para a Raquel (depois de O Silêncio de Ingmar Bergman)
Quando a vimos pela
primeira vez
pensámos que já tinha
morrido
—a nossa irmã— não
prevenindo
que seríamos o que ela
fazia.
Nas traseiras da cidade
ocupada
batendo à máquina num
quarto
cujas janelas todas
vedam
uma língua alheia
à que nos habita
a beleza existe
como nunca na
desfiguração
moral, no desmaio
da esperança aleijada,
excessiva.
É-nos a língua
estrangeira cifra
e surto de esquisito
consolo.
A crueldade existe
e não fomos nós quem a
inventou.
A luxúria existe
e não foi por termos
nascido
foi haver fome,
incontidos vícios
blindados lábios,
cândido calor
embaciado, calar que
nada
ouve, é a nossa irmã
que entra no bar de
casaco fino
e nós que não
prevenimos
o bruto penetrar de
corpos
os furos de chumbos
repentinos.
Quando a vimos passar o
vestíbulo
a entrar para o banho,
a descer
o vestido, a exibir ao
espelho
as nádegas de escultura
soubemos a partir daí
que a nossa mãe era
diferente.
O conflito torce-nos
entre fofas almofadas
uma brancura insuspeita
uma aguda tortura.
Saímos para as
traseiras
do quarto, na cidade
ocupada, arma de
brincar
na mão, divertindo o
dilúvio
no olhar, achando
o bom velho senil
e a caridade existe
mas é assim.
Nós os anões aos
pinotes
procuramos o ar
Enquanto o abandono
com pernas esguias e
claras
ao apito da locomotiva
marcha nas traseiras
a cidade despe-se
de membros válidos.
Nas traseiras da cidade
no interior das
couraças
nos contentores do
degredo
vive-se a guerra,
travam-se
as mulheres
com suas soluções
de rancor e abrigo.
A infância trilha a
solidão
com os passos precisos
Margarida
Vale de Gato
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