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sexta-feira, 17 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS

 

O 25 de Abril Visto da História

José António Saraiva

Vicente Jorge Silva

Capa: José Cândido

Livraria Bertrand, Lisboa, Novembro de 1976

Sobre o fenómeno PS, será oportuno fazer um pequeno recuo no tempo, até 1969, quando Mário Soares e outras figuras hoje preponderantes daquele parido concorrente às eleições para a Assembleia Nacional, pelo círculo de Lisboa, integrados numa lista distinta da CDE, a CEUD. Enquanto a CDE representava alguma tendências da oposição ditas mais «radicais» - PCP e católicos progressistas incluídos - , a CEUD era a expressão típica dos democratas liberais, ainda fiéis à herança política da I República, e que pretendia «colar» com algumas propostas de «liberalização» avançadas por certos sectores marcelistas. A CEUD orienta a sua campanha para a reivindicação das «liberdades», quase não referindo a questão colonial a não ser numa perspectiva que, curiosamente, Spínola viria a defender mais tarde (isto é em Portugal!) sobre a apolítica a adoptar em relação às colónias. Como é conhecido a CEUD obteve apenas cerca de um quarto dos sufrágios obtidos pela CDE; concretamente, menos de nove ,il pessoas votaram na lista onde figurava Mário Soares.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL

 

                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Quando é que o 25 de Abril começou a desenhar-se?

O descontentamento entre os militares face à guerra colonial estava em crescendo.

Pessoalamente admito que o 25 deAbril despoleta no dia em que o Decreto-Lei nº 353/73 de 13 de Julho, que se pode ver no topo do texto, e que se transforma em pedra de toque desestabilizadora num conflito que estava latente entre os militares das armas de infantaria, artilharia e cavalaria. 

Mas os próprios militares determinam que o “Movimento dos Capitães” nasceu em Évora, numa reunião alargada, no dia 9 de Setembro de 1973.

Há quem tenha a opinião que o 25 de Abril começa a  23 de Fevereiro de 1974, quando de bota-alta-de-cavalaria e pingalim, o General António de Spínola, com chancela da “Arcádia”, publica o livro Portugal e o Futuro.

Alguns historiadores dizem que Marcelo Caetano acabou a leitura do livro na madrugada do dia 21 e logo admitiu o que há muito suspeitava: o regime estava por um fio.

Artur Portela Filho, no República de 11 de Março de 1974, terminava assim uma carta dirigida ao General Spínola: «Portugal e o Futuro surge como “o livro esperado”.

É possível, mas por quem?

Pela nossa parte o livro a escrever não é este – é outro.

E será uma obra colectiva.”»

Dois dias depois do levantamento de 16 de Março de 1974, protagonizado pelas tropas do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, Vergílio Ferreira, no 1º volume do seu Conta-Corrente, escreve:

«O livro de Spínola alastrou numa revolta militar frustrada. O livro? Há um clima deinquietação, um cansaço do provisório em que vivemos. O difícil da questão é que solução alguma coisa se nos impõe como boa. Há que escolher a menos má. Qual? A África é dos pretos que “exploramos” há quinhentos anos. Exploramos? Só? Mas como aguentar o embate da separação? O recurso seria retroactivo: termo-nos preparado para isso. Mas Salazar, como certos bichos, o que entregou foi pedra. Dizem-me: o Marcelo quer aguentar a guerra até estarmos preparados. Mas o desgaste não vai mais depressa que a preparação? Tentamos acumular de um lado, enquanto gastamos do outro Qual o saldo? Entretanto, ainda se recorre à retórica imperial. “Deus manda combater, não vencer, diz Marcelo. Mas Deus manda o que lhe mandamos mandar. Deus de paz, Deus carniceiro, Deus celeste ou terreno. O Deus de Marcelo não é muito inteligente. Ou estará simplesmente enrascado, sem saber o que fazer».

Sabe-se hoje que o livro não foi escrito por Spínola, mas por um capitão de artilharia, que mais tarde lhe escreveria também os discursos.

O Diário de Lisboa de 19 de Janeiro de 1976 publica um depoimento do “escritor-fantasma” que considera Spínola um “vaidoso, demagogo e intelectualmente preguiçoso, mas com uma memória notável.”

Em 19 de Agosto de 1976 escreve Meira Burguete no Diário Popular:

«Spínola entrou (?) numa revolução (?) que quis corrigir (?) ou destruir (‘) uma outra revolução que não teria seguido o cariz que o Spínola queria.».

Vicente Jorge Silva no Público de 14 de Agosto de 199:

«O Marechal Spínola ficará para a História não por qualquer feito militar de relevo ou pela sua actividade militar mas por ter escrito um livro. O 25 de Abril não foi obra de um livro. Mas sem esse livro e sem a assinatura do seu autor, é provável que o sobressalto libertador que uniu então as Forças Armadas não tivesse sido possível.»

O Marechal Costa Gomes na entrevista recolhida para o projecto de História Oral do Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coinbra, disse:

«O General Spínola tece sempre contradições enormes entre o que julgava intimamente poder fazer e o que fazia. Interiormente, foi sempre um ditador potencial. Não evoluiu nada desde que saiu da Escola do Exército até ser governador da Guiné.»

segunda-feira, 10 de maio de 2021

MANDA O QUE LHE MANDAMOS MANDAR

18 de Março de 1974

O livro de Spínola alastrou numa revolta militar frustrada. O livro? Há um clima de inquietação, um cansaço do provisório em que vivemos. O difícil da questão é que solução alguma se nos impõe como boa. Há que escolher a menos má. Qual? A África é dos pretos que «exploramos» há quinhentos anos. Exploramos? Só? Mas como aguentar o embate da separação? O recurso seria retroactivo: termo-nos preparado para isso. Mas Salazar, como certos bichos, o que segregou foi pedra. Dizem-me: o Marcelo quer aguentar a guerra até estarmos preparados. Mas o desgaste não vai mais depressa do que a preparação? Tentamos acumular de um lado, enquanto gastamos do outro. Qual o saldo? Entretanto, ainda se recorre à retórica imperial. «Deus manda combater, não vencer», diz Marcelo. Mas Deus manda o que lhe mandamos mandar. Deus de paz, Deus carniceiro, Deus celeste ou terreno. O Deus de Marcelo não é muito inteligente. Ou estará simplesmente enrascado, sem saber o que fazer.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente em Volume I

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O DECRETO 353/73


Quando é que o 25 de Abril começou a desenhar-se?

O descontentamento entre os militares face à guerra colonial, estava em crescendo.

 Mas são os próprios militares que determinam que o Movimento dos Capitães

nasceu, numa reunião alargada,  em Évora, no dia 9 de Setembro de 1973.

A 23 de Fevereiro de 1974, o General António de Spínola, com chancela da Arcádia, publica o livro Portugal e o Futuro.

Alguns historiadores dizem que Marcelo Caetano quando acabou a leitura do livro, logo admitiu o que há muito suspeitava: o regime estava por um fio.

Ainda em Março há-de dizer a um dos seus colaboradores:

«Cuidado com os capitães, o perigo vem deles, pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.

Dois dias depois do levantamento de 16 de Março de 1974, protagonizado pelas tropas do Regimento de Infantaria 5, das Caldas da Rainha, Vergílio Ferreira, no 1º volume do seu Conta-Corrente, escreve:

 «O livro de Spínola alastrou numa revolta militar frustrada. O livro? Há um clima de inquietação, um cansaço do provisório em que vivemos. O difícil da questão é que solução alguma coisa se nos impõe como boa. Há que escolher a menos má. Qual? A África é dos pretos que “exploramos” há quinhentos anos. Exploramos? Só? Mas como aguentar o embate da separação? O recurso seria retroactivo: termo-nos preparado para isso. Mas Salazar, como certos bichos, o que entregou foi pedra. Dizem-me: o Marcelo quer aguentar a guerra até estarmos preparados. Mas o desgaste não vai mais depressa que a preparação? Tentamos acumular de um lado, enquanto gastamos do outro Qual o saldo? Entretanto, ainda se recorre à retórica imperial. “Deus manda combater, não vencer, diz Marcelo. Mas Deus manda o que lhe mandamos mandar. Deus de paz, Deus carniceiro, Deus celeste ou terreno. O Deus de Marcelo não é muito inteligente. Ou estará simplesmente enrascado, sem saber o que fazer.»

O cansaço apoderara-se dos militares, um enorme cansaço.

Na noite em que Otelo diz à mulher que, por motivos óbvios, não podem ir ao Coliseu ver a Traviata, conversam também sobre o que poderá acontecer se as coisas não correrem bem. Otelo diz que não sabe o que poderá acontecer, mas uma coisa pode garantir; «nunca mais faço guerra nenhuma no Ultramar.»

Podemos, no entanto admitir que é o Decreto-Lei nº 353/73 de 13 de Julho, que se pode ler no topo do texto, que se transforma em pedra de toque desestabilizadora num conflito que estava latente entre os militares das armas de infantaria, artilharia e cavalaria.

sábado, 28 de setembro de 2019

HÁ 45 ANOS


HÁ HISTORIADORES que designam o Setembro de 1974 como tendo sido um Setembro Negro.

O 28 de Setembro foi uma tentativa pífia de conspiração da extrema-direita, apoiada por Spínola, tendo como pano de fundo uma manifestação daquilo que o general designou como «maioria silenciosa» e constitui um dos principais marcos do processo revolucionário.

Em Julho, Spínola já tinha dito: «As maiorias silenciosas têm de sair do seu comodismo ou do seu temor e de se pronunciarem abertamente».

O PARTIDO LIBERAL, no dia 13, redige um comunicado apelando para que as pessoas começassem «a organizar a sua vida para aderirem à Grande Manifestação, e apoiar firmemente Sua Excelência na execução do Programa do Movimento das Forças armadas entendido de boa-fé, como via para a democracia personalista, pluralista e livre».

MARCADA a data da manifestação da «maioria silenciosa» para o dia 28.

DURANTE A MADRUGADA do dia 18 são afixados os cartazes.

ESTAVA PREVISTO O ALUGUER DE CAMIONETAS para transportar os manifestantes, aluguer sinalizado antecipadamente com dinheiro emprestado pelo Banco Espírito Santo.

NO DIA 20, num comício na Amadora, Álvaro Cunhal denuncia: «Se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhes antes que morda»!

NA TRADICIONAL CORRIDA DE TOUROS, na Praça do Campo Pequeno, de apoio à Liga dos Combatentes, é feito o ensaio geral da manifestação.

Gratuitamente foram distribuídos bilhetes no valor de 300 contos. Spínola marca presença, acompanhado por Vasco Gonçalves, que é apupado enquanto Spínola é delirantemente aplaudido. A cada passe tauromáquico a populaça gritava:

«Portugal! Ultramar Ultramar!».

O cavaleiro João Zoio apareceria, no meio da arena, ostentando o cartaz da manifestação da «maioria silenciosa», enquanto pela instalação sonora era feita uma convocatória para a manifestação.

NO DIA 27 o Governo Provisório manifesta a Spínola a sua discordância sobre a manifestação e este emite um comunicado agradecendo a intenção de apoio da «maioria silenciosa» mas declarando que neste momento a manifestação não seria convenienteº



NA MADRUGADA do dia 28 populares montam barricadas em diversos pontos do país para evitar qualquer avanço de forças reacionárias. Organizaram piquetes, revistaram automóveis na procura de armas.

Cristóvão Aguiar escreve no seu Relação de Bordo: « … mas quem pode, em dias tão agitados como estes, ficar em casa?»

ANTÓNIO SPÍNOLA convoca o Conselho de Estado para o dia 30, renuncia ao mandato presidencial e os capitalistas portugueses vêem esfumar-se uma oportunidade de recuperar privilégios perdidos, transferem os seus capitais para o estrangeiro e, muitos, abandonam o país.

Costa Gomes é o novo Presidente da República.

ARTUR PORTELA Filho e o final de uma das suas Fundas:

«O general Spínola mobilizou a maioria silenciosa.
O MFA mobilizou o País.
Foi um opção.
Que o general Spínola cometeu o erro de fazer.
Porque a maioria não é silenciosa.
Porque o MFA é o País.»

Legenda: as imagens dos cartazes foram retiradas de Portugal Século XX de Joaquim Vieira, Bertrand Editora, Lisboa, Novembro de 2007.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

MAS GANHA OITO CONTOS!...


Carta de Jorge de Sena, datada de 9 de Março de 1969, para Eugénio de Andrade:

Trago muitas e cruciantes saudades. Não direi da minha casa que me pareceu encolhida e desconfortável; não direi do país que me entristeceu profundamente, com o seu ar de decadência enxovalhada, a amargura dos melhores, e a resignação dos pequenos (uma mãe que se lamentava de o filho estar mobilizado em África, logo acrescentou, com um sorriso de consolada satisfação que ele ganhava oito contos…) mas dos amigos que é quase impensável para mim que não possa rever a bel-prazer. Agora é que compreendo a diferença de quando parti para o que seria uma ausência de quase dez anos: oficialmente eu não partia, e em conformidade não me despedira. Desta vez, foi diferente. E não sei se não é pior do que antes, de um ponto de vista geral: é que não havia saída para o país, mas esperava-se que um dia haveria, e presentemente é claro, demasiado claro, que a não há, e que ninguém ou quase ninguém sequer a deseja. Como viveria quem se habituou a apenas a sobreviver?


A frase da mãe do soldado fará parte do poema «Uma vez eu…», em que Jorge de Sena refere também as fanfarronadas de António Spínola, mais o seu livro «Portugal e o Futuro», bem como os acontecimentos do 16 de Março.
O poema escrito em Santa Bárbara está datado de 21 de Abril de 1974 e faz parte de «40 Anos de Servidão».
É este o poema:

                           I

Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Áfricas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!

                         II

O general combateu heroicamente nas Guinés
(todos os generais são heróicos porque não se arriscam
todos os dias como os soldados, mas só às vezes
quando visitam a »frente» para mostrar aos soldados
que têm colhões como eles, e os soldados acreditam),
foi largamente louvado pelo governo, muito promovido,
e começou a pensar que aquilo não levava a nada
e era mesmo um mau negócio para a União Fabril
(e oq eu é mau para a CUF é mau para a pátria, é claro).
Pensou então que a guerra não se ganhava,
que o país não aguentava (será que alguma vez
havia pensado nessas evidências desde o princípio?),
e que a sua popularidade entre os soldados da Guiné
correspondia a um papel salvador da pátria
para tirá-la da encrenca. Ressuscitou
a ideia da semi-federação, agitou
os imperialismos brasileiros em relação à África dita portuguesa
(que são mais velhos que o Brasil como nação),
E botou livro saudado como enorme êxito nacional e internacional.
Mas a extrema-direita – ou sejam aqueles
que acabam por acreditar eles mesmos nos mitos que impõem aos outros
- não gostou. Os jovens centuriões estavam todos
de olhos fitos na imagem paterna, de monóculo, herói
das Guinés e mais partes. E pensaram em pôr-se
pacificamente em marcha como no 28 de maio
que assim ganharam contra a República há cerca de cinquenta anos.
Mas era dia de futebol. Os soldados estavam todos
Preocupados em quem ganharia o jogo, e tristes
De o perderem na televisão. Outros centuriões
Acharam que não havia chegado o momento.
E assim as colunas motorizadas encontraram-se
frente  a frente ao pé dos Alguidares de Baixo,
e os revoltosos deixaram-se prender entre vivas
ao Benfica, ao Sporting, ou outro clube qualquer.
Na estrada, cruzavam-se as colunas motorizadas,
É tristíssimo isto, por certo, de todos os pontos de vista.
Mas – quem há-de fazer crer a um povo
usado por séculos que os acontecimentos
(para que não o ouvem nem consultam) lhe dizem
respeito? Se o livro do general é um grande êxito,
quem há-de convencer esse povo de que lhe diz
respeito uma questão de salvar-se o que está
para ver como é que fica? O povo, como pode,
sobrevive, entre futebol e emigração. O resto
lê com esperança, com raiva, ou com desânimo,
o livro do general que, silencioso, não comenta
dos jovens centuriões que se precipitaram. 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

OS IDOS DE MAIO DE 1975


 21 de Maio de 1975

O CASO REPÚBLICA continua a inflamar o ambiente político do País.
Segundo o Jornal Novo, Mário Soares e Salgado Zenha foram ontem a Belém dizer ao Presidente Costa Gomes que os titulares do PS não comparecerão no Conselho de Ministros enquanto não estiver solucionado o caso.
Convocada para amanhã uma conferência de imprensa e uma maifestção de protesto para o Rossio.
Citado pelo Jornal Novo, Álvaro Cunhal disse que os comunistas não querem controlar os jornais de outros partidos, do mesmo modo que não comemos criancinhas nem damos injecções detrás da orelha.
Num comunicado, o MDP/CDE afirma que o PS está a desenvolver uma perigosa campanha procurando perturbar a opinião pública e agravar o clima político do país.

Trecho do Apontamento, Uma Nova Provocação, de José Saramago, publicado no Diário de Notícias:



UM RELATÓRIO da Comissão Política do Conselho da Revolução, revela que a delegação do Partido Socialista, sendo a última a entrar no Estádio 1º de Maio, realizando um mini-comício, provocou os incidentes de que se disseram vítimas.


NO BRASIL, António Spínola declarou a amigos que esteve activamente envolvido nos acontecimentos de 11 de Março e mostra-se disposto a continuar a lutar para libertar Portugal.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Os Apontamentos de José Saramago.

terça-feira, 21 de abril de 2015

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


21 de Abril de 1975

O DIÁRIO DE LISBOA, publica um suplemento com o Relatório Preliminar sobre o golpe de 11 de Março.
Preliminar ficou, porque nenhum outro voltou a ser elaborado.
Como, pura e simplesmente, nada se tivesse passado.
No documento é dado especial relevo ao envolvimento de Spínola no golpe.

O DECRETO-LEI nº 212/5 cria o cargo de Provedor de Justiça

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sábado, 21 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


21 de Março de 1975

O ALMIRANTE Vítor Crespo, alto-comissário em Moçambique, vem expressamente a Lisboa para dar conta do seu desagrado por a composição do Conselho de Revolução integrar maioritariamente 0ficiais «gonçalvistas».
Numa reunião tensa é rectificada a composição do Conselho que passa a incluir Vítor Crespo, Melo Antunes, Vítor Alves e, por uma questão de equilíbrio, o «gonçalvista» Costa Martins.

FORAM expulsos das Forças Armadas os implicados no golpe do 11 de Março, entre os quais o general António Spínola, major Sanches Osório w o capitão-tenente Alpoim Calvão.

O DECRETO-LEI nº 147-C/75 atribui ao Conselho de Revolução o poder de passar à reserva militares que não ofereçam garantia de fidelidade ao MFA, bem como de graduar ou promover.

COMÍCIO do Partido Socialista no Campo Pequeno.
Não vamos fazer sair a NATO pelo Minho para deixarmos entrar o Pacto de Varsóvia pelo Algarve.
Do discurso do operário Alfredo Carvalho, candidato a deputado do Partido Socialista.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira


Legenda: imagem do Centro de Documentação 25 de Abril.

segunda-feira, 16 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


16 de Março de 1975

Neste dia ficava a saber-se que, após algumas hesitações, o governo brasileiro dava asilo político ao ex-general Spínola.

No avião da Ibéria que, mais os 18 oficiais que desde o golpe o acompanham, o transportou para São Paulo, em jeito de manifesto, justificaram-se aos jornalistas que se revoltaram para restabelecer a promessa de democracia da Revolução do 25 de Abril. O nosso povo tem estado a sofrer as mais abertas violações e a autoridade desapareceu nas ruas. A anarquia alastra pelo País. Foi para cumprir a nossa promessa, para garantir a liberdade, para salvaguarda as eleições de 12 de Abril, para aniquilar as forças antiportuguesas da desordem, que pegámos em armas. A perseguição política e religiosa é conduzida na sombra por agentes de partidos e internacionalistas, que se tornam cada dia mais fortes. A escalada da violência atingiu um ponto que nunca imaginámos. Um governo complacente, a actuar em conjunto com as forças de subversão, assiste à ruína material e moral da Nação… lançando Portugal no descrédito do mundo livre. As Forças Armadas não intervieram em 25 de Abril para mudar de ditadura. Foi para instalar a democracia, para restituir ao nosso povo a liberdade contra os fascismos da esquerda ou da direita, os que se vestem de negro ou de vermelho… Não podemos consentir no martírio de Portugal e na ruína da Pátria.

À chegada a São Paulo, Spínola apressou-se a desmentir que tivesse afirmado não  desejar voltar algum dia a Portugal, ao mesmo tempo que declarava que se dedicaria a «actividades intelectuais», com o propósito de escrever um livro: «Reflexões sobre os Dilemas do Mundo Contemporâneo».

Mas o antigo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, afirmava, ao Jornal da Tarde, que o ex-general «está decidido a continuar a luta».

Em 1973, Amílcar Cabral retratava Spínola:


Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

domingo, 15 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


15 de Março 1975

Sábado é dia de Expresso.

O semanário ocupa-se, largamente, dos acontecimentos do 11 de Março.

Este é um pormenor da habitual coluna de comentário político de Marcelo Revelo de Sousa. Um requiem pelo spinolismo.

A determinado passo, pode ler-se:

O 11 de Março foi a oportunidade primeira de se suscitar o confronto destas duas linhas de pensamento e de acção. É ainda cedo para se compreender em toda a sua complexidade o que efectivamente sucedeu a 11 de Março. O inquérito oficial – assegurou o Chefe de Estado – corre ainda os seus trâmites, a ritmo acelerado. Segundo Costa Gomes, ele poderá mesmo a vir a clarificar os acontecimentos de 28 de Setembro que permaneciam, seis meses depois, envoltos em relativo segredo de estado.
Entretanto, algumas perguntas se fazem quanto aos factos os observadores políticos.
1ª Spínola terá liderado desde o início do golpe conforme é genericamente dito, ou teria assumido a liderança momentânea sob o peso de uma versão errada do que ocorria? – conforme disse Salgueiro Maia ao “Século”?
2ª Porquê a incipiente estrutura de um golpe que segundo meios oficiosos, estaria sendo preparado há já algum tempo?
3ª Porquê a aparente ausência de elementos golpistas operacionais de ligação às diversas unidades, e pelo contrário a sua concentração em Tancos de onde fugiram para Espanha?
Estas e outras questões serão certamente respondidas de forma cabal pelo relatório que está em preparação sobre a tentativa aventureirista da direita.

Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, em Os Loucos Dias do Prec, realçam um artigo do Jornal de Notícias com o título: Nacionalizar os bancos não é nacionalizar os depósitos, que ia ao encontro das preocupações dos portugueses sobre o que acontecia ao dinheiro que tinham depositado nos bancos.

E aproveitam para lembrar a seguinte história, ocorrida tempos antes do 25 de Abril:

António Champalimaud adquirira o Banco Pinto e Sottomayor. Ficou acordado que no acto da escritura pagaria 10 por cento do valor e passados seis meses os restantes 90 por cento. Champalimaud pagou os 10 por cento com um cheque dum banco que já detinha. E 180 dias depois pagou o restante com um cheque do banco que havia comprado. Em conclusão: não dispôs nem de um centavo do seu dinheiro e comprou a possibilidade de receber ao fim doa ano milhares de contos de lucro.

Conclusão do Jornal de Notícias:

Com este sistema ganhavam meia dúzia de capitalistas e perdia o povo.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

sexta-feira, 13 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


13 de Março de 1975

A INSTITUCIONALIZAÇÃO  imediata do MFA, através do Conselho Superior da Revolução e da Assembleia do MFA; a decisão de que o acto eleitoral decorra nos prazos previstos; a confirmação de que há civis ligados ao alto capital presos por estarem implicados na intentona do 11 de Março; e o reconhecimento da importância da aliançado Povo com as Forças Armadas, através da vigilância popular e da eficácia da actuação das Forças Armadas, foram os factos mais importantes referidos no decorrer de uma conferência de Imprensa dada ontem pelo ministro da Comunicação Social, comandante Correia Jesuíno que se encontrava acompanhado do capitão Duran Clemente da 5ª Divisão do EMGFA e do comandante Montês, director-geral de Informação.
O 11 de Março – adiantou o ministro - não foi um golpe militar representativo de divisões profundas no seio da Forças Armadas. Foi um golpe desencadeado por um grupo minoritário, altaamente reacionário, constituído por pessoas com um currículo já estabelecido. Inclusivamente, algumas dessas pessoas já tinham sido saneadas das Forças Armadas.
Referido, também, que se encontram detidos 25 militares, além da detenção de civis ligados ao grande capital, que subsidiaram partidos políticos e deram fugas a capitais da ordem de milhões de contos.
Quanto à participação nas eleições, dos partidos CDS e PDC, foi afirmado que a decisão caberá ao Conselho Superior da Revolução.



NUM COMUNICADO  do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Espanha, provocado por notícias de Lisboa, que tentariam envolver o governo espanhol nos acontecimentos em Portugal, é reafirmado que o governo espanhol reafirma a sua adesão total ao princípio de não-intervenção nos assuntos internos de outro estado e que observa «rigorosamente» nas suas relações com Portugal.

SPÍNOLA  terá declarado a vários oficiais espanhóis  que «tenciona não voltar nunca mais a Portugal» e que espera encontrar asilo fora de Espanha, provavelmente no Brasil.

NUM COMUNICADO da Comissão Política do Comité Central do Partido Comunista Português lê-se que não é de crer que a conspiração abrangesse apenas os responsáveis já conhecidos. Alguma coisa falhou no plano e isso significa que houve conjurados que, por qualquer razão, não entraram em acção.

O JORNAL DE NOTÍCIAS e A Capital referem a morte de um civil às portas do RAL 1, na tarde do ataque. O civil, acompanhado de uma mulher, foi abatido pelos soldados depois de terem sido disparados tiros do carro onde fugia, depois de provocações aos soldados e populares que se encontravam junto ao quartel.

OS TRABALHADORES da Rádio Renascença consideram «irreversivelmente» anulados os despedimentos ordenados, em Setembro passado, pelo conselho de gerência da estação.
Numa carta enviada ao Presidente da República, em nome da Conferência Episcopal, D. António Ribeiro, patriarca de Lisboa, reclama o «normal funcionamento da emissora católica em condições de Liberdade».


NO SEU EDITORIAL o jornal londrino The Guardian escreve: «A não ser que os próximos dias tragam novas informações sobre o estado das coisas em Portugal, a rebelião de ontem por parte de para-quedistas e unidades da Força Aérea continuará a parecer, como parece agora, um acto de desespero político desnecessário e auto-destruidor.»

NO SEU EDITORIAL, o jornal parisiense Fígaro, destaca: «Duas interpretações dos acontecimentos são possíveis: ou a direita portuguesa é a mais idiota do Mundo, ou os «duros» do regime se comportaram com surpreendente maquiavelismo para eliminarem definitivamente os seus adversários da cena política.»

CÉSAR OLIVEIRA no seu livro Os Dias Decisivos:

O 11 de Março foi, penso eu, a tentativa bem sucedida para levar o general Spínola e os seus apoiantes para uma sublevação militar mal preparada, mal dirigida e com poucos apoios, de modo a evitar que a mesma ocorresse numa fase mais adiantada e segura de preparação.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
- Os Dias Decisivos – César Oliveira

Legenda:
- cartaz da autoria de João Abel Manta

- Títulos de O Século de 13 de Março de 1975

OLHAR AS CAPAS


Portugal Depois de Abril

Avelino Torres/Cesário Borga/Mário Cardoso
Capa: António Martins
Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976

O golpe contra-revolucionário de 11 de Março é a tentativa desesperada de ressuscitar o projecto socialista, que, pela sua aliança às forças capitalistas externas e pelo seu anticomunismo larvar, concitava à volta da personalidade de Spínola os interesses do capital nacional, da casta militarista e também dos sectores fascistas colaborantes com Marcelo (civis e militares), todos alarmados com o avanço do movimento e a paralela pulverização dos suportes fundamentais do seu projecto político.
Tentativa de colocar uma vez mais à frente do País, o ex-general Spínola, mas agora sem o «colete de forças» representado pelo MFA e podendo assumir também o papel de novo «salvador da Pátria», o 11 de Março não começou na véspera nem sequer quando o plano começou a ser arquitectado nos começos de 1975. Nasceu precisamente no momento em que Marcelo caetano conseguiu colocar o poder, em 25 de Abril, nas mãos do antigo comandante-chefe da Guiné e seu homem de confiança.
A contra-revolução iniciara a marcha pela mão do cavaleiro do monóculo.

quarta-feira, 11 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


11 de Março de 1975

A História baliza o começo do PREC Período Revolucionário em Curso com os acontecimentos de 11 de Março de 1975.

O Regimento de Artilharia 1, sediado na Encarnação, é atacado por aviões da Base Aérea nº 3 e cercado por tropas do Regimento de Pára-quedistas.

O quartel é cercado e o Aeroporto da Portela é encerrado.

Com alguma ponta de humor, o centrista Francisco Lucas Pires definiu o 11 de Março como o dia em que uns aviões dispararam uns tiros sobre um quartel em Lisboa, e no dia seguinte a banca estava nacionalizada.

Os primeiros atacantes levantaram voo de Tancos às 10,45. Horas: oito helicópteros de transporte, três helicanhões, e dois «Harvard» com um total de 160 pára-quedistas dirigem-se para o RAL-1.

Por trás da tentativa de golpe de Estado está o General António Spínola, ex-presidente da República, acompanhado por uma corte de militares que estiveram na Guiné enquanto Spínola foi governador do território.

No dia 6 de Março, a revista francesa «Témoignage Chrétien» publicara uma notícia que revelava: «Spínola prepara um golpe de Estado em Portugal», afirmando que Spínola recebera luz verde do embaixador dos Estados Unidos, Frank Carlucci, para tentar subverter o processo revolucionário iniciado em Portugal.

O mal-amanhado golpe tinha por objectivos:

- atacar o RAL-1, neutralizando a unidade militar de primeira linha do MFA;

- a GNR revoltar-se-ia pondo-se ao lado dos conspiradores;

- tal como no 25 de Abril apoderar-se-iam de diversos postos de rádio e da televisão.


No próprio dia do golpe, Spínola via telefone, tenta convencer os comandos de diversas unidades a porem-se do seu lado, entre os quais Jaime Neves e Salgueiro Maia.

Jaime Neves diz que apenas recebe ordens do COPCON e Salgueiro Maia recusa-se a ir ao telefone para o atender.

Incompetência? Ingenuidade?

Uma reportagem televisiva regista o caricato diálogo entre o capitão pára-quedista Sebastião de Almeida e o major Dinis de Almeida, do RAL-1, com este a perguntar se o capitão sabia o que estava a fazer.

- Tenho ordem dos meus superiores para ocupar a Unidade.

- Mas porquê? eu tenho ordens dos meus superiores para defender a Unidade

Martins tira um papel do bolso e mostra-o a Dinis de Almeida que passa uma vista de olhos pelo papel.

- Então e vocês atacam uma Unidade por causa de um papel?

- Não é por causa de um papel. Há altas individualidades descontentes com a forma como as coisas têm corrido. É em nome delas que desencadeámos estas acções, para garantir que as eleições de 12 de Abril se realizarão.

Entretanto, populares vão-se juntando em redor dos dois militares e começam a gritar: o povo não está com vocês!

Entretanto, a 5ª Divisão do Estado Maior General das Forças Armadas começa a informar a população:

Música: Indicativo do MFA

Aqui estúdios da 5ª Divisão. Enquanto não se esclarece definitivamente a situação operacional, pedimos ao Povo Português e em especial à população de Lisboa que se mantenha calma e vigilante em união com o MFA e seus órgãos representativos. Contamos fornecer, o mais rapidamente possível elementos concretos e esclarecedores.

Cerca das 15,15 horas, Otelo Saraiva Carvalho, através da rádio disse aos jornalistas:


De como Almeida Faria, Natália Correia, Vergílio Ferreira, viram os acontecimentos deste dia:

Almeida Faria (Ver Olhar as Capas).

Natália Correia:

Começou por ser uma vassourada de sons que revolviam o céu da cidade. Prelúdio aziago do turbilhão de notícias que choveram durante todo o dia. Caças a hélice e helicópteros provindos de Tancos atacam o RAL1 na Encarnação, unidade especialmente afecta à faixa esquerdista do MFA, e o Quartel do Carmo é cenário de uma sublevação.
Mas já a meio da tarde a manobra contra-revolucionária, como a designa a Rádio por entre os conhecidos apelos à vigilância popular, é dominada pelo MFA. O comandante dos para-quedistas atacantes é preso com outros oficiais implicados no risível golpe e Spínola foge de helicóptero para Espanha, onde aterra numa base perto de Badajoz, acompanhado de 18 oficiais que noutros helicópteros o seguem nesta fuga espectacular.
Sim, uma sedição grotescamente consonante com este conglomerado de velhos ridículos nacionais que vão dando à costa da revolução. Isto no caso de se tratar efectivamente de um golpe estruturado com o intuito criminosos de levar a população a uma luta fraticida.

Vergílio Ferreira:

Cerca do meio-dia, houve um novo simulacro-revolução: um avião com duas bombas nas asas lançou uma no Regimento de Artilharia Ligeira nº 1. Ripostou-se. Seis helicópteros desembarcam para-quedistas. Um moço disse-me ter falado com um deles. «tinham-nos dito que havia aqui reaccionários». Comédia para quem? O 28 de Setembro ainda parecia. Mas isto? A menos que seja um ensaio como o movimento das Caldas de há um ano. Mas agora ao contrário (quase).

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
- Não Percas a Rosa, Natália Correia, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1978;
- Conta-Corrente, 1º Volume, Vergílio Ferreira.

domingo, 28 de setembro de 2014

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974

16 a 30 de Setembro

HÁ HISTORIADORES que designam o Setembro de 1974 como tendo sido um Setembro Negro.
O 28 de Setembro foi uma tentativa pífia de conspiração da extrema-direita, apoiada por Spínola, tendo como pano de fundo uma manifestação daquilo que o general designou como «maioria silenciosa» e constitui um dos principais marcos do processo revolucionário.
Em Julho, Spínola já tinha dito: «As maiorias silenciosas têm de sair do seu comodismo ou do seu temor e de se pronunciarem abertamente».

O PARTIDO LIBERAL, no dia 13, redige um comunicado apelando para que as pessoas começassem «a organizar a sua vida para aderirem à Grande Manifestação, e apoiar firmemente Sua Excelência na execução do Programa do Movimento das Forças armadas entendido de boa fé, como via para a democracia personalista, pluralista e livre».


MARCADA a data da manifestação da «maioria silenciosa» para o dia 28.

DURANTE A MADRUGADA do dia 18 são afixados os cartazes.

ESTAVA PREVISTO O ALUGUER DE CAMIONETAS para transportar os manifestantes, aluguer sinalizado antecipadamente com dinheiro emprestado pelo Banco Espírito Santo.

NO DIA 20, num comício na Amadora, Álvaro Cunhal denuncia: «Se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhes antes que morda»!

NA TRADICIONAL CORRIDA DE TOUROS, na Praça do Campo Pequeno, de apoio à Liga dos Combatentes, é feito o ensaio geral da manifestação. Gratuitamente foram distribuídos bilhetes no valor de 300 contos. Spínola marca presença, acompanhado por Vasco Gonçalves, que é apupado enquanto Spínola é delirantemente aplaudido. A cada passe tauromáquico a populaça gritava: «Portugal! Ultramar Ultramar!». O cavaleiro João Zoio apareceria, no meio da arena, ostentando  o cartaz da manifestação da «maioria silenciosa», enquanto pela instalação sonora era feita uma convocatória para a manifestação.


NO DIA 27 o Governo Provisório manifesta a Spínola a sua discordância sobre a manifestação e este emite um comunicado agradecendo a intenção de apoio da «maioria silenciosa» mas declarando que neste momento a manifestação não seria conveniente

NA MADRUGADA do dia 28 populares montam barricadas em diversos pontos do país para evitar qualquer avanço de forças reacionárias. Organizaram piquetes, revistaram automóveis na procura de armas.

Cristóvão Aguiara escreve no seu Relação de Bordo: « … mas quem pode, em dias tão agitados como estes, ficar em casa?»

ANTÓNIO SPÍNOLA convoca o Conselho de Estado para o dia 30, renuncia ao mandato presidencial e os capitalistas portugueses vêem esfumar-se uma oportunidade de recuperar privilégios perdidos, transferem os seus capitais para o estrangeiro e, muitos, abandonam o país.
Costa Gomes é o novo Presidente da República.

ARTUR PORTELA Filho e o final de uma das suas Fundas:
O general Spínola mobilizou a maioria silenciosa.
O MFA mobilizou o País.
Foi um opção.
Que o general Spínola cometeu o erro de fazer.
Porque a maioria não é silenciosa.
Porque o MFA é o País.

Legenda: as imagens dos cartazes foram retiradas de Portugal Século XX de Joaquim Vieira, Bertrand Editora, Lisboa, Novembro de 2007.


Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1974


1 a 15 de Setembro

NUMA CONFERÊNCIA realizada em Djakarta, o dirigente do Partido Pró-indonésio afirmou que a 70% da população de Timor pretende a unificação política com a Indonésia.

NUMA VIAGEM que efectuou às Lajes, Mário Soares anunciou que é propósito de Portugal manter o acordo que permite aos americanos a utilização daquela base aérea, obtendo porém alguma contrapartida que beneficie especialmente os habitantes dos Açores.

NO ESTÁDIO Universitário, em Lisboa, reúnem-se pela primeira vez em público as Testemunhas de Jeová.

OS TRABALHADORES do Jornal do Comércio manifestam-se irredutíveis quanto ao saneamento de Carlos Machado, director do jornal.

OS SINDICATOS dos trabalhadores das Artes Gráficas, Jornalistas, Administrativos e Revisores de Imprensa e Vendedores de Jornais e Lotarias, em Assembleia Plenária realizada na Voz do Operário, decidiram uma greve de 24 horas (4 de Setembro),em solidariedade para com os trabalhadores do Jornal do Comércio.

ENTRADA no dia 5 de Setembro que Cristóvão Aguiar colocou no seu Diário «Relação de Bordo»  «A História diz-se, não se repete. Mas, se não queda mal o perguntar, não será possível, em Portugal, uma edição revista e remodelada do Chile? É que há por aí movimentos escudos, olhos espreitando do fundo dos seus poços de sombra velha, aguardando a hora do grande descuido, também muitos corvos crocitando e corujas piando nas torres de algumas igrejas…»

MILHARES DE PESSOAS, num comício realizado no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, presidido por Rui Luís Gomes, exigiram o fim da repressão no Chile.

A INTERSINDICAL, de acordo com o pedido da Central Única dos Trabalhadores do Chile (CUT) e de acordo com todas as organizações internacionais, decidiu que no dia 11, pelas 11 horas, hora a que foi assassinado o presidente Salvador Allende, uma paralisação de cinco de 5 minutos como forma de solidariedade e apoio à luta do povo chileno.

SEGUNDO O Expresso de 7 de Setembro, muitos padres estão a levantar obstáculos à campanha de alfabetização desenvolvida por um grupo de estudantes universitários.


APROVADA em Conselho de Ministros a nacionalização dos bancos de Portugal, de Angola e Ultramarino.

MÁRIO NEVES é nomeado o primeiro embaixador português em Moscovo.

EM LUSAKA as delegações de Portugal e da FRELIMO chegam a total acordo. Deste modo, Moçambique obterá a independência em meados de 1975.

É ANUNCIADO em Portugal um golpe reccionário em Moçambique em que extremistas brancos ocuparam o Rádio Clube de Moçambique e soltaram os Pides detidos na Machava. O MFA considera estes actos como crimes de alta traição aos superiores interesses de Portugal e de Moçambique, enquanto Vasco Gonçalves afirma que são «obra de uma minoria desesperada que não compreende o futuro.»

É ANUNCIADO oficialmente que os motins de Lourenço Marques originaram 100 mortos e 250 feridos, sendo negros a maior parte das vítimas.

NO ACTO OFICIAL de reconhecimento solene por Portugal da República da Guiné-Bissau (10 de Setembro), o Presidente da República António Spínola, na sua  comunicação ao país disse: «A maioria silenciosa do povo português terá pois de despertar e de se defender activamente dos totalitarismos extremistas que se degladiam na sombra servindo-se das técnicas bem conhecidas de manipulação de massas para conduzir e condicionar a emotividade e o comportamento do povo perplexo e confuso por meio século de obscurantismo político.»

JOVENS PARTIDÁRIOS DO MPP-Movimento Popular Português, foram detidos a colar cartazes no Terreiro do Paço em Lisboa:


 SEGUNDO UM grupo de democratas espanhóis, os Pides estão a ser bem recebidos pelas autoridades espanholas.

MÁRIO SOARES encontrou-se em Paris com o presidente Leopold Senghor e informou que Portugal tenciona debater a independência de Angola com o MPLA, a FNLA e a UNITA.
PÁGINA 61 de Portugal Depois de Abril: «O recurso ao financiamento estrangeiro não foi possível: o boicote económico do capitalismo internacional era já um facto, apesar das promessas demagógicas dos governos sociais-democratas e da OCDE e CEE, que não se concretizaram.
O boicote do grande capital mundial intensificou-se logo que Palma Carlos foi substituído por Vasco Gonçalves.»

Legenda:
1)      O Século, 7 de Setembro de 1974
2)      Diário de Lisboa, 14 de Setembro de 1974
3)      Expresso, 7 de Setembro de 1974

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

OS IDOS DE JULHO DE 1974

  
22 a 31 de Julho

FACE aos últimos acontecimentos ocorridos em Angola com a população branca é criada uma Junta Militar à qual preside o vice-almirante Rosa Coutinho membro da Junta de Salvação Nacional.

FOI ENTREGUE ao Conselho de Estado pelo advogado Dr. Afonso de Carvalho um requerimento para que o referido órgão se pronuncie sobre a inconstitucionalidade do artigo 26 da Concordata celebrada entre o Estado Português e a Santa Sé em 1940 e do artigo 1790 do Código Civil em vigor que vedam aos cidadãos que contraíram casamento canónico depois de 1 de Agosto de 1940 o direito de obterem o divórcio através dos tribunais.

NA SUA PRIMEIRA conferência de Imprensa o CDS, através do Prof. Freitas do Amaral, apresenta-se ao povo português afirmando que deseja uma distribuição melhor do rendimento do povo português.

EM MATOSINHOS termina a greve da pesca da sardinha.



REALIZA-SE no Estádio 1º de Maio uma grandiosa manifestação de apoio ao MFA e ao Governo Provisório na qual tomam parte os Partidos Comunista, Socialista e Popular Democrático.

HELENA NEVES publica no República do dia 24 um trabalho sobre os informadores da PIDE/DGS. Por ano eram gastos mais de nove mil contos com a rede de informadores. Vendiam tudo: a família, os amigos, os vizinhos, os companheiros de trabalho, a escola, o sindicato. Alimentavam a repressão e alimentavam-se dela.. Até simples casamentos eram objecto da vigilância dos informadores da PIDE. Uma denúncia valia ente 250 e 750 escudos.

A POLÍCIA JUDICIÁRIA Militar levou a tribunal um processo-crime em que é arguido o agente da ex-PIDE/DGS António Domingues acusado do assassínio do pintor e militante comunista na clandestinidade, José Dias Coelho.

ÀS 12,00 HORAS DE 27 de Julho o Presidente a República General António de Spínola anunciou perante o País que, sobre reconhecer o direito dos povos das colónias a assumirem o seu próprio destino, podendo encaminhar-se sem qualquer ambiguidade para a independência política, Portugal está pronto a iniciar o respectivo processo de transmissão de poderes.


Do discurso de António Spínola:




Legenda: Título da 1ª página do Diário de Lisboa de 27 de Julho de 1974.
Mário Soares, Magalhães Mota, Álvaro Cunhal no comício no Estádio 1º de Maio.
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Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

OS IDOS DE JULHO DE 1974


15 a 21 de Julho

VERGÍLIO Ferreira no seu Conta-Corrente sobre a demissão de Adelino Palma Carlos:
O desarrói político. Palma Carlos demitiu-se. Juntaram-se-lhe os ministros PPD. Boatos de um novo ministério presidido por um militar do MFA e uma representação militar em várias pastas. Se assim for, saber-se-á enfim o que é politicamente o MFA.

NO DIA tomou passe o II governo Provisório sendo Primeiro-Ministro o Coronel Vasco Gonçalves.
No discurso de tomada de posse, a hipocrisia de António Spínola: «Limitar-me-ei portanto a destacar a reconhecida estatura moral e intelectual do coronel Vasco Gonçalves e o facto de ser o cérebro da Comissão Coordenadora do Movimento das Forças Armadas e, como tal, o primeiro responsável pelo sei ideário.»
Do discurso de Vasco Gonçalves: «Sem trabalho árduo de todos os portugueses, sem um esforço gigantesco a todos os níveis (Estado, empresários e calasses trabalhadoras), no projecto de reconstrução e modernização nacionais, que deve ser o lema instalado na cabeça de todos nós, jamais será levado a cabo o desenvolvimento do País. Simultaneamente, todos teremos de viver, durante este período, em atmosfera de austeridade, gastando menos no supérfluo e poupando quanto possível para aplicação no esforço global de investimento, que a todos, mas a todos, diz respeito.
Composição ministerial do novo governo:
Ministros Sem Pasta – Majores Vitor Alves e Melo Antunes e drs. Álvaro Cunhal e Magalhães Mota.
Ministro da Defesa – Tenente-Coronel Mário Miguel
Ministro da Coordenação Interterritorial: - Dr. António Santos
Ministro da Administração Interna - Tenente-Coronel Costa Brás
Ministro da Justiça - Dr. Salgado Zenha
Ministro da Economia - Dr. Rui Vilar
Ministro das Finanças - Dr. Silva Lopes
Ministro dos Negócios Estrangeiros – Dr. Mário Soares
Ministro do equipamento Social e Ambiente – Coronel José Augusto Fernandes
Ministro da Educação e Cultura – Prof. Vitorino Magalhães Godinho
Ministro do Trabalho – Capitão Cosa Martins
Ministro dos Assuntos Sociais – Engª Maria de Lurdes Pintasilgo
Ministro da Comunicação Social – Major Sanches Osório

O NÚNCIO APOSTÓLICO recusou-se a receber a Comissão Pró-Divórcio.

COMO NOVO PARTIDO político é constituído o CDS – Centro Democrático Social: «Somos uma organização aberta a todos os democratas do centro – quer do centro esquerda quer do centro direita – que, sinceramente identificados com o 25 de Abril, aceitem o humanismo personalista como filosofia de acção. Representamos todos os portugueses que defendem uma nova concepção da iniciativa privada, com base no aprofundamento da solidariedade nacional e da fraternidade social.
Nos seus fundadores encontram-se Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Basílio Horta.

Legenda: tomada de posse do II Governo Provisório

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.