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sexta-feira, 19 de junho de 2026

OLHAR AS CAPAS


 Francis Ford Coppola

Stéphane Delorme

Consultoria: Mário Augusto

Colecção Grandes Realizadores nº 7

Edição do jornal Público s/d

 

Podemos ficar parados no tempo.

Podemos ficar além do tempo.

Podemos ficar à frente do tempo.

Mas não podemos ficar sem tempo.

(…)

O tempo não espera por ninguém.

(Poema de Francis Ford Coppola tirado do seu Diário (18.09.1991).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

SOLTAS


Francis Ford Coppola produz vinhos para fazer os filmes que quer sem depender dos estúdios.

 «Sou apenas uma folha no vento. Fiz quase vinte filmes, muitos deles interessantes. Fala-se sempre nos altos e baixos da minha carreira, mas os meus verdadeiros “flops”, os que não fizeram dinheiro ou não tiveram aplausos ou prémios, foram apenas quatro: Do Fundo do Coração, Rumble Fish, Jardins de Pedra e Cotton Club. Acho que os meus “flops”,  são dos mais interessantes que algum realizador teve, porque eram filmes que tentavam ser diferentes. Sei que as pessoas pensam em mim primordialmente como realizador de O Padrinho, porque foi O Padrinho que o público realmente gostou. Estou a tentar fazer os filmes que quero e sempre a adiá-los para ganhar o dinheiro para pagar as dívidas dos filmes que fiz. Nestes últimos dez anos tenho estado sobretudo ocupado com a minha própria sobrevivência.»

1.

«São breves as flores dum cacto e tardam a nascer. Quando nascem vêm embrulhadas numa penugem que faria inveja ao papel de seda e abrem-se perfeitas, como peças de porcelana fina. Como uma dedicatória num “Livro da Noite” que dizia assim:

“Para ti, a fraternidade de quem escreve livros com a noite para que outros dias sejam possíveis”.»

2. 

Epitáfio do poeta Nicolas Guillen;

«Aqui estou. Lamento tê-los feito esperar tanto tempo.»

3.

E a sua inteligência parecia ser daquelas que acendem fósforos à distância.

4.

Até amanhã é uma primavera de abraços que se adia.

5.

Viagens.

Partir é bom, mas regressar é excelente.

6.

Não necessito de resposta. A dúvida delicia-me longamente.

7.

Em 1999, Marcelo Rebelo de Sousa coordena e publica a Fotobiografia de Baltasar Rebelo de Sousa, seu pai, ministro da ditadura e governador-geral de Moçambique.

O livro foi apresentado num velho restaurante da marginal, junto a S. João do Estoril.

Ness e restaurante, nos anos 50, Baltazar Rebelo de Sousa reunia-se com o seu grupo político numa mesa redonda sempre reservada. Jantavam, cavaqueavam, com música de fundo do Conjunto Shegundo Galarza.

A lagosta àTherminor, um clássico da culinária francesa, custava 48 escudos.

8.

O julgamento de José Sócrates volta a ser adiado porque a advogada nomeada, renunciou invocando que dez dias que a juíza lhe deu para consultar o processo não é tempo suficiente.

O processo é absolutamente gigantesco: tem 300 mil páginas, 126 apensos, tem 400 horas de escutas telefónicas.

9.

Chega de mortes. Chega de destruição.

 ONU diz que guerra na Ucrânia é “uma mancha na nossa consciência coletiva”

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

GENE HACKMAN (1930-2025)


 Morreu Gene Hackman.

As grandes lendas do cinema continuam a partir.

 Legenda: Gene Hackman num enorme filme de Francis Ford Coppola: O Vigilante

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

VELHOS RECORTES


«Quando lhe falam de “Do Fundo do Coração diz: É verdade: comprei um estúdio. Sempre me senti confortável a perder dinheiro, vivi  muitas aventuras que gostei de ter vivido. De facto, nunca me imaginei como um realizador famoso: via-me mais como os autores de filmes que víamos na Améwrica, nos anos 60, porovenientes da Europa, põe exemplo do Japão, de Itália…

Transformou-se, para além do cinema, num dos mais prestigiados produtores vinícolas da Califórnia. No universo de Coppola, nada é exterior à família, tudo tem a ver com a família. Assim, por exemplo, um dos seus vinhos recebeu o nome da filha, a também cineasta Sofia Coppola (Lost in Translation): o Sofia Blanc de Blancs começou como "uma prenda de um pai para a sua filha". Mas há também o Sofia Rosé, ou seja, um "tributo ao espírito romântico e exuberante das mulheres de toda a parte." Estas palavras estão no site pessoal do cineasta, "Francis Ford Coppola presents" (ffcpresents.com), um primor de sobriedade informativa e elegância gráfica. É um site em que os temas dominantes têm a ver com a produção de vinhos e alimentos. É verdade: Coppola produz, por exemplo, uma gama de molhos com sabores genuinamente italianos (arrabbiata, pomodoro basilico, puttanesca, etc.), todos eles devidamente "provados e testados por Francis e sua mulher, Eleanor.»

Recorte do Diário de Notícias s/d

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 Nós, seres humanos, não temos sido livres, temos sido escravizados. Quem se atreve a escravizar uma espécie tão genial?

Francis Ford Coppola.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

CRONICANDO POR AÍ


Cada vez mais curto o naipe de estrelas de Do Fundo do Coração, maravilhoso filme de Francis Ford Coppola.

Teri Garr partiu a 29 de Outubro deste ano, Raul Julia a 24 de Outubro de 1994, Frederic Forrest a 23 de Junho de 20123. Resta Nastassja Kinski.

Muito ao seu estilo, Manuel S. Fonseca lembra Teri Garr:

«Começo esta crónica em regime de pura gatunagem. A frase é de Pauline Kael e o que Kael disse foi isto: “Esta é a mais cómica, neurótica e desorientada senhora do ecrã”. Estava a falar de Teri Garr, mulher que eu amei, de baba e ranho, no “One From the Heart”, do saudoso Coppola.

Mel Brooks, o realizador de “Young Frankenstein”, uma daquelas comédias que, de tanto nos fazer rir, temos a tentação de desvalorizar, quando a convidou para o filme, estava cheio de dúvidas que partilhou com Gene Wilder o actor principal: “Ela é deliciosamente linda, mas será que sabe representar?” Gene foi cortante: “Who gives a shit?”, que em bom português quer mais ou menos dizer “Estou-me bem a cagar”.

E agora quero dizer uma coisa elegante. É verdade que Teri Garr tem uma incrível beleza, mas é uma beleza que, apesar da pele brilhante, apesar do sorriso radioso, apesar do porém do seu colo suave (e já lá irei), é, dizia eu, uma beleza que ela embrulha num celofane auto-depreciativo, como se nos estivesse a dizer “caso não percebam que o melhor de mim tem um sabor de especiarias e entontece como um dry-martini, então tomem e embrulhem”. Só a prodigiosa Shirley MacLaine foi capaz de tanto desprendimento: mesmo Nossa Senhora de Fátima tem a sua beleza em mais auto-estima do que Teri a que Deus lhe deu.

E voltemos ao colo de Teri Garr. Antes de fazer a audição para o papel de Inga, a assistente de laboratório de “Young Frankenstein”, Teri olhou-se ao espelho e viu que o seu peitinho era de relativa irrelevância, atendendo ao que deveria ser o pulposo seio de que um verdadeiro cientista gosta. “Caramba, não vou perder o papel por causa das mamas”, pensou. Como é que eu sei que ela pensou isto? Sei. E ainda estou a ver Teri Garr a caminhar para os armazéns da Woolworth, onde se não estou enganado comprei um colchão (ou pelo menos uma almofada) para o minúsculo quarto-kitchenette-wc em que vivi por três meses em Los Angeles. Saí com um colchão, Teri com lenços e peúgas. Aconchegou tudo sob o sutiã, em íntimo convívio com o acetinado e túmido da sua natureza (como é que eu sei? memória minha do fugaz nu com Raul Julia no “Do Fundo do Coração”), fazendo questão em explicar-nos: “As pessoas espatifam milhares de dólares em cirurgias às mamas. Por cinco dólares no Woolsworth fiz a minha: foi dinheiro muito bem gasto”.

Teri começou bailarina nos filmes de Elvis Presley. Foi um cometa a iluminar cenas de filmes como “Os Encontros Imediatos”, de Spielberg, o “After Hours”, de Scorsese, o “The Conversation”, de Coppola, o “Tootsie”, de Sidney Pollack. Sabia dançar – adorei-lhe libidinosamente as pernas no “One From the Heart” – mas sabia sobretudo enternecer.

Nesse “Do Fundo do Coração” deixa o namorado, o Frederic Forrest, preferindo deslizar para uma aventura sexy e selvagem com Raul Julia. Um desolado Frederic vem ao aeroporto para a convencer a ficar: implora, promete e ela já vai a entrar na manga com o amante, quando, último recurso, Frederic começa a cantar o “You’re my sunshine, my only sunshine”.»

Frederic canta maravilhosamente mal, um horror de ternura, um sentimento de perda do quinto dos infernos. Teri pára, no grande plano dela vemos então um carinho deliciado pela amorosa humilhação daquele homem. Como quem diz, e não sei se diz mesmo: “Oh, que querido”. E depois continua, em direcção à aventura, ao lado amante que promete fazer-lhe as coisas, em cima ou em baixo, que ela anda com vontade de experimentar.

Teri Garr foi agora mesmo lá para cima, experimentar as coisas que já não pode ter cá em baixo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Num dia triste para a América, num dia triste para o mundo, deu-me para ir ao Outro Lado as Estantes buscar um importante documento.

Os catálogos do ciclo O Musical trabalho conjunto da Cinemateca Portuguesa e da Fundação Calouste Gulbenkian, em que de 20 de Dezembro de 1985 a 27 Março de 1986 foram vistos 180 filmes.

O catálogo são quatro volumes metidos em duas caixas, com cerca de 2.000 páginas.

«A expressão  «Cinema Musical adequa-se a qualquer filme (antes ou depois do da invenção do sonoro) em que a música tenha tido um papel importante», João Bénard da Costa dixit.

PRIMEIRO VOLUME

Tem o título de Aberturas com  intervenções de Carlos de Pontes Leça, João Bénard da Costa, João Paes, Luís de Pina, Miguel Esteves Cardoso.

SEGUNDO VOLUME

Titulado com Libretos, com intervenções de João Bénard da Costa. Manuel S. Fonseca, João Lopes, João Gabriel Trindade dos Santos, José de Matos Cruz, José Manuel Costa, Luís de Pina

TERCEIRO VOLUME

Chamaram-lhe As Pautas e tem colaboração de Miguel Esteves Cardoso.

QUARTO VOLUME

Com o título de As Letras tem colaboração de João Bénatd da Costa

De cada volume fizeram-se 2.000 exemplares, há muito esgotados e que, provavelmente, não voltarão a a ter outra edição.

Quem gosta de Cinema, quem gosta de musicais, tem aqui a tudo e mais alguma coisa.

Não tenho memória do primeiro musical que vi. Quase de certeza deveriam conter os passos de magia de Fred Astaire, as pernas de Cyd Charisse. O último direi com  a certeza das certezas, e não só por ter sido visto há poucas semanas: One From The Heart, o mais grandioso filme, o sonho mais louco  de Francis Ford Coppola que o levou à falência.

A primeira vez que vi Do Fundo do Coração foi na magnífica sala do Apolo 70. Depois fui a quase todas as exibições que aconteceram na Cinemateca Portuguesa.

Diga-se que há dias morreu Teri Garr que não sei onde se juntou a Raul Julia um dos seus comparsas na noite fabulosa daquele 4 de Julho, amores conquistados, amores perdidos, amores reconquistados, tudo à volta da genial banda sonora de Tom Waits.

Não resisti à tentação de reproduzir a crítica que Manuel S. Fonseca escreveu para este catálogo com a alegria que é importante destacar  que a crítica seja parcial e entusiasmante.



Claro que nunca poderemos esquecer  que a América, de novo, foi capaz de eleger para presidente  um criminoso, um aldrabão capaz de tudo e de mais alguma coisa.

É isso que o novo ano trará ao mundo. 

Fatalmenete?

Lembrava José Pacheco Pereira: «As democracias não deviam permitir que alguém que é criminosos, que despreza as leis e a Constituição tenha condições para se candidatar».

terça-feira, 30 de março de 2021

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Mantém os teus amigos perto de ti e os teus inimigos mais perto ainda.

Michael Corleone em O Padrinho II, filme Francis Ford Coppola.

domingo, 3 de janeiro de 2016

PORQUE HOJE É DOMINGO


Do Fundo do Coração não é um filme de Natal.
Mas acho que fica bem nesta quadra.
Aliás, fica bem em qualquer tempo.
Bom domingo!


terça-feira, 14 de outubro de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Sou um coppoliano inveterado.

Coppola é um homem em quem se pode confiar: faça filmes, faça vinho, o que quer que seja.

Filme para a tal ilha deserta?
Indubitavelmente One From The Heart.

Vinte e seis milhões de dólares, de que se recuperou um milhão e que levou à falência a Zoetrope.

Quem corre por gosto não cansa.
 Poucos filmes de Coppola existirão que não estejam rodeados de lendas, algumas de desgraça.


Por norma, os filmes incompreendidos pelas maiorias são os melhores.


Um 4 de Julho em Las Vegas, amores e desamores, uma extraordinária banda sonora composta por Tom Waits, por ele interpretada a que se junta Cristal Gayle e o resultado é um dos mais belos filmes da história do cinema, um acto de amor, de ternura, de vontade, do fundo do coração.
Um filme fascinante, um mergulho na luz, no som e no desencanto, belo até às lágrimas
.
Hollywood sempre olhou Coppola de soalaio.

Não gostaram de o ouvir dizer:

O cinema não é só para ver. O cinema é para amar. E quem não ama o cinema guarda, no seu íntimo, qualquer coisa de inacabado e, quem sabe? Uma discreta dose de imbecilidade.

Tudo isto para vos dizer que amanhã a Cinemateca exibe One From the Heart e se há filmes que apenas podem ser vistos numa sala escura, este é um deles:

ONE FROM THE HEART

DO FUNDO DO CORAÇÃO

de Francis Ford Coppola

com Frederic Forrest, Teri Garr, Raul Julia, Nastassja Kinski, Harry Dean Stanton
Estados Unidos, 1982 - 100 min

Legendado em português | M/12
Sala Dr. Félix Ribeiro 15,30 Horas

Com esta feérie romântica, Coppola propôs-se reinventar o musical numa Las Vegas de estúdio e com grandes inovações técnicas. Aqui tentou fazer nascer a sua companhia, a Zoetrope, e aqui se afundou economicamente o realizador, mesmo que o filme tenha ficado como uma das obras mais decisivas dos anos oitenta. É o filme de Coppola com a célebre banda musical de Tom Waits e Crystal Gayle, com, entre outras canções, I Beg Your Pardon, This One’s from the Heart e a canção que abre o álbum entretanto editado que começa ao som da moeda a cair.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Leitor atrasado de jornais que já disse que sou, só hoje passei os olhos pela  crónica de Manuel S. Fonseca no suplemento Actual do Expresso de 1 de Outubro.

A linhas tantas escreve:

“No Peggy Sue de Coppola, a deliciosa Kathleen Turner viajava no começo e renecontrava-se com o avô, um simpático maçon. Fascinada com o rituaol me o avnetalinho, pedia-lhe uma lição para  ávida. Se voltasse atrás, tinha cuidado melhor dos meus dentes, conforta-a ele.

Eu bem quero fugir, mas volta e meia, vejo-me  a dar razão a Mr. Ié-Ié, quando sarcasticamente diz que há bruxas!, há bruxas! há bruxas!.

Claro que já não estão lembrados, mas a propósito do meu pai, fui buscar este diálogo do Peggy Sue Casou-se.

Se fosse vaidoso, ou melhor: se fosse tão idiota como António José Seguro, secretário-geral do Partido Socialista, dava uma pequeníssima volta ao texto e parafraseava-o:

Verifico com agrado que Manuel S. Fonseca tem estado atento e seguido os meus textos, neste blogue.

Claro que não é nada disso. É certo que o “Cais do Olhar” tem milhares de viajantes que o lêem. mas nem tanto ao mar nem tanto á terra.

Já agora: Manuel S. Fonseca é um homem que sabe de cinema, gosto de ler os seus textos, delicio-me com as crónicas que, semanalmente, publica no Expresso, mas nunca me hei-de esquecer que, como responsável de cinema nos primeiros anos da SIC, permitiu o crime de os filmes exibidos serem mutilados ao ponto de não deixarem correr os créditos.

Sou dos que ficam numa sala de cinema até à última palavra dos créditos, muitas vezes, enfrentando os olhares das trabalhadoras que querem proceder à limpeza da sala.

Aprendi assim, e estou velho para mudar!

Legenda: imagem de The Mayfair, velho cinema do sul de Liverpool tirada daqui.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?



Por vontade própria, o meu pai reformou-se tarde.

Já tinha, há algum tempo, passado os 65 anos, quando colocou um ponto final na carreira de jornalista-gráfico, como gostava de se considerar.

Passámos, então, a ter um tempo que até aí não existira e, pelo menos, uma vez por mês, arrancávamos para uma jantarada, mais regada do que o resto, que terminava sempre com conversas “non-sense”, que iam desde o marxismo-leninismo ao carrapito da D. Aurora, do Benfica às pernas da Cyd Charisse.

Por vezes a jantarada era antecedida de sessão de cinema.

Juntos, vimos, no Fórum Picoas. as Recordações da Casa Amarela do João César Monteiro, - e o que nos divertimos! -, juntos também, (não) vimos no Londres a adaptação cinematográfica da Insustentável Leveza do Ser. Ao fim de vinte minutos de filme, olhou para mim e disse: vamos embora!.

Apanhámos um táxi para Alcântara e aterrámos no Cuidado Com o Degrau, um restaurante que, penso, já não existe.

Marxista-leninista convicto, gostava particularmente de Sartre e, e lia-o em francês. O livreiro Carvalho, da Livraria Clássica Editora, nos Restauradores, ao lado do então Cinema Eden, , conseguiu arranjar-lhe os seis primeiros volumes de Situations e sempre disse:

Mais vale estar errado com Sartre do que ter razão com Aron.

Não admira as cócegas que sentiu vendo o filme saído do livro do Milan Kundera. 
  
Pelo meu lado li Sartre, As Palavras é um livro que marcou muito os meus passos, mas sempre fui mais Albert Camus.

Há dias, ao rever Peggy Sue Casou-se, um filme mal-amado, ou melhor dito: pouco citado,  de Francis Ford Coppola, dono e criador de obras inescapáveis, topei com o diálogo de uma maravilhosa Kathleen Turner com o avô:

- Avô!
Sabe, quando o senhor e a avó morrerem a família morre convosco. Não voltarei a ver os primos.

- O “strudel “da tua avó é que mantém esta gente unida.

- Se pudesse voltar a fazer tudo de novo, avô, que faria de modo diferente?

- Trataria melhor dos meus dentes

Este tratar melhor dos dentes, mandou-me para idênticas palavras do meu pai  (estaria a citar Coppola? Não sei!), numa das jantaradas,  quando a conversa  terá entrado pelo velho beco do se eu soubesse o que sei hoje, se voltasse atrás, blá,blá,blá, e ele muito peremptório a afirmar que faria tudo, mas mesmo tudo, o que fizera, com uma única excepção: 

Trataria melhor dos meus dentes."

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Numa das cenas mais fortes – e elas são tantas -  de "Apocalypse Now", esse extraordinário filme de Francis Ford Coppola, (1979), sobre a intervenção norte-americana no Vietnam, um coronel de cavalaria (espantoso Robert Duvall) diz para os soldados que o rodeiam:

“Adoro o cheiro a napalm pela manhã. Tem o cheiro da vitória.

 Enquanto monologa com os soldados que o rodeiam, os helicópteros atacam e destroem uma aldeia vietnamita ao som  da “Cavalgada das Valquírias” de Wagner.
De cócoras, em tronco nu, para além do cheiro a “napalm”, o coronel louco, disserta  sobre a onda perfeita para praticar “surf”.
A loucura, os ensandecidos personagens de uma guerra cruel, exemplarmente caracterizados e denunciados por Coppola.

Como é que um povo de anões conseguiu derrotar o poderio bélico dos Estados Unidos.?

“Empenhamos, nesta guerra, o nosso poderio e a nossa honra nacional, o Presidente Johnson em 1965.

Em Março de 2002, centenas de horas de conversas, gravadas na Casa Branca, foram tornadas públicas. Como esta de Richard Nixon com Henry Kissinger, seu secretário de Estado:

“Nixon: Mais valia usar a bomba atómica no Vietname.
Kissinger: Isso, julgo, seria ir longe demais.
Nixon: A bomba atómica perturba-o? A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos. Você está tão preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me interessa isso.
Kissinger: Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.”

Cerca de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.
Cerca de 60 militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos. Foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que, para matar um vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.
Foram transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.
Foram utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.
Ainda hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas. Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.