Sempre se conheceu o vento de Junho
nessa orla, que regougava nas esquinas
da casa à noite e nas manhãs ansiosas
em que voltava a aragem matinal
deixava irremediavelmente os frutos
a juncar a terra e os atalhos.
E sempre se lamentaram as velhas pancadas
do vento, no seu ritmo marítimo, a exaltação
a que nos levava, permanentes povoadores
da costa. E para lamentar dizíamos
as palavras usuais e alguns suspiros
próprios da insónia de ouvir o vento.
Fiama Hasse Pais Brandão
sexta-feira, 12 de junho de 2026
SEMPRE SE CONHECEU O VENTO DE JUNHO
sexta-feira, 2 de agosto de 2024
GRAFIA 2
Está no rio
o embrião da noite
O rio livre
apenas com o princípio evidente
de todas as formas
A água íntima dos lábios
Fiama Hasse
Pais Brandão em F de Fiama
quarta-feira, 29 de março de 2023
O NOME
Esta
manhã
hoje
é
um nome
Nem
mesmo amanheceu
nem
o sol
a
evoca
Uma
palavra
palavra
só
a
ergue
Com
um nome
amanhece
clareia
Não
do sol
mas
de quem
a
nomeia
Fiama Hasse Pais Brandão
segunda-feira, 12 de dezembro de 2022
A MEIO DESTE INVERNO
A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelo nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.
O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui
sequer no poema a emoção abrupta.
Fiama Hasse Pais Brandão
sábado, 31 de julho de 2021
OLGA PRATS (1938-2021)
Os nossos
melhores vão partindo.
Fernando Lopes Graça morava na Parede. Olga Prats também. Numa noite de Verão, em que o acompanhava a casa, Olga Prats ouviu o Graça dizer:
«Eu agora não queria ficar sozinho, fosse quem fosse,
homem ou mulher, rapaz ou rapariga, nem que fosse um cão.»
GUILDA DA MÚSICA/SASSETTI - SST 3001 - s/data
Naqueles tempos em que se abriam janelas para que as correntes de ar pudessem
entrar, batessem na cara, juntávamo-nos ao redor de discos e livros, trocávamos
impressões, experiências e admitíamos aquele saber que guardamos nas dobras
improváveis do tempo, que era possível a chegada de um dia claro. A isto se
poderia chamar a memória da esperança. Era disto que se faziam os dias daqueles
tempos.
"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".
Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente
bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples
das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio.
Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia de trabalho.
"Para a próxima quem é que trás os discos?”
Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós.
Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.
Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça
“compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito
Canções das Barcas Novas”.
Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel
Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.
O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O
preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos.
O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho,
escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs
para serem cantados.
Mais tarde, muito depois de escritas estas palavras, seria secretário de Estado
da Cultura de um governo de José Sócrates. Dizem as más-linguas que ele e a
ministra, para além de umas guerras intestinas e perfeitamente inúteis
(Cinemateca, São Carlos etc.) não deixaram nada de registo. Também só agora é
que o Primeiro-Ministro reconhece que errou ao não apostar mais na Cultura e
que tenha sido tratada “como um parente pobre”.
Pois!...
sábado, 27 de fevereiro de 2021
SUAVE SOB O CÔMORO
enterro de
José Dias Coelho
Suave sob o cômoro
o corpo entregue enterra-se em a vala
em terra e as balas desfechadas que contêm
no dorso, ou sob os membros
o andar de antes animado.
Trazido jaz enquanto
cinde a dura terra e a frescura
da neblina, as alas dos olhares, caules
de arbustos despojados em o mistério inverno
de um cemitério; o inverno
que após os tempos da neblina
se aproxima de nós sem baixar do seu ar ao interior
do ermo que é a morte
Fiama Hasse Pais Brandão em (Este) Rosto
domingo, 24 de junho de 2018
POEMA SOBRE FOME
quinta-feira, 29 de março de 2018
OLHAR AS CAPAS
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
PADEIRA QUE ESTAVAS A FAZER PÃO ENQUANTO SE TRAVAVA A BATALHA DE ALJUBARROTA
com uma arma de amor
em repouso
As armas guardam no campo
todo o campo
Já os mortos não aguardam
e repousam
Dentro de casa ela aguarda
abrir o forno
Ela tem mão que prepara
o amor
Pelos campos todos armas
não repousam
nem aguardam mais os mortos
ter amor
Sobre a mesa põe as mãos
pôs o pão
Fora de casa o rumor
sem repouso
Ela agora abre o fogo
pão
sem repouso ouve os mortos
lá de fora
Lá de fora entram armas
os homens
As mãos dela não repousam
acolhem
Sobre a mesa pôs o pão
arma de paz
Contra as armas da batalha
arma de mão
Contra a batalha das armas
não repousa
Caem contra a mesa os mortos
contra o forno
Outra paz não defende ela
que a do pão
Defende a paz que é da casa
e das mãos.
sábado, 8 de março de 2014
BARCAS NOVAS
"Lisboa tem suas barcas agora lavradas de armas".
Quando já depois de, ouvidos os discos, muito conversados, razoavelmente bebidos, o Zé Leal lembrava sempre que ficava na memória um som. Um som simples das ausências, das mãos que se fizeram abertas. Ficava também o silêncio. Depois era a debandada. A manhã a anunciar-se, era o começo de mais um dia trabalho.
"Para a próxima quem é que trás os discos?”
Hoje já não servem as palavras com que dantes se faziam as conversas entre nós. Gastas as palavras, outros os olhares, diferentes os interesses.
Este EP de 33 rpm é o 4º Caderno de composições de Fernando Lopes Graça “compostas em estilo singelo para recreação da gente nova portuguesa – Oito Canções das Barcas Novas”.
Os poemas são de Fiama Hasse Pais Brandão, cantados por Celeste Lino, Manuel Pico, acompanhados, ao piano, por Olga Prats.
O disco, como habitualmente, não indica a data de gravação. Talvez 1972. O preço, esse, pode ver-se no canto superior esquerdo: 73 escudos e 50 centavos.
O texto de apresentação, incluído no disco, é de Mário Vieira de Carvalho, escrito num tempo em que era crítico musical e acreditava que existiam amanhãs para serem cantados.
Mais tarde, muito depois de escritas estas palavras, seria secretário de Estado da Cultura de um governo de José Sócrates. Dizem as más-linguas que ele e a ministra, para além de umas guerras intestinas e perfeitamente inúteis (Cinemateca, São Carlos etc.) não deixaram nada de registo. Também só agora é que o Primeiro-Ministro reconhece que errou ao não apostar mais na Cultura e que tenha sido tratada “como um parente pobre”.
Pois!...
Agora lavradas de armas.
Lisboa tem suas barcas
Agora lavradas de armas.
Sobre o mar com sua guerra.
São de guerra as barcas novas
Sobre o mar com sua guerra.
E as armas não lavram terra.
E as armas não lavram terra.
Barcas novas são mandadas.
De Lisboa sobre o mar
Barcas novas são mandadas.
Sobre o mar com suas armas.
Barcas novas levam guerra
Sobre o mar com suas armas.
E as armas não lavam terra.
domingo, 19 de maio de 2013
O MIRADOURO
Poema de Fiama Hasse Pais Brandão, publicada no suplemento Literatura &Arte de A Capital de 24 de Abril de 1968.
Legenda: fotografia de Luís Calisto.








