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quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Aborreço-me com a vida, na vida não! Quando há interesses – ou oiço música ou vejo filmes, ou leio, escrevo… – uma pessoa não se aborrece. 

José-Augusto França

domingo, 28 de janeiro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Jorge de Sena Vinte Anos Depois

Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001

 A Câmara Municipal de Lisboa organizou, através das suas Bibliotecas Municipais, um Colóquio para assinalar os vinte anos da morte de Jorge de Sena. As actas deste Colóquio deram origem ao presente volume. Integrado neste encontro tiveram lugar outras manifestações como o visionamento dos filmes «Os Salteadores» de Abi Feijó, e «Sinais de Fogo», um recital de poesia dita por Luís Lucas, música tocada por Nuno Vieira de Almeida, baseado no livro «A Arte Da Música», livro de Jorge de Sena publicado em 1968 e mais tarde incluído em «Poesia II» editado em 1988.

Colaborações, entre outros:

Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.

«À morte de Jorge de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e foi,  assim somente, uma lição com certeza mais útil do que todas  as mais que dei na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte ao longo de mais de dois mil anos…»

 

Do texto de José Augusto França.

terça-feira, 8 de março de 2022

O ÚLTIMO GAG DE CHARLES "CHARLOT" CHAPLIN


Tal como vos referi na última crónica, Chaplin faleceu no dia de Natal de 1977, aos 88 anos. Não terá sofrido muito porque teve um derrame cerebral durante o sono.

Dois dias depois, numa pequena cerimónia quase privada, foi sepultado no cemitério de Corsier-sur-Vevey, a muito curta distância da casa onde viveu durante 24 anos.

Mas o pior ainda estaria para vir…

Na madrugada do dia 1 de Março de 1978, o caixão e o corpo foram roubados do cemitério e, poucas horas depois, um pedido de resgate foi apresentado, por via telefónica, à mulher de Chaplin, Oona.

Oona afirmou que nunca teve intenção de pagar o que quer que fosse pelo corpo do marido mas, a conselho da Polícia e para ganhar tempo, prolongou a conversa entrando em negociações quanto ao montante a pagar. Quem assumia os contactos era o mordomo da casa, já que ela se recusara a falar com os ladrões.

Tanto a divisa em que o pagamento deveria ser feito como o montante foram variando no decurso das negociações. Primeiro eram francos franceses, depois libras esterlinas e, finalmente, dólares. E começou com 600.000 e acabou em 100.000 dólares.

Entretanto, na Comunicação Social muitos foram os motivos evocados para este roubo, como verão mais à frente.

Durante os mais de dois meses em que decorreram estas negociações, o processo de contacto era sempre o mesmo: uma chamada feita de uma cabine telefónica da região. Mas este lapso de tempo permitiu à Polícia identificar e monitorizar mais de 200 cabines telefónicas em toda a região de Lausanne e, quando se consideraram preparados, avisaram a Família para que dessem o acordo final para o pagamento do resgate, os tais 100.000 dólares que atrás vos referi.

Foi combinado com os larápios que o mordomo se faria transportar no Rolls Royce da casa e deixaria uma mala com o dinheiro num local previamente acordado.

E assim foi, só que em vez do mordomo quem conduziu o carro foi um polícia disfarçado.

Tudo muito bem organizado, só que ninguém contava que um carteiro local se apercebesse que o carro da Família Chaplin, sempre guiado pelo mordomo, estava a ser conduzido por um perfeito desconhecido e o resolvesse seguir de bicicleta, não fosse estar em curso mais um roubo envolvendo a pobre Família.

Imaginem bem a cena de um carteiro a dar ao pedal atrás de um Rolls Royce, qual François do “Há Festa na Aldeia” a fazer a “distribuição à americana”…!

É claro que esta perseguição  do carteiro levantou suspeitas por parte da Polícia, que julgou tratar-se de um membro do “gang” de ladrões e o prendeu de imediato, abortando a operação da entrega da mala. A Polícia local teria reconhecido de imediato o carteiro mas, por essa altura, o caso já estava entregue à Polícia Nacional, em artriculação com a Interpol, as quais, naturalmente, não conheciam o pobre candidato a herói de lado nenhum…

Apesar de tudo, este facto não levantou qualquer suspeita aos ladrões, que trataram de marcar novo dia e hora para a entrega do dinheiro. Seria o dia 17 de Maio, às 9h30. Desta vez, como não poderia deixar de ser perante tanto amadorismo, a Polícia já havia identificado o local da chamada telefónica e os maus da fita foram apanhados em flagrante.

Dois pobres  emigrantes, um polaco de 24 anos e outro búlgaro de 38, mecânicos de automóvel no desemprego, que viram ali a oportunidade de fazerem algum dinheirinho e orientarem as suas vidas. 

Certeiro como sempre, num dos últimos livros que escreveu José-Augusto França conta a história de seguinte forma: 

“… a imaginação chapliniana post mortem reassume toda a crueldade lógica de Monsieur Verdoux e realiza ainda um derradeiro e portentoso gag.

Não três dias (enfim…) mas três meses após a sua sepultura, o corpo de Charles Chaplin foi roubado, no que é uma forma simbólica de ressureição.

Duraram dezassete dias as buscas da polícia suíça e da Interpol, chamadas aflitamente em reforço, para encontrar os desaparecidos despojos. Hipóteses (que poderiam dar rushes de Monsieur Verdoux) foram avançadas pela imprensa, rádios e televisões ávidas de sensacional. Os raptores teriam sido um grupo neonazi a querer vingar a memória de Hitler-Hynkel. Ou de antissemitas que protestavam contra a sepultura de um judeu num cemitério cristão, ou de terroristas de qualquer outra referêncxia ideológica , para obterem uma forte indemnização contra a entrega do corpo; ou mesmo algum admirador fanático que desejasse conservar secretamente os restos do ídolo… Mas telefonemas insistentes dos raptores que desleixaram precauções profissionais permitiram a sua localização – tudo se resolvendo com a recuperação do cadáver e apreensão dos bandidos. Que bandidos afinal não eram , mas dois emigrantes balcânicos que planearam um golpe que lhes permitiria montar uma garagem, como confessaram à polícia… Pobres diabos, de desastrosa incompetência, perdidos num sonho de êxito social, pobres charlots da sociedade de consumo que lhe dera ideias de sucesso e fortuna…” (1).  

Mas a charada não foi de tão fácil resolução como José-Augusto França dá a entender …. É que os pobres  ladrões nem conseguiram fixar bem o local onde enterraram o caixão. Disseram que era um campo de trigo mas quando chegaram à zona a passagem do tempo tinha provocado o crescimento de plantas diversas, pelo que tudo estava, para eles, irreconhecível… Tiveram de escavar de fio a pavio os terrenos de um pobre agricultor local que, para tirar algum proveito da coisa, lá espetou um grande letreiro a dizer “CHAPLIN REPOUSOU AQUI. BREVEMENTE…”! Não receberia dinheiro pela visita, mas impingiria produtos da terra a quem se aproximasse para bater uma fotografia, o que não deixa de ser um esquema manifestamente chaplinesco…!

Apesar de Oona Chaplin lhes ter perdoado e ter apelado para que não sofressem pena pesada, foram ambos condenados a trabalho comunitário, o polaco, por ser o cabecilha, durante quatro anos, e o búlgaro, que sofria de perturbações mentais, a dezoito meses.

Tudo isto é uma história em tons de comédia negra, e foi nesse preciso registo que o francês Xavier Beauvois lhe dedicou um filme em 2014, “Le Rançon de la Gloire”, que teve direito a estreia em Portugal com o título de “O Preço da Fama”. 

O caixão com o corpo de Chaplin voltou à sua morada inicial, desta vez devidamente selado e tapado com uma camada de cimento que tornaria impossível qualquer nova tentativa de roubo.

Oona morreria treze anos depois, em 27 de Setembro de 1991, e o seu corpo seria colocado mesmo ao lado do marido, como fora seu desejo.

E foi lá, naquele pequeno e simpático cemitério com vista para o lago, que os fui visitar numa solarenga manhã de finais de Dezembro. Tinha pensado levar comigo umas flores para lhes deixar, mas nada encontrei à venda nas imediações e já não ia a tempo de ir procurar mais longe.

Ter-me-ia dado jeito ter ali à mão a ceguinha das “Luzes da Cidade” que vendia flores e que ofereceu uma flor ao vagabundo que espreitava pela janela, pouco antes de se aperceber, por um simples toque na mão, que teria sido ele o responsável pelo pagamento da sua cura, e não um homem rico , como até então pensara, naquele que é, garanto-vos a pés juntos, um dos mais belos finais da história do Cinema…

  1. José-Augusto França, “O Essencial Sobre Charles Chaplin”, Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2015), págs. 102/103

 PS:

O título deste texto não é de minha autoria, antes foi surripiado a José Augusto França (vd 1, pág. 101)

Para além do filme de Xavier Beauvois, não disponho de muito mais fontes de informação detalhadas acerca dos fatos aqui relatados, pelo que parte deles foram retiradas da Net.


Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

sábado, 18 de setembro de 2021

POSTAIS SEM SELO


Eu tenho um remédio para não me desiludir que é não me iludir…

José-Augusto França em Um Céu e Dois Caminhos

JOSÉ-AUGUSTO FRANÇA (1922-2021)


Com 98 anos morreu José-Augusto França.

Mais um enorme nome da nossa cultura que nos deixa.

No dia 15 de Dezembro de 1963, José-Augusto França escreve uma carta ao poeta Jorge de Sena:

«Escrevo-lhe à última hora, de Paris ou já de Orly. As coisas que eu consegui fazer à última hora! Chego mesmo a perceber como no último dos minutos de vida os moribundos conseguem rever a vida inteira.»

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

TODOS ESTIVEMOS COMPROMETIDOS


Todos os princípios são difíceis, e os assuntos delicados ainda mais.

Quando os assuntos têm que ser tratados com pinças, há que inventar um abrir de prosa.

Lembrei-me de algo que Vitorino Magalhães Godinho disse em Outubro de 1974, citado por José- Augusto França nas suas Memórias:

«Num tão longo regime totalitário, quer se queira quer não, todos estiveram comprometidos. Salvo raras excepções em casos de sacrifício merecedores de respeito e de rendida homenagem, a grande maioria teve de acomodar-se. Viver…»

Volto a lembrar o que, aqui,  já deixei escrito:

 Ano de 1967, o Helder Pinho levou-nos a visitar a cave-casa-estúdio que o Bual possuía na Amadora, a dado ponto da conversa,  entre latas de atum, azeitonas, queijinhos frescos, pão alentejano, um garrafão de tinto, lembrei ao Artur Bual, a colaboração com o S.N.I.

 Muito calmamente respondeu: «Fomeca, meu caro, muito espaço no estômago».

 Não acrescentou nem mais uma palavra e eu fiquei, parvamente, a olhar.

 Como pude ser tão idiota, tão ordinário, tão estúpido, tão repugnante, tão mania de ser chico-esperto?

 Tinha o exemplo do senhor meu pai, e alguma vez o Artur Bual merecia que lhe perguntasse o que perguntei?

 E não há nenhuns 20 anos que desculpem uma imbecilidade daquelas!

 Mário-Henrique Leiria, meu mestre de gin, e não só, amiúde dizia que «posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Mas isso era o Mário-Henrique Leiria, um louco genial, e não podemos exigir que todos fossem, ou sejam, como ele.

 José Gomes Ferreira entristecia-se quando se lembrava que os seus compadres e vizinhos, Bernardo Marques, sua mulher Ofélia Marques, para sobreviverem, aceitavam fazer capas e ilustrações para as publicações do S.N.I.

O meu pai foi funcionário do S.N.I. para a parte gráfica das suas publicações.

Sempre que saia uma qualquer das publicações do S.N.I., livros, revistas, catálogos, etc., levava um exemplar para casa. Isto durante anos a fio. Tudo se foi acumulando e começou a faltar espaço para acondicionar outros livros.

 Naquele tempo andavam homens e mulheres pelas ruas a comprar jornais, garrafas, outras velharias. Mais ou menos uma vez por mês, alguém ia lá a casa perguntar se havia algo para vender.

 Um dia, para arranjar o tal espaço para livros que começava a faltar, o meu pai decidiu  vender ao quilo as publicações do S.N.I.

 A minha costela anti-regime rejubilou e até ajudei a fazer os molhos e a atar cordas.

 Nesse monte estavam os muitos números da Panorama e também, entre muitos outros, Férias com Salazar, da jornalista francesa Christine Garnier com fotografias do pide Rosa Casaco.

Ao tempo, rumores-cor-de-rosa, dão a jornalista francesa como uma paixão assolapada pelo Botas de Santa Comba, e vice-versa, ao ponto de se ter divorciado.

 Pelos anos 80, comprei o livro editado por Fernando Pereira, mas sem as fotografias do pide Casaco, o que faz alguma diferença.

 Há uns anos, comprei, na Feira da Ladra, 4 exemplares da Panorama ao preço de 2,50 euros cada exemplar.

 Dessa pilhagem anti-S.N.I. restaram 29 volumes do “Notícias de Portugal” devidamente encadernados em carneira porque o SNI, ao fim de cada ano, enviava esses volumes para a Presidência da República, para o Conselho de Ministros, para todas as entidades gradas do regime.

 Outra história para contar.

 Legenda: no topo, capa de Bernardo Marques para a Panorama nº 8, Abril de 1942. A outra capa é da autoria de Manuel Ribeiro de Pavia para a Panorama nº 27 de 1946, sem indicação do respectivo mês.

domingo, 10 de maio de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

O FINAL DA GUERRA EM LISBOA


Não houve qualquer meio de impedir os portugueses de, nos primeiros dias de Maio de 1945, virem para as ruas, euforicamente, festejar a vitória dos aliados face à besta nazi.

Tão pouco isso interessava aos propósitos de hipocrisia neutral de Salazar.

Por isso as tolerou.

Sempre esteve com Deus e com o Diabo.

Tinha eu pouco mais de um mês de vida, mas por esses dias por estas ruas, lá andaram o meu avô e o meu pai.

O meu avô contava que, nas ruas, apareceram bandeiras portuguesas, britânicas, norte-americanas, francesas e… bandeiras do Benfica, habilidade, contava ele, utilizada para representarem a bandeira da União Soviética.

Numa entrevista, de que não tenho indicação de nome e data do jornal, José-Augusto França confirma a versão do meu avô:

Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado

José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula, também refere o episódio:

No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.

Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa

Texto publicado em 2 de Maio de 2015.

domingo, 2 de junho de 2019

POSTAIS SEM SELO



Intelectuais responsáveis só são aqueles que se dão conta da responsabilidade que têm.

José-Augusto França numa carta a Jorge de Sena

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

RELACIONADOS


Gostar de começos de livros, gostar de finais, gostar de conteúdos, em suma, gostar de livros.

Pode-se viver sem ler? Pode, mas vive-se pior.

O final de Os Maias de Eça de Queiroz está no top mais da minha lista de finais de livros.

Aqui vai:

E ambos retardaram o passo, descendo para a Rampa de Santos, como se aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de só encontrarem ao fim desilusão e poeira, não devessem jamais avançar senão com lentidão e desdém. Já avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes.
De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade:
- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite! Esqueci-me de mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até ai esquecido em memórias do passado e sínteses da existência, pareceu ter inesperadamente consciência da noite que caíra, dos candeeiros acesos. A um bico de gás tirou o relógio. Eram seis e um quarto!
- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança pontualmente às seis! Não aparecer por ai uma tipóia!...
- Espera! - exclamou Ega - Lá vem um «americano», ainda o apanhamos.
- Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentamos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma...
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.

José-Augusto França, para final das suas Memórias Para o Ano 2000, foi buscar o aceno do «Americano» do Eça.

Está em Paris, com sua mulher Mahité, descreram na estação de metro de George V, a meio dos Champs. A noite foi longa, a manhã está fria. A vontade, o gosto de um café bem quente e um «croissant»;

… Agora, ao frio real oponho a esperança modesta de um café bem quente . atravessamos, a Mahité e eu para o Fourquet’s. Haverá, restará algum «croissant» crustilhante e lunar, neste deserto de gente? Corramos então para ele: ainda o apanhamos, ainda o apanhamos!...

Legenda: fotografia de um «Americano» tirada do blogue Restosde Colecção.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

UMA MORTE APRESSADA


José-Augusto França tem 95 anos.

A idade que teria José Saramago se ainda caminhasse por aqui.

Ambos nasceram no mesmo dia, no mesmo ano, 16 de Novembro de 1922 , «ele às 14 horas (mas não muito viáveis numa declaração rural), eu às 14 e 35 minutos (declaração rigorosa de meu Pai contabilista), em sítios mais ou menos vizinhos, ele numa aldeia cerca da Golegã, eu, como se sabe, nos Estaus da cidade de Tomar.»

José Prudêncio, professor de Filosofia, investigou as cartas astrológicas de ambos, teve conversas com os dois intelectuais e escreveu sobre o assunto, um interessante livro: Um Céu e Dois Caminhos.

Ontem, o Público noticiou a morte de José-Augusto França.

Como Mark Twain, Augusto França poderia dizer:

«Parece-me que as notícias sobre a minha morte são manifestamente exageradas».

Todos temos a morte anunciada mas é exigível que se morra pelo próprio pé e não empurrado, para a dita cuja, pelo mau jornalismo.

A explicação da Direcção editorial do matutino:

«O PÚBLICO falhou no que não pode nunca falhar
A equipa do PÚBLICO tem um conjunto consistente de explicações para o erro que nos levou a noticiar o falecimento de José-Augusto França. Tem o rasto de uma informação que chegou à redacção e tem uma fonte credível e com rosto (que nomeamos no momento em que corrigimos a primeira notícia) que a validou. Mas essa explicação não passa disso mesmo: de uma explicação. Que não basta para justificar a gravidade do nosso erro. As fontes que ouvimos, mesmo que credíveis, não eram suficientes. E não tomámos a devida consciência que notícias sensíveis como estas, que afectam gravemente a intimidade e os direitos de pessoas concretas e das suas famílias, exigem cuidados redobrados.
O PÚBLICO errou e, manda a nossa forma transparente de estar, a Direcção Editorial assume o erro por inteiro. Vai ser necessário rever procedimentos para garantir que não haverá repetições.
Para lá destas necessárias explicações e do indispensável pedido de desculpas aos leitores, resta-nos ainda uma palavra especial para José-Augusto França e para a sua família. É dada aqui com este reconhecimento e será dada de forma pessoal pela nossa equipa.»

A nota pontual de Ferreira Fernandes publicada, hoje, no Diário de Notícias:

«Um jornal, que não este, anunciou ontem a morte de José-Augusto França. Logo, outros jornais portugueses, incluindo este, publicaram a citada morte. Ora, José-Augusto França, de 95 anos, está vivo. O primeiro dos jornais a publicar-lhe a morte será talvez o único a ter uma razão plausível para o erro cometido - talvez um seu jornalista tenha recebido notícias que julgou fidedignas. Talvez tenha sido vítima de uma brincadeira de mau gosto. Talvez, não sei... Porém, todos os outros jornais, incluindo o DN, não têm desculpa nenhuma.
Desses, incluindo o DN, sabe-se, sem margem para dúvidas, porque publicaram a falsa notícia: porque outro jornal já o fizera, os outros apressaram-se a segui-lo. Apressaram o push - aviso para os telemóveis e computadores dos leitores - pois um segundo de atraso diminuiria os cliques de leitura. Um push é útil porque permite aos nossos leitores terem rapidamente o alerta de uma notícia. Mas um push falso é uma arma letal: informa mal o leitor e desvaloriza o nome do jornal.
E há, como neste caso, outra consequência mais grave: a falsa notícia gratuitamente incomodou um homem, os seus familiares e os seus amigos. De notícias de mortes apressadas está a história do jornalismo cheia, algumas entraram na lenda e, com o passar do tempo, até fazem sorrir. Mas quando a razão do erro bebe numa prática que destapa as fraquezas do jornalismo atual - os seus meios limitados, as suas redações curtas e a pressão pelo imediatismo - o melhor é tomar a sério a gravidade. O push é importante, mas mais importantes são as pessoas.
E outra coisa: o push mandado por um jornal é um assunto editorial, de jornalistas, que têm uma relação com a informação que vai para lá da eficácia. O jornalista serve a verdade e só. Conselhos de técnicos da rapidez e de aumento de tráfego são bons de ouvir porque devemos lidar bem com a tecnologia. Tal como os jornalistas devem agradecer aos técnicos de ontem que lhes deram teclados QWERT para escreverem as notícias. Mas tal como aos técnicos de ontem não lhes era permitido insinuar que numa dada notícia se devia bater mais vezes na letra Q do que na letra R, um jornalista de hoje não deve permitir outra razão, além do jornalismo, que lhe apresse o push. Ponto.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

À VOLTA DO CORETO ENTRE EMOÇÃO E MEDO


…Salazar, o professor de Coimbra, morria em farsa de Parque Mayer, vítima doméstica dos seus calos, não dizendo coisa com coisa à sua Senhora Maria, durázia, surpreendida fielmente (contava-se) em combinação, no quarto da clínica. Cada qual seu destino, devido «fatum», «Shiksal» nacional… Tempo é de o escrever – em respeito que pelos ditadores não pode haver, sem ódio nem piedade trinta anos de história decorridos. Pois que seja, nestas memórias, no desprezo que a história promete em sua moral! Eu encontrava-me em Almoçageme nesses dias, em casa do Fernando e da Emília Azevedos, com a Mahité, e saímos a ver as pessoas na praça da aldeia. Como pareciam elas? Olhando-se silenciosas, à volta do coreto, entre emoção e medo, decerto sinceros ambos, nas águas da mesma história longa, longamente vivida – sofrida por muitos, lucrada por poucos, inútil para todos. «Peçonha em água-benta» – dissera Afonso Lopes Vieira.

José-Augusto França em Memórias Para o Ano 2000

quarta-feira, 6 de julho de 2016

SARAMAGUEANDO


José Prudêncio – José Saramago também está a escrever um romance que se chama  O Homem Duplicado.

José Augusto França – O último foi A Caverna. Ainda não lho agradeci; ele também não me agradeceu as Memórias, diga-se… Dos outros todos eu sempre lhe escrevi, desde O Memorial do Convento, de resto ele transcreve, a certa altura, nos Cadernos de Lanzarote, uma carta que lhe escrevi. Gostei dos outros todos e discuti com ele, com muito apreço, sobretudo a História do Cerco de Lisboa, que acho uma notável coisa, O Ricardo Reis, enfim, interessou-me menos, depois o Ensaio Sobre a Cegueira tem muito interesse, é uma função parabólica, como o outro, Todos os Nomes, que são coisas muito inteligentes. De qualquer modo, o Memorial do Convento é uma obra-prima, das boas coisas da literatura portuguesa do século XX, sem dúvida nenhuma.

José Prudêncio em Um Céu e Dois Caminhos

segunda-feira, 9 de maio de 2016

POSTAIS SEM SELO


Eu tenho um remédio para não me desiludir que é não me iludir…

José-Augusto França em Um Céu e Dois Caminhos

Legenda: imagem de John M. Grohol

SARAMAGUEANDO


A págs. 268 das Memórias para o Ano 2000, José-Augusto França dá conta  dos encontros realizados no Grémio Literário, e lembra que por lá passaram Sophia Mello Breyner Andresen. Lídia Jorge. José Blanc de Portugal, José Cardoso Pires, o David Morão Ferreira, que ia morrem em breve – e o Saramago, antes do Nobel que tanto gosto deu a ambos. Como e porquê ele sabe.
Sublinhei o como e porquê ele sabe.

Nas Memórias para Após 2000, página 67, fiquei a saber do tal como e do tal porquê.

 Augusto França escreve:

… ou, por interesse próprio, no livro de José Prudêncio sobre Um Céu Dois Caminhos, que é o meu e o do meu coevo amigo José Saramago, com carta astrológica quase comum, a meia hora de intervalo.

Li  Memórias para Após 2000 em Outubro de 2014 e por esse tempo apontei num papel a compra futura do livro Um Céu e Dois Caminhos, que saíra em Maio de 2009.

O papel ficou algures perdido, e como a memória, tida como de elefante, foi chão que já deu uvas, nunca mais me lembrei do livro.


Há dias, por outras procuras, peguei em Memórias para Após 2000 e salta-me de lá o tal papelucho para a compra de Um Céu e Dois Caminhos.

Foi apenas tempo de o encomendar na Pó dos Livros.

O livro nasceu porque José Prudêncio leu, numa entrevista de José-Augusto França na revista Visão, em que este referia o seu nascimento quase em simultâneo com o de José Saramago e a partir deste instigante pormenor, entendeu que seria um bom tema o aprofundar dos muitos caminhos, alguns diversos, mas muitos coincidentes, destas figuras gradas da cultura portuguesa.

 Se assim pensou, melhor o fez.


De Um Céu e Dois Caminhos, disse José Saramago:

Numa dessas súbitas iluminações a que os escritores são atreitos e a que alguns preferem chamar inspiração, ocorreu-me a peregrina ideia de que o último refúgio do romantismo é a astrologia. O problema deste tipo de frases, vindas não se sabe donde e muito menos para quê, é que depois será necessário encontrar-lhes uma explicação tanto quanto possível racional para que o achado não fique limitado a um fulgurante fogo de palha que em três minutos não será mais que um punhado de cinzas negras. Uma razão, ainda que menos convincente do que eu desejaria, é que, tal como está organizado o pátio da modernidade, não sabemos onde meter o romantismo, e portanto a astrologia, tão misteriosa, tão sibilina, tão arcânica, seria um bom lugar onde diluir, no geometrismo implacável de um mapa astral, a violência às vezes extrema dos sentimentos românticos. O tocaio meu que me está fazendo o favor de ler estas mal alinhavadas regras, o quase irmão e quase gémeo José-Augusto França, autor do notável livro que é Le romantisme au Portugal, poderá, querendo, graças ao seu minucioso conhecimento das matérias, confirmar ou infirmar o que aqui se sugere. Embora a astrologia se ocupe mais de planetas do que estrelas, não há nenhuma dúvida sobre o seu campo de trabalho: o espaço celeste, tão responsável por inúmeros suspiros soltados do peito dos jovens e menos jovens tocados pelo anhelo, pela melancolia, pelo mal de vivre que, em última análise, caracteriza o romantismo. Que temos o nosso destino escrito no céu, dizem-nos. Talvez seja verdade, mas é na terra que pagamos as favas.


José-Augusto França entendeu responder:

Caro Zé Saramago, desolados por sua ausência e certos que a nova crise será em breve vencida para que, dentro de um ano, tenhamos ganho 150% da esperança de vida havida ao nascermos nacionalmente, nos idos de 1922.
A sua ideia do romantismo (que coisa ele será? pergunta-se o doutorado nele na Sorbonne) pode ser… Passagem da tragédia dos deuses e dos seus destinos, ao drama dos homens e dos seus caminhos (condicionados socialmente tanto quanto individualmente responsabilizados) a quem vão restando “montes e maravilhas” de poesia que os astros – quê? simbolizam analogicamente. Que, para o Fernando Pessoa (que aqui vejo obscenamente sentado de bronze no terraço da Brasileira donde escrevo), tudo é necessariamente símbolo e analogia. E fica V. sabendo, com este abraço, que estou histórica e minuciosamente trabalhando sobre 1936 – o seu Ano da Morte de Ricardo Reis e dos Sinais de Fogo de Jorge de Sena. Ou seja, do “Ano X” da revolução que o Salazar confiscou – raios nos partiram a todos, tínhamos nós 14 anos…

José Prudêncio, nas primeiras páginas do livro, esclarece:

Quando se fala de astrologia ocorre de imediato, para a maioria das pessoas, os Signos do Zodíaco e as respectivas previsões dos jornais e das revistas, escreve José Prudência nas primeiras páginas do livro.

Encontro-me neste número, mas saí da leitura do livro com uma ideia diferente da que tinha sobre tal matéria.

O assunto é bem mais sério do que imaginara,

Certo que o livro apresenta muitos mapas das vidas de Saramago e Augusto França, bem como das respectivas famílias (elementos, signos, áreas, planetas, algo mais) a necessitarem leitura especializada, mas o resto é deveras interessante, muito por via da transcrição das conversas que o autor manteve com ambos e que oferecem o desnovelar do mistério de duas vidas quase pararelas.

Ou como escreveu Luís Resina na contracapa:

Um livro apaixonante.

sábado, 2 de maio de 2015

O FINAL DA GUERRA EM LISBOA, 1945


Não houve qualquer meio de impedir os portugueses de, nos primeiros dias de Maio de 1945, virem para as ruas, euforicamente, festejar a vitória dos aliados face à besta nazi.

Tão pouco isso interessava aos propósitos de hipocrisia neutral de Salazar.

Por isso as tolerou.

Sempre esteve com Deus e com o Diabo.

Tinha eu pouco mais de um mês de vida, mas por esses dias por estas ruas, lá andaram o meu avô e o meu pai.

O meu avô contava que, nas ruas, apareceram bandeiras portuguesas, britânicas, norte-americanas, francesas e… bandeiras do Benfica, habilidade, contava ele, utilizada para representarem a bandeira da União Soviética.

Numa entrevista, de que não tenho indicação de nome e data do jornal, José-Augusto França confirma a versão do meu avô:

Mais tarde, soube que por cá os meus amigos tinham andado em grandes festas e que se fizeram manifestações a festejar a vitória dos aliados, apareceram uns paus sem bandeira e até bandeiras do Benfica. Eram, evidentemente, a homenagem aos aliados soviéticos, cujo nome não podia ser mencionado

José Gomes Ferreira, em Intervenção Sonâmbula, também refere o episódio:

No entanto, o povo berrava nas ruas a sua alegria com lágrimas e bandeiras (muitos empunhavam apenas paus nus com imaginárias bandeiras vermelhas da pátria dos sovietes), ainda com alguns ingénuos a quererem convencer-se de que a mágica queda do salazarismo aconteceria no dia seguinte.

Quem não dançou, quem não cantou, quem não soltou vivas e morras nessa noite? Mas entre aqueles milhares e milhares de pessoas, recordo-me sobretudo – é curioso como certas imagens sobrenadam na memória em detrimento de outras – recordo-me do Fernando Lopes Graça então 30 anos mais novo, a mancar, com os pés doridos de tanto marchar pelas pedras de Lisboa


No prédio onde está o British-Bar, em Março de 1945 içaram-se as bandeiras portuguesa, britânica e norte-americana.


Legenda: fotografia da Fundacionmapfre

sábado, 25 de abril de 2015

AO CAIR DAQUELA TARDE DE ABRIL


Rua António Maria Cardoso em Lisboa.

Hoje, este edifício

é um condomínio de luxo.

Outrora, foi a sede da sinistra PIDE.

Já tinha sido, de 1933 a 1945, da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).

Em 1969, tempos da dita «primavera marcelista», passou a chamar-se DGS, mas a mudança apenas aconteceu no nome.

Continuaram a perseguir, a prender, a espancar, a torturar, a assassinar.

No findar da tarde de 25 de Abril de 1974, das janelas da sede, os pides abriram fogo sobre os populares que aguardavam a sua rendição.

Quatro mortos, dezenas de feridos.

Também a morte de um pide, quando em fuga, foi atingido pelos militares.

Lembrança de José-Augusto França nas suas Memórias para o Ano 2000:

Na sua sede, na António Maria Cardoso, a Pide, cercava, atirava da janela sobre a multidão, por raiva e pânico, matando quatro pessoas e nunca foram identificados os assassinos, orém fáceis de achar, entre os da casa que, sem dúvida, os teriam denunciado  e foram ocupando o forçado recolhimento a destruir os arquivos da corporação, bens do Estado não só Novo - do que foram curiosamente desculpados.


No tal edifício de luxo, a placa que assinala a morte desses populares.


Título de O Primeiro de Janeiro, de 16 de Janeiro de 1971, resultante de uma
discussão na Assembleia Nacional, sobre o modo como os presos políticos eram tratados nas prisões da ditadura.

Dias antes, os deputados da ala liberal, Sá Carneiro e Pinto Balsemão, tinham-se deslocado às prisões e confirmaram as queixas que os familiares dos presos políticos lhes tinham dirigido.


Texto publicado no Diário de Lisboa de 18 de Maio de 1974:

E ENTÃO O QUE É QUE SE HÁ-DE FAZER?...


Não havia muito por onde me informar na circunstância: telefonei ao Fernando Azevedo, que, já sabia, mas não sabia de nada e, apesar do segundo ou terceiro telefonema da mãe, bem certa já do que acontecia e dos seus perigos, fui rua acima até ao Rato, talvez por referência histórica visivelmente inútil, que não havia Rotunda no saco, e não encontrei ninguém; tornei a casa e saí depois rua abaixo até à Misericórdia onde as pessoas começavam a animar-se, com correrias para o Carmo, em gáudio de rapaziada, e outras gentes a rondar, à espera, interpelando-se a medo, ainda. Não quis (ou tive medo de) continuar, voltei a ouvir em casa as notícias excitadas da rádio – e as transmissões das forças fiéis, apanhadas em grande surpresa e susto, a comunicarem para um comandante tido como chefe das operações, que, felizmente para ele, não deixou nome na história desse dia. Falavam as forças do Camões,não hostilizadas, na verdade, mas talvez porque o povo julgasse que eram também revolucionárias – dizia o seu oficial. E no Rossio? Interrogava o general. Não se sabia nada. Havia que mandar um pelotão a saber! Pois tinha sido mandado,mas não dera mais sinal de si… E no Carmo? Pois estava uma multidão de gente ao lado da tropa, a cercar o quartel da Guarda. Era preciso mandar um avião bombardear, receitou então o General. Mas, assim no centro da cidade? duvidava o major. Pois era, pois era… reflectia o Estado Maior, ante a dificuldade em que não tinha pensado. Era a guerra tal e qual como o meu caro Raul Solnado a contara! Ficou gravado e sabe-se com certeza o nome dos oficiais, generais e não, em causa, pobres diabos apanhados numa história que se fazia historieta, à altura deles. Um só, brigadeiro de seu posto, e à paisana resistiu, no Terreiro do paço…
No Carmo tinham achado refúgio Marcelo Caetano e uns tantos ministros; alguns choravam o emprego perdido, ele foi digno e triste, sabendo há muito como tudo estava perdido, no Estado Novo que sempre servira, por convicção, ambição e final sacrifício. Depois viria um general de passado carregado mas oportunamente achado, à falta de outro, para dar salvação ao caso – e recomeçar uma história republicana havia quase meio século interrompida. Na medida das possibilidades destes dias incertos.

José-Augusto França em Memórias Para o Ano 2000.

Legenda: fotografia  tirada do Catálogo 25 de Abril, Cinemateca Portuguesa, Lisboa, Abril de 1984. 

sábado, 17 de janeiro de 2015

HÁ 20 ANOS


Miguel Torga, como escritor, nunca me entusiasmou.

Não o li exaustivamente, mas o que li nunca trouxe aquele passe de mágica que me leva a dar um passo em frente para colocar alguém no panteão privado da casa.

Gosto mais dos contos do que da restante obra.

José-Augusto França desenhava-o como um transmontanocoimbrão, de muito mais  mau génio que génio.

Sophia de Mello Breyner Andresen reconhecia que Torga fala do Portugal das aldeias, da gente que cava a terra e faz o pão, de um Portugal de que quase ninguém fala.

José Saramago lamentou não o ter conhecido:

Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele. Algumas vezes, nestes últimos tempos, os nossos nomes apareceram juntos, e sempre que tal sucedia não podia evitar o pensamento de que o meu lugar não era ali. Por uma espécie de superstição induzida pela pessoa que foi e pela obra que criou? Não creio. O motivo é certamente muito mais subtil do que aquele que se poderia deduzir de um mero balanço de qualidades suas e defeitos meus. Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.
Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde.

A morte, no seu Diário, é uma constante dos últimos anos de escrita:

15 de Fevereiro de 1979
Apostei na vida e perdi. Acreditei nela piamente, tentei ser-lhe fiel de todas as maneiras, e chego ao fim na triste convicção de que, afinal, foi tudo inútil, e que apenas cheguei ao desespero de nada poder distrair-me da evidência da minha morte.

25 de Outubro de 1979
Não. Nunca hei-de escrever a última página. Ficará sempre uma inédita na minha aflição.
29 de Julho de 1984
O meu drama foi viver a vida a dar passadas firmes e irreversíveis a duvidar sempre de mim.

25 de Dezembro de 1984
Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer.

4 de Fevereiro de 1986
Beber estoicamente até à última gota o cálice de amargura da vida. É o meu ponto de honra.

3 de Abril de 1988
Despeço-me da casa paterna, do jardim, do negrilho e das fragas. Das únicas riquezas que gostei verdadeiramente de possuir no mundo, e de que sou avaro. Que não tive de ganhar, mas de merecer.

14 de Junho de 1988
É terrível, a morte. Tira sentido às palavras, aos gestos, ás lágrimas, ao silêncio Deixa a vida sem expressão.

22 de Fevereiro de 1989
Vivi duas vidas. Uma, desalentado, a ver-me morrer, outra a lutar inconformado contra todas as mortes.

15 de Abril de 1991
O mais trágico na velhice doente é vermo-nos morrer antecipadamente no cansaço e no enfado de quem nos rodeia.

29 de Abril de 1991
Durei o suficiente para tirar todas as provas reais à minha natureza. A mais difícil e concludente é esta em curso. O meu pendor religioso nem perante o sofrimento atroz em que agonizo cede à tentação dum qualquer alívio beato. Continuo fiel à realidade de ser uma pobre criatura transitória de barro, sem apetência instintiva da bênção redentora de qualquer graça providencial solicitada. Morro roído de dores, na perplexidade de sempre, a consciencializar maceradamente a extensão dos meus erros e falências, sem me perdoar de ter sido excessivo em tudo, e deixar o mundo triste e desiludido de mim, a olhar complacentemente os felizes que compram com a renúncia à lucidez, a ilusão da sobrevivência eterna num outro mundo anestesiado.

28 de Novembro de 1991
Às duas por três, sinto a tentação de registar miudamente estas horas de agonia. Mas tenho de me render à evidência. A caneta cai-me da mão aos primeiros rabiscos. E ainda bem. Nasci para cantar a glória da vida e não para cronista da humilhação da morte.

27 de Agosto de 1993
Envelhecer não é para covardes. E, morrer muito menos. Corajosamente, envelheci, e corajosamente morro, ou vivi sempre em pânico, com medo de o não ser?

10 de Dezembro de 1993

Requiem por mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio. 

Miguel Torga, após longa e dolorosa doença, morreu, em Coimbra, no dia 17 de Janeiro de 1995, tendo sido sepultado, em campa rasa, em São Martinho de Anta, e, em sua homenagem, ao lado, plantaram uma torga, planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo e que originou o seu pseudónimo.

Legenda: Esta fotografia de Miguel Torga, em Trás-os-Montes, foi tirada do livro
                 Miguel Torga de José de Melo, Editora Arcádia, Lisboa, Junho de 1960.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

ATÉ QUE O FILME FOI RETIRADO


Tínhamos escapado à ocupação e a bombardeamentos de uns e de outros. E agora, que nos aconteceria? Foram semanas em suspenso. No ecrã do Politeama passou então, logo em Maio, «Casablanca», como entusiástico manifesto – e os aplausos «frenéticos« da plateia estrondeavam na «Marselhesa», até que o filme foi retirado.

José-Augusto França em Memórias Para o Ano 2000.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

OS IDOS DE OUTUBRO DE 1974


16 a 31 de Outubro

A F.N.L.A, único dos movimentos emancipalistas armados angolanos que mantinha uma actividade militar efectiva, ordenou a todos os combatentes o cessar-fogo.
Agostinho Neto:
O povo angolano já conquistou através de 13 anos de luta heroica o direito à sua independência.

OS TRABALHADORES do Jornal do Comércio, empresa do Grupo Borges & Irmão, terminaram a greve, iniciada há 33 dias, quando a administração recusou negociar o caderno reivindicativo então apresentado e no qual se exigia o saneamento do director do jornal, Carlos Machado.
Entretanto, em consequência da intentona de 28 de setembro, as autoridades militares passaram um mandato de captura contra Carlos Machado, o que levou a administração a reconsiderar a sua posição.

O PRESIDENTE Costa Gomes discursa perante a Assembleia Geral da ONU no dia 17:
Não mais admitiremos trocar a liberdade de consciência colectiva por sonhos grandiosos de imperialismo estéril.

PROJECTO DE Lei Eleitoral:
- Direito de voto aos 18 anos e para emigrantes.
- Não podem ser eleitores os indivíduos comprometidos em organizações antidemocráticas.

- Obrigatório e oficioso o recenseamento.


COM A PRESENÇA do Ministro da Justiça, Salgado Zenha, de representantes dos partidos políticos, de muito povo, a Ponte Salazar passou a chamar-se Ponte 25 de Abril.

SEIS MESES volvidos sobre o 25 de Abril.

O Diário de Notícias perguntou a uma série de personalidades:

Que pensa destes seis meses decorridos desde o 25 de Abril?

Respigaram-se estes:

Ilse Losa:
Duma maneira geral, no País e no estrangeiro tinha-se o povo português como pachorrento, passivo e desalentado. Durante quase meio século dominado por um grupelho poderoso que não se dignava dar-lhe a mínima satisfação sobre as medidas tomadas e o dinheiro gasto, parecia, de facto, alheio o seu próprio destino. Eis que em 25 de Abril, a mais humana revolução desde sempre, fez estalar a casca da indiferença e de aparente adormecimento, e surge-nos um povo decidido a provar que se conservou vivo apesar de tudo e de todos.
José Augusto França:
É claro que há gente que não tinha e ainda não tem vergonha – e muito há fazer em todas as frentes, da cultura à economia, para evitar enganos de governo, mal-entendidos de partidos, e, numa história que corre veloz, perdas de tempo. Após estes seis meses, há que ganhar sem descanso outros meses e outras batalhas que hão-de vir. A revolução de 25 de Abril é um facto da civilização e, portanto, um facto moral.
José Cardoso Pires:
Nestes seis meses vivemos mais do que em vinte anos.

Luzia Maria Martins:

Quantos anos serão necessários para que surja essa nova sociedade ansiada pela maioria? Não me atrevo a fazer previsões neste campo. Creio que já é importante que estejamos a caminhar para ela. E  estes seis meses têm sido uma experiência notável, e, na sua generosidade, muito positiva.

Paulo Quintela:

O meu ofício é estudar poetas e transmitir-lhes a mensagem. Ora, os poetas, em momentos altos, são também profetas. Um deles, e dos maiores e mais castigados pelas desgraças do nosso século, Bertolt Brecht, deixou-nos estes versos que agora entrego à vossa meditação, como «vademecum» de todo o homem que quer ser livre e quer ajudar a construir um mundo de justiça e de razão:

De que Serve a Bondade

I

De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

II

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio! 


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo.