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segunda-feira, 27 de julho de 2026

OLHAR AS CAPAS


Nada do Outro Mundo

Antonio Muñoz Molina

Tradução Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Colecção Mil Folhas nº 71

Público, Lisboa Setembro de 2003

Quem pode atrever-se a dizer que conhece Marráquexe se não presenciou a lentidão dos seus crepúsculos do terraço do hotel Savoy? A história que agora tenho de contar tem lá o seu princípio, numa tarde de Setembro, sob os agradáveis toldos do Verão, naquele lugar que parece a coberta de primeira de um privilegiado transatlântico.

domingo, 29 de junho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Nada do Outro Mundo

Antonio Muñoz Molina

Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra

Capa: Fernando Mateus sobre fragmento de pintura de Edward Hopper

Relógio d’Água, Lisboa 1994

Foi ontem que os vi, Juana Rosa e Funes. Pensei que podiam vigiar a minha casa. Peguei nalguma roupa, no meu computador portátil e no meu cartão de crédito e fechei-me neste hotel. Na noite passada não dormi, Também não dormirei esta noite, embora me doam muito as costas e tenha os olhos vermelhos por causa do brilho do ecrã co computador. Os dedos movem-se no teclado sem que eu os governe. As palavras surgem no ecrã como se não as escrevesse. É como caminhar e caminhar numa cidade desconhecida e estar morto de cansaço e não parar nunca. Morto: também eles estão e não param. Mas apercebo-me, quase com alívio, de que o fim já não vai demorar. São quatro horas da madrugada. Há quinze minutos tocou pela primeira vez o telefone. Voltou a tocar exactamente cada cinco minutos. Detenho-me junto dele e olho, estendo a mão direita e toco no auscultador sem o levantar. Dentro de dois minutos voltará a tocar. Interrogo-me se Immaculada também terá vindo com eles, se vou ouvir a sua voz quando finalmente me render e levantar  o  telefone e o aproximar do ouvido.

sábado, 7 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Os Teus Passos nas Escadas

Antonio Muñoz Molina

Tradução: Rita Custódio e Alex Tarradellas

Capa: Carlos César Vasconcelos

Colecção Ficções

Relógio d’Água Editores, Lisboa, Julho de 2020

Depois de ter viajado tanto na minha vida, agora tornei-me sedentário. Não me apetece nada sair da cidade. Nem sequer atravessei para o outro lado do rio no cacilheiro. Nos dias de muito calor, tive uma desculpa perfeita para ficar no apartamento. E, quando saio, quase nunca me fasto do bairro, que tem qualquer coisa de aldeia recatada, de mundo completo, íntimo e, ao mesmo tempo, aberto à amplitude do rio, à zona dos cais onde os veleiros e os navios de contentores atracam. Os pilares dos extremos da ponte erguem-se sobre as encostas do bairro. O centro da cidade e as multidões de turistas ficam longe de aqui. Vivo num retiro no interior do outro retiro de Lisboa. Podemos encontrar tudo aquilo de que precisamos para a nossa vida sem caminhar mais de vinte minutos. As frutarias, o talho, a padaria, as pastelarias nas quais também servem almoços baratos e saborosos, os restaurantes aos quais as pessoas que trabalham pelo bairro vão almoçar, com os seus menus colados na montra, escritos à mão em toalhas de papel. A largura do mundo exterior cabe nos confins do bairro: os restaurantes indianos ou nepaleses, os de Moçambique, ou de Goa, o Jardim Botânico Tropical com as suas espessuras de bambu, as suas palmeiras altíssimas da Polinésia, os pinheiros do Tibete, as araucárias australianas. No Jardim Botânico a Luria observa com reverência e intriga os pavões, e persegue os gansos com uma crueldade tão absurda com a predilecção que tem, se eu não estiver atento, por comer as sua fezes. Se almoço fora, tento procurar uma esplanada ao ar livre para levá-la comigo e ela não ficar sozinha.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

POSTAIS SEM SELO


Tinha imaginado uma cidade tão enevoada como San Sebastian ou Paris. Ficou surpreendido com a transparência do ar, a exactidão do cor-de-rosa e do ocre nas fachadas das casas, a uniforme cor avermelhada dos telhados, a estática luz dourada que perdurava nas colinas da cidade com um esplendor de chuva recente. Da janela do seu quarto, num hotel de corredores sombrios onde toda a gente falava em voz baixa, via uma praça de janelas iguais e o perfil da estátua de um rei a cavalo que enfaticamente apontava para o Sul.

Antonio Muñoz Molina em O Inverno em Lisboa

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Inverno em Lisboa

Antonio Muñoz Molina
Capa: Rogério Petinga
Tradução: Carlos Martins Pereira
Quetzal Editores, Lisboa s/d

Saudámo-nos sem entusiasmo: fora sempre assim. A nossa amizade tinha sido descontínua e nocturna, fundada mais na semelhança de preferências alcoólicas – a cerveja, o vinho branco, a genebra inglesa, o bourbon – do que em qualquer espécie de impudor confessional, no que nunca ou quase nunca incorremos. Bebedores inveterados, ambos desconfiávamos dos exageros do entusiasmo e da amizade que a bebida e a noite trazem consigo: só uma vez, quase de madrugada, sob a influência de quatro imprudentes dry martinis, Biraldo me falara do seu amor por uma rapariga que eu conhecia muito superficialmente – Lucrécia – e de uma viagem que fizera com ela e de que acabava de regressar. Ambos bebemos demasiado naquela noite. No dia seguinte, quando me levantei, verifiquei que não tinha ressaca, mas que estava ainda grosso, e que esquecera tudo o que o Biraldo me contara. Lembrava-me unicamente da cidade onde devia ter terminado aquela viagem tão rapidamente iniciada e concluída: Lisboa.

terça-feira, 31 de julho de 2012

POSTAIS SEM SELO


Ulisses atraiu-me e derrotou-me várias vezes ao longo dos anos, desde que comprei nos distantes anos 70 a edição de volumes brancos da Lumen traduzida por José María Valverde. Um leitor tem de ser sincero consigo próprio e tal como não deve envaidecer-se com os cumes que conquistou, também não deve envergonhar-se dos seus fracassos nem esconder a sua capitulação diante de uma obra-prima.

Antonio Muñoz Molina, em El País.