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domingo, 8 de agosto de 2021

POSTAIS SEM SELO


«Afinal para que servem os livros?» Ajudam a fintar as insónias, não é verdade, vizinho.

Francisco Duarte Mangas em A Cidade das Livrarias Mortas

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

 


Apenas uma única vez perguntei por livro específico ao atual alfarrabista: O Ofício de Viver, «Sei, do Pavese, edição da Portugália: espere um momento. Saiu do balcão, subiu umas escadas, ouvi os seus passos no andar superior, logo volvendo, Quanto lhe devo? Ele disse, «Paga da próxima. Muita saúde». Gosto de ler diários, é género de escritor ocioso quando ao escritor falta talento; não será o caso do autor de O Ofício de Viver.

Francisco Duarte Mangas em A Cidade das Livrarias Mortas

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

SALTARAM O MURO


As livrarias fecham, sem dúvida, por motivos vários. Não sou a pessoa indicada para falar do assunto, a diversidade declina, embora nunca como hoje tanta gente publique obras de ficção, de memórias, de poesia, de culinária, etc. Há dias alguém explicava o ocaso das livrarias por este fenómeno: os leitores saltaram o muro, quase todos escrevem.

Francisco Duarte Mangas em A Cidade das Livrarias Mortas                  

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

OLHAR AS CAPAS

A Cidade das Livrarias Mortas

Francisco Duarte Mangas

Edições Afrontamento, Porto s/d

O meu avô paterno trabalhou no Teatro São João. E só a morte lhe diluiu da lembrança o desempenho do célebre ator Taborda, mo final de oitocentos, durante um espetáculo de beneficência para a Associação do Jornalistas e Homens de Letras abrandar a penúria das viúvas de escritores e publicistas desajudados de haveres. Era um tempo de pessoas generosas, de furiosos republicanos a guerrear a caridade jesuítica. Um camaroteiro guardaria segredos da fina flor da cidade, lotava o teatro na temporada lírica. O meu avô legou ao filho as memórias agradáveis ou as mais perturbadoras. A cidade, quase toda, trazia a revolta nas veias, a insurgência da Comuna de Paris teria aportado na Ribeira e propagado na forma de epidemia ao Porto culto, para usar a expressão de Sampaio Bruno. O meu avô conheceu Bruno. Um dia, junto da Brasileira, assiste a um episódio repugnante a olhar de republicano. Republicano não só por servir a nobreza pelintra de palito no dente a assistir à récita. Junto da Brasileira, o sossegado Bruno, a doença atormentava-lhe o movimento, é agredido pelo antigo camarada Afonso Costa: irrompe da chusma e, sem palavras, de soqueira de aço desfere-lhe o golpe, como se o alvo fosse o último inquisidor. Bruno aturdido, sangra do rosto, Costa e os capangas desaparecem com a presteza de lume das bruxas.