democrática Senhora Tatcher tinham agarrado pelos
colarinhos e humilhado as tropas do ditador argentino, o general Videla.
A guerra fora nas Maldivas, mas estava-se
agora no Estádio Azteca. O nome do estádio já provoca uma aflição
kirkegaardiana: a angústia dos ecos ancestrais do choque de índios e
conquistadores ressoava ainda em cada pedra do estádio. E estarem frente a
frente, nessa final do Mundial de 1986, no quente mês de Junho, as equipas da
Inglaterra e da Argentina, deixa cair sobre esse confronto um épico pingo de
“capsaicina”, a substância activa “del chile”, o picante que faz arder “las
carnitas” e “los tacos” mexicanos.
No Estádio Azteca, eram duas civilizações
que estavam frente a frente. E lembrem-se, o próprio esférico, uma estreia, era
uma bola novinha em folha, igualmente chamada Azteca, o nome a acordar os
demónios do passado, mas na forma um exemplo de revolução tecnológica, a
primeira bola de futebol a dispensar o couro, toda em adricron, um revestimento
sintético impermeável, trinta e duas faces hexagonais elegantes, e de uma
inquebrantável longevidade. O horror que foi jogar anos com bolas de catechu, a
que uma boa chuvada acrescentava meia tonelada: eis o que afogou o mínimo
Eusébio que havia em mim, a encharcada e incirculante bola de catechu.
Adiante e vejam, é a nova bola
revolucionária que circula entre Shilton e Lineker, entre Valdano e o pequeno
deus chamado Diego Maradona. Durante 45 minutos, esses dois mundos ressentidos,
a nórdica rosa dos Tudor e o azul ultramarino das pampas, mediram-se, sem se
ferir. Mas aos seis minutos da segunda parte, o defesa Steve Hodge tenta
aliviar a pressão sobre a sua área: a mal pontapeada bola ganha efeito e cruza
a área, Shilton, o guarda-redes, salta com Maradona. O punho de Shilton vai lá
acima, a 200 metros de altura, mas o pequeno Maradona, num exercício de
prestidigitação, voa 201 metros e a sua cabeça desvia a bola para o fundo das
redes. E há aqui um grande imbróglio teológico-anatómico: a cabeça de Maradona
ali, a 201 metros de altura, tão perto do céu, foi roubada por um Deus
omni-invejoso. Deus, sentindo o homérico jogo de futebol a roçar-lhe os
berlindes, quis também jogar e pôs a sua mão onde devia estar a cabeça
prodigiosa de Dieguito. Diga-se, àquela bola, toda feita do leve adricron,
bastaria, se Deus quisesse, um simples sopro, mas quem não quereria, em 1986,
mesmo Deus, sopesar na própria mão a leveza desse revestimento sintético, o
poliuretano, à prova de água.
Essa bola, a Azteca do Estádio Azteca de
1986, esteve, até ao ano passado, nas mãos do árbitro tunisino, Ali Bin Nasser,
que Deus iludiu naquela jogada disputada nas nuvens. Quis agora o árbitro,
sufocado pela insidiosa presença de Deus, descarregar a temível sombra sobre a
humanidade. Num leilão, alguém pagou 2,4 milhões de dólares para ter em casa a
bola que a mão de Deus tocou. Já pela camisola de Maradona, que ele, no fim do
jogo, dera a Hodge, o inglês que fez o involuntário centro, em leilão alguém
ofereceu e pagou mais de 9 milhões, a mais cara camisola de futebol de sempre.
Onde está, pergunto eu, a bola que a mão de
Vata meteu na baliza do Olympique de Marseille, no jogo que estes meus olhos
viram e que levou o Benfica à final da Liga dos Campeões? O que eu não pagaria
por ela em leilão!»
Manuel S.
Fonseca em A Página Negra
terça-feira, 4 de julho de 2023
CRONICANDO POR Aí
«Maria de Lurdes Modesto ao classificar como uma “obscenidade” o pastel de bacalhau com queijo da Serra, estaria decerto de acordo comigo (e eu com ela). E que dizer da recente invenção do pastel de nata com Nutella ou com sabor a maracujá, a não ser: volta Álvaro, estás perdoado?»
De uma «velha» crónica de Ana Cristina Leonardo no Público







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