Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Keil. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria Keil. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS


Folhas Caídas

Almeida Garrett
Introdução: José Gomes Ferreira
Capa e desenhos: Maria Keil do Amaral
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1955

Beleza

Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da natureza:
Queres ser bela? - ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? - Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver
- Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! - O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Luar de Janeiro

Augusto Gil
Capa e ilustrações: Maria Keil Amaral
Portugália Editora, Lisboa s/d

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

À ESPERA DE UM TAL ABRIL


José Gomes Ferreira, no dia 1 de Janeiro de 1966, escrevia nos seus Dias Comuns:

A passagem do ano desenrolou-se com mansidão sóbria.
Alguns amigos: o Mário Dionísio com a família, Maria e o Chico Keil, a Maria Vitória e o Manuel, a Georgiana e o Zé Queiroz, a minha Mãe e o Raúl...
Champanhe. Uvas à meia-noite. Sandwiches. Pudins. Mastigação melancólica.
Rotina dos eternos gracejos com ranço... repetição de ditos já musgosos... Palavras que deixam na boca fios de teias de aranha de cuspo...
Começo dum novo ano de bafio...
Quando voltaremos a viver com entusiasmo? Qualquer entusiasmo. Até com caveiras nas árvores!

sexta-feira, 5 de março de 2010

UM PADRE NOS ENTERROS...


Numa exposição na Sociedade de Belas Artes, a PIDE levou-me um quadro meu que se chamava "Regresso à Terra". Ainda para aí o tenho e é muito fraquinho. Era uma paisagem, com um grupo de gente em pé e no meio daquela gente havia uma cova, onde estava um morto, as pessoas a olhar para ele. Aquilo surgiu-me porque eu tinha o meu pai muito doente. A PIDE levou-me o quadro e quando o meu marido foi lá buscá-lo perguntou ao censor:
- Mas que mal tem isto?
Responderam-lhe:
-Bem vê. Isto é um enterro, não é? No nosso país há sempre um padre nos enterros. Diga-me lá onde ele está?

Maria Keil

Legenda - Maria Keil. Auto retrato, 1941