segunda-feira, 9 de março de 2026

NA MÂO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!   

 

Antero de Quental em Sonetos


Nota do Editor:

António Lobo Antunes, deixou algumas

disposições para o seu funeral: a leitura

deste soneto de Antero de Quental era

uma delas.

Nota de António Sérgio:

«Enviando-lhe Na Mão de Deus, desde

Vila do Conde a um amigo, escrevia-lhe

Antero: «O meu pessimismo tem-se

desvanecido com esta vista contemplativa

 no meio da boa natureza».

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