«Afinal para que servem os livros?» Ajudam a fintar as
insónias, não é verdade, vizinho.
Francisco Duarte Mangas em A Cidade das Livrarias Mortas
«Afinal para que servem os livros?» Ajudam a fintar as
insónias, não é verdade, vizinho.
Francisco Duarte Mangas em A Cidade das Livrarias Mortas
Apenas uma única vez perguntei por livro específico ao atual alfarrabista: O Ofício de Viver, «Sei, do Pavese, edição da Portugália: espere um momento. Saiu do balcão, subiu umas escadas, ouvi os seus passos no andar superior, logo volvendo, Quanto lhe devo? Ele disse, «Paga da próxima. Muita saúde». Gosto de ler diários, é género de escritor ocioso quando ao escritor falta talento; não será o caso do autor de O Ofício de Viver.
Francisco Duarte Mangas em A Cidade das Livrarias Mortas
As livrarias fecham, sem dúvida, por motivos vários. Não sou a pessoa
indicada para falar do assunto, a diversidade declina, embora nunca como hoje
tanta gente publique obras de ficção, de memórias, de poesia, de culinária,
etc. Há dias alguém explicava o ocaso das livrarias por este fenómeno: os
leitores saltaram o muro, quase todos escrevem.
Francisco Duarte Mangas
em A Cidade das Livrarias Mortas
A
Cidade das Livrarias Mortas
Francisco
Duarte Mangas
Edições
Afrontamento, Porto s/d
O
meu avô paterno trabalhou no Teatro São João. E só a morte lhe diluiu da
lembrança o desempenho do célebre ator Taborda, mo final de oitocentos, durante
um espetáculo de beneficência para a Associação do Jornalistas e Homens de
Letras abrandar a penúria das viúvas de escritores e publicistas desajudados de
haveres. Era um tempo de pessoas generosas, de furiosos republicanos a guerrear
a caridade jesuítica. Um camaroteiro guardaria segredos da fina flor da cidade,
lotava o teatro na temporada lírica. O meu avô legou ao filho as memórias
agradáveis ou as mais perturbadoras. A cidade, quase toda, trazia a revolta nas
veias, a insurgência da Comuna de Paris teria aportado na Ribeira e propagado
na forma de epidemia ao Porto culto, para usar a expressão de Sampaio Bruno. O
meu avô conheceu Bruno. Um dia, junto da Brasileira, assiste a um episódio
repugnante a olhar de republicano. Republicano não só por servir a nobreza
pelintra de palito no dente a assistir à récita. Junto da Brasileira, o
sossegado Bruno, a doença atormentava-lhe o movimento, é agredido pelo antigo
camarada Afonso Costa: irrompe da chusma e, sem palavras, de soqueira de aço
desfere-lhe o golpe, como se o alvo fosse o último inquisidor. Bruno aturdido,
sangra do rosto, Costa e os capangas desaparecem com a presteza de lume das
bruxas.