Mostrar mensagens com a etiqueta Margarida Ferra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Margarida Ferra. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O MUNDO A FUNCIONAR

«O mundo continua a funcionar, outras vidas decorrem sem eu ser chamada a encontrar objectos que não fui eu que perdi»

Margarida Ferra

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

HISTÓRIA OUVIDA A ALGUÉM

 «Escrever um texto é como ajustar o vidro da vitrine do museu: separa-nos do mundo no tempo em que aconteceu, ao mesmo tempo que o dá a ver. As palavras escolhidas para uma paisagem, um encontro entre duas pessoas, uma história ouvida a alguém são apenas uma de todas as maneiras possíveis de inscrever esse recorte de realidade numa nova ordem, outra sequência, uma superfície onde não pertence, mas onde acaba por ficar»

Margarida Ferra em Saber Perder

sábado, 15 de novembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Saber sempre onde estão as costas e o norte.

Margarida Ferra 

Legenda: fotografia de Júlio Amorim.


MÚSICA PELA MANHÃ

Durante muitos anos persegui os livros de poemas de Margarida Ferra editados pela &Etc., sem nunca os encontrar.

Numa conversa com o Vitor Silva Tavares falei-lhe nisso. Deu uma volta por onde pensou existirem ainda, mas sem sucesso.

Em Março de 2014 tomei conhecimento de Margarida Ferra.

É este o texto de hbmf lido na Antologia do Esquecimento:

«Enquanto lia Sorte de Principiante (&etc, Novembro de 2013), lembrei-me de uma canção de Sérgio Godinho intitulada Dias Úteis. Começa assim: «dias úteis / às vezes pretextos fúteis / pra encontrar felicidades / no percurso de um só dia». E já no final, canta-se: «Por pretextos talvez fúteis / a alegria é o que nos torna / os dias úteis / Por motivos talvez claros / o prazer é o que nos torna / os dias raros». Os poemas de Margarida Ferra (n. 1977) afinam pelo mesmo diapasão, com um ritmo compassado onde a experiência dos “dias úteis”, invocados a páginas 31, solicita cogitações e exercícios reflexivos de ordem desigual. A prosa introdutória intitulada Coisas quentes a baixas temperaturas dá o mote, oferecendo aos leitores de poesia referências familiares. «Mistura o que quiseres», escreve Margarida Ferra, como escrevia o livreiro da Poesia Incompleta quando expunha nos escaparates do seu weblog livros de autores com linguagens diversas (senão mesmo divergentes). Apesar de se dirigir a uma segunda pessoa, este texto funciona como uma arte poética que guiará a versificação subsequente: «Não espreites perfis. Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas - uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares». (p. 9) O tom recomendativo, que se repete em alguns poemas, por vezes sob a forma de receita, falível como todas as receitas, não deve iludir-nos. Na realidade, ele dissimula uma insegurança que nada tem que ver com a eventual elevação do sujeito poético face aos seus leitores. Dirigindo-se a outrem, é a si mesmo que se dirige - numa clara renúncia do biografismo que contamina os versos e do confessionalismo que fica sempre aquém da complexidade existencial. A autora protege-se, deste modo, de eventuais confusões entre o texto enquanto expressão do Eu, fixado num tempo e num espaço específicos, e o Eu enquanto edifício mais ou menos estável, singular, em construção permanente até à hora da morte. Pertinente, pois, até pelo movimento que sugerem, a divisão dos poemas em três conjuntos: Poemas do Início, Poemas do Meio, Poemas do Fim, todos eles numerados e apenas por três vezes intitulados (Escreve sempre que precisares, Leio menos do que penso, Não te iludas). Reproduzo os títulos por duas razões: 1.ª tornam perceptíveis a alternância entre o discurso na primeira pessoa e o discurso dirigido a uma segunda pessoa (que, como disse, não suprime a primeira); 2.ª relevam a importância do texto introdutório, chão sobre o qual os poemas despontam e se desenvolvem. Prescrições, instruções, "receituários" são, neste contexto, formas engenhosas de exprimir um esforço de autoconhecimento onde se notam inquietações íntimas e uma certa desarrumação emocional, porventura geradas pelas rotinas da vida doméstica, pelo “tédio”, pelo sedentarismo, pelo adiamento das rupturas ou de acções menos convencionais (ou mesmo por uma certa solidão que advirá da incapacidade de reconhecer a singularidade de um ser esbatido entre multidões): «Apaixonei-me todas as vezes / e ainda assim foram insuficientes / para a idade e dedos que tenho. // Conduzo a alta velocidade, / ignorante dos radares. / Foram pelo menos quinze, / os túneis até hoje. // Escapei ilesa. Frases mal pronunciadas, / suspiros demasiado presentes, / uma t-shirt usada em excesso / em dias de sono longe, / memórias inesperadas, / longas páginas de prosa, / poesia, jornalismo e catálogos / de venda postal / têm-me salvo com frequência / do abismo. // Ensinavas-me a viver longe e / podia acreditar em ti, / se me chamasses / assim e outros termos vulgares, / entre dois vídeos. Só que ninguém / enfrenta a câmara / antes do próximo semáforo» (pp. 16 - 17). Exemplar no desafio que coloca a si próprio, este poema traduz a paisagem do conjunto. Nas entrelinhas, o que torna os dias úteis e respiráveis. Mas também o que os torna fúteis e (até ver) suportáveis».


A  Música pela Manhã de hoje é a canção do Sérgio Godinho, que veio à memória do hmbf enquanto lia  Margarida Ferra, um mágico de palavras e músicas, dos mais brilhantes autores/cantores que temos por aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

FLORES NOCTURNAS

Ouviste ontem à noite
a cadência misteriosa,
outra vez o trabalho
daquela costureira sem idade.
Os pés descalços sobre o pedal,
os braços colados ao pano, frios
e brancos, não têm carne
que possa ferir-se por
acaso ou falta de vista.
Mora dentro das paredes,
edifícios com mais de quinze anos,
e escolheu aqueles
a quem embala e atormenta o sono.

Os pontos regulares, na tua cabeça,
fixam sardinheiras frescas sobre
chitas desmaiadas pela luz do dia
que chagará daqui a nada.

Fernanda Ferra em Curso Intensivo de Jardinagem

sábado, 5 de julho de 2025

CONVERSANDO


 As vidas de cada vida são tantas, tantas, que é impossível que se possa dizer que este ou aquele, são livros de uma vida.

Peguei há dias em O Estrangeiro do Albert Camus e poderia dizer que é o livro de uma vida. Não digo. Mas é um grande livro. Sujeito a uma série larga de leituras – quantas vezes o João Bénard da Costa viu o Johnny Guitar? - o livro tem um milhão de sublinhados, mas a minha atenção de agora fixou-se na frase:

«… a partir desse dia senti que a minha casa era a minha cela, e que a vida parava ali.»

Meursault estava preso porque, a seguir à morte da mãe num asilo de velhos, matara um árabe.

Donde partiu esta minha atracção pelas casas?

Só pode ter sido naquele poema do Ruy Belo

«Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro»

A tal ponto que arranjei uma etiqueta para casas e fui lá colocando o que sobre casas ia encontrando. Passei por lá os olhos e trago-vos algumas leituras, a maior parte são versos de poemas e acabo de ler no João Miguel Fernandes Jorge que «um verso fora do poema não deve despertar qualquer interesse.»

Nada se passa por detrás das janelas desde que deixámos de estar por detrás delas.

Palavras encontradas em Alexandre O’Neill

 … a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke

A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós a casa mora.

Mia Couto

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra

Acho que quando for grande nunca vou conseguir encontrar o caminho para casa.

Autor desconhecido

Também nós não voltaremos à mesma casa.

Manuel S. Fonseca

segunda-feira, 24 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


Saber sempre onde estão as costas

e o norte.


Deixar de repetir a palavra

ainda

como se pudesse salvar-me da chuva

inesperada.


Margarida Ferra em Sorte de Principiante

sábado, 8 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


Se olharmos mais de longe para a linha do tempo, todas as mulheres chegaram tarde à escrita e à publicação, prova viva e contraprova.

Margarida Ferra em Saber Perder

Legenda. Pintura de Di Cavalcanti