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segunda-feira, 15 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS


Vemo-nos em Agosto

Gabriel García Márquez

Tradução: J. Teixeira de Aguilar

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2024

Duas horas depois, Ana Magdalena lançou um último olhar de compaixão ao seu próprio passado e disse adeus para sempre aos seus desconhecidos de uma noite e às tantas e tantas horas de incertezas que ficavam dela própria dispersas na ilha. O mar era um remanso de ouro sob o sol da tarde. Às seis, quando o marido a vou entrar em casa arrastando sem mistérios o saco de ossos , não pôde resistir à surpresa.

- É o que resta da minha mãe – disse-lhe ela, e antecipou-se aos seu espanto. – Não te assustes – disse. – Ela entende. Mais ainda, acho que é a única que já o tonha entendido quando decidiu que a enterrassem na ilha.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Viver para Contá-la

Gabriel García Márquez

Tradução: Maria do Carmo Abreu

Capa: Rita Múrias

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2003

 Até à adolescência, a memória tem mais interesse no futuro do que no passado e, portanto, as minhas recordações da aldeia não estavam ainda idealizadas pela nostalgia. Recordava‑a como era: um lugar bom para viver, onde toda a gente se conhecia, na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré‑históricos.

sexta-feira, 26 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


Os Funerais da Mamã Grande

Gabriel Garcia Márquez

Tradução: E.B.

Publicações Europa-América, Lisboa s/d

A inquietação começou em Julho, quando a Sr.ª Rebeca, uma viúva amargurada que vivia numa imensa casa de dois corredores e nove quartos, descobriu que as persianas das janelas estavam rasgadas como se tivessem sido apedrejadas da rua. A primeira descoberta foi feita no seu quarto, e pensou que deveria falar sobre aquilo com Argénida, sua criada e confidente desde que o seu marido morrera. Depois, revirando os seus trastes (pois havia muito tempo que a Sr.ª Rebeca não fazia outra coisa senão revirar os seus trastes), descobriu que não só as persianas do seu quarto, mas todas da casa estavam estragadas.

segunda-feira, 18 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Memória das Minhas Putas Tristes

Gabriel Garcia Márquez
Tradução: Maria do Carmo Abreu
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2005

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás. Era um pouco mais nova do que eu e não sabia dela há tantos anos que bem podia já ter morrido. Mas ao primeiro toque reconheci a sua voz ao telefone e disparei sem preâmbulos:
- Hoje sim.
Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, desapareces vinte anos e só voltas para pedir impossíveis. Recuperou de imediato o domínio da sua arte e ofereceu-me uma meia dúzia de opções deliciosas mas, isso sim, todas usadas. Insisti que não, que devia ser donzela e para essa mesma noite. Ela perguntou, alarmada: O que queres provar a ti mesmo? Nada, respondi-lhe, magoado no que mais me doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem tudo, mas nem tudo: os únicos Virgens que vão restando no mundo são vocêss, os de Agosto. Porque não me encomendaste com mais tempo? A inspiração não avisa, disse eu. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabida do que qualquer homem, e pediu-me nem que fossem dois dias para esquadrinhar a fundo o mercado. Repliquei-lhe muito a sério que num negócio como aquele, na minha idade, cada hora é uma ano. Então não se pode, disse ela sem a mínima hesitação, mas não importa, assim é mais emocionante, carago, telefono-te daqui a uma hora.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

OLHAR AS CAPAS


 Crónica de Uma Morte Anunciada

Gabriel Garcia Márquez
Tradução: Fernando Assis Pacheco
Capa: João Segurado
Edições O Jornal, Lisboa, Agosto de 1983


No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se às 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo. Tinha sonhado que atravessava uma mata de figueiras-bravas, onde caía uma chuva miúda e branda, e por instantes foi feliz no sono, mas ao acordar sentiu-se todo borrado de caca de pássaros. “Sonhava sempre com árvores”, disse-me a mãe, Plácida Linero, recordando 27 anos depois os pormenores daquela segunda-feira ingrata. “Na semana anterior tinha sonhado que ia sozinho num avião de papel de estanho que voava sem tropeçar por entre as amendoeiras”, disse-me. Tinha reputação bastante bem ganha de intérprete certeira dos sonhos alheios, desde que lhos contassem em jejum, mas não descobrira qualquer augúrio aziago nesses dois sonhos do filho, nem nos restantes sonhos com árvores que ele lhe contara nas manhãs que precederam a sua morte.
Santiago Nasar também não reconheceu o presságio. Dormira pouco e mal, sem despir a roupa, e acordou com dores de cabeça e com um sedimento de estribo de cobre na boca, e interpretou-os como estragos naturais da farra de casamento que se tinha prolongado até depois da meia-noite.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Cem Anos de Solidão

Gabriel Garcia Márquez
Tradução (adaptada) de Eliane Zagury
Publicações Europa-América, Lisboa s/d

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

domingo, 11 de maio de 2014

OLHAR AS CAPAS


Ninguém Escreve ao Coronel

Gabriel García Márquez
Tradução: V.W.
Publicações Europa-América, Lisboa, Dezembro de 1972

Chegou à janela, mas o seu rosto não revelou nenhuma emoção-
- Gostaria de plantar rosas – disse ela, de volta ao fogão.
O coronel pendurou um espelho na estaca, para se barbear.
- Se quer plantar rosas, porque não planta?
Procurou identificar os seus movimentos com os da imagem no espelho-
- Os porcos comem-nas todas – disse ela.
- Óptimo – disse o coronel – Porco engordado com rosa deve ser muito bom.