domingo, 24 de maio de 2026

REOLHARES


Este é o cartão do associado nº 38315,  de "A Voz do Operário" de Afonso Borges Correia, meu avô materno.

Funcionário da Câmara Municipal de Lisboa, republicano histórico, era um pândego patusco, castiço, um gozador da vida, tocava “caixa” na Banda da Câmara.

Nos domingos em que não havia concertos, manhã cedo,  saía de casa, máquina “à la minute”, ele dizia à la minuta, e arrancava para as praias, para as feiras nos arredores, para tirar fotos de “olhó passarinho”.

Dizia à minha avó que assim fazia um dinheirinho para compor o curto ordenado de funcionário da Câmara. Mas isso, era apenas um pedaço de treta, tirava, quando tirava, uma ou duas, ou três fotos, o resto era copos e convívio com os amigos. Pelava-se por polvo seco assado na brasa, na Feira da Luz, ou na das Mercês, e é fácil imaginá-lo naqueles restaurantes de feira, mesas com toalhas de plástico, petiscos, jarros de barro com tintol e lá fora, a máquina, em cima do tripé, a olhar para ele, ou vice-versa.

Claro que nos domingos de concerto, também saía manhã cedo, mais petisco, mais copitos, o chegara casa, ao cair da noite, e a ouvir a minha avó: “maior fosse o dia maior era a romaria”.

Reformado da Câmara, já com pouca estaleca para transportar a la minuta, conseguiu alvará de guarda de automóveis num espaço junto à Sé de Lisboa.  Um fino humor, uma figura garbosa, davam-lhe o toque de charme que cativa damas e cavalheiros das missas de domingo, das missas de fim de tarde, e as gorjetas eram cantantes.

Fumava dois maços de "Definitivos" por dia. Copos e tabaco, outras coisas, provocaram-lhe graves problemas de circulação, ao ponto de lhe terem amputado as pernas.

O médico proibira-lhe os cigarros, o copito.

Assim, um pouco sem jeito, ia-lhe lembrando esses cuidados, e o avô andarilho que foi, acamado que estava, a dizer-me:  “é pá! A vida são dois dias e o qué que queres que p’raqui esteja a fazer?

Nunca hei-de esquecer o prazer com que puxava cada fumaça de “Definitivos”.

As consoadas eram preenchidas com as suas anedotas que, invariavelmente, repetia todos os anos. Recordo esta:

Um homem entra pela drogaria a pedir uma esmola para o ceguinho..

- Mas  onde está o ceguinho?  pergunta uma cliente

- Está  lá fora a ver a montra!

Pelos cigarros, pelo copito, terá morrido mais cedo… mas morre-se por tantos motivos…

Foi “A Voz do Operário” que lhe tratou do funeral.

Já não lembro o que aconteceu à máquina à la minuta e ao boné com a placa de guarda de automóveis.

Do meu avô apenas guardo um relógio de pulso de marca “Invicta” e este cartão de  sócio de “A Voz do Operário”.

Sou o único da família, que saiu com os olhos azuis do meu Afonso.

(Texto publicado em 29 de Setembro de 2011).

Legenda: a imagem do fotógrafo “à la minuta” foi tirada  daqui.
A outra imagem, mostra o espaço, junto à Sé, onde o meu avô foi guarda-de-automóveis.

À LUPA

«Não podemos seleccionar os cem melhores romances sem saber quantos romances existem.»

Rogério Casanova no Público de hoje.

OLHAR AS CAPAS


 Obras Escolhidas

Lénine

3 Tomos

Lénine

Edições Avante, Lisboa, Novembro de 1977

Um conhecido adágio diz que se os axiomas geométricos chocassem com os interesses dos homens, certamente tentaria refutá-los. 

MÚSICA PELA MANHÃ

Centenário de Miles Davis.

Nasceu no dia 26 de Maio em Alton, Illinois.

Pedro Adão e Silva evoca-o, hoje, no Público:

«Conta a lenda que numa receção na Casa Branca, Miles Davis terá sido questionado pela mulher de um político sobre o que tinha feito de importante para estar naquele jantar. A resposta foi contundente — e podemos imaginá-la na voz singularmente rouca do músico: "Mudei a história da música cinco ou seis vezes e não acredito que se possa tocar apenas temas compostos por brancos." Para depois questionar: "Diga-me o que fez de importante, além de ser branca e casada com um homem branco?"».

Flea, o virtuoso baixista dos Red Hot Chili Peppers: "Se és um ser humano e ouviste Miles e não gostaste, então és um idiota."

Eduardo Prado Coelho conta:

«Juliette Greco evoca Miles Davis, amante. Quando, anos depois, o reencontrou em Paris. Ela, alguns passos na sala, de costas, um pouco curvada, desatenta: procurar um isqueiro, encher um copo com álcool, abrir uma janela porque faz calor. E ele ri, feliz. Juliette Greco pergunta: "Estás a rir, porquê?” E Miles Davis responde: “Porque reconheceria esse movimento de ancas em qualquer parte do mundo.”».





sábado, 23 de maio de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Já mais de uma vez disse por aqui que o meu pai foi um marxista-leninista. 

Nas nossas conversas entendia que eu, acima de tudo, deveria ler Marx e Engels. Por Marx ainda li o que se entenderia (?) por fundamental, mais por o João César Monteiro ter escrito que no Marx está tudo.

A carne é fraca e li mais Raymond Chandler do que os clássicos marxistas, leninistas e estarei em condições de dizer que cheguei mais às ideias que hoje tenho lendo Sartre, Camus, Vailland, Vittorini, Roger Martin du Gard, tantos outros, do que clássicos da política.  

«A tese de que o fim da União Soviética e do bloco socialista europeu, entre 1989 e 1991, obrigaria os partidos comunistas a abandonar o marxismo-leninismo – defendida a partir de 1998 pelo malogrado Carlos Brito e que conduziu à sua ruptura com o PCP em 2000 – sempre me pareceu partir de um pressuposto errado: o de que o marxismo-leninismo teria como única expressão prática possível a experiência soviética. 

O marxismo-leninismo, criado depois da morte de Lénine, albergou projectos políticos muito diversos e até antagónicos. Em Portugal, além do PCP, existiram entre 1964 e 1976 pelo menos 40 organizações que se reivindicavam marxistas-leninistas. Na própria URSS a mesma designação serviu para fundamentar o “socialismo num só país” de Estaline, a desestalinização de Khrushchev, apresentada como “regresso a Lénine”, e a Perestroika de Gorbachev, descrita como renovação leninista do socialismo.

A elasticidade do conceito permitiu ainda legitimar experiências tão distintas como o maoísmo, que deslocou o eixo revolucionário para o campesinato em sociedades semicoloniais, ou o titoísmo jugoslavo, que combinou socialismo, mecanismos de mercado e autogestão operária. Na China, no Vietname, em Cuba e noutros países, o marxismo-leninismo serviu aplicações nacionais muito diferentes.

A ideia de que a adaptação do comunismo aos “novos tempos” exigiria a rotura com essa identidade contradiz a conceção antidogmática defendida por Lénine. Em múltiplos textos, Lénine insistiu que a teoria de Marx não era um “dogma morto”, nem um mapa detalhado do futuro, mas um “guia para a acção”. Essa flexibilidade permitiu-lhe defender a participação de comunistas em parlamentos burgueses ou criar a NEP de 1921, que reintroduziu mercado, comércio privado e iniciativa camponesa na jovem URSS.

Os partidos que se reivindicam marxistas-leninistas partilham alguns princípios: transição para o socialismo, subordinação dos meios de produção ao interesse colectivo, anti-capitalismo, anti-imperialismo, denúncia da exploração humana na democracia burguesa, partido de massas. Mas esses princípios nunca deram origem a uma institucionalização homogénea. Podem exprimir-se em sistemas políticos distintos, como também o capitalismo convive tanto com ditaduras como com democracias liberais.

A adaptação de partidos comunistas marxistas-leninistas às instituições da democracia representativa encontra, aliás, exemplo contemporâneo no programa do Partido Comunista Português. O PCP, o meu partido, define o marxismo-leninismo como a sua base teórica não dogmática. O seu projecto de “democracia avançada” para Portugal incorpora liberdades, pluralismo de opinião e organização política, sufrágio universal, separação e interdependência de poderes, liberdade de imprensa, direito à formação de partidos e protecção jurídica dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos.

Esta compatibilidade funda-se na ideia de que a luta pelo socialismo passa pelo aprofundamento da democracia política, económica, social e cultural, sem renúncia ao objectivo de uma sociedade sem exploração.

É por isso que me parece que Carlos Brito e os camaradas que a partir de 1998 o apoiaram na reivindicação do fim do marxismo-leninismo no PCP estavam errados: é que discutir a democracia interna no PCP, que é um tema que deve estar sempre em cima da mesa, nada tem a ver com o fim do marxismo-leninismo, pelo contrário.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

OLHAR AS CAPAS


Obras Escolhidas

Marx e Engels

Três Tomos

Tradução: José Barata-Moura

Edições Avante, Lisboa, Abril de 1982

os indivíduos procuram apenas o seu interesse particular, o qual para eles não coincide com o sei interesse comunitário.

À LUPA

Ainda vamos ouvindo, uma conversa sem fim, que Israel é uma democracia.

Uma história para enteter camelos.

Ben-Gvir, ultra-ministro do ultra governo de Benjamim Netanyahu, divulgou imagens da violência com que Israel trata as pessoas que participaram na última flotilha que foi interceptada. As imagens chocaram o mundo e Netanyahu veio dizer que aquele tratamento “não se alinha com os valores de Israel”.

Mas quais são os valores de Israel?

O governo português , como em outras situações em que as sanguinárias forças de Israel estão envolvidas, gagueja para um lá e para outro. Não só o governo português porque nos restantes países da Europa, do mundo, não se vê uma reação violenta contra os governantes israelitas.

Têm medo de quê?!

MÚSICA PELA MANHÃ

Terá sido no decorrer do campeonato do Mundo de 1990, realizado em Itália, na final a Alemanha ganhou por 1 a 0 à Argentina, que o final da ópera Tarandot  de Giacomo Puccini, cantado por Luciano Pavarotti se tornou popular.

«A Princesa Turandot, filha do Imperador Altum da China, odeia todos os homens, e jura que jamais se entregará a nenhum deles; isto devido a um fato ocorrido na família imperial que a traumatizou para sempre: o estupro e assassinato da princesa Lo-u-Ling, quando os tártaros invadiram e conquistaram a China. Seu pai, porém, exige que ela se case, por razões dinásticas, e para respeitar as tradições chinesas. A princesa concorda; porém, com uma condição: ela proporá três enigmas a todos os candidatos, que arriscarão a própria cabeça se não acertarem todos os três, e somente se casará com aquele que decifrar todas as três duríssimas charadas. A crueldade e frieza da princesa não fazem mais do que atiçar a paixão do Príncipe Desconhecido, filho do deposto rei dos tártaros, que decide arriscar a própria vida para conseguir a mão da orgulhosa princesa. Ele consegue, após a derrota de todos os outros candidatos, até porque é o único que compartilha da natureza sádica e egoísta da princesa, sendo capaz de entendê-la.»

Ninguém durma! Ninguém durma!
Nem mesmo tu, ó Princesa,
No teu quarto frio,
Olhas para as estrelas
Que tremem de amor
E de esperança!

Mas o meu segredo está guardado em mim,
O meu nome ninguém saberá!
Não, não, na tua boca eu o direi,
Quando a luz brilhar!

E o meu beijo derreterá
O silêncio que te faz minha!

(Coro: O nome dele ninguém saberá! E nós teremos, ai de nós, que morrer!)

Desaparece, ó noite!
Esvaneçam, estrelas!
Esvaneçam, estrelas!
Ao alvorecer vencerei!
Vencerei! Vencerei!




sexta-feira, 22 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


A história não se repete, mas rima.

Mark Twain

TRUMPALHADAS

Donald Trump, Benjamim Neta, toda aquela montanha de ignorantes que os envolvem, meteram-se naquele vespeiro que é o Irão e não sabem como hão-de sair daquilo.

O Vietnam, o Iraque, o Afeganistão não lhes serviram de exemplo.

Mas todos os dias, Donald Trump  diz aos seus fanáticos que destruiu a marinha, a força aérea do Irão, mas que ainda falta o golpe final que destruirá um país, golpe que, até agora, não passa da louca imaginação daqueles fanáticos.

E o mundo vai olhando para uma das suas maiores crises...

Como é possível?

QUE COR Ó TELHADOS DE MISÉRIA

Que cor ó telhados de miséria 
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos 
de nenhum querer 
a que horas nasceram as estrelas que 
um dia foram
a que horas nasci?
 

Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti
 

Não sei que idade tenho

 

António Ramos Rosa em Obra Poética, Vol. I 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

DIÁRIO DE LISBOA-JUVENIL (1957-1970)


Com a então chamada «primavera marcelista», o Diário de Lisboa-Juvenil fechou taipais.

O ditador entendia que já lhe bastava um Castrim, quanto mais muitos castrinzinhos.

O Mário Castrim chegou a dizer antes castrinzinhos que castradozinhos!

O Juvenil publicou-se de 1967 a 1970.

Talvez um dia se faça a história daquela cantera de poetas, que o pasquim fascista Diário da Manhã chamava o Konsommolskaya das Terças-Feiras, romancistas, actores de teatro/cinema, jornalistas, apresentadores de televisão, deputados, ministros, um primeiro-ministro e entidades abstractas, como eu, que não deram em nada.

Numa viagem, não exaustiva, permite-se citar:

Fernando Guerreiro

José Mariano Gago

Luís Filipe Castro Mendes

Maria Elisa

Jaime Rocha

Fernandes Jorge

Joaquim Manuel Magalhães,

Franco Alexandre

Helder Moura Pinheiro

Maria do Céu Guerra

Durão Barroso

Casimiro de Brito

Nelson de Matos

José Pacheco Pereira

Cáceres Monteiro

Nicolau Saião

A.M. Pires Cabral

José Freire Antunes

Hélia Correia

João Bonifácio Serra

José Agostinho Baptista

Diana Andringa

Jorge Silva Melo

Eduardo Prado Coelho

Eduarda Dionísio

Alice Vieira

José Jorge Letria

Luís Miranda Rocha

João Mendes

Nuno Júdice

Maria Leonor Xavier

Tito Lívio

Helder Pinho

Hugo Beja

Torquato da Luz

Paulo da Cunha Leão

Rui Nunes

José de Matos-Cruz

José António Saraiva


Legenda: imagem da Hemeroteca

VELHOS RECORTES

Recorte do Diário de Lisboa-Juvenil que mostra que Nuno Júdice ganhou o prémio de poesia, 2ª Semana do Concurso Fósforo Ferrero.

O poema Introspecção com que Nuno Júdice venceu o Prémio de Poesia Fósforo Ferrero.

O anúncio da Fósforo Ferrero que patrocinava os Prémios do Diário de Lisboa-Juvenil.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Não sei, não sei mesmo, se o Nuno Júdice é o autor de uma obra poética decisiva que marca a poesia portuguesa.

Sei apenas que gosto muito da sua poesia.

Sentindo o fim aproximar-se, Nuno Júdice deixou três pastas com poemas, a sua mulher Manuela Júdice e o amigo Ricardo Marques, seleccionam os poemas para o livro em que Nuno trabalhara e a que foi dado o título, escolhido pelo autor em conversa com Ricardo: Primeiro Poema.

«Quando acabo um poema não sei muito bem o que escrevi», disse numa entrevista

Houve uma altura da vida do Diário de Lisboa-Juvenil que deu a louca ao Mário Castrim. Foi quando em estado de pura e avassaladora paixão  pela Alice, decidiu que tinha de deixar a Natália, sua mulher de longos e duros anos. Difícil e dramática decisão. O Mário Castrim até tinha uma capacidade de trabalho alucinante, acima, muito acima, de qualquer média, mas aquilo era demais e a cabeça não dava para tudo: diariamente crítica de televisão no Diário de Lisboa, colaboração diversificada e dispersa por jornais e revistas, colaboração no Rádio Clube Português com histórias para crianças e o Juvenil. Quanto a este terá então pensado que teria de deixar, por uns instantes, a selecção dos textos e poesias a mim e ao Armindo, gente de confiança, como ele dizia. Assim foi.

Mário Castrim fazia a grande triagem e passava o resto da papelada para mim e para o Armindo e, cada um fazia a leitura e selecção da colaboração. Trocávamos impressões e seguia-se a reunião com o Mário Castrim, para o Juvenil da semana seguinte, normalmente no Diário de Lisboa ou na Orion, café e pastelaria com “fabrico próprio” que, para meu grande espanto, não se tornou banco ou loja de trapos, ainda existe no cimo da calçada do Combro, esquina para a rua que vai dar a Santa Catarina, uma das mais belas vistas de Lisboa

Por vezes, Castrim, punha lápis vermelho nas nossas escolhas. O Armindo ficava à beira de um ataque de nervos, eu nem por isso porque entendia que o Mário era o responsável-mor do suplemento. Foi nessas andanças que nos surgiram os poemas do Nuno Júdice e neles já estava quase tudo do que viria a ser um dos poetas marcantes da poesia portuguesa, assim como o Jorge Valdano disse,  que um verdadeiro camisa 10 se nota logo, mesmo que venha mascarado de bailarina sevilhana.

Lembro-me do olhar deliciado do Armindo a ler os poemas do Nuno Júdice, nas mesas da Brasileira,  chávena de café suspensa na mão.

O Armindo deu o “salto” para fugir à guerra colonial, mandou-me um primeiro postal de Grenoble, mas nunca mais, para meu grande lamento, tive notícias do seu exílio.

OLHAR AS CAPAS


Primeiro Poema

Nuno Júdice

Prefácios: Manuela Júdice e Ricardo Marques

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril 2026


O Espelho da estrofe


Se me perguntarem para que serve

a poesia, peço para pegarem num espelho

de vidro limpo e puro. O rosto que ali

aparece, mais do que aquele de quem o olha,

é o rosto que perdura no olhar que, um dia,

encontrou noutro olhar o seu duplo. Assim,

se a poesia serve para alguma coisa,

é para te ver, para lá do tempo

e da ausência, e novamente ter à minha frente

esse olhar que nunca mais esqueci

e que vive, no mais fundo de mim,

quando te encontro, no espelho do poema,

fazendo com que eu peça que o reflexo

se transforme na realidade do teu corpo.

AS QUATRO ESTAÇÕES

Vem o Inverno com o seu carrinho do frio

a apertar nas curvas; a Primavera e os seus

paroxismos que não duram muito; o Verão

e os seus langores de ainda menos; e por fim,

mas também pode ser no meio ou no princípio,

lá vens tu, que não falhas nunca, melancólico

e misericordioso Outono, a estenderes-me a taça

de vinho puro que eu bebo lenta e gravemente

com aquela lentidão, aquela gravidade característica

dos que não têm religião nenhuma, ou têm apenas essa.


Rui Caeiro em Resumo: a poesia em 2012

quarta-feira, 20 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Os pássaros não conhecem fronteiras.

Autor desconhecido

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Continuo a lamentar que a Fundação José Saramago ainda não tenha deitado mãos à tarefa de reunir as cartas que José Saramago trocou com os seus pares e com os seus leitores, apesar das muitas observações que Saramago foi deixando ao longo da vida que é um trabalho importantíssimo.

Apenas existe um volume com a Correspondência trocada com José Rodrigues Miguéis, organização e notas de José Albino Pereira, publicado pela Editorial Caminho, em Abril de 2010.

É desse livro que respigamos uma carta de José Rodrigues Miguéis, datada de Nova Iorque no dia 21 de Maio de 1971:

«Querido Saramago:

Chegou-me há semanas o seu livro de crónicas, que venho agradecer-lhe com algum atraso, porque tencionava, e não me tem sido possível, fazê-lo com mais largas considerações. Pelo que lhe escrevi há tempos, quando me deu a ler algumas delas, já Você sabe o que delas penso. A leitura do volume só me conformou nessa opinião. Não creio que nenhum outro cronista nosso escreva hoje de maneira tão toante, directa e moderna – e tão bem! – sobre os pequenos e grandes quotidianos da nossa vida: humanidade, ironia, e um pessimismo sorridente, isento de amargura. Algumas são pungentes, como a Neve Preta, outras de um sereno humor que contrasta com o tom geral da nossa literatura e jornalismo. Embora reunidas em volume, se acentue o efémero das crónicas de jornal, estas guardam a flagrância dos apontamentos de um pintor-poeta que percorre a paisagem do dia a dia e do lugar, ou a outra, mais funda, das memórias.»

Legenda: entrada de 8 de Agosto de 1998 no Último Caderno de Lanzarote

TRUMPALHADAS

«O Departamento de Justiça dos Estados Unidos fez uma segunda cedência de monta ao Presidente Donald Trump no âmbito de um acordo extrajudicial para encerrar um processo do republicano contra a autoridade tributária (o IRS, na sigla inglesa). Para além de constituir um polémico fundo de 1,8 mil milhões de dólares para indemnizar aliados de Trump que tenham sido alvo de alegada perseguição política, o departamento concede agora imunidade ao Presidente, aos seus familiares e às suas empresas face a várias investigações fiscais em curso.

Esta segunda cedência surge num documento de uma página, assinado pelo procurador-geral dos EUA, Todd Blanche (líder, por inerência, do Departamento de Justiça), que foi adicionado na terça-feira ao acordo extrajudicial anunciado na véspera.

“Os Estados Unidos libertam, exoneram, isentam e desvinculam para sempre cada um dos autores [Trump, familiares e empresas], e ficam pelo presente para sempre impedidos e inibidos de demandar ou intentar toda e qualquer reclamação, reconvenção, causa de pedir, recurso ou pedido de qualquer reparação, incluindo tutela inibitória, compensação financeira, indemnizações, exames ou avaliações semelhantes ou relacionadas, recursos, perdão de dívida, custas, honorários de advogados, despesas e/ou juros, sejam actualmente conhecidos ou desconhecidos, que – à data de entrada em vigor do acordo – tenham sido ou pudessem ter sido invocados pelos réus [o IRS] contra qualquer um dos autores ou indivíduos relacionados ou afiliados (incluindo, sem limitação, familiares ou outros que apresentem declarações conjuntas), ou partes, incluindo fundos fiduciários (trusts), empresas-mãe, associadas ou relacionadas, afiliadas e subsidiárias”, lê-se na declaração assinada por Blanche.»

Pedro Guerreiro no Público de hoje

À LUPA


«Hoje, a Lusa não publicou notícias e há horas que o site só tem duas frases: "O serviço da Lusa foi interrompido às 0h01 de hoje [quarta-feira] devido a uma greve dos trabalhadores da agência. O serviço poderá ser restabelecido caso existam condições para tal."»

Leia-se o artigo de Bárbara Reis no Público

NO MUNDO POUCOS ANOS

No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tão cedo a luz do dia escura,
que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!

Luís de Camões em Sonetos

terça-feira, 19 de maio de 2026

SOLTAS


 «Um trabalhador portuário atraca o navio de carga asiático Katra após a sua chegada à baía de Havana, em Cuba. O navio mercante atracou transportando ajuda humanitária proveniente do México e do Uruguai destinada aos cubanos que enfrentam cortes de energia e uma grave crise económica imposta pelos EUA através do criminoso bloqueio. 18 de Maio de 2026».

Em Abril Abril

1.

«No Piolho, um guia «explica» a quatro turistas a origem do nome do café: «Durante a ditadura de Salazar, este local era frequentado por muitos estudantes oposicionistas. A polícia política sabia disso e aparecia de vez em quando. Para não serem apanhados desprevenidos, os estudantes criaram um sinal de alerta: quando um agente entrava no café, começavam a coçar a cabeça como se tivesse piolhos. Daí o nome.»

Rui Manuel Amaral em  Bicho Ruim

2.

O Presidente da República convidou esta terça-feira o Papa Leão XIV a visitar Portugal já no próximo ano para assinalar "os 500 anos da formalização da Nunciatura apostólica em Portugal" e os "110.º aniversário das aparições marianas em Fátima".

3.

A Corticeira Amorim cortou mais 212 postos de trabalho em 2025, ano em que arrecadou 55,6 milhões de euros de lucro.

4.

Já está no Parlamento a proposta do Governo com meia centena de alterações e alguns recuos, face à posição inicial. Ainda assim, o documento tem por base o anteprojeto aprovado há quase um ano.

5.

A presidente da Comissão Europeia considerou esta terça-feira que a União Europeia (UE) "continuará vulnerável" enquanto depender de petróleo e gás importados, dada a crise energética causada pela guerra no Médio Oriente, apelando à eletrificação do continente.

À LUPA

 Na semana passada Xi Jimping recebeu Donald Trump.

Agora recebeu Vladimir Putin.

Está a ganhar em todos os tabuleiros.

Paciência de chinês para os grandes negócios da China!

NOTÍCIAS DO CIRCO

A ministra do Trabalho diz que o Presidente da República “deu respaldo à UGT” para não celebrar o acordo relativo à reforma da lei laboral, em sede de concertação social. Em entrevista no podcast “Política com Assinatura”, da Antena 1, Maria do Rosário Palma Ramalho garante que não responsabiliza António José Seguro, mas entende que ele “empoderou a UGT no sentido que tornou dispensável chegar a acordo”, ainda que quisesse “exatamente o contrário”, ou seja, sentar os parceiros à mesa para negociar.

No quase final de uma reforma laboral pessimamente conduzida desde o 1º minuto, e o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, a Ministra pretende atingir o Presidente da República.

Não havia necessidade!...

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

 

 Velha de Ródão é uma vila portuguesa raiana no Distrito de Castelo Branco, região estatística do Centro e sub-região da Beira Baixa, parte da província tradicional com o mesmo nome.

É sede do município homónimo com 329,91 km² de área e 3.515 habitantes (2023), subdividido em 4 freguesias. O município é limitado a norte e leste pelo município de Castelo Branco, a sueste pela Espanha, a sul por Nisa e a oeste por Mação e Proença-a-Nova.

As Portas de Ródão constituem um monumento natural emblemático de Vila Velha de Ródão, de que usufrui em parceria com o Município de Nisa.

OLHAR AS CAPAS

A Chave de Vidro

Dashiell Hammett

Tradução: Helena Domingos

Capa: João Botelho

Colecção: Série Negra nº 5

A Regra do Jogo Edições, Junho de 1980

Ned Beaumont foi para casa. Bebeu café, fumou, leu um jornal, uma revista, metade de um livro. De vez em quando parava de ler e punha-se a passear, enervado, pela casa. A campainha da porta não tocou. O telefone não tocou

Às oito da manhã tomou banho, fez a barba e vestiu-se de lavado. Depois mandou vir o pequeno almoço e comeu-o.

FALA A PREGUIÇA

Eu gosto tanto, tanto, tanto
de estar quieta, muito parada,
de fazer nada, coisa nenhuma,
e de fazer isso, que é não fazer
e de não estar, não ir, também.
Eu cá faço nada e todos
me dizem que faço isso muito bem.

Faço arroz de nada, pudim de nada
(que não é nada, está-se mesmo a ver)
e é tudo muito bom, delicioso,
só por não ser preciso fazer.
Eu faço nada, sou um nadador,
mas não daqueles que nadam mesmo,
O que é cansativo, tão maçador;
é que nadar, cá para mim,
tem um defeito insuportável:
aquele erre que está no fim.

E não digam que não faço nada
porque eu faço isso o mais que posso
e se não faço mais é porque mesmo nada
fazê-lo muito é uma maçada.
Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser!
Deixem-me estar porque eu hoje tenho
bastante nada para fazer.


Álvaro Magalhães

segunda-feira, 18 de maio de 2026

POSTAIS SEM SELO


Pena as vidas serem tão curtas e acabarem às vezes no pior momento.

Miguel Torga 

TRUMPALHADAS

Donald Trump mandou suspender novo ataque ao Irão que estava marcado para amanhã, em resposta a um pedido dos líderes dos países do Golfo. Trump afirmou que estão em curso “negociações sérias» e acredita-se que 2será alcançado um acordo”.

Contudo Trump acrescentou que a Administração norte-americana está pronta para um “ataque em grande escala contra o Irão, a qualquer momento, caso não se chegue a um acordo aceitável”.

REGRESSAR AOS TRESMALHOS

As xávegas, ou a arte da Barca, fizeram a fortuna de Monte Gordo na segunda metade do século XVIII, havia então mais de 3 mil homens diretamente envolvidos na pesca com xávegas, e foram responsáveis pelo aumento populacional do aglomerado ao longo do século XIX. O seu declínio, no entanto, começaria ainda nas décadas de 1880 e 1890, com a concorrência de artes mais modernas e produtivas, como os cercos americanos e os galeões a vapor e, mais tarde, as traineiras. Ainda que se tivessem mantido ao longo do tempo, e em determinados períodos com algum significado, na década de 1960 já só ocasionalmente faziam os seus lanços.” E, mais adiante: “A partir de finais da década de 1960, com o turismo a valorizar o pescado, com a motorização e a mecanização das embarcações a possibilitarem um maior raio de ação, maior regularidade das saídas e companhas menos numerosas, os marítimos de Monte Gordo regressam aos tresmalhos.

 É ver a devoção com que, uma vez por ano, todos os anos, fazendo o próprio rol dos homens a quem é concedida a honra maior de levar o andor, seguem em procissão, todos marítimos, tudo gente do mar, o mais velho ao comando, com a vara das ordens, metálica, a orientar as pausas, os recomeços, o baixar, o erguer de novo, o virar ao mar, aos barcos de buzinas ruidosas, enfeitados com bandeirinhas e papéis crepe, é ver a devoção e o dramatismo triunfal com que se aproximam de novo da Igreja, no regresso, mais de vinte homens com as suas varas de apoio, a passada ensaiada ao ritmo da filarmónica, os movimentos em forma de pendulo a fazerem oscilar o andor, a Santa virada de costas para a entrada do templo, o adro cheio dos fiéis, dos peregrinos, e então a bênção, um lençol de lágrimas, três vivas à Senhora das Dores.

 José Carlos Barros em Os Filhos de Monte Gordo 

OLHAR AS CAPAS

Cartas

1ª Série

Antero de Quental

Prefacio: António Sérgio

Edição de Couto Martins, Lisboa, 1957

Agradeço-lhe muito os seus artigos no Jornal do Comércio, e creia V. Exª que o não faço só por civilidade, ainda que não é coisa que se deva desdenhar par le temps qui court. Não lhe direi que me agradaram os seus artigos, porque isso é o menos; dir-lhe-ei que me comoveram. Há neles uma sinceridade que me encantou, e um tom fraternal que me foi direito ao coração, onde quero que não morra nunca a vibração dessas palavras amigas.

De uma carta a Maria Amália Vaz de Carvalho