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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

PERTO DE PROVAR O CONTRÁRIO


Carta de António José Saraiva, 4 de Fevereiro de 1988, para Óscar Lopes.

A nossa História da Literatura nasceu do encontro de duas subjectividades que em dado momento se encontravam próximas e que estavam por definir em muitos pontos, nomeadamente nesse da qualidade/quantidade. Foi um acontecimento intersubjectivo. Eu e Tu não são substituíveis, o acontecimento não se pode reiterar. Nesta perspectiva é um acontecimento único. Mas em dado momento foste tu quem prosseguiu para a frente (com a literatura moderna) e a intersubjectiva cessou. De resto a tua opção quantitativista é a do discurso mais comum, mais comunicável e por isso mais produtivo. Eu fiquei isolado e com uma dificuldade cada vez maior de me exprimir. Do ponto de vista quantitativo tu é que tens produzido a maior parte do trabalho, e eu tenho aproveitado injustamente da nossa associação, isto é da nossa firma, entidade objectiva que já está longe da experiência intersubjectiva que deu origem ao livro na nossa longínqua juventude.
Devo acrescentar que estou com a capacidade de trabalho muito diminuída e que ponho à frente de qualquer outro o meu livro sobre a geração de 70, que gostaria de acabar antes de acabar a vida. A solução honesta seria tu fazeres só com o teu nome o 2º volume (depois da Geração de 70) e eu esforçar-me na medida das minhas forças, por reeditar o 1º . Foi uma experiência talvez única de intersubjectividade e valeria a pena tentar continuá-la. Mas é possível? A Alma e o Mundo são incompatíveis: há muito tempo que se sabe isso, mas nós estivemos perto de provar o contrário.


Legenda: capa da 3ª edição História da Literatura Portuguesa.

domingo, 7 de outubro de 2018

EM CRISE MORAL


Carta de António José Saraiva para Óscar Lopes, enviada de Lisboa em finais de 1981:

Na última carta que te escrevi não comentava os teus comentários sobre a situação interna e externa. O pior de tudo é que este país está em crise moral. Não acredita em si próprio. Quanto ao mais, a Europa é uma argamassa de cimento que vai ser agarrada por uma armação de ferro que se chama Alemanha, ficando a Rússia e a França como dois acólitos ou apêndices. A Europa vai chamar-se Alemanha. A maneira como os alemães recuperaram da guerra é surpreendente.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

OS CÉLEBRES ORIGINAIS NA GAVETA


Carta de António José Saraiva, datada de Maio de 1980, para Óscar Lopes:

Mas do ponto de vista científico devo prevenir-te contra os efeitos nefastos do fanatismo. Por exemplo, na p. 1139 da 11ª edição da História da Literatura ligas os romances do Nuno de Bragança e de Dinis Machado ao 25 de Abril. Ora o livro principal do Nuno Bragança foi publicado em 1969, e o do Dinis Molero (que na minha opinião está longe de ser um grande livro) podia perfeitamente ter sido publicado antes, pois nada tem que ver com a problemática do 25 de Abril. Claro que tomas preocupações de estilo: falas de «uma carreira recente» e do «fulminante êxito de um livro ambos marcados pela problemática e pelo degelo trazidos pelo 25 de Abril.» A «carreira» é a do Nuno de Bragança, o que te permite meter no mesmo saco A Noite e o Riso (que é um grande livro) e a Directa (1977) que está longe de atingir o mesmo nível. Mas quem ler desprevenidamente julga que o 25 de Abril teve algum efeito na literatura, o que sabes perfeitamente que é falso. Já lá vão seis anos e não se viu nada, nem sequer os célebres originais «na gaveta». O que prova afinal que a literatura tem muito pouco a ver com as peripécias da política, como alíás já sabíamos. É lamentável que tenhas deixado passar para um livro científico um slogan ideológico, ou melhor partidário.


Legenda: Nuno Bragança

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

UM AVENTUREIRO DE GRANDE CALIBRE!


A 24 de Dezembro de 1973, António José Saraiva está em Paris a gozar 10 dias de férias da Universidade holandesa onde colabora.
Neste dia escreve carta a Óscar Lopes e conta-lhe que arranjou uma guerra com um colega professor que a Editora da Correspondência Saraiva/Lopes, elucida tratar-se de J. Rentes de Carvalho.
Olha que dois!

«Mas quando as relações são a nível propriamente funcional, em que é preciso agir e reagir em função de dados objectivos, falho completamente.
Foi o que agora aconteceu. Tive diante de mim um intriguista e aventureiro de grande calibre, que numa primeira fase procurou captar-me, e numa segunda intimidar-me. Quase desde o princípio percebi a qualidade do sujeito, mas não fui capaz de proceder como era objectivamente necessário. Deixei-me intimidar e ir a coisa longe demais. Faltou-me não só a capacidade de ver friamente os dados da questão, mas a força e a presença para me impor e para reagir a tempo.»

Em final de carta, Saraiva disserta sobre o que vai acontecendo no mundo e conclui que «a chamada civilização ocidental chegou ao fim, e já perdeu a alma. Mas não apareceu outra que a substitua e por isso ela continua de pé e continuará, como um cadáver adiado.»

Por fim escreve:

«Que este 1974, em que ambos começamos a aproximar-nos dos 60, seja o menos mau possível.»

De facto, os votos de Saraiva ultrapassaram as suas prováveis débeis expectativas.
Por Abril aconteceu o dia de todas as surpresas.
Tal como José Saramago, num poema-depois-feito-canção por Manuel Freire, previra:


Legenda: J. Rentes de Carvalho

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

À BEIRA DE UM PRECIPÍCIO


Carta de António José Saraiva, desde Amsterdão, 16 de Fevereiro de 1973, para Óscar Lopes onde volta à divinização de Agustina Bessa-Luís («A Agustina é infinitamente mais «realista» que o Redol, porque os livros do redol são mortos e os da Agustina vivos. Quando a leio sinto-me à beira de um precipício, e por isso não aguento lê-la mais que uma dúzia de páginas seguidas») e um breve comentário sobre as colónias portuguesas:

As minhas correcções à parte da Agustina visaram sobretudo a dar-lhe o lugar que ela merece e que não é o de uma simples «escritora feminina». A Agustina é um dos dois grandes escritores mundiais que Portugal produziu neste século e está a ser vítima de uma certa mesquinhez nacional, bem ajuizadinha, cujos grandes símbolos são no nosso século o Teófilo e o Salazar. Não há dúvida que perdemos nos últimos séculos uma certa capacidade de ver grande como tiveram o Camões,  o Vieira, o Oliveira Martins, o Pessoa e até certo ponto o Sérgio. Secou-se-nos o grãozinho de mostarda. Dizer que os últimos livros dela não são tão bons como os primeiros é fugir à questão. E quanto a não ser traduzida, é lá com os tradutores e os comerciantes de livros.

Quanto às colónias só há uma alternativa: ou liquidar tudo, limpando saí as mãos (estado branco independente, ou negociações com os movimentos, ou outra qualquer solução que entregue aquilo ao diabo); ou então procurar criara uma sociedade em que os brancos e pretos convivam. Mas esta segunda solução parece cada vez mais impossível. Somos um país pequeno, pobre, resignado ao destino que não conhecemos nem queremos conhecer! Isso dói-me.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

NÃO SUPORTO A VERTIGEM


Carta de António José Saraiva para Óscar Lopes, datada de Amsterdão, Janeiro de 1972, e em que continua a manifestar o seu encantamento pela obra de Agustina Bessa-Luís. Antes já dissera que relendo algumas páginas de Agustina ficara tonto «como se ouvisse música de Beethoven.»

Quanto à Agustina gostaria que me desses as tuas razões Eu considero-a com Fernando Pessoa um dos dois escritores verdadeiramente geniais que Portugal produziu no século XX, e creio que todos os outros estão muito, mas muito baixo deles. Mais: para mim a Agustina é o maior escritor em prosa de toda a literatura portuguesa, talvez com excepção do Fernão Lopes (na parte em que este pode ser considerado como artista criador, como o João de Barros nunca foi). Eu não consigo ler a Agustina durante muito tempo porque não suporto a vertigem, e o mesmo me acontece com o Pessoa. Não entendo como a poder pôr abaixo do Aquilino. É um dos raríssimos pontos em que estou quase de acordo com o Sena: o Aquilino é um grande escritor menor, salvo no Malhadinhas e nas Terras do demo. É um artífice com muito talento, ao passo que a Agustina e o Pessoa são escritores-mediuns. Tem-se vontade de crer que algo a que chamaríamos Espírito os tocou, e nos toca para eles.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

DESCULPA O FRETE


Carta de António José Saraiva, Paris 6 de Fevereiro de 1970, para Óscar Lopes:

Desculpa a demora. Tive de arranjar tempo para ir buscar a tua carta ao correio, que é a quilómetro e meio daqui, e não tem transporte.
Não arranjei retrato. Fui a uma fotografia, mas a chapa estava inutilizável. Não vale a pena perder mais tempo. Quando tiver um bom retrato mando, mas não esperes por isso. Quanto à entrevista, quando tiver tempo pensarei nisso – agora estou completamente absorvido na redacção do estudo sobre o 5º império de Vieira, que é uma revelação! O homem tem mais classe do que se julga. Mas o fim principal porque te escrevo é:
Se o editor puder, mande-me urgentemente o dinheiro. Eu pago o vale telegráfico.
Tenho de pagar, até ao dia 15 deste mês 400 F. de imposto e até Março 1200 F. (novo) do imposto do ano passado. Tive despesas inesperadas.
Desculpa o frete. Vou tratar de recolher dinheiro também de outras fontes.

Em Correspondência

segunda-feira, 23 de julho de 2018

É UM INTRUJÃO!


É muito importante o livro que reúne a correspondência trocada entre António José Saraiva e Óscar Lopes e que «andamos a ler» já há algum tempo.

Mas o conteúdo é tão denso e rico que se torna difícil, em breves trechos, dar uma ideia, pálida que seja, do muito que nestas cartas se fala.

Dos dois, é António José Saraiva que ocupa a maior parte do volume.

Algumas vezes traz à conversa os seus problemas de saúde, económicos, a sua solidão de intelectual em França.

Nesta carta, datada de Paris, 5 de Julho de 1969, Saraiva volta a referir os problemas que, na altura, manteve com o editor Francisco Lyon de Castro das Publicações Europa-América.

Em Outubro de 1965, carta minha de 31, lembrei ao Lyon de Castro que a 8ª edição da História da Literatura (Colecção Saber), então a imprimir, devia levar a minha chancela, segundo o contrato assinado. Respondeu em 4 de Novembro que o «o livro já estava à venda» e por isso não podia ser rubricado.
Em 4 de Abril de 66 o Lyon de Castro noticiava-me que a História da Literatura tinha sido proibida pela Censura.
Em 19 de Maio de 1967, os serviços de contabilidade da Europa-América comunicavam-me, incidentalmente, que a proibição tinha sido levantada, «encontrando-se de novo a obra à venda».

Segundo saraiva houve um longo silêncio de Lyon de Castro. Só volta a escrever em 26 de Agosto de 1968 e não falava da História da Literatura.

Entre esta data e 19 de Março de 1969 Saraiva recebeu 8 cartas do editor e em nenhuma era falada o que se passava com o livro.

«Intrigado com isto perguntei-lhe em carta de 24-3-69 notícias do livro (além de outros assuntos). Em carta de 10 de Abril respondeu quanto a este ponto: «História da Literatura portuguesa; responde-se à parte». Mas na carta não vinha qualquer aparte sobre o assunto.
Em carta de 29 de Abril dizia-me o seguinte: «A libertação do livro determinou um movimento de vendas que nos forçou a uma rápida reedição de 3000 exemplares em Dezembro/68. No Brasil também se sabia que a obra estava proibida e logo que ela foi libertada fizemos uma intensa propaganda o que determinou uma grande procura, a que tivemos de responder rapidamente.»

António José Saraiva conclui que Lyon de Castro não lidou com lisura com ele.

«Só vejo uma solução para o meu problema com o Lyon de Castro: é desligar-me dele. Até hoje foi o único editor intrujão que tive e já fui editado em cinco casas.»

Nada pacífica a vida de António José Saraiva por terras de França.

Dificuldades de toda a ordem.

Em P.S. lamenta-se:

«Ainda não recebi os tais 7500$ da Porto Editora de que falavas numa carta.»


Legenda: Capa da 1º edição da História da Literatura Portuguesa (1950) e incluída na Colecção Saber.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

EM QUE A HISTÓRIA É TRANSCENDIDA


Carta de António José SaraivaSaraiva, desde Viry Chattilon, 4 de Julho de 1969, Para Óscar Lopes:

Na última carta não toquei em vários pontos, e acrescentaram-se-lhe os d carta que acabo de receber.
O primeiro ´+e que estou em más relações com o Lyon de Castro porque ele me reeditou a História da Literatura sem me prevenir e aldrabando-me quanto à tiragem. Se possível, prefiro passar os livros que lá tenho para a Inova. Mas preciso de um bom advogado disposto a conduzir-me a causa. Conheces algum?
(…)
A tua apreciação sobre o movimento académico português é justa; mas já me parece injusta a maneira como falas da insurreição de maio em Paris, abocanhada caluniosamente, ou depreciada manhosamente pelos políticos do PC. Eu fui testemunha e hoje parece-me um sonho. Foi o homem na sua pureza, na sua tensão máxima que se bateu contra a natureza naturata sob a forma social. Nunca fales de maio como quem sabe o que foi, porque é difícil explica-lo até a quem assistiu. Aqui te digo sem hesitação que foi o maior acontecimento do século XX e que as suas consequências se farão sentir ao longe no tempo. O que aconteceu em Coimbra (também falo sem saber) foi um importante acontecimento histórico nacional; o Maio de paris é um momento da história da civilização; mais: um momento em que a história é transcendida.

sábado, 7 de julho de 2018

COMO AS COISAS MUDARAM AÍ EM PORTUGAL...


Carta de António José Saraiva, Paris Maio de 1969, para Óscar Lopes:

Li o teu artigo do (Mário) Sacramento, e o simples aparecimento dele em letra de forma mostra como ss coisas aí mudaram de Setembro para cá. O Sacramento é um exemplo muito típico do comportamento dos intelectuais em Portugal, mas pergunto a mim mesmo em que medida esse comportamento deve ser erigido em regra geral. Sem dúvida que os intelectuais não podem alhear-se do destino colectivo, mas talvez isso não implique que eles devam desempenhar um papel que prejudique a realização da sua vocação específica. Escrever um ensaio ou um romance ou realizar uma investigação pode ser muito mais importante do que participar numa comissão, até porque ao nível da criação científica, filosófica, ou estética se podem pôr problemas que não cabem no dia a dia dos compromissos, das declarações e das tácticas.
O problema, reconheço, não é simples, até porque a nossa elaboração teórica é feita da substância da nossa vida prática e quotidiana. Mas nem toda a prática é política: há problemas de relação com nós mesmos, de relação com o nosso próximo e de relação com isso a que se chama «Deus» (que talvez seja só o limite matemático do Eu, lá onde ele não é só um Eu individual) que não se podem pôr facilmente em termos «políticos» e que no entanto exigem expressão e realização. O teu ideal de uma concretização permanente das nossas aspirações mais fundas em termos de atitudes práticas não cabe evidentemente em congressos e reuniões.
E, alguns intelectuais portugueses parece-me evidente que esse empenhamento, nos termos em que se faz, leva a uma amputação das virtualidades intelectuais e à simplificação fanatizante dos problemas. O (António) Sérgio escapou a isso porque recusou sempre arregimentar-se e porque apresentou as suas atitudes como a manifestação de um dever moral que estava muito acima da prática.


Legenda: Mário Sacramento

quarta-feira, 27 de junho de 2018

NÃO TENHO ONDE PUBLICAR EM PORTUGAL


Carta de António José Saraiva, datada de Paris, Junho de 1968:

Tenho um estudo de 115 páginas sobre o «discurso engenhoso» em Vieira que gostava que lesses. Só tenho um exemplar corrigido. Terás tempo para o leres e comentares? Diz.
Interessa-me a proposta editorial. Tenho um livro sobre Inquisição e Cristãos Novos (muito diferente do meu limitado sobre a Inquisição) que gostava de editar o mais depressa possível. E talvez um livro de ensaios, miscelânico. Diz se algum deles interessa. Estou em más relações com a aEuropa-América. A Seara Nova recusa-me os artigos; o Tempo e o Modo nunca me convidou obstinadamente (apesar de sugestões de terceiras pessoas nesse sentido). De modo que, tirante o Comércio do Porto, não tenho onde publicar em Portugal. Curioso destino dum autor «à succès»!


Legenda: capa de Inquisição e Cristãos-Novos publicado em Fevereiro de 1969, mercê da influência de Óscar Lopes, pela Editorial Inova do Porto.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

IDADE PARA DIZERMOS O QUE SENTIMOS


A correspondência de António José Saraiva com Óscar Lopes é um osso duro de roer. São cartas longas, abarcando diversos temas e não é fácil extrair pontos de entendimento para quem não as conhece.

Há que nos reduzirmos a pontos que não necessitam de muitos acrescentos.
Como o início desta carta, datada de Abril de 1966, em que Saraiva retoma as suas preocupações com falta de dinheiro:

Meu Caro

Mando-te por portador mais duas folhas revistas da História da Literatura. Não me lembro já do que combinámos, mas acho que não estou atrasado.
Estou preocupado com a falta de notícias do editor. Creio que ele tinha proposto pagar-me uma importância contra a entrega de 300 páginas de original, que há muito excedi já. Será que ele mudou de ideias? Ou haverá qualquer preocupação quanto a um futuro capricho da censura? Vê se me podes mandar uma palavrinha sobre isto, informando-me e aconselhando-me. A verdade é que contava com esse dinheiro, e sem ele não poderei ver os meus filhos nas férias – e há dois anos que os não vejo. Diz-me se te parece conveniente eu escrever ao homem. Antes de Julho precisava de saber com o que posso contar.

Na mesma carta fala de um artigo que Óscar Lopes publicara em O Comércio do Porto sobre A Paixão de Almeida Faria:

Ainda não acabei de ler A Paixão de Almeida faria. É sem dúvida um livro excepcional, embora ainda pouco maduro. Tem certos pontos de contacto com a Agustina. Gostei de ler a tua crítica, é preciso da tua parte uma certa coragem para publicares coisas daquelas. Mas estamos numa idade em que ou dizemos o que sentimos ou o deixamos escapar.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

APROVEITO UM PORTADOR


Carta, datada de Paris, meados de 1965, de António José Saraiva para Óscar Lopes:

De vez em quando experimento a necessidade de dialogar contigo, mas esta distância e sobretudo esta censura do correio impedem qualquer carta séria. Aproveito um portador.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A SOLIDÃO VAI-ME LEVAR AO SUICÍDIO


São muitas as cartas em que António José Saraiva diz a Óscar Lopes que ele teima em não lhe escrever:

Este é o início da carta datada de Outubro de 1964:

Passa todas as marcas o não me escreveres. É escandaloso. Que fizeste nas férias? Não tens um pensamento para um amigo que está só em Paris? Não és um homem, és um metido, uma tabuada, uma máquina electrónica, ou seja o que for.

E a carta termina assim:

Outro elemento para considerares: sinto-me só, sem raízes, desesperadamente só e sem raízes, incapacidade de trabalhar, vazio de crer humano, em fase de considear muito seriamente a necessidade moral do suicídio.
E tu aí muito sossegado sem me escreveres!
Vê se arranjas um momento, homem sem coração!

Pelo meio da carta, Saraiva conta:

Eu tenho passado as passa do Algarve. Ultimamente fui à Dinamarca (23 horas de viagem), para ver uma mulher. Uma descoberta sensacional; uma tragédia que durou 5 dias em paris, 3 dias em Copenhague, com um intervalo de um mês de cartas de amor (média 1 carta e ¼ por dia), telegramas e telefonemas a 3000 francos cada. Uma ruína. Conclusão: perdoa-me e esquece-me. Era (é) uma portuguesa! Nunca encontrei nenhuma pessoa com quem tivesse uma tão completa intimidade espiritual. Mas nem só de espírito vive a mulher! E eu sou um intelectual cheio de interferências e excepcionalmente inibido. A decisão tinha de ser tomada em 3 dias. E foi (ao menos provisoriamente).
(…)
Agora estou outra vez só. E a solidão é simplesmente IMPOSSÍVEL para mim. Vai-me levar ao suicídio. Mas eu sou cada vez mais esquisisto com as comidas e com as pessoas. Falta-me a apetência, e de vez em quando tenho furiosos ataques de fome. Vou-me habituando anão comer como o burro do conto. No dia em que já estiver completamente habituado – truca – desapareço!

domingo, 13 de maio de 2018

NÃO SIRVO PARA A POLÍTICA


Ainda a carta – uma enorme carta - que António José Saraiva, datada de Paris a 4 de Outubro de 1964, envia para Óscar Lopes:

Como já deves ter pensado, não sirvo para a política. No fundo a política é uma forma de realização para certas pessoas, como o piano ou a arquitectura para outras. Essas pessoas fazem a história porque se fazem a si próprios, como as crianças brincam ou como os pássaros fazem ninho. Mas isso é lá com eles. Eu faço outras coisas, tenho outro violino. E é esse violino que eu quero tocar.
(…)
A notar que considero o Marx uma das maiores personalidade da história do pensamento, mas estou convencido de que ele não cabe dentro do que se convencionou chamar marxismo. Aconteceu-lhe o mesmo que ao Cristo. Este seria crucificado se viesse outra vez a este mundo. O Marx seria, quase com certeza, sido condenado num desses simulacros judiciais que se faziam não só na URSS mas também na Checoslováquia, na Hungria, na Polónia, etc., etc.

domingo, 6 de maio de 2018

DE EXISTÊNCIA MATERIAL...


Carta de António José saraiva, datada de 4 de Outubro de 1964, para Óscar Lopes:

Façamos contas. A organização das massas em Portugal não pode ir muito mais longe do que já foi. O PC tem limites que em situações normais não pode transpor. Cada vez que vai além de certo limite, encontra-se com uma contra-ofensiva policial que o obriga a recuar. Por isso não acredito que um movimento de massas por si só derrube o regime. A situação económica não é brilhante, mas também não é extremamente grave, e nenhum governo em guerra deixou de a fazer por falta de meios financeiros. O golpe de generais também não é solução, porque manteria o fascismo, mesmo que mudasse a fórmula (v. Grécia9.
Só resta uma solução: é criar um poder com meios físicos para fazer face ao poder governamental e dar ao povo o sentimento de uma força mesmo física. Esse poder só pode ser armado. Por outras palavras: é preciso alterar a situação de facto, saindo fora do jogo do fascismo. O problema não é só um problema de consciência ou de ideologia, o problema é de facto, de existência material. (não sei se me faço perceber).
Fora disto o satatus quo manter-se-á por tempo indefinido. Vamos a caminho dos 40 anos de regime! Quarenta anos de «vitórias» nossas, segundo pretende a imprensa clandestina da oposição!

domingo, 29 de abril de 2018

ESTADOS DE PERPLEXIDADE ANGUSTIOSA


António José Saraiva, ao longo da sua correspondência com Óscar Lopes , lamenta-se que o amigo lhe escreva tão pouco.
Na carta, datada de Paris a 23 de Março de Março de 1964, começa por escrever:

Recebi a tua carta via Suiça. Aliás simples postal escrito a correr. Sei que tens falta de tempo, mas essa não é a razão verdadeira de me escreveres pouco.

O final da carta é uma abordagem de «alguns problemas pessoais»:

«O meu contrato com o CNRS acaba impreterivelmente em Setembro. Até lá preciso de saber o que vou fazer. Tentei uma diligência a saber se poderei colocar-me na Universidade de Argel, Se falhar – que é o mais provável – terei de tentar o Brasil, porque tenho responsabilidades de família. Mas receio que indo para o Brasil lá fique. Os rapazes estão na adolescência os mais velhos, e arrisco-me a ter netos brasileiros. Talvez não me seja possível mais tarde refazer uma vida em Portugal. Por isso a ida para o Brasil quase me aterroriza. Este problema traz-me num estado de perplexidade angustiosa. Outro problema que continua a afligir-me é o da solidão moral e física. Isto faz com que eu fuja o mais possível do meu quarto, o que prejudica o meu trabalho. Tenho pensado muito nestes últimos tempos, mas tenho escrito pouco. Por  outro lado, para satisfazer as minhas obrigações com o CNRS meti-me num trabalho erudito e minuciosos sobre Vieira, que tem certo interesse, mas que não é o género de trabalho que propriamente me interessa. É fundamental para eu escrever estar metido numa polémica ideológica. Gosto de viver e falar no meio de gente. Evidentemente que não é em Paris que eu me sinto empenhado. Não o será também no Brasil, a não ser que eu deixe de pensar em Portugal, o que me parece impossível. Até agora sofro de todas as desvantagens de estar longe de Portugal, sem em troca ter achado outro meio de integração.

sábado, 21 de abril de 2018

A MINHA INACREDITÁVEL IGNORÂNCIA


Carta de António José Saraiva, datada de 1 de Dezembro de 1963, para Óscar Lopes:

Meu Caro

Escrevo-te já do hospital. A operação deve ser depois de amanhã (terça-feira). Entretanto tive alguns dias de descanso que o corpo e os nervos me andavam a pedir há muito tempo. É uma ocasião para ler, e a posição horizontal é para mim extraordinariamente estimulante sob o ponto de vista mental.
Uma das coisas que me acontece ultimamente é estremecer com a minha inacreditável ignorância. A verdade é que não conheço – e sobretudo não conhecia ainda há alguns meses – obras fundamentais, e por exemplo, só há muito pouco tempo me dei realmente conta do que é a literatura. Com algumas excepções, achava-me na situação de alguém que conhece as biografias dos músicos, as datas das inovações técnicas, etc., mas não ouve, não entende a música.

sábado, 14 de abril de 2018

LIBERALISMOS


Da carta, datada de 7 de Outubro de 1963, de António José Saraiva para Óscar Lopes:

O liberalismo nunca foi uma ideologia popular. Os liberais dos séculos XVIII e XIX abandonaram espiritualmente o povo à sua sorte. O liberalismo é uma ideologia para eleitos, para burgueses esclarecidos. E o povo continuava a ser católico, a menos que ficasse espiritualmente vazio.
O PC veio justamente dar ao povo a ideologia que a Igreja católica já não estava em condições de lhe fornecer, e desempenhar o papel sociológico que era o da Igreja Católica. O liberalismo esqueceu o povo, porque estava convencido de que só há verdade científica de convicções individuais. Criou portanto um vazio, que o PC veio preencher. O PC é a verdade do grupo, a verdade da crença, a verdade que existe fora do sujeito.
Por isso milhares de pessoas, algumas das quais tu e eu conhecemos, se limitaram a passar da Igreja Católica para o PC, trazendo consigo toda a sua capacidade de Fé e até todo o seu puritanismo de costumes.
O Marx estudos as sociedade humanas à luz da luta de classes. Mas há outros factores sociológicos, que ele não se propôs estudar, e que têm uma importância básica no processo histórico. As leis do agrupamento estão neste caso.
O problema para mim é que sou anti-católico em qualquer sentido, porque anti-ortodoxo. Sou hereje de qualquer religião. Situação muito incómoda de que já estou sentindo os efeitos. Os meus antigos amigos e admiradores que não me regateavam as palmas estão tentando excomungar-me.