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sábado, 14 de março de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Algures, Van Gogh, deixou escrito:

“Não tenho a certeza de nada, mas a visão das estrelas faz-me sonhar.” 

Dentro da minha ignorância sobre tanta coisa, pintura incluída, Van Gogh é o meu pintor.

Lembro-me, desde miúdo, ver, na biblioteca do meu pai, um livro da correspondência trocada entre Van Gogh e o irmão Theo.

O livro não tinha imagens, era uma edição inglesa, e nunca saberei como esse livro me chamou a atenção e esse olhar me acompanhou pela vida, ao ponto de ainda hoje lhe saber as cores da capa. Procurei na internet as edições das cartas de Van Gogh, são muitas, mas nenhuma é o que via em casa do meu pai.

Ainda faltavam alguns anos para saber quem era Van Gogh e conhecer os quadros, e mais anos faltavam para ouvir Vincent, uma lindíssima canção que Don McLean escreveu, como homenagem ao pintor, depois de ter lido um livro sobre a atribulada vida do pintor.

Noite estrelada

Pinta os teus quadros de azul e cinza

Olha os dias de Verão

Com olhos que sabem da escuridão da minha alma.

A 20 de Maio de 1890, Vincent Van Gogh desceu de um comboio em Anvers-sur-Oise, aldeia um pouco a norte de Paris. Alugou um quarto no albergue mais barato e pôs-se a trabalhar febrilmente. Em 70 dias pintou 72 quadros. A 27 de Julho, um domingo, foi pelos campos em redor e deu um tiro no peito. Voltou ao albergue sem avisar ninguém. O proprietário encontra-o moribundo. No dia seguinte chega o irmão.

Não obstante os cuidados do Dr. Gauchet e seu irmão, Van Gogh morrerá nessa noite. As suas últimas palavras terão sido: “A tristeza durará sempre.”

Tinha 37 anos.

Meia dúzia de pessoas estiveram no funeral.

Quantos quadros, em vida, Van Gogh, conseguiu vender?

Hoje são disputados e valem milhões.

«Há girassóis entre as flores amarelas lançadas sobre a sua campa.»

Nas últimas cartas que, de Auvers-sur-Oise, escreveu ao irmão, há uma constante que marca quase todos os começos: preciso de algum dinheiro:

Se lá para o fim-de-semana me pudesses enviar dinheiro… pois o que tenho chegará até então, mas não por muito mais tempo. (21.05.1890).

Obrigado pela tua carta, que recebi esta manhã, e pelos 50 francos que a acompanhavam (25.05.1890).

Muito obrigado pela tua carta de anteontem e pela nota de 50 francos que ela continha. (17.06.1890)

Esta manhã chegou a tua carta, a qual te agradeço assim como a nota de 50 francos que ela continha. (30.06.1890).

Muito obrigado pela tua carta de anteontem e pela nota de 50 francos que ela continha. (17.06.1890)

Obrigado pelo envio das cores, da nota de 50 francos e do artigo sobre os Independentes.

Desta vez o meu dinheiro não me durará muito tempo, pois no meu regresso tive de pagar as despesas das bagagens de Arles (10.07.1890)

Obrigado pela tua carta de hoje e pela nota de 50 francos que ela continha. (24.07.1890)

É esta a última carta de Van Gogh a Theo.

sexta-feira, 13 de março de 2026

RETRATOS


«Penso que não se poderá de forma alguma contar com o Dr. Gachet.

Para começar está mais doente do que eu, ao que me pareceu, ou então estaremos muito iguais.

Ora, quando um cego conduz outro cego, não será que ambos cairão no fosso?

Hoje voltei a ver o Dr. Gachet e vou pintar na sua casa na terça-feira de manhã, depois jantarei com ele e, então ele virá ver a minha pintura. Ele parece-me ser bastante sensato. Mas está também muito desmotivado no seu ofício de médico rural, tanto quanto eu na minha pintura.

Então, disse-lhe que de bom grado trocaria ofício por ofício.

Enfim, quero crer que acabarei por ser seu amigo.»

Van Gogh em Últimas Cartas

 

OLHAR AS CAPAS


Últimas Cartas

Van Gogh

Tradução: António Santos

Editora Ausência, Vila Nova de Gaia, Outubro de 2002

Aliás, é certo que, desde que deixei de beber, tenho feito um melhor trabalho, e só fico a ganhar com isso.

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

ÚLTIMA CARTA DE VAN GOGH A THÉO

nunca me preocupei em reproduzir exactamente
aquilo que vejo e observo
a cor serve para me exprimir théo: amarelo
terra azul corvo lilás sol branco pomar vermelho
arles
sulfurosas cores cintilando sob o mistério
das estrelas na profunda noite afundadas onde
me alimento de café absinto tabaco visões e
um pedaço de pão théo
que o padeiro teve a bondade de fiar

o mistral sopra mesmo quando não sopra
os pomares estão em flor
o mistral torna-se róseo nas copas das ameixeiras
arde continuou a arder quando tentei matar aquele
que viu a minha paleta tornar-se límpida
mas acabei por desferir um golpe a mim mesmo
théo
cortei-me uma orelha e o mistral sopra agora
só de um lado do meu corpo os pomares estão em flor
e arles théo continua a arder sob a orelha cortada

por fim théo
em auvers voltei a cara para o sol
apontando o revólver ao peito senti o corpo
como um torrão de lama em fogo regressar ao início
num movimento de incendiado girassol

Al Berto de A Secreta Vida das Imagens em O Medo


quarta-feira, 23 de agosto de 2023

AS FÉRIAS VISTAS POR AGUSTINA


As férias, os livros para férias, vistos por Agustina Bessa-Luís no seu Caderno de Significados: 

1.

Desde os dez e os quinze anos, nós imitamos a despreocupação, mas não a vivemos nunca mais. As férias dos adultos são a consagração das suas neuroses. Sendo assim, escolhemos para as um livro que não lemos, traçamos um plano que nos fatiga, compramos coisas que não nos interessam, achamos admiráveis as paisagens que mais dispensamos. E por fim aborrecemos os outros dizendo-lhes como nos divertimos; porque a alegria não se transacciona, e toda a gente sabe isso. Está dito que eu não gosto de férias.

2.

Um livro para férias não deve ser escolhido. O que se escolhe serve à personalidade, e as férias são o pretexto para sermos impessoais, fazer o que muitos fazem, ir para onde muitos vão. Pegue num livro que não pese mais de 200 gramas e leve-o consigo. Leia três páginas, esqueça-o na gare ou no banco das termas, na praia ou no restaurante, e aí, sobretudo, aí tenha a certeza que é o bom livro para férias; se você não tiver pena de o ter perdido.

sexta-feira, 14 de abril de 2023

A VISÃO DAS ESTRELAS


 Algures, Van Gogh, deixou escrito:

“Não tenho a certeza de nada, mas a visão das estrelas faz-me sonhar.” 

terça-feira, 11 de abril de 2023

CONVERSANDO


As pessoas vivem mal entre si, agarrados sistematicamente a um telemóvel, vivem muito pior.

Chegámos ao ponto de nos transportes públicos, por exemplo, termos de ouvir conversas que se cruzam entre telemóveis, algumas de arrasar.

Não foi o caso da que fui ouvindo, hoje, no metro entre São Sebastião e a Alameda, uma moça, sentada a meu lado, dizia a alguém que passou a admirar a pntura de Van Gogh depois de, pela primeira vez, ter ouvido a canção «Vincent» do Don McLean.

Sim, uma lindíssima canção, e faria todo o sentido lembrar à moça que na canção se diz que «eles não ouviram, continuam a não ouvir e talvez nunca ouçam» com ligeiro aviso de que seria bom que as pessoas conseguissem abandonar a constância dos telemóveis e conversassem mais entre si.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

POSTAIS SEM SELO


 A senhora francesa plantou uma cerejeira. Vive na esperança de que um dia a árvores dê os seus frutos. Ela diz que as cerejas são uma criação perfeita da natureza.

Claudio Hochman em Ilhas

Legenda: pintura de Van Gogh

segunda-feira, 11 de maio de 2020

LUZ


Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu).
E talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz, pelo lado de fora.


Manuel António Pina em Os Livros

Legenda: pintura de Van Gogh

sexta-feira, 11 de maio de 2018

SOBRE OS POETAS


1

Há poetas que constroem o mundo nos cafés,
outros que o fazem no claro-escuro
entre as prisões e os intervalos.

Há poetas que aguardam cartas de apresentação
nem eles sabem para onde:
para a vida que falhou?, para a manteiga
que lhes foi negada?

Mas todos têm um sonho, todos
se esforçam por valer o pão que amassam
— lançam seu delicado peso na balança.

Eles sabem, esses poetas,
que nada é eterno e imutável.

2

Tal a «Cadeia de Santo Onofre:
Copie o texto: envie a cinco amigos...»
há poetas que se multiplicam, fendem
a vaga limite, impedem o suicídio,
explicam a vida, argamassam
dedicação e raiva.

Girassóis, rodam sobre si mesmos,
indicam o ponto onde a luz se abre.

3

Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
uma canção à cidade, martela
os que dormem alheios, move-se
silenciosamente ao jeito das estátuas.

Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
rosto impreciso solidificando breve;
tênue tinta azul no papel claro ...

Os poetas têm
como os peles-vermelhas do cinema
o seu fumo e os seus cobertores.

4

Há poetas que renegam cartas
de apresentação para o arrivismo;
recusam a mão ao salário da trampa;
não enfeixam o nome e a desonra
nos telegramas do medo.

Enquanto bebem o café um histrião noturno
arenga; executa o seu número; recebe
por nova pirueta uma ajuda de custo.

Egito Gonçalves em Os Arquivos do Silêncio

Legenda: pintura de Van Gogh

segunda-feira, 12 de março de 2018

DIGAM!


Digam !
Lá porque estão acesas as estrelas,
será porque elas são necessárias a alguém?
Será porque alguém há a desejar que existam?
Será porque alguém chama a esses escarros, pérolas?
E, vencendo
a poeirenta borrasca do meio-dia,
alguém corre p'ra Deus,
temendo chegar tarde,
chora,
beija-lhe a mão nodosa,
implora -
que lhe falta uma estrela! -
jura
que, sem estrelas, não pode suportar este martírio.
E depois,
lá vai com a sua angústia,
mostrando paz na cara.
Perguntando a qualquer:
"Agora, estás melhor, não é assim?
Já não tens medo?
Não?"
Digam !
Lá porque estão acesas
as estrelas -
será porque elas são necessárias a alguém?
será porque é - indispensável,
que cada noite
por cima dos telhados
uma só estrela, ao menos, se ponha a reluzir?

Maiakowski em Autobiografia e Poemas

Legenda: pintura de Van Gogh

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O SOM DO SILÊNCIO


Devagar, como se tivesse todo o tempo do dia,
descasco a laranja que o sol me pôs pela frente. É
o tempo do silêncio, digo, e ouço as palavras
que saem de dentro dele, e me dizem que
o poema é feito de muitos silêncios,
colados como os gomos da laranja que
descasco. E quando levanto o fruto à altura
dos olhos, e o ponho contra o céu, ouço
os versos soltos de todos os silêncios
entrarem no poema, como se os versos
fossem como os gomos que tirei de dentro
da laranja, deixando-a pronta para o poema
que nasce quando o silêncio sai de dentro dela.

Nuno Júdice em Resumo: a poesia em 2010

Legenda: pintura de Van Gogh

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

QUOTIDIANOS


O Janeiro já lá vai.
Começamos, agora, o Fevereiro.
Mas já estamos à espera da Primavera.
E mais importante que a Primavera, é estarmos à espera que chegue.

Legenda: pintura de Van Gogh

sábado, 10 de junho de 2017

CÁLIDA E CHEIROSA A NOITE


Naquela longa varanda suspensa no espaço, pista de corridas, parque infantil, observatório do mundo, passei horas inesquecíveis. Recordo particularmente as noites de verão, cálidas, cheirosas das flores da vizinhança, na meia obscuridade. Apagava-se a luz da casa de jantar, para poupar o gás e porque nem sequer se justificava o seu consumo. A mãe trazia uma cadeira para a varanda e sentava-se, permanecendo com os olhos fechados e o seu sorrido de todas as horas. O pai ficava cá dentro a ressonar na sua cadeira de braços. A avó estava na cozinha a lavar a loiça, e as irmãs andavam por cá e por lá.
Cálida e cheirosa, a noite. O céu azul-escuro, repleto de estrelas cintilantes. Espectáculo maravilhoso de um firmamento que a civilização aniquilou. Não é saudosismo, Juro! Já não se vêem estrelas, à noite, no céu de lisboa, nem nos céus dos grandes aglomerados populacionais. Os gases de combustão da gasolina dos automóveis, dos óleos dos camiões, do combustível dos aviões, a incessante fumarada das chaminés das fábricas, cobriram a cidade de um capacete denso que não se deixa atravessar pela fraca luz das estrelas. É um facto observado; não é saudosismo, repito. As novas gerações não sabem o que é um céu estrelado, a não ser que o tenham visto em regiões menos poluídas, talvez no campo ou na praia. Mas o campo não interessa aos jovens e a praia, à noite não é para fitar o céu mas para morder a terra.
Perdeu-se o sentido do que é o firmamento estrelado profusamente, e que constitui um dos espectáculos mais belos da natureza. Fitavam-se os olhos nas estrelas e encantavam-se com a sua nervosa cintilação, reparava-se na mudança de posições que as estrelas iam ocupando no céu, identificavam-se as constelações, as Ursas, o Orion, a Cassiopeia, e localizava-se a Estrela Polar. E tudo isto na noite cálida, cheirosa, com a mãe de olhos fechados na cadeira e o pai a ressonar lá dentro.

Rómulo de Carvalho em Memórias

sábado, 22 de abril de 2017

DÉCIMO OITAVO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Proibia
a paz entre os amantes.

Dizia: agora agarrem-se
depois esperem o tédio
e no inferno separem-se.
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus

Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

Legenda: pintura de Van Gogh

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

FÉRIAS


Desde os dez e os quinze anos, nós imitamos a despreocupação, mas não a vivemos nunca mais. As férias dos adultos são a consagração das suas neuroses. Sendo assim, escolhemos para as um livro que não lemos, traçamos um plano que nos fatiga, compramos coisas que não nos interessam, achamos admiráveis as paisagens que mais dispensamos. E por fim aborrecemos os outros dizendo-lhes como nos divertimos; porque a alegria não se transacciona, e toda a gente sabe isso. Está dito que eu não gosto de férias.

Agustina Bessa-Luís em Caderno de Significados

Legenda: pintura de Van Gogh

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

QUEIXAS DE UM UTENTE


Pago os meus impostos, separo
o lixo,,já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar á fua fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.
Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.

José Miguel Silva, poema colocado por Nicolau Santos na página de Economia do Expresso, 19 de Junho de 2010.

Legenda: Quadro de Van Gogh

sexta-feira, 31 de julho de 2015

LÊ, SÃO ESTES OS NOMES DAS COISAS


Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,
uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

Legenda: pintura de Van Gogh

segunda-feira, 8 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


As coisas mudam no devagar depressa dos tempos.


Legenda: pintura de van Gogh

terça-feira, 12 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar.

Charles Bukowski

Legenda: pintura de Van Gogh