Mostrar mensagens com a etiqueta Salazar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Salazar. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

POSTAIS SEM SELO


A Ponte sobre o Tejo foi inaugurada há 60 anos.

Chamou-se Ponte Salazar até ao dia da madrugada clara e limpa, e passou a chamar-se Ponte 25 de Abril.

Oliveira Salazar nunca concordou com a obra e nem por escassas horas um dia se dignou visitar as obras.

Calcula-se que cerca de 150 mil veículos e 174 comboios passam diariamente na Ponte 25 de Abril, totalizando mais de 300 mil pessoas.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

NESTE DIA

Neste dia, no ano de 1969, José Gomes Ferreira escrevia nos seus Dias Comuns, 7º volume que intitulou, Rasto Cinzento e lembrava o regresso do exílio de D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto:

quinta-feira, 10 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS


 

Antes do 25 de Abril: Era Proibido

António Costa Santos

Capa: Ilídio J.B. Vasco

Guerra & Paz, Lisboa, Março de 2025-04-10

Há 60 e tal anos, os estudantes de Maio escreviam nas paredes de paris «É proibido proibir!» Há uns 40, Fausto, o cantor lembrava que «atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir». Mas que esta mania parece difícil de erradicar, lá disso não tenhamos dúvidas. E ainda parece estar a ganhar novo fôlego com a chmada cultura de cancelamento. Vamos ter cuidado?

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


O Processo do Salazarismo

Pedro Ramos de Almeida

Capa: Delgado Godinho sobre ilustração de Henrique Ruivo

Edições Avante, Lisboa Novembro de 1983

O regime político português actual, o Estado Novo, é uma ditadura fascista que se seguiu ao golpe de Estado militar de 28 de Maio de 1926

Salazar, que foi ministro das Finanças da ditadura militar (27 de Abril de 1928) antes de se tornar ditador, definiu o carácter permanente da ditadura nos seguintes termos:

«As ditaduras não me parecem ser hoje um parêntesis de um regime, mas elas próprias um regime, se não perfeitamente constituído, um regime em formação.» (26.5.1934)

O pensamento do ditador revela-se com nitidez na seguinte afirmação:

«Não há dúvida de que a democracia política, sob a sua forma parlamentar e partidária, entrou há muito em crise de descrédito e em decomposição (…) Há-de arrastar-se décadas; filosoficamente pode dizer-se que está ruindo pelos alicerces.»

(4.7.1957).

«Democraca. Liberdade, reacção, progresso, além de outros, são no espírito de quase todos nós puros mitos, abstracções de que não se pode tirar regra de conduta nem finalidade nacional», dirá muito claramente Salazar no prefácio dos seus Discursos, em Novembro de 1943, já quase no termo da Segunda Guerra Mundial…

O fascismo português, inspirou-se nos regimes de Mussolini e de Hitler, e copiou mesmo a organização do corporativismo italiano.

domingo, 5 de novembro de 2023

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE


«Não é a primeira vez que o digo. Lá em casa foi tudo preso pelo menos uma vez. Escapou o gato chamado Pompidou. Reconheça-se: um belíssimo nome para gato. A escolha resultou da vitória de Georges Pompidou nas eleições presidenciais francesas de 1969. Fora Alain Poher o eleito, e Poher, muito menos adequado, teria sido. Escapou o gato e escapei eu graças à minha proverbial mania de descumprir horários.


A reunião dos estudantes de Liceu estava marcada para Lisboa no Instituto Superior de Economia (hoje ISEG). Sem aviso prévio, e ironicamente por razões de segurança, foi mudada para a Faculdade de Medicina. Ora tendo eu já chegado atrasada a Económicas, muito mais atrasada cheguei ao Hospital de Santa Maria. Resultado: quando cheguei a Santa Maria já tinha seguido tudo de ramona para o Governo Civil. E foi assim que a 16 de Dezembro de 1973, desistindo de continuar a calcorrear a capital atrás da PIDE e para mais ao domingo, ilesa, apanhei o comboio e fui para casa. Confirmo: era domingo.
(…)

Chegava-se a Caxias por um caminho de terra ladeado por chorões rastejantes de madeixas coloridas, o mar azul ao fundo. Hospital prisional, Caxias era sobretudo o grande refeitório de mesas redondas onde as visitas se sentavam lado a lado com os reclusos a partilhar o inevitável frango assado, prato nacional de todas as ocasiões. Havia até um quadro preto em ardósia e paus de giz brancos para as crianças se entreterem, poupando-as à intimidade triste dos adultos.

Peniche era outra coisa. Uma coisa mais parecida com o inferno. Começava cedo. Uma camioneta arrastava-se e vencia curvas e contracurvas conduzindo-nos penosamente ao destino. Os ziguezagues da estrada, o cheiro do combustível, a comida requentada. O vómito era certo. Chovia quase sempre. Frio. Vento. O mar revolto. Peniche para mim será sempre Inverno. A prova de que a memória é traiçoeira: as viagens a Peniche duraram praticamente três anos. Várias estações.

O quarto onde por vezes pernoitávamos (eu e a minha mãe) destilava humidade. A dona da pensão vestia de preto. Pequena, magra, medrosa, um fio de voz. Talvez a invente assim.
No Forte, um corredor interpunha-se entre as visitas e os presos. Pelo corredor pavoneava-se um guarda peripatético que batia os pés. Por vezes, os presos faziam greve às visitas; outras, estavam de castigo (a expressão usada) e eram-lhes recusadas. O vómito tinha sido em vão.

À saída, a reunião fugaz dos familiares parecia trazer normalidade. Conversas, cumprimentos, correrias de crianças, gestos de apoio e cumplicidade. Era quase uma festa aos olhos inocentes de uma criança. A inocência é uma bênção. Depois perdemo-la.»

Ana Cristina Leonardo, de uma crónica no Público.

Legenda: fotografia do Público.

sábado, 4 de novembro de 2023

DE S. BENTO AO ALTO MINHO


Terá António Oliveira Salazar se perdido de amores com a francesa Christine Garnier, jornalista francesa que veio a Portugal para entrevistar Salazar, passeando-se por São Bento e pela casa do Vimieiro?

 O pide Rosa Casaco, que fez as fotografias para o livro «Férias Com Salazar», numa entrevista de José Pedro Castanheira, publicada no Expresso de 21 de Fevereiro de 1998, admite que sim.

Perguntado sobre as propaladas relações de Salazar com Dona Maria, declara que isso não passa de uma infâmia. Salazar nunca desceria tão baixo, não se rebaixaria a ir para a cama com uma criada. As relações deles eram as de patrão e criada. Ele era um aristocrata, íntegro em tudo. As relações deles eram as de patrão e criada».

Maria do Céu Ricardo, que escreveu a peça em 1 acto, dividido em três cenas, Salazar, Deus, Pátria, Maria, deixa, no decorrer da peça, largos desabafos de Dona Maria:

«Sou para aqui uma coisa, Maria para isto, Maria para aquilo…, passei a vida a servi-lo, sempre à espera, sempre na sombra a apaparica-lo. Sempre a pensar que talvez um dia, quem sabe, ele olhasse para mim para me ver… Não para me dar ordens, olhasse para mim como ele olha outras mulheres, com outra delicadeza no olhar…»

(…)

»A francesa!... Cá está outro romance que esfriou. Hoje ele diz que ela era muito agitada para o seu gosto, «um vendaval de simpatia e uma desordem perfumada. Isso é o que ele diz hoje. Ela também se enervava cada vez mais com Lisboa e les gens… Sabe que nunca gostaram dela em Portugal. O povo, as mulheres, as madames de cá, não lhe perdoaram as intimidades. Andam todas à volta dele, como borboletas e depois julgam que são as únicas. Todas são únicas enquanto duram. Só eu é que sou a única de todos os dias, a que lhe atura as madurezas.»

quarta-feira, 8 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Assim entendia Salazar o papel da mulher na sociedade.

«O trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.

Salazar em 1936.

A mulher quer-se é em casa. A mulher obesa e estúpida que despeja penicos e põe as refeições na mesa. Nas casas de muitas infâncias podia encontrar-se um quadrinho que dizia: «Cá em casa manda ela e nela mando eu».

Tal como dizia a mãe à Emilita: «Quando fores grande, hás-de ser uma boa de casa.», lia-se no Livro Único da Terceira Classe

«Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez, meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os fatos-macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.»

Maria Velho da Costa em Cravo

Em Outubro de 1970, uma reportagem do Diário de Lisboa, referia que a escassez da mão-de-obra masculina – a emigração e a guerra colonial levava os homens do país… - e o pagamento inferior do trabalho feminino tinham feito surgir de mulheres a trabalhar nas estradas nacionais em reparação. Quarenta mulheres em Alcácer do Sal, sob sol escaldante, lançavam e espalhavam o saibro na estrada.

Então, o encarregado da obra soube dizer ao repórter: «Elas são melhores para este trbalho. Dobram-se melhor. Os rins delas aguentam-se mais tempo curvados e são menos insofridas do que os homens».

Faltou-lhe dizer que também ganhavam muito menos do que os homens.

No século XVII, já um tal D. Francisco de Melo se ria dos que julgavam as mulheres intelectualmente aos homens.

«Diz mulher ao teu país como lutaste até hoje o que fizeram de ti o que quiseram que fosses como prenderam teu grito sob a boca amordaçada mas como cantaste assim do teu teu desgosto apertada.»

Maria Teresa Horta em Mulheres de Abril.

sábado, 29 de janeiro de 2022

QUOTIDIANOS


Salazar tomou conta do país em 1933.

Vivia-se miseravelmente.

Em 1935 a CARRIS, por ideia de Teotónio Lima, subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social, cria o «bilhete operário».


Nas carreiras entre Belém-Almirante Reis, Belém-Caminhos de Ferro, Ajuda-Rossio, Rossio-Poço do Bispo e Praça do Comércio-Alto de São João., devidamente identificadas como Carros operários.

O bilhete operário tinha de ser comprado entre as 5 as 8 horas da manhã e o retorno verificava-se entre as 17 e as 20,00 horas. Dependendo das zonas a utilizar, começaram por custar 30 e 50 centavos.

Os bilhetes operários acabaram no início dos anos 70.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

SALAZAR? NÃO CONHEÇO!

19 de Abril de 1967

Soube hoje que o Salazar escreveu pessoalmente ao embaixador de Portugal em França a pedir-lhe que organizasse uma homenagem, ou coisa parecida, à pintora Vieira da Silva (que é agora cidadã francesa em virtude do marido ter adquirido essa nacionalidade, depois de lhe negarem a cidadania portuguesa por ser judeu e apátrida).

O embaixador, claro, rata sabida, mandou consultá-la por portas travessas.

Mas a grande pintora europeia limitou-se a responder:

-Salazar? Quem é? Não conheço. Não é das minhas relações.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume II 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

O PAÍS QUE FOMOS


Há os que viveram e nunca perceberam, ou quiseram perceber, o país em que viviam.

Há os que perceberam e quiseram esquecer.

Há os outros.

Nesses outros há os que não quiseram, ou não conseguiram, ou não souberam dizer aos filhos o país em que tinham vivido.

O recorte pertence a um artigo de opinião de Isabel do Carmo, A Propósito de Vencedores e Vencidos no 25 de Abril de 1974, publicado no Público de 4 de Julho de 2021.

sábado, 20 de fevereiro de 2021

POUCAS-VERGONHAS!


 Há muito que tinha o recorte numa pasta, mas quando leu O Caçador de Histórias do Eduardo Galeano, achou um piadão que o escritor uruguaio tivesse caçado a história, lhe chamasse castigos e talvez concluísse que o decreto é mesmo uma aberração, só ao alcance de gente muito pequenina e má, gente que dirigiu os destinos do povo que somos, ou pensamos ser.

Recorda-se que num distante dia, estava na secção de chocolates do Lidl, os chocolates olhavam-no, ele olhava os chocolates, mas desviou completamente os olhares: o colesterol, o sangue grosso, o raio que os parta, caminha um pouco e deu para ouvir a conversa de duas senhoras bem entradotas:

- Uma pouca vergonha! Não há respeito nenhum, só falta coisarem onde calhar…

O alvo da converseta eram dois jovens que se beijavam, no meio das estantes do super quando muito bem lhes apeteceu que isso acontecesse, as senhoras entradotas eram gente que viveu os seus desejos, se é que os viveram…, na clandestinidade do que quer que fosse, no vão de uma escada, como contou  o poeta Manuel da Fonseca «uma vez que chovia até entrámos numa escada, somente um beijo trocámos…»

Afastou-se de imediato, aquele «coisar» soube-lhe ao princípio do mundo e saberia que não tardaria:

- O que faz muita falta é um outro Salazar!...


A portaria da Câmara Municipal de Lisboa determina:

«Verificando-se o aumento de actos atentórios à moral e aos bons costumes, que dia a dia se vêm verificando nos logradouros públicos e jardins, e, em especial, nas zonas florestais de Montes Claros, Parque Silva Porto, Mata da Trafaria, Jardim Botânico, Tapada da Ajuda e outros, determina-se à Policia e Guardas Florestais uma permanente vigilância sobre as pessoas que procurem frondosas vegetações para a prática de actos que aventem contra a moral e os bons costumes. Assim, e em aditamento àquela Postura nº 69.035, estabelece-se e determina-se que o artº 48 tenha o cumprimento seguinte:
1º) Mão na mão: 2$50
2º) Mão naquilo: 15$00
3º) Aquilo na mão: 30$00
4º ) Aquilo naquilo: 50$00
5º ) Aquilo atrás daquilo: 100$00

Parágrafo único: com a língua naquilo: 150$00 de multa, preso e fotografado.»

Corria o ano de 1953, ele tinha 8 anos, e, hoje, sabe que aquele foi o Portugal em que, muitos outros foram crescendo e sabe que muita daquela gente não conseguiu ver mais além do que foi o seu limitado mundo. Recorda-se que havia, entre rapazes e raparigas, uma distância, uma separação absoluta. As escolas não eram mistas. Havia brincadeiras de rapazes e brincadeiras de raparigas. Na rua os rapazes jogavam à bola, as raparigas espreitavam-nos atrás das cortinas das janelas. As festas de aniversário, quando as havia, eram a única hipótese da possibilidade de um pingo de convívio e, mesmo assim, muito, muito mesmo, rigorosamente vigiado.
Foi este o Portugal de que tentámos escovar-nos e, possivelmente, sem resultados muito claros, ou sem resultados de qualquer espécie. Esse Portugal que o Alexandre O’Neill deixou bem retratado: «às duas por três nascemos, às duas por três morremos e a vida não a vivemos, não somos mais que solidão e mágoa…Ó Portugal, se fosses só três sílabas, linda vista para o mar, meu remorso, meu remorso de todos nós.»

Gentes de moral rígida, de bons comuns terão sido autores daquele decreto, outras gentes, passados uns anos, envolveram a ditadura de Salazar num buraco sem fim, que ficou para a história com os «ballets rose».

Gentes de moral rígida, de bons costumes, pois então!

O escândalo rebentou em 1967, em que muita rapaziada, de diversos cargos da ditadura, participaram em orgias com crianças, também com prostitutas: ministros, empresários, banqueiros, militares, condes, marqueses, padres.

Quando soube, a todo o custo, Salazar tentou ocultar o escândalo.

Em Portugal, mais ou menos, conseguiu, mas Barry O’ Brien, jornalista do Sunday Telegraph, colocou o escândalo na praça pública internacional.

Salazar à beira de um ataque de nervos, fica a saber que Antunes Varela, seu ministro da Justiça, quer que a investigação vá até ao fim, exonera-o e manda a PIDE arranjar um caldinho em que Mário Soares, Francisco Sousa Tavares, Urbano Tavares Rodrigues são presos com a acusação de que terem fornecido as informações ao jornalista inglês.

Posteriormente, Mário Soares é deportado para o exílio em São Tomé e Príncipe.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...

São muitos, mas mesmo muitos, os saudosos de Salazar, o que considerava que as torturas que a PIDE infligia aos presos, eram «meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras».

Esses saudosos desataram, agora, a invocar a necessidade de um governo de salvação nacional e convidam Marcelo Rebelo de Sousa a tomar a iniciativa.

Marcelo mandou-os ter juízo.

Num seu artigo de opinião no jornal Público, José Pacheco Pereira escrevia: «Não deixem os actuais “liberais” apropriarem-se da palavra “liberdade”.

E concluía:

«É por isso que depois de ter lido cem vezes a palavra “libertar”, de uma coisa estou certo: não é de “libertar” da pobreza, da desigualdade, da exclusão que se está a falar. E não digo isto por qualquer vontade de “atacar” a Iniciativa Liberal, mas porque é mesmo assim. É também por isso que eu não quereria que a palavra “liberdade” fosse capturada por estes “liberais”.»

No mesmo jornal Público, transformado num dos muitos coios  destes ditos «ultra-liberais», um traste que dá pelo nome de Fátima Bonifácio, 11 de Fevereiro, bolsava:

«Vejo no Chega precisamente pelo alarme que causa, um possível pelotão da frente para abrir caminho a uma direita clássica, democrática e – sobretudo – liberal.»

Esta gente já fala em pelotões da frente, e, é urgente e necessário, que enquanto isto vai sendo pensado e dito, não nos quedamos a discutir o sexo dos anjos.

1.

Este frio mata as almas, diziam os velhos quando Janeiro e Fevereiro lhes batia às portas.

Ao fim de tantos dias de frio e chuva, voltou o sol.

Sabemos que a Primavera virá, mas mais importante, é estarmos à espera da sua chegada.

3.

O Santuário de Fátima vive um ano dramático. Com quebras de 50% dos donativos.

O drama dos pais que já não conseguem dar de comer aos filhos.

Uma trabalhadora de um «call-center» numa reportagem no Público:

«Eu se quiser ser uma boa mãe, sou uma má trabalhadora . E vice-versa.»

3.

Este silêncio esmagador, algo maligno.

4.

Há dias, Pedro Tadeu, recreando os Panfletos de Ruben Carvalho, lembrava a canção «Goodnight Irene»  gravada pela primeira vez por  Huddie Ledbetter em 1933.

Terei conhecido a canção, na voz de Nat King Cole, no correr de finais dos anos 50, princípios de 60, e ficou-me no ouvido. Mais tarde percebi de onde, e como vinha.

Julius Rosenberg, juntamente com sua mulher Ethel Rosenberg, injustamente acusados de espionagem a favor dos soviéticos, foram condenados à morte na prisão de Sing Sing.

A execução ocorreu no dia 19 de Junho de 1953.

Os tempos do McCarthismo nos Estados Unidos, arrepiam, causam horror.

Um verdadeiro clima de paranoia anti-comunista durante aquilo que a história chama de «guerra-fria».

Joseph McCarthy encetou uma autêntica «caça às bruxas», denunciando a presença de comunistas infiltrados no sistema norte-americano que abrangeram escritores, jornalistas e de que se conhecem episódios gritantes em Hollywood, uma perseguição impiedosa a realizadores, actores, argumentistas, etc., em audiências que espalharam o terror, deixando sequelas nunca completamente iluminadas. Olhe-se o consulado do tarado Donald Trum enquanto presidente dos estados Unidos, e não só.

A célebre pergunta:

«Alguma vez foi membro ou participou em actividades ligadas ao Partido Comunista?»

Julius Rosenberg, como última vontade, quis ouvir «Goodnight Irene».

«Boa noite, Irene, boa noite, ver-te-ei nos meus sonhos.»


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

NOTÍCIAS DE PORTUGAL


Talvez se lembrem do «crime», aqui revelado, de mandar os exemplares da revista Panorama para venda ao quilo, juntamente com outras publicações, editada pelo SNI, incluindo o livro de Christine Garnier «As MinhasFérias com Salazar» co fotografias do pide Rosa Casaco.

Mas naquela tarde, apesar da falta de espaço para arrumar livros que reinava na casa, o meu pai resolveu conservar a colecção encadernada do Notícias de Portugal.

O Notícias de Portugal era um boletim semanal, veículo de propaganda salazarista, tiragem de 75 mil exemplares em papel bíblia e destinado às comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo.

O 1º número está datado de 10 de Maio de 1947 e a notícia de 1ª página é a aprovação pelo governo da Construção da Ponte de Vila Franca de Xira, «uma das maiores da Europa».

Nestes volumes está toda a história desse Portugal vista pelo lado da ditadura: os acontecimentos, os discursos de Salazar, dos restantes ministros, dos Presidentes da República, as Conversas em Família  de Marcelo Caetano.

 O último número do Notícias de Portugal é o1408 e está datado de 29 de Abril de 1974. Na 1ª página pode ler-se: Movimento das Forças Armadas tomou o poder e entregou-o a uma Junta de Salvação Nacional presidida pelo General António de Spínola.»


Curiosamente na última página do Nº 1405, datado de 6 de Abril de 1974, há uma fotografia de Marcelo Caetano no Estádio de Alvalade, com a seguinte legenda: «O Presidente do Conselho, acompanhado dos ministros Dr. Mário de Oliveira e Prof. Veiga Simão e do subsecretário de Estado Dr. Caetano de Carvalho, assistiu ao encontro Sporting- Benfica. O numeroso público tributou-lhes caloroso acolhimento»

Sabe-se que o acolhimento não foi muito caloroso, algumas palamas mas também uma forte assobiadela.

Por esse número, fica a saber-se que o Benfica ganhou por 5 a 3, com golos de Humberto, Nené, Jordão, Vítor Martins. Pelo Sporting marcaram Yazalde e Dé, de grande penalidade.

A notícia adiantava que com a derrota do Porto com o Olhanense por 2-1 e a 3 jornadas do fim só três equipas poderiam ganhar o campeonato: Sporting, Benfica e Vitória de Setúbal. Sabe-se que foi o Sporting que acabou por ganhar esse campeonato.

Depois do 25 de Abril deixou de se chamar Notícias de Portugal, passou a chamar-se Portugal Hoje, editado pelo Ministério da Comunicação Social. O 1º número está datado de 11 de Maio de 1974 e o último de 3 de Maio de 1975.

Neste último número fica a saber-se que o Benfica foi empatar a Alvalade a uma bola e com esse resultado, a uma jornada do Benfica garantiu a conquista do 18º título. O Espinho e o Olhanense desceram de divisão, o Académico de Viseu e o Oriental foram disputar a “liguilla”. Na Zona Norte do Campeonato da II Divisão o primeiro lugar era ocupado pelo Sporting de Braga.

A colecção do Notícias de Portugal constitui um valioso apoio de trabalho para se conhecer o país que éramos, uma visão, claro está, determinada pelos olhos do regime.

Mas é assim que se faz a História. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

SALAZAR CRÍTICO LITERÁRIO



 

De Salazar talvez se possa dizer que sabia de finanças, mas não tinha biblioteca.

Lia uns livros avulso que os ministros lhe levavam quando iam a despacho, passava os olhos pelo Diário de Notícias.

Mas segundo li no JL, deu-se ao cuidado de tecer algo sobre um livro de Ruben A.

«Caiu-me ontem debaixo dos olhos um livro, Páginas II, de Ruben A., que me dizem ser leitor de Português em Londres, escolhido portanto ou patrocinado pelo Instituto de Alta Cultura. Pertence a uma boa família do Porto – Andresen, creio. O livro, ou é de um louco ou de um sujeito que, tendo dinheiro para pagar um livro de dislates, se propôs rir-se de todos nós. Há páginas inteiras completamente ininteligíveis e irredutíveis na análise das regras da gramática portuguesa, recheadas de termos de invenção do Autor e formadas sem tom nem som. Explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco, não só da língua literária, mas do falar corrente.

As porcarias, obscenidades, palavrões juncam o livro. Em certas passagens é chocarreiramente desabrido com os ingleses. Parece-me que o livro pertence a uma onda modernista, e não é um caso para a Censura e para a polícia de costumes. Mas se o autor é leitor em Londres, temos nós de ver o que escreve e como escreve. Em conclusão: o Autor não pode representar Portugal nem ensinar português. Esse é que é o ponto essencial a tratar com o Instituto de Alta Cultura. E já não falo de certas morais ou sexuais do livro se vê que o Autor deve pertencer aí a um círculo de pessoas que a polícia persegue.»

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

RAPIDAMENTE E EM FORÇA!


Há 60 anos, um grupo de guerrilheiros desencadeia uma série de acções em Luanda, como o assalto a prisões para libertar presos políticos.

O MPLA considera esta data o início da luta armada pela independência de Angola.

O « annus horribilis» de Salazar começara a 21 de Janeiro com o assalto ao paquete Santa Maria.

A 16 de Janeiro, Salazar dirá ao país:

«O Santa Maria está connosco! Obrigado, Portugueses!»

Antes, Salazar, no salão nobre do paquete, esteve reunido com o comandante, oficiais, criados e outros elementos de bordo.

A propaganda realçou a saudação de um criado negro que lhe disse:

«Estou feliz, Sr. Presidente. Voltámos a Portugal! Deus nos levou… Deus nos trouxe.»

O repórter vinca a ideia de que Salazar estava «profundamente emocionado».

A 4 de Março chegam a Lisboa os corpos dos militares e guardas da P.S.P que, no dia 4 de Fevereiro, tombaram no ataque às prisões de Luanda.

Uma vez mais, a propaganda do regime dirá aos portugueses:

«Portugal inteiro chorou os seus mortos, vítimas do cumprimento do dever. Mas no sangue derramado desses mortos, desses heróis, se cimentou mais ainda a perenidade da Pátria e a união indestrutível de todos os portugueses.»

Dias depois, o Ministro da Marinha almirante Quintanilha Mendonça Dias, num  banquete oferecido aos adidos navais acreditados em Portugal, deixou um aviso:

«Não é só Portugal que está em perigo é a civilização ocidental que corre perigo, e de morte.»

Em Abri,l Salazar passa também a exercer as funções de Ministro da Defesa Nacional e no dia 13 proferirá a frase histórica:

«Andar ràpidamente e em força é o objectivo que vai pôr à prova a nossa capacidade de decisão.»

Mas o «Annus horribili» de Salazar conhecerá outros registos:

A 16 de Dezembro, Nehru determina a invasão de Goa, Damão e Diu:

Na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro acontece o assalto ao Quartel de Beja. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

RELACIONADOS


Em 1952  Vacances avec Salazar é publicado em França.

No mesmo ano sai a edição portuguesa da responsabilidade da Parceria A.M. Pereira, com fotografias do pide António Rosa Casaco e sem indicar o autor da tradução.

Acima mostra-se a capa da edição da A.M. Pereira, tirada da internet, que o meu pai entendeu vender ao quilo, juntamente com exemplares da Panorama e outras edições do S.N.I.

Bernard Grasset, editor francês, criou a coleção «Les Grandes Figures du Monde» com a intenção de poder dar ao público uma ideia da vida quotidiana e da maneira de ser dos grandes homens da sua época.

No prefácio, sem indicação do autor, à edição portuguesa daresponsabilidade de Fernando Pereira, pode ler-se:

«Um dia o editor Bernard Grasset chamou a jovem escritora:

- Prepare-se para ir a Portugal. Vai escrever um livro para mim sobre o presidente Salazar.

- Quem é?

- Ignorante, selvagem! É o promeiro-ministro e a pessoa que governa Portugal há dezenas de anos. É um homem de um outro século, umm filósofo, quase um santo. Vive como um frade. Detesta jornalistas e escritores. Foi por isso que a escolhi. Não sabe nada de política? Que importa? Pelo contrário, é óptimo. Não proteste. Tudo já foi cominado com a Embaixada de Portugal. Você tem o avião dentro de dez dias.»


A Loja Frenesi tem para venda um exemplar da edição francesa.

 Transcrevo:

CHRISTINE GARNIER

Fotografias de Bret Koch e [António Rosa] Casaco

Paris, 29 de Fevereiro, 1952

Bernard Grasset, Éditeur

1.ª edição

tiragem privada em papel Japão Imperial

24,2 cm x 16,3 cm

254 págs. + 12 folhas em extra-texto (reproduções fotográficas)

encadernação luxuosa da época (assinada pelo encadernador Victor Santos), inteira em pele com nervuras, gravada a ouro em ambas as pastas, na lombada e nas seixas; aparado e carminado à cabeça, conservando por aparar todo o plano de entrada na máquina de impressão; mantém as capas de brochura

a vinheta na lombada representa a Fénix

exemplar como novo

É O EXEMPLAR N.º I DE UMA TIRAGEM ESPECIAL FORA DO MERCADO, DE APENAS OITO, TENDO O VERTENTE SIDO IMPRESSO «SPÉCIALEMENT POUR: SON EXCELLENCE LE GÉNÉRAL CRAVEIRO LOPES, PRÉSIDENT DE LA RÉPUBLIQUE PORTUGAISE»

1.750,00 eur (IVA e portes incluídos)

pedidos para:

pcd.frenesi@gmail.com

telemóvel: 919 746 089

OLHAR AS CAPAS

Férias Com Salazar

Christine Garnier

Sem indicação de tradutor(a)

Prefácio sem indicação de autor

Capa: Mestre António Lino

Fernando Pereira Editor, Lisboa s/d

Tenho confiança! É com estas palavras de Salazar que terminam as nossas conversas.

Maria apareceu na varanda em vestido domingueiro. Arranjou o ar um pouco solene dos que acompanham à estação um amigo que parte para longa viagaem. Fala ao Presidente em voz baixa.

- O comboio não tarda em passar em Santa Comba – traduz Salazar. – Tem de partir.

Então, Maria oferece-me a sua prenda de adeus, um «naperon» de tecido fino que ela minuciosamente bordou para mim com pequeninas rosas, e soluça quando a beijo.

- Muito obrigada – digo, comovida

É esta a única expressão portuguesa que aprendi enquanto estive no Vimieiro. Não conheço outras palavras para exprimir a Mria a minha gratidão.

- Saudades – responde ela através das lágrimas.

- Quanto lastimamos a sua partida – interpreta Salazar.

- Quantas saudades levo!

Será necessário acresentar mais alguma coisa?

Esperam-me para me levar à estação. O carro afasta-se rapidamente. Mal tive tempo de ver pela última vez a imponente figura de Salazar. Como de costume, na luz um pouco velada, fica à porta. Imóvel. Só.

domingo, 5 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL

Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.

O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia. por Fátima. «apareceu» a três pastorinhos.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2017

sábado, 4 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

O ANNUS HORRIBILIS DE SALAZAR

O segundo ano da década de 60, é o annus horribilis da ditadura de Salazar.

Efectivamente, nesse ano, começa o caminho, longo e difícil de 13 anos que há-de culminar na madrugada do 25 de Abril de 1974.

No dia 22 de Janeiro de 1961, o paquete Santa Maria, a navegar no alto mar, é assaltado, a 4 de Fevereiro, em Angola, ocorrem incidentes que serão o rastilho do deflagrar da guerra colonial, o apelo de Salazar: para Angola, rapidamente e em força, em Março, verifica-se golpe militar do General Botelho Moniz, em Julho a República do Benim intima Portugal a abandonar o Forte de São João Baptista de Ajudá e Salazar ordena ao responsável para o incendiar, em 19 de Novembro, Palma Inácio desvia um avião da TAP, que fazia a carreira Casablanca-Lisboa, lançando panfletos sobre a capital portuguesa, a 18 de Dezembro, a União Indiana invade Goa, Damão e Diu, por fim, no último dia do ano, ocorre o assalto ao Quartel de Beja.



Faz hoje 50 anos que umas escassas dezenas de idealistas portugueses e espanhóis, comandados por Henrique Galvão e Jorge Soutomaior, apoderaram-se do paquete Santa Maria. O plano designado por Operação Dulcineia, personagem do D. Quixote de Cervantes, consistia no desvio do navio, para posterior ocupação da colónia espanhola de Fernando Pó, de onde se partiria para Angola, iniciando um levantamento insurreccional contra as ditaduras ibéricas.



Para mais uma das suas viagens regulares às Américas, O Santa Maria largara de Lisboa a 9 de Janeiro de 1961. No dia 20 fez escala em La Guaira e é neste porto venezuelano que embarca o grupo de revoltosos. A caminho de Port Everglades, na Florida, com 612 passageiros e 350 tripulantes, precisamente à 1 hora e 45 minutos da madrugada de 22 de Janeiro de1961, o grupo domina os oficiais do navio. O terceiro piloto João José Nascimento Costa ofereceu resistência aos assaltantes e foi morto a tiro. A 23 de Janeiro, o navio aproximou-se da ilha de Santa Lúcia e desembarcou, numa das lanchas a motor, 2 feridos graves mais 5 tripulantes, comprometendo assim a possibilidade de atingir a costa africana sem ser detectado. No dia 25, o paquete, que passara a chamar-se Santa Liberdade, é localizado por um avião norte-americano.


A 2 de Fevereiro, o Santa Liberdade fundeou no porto brasileiro do Recife, os passageiros e tripulantes foram desembarcados, enquanto os revolucionários entregaram-se às autoridades brasileiras, vindo, posteriormente, a obter asilo político.


Nesse dia o paquete voltou a chamar-se Santa Maria e, embandeirado em arco, a 16 de Fevereiro de 1961, entrava na barra do Tejo.

Só no dia 24 de Janeiro os jornais publicam a nota oficiosa do governo, dando conta do assalto ao Santa Maria. E os seus editoriais expressam a indignação face ao acontecimento.

Também nesse dia, a Assembleia Nacional, antes da ordem do dia, ouve as vozes de repulsa dos deputados, srs. drs. Proença Duarte e Homem de Melo (conde de Águeda).

Da intervenção do sr.dr. Proença Duarte:

«Neste momento em que a alma nacional se encontra altamente emocionada e magoada, tenho eu por certo que interpretar o sentimento de todos os portugueses de boa vontade, seja qual for o seu credo político ou religioso afirmando aqui a sua repulsa e condenação deste acto de inqualificável indignidade.»


Da intervenção do sr. Conde de Águeda:

E como há circunstâncias em que o coração carece do auxílio da inteligência para transbordar de indignação e de patriotismo, desse patriotismo que é apanágio de todos nós. É, pois, o coração, e só ele, que, num grito indignado protesto, verbera o acto de pirataria praticado no Mar das Caraíbas, contra um navio português e se envergonha por saber que o chefe dos ladrões do mar pôde um dia estar sentado nestas cadeiras, fazendo parte da representação nacional».

O editorial do “Diário de Notícias” tinha por título Crime Praticado contra Portugal e podia ler-se:

Registamos, como o faz o governo, que tais ocorrências não se passaram sem a resistência de oficiais e tripulantes, que deste modo honraram, até ao sacrifício da própria vida, as tradições da Marinha portuguesa.
A consciência dos portugueses condenará sem hesitações este crime praticado contra Portugal.

O título do editorial de O Século era Unamo-nos os de Boa Têmpera e terminava assim:


«Unamo-nos os milhões que somos contra esse escasso cento de renegados; unamo-nos os de boa têmpera, indomáveis na vontade, prontos ao sacrifício. Portugal chama-os. Responderão: Presente.»


O editorial do Diário da Manhã,  Quando o Ódio se Alucina, destacava:

«Se no aspecto pessoal, o acto cometido representa a condenação final dum crápula exibicionista, sem consciência moral, que se perdeu definitivamente nos caminhos do crime, no aspecto politico é a prova irrefutável do que são e do que não são capazes os criminosos que publicam panfletos onde é nítida a intenção comunista, desagregadora da unidade dos homens e das terras da Nação portuguesa – e acabam por cair, de forma a não deixarem dúvidas, no assalto à mão armada, no roubo, no assassínio, na prática pura e simples da pirataria.»

Título do editorial de O Primeiro de Janeiro: Absolutamente abominável, do jornal  A Voz: Preferiram cair a render-se, das Novidades: Queremos Ser um Povo que não se demite, do Diário Ilustrado: Indignação e Revolta, do Jornal de ComércioRespeite-se Portugal, do Diário de Lisboa: Acto Insólito, do Diário PopularUm Crime Inédito contra a Pátria e a Civilização, do Jornal de Notícias: Todos os Portugueses Sentem a Maior Repulsa, de O Comércio do PortoNão há Explicação nem Justificação.


Em Setembro do ano passado, estreou Assalto ao Santa Maria um filme de Francisco Manso, com argumento de João Nunes, e Vicente Alves do Ó.

Segundo Francisco Manso, o filme retrata a epopeia e a aventura quixotesca do assalto ao paquete Santa Maria envolvido por uma história de amor entre uma passageira, filha de um apoiante de Salazar, e um dos revolucionários.

Texto publicado no dia 22 de Janeiro de 2011.

domingo, 17 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

RÁDIO PORTUGAL LIVRE

Capa da cassette, editada em 1977, pelas Edições Avante, contendo extractos de emissões da Rádio Portugal Livre.

A 12 de março de 1972, emitida desde Bucareste, o Partido Comunista Português fazia ouvir a sua voz através da Rádio Portugal Livre.

Através das ondas curtas, após a transmissão do Hino Nacional ouviu-se: 
«Aqui Rádio Portugal Livre! A Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional.»

Foi nestes termos que o Avante de Abril de 1962 anunciou na sua primeira página a entrada em funcionamento da emissora clandestina do Partido Comunista Português – a Rádio Portugal Livre:

«A notícia divulgou-se mais que depressa e em pouco tempo o entusiasmo correu de Norte a Sul.» «Finalmente ouviu-se a voz de Portugal Livre, grande aspiração de todos os antifascistas portugueses. Mais um golpe profundo foi dado pelo nosso povo na censura salazarista.»


Foi através da Rádio Portugal Livre que pela primeira vez se fez ouvir a voz da cantora comunista Luísa Basto a cantar «Avante, camarada Avante!», da autoria de Luís Cília, que, hoje, funciona como hino do Partido.

A Rádio Portugal Livre encerrou a sua actividade em fins de Outubro de 1974, após a realização do VII Congresso Extraordinário do Partido Comunista Português que se realizou em 20 de Outubro desse ano.

A ideia da criação de uma rádio do Partido, segundo Rui Perdição, principiou a germinar pouco depois da fuga de Álvaro Cunhal de Peniche. O slogan «Aqui Rádio Portugal Livre! A Emissora Portuguesa ao serviço do Povo, da Democracia e da Independência Nacional», foi escolhido por Pedro Soares e pelo próprio Rui Perdigão que o proferiu na primeira emissão.

Além de Rui Perdigão, e de sua mulher Fernanda Perdigão, trabalharam na RPL, entre outros, Aurélio dos Santos, Alda Nogueira, Margarida Tengarrinha, Álvaro Mateus, Teresa Mendes, Maria da Piedade Morgadinho.

Durante a ditadura existiu uma outra rádio clandestina: a Rádio Voz da Liberdade da responsabilidade da Frente Popular de Libertação Nacional, a emitir desde Argel, dirigida por Manuel Alegre e em que trabalharam, entre outros, Fernando Piteira Santos e sua mulher Estela, a primeira voz a dizer:

«Amigos, companheiros e camaradas, daqui fala a Rádio Voz da Liberdade, em nome da Frente Patriótica de Libertação Nacional.»

Legenda:  a capa da cassette é um desenho do pintor António Domingues, datado de 1953.

Texto publicado em 12 de Março de 2014