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segunda-feira, 9 de março de 2026

NA MÂO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!   

 

Antero de Quental em Sonetos


Nota do Editor:

António Lobo Antunes, deixou algumas

disposições para o seu funeral: a leitura

deste soneto de Antero de Quental era

uma delas.

Nota de António Sérgio:

«Enviando-lhe Na Mão de Deus, desde

Vila do Conde a um amigo, escrevia-lhe

Antero: «O meu pessimismo tem-se

desvanecido com esta vista contemplativa

 no meio da boa natureza».

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Eu detesto o mando; dão-me nojo os mandões.

António Sérgio

Legenda: Alexi Pretti assassinado, em Minneapolis, pela polícia norte-americana.

quinta-feira, 6 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


Homens E Bichos

Axel Munthe

Tradução e Prefácio: António Sérgio

Editorial Progresso, Lisboa s/d

Tinha-o contratado por todo o ano. Duas vezes por semana, vinha tocar-me todod o seu repertório; e, nos últimos tempos, por simpatia pela minha pessoa, bisava o «Miserere» do Trovatore, a sua peça de resistência. Punha-se bem no meio da rua, fixando-me as janelas enquanto tocava; chegado ao fim, tirava o chapéu e exclamava: «Addio Signor!»

Sabe-se que o realejo, exactamente como o violino, adquire com o tempo uma sonoridade mais bela, mais impressiva. Tinha o velho um instrumento de primeira ordem, não do tipo moderno e barulhento, que imita uma orquestra com as sua flautas, seus metais e seus tambores, mas um realejo velho e melancólico, que insinuava um devaneio misterioso no mais jovial dos allegrettos, e cujo tempo di marcia mais bélico evocava inconsoláveis resignações. Nas peças de maior ternura, quando o canto se velava e tremia, como a voz de um velho cantor ambulante, e ia tenteando um caminho inverto pelos tubos enferrujados das notas altas, fazia-se ouvir pelos baixos roucos um trémulo de soluços abafados. O realejo, lá de quando em quando, emudecia de todo; resignadamente, o velho manivelava nesses compassos de espera, mais eloquentes no seu silêncio que a mais comovedora de todas as músicas.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Cronos

Cadernos de Literatura e Arte Nº 4

Direcção de Mendes de Carvalho, Eduardo Prado Coelho, Fernando Luso Soares

Colaboração de Mário Sacramento, Alexandre O’ Neill, Mário Cesariny, António Ramos Rosa, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão. Mendes de Carvalho, Luiza Neto Jorge, Vitor Silva Tavares, Urbano Tavares Rodrigues, entre outros.

Edição de Autores, Lisboa s/d

Como tantos outros homens da minha idade, cheguei à primeira dentição intelectual bebendo o leite impoluto do ensaísmo sergiano, para depois comer o pão que o Diabo amassou. Ficou-me desse desmame um remoer de culpa absurda quando as vagas implacáveis do Realismo Ideológico começaram a espadanar sobre a sua obra a espuma amarela da Verdade Represa, pelo Sol Nascente e por outras plagas. Abrirei assim o meu exame – exame dela e meu – pondo-me a rosto com esta pergunta: Que se passou com Sérgio para que fosse, a um tempo, o Mestre inigualável de quantas gerações viram e verão na Inteligência o piloto do Mundo (mas não o seu armador!), e a Sereia que pôs embargos à derrota da nau de Ulisses?

(Do texto António Sérgio: O Ensaista e o Doutrinário da autoria de Mário Sacramento)

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

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Estas narrativas de naufrágios da época das conquistas, escolhidas e adaptadas por António Sérgio, bem como alguns destes livros apresentados na contra  capa de «História Trágico-Marítima», terão sido as minhas primeiras leituras. 

Teria então uns 8/10 anos. 

Daqui passaria para o Emílio Salgari, Júlio Verne, Walter Scott.

Havia o futebol na rua, outras brincadeiras e estas leituras.

Hoje, as vivências dos miúdos de 8/10, são bem diferentes.

Já não olharei o futuro destes miúdos e não consigo - ou não quero? - imaginar como será.

sábado, 13 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


O Labirinto da Saudade

Eduardo Lourenço

Capa: Armindo Lopes

Gradiva, Lisboa, Dezembro de 2020

Se um ensaísta é um experimentador do possível, Sérgio não foi no pleno sentido do termo um autêntico ensaísta. De algum modo, o seu reino foi o do impossível que ele soube apresentar como o possível, por essa passagem quase fatal que liga o ser ao dever ser. Sérgio foi um utopista. Não o dizemos nem para o censurar, nem para nos dessolidarizarmos imaginariamente dele. Sob a nossa pluma é o supremo elogio. Ao realismo da aceitação do inaceitável preferiremos sempre a luta pelo ainda não possível e até pelo impossível. O mais profundo sentido do idealismo de Sérgio vive desta inspiração e por isso deve e merece viver em nós e integrar-se na linha de cumes que ele idealizou mas sem os quais a nossa marcha não tem sentido. O nosso urgente dever continua sendo o de pensar com o máximo de claridade e na suposição de que se a Razão não move o mundo deve movê-lo. Mas desse dever faz parte pensar essencialmente o que se opõe na realidade e em nós mesmos a esse apetite insanável de transparência. Não basta nomear o irracional para o vencer, nem sequer em sonho. A sua função é converter-se em pesadelo. Necessária, a ilusão idealista não deixa de ser uma ilusão e, sob o plano da História, uma maneira subtil de ser vencido pelo que imaginávamos vencer pensando-o. A História foi e é ainda cabeça de Medusa. Só cortando-a, aboliremos (acaso) a sua horrível fascinação. Sérgio acreditou heroicamente que bastava olhá-la de frente e desmontar o seu mecanismo. O seu próprio exemplo nos ensina a modéstia. O pensamento não se pensa senão para chegar a pensar-se. Com uma lentidão e uma dificuldade extrema, que o seu destino é sopesar e sublevar num mundo que já está aí, nos excede e não nos basta.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

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Na então pequena biblioteca do meu pai, não existiam livros de poesia mas existiam livros de António Sérgio.
À poesia cheguei mais tarde pelos próprios passos, mas a obra de António Sérgio foi-me fundamental, fortíssimo pilar de um edifício em construção.
Tinha 15 anos, muitas coisas não entendia, mas para isso lá estavam as conversas que ia mantendo com o meu pai e com o meu avô.
Diga-se: também falávamos de futebol, do Benfica.
Apenas por curiosidade didáctica, irei colocando aqui algumas das obras sergianas que me ajudaram naqueles começos de caminhada.

sábado, 7 de julho de 2018

COMO AS COISAS MUDARAM AÍ EM PORTUGAL...


Carta de António José Saraiva, Paris Maio de 1969, para Óscar Lopes:

Li o teu artigo do (Mário) Sacramento, e o simples aparecimento dele em letra de forma mostra como ss coisas aí mudaram de Setembro para cá. O Sacramento é um exemplo muito típico do comportamento dos intelectuais em Portugal, mas pergunto a mim mesmo em que medida esse comportamento deve ser erigido em regra geral. Sem dúvida que os intelectuais não podem alhear-se do destino colectivo, mas talvez isso não implique que eles devam desempenhar um papel que prejudique a realização da sua vocação específica. Escrever um ensaio ou um romance ou realizar uma investigação pode ser muito mais importante do que participar numa comissão, até porque ao nível da criação científica, filosófica, ou estética se podem pôr problemas que não cabem no dia a dia dos compromissos, das declarações e das tácticas.
O problema, reconheço, não é simples, até porque a nossa elaboração teórica é feita da substância da nossa vida prática e quotidiana. Mas nem toda a prática é política: há problemas de relação com nós mesmos, de relação com o nosso próximo e de relação com isso a que se chama «Deus» (que talvez seja só o limite matemático do Eu, lá onde ele não é só um Eu individual) que não se podem pôr facilmente em termos «políticos» e que no entanto exigem expressão e realização. O teu ideal de uma concretização permanente das nossas aspirações mais fundas em termos de atitudes práticas não cabe evidentemente em congressos e reuniões.
E, alguns intelectuais portugueses parece-me evidente que esse empenhamento, nos termos em que se faz, leva a uma amputação das virtualidades intelectuais e à simplificação fanatizante dos problemas. O (António) Sérgio escapou a isso porque recusou sempre arregimentar-se e porque apresentou as suas atitudes como a manifestação de um dever moral que estava muito acima da prática.


Legenda: Mário Sacramento

terça-feira, 19 de setembro de 2017

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A ANTÓNIO SÉRGIO

em quem admiro
- para além de algumas discordâncias e desencontros -
a indelével acção pedagógica,
a claridade intelectual
e o heróico exemplo,

dedico este livro.

(Dedicatória em Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes de António José Saraiva).

sábado, 20 de julho de 2013

MEMÓRIAS QUE SE DESFAZEM


Há mortes anunciadas.

Mais tarde, ou mais cedo, sabemos que vão acontecer.


Mais uma livraria vai fechar portas no Chiado.

Em Janeiro do ano passado fechou a Livraria Portugal.

Soube-se, agora, que a Livraria Sá da Costa, na Rua Garrett, que assinalava este ano o centenário da sua fundação, vai fechar as portas na próxima segunda-feira. Foi declarada insolvente pelo Tribunal de Comércio de Lisboa já que uma assembleia de credores rejeitou um plano de viabilização da empresa apresentado a 2 de Julho. Assim sendo foi decretada a liquidação total, que implicará a venda de todo o património da livraria e a extinção da empresa.

Para além de livraria, a Sá da Costa era também uma editora de clássicos.

Foi graças à Sá da Costa que pude adquirir, em 1972, três volumes dos Ensaios de António Sérgio que me faltavam. Acabaria  por comprar todos os ensaios do Sérgio publicados pela Sá da Costa, porque era uma edição muito cuidada, orientada por Castelo Branco Chaves, Vitorino Magalhães Godinho, Rui Grácio, Joel Serrão e organizada por Idalina Sá da Costa e Augusto Abelaira.


Mas quem é que hoje lê António Sérgio?

Quem é que hoje frequenta livrarias?

Num local bonito onde se vendiam livros, passaremos, certamente, a ver um espaço para venda de trapos e bugigangas.

Chamam-lhe globalização, ou lá o que é.

A última vez que estive na Sá da Costa foi, em Outubro do ano passado, no lançamento  do Para Já, Para Já do Vitor Silva Tavares.

E assim, a minha Lisboa vai desaparecendo aos poucos.

Estas coisas doem que se farta.

Poderia ir, hoje, subir o Chiado para tirar o último boneco à Sá da Costa.

Falta-me coragem, o que lhe quiserem chamar.

Escreveu Graham Greene que a nossa vida é mais feita pelos livros que lemos do que pelas pessoas que conhecemos.

Foi em livrarias que comprei a esmagadora maioria dos meus livros.

Livrarias como a Sá da Costa.

Se não sabes despedir-te diz que já voltas.

Legenda: Vitor Silva Tavares, à conversa, na Sá da Costa, por ocasião do lançamento de Para Já, Para Já. Para Já, Para Já

terça-feira, 10 de abril de 2012

OLHAR AS CAPAS


Conferências e Outros Escritos
Bento de Jesus Caraça
Capa: Sebastião Rodrigues
Lisboa, 1970

António Sérgio proclama que a “minha atitude ao discutir Platão é um exemplo pernicioso para a educação dos jovens”. Por causa da minha atitude intelectual, das minhas ideias, fui já várias acusado de ser pernicioso para a educação dos jovens. Não posso esconder o meu espanto ao ver agora juntar-se a esse coro a voz de António Sérgio.

De uma carta de Bento de Jesus Caraça a António Sérgio (Fevereiro 1946).

Nota do editor:
Durante o mês de Abril, irei apresentando uma série de livros que me acompanharam durante os tempos da ditadura.
Livros que, por isto ou por aquilo, ajudaram a formar uma consciência cultural e política.
A sua aparição não obedece a algum critério, e, naturalmente, muitos livros e autores irão ficar de fora.