sábado, 17 de janeiro de 2015

HÁ 20 ANOS


Miguel Torga, como escritor, nunca me entusiasmou.

Não o li exaustivamente, mas o que li nunca trouxe aquele passe de mágica que me leva a dar um passo em frente para colocar alguém no panteão privado da casa.

Gosto mais dos contos do que da restante obra.

José-Augusto França desenhava-o como um transmontanocoimbrão, de muito mais  mau génio que génio.

Sophia de Mello Breyner Andresen reconhecia que Torga fala do Portugal das aldeias, da gente que cava a terra e faz o pão, de um Portugal de que quase ninguém fala.

José Saramago lamentou não o ter conhecido:

Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele. Algumas vezes, nestes últimos tempos, os nossos nomes apareceram juntos, e sempre que tal sucedia não podia evitar o pensamento de que o meu lugar não era ali. Por uma espécie de superstição induzida pela pessoa que foi e pela obra que criou? Não creio. O motivo é certamente muito mais subtil do que aquele que se poderia deduzir de um mero balanço de qualidades suas e defeitos meus. Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.
Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde.

A morte, no seu Diário, é uma constante dos últimos anos de escrita:

15 de Fevereiro de 1979
Apostei na vida e perdi. Acreditei nela piamente, tentei ser-lhe fiel de todas as maneiras, e chego ao fim na triste convicção de que, afinal, foi tudo inútil, e que apenas cheguei ao desespero de nada poder distrair-me da evidência da minha morte.

25 de Outubro de 1979
Não. Nunca hei-de escrever a última página. Ficará sempre uma inédita na minha aflição.
29 de Julho de 1984
O meu drama foi viver a vida a dar passadas firmes e irreversíveis a duvidar sempre de mim.

25 de Dezembro de 1984
Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer.

4 de Fevereiro de 1986
Beber estoicamente até à última gota o cálice de amargura da vida. É o meu ponto de honra.

3 de Abril de 1988
Despeço-me da casa paterna, do jardim, do negrilho e das fragas. Das únicas riquezas que gostei verdadeiramente de possuir no mundo, e de que sou avaro. Que não tive de ganhar, mas de merecer.

14 de Junho de 1988
É terrível, a morte. Tira sentido às palavras, aos gestos, ás lágrimas, ao silêncio Deixa a vida sem expressão.

22 de Fevereiro de 1989
Vivi duas vidas. Uma, desalentado, a ver-me morrer, outra a lutar inconformado contra todas as mortes.

15 de Abril de 1991
O mais trágico na velhice doente é vermo-nos morrer antecipadamente no cansaço e no enfado de quem nos rodeia.

29 de Abril de 1991
Durei o suficiente para tirar todas as provas reais à minha natureza. A mais difícil e concludente é esta em curso. O meu pendor religioso nem perante o sofrimento atroz em que agonizo cede à tentação dum qualquer alívio beato. Continuo fiel à realidade de ser uma pobre criatura transitória de barro, sem apetência instintiva da bênção redentora de qualquer graça providencial solicitada. Morro roído de dores, na perplexidade de sempre, a consciencializar maceradamente a extensão dos meus erros e falências, sem me perdoar de ter sido excessivo em tudo, e deixar o mundo triste e desiludido de mim, a olhar complacentemente os felizes que compram com a renúncia à lucidez, a ilusão da sobrevivência eterna num outro mundo anestesiado.

28 de Novembro de 1991
Às duas por três, sinto a tentação de registar miudamente estas horas de agonia. Mas tenho de me render à evidência. A caneta cai-me da mão aos primeiros rabiscos. E ainda bem. Nasci para cantar a glória da vida e não para cronista da humilhação da morte.

27 de Agosto de 1993
Envelhecer não é para covardes. E, morrer muito menos. Corajosamente, envelheci, e corajosamente morro, ou vivi sempre em pânico, com medo de o não ser?

10 de Dezembro de 1993

Requiem por mim

Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio. 

Miguel Torga, após longa e dolorosa doença, morreu, em Coimbra, no dia 17 de Janeiro de 1995, tendo sido sepultado, em campa rasa, em São Martinho de Anta, e, em sua homenagem, ao lado, plantaram uma torga, planta brava da montanha, que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente rectilíneo e que originou o seu pseudónimo.

Legenda: Esta fotografia de Miguel Torga, em Trás-os-Montes, foi tirada do livro
                 Miguel Torga de José de Melo, Editora Arcádia, Lisboa, Junho de 1960.

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