terça-feira, 17 de março de 2026

NAS TRASEITAS DA CIDADE OCUPADA

                           para a Raquel (depois de O Silêncio de Ingmar  Bergman)                       

 

Quando a vimos pela primeira vez

pensámos que já tinha morrido

—a nossa irmã— não prevenindo

que seríamos o que ela fazia.

Nas traseiras da cidade ocupada

batendo à máquina num quarto

cujas janelas todas vedam

uma língua alheia

à que nos habita

a beleza existe

como nunca na desfiguração

moral, no desmaio

da esperança aleijada, excessiva.

 

É-nos a língua estrangeira cifra

e surto de esquisito consolo.

A crueldade existe

e não fomos nós quem a inventou.

A luxúria existe

e não foi por termos nascido

foi haver fome, incontidos vícios

blindados lábios, cândido calor

embaciado, calar que nada

ouve, é a nossa irmã

que entra no bar de casaco fino

e nós que não prevenimos

o bruto penetrar de corpos

os furos de chumbos repentinos.

 

Quando a vimos passar o vestíbulo

a entrar para o banho, a descer

o vestido, a exibir ao espelho

as nádegas de escultura

soubemos a partir daí

que a nossa mãe era diferente.

O conflito torce-nos

entre fofas almofadas

uma brancura insuspeita

uma aguda tortura.

Saímos para as traseiras

do quarto, na cidade

ocupada, arma de brincar

na mão, divertindo o dilúvio

no olhar, achando

o bom velho senil

e a caridade existe

mas é assim.

Nós os anões aos pinotes

procuramos o ar

 

Enquanto o abandono

com pernas esguias e claras

ao apito da locomotiva

marcha nas traseiras

a cidade despe-se

de membros válidos.

Nas traseiras da cidade

no interior das couraças

nos contentores do degredo

vive-se a guerra, travam-se

as mulheres

com suas soluções

de rancor e abrigo.

A infância trilha a solidão

com os passos precisos

 

Margarida Vale de Gato

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