domingo, 15 de março de 2026

TRUMPALHADAS

Fotografia de Benoit Terrier da Reuters, publicada no Público,:navios ancorados no estreito de Ormuz vistos a partir de Muscat, em Omã, a arma dos iranianos com que o presidente louco, apoiado por loucos, eleito por outros loucos, parece não ter contado.

1.
«A questão que se coloca com cada vez mais pertinência é simples: os Estados Unidos avaliaram todas as consequências da guerra contra o Irão antes de lançarem o ataque conjunto com Israel que entra hoje no seu 16.º dia? Provavelmente, esperavam uma rendição ou destruição do regime mais rápida. Provavelmente, não avaliaram a capacidade de resistência do regime, preparada, não ontem, mas há muito tempo. Provavelmente, a pressão de Israel foi decisiva. Já ouvimos Donald Trump dar as mais variadas explicações sobre os objectivos da guerra e a sua oportunidade. Todos os dias, promete bombardeamentos ainda mais fortes para o dia seguinte. O Irão resiste. Continuamos sem ter uma perspectiva sobre a duração desta guerra. Mas há uma coisa que já sabemos — as suas consequências para a economia global serão enormes. Porque os países do Golfo fornecem mais de 20% da energia consumida no mundo. Porque a produção desses países está a ser alvo de drones e mísseis iranianos. Porque o Estreito de Ormuz, por onde passam os navios que abastecem o mundo inteiro de petróleo e gás, está bloqueado. Praticamente nenhum navio o atravessa neste momento. As imagens de satélite são impressionantes.»

Teresa de Sousa no Público

2.

«Quase duas semanas depois do início da guerra da aliança EUA/Israel ao Irão, o que sobra? Os factos são claríssimos. O regime iraniano não caiu e o povo, por um misto de medo e orgulho nacional, não se revoltou. Os dois maiores exércitos e secretas do Mundo não conseguiram, sequer, manter a navegabilidade do estreito de Ormuz.

O choque petrolífero, por causa disso, está a capturar o Mundo inteiro, incluindo a América, numa armadilha económica que ameaça arrastar o cenário de crise por demasiado tempo. A subida do custo de vida, dos juros, da energia, agita a sombra tenebrosa da estagflação, essa velha mistura entre inflação e ausência de crescimento económico. Nos EUA, o galão de gasolina já bate nos 4 dólares e Trump arrisca-se a ficar enredado na sua própria política.

São também muito claras as contradições políticas e militares entre os dois aliados. Os EUA a tentarem, de forma incipiente, construir uma narrativa de saída do vespeiro iraniano, e Israel a assumir que ainda vai demorar uns tempos a bombardear o Líbano e o Irão. A União Europeia reage a várias vozes, em torno da ideia de medidas preventivas de defesa, mas, no essencial, avulta a ausência de liderança em Bruxelas. Com os caminhos que tudo isto leva, quem precisa de inimigos, se tem aliados como Trump e Netanyahu?!»

Eduardo Dâmaso no Corrreio da Manha

3.

«Ele acrescentou que os jactos norte-americanos sobre o Irão estão “a controlar os céus, a atingir alvos” e a trazer “morte e destruição do céu, durante todo o dia”.

Pete Hegseth, chefe do Pentágono (palavras citadas em vários jornais, no dia 3 de Março)
Não se espera que a linguagem da guerra seja macia e benevolente. Mas devemos notar que em relação às guerras anteriores a que assistimos, desde a guerra dos Balcãs, nunca este tipo de linguagem tinha sido utilizada. “Viva la muerte” é um grito que vem da Guerra Civil de Espanha e que permaneceu silenciado durante bastante tempo. Ressurgiu agora de uma maneira ainda mais cruel, sob a forma não de uma palavra de ordem, mas de um regozijo indisfarçável. Não falo do lugar de um pacifista; falo do lugar em que me sinto arrepiado por esta linguagem, sabendo que ela é performativa: traz a morte ao ser proferida e dissemina-a por toda a terra, e não apenas pelo território onde caem as bombas».

António Guerreiro no Público

4

«A frase sobre o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irão não foi dita por um crítico do Presidente norte-americano. Foi proferida nesta semana por um dos maiores podcasters do mundo, Joe Rogan, um reconhecido apoiante de Donald Trump.

Não é fácil, a quem quer se seja, encontrar uma racionalidade nesta guerra, até porque para Trump ela já foi um pouco de tudo. Num dia, o que está em causa é a mudança de regime, no outro dia só quer destruir a capacidade militar do Irão. Num dia, nunca haverá tropas no terreno, no outro dia já é possível que isso aconteça. Hoje, Trump quer ter uma palavra na escolha do novo líder iraniano, amanhã quer que todas as lideranças pereçam. Num dia, está aberto a negociações, no dia seguinte pede “uma rendição incondicional”.»


Isabel França

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