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sábado, 27 de setembro de 2025

NESTE DIA


Neste Dia, ou num outro qualquer, que no caso, é 23 de Abril de 1975, debruçamo-nos  em Relação de Bordo (1964-1988) diário de Cristóvão de Aguiar, escritor açoriano.

O autor está às voltas com as primeiras eleições do Portugal saído de Abril de 1974. Entre as muitas entidades que tentavam atrasar os caminhos da Liberdade, estava a Igreja. Sempre esteve activa nos tempos de Salazar e Caetano, mas continuava os caminhos da ignorância, da maldade, do desprezo, e, nestas andanças, nunca se poderá esquecer o sinistro cónego Melo:

sexta-feira, 5 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS


Ciclone de Setembro

Cristóvão de Aguiar

Capa: Henrique Cayatte

Editorial Caminho, Lisboa, Dezembro de 1985

Foco então os olhos noutras retinas e, como por encanto, vão desaparecendo todos aqueles obstáculos à medida que vou avançando. Ao longo deste corredor de olhos e voazes atapetado que vou atravessando, e me atravessa, zurze-me uma delas, por de mais conhecida e impeticante: Tanta consumição apara quê, se o tempo não convalesce, nem as pelangas dos dias se desengelham mais, nem a terra que em ti buscas consta, que se saiba, de nenhum mapa oficial ou mesmo clandestino…

sábado, 28 de novembro de 2015

QUOTIDIANOS


Quando vejo que estão a bater mito no ceguinho, fico ruim e dá-me para ficar solidário. Por isso fui inscrever-me no Partido Comunista Português. Já sei de antemão que não vou ser militante de coisa nenhuma, que não tenho feitio para andar em reuniões, nem em comícios. Quanto às quotas, minha mulher que é militante, liquidá-las-á a tempo, a fim de não passar por caloteiro. Saio a meu avô Anselmo que se inclinava sempre par o partido da minoria.

(Novembro de 1975)

Cristóvão Aguiar em Relação de Bordo

terça-feira, 28 de abril de 2015

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


28 de Abril de 1975

NA COMPOSIÇÃO DA Assembleia Constituinte os advogados estão em maioria.
Em 250 eleitos há apenas 20 mulheres.
Em quatro décadas de democracia que estão cumpridas desde 25 de Abril, encontramos 31mulheres ministras e 467 homens, nenhuma mulher como presidente da República, apenas uma candidata a presidente: Maria de Lurdes Pintasilgo nas eleições presidenciais de 1986, sendo também a única mulher que chefiou um governo, nomeada, em 1979, pelo Presidente Ramalho Eanes.

CRISTÓVÃO AGUIAR EM Relação de Bordo:
As primeiras eleições livres de toda a minha vida! Ficou o Partido Socialista à frente, com cerca de trinta e oito por cento de votos expressos. Nunca tinha votado antes, que nunca me deixaram recensear nas alturas em que havia eleições ou um arremedo delas. E se calhar valeu bem a pena esperar tanto tempo por este dia em que o Povo Português foi votar em plena liberdade e com uma alegria que afastava nuvens e outras sombras dos rostos onde elas não há muito costumavam vir aninhar-se. Foi como se estivesse toda a gente em festa tanto pelo direito como pelo avesso.

VERGÍLIO FERREIRA NO 1º Volume da sua Conta-Corrente:
Dia 25 houve eleições. Noventa por cento do País foi às urnas. Só dez por cento votou em branco, ou seja o que as tropas aconselhavam para demonstrarem, como Salazar, a nossa incapacidade política. Mas o povo sabia o que queria. E disse-o. Vagas de gente à porta das assembleias. Duas horas em pé e à espera, foi a minha ração. Notabilidades na minha bicha, o Rosa Coutinho. Mas também tive um jornalista a questionar-me… Resultado: vitória dos socialistas, ou seja do slogan «socialismo sim, ditadura não». Somos um país pacífico, vagamente preguiçoso, chateia-nos uma ordem de caserna como a que nos imporia o comunismo. Revelado este como pobre minoria. O activismo, a ousadia, a ameaça davam este na aparência como uma força maioritária. Não era. Estava tudo na primeira linha e imaginava-se que havia outras linhas atrás. Clamor agora de vencidos: «A esquerda triunfou.» Pois. Mas não a deles. E agora?

MIGUEL TORGA NO seu Diário:
Eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolação cívica que tive. Era comovedor ver a convicção, a compostura, o aprumo, a dignidade assumida pela multidão de eleitores a caminhar para as urnas, cada qual compenetrado de ser portador de uma riqueza preciosa e vulnerável: o seu voto, a sua opinião, a sua determinação. Parecia um povo transfigurado, ao mesmo tempo consciente da transcendência do acto que ia praticar e ciente da ambiguidade circunstancial que o permitia. O que faz o aceno da liberdade, e como é angustioso o risco de a perder! Assim os nossos corifeus saibam tirar do facto as devidas conclusões. Mas duvido. Nunca aqui os dirigentes respeitaram a vontade popular, mesmo quando aparentam promove-la. No fundo, não querem governar uma sociedade de homens livres, mas uma sociedade de cúmplices que não desminta a degradação deles.


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Relação deBordo – Cristóvão de Aguiar.
- Conta-Corrente de Vergílio Ferreira.
- Diário de Miguel Torga.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


23 de Abril de 1975

A POPULAÇÃO da Azambuja decide ocupar uma herdade, entre Alcoentre e Rio Maior, pertencente ao Duque de Lafões, que irá dar origem à Cooperativa Agrícola Torre Bela.
Os camponeses optaram por não pedir o apoio do Partido Comunista Português, que vinha sendo procedimento corrente, optando por pedir ajuda à LUAR. A ocupação foi, então, dirigida por Camilo Mortágua e ficou registada num documentário realizado porThomas Harlan.

O NÚNCIO APOSTÓLICO, em nome da Santa Sé, e o ministro Melo Antunes, em representação do Governo português, assinaram esta manhã os instrumentos de ratificação do Protocolo Adicional à Concordata, que possibilita o divórcio aos cidadãos casados pela Igreja.

NUM DOS COMÍCIOS eleitorais do Partido Socialista, Mário Soares clarificou:
Não temos o projecto de copiar experiências alheias, de introduzir em Portugal um socialismo à russa, à chinesa, à sueca ou à cubana. Queremos um socialismo à portuguesa. Lutamos por um poder que pertença de facto aos trabalhadores, e não aos burocratas que falam em nome dos trabalhadores.
Os tempos vieram a mostrar que o socialismo de Mário Soares era algo que podia ser acomodado, pelos séculos dos séculos, no fundo de uma gaveta.

NESTE DIA, Cristóvão Aguiar registava no seu livro Relação de Bordo:
Há poucos dias, durante a homilia da missa dominical na igreja de uma freguesia rural das cercanias, o padre falou aos seus paroquianos sobre as próximas eleições para a Assembleia Constituinte. Lançou mão da parábola para melhor se fazer compreender e disse-lhes: - Meus caros irmãos em Cristo: suponhamos que um de vós é dono de uma vaca leiteira; se ganhar o socialismo, fica o irmão com a vaca, mas tem que dar o leite a esse partido; se ganhar o comunismo, fica sem a vaca e sem o leite…

PALAVRAS DO Apontamento de José Saramago no Diário de Notícias:

Por vários modos e meios têm chegado até nós sinais de que o povo português enfrenta com alguma estes dias próximos, o das eleições e os seguintes, indícios de que, brutalmente sacudido por uma campanha eleitoral em muitos aspectos insensata, tende agora a fechar-se sobre si próprio. Há mesmo quem diga que o povo tem medo, que, submergido pela vaga de boatos alarmistas que varrem o País de lés a lés, prefere a passividade à acção participante num processo revolucionário que, contraditoriamente, só graças a ele rem prosseguido.
Admitamos que seja verdade quanto acima fica dito, que, realmente, os eleitores hesitam em sair para a rua, em entrar nas filas de espera das assembleias eleitorais e depositar o seu precioso (sim, preciosos) voto na urna. Admitamos tudo isso e perguntemos: a quem interessa que o povo tenha medo?
(…)
O medo está contra o povo? Pois então afirmemos, não apenas por palavras, mas com todos os actos necessários que o povo está contra o medo.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Os Apontamentos – José Saramago
- Relação de Bordo – Cristóvão Aguiar.

domingo, 28 de setembro de 2014

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974

16 a 30 de Setembro

HÁ HISTORIADORES que designam o Setembro de 1974 como tendo sido um Setembro Negro.
O 28 de Setembro foi uma tentativa pífia de conspiração da extrema-direita, apoiada por Spínola, tendo como pano de fundo uma manifestação daquilo que o general designou como «maioria silenciosa» e constitui um dos principais marcos do processo revolucionário.
Em Julho, Spínola já tinha dito: «As maiorias silenciosas têm de sair do seu comodismo ou do seu temor e de se pronunciarem abertamente».

O PARTIDO LIBERAL, no dia 13, redige um comunicado apelando para que as pessoas começassem «a organizar a sua vida para aderirem à Grande Manifestação, e apoiar firmemente Sua Excelência na execução do Programa do Movimento das Forças armadas entendido de boa fé, como via para a democracia personalista, pluralista e livre».


MARCADA a data da manifestação da «maioria silenciosa» para o dia 28.

DURANTE A MADRUGADA do dia 18 são afixados os cartazes.

ESTAVA PREVISTO O ALUGUER DE CAMIONETAS para transportar os manifestantes, aluguer sinalizado antecipadamente com dinheiro emprestado pelo Banco Espírito Santo.

NO DIA 20, num comício na Amadora, Álvaro Cunhal denuncia: «Se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhes antes que morda»!

NA TRADICIONAL CORRIDA DE TOUROS, na Praça do Campo Pequeno, de apoio à Liga dos Combatentes, é feito o ensaio geral da manifestação. Gratuitamente foram distribuídos bilhetes no valor de 300 contos. Spínola marca presença, acompanhado por Vasco Gonçalves, que é apupado enquanto Spínola é delirantemente aplaudido. A cada passe tauromáquico a populaça gritava: «Portugal! Ultramar Ultramar!». O cavaleiro João Zoio apareceria, no meio da arena, ostentando  o cartaz da manifestação da «maioria silenciosa», enquanto pela instalação sonora era feita uma convocatória para a manifestação.


NO DIA 27 o Governo Provisório manifesta a Spínola a sua discordância sobre a manifestação e este emite um comunicado agradecendo a intenção de apoio da «maioria silenciosa» mas declarando que neste momento a manifestação não seria conveniente

NA MADRUGADA do dia 28 populares montam barricadas em diversos pontos do país para evitar qualquer avanço de forças reacionárias. Organizaram piquetes, revistaram automóveis na procura de armas.

Cristóvão Aguiara escreve no seu Relação de Bordo: « … mas quem pode, em dias tão agitados como estes, ficar em casa?»

ANTÓNIO SPÍNOLA convoca o Conselho de Estado para o dia 30, renuncia ao mandato presidencial e os capitalistas portugueses vêem esfumar-se uma oportunidade de recuperar privilégios perdidos, transferem os seus capitais para o estrangeiro e, muitos, abandonam o país.
Costa Gomes é o novo Presidente da República.

ARTUR PORTELA Filho e o final de uma das suas Fundas:
O general Spínola mobilizou a maioria silenciosa.
O MFA mobilizou o País.
Foi um opção.
Que o general Spínola cometeu o erro de fazer.
Porque a maioria não é silenciosa.
Porque o MFA é o País.

Legenda: as imagens dos cartazes foram retiradas de Portugal Século XX de Joaquim Vieira, Bertrand Editora, Lisboa, Novembro de 2007.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974


1 a 15 de Setembro

NUMA CONFERÊNCIA realizada em Djakarta, o dirigente do Partido Pró-indonésio afirmou que a 70% da população de Timor pretende a unificação política com a Indonésia.

NUMA VIAGEM que efectuou às Lajes, Mário Soares anunciou que é propósito de Portugal manter o acordo que permite aos americanos a utilização daquela base aérea, obtendo porém alguma contrapartida que beneficie especialmente os habitantes dos Açores.

NO ESTÁDIO Universitário, em Lisboa, reúnem-se pela primeira vez em público as Testemunhas de Jeová.

OS TRABALHADORES do Jornal do Comércio manifestam-se irredutíveis quanto ao saneamento de Carlos Machado, director do jornal.

OS SINDICATOS dos trabalhadores das Artes Gráficas, Jornalistas, Administrativos e Revisores de Imprensa e Vendedores de Jornais e Lotarias, em Assembleia Plenária realizada na Voz do Operário, decidiram uma greve de 24 horas (4 de Setembro),em solidariedade para com os trabalhadores do Jornal do Comércio.

ENTRADA no dia 5 de Setembro que Cristóvão Aguiar colocou no seu Diário «Relação de Bordo»  «A História diz-se, não se repete. Mas, se não queda mal o perguntar, não será possível, em Portugal, uma edição revista e remodelada do Chile? É que há por aí movimentos escudos, olhos espreitando do fundo dos seus poços de sombra velha, aguardando a hora do grande descuido, também muitos corvos crocitando e corujas piando nas torres de algumas igrejas…»

MILHARES DE PESSOAS, num comício realizado no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, presidido por Rui Luís Gomes, exigiram o fim da repressão no Chile.

A INTERSINDICAL, de acordo com o pedido da Central Única dos Trabalhadores do Chile (CUT) e de acordo com todas as organizações internacionais, decidiu que no dia 11, pelas 11 horas, hora a que foi assassinado o presidente Salvador Allende, uma paralisação de cinco de 5 minutos como forma de solidariedade e apoio à luta do povo chileno.

SEGUNDO O Expresso de 7 de Setembro, muitos padres estão a levantar obstáculos à campanha de alfabetização desenvolvida por um grupo de estudantes universitários.


APROVADA em Conselho de Ministros a nacionalização dos bancos de Portugal, de Angola e Ultramarino.

MÁRIO NEVES é nomeado o primeiro embaixador português em Moscovo.

EM LUSAKA as delegações de Portugal e da FRELIMO chegam a total acordo. Deste modo, Moçambique obterá a independência em meados de 1975.

É ANUNCIADO em Portugal um golpe reccionário em Moçambique em que extremistas brancos ocuparam o Rádio Clube de Moçambique e soltaram os Pides detidos na Machava. O MFA considera estes actos como crimes de alta traição aos superiores interesses de Portugal e de Moçambique, enquanto Vasco Gonçalves afirma que são «obra de uma minoria desesperada que não compreende o futuro.»

É ANUNCIADO oficialmente que os motins de Lourenço Marques originaram 100 mortos e 250 feridos, sendo negros a maior parte das vítimas.

NO ACTO OFICIAL de reconhecimento solene por Portugal da República da Guiné-Bissau (10 de Setembro), o Presidente da República António Spínola, na sua  comunicação ao país disse: «A maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se defender activamente dos totalitarismos extremistas que se degladiam na sombra servindo-se das técnicas bem conhecidas de manipulação de massas para conduzir e condicionar a emotividade e o comportamento do povo perplexo e confuso por meio século de obscurantismo político.»

JOVENS PARTIDÁRIOS DO MPP-Movimento Popular Português, foram detidos a colar cartazes no Terreiro do Paço em Lisboa:


 SEGUNDO UM grupo de democratas espanhóis, os Pides estão a ser bem recebidos pelas autoridades espanholas.

MÁRIO SOARES encontrou-se em Paris com o presidente Leopold Senghor e informou que Portugal tenciona debater a independência de Angola com o MPLA, a FNLA e a UNITA.
PÁGINA 61 de Portugal Depois de Abril: «O recurso ao financiamento estrangeiro não foi possível: o boicote económico do capitalismo internacional era já um facto, apesar das promessas demagógicas dos governos sociais-democratas e da OCDE e CEE, que não se concretizaram.
O boicote do grande capital mundial intensificou-se logo que Palma Carlos foi substituído por Vasco Gonçalves.»

Legenda:
1)      O Século, 7 de Setembro de 1974
2)      Diário de Lisboa, 14 de Setembro de 1974
3)      Expresso, 7 de Setembro de 1974

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A NOITE DAS MIL PERDIDAS


17 de Abril de 1974

A imprensa desportiva – e não só! - lamenta a falta de sorte que o Sporting teve no jogo que disputou com os alemães, no Estádio José Alvalade, a contar para a 1ª mão das meias finais da Taça dos Vencedores de Taças. Mesmo sem Yazalde e Nelson, o Sporting dominou de tal maneira o jogo, que um jornalista titulou: A noite das Mil Perdidas.
O resultado foi um empate a uma bola, e a imagem marca o momento do golo marcado pelo defesa Manaca. O golo dos alemães foi marcado na própria baliza por um defesa sportinguista. Para cúmulo, Dinis desperdiçou uma grande penalidade.
A segunda mão disputa-se no próximo dia 24 de Abril em Magdeburgo.

Neste dia, mas no ano de 1965, Cristóvão de Aguiar, escreve no seu livro Relação e Bordo:

Sábado de aleluia, com repiques ao contrário dentro de mim. Acabei de embarcar com a minha Companhia Independente de Caçadores número oitocentos. Vamos com destino marcado para a Guiné. O Ana Mafalda vai cheio de carne para canhão e ainda se encontra atracado no Cais da Rocha. São três as companhias de caçadores e parte de uma companhia de comandos e serviços de um batalhão. No salão de primeira classe, há pouco, houve discursos e vinho do Porto e uísque e salgadinhos. Uma falta de respeito. Mal acabou a cerimónia, enfiei-me no meu camarote de primeira, pois então! Morra Marta, mas morra farta! Estou para aqui sozinho, lavado em lágrimas, enquanto outros oficias meus camaradas, talvez mais corajosos, se encontrem na amurada do navio nos últimos acenos de despedida. Puta de Pátria a minha!

quarta-feira, 26 de março de 2014

OLHAR AS CAPAS


Relação de Bordo
(1964-1988)

Cristóvão de Aguiar
Capa: Loja das Ideias
Campo das Letras, Porto, Março de 1999

Contuboel, 12 de Janeiro de 1966 – Ontem o nosso batalhão Sete de Espadas, sofreu dez mortos numa emboscada. Tinha ficado com o meu pelotão na base, para montar a segurança e dar apoio logístico, quando, pouco depois de terem partido para uma operação no mato do Caresse, de ninguém e de muita pancada, se ouviram grandes rebentamentos na direcção que tinham tomado. Uma hora e pouco mais tarde, chegou uma viatura com os mortos a trouxe-mouxe sobre o estrado da carroçaria. Tinham morrido ali como tordos. Depois de os guerrilheiros terem lançado algumas granadas defensivas para o interior da GMC. Fiquei encarregado de transportar aquela carne humana para Fajonquito, sede de uma companhia também pertencente ao nosso batalhão.