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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021
COMIDINHA ACONCHEGANTE PARA COMBATER A PANDEMIA
Fomos todos jantar fora naquela noite, até o Dr. Rodrigues, que não devia estar habituado às cadeiras e mesas de metal, mas fez honras à comida. Era a refeição pela qual o meu estômago ansiava há seis meses. Amêijoas à Bulhão Pato, em vinho branco, alho e coentros frescos. Robalo grelhado, pescado nessa manhã nas escarpas do Cabo da Roca. Borrego assado, do Alentejo, com a carne a abrir em lascas. Café forte como um beijo de mulata. E, para terminar, aguardente amarela, da escaldante. Robert Wilson em Último Acto Em Lisboa
segunda-feira, 27 de julho de 2020
OLHAR AS CAPAS
Sem Mentiras
Robert
Wilson
Tradução:
Jorge Pereirinha Dias
Capa:
Rui Garrido
Publicações
Dom Quixote, Lisboa, Setembro de 2019
-
E quanto a essa conspiração de direita dentro da CIA? – perguntou ele, voltando
novamente para junto dela. – Tu acreditas nisso?
-
Eu fui oficial dos serviços secretos no Iraque. Em Bagdad. Vi o que passava.
-
Estás a falar da manipulação das informações que nos conduziu à guerra.
-
Não estou a falar de dinheiro.
-
Dinheiro? – perguntou Boxer. – Toda a gente sabe que há sempre imenso dinheiro
para uma guerra e nunca há o suficiente para um hospital.
-
Eu estava na Zona Verde quando os C-130 trouxeram doze mil milhões de dólares
em dinheiro numas paletes de carga – disse Louise. – Vi a maneira como o
dinheiro era distribuído – os subordinados, as comissões, o dinheiro enfiado em
mochilas e transportado por Bagdad em veículos de caixa aberta. E percebi as
motivações desta guerra. Não eram as armas de destruição em massa, não era a
protecção de Israel, não era regatar o Iraque de um ditador, nem proteger os
interesses petrolíferos dos EUA, nem promover a democracia no mundo árabe, nem
nenhuma das coisas que os nossos governos nos disseram acerca do assunto
-
O que era então?
-
Era que algumas pessoas sem escrúpulos sentiram uma grande necessidade de
ganhar muito dinheiro – disse Louise, - E vi com os meus próprios olhos que
havia uns certos agentes da CIA que andavam a facilitar isso e todos eles
tinham relações muito fortes com uma empresa de segurança privada chamada
Anchorlight, ou Kinderman Corporation, ou ambas. E, como sabes, ambas essas
organizações contêm pessoas com ideias de extrema-direita.
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Iraque,
Olhar as Capas,
Robert Wilson
terça-feira, 25 de agosto de 2015
POSTAIS SEM SELO
Nunca senti necessidade de remoer momentos tristes.
Acontecem. Passam. Eu ando para a frente. Construo. Nunca fui de me sentar a
suspirar por tempos idos. Suspirar por quê? Pela inocência perdida? Por tempos
mais simples? Eu não perco tempo a pensar no destino ou no fado – fado, em
português, quer dizer destino. Quem diz que acredita no destino quer é
justificar os seus próprios fracassos. Não lhe parece? Ou serei um ateu?
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Postais Sem Selo,
Robert Wilson
quinta-feira, 25 de abril de 2013
OLHAR AS CAPAS
Último Acto em Lisboa
Robert Wilson
Tradução Maria Douglas
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa Março 2009
Quatro homens estavam sentados num carro à entrada do Parque Eduardo VII, no centro de Lisboa: um major, dois capitães e um tenente. O capitão do banco da frente tinha no colo um rádio para o qual todos olhavam, mal ouvindo o que dizia. O major inclinou-se para olhar o relógio à luz do candeeiro da rua. O tenente bocejou de nervoso.
- E agora – disse no rádio a voz tranquila de José Vasconcelos – Zeca Afonso canta Grândola, Vila Morena…
Os quatro homens retiveram a respiração por um instante, até Zeca Afonso começar a cantar. O capitão virou-se no banco
- Começou, meu major – disse, e o major concordou com a cabeça.
O carro desceu dois quarteirões e parou diante dum prédio de quatro andares. Os oficiais saíram e cada um tirou do bolso uma pistola. Entraram no prédio, que tinha uma pequena placa à porta: Rádio Clube Português.
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Olhar as Capas,
Robert Wilson
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
UM SACANA DE QUANDO EM VEZ...
- A Praça da Figueira. Esta manhã houve aqui uma desordem. A loja estava a vender chouriços com serradura. Como se já não lhes bastasse terem racionamento por Salazar vender tudo aos Alemães… O povo amotinou-se, os comunistas mandaram uns agentes provocadores, a Guarda apareceu a cavalo, houve muitas cabeças partidas. Há duas guerras em Lisboa – nós contra os boches e o Estado Novo contra os comunistas.
- Estado Novo?
- O regime de Salazar. Não faz grande diferença dos sacanas com quem lutamos. Há uma polícia secreta treinada pela Gestapo, a PVDE, e a cidade infestada de informadores, os chamados bufos. As prisões… Bem, é melhor não entrar numa prisão portuguesa. Até tinham um campo de concentração em Cabo Verde, o Tarrafal. Chamavam-lhe a «frigideira». Pronto, estamos na Baixa, a zona comercial da cidade. Foi toda reconstruída pelo marquês de Pombal depois do terramoto. Era também um tipo duro, esse. Parece que os Portugueses precisam de um a intervalo de poucos séculos.
- Um quê?
- Um sacana.
Robert Wilson em A Companhia de Estranhos
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quarta-feira, 12 de outubro de 2011
OLHAR AS CAPAS
A Companhia de Estranhos
Robert Wilson
Tradução: Maria Douglas
Capa: Multitipo
Gradiva
Lisboa, Abril 2002
- E Mr. Lazard?
- Capitalista – fez a velha senhora, com uma fungadela de desprezo.
- E Mr. Wilshere?
- O sangue irlandês é imprevisível. Ele é suposto ser neutral como Salazar, se é que me faço entender… um homem que tem admiração por um dos lados e ganha dinheiro com os dois. No caso de Wilshere acho que ele tem aversão por um dos lados e ganha dinheiro com ambos.
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