sexta-feira, 3 de julho de 2026

À LUPA


Luís Montenegro deixou o trabalho a marinar em Lisboa para ir, até Toronto, ver a selecção.

«É disto que o meu povo gosta!»

LÍDIA JORGE É PRÉMIO CAMÕES


 Lídia Jorge é a vencedora da 38.ª edição do Prémio Camões, a mais importante distinção literária da língua portuguesa, com um valor pecuniário de 100 mil euros. A decisão foi tomada por unanimidade.

Aos 80 anos, Lídia Jorge é a décima mulher a receber o Prémio Camões.

Colaboração de Aida Santos

QUEM VIVE PARA O AMOR ESTÁ LIXADO

Quem vive para o amor está lixado

não tarda, que o amor é um amplo espaço

vazio sem cor nem forma e um silêncio

tumular por perto. Mau, muito mau

para se levar alguém. Mas tu vieste

e de imediato tudo fôra já decidido

como quando alguém nasce e olha em torno

— pouco importa se estranha ou não a paisagem.

Tínhamos o nosso espaço e tínhamo-nos

a nós, um ao outro por natural companhia

era o amor, tudo indicava. Podia-se morrer

disso. E tínhamos o tempo todo para ver.

Rui Caeiro

quinta-feira, 2 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Nunca o caminho percorrido é o mais acertado logo que reavemos a nossa capacidade de auto-critica e nos imaginamos pelo outro que não percorremos. O percurso que não fizemos é sempre melhor, e o melhor que teríamos feito, só porque se pensa que se se pensasse não se faria. Nós sabemos: somos um erro - mas a consciência disso isola-nos do erro alheio.

António Maria Lisboa

MARCADORES DE LIVROS



Colaboração de Aida Santos

LUTAS CITADINAS



Recorte do jornal de A Voz do Operário

SIMPLES GOTA

Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.

Carlos de Oliveira

quarta-feira, 1 de julho de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Não há dias cinzentos para quem sonha colorido.

De um azulejo em casa de amigos

Colaboração de Aida Santos      

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?

Vejam, revejam os filmes de François Truffaut no Nimas

Começam a amanhã e prolongam-se até ao dia 15 de Julho.

São péssimas as condições da sala do Nimas em Lisboa: alcatifa aos bocados espalhadas por aqui e por ali, alguma das cadeiras quando nos sentamos, rangem, parece que se vão partir, mas eu gosto de cinema e gosto de François Truffaut.


“Todos os filmes de Truffaut contêm um ou mais momentos (diferentes de acordo com a sensibilidade do espectador), que nos deixam uma recordação precisa, marcante e indelével, mesmo passados 20 ou 25 anos.”

Luc Moullet


 
A vida era o cinema
 
François Truffaut (1932-1984) marcou, como cineasta e como crítico, o cinema moderno. Fez parte do núcleo central da Nouvelle Vague, com Godard, Chabrol, Rivette e Rhomer, uma geração cinéfila, que começou pela crítica e pelo cineclubismo (Truffaut, ainda menor, fundou um cineclube, com o sugestivo nome de “Cercle Cinémane / Círculo Cinemaníaco”) e passou à realização sem frequentar a escola de cinema.
No início dos anos 80, com o grande sucesso de O Último Metro, chegou a ser considerado um “cineasta popular”, como o foram também, aliás, muitos dos realizadores que ele mais amava: Chaplin, Renoir, Hitchcock ou Lubitsch. Mas, e apesar da sua importância fundamental e de ter sido também ele um dos cineastas mais amados do seu tempo, os seus filmes, com raras excepções, têm sido, desde a que a Cinemateca os mostrou há vinte anos, menos vistos nas salas de cinema, eventualmente por razões de direitos. Finalmente restaurados, vamos poder vê-los de novo agora – e para uma nova geração de espectadores esta será uma oportunidade única – numa retrospectiva praticamente completa (só Fahrenheit 451 e A Noite Americana ficam, por enquanto, de fora).


Como epígrafe ao seu livro Os Filmes da Minha Vida, Truffaut escolheu uma afirmação de Orson Welles: “Creio que qualquer obra será boa na medida em que exprima o homem que a criou.” Os filmes de Truffaut, para quem a vida era o cinema, e por amor dele se perdeu e por amor dele se salvou, exprimem as suas complexidades e contradições, os seus entusiasmos e os seus medos. Num número temático que lhe dedicaram recentemente os Cahiers (onde foi crítico, apadrinhado por André Bazin, seu tutor e que exerceu junto dele – que crescera numa família complicada e fora um jovem marginal como alguns dos protagonistas das suas obras – o papel de figura paterna positiva), sublinha-se que “os seus filmes continuam a tocar-nos e a estimular-nos, ainda hoje, quase quarenta anos depois do seu desaparecimento precoce. […] Imperfeita, múltipla, lúdica e por vezes trágica, a sua obra não tem nada de um monumento. Pelo contrário, quando revemos os seus filmes, ficamos impressionados pela sua impureza, a sua invenção e o seu lado paradoxal. É uma obra viva, […] única na sua multiplicidade, cuja interpretação, aliás, tem variado ao longo das épocas.”


 Como sabemos, a história de qualquer arte, está constantemente a ser reescrita. E se a seguir à sua morte, depois de alguns dos sucessos de bilheteira, os Cahiers e outros vieram por sua vez reabilitar alguns dos filmes mais secretos, passionais, atravessados por correntes subterrâneas, hoje, quatro décadas volvidas, começa a redesenhar-se, pouco a pouco, um Truffaut mais solar, o dos filmes Disparem sobre o Pianista, Beijos Roubados ou Na Idade da Inocência. É tempo de redescobrir a sua obra e de lhe trazer novas interpretações.
 
Truffaut e os actores
 
“No cinema de François Truffaut, as actrizes e os actores ocupam um lugar absolutamente central. Eles são tanto a carne como o centro nervoso dos seus filmes. Desde a sua primeira longa-metragem, Os Quatrocentos Golpes, impõe um novo corpo, o de Jean-Pierre Léaud, que vai, ao longo do tempo, tornar-se o seu duplo. Juntos, inventarão uma nova forma de representar que navega entre o natural e a estilização. De filme em filme, Truffaut trabalha com os maiores actores e as maiores actrizes do seu tempo, de Charles Aznavour a Fanny Ardant, passando por Jeanne Moreau, Françoise Dorléac, Marie-France Pisier, Michael Lonsdale, Charles Denner, Delphine Seyrig, Catherine Deneuve, , Claude Jade, Jean-Paul Belmondo, Bernadette Lafont, Isabelle Adjani, Nathalie Baye, Gérard Depardieu, Jean-Louis Trintignant, etc. Em cada ocasião, o seu desafio consiste em integrar esses actores e actrizes de personalidade forte no seu mundo, sem, no entanto, fazer com que percam a sua singularidade.”


Cahiers du Cinéma
 
“Muitas vezes, os actores vivem as suas emoções e deixam-se levar por elas. O François sabia até onde nos poderia deixar ir, para depois voltar a pegar-nos, e nos segurar. […] Por exemplo, o fim das cenas deveria ser pontuado de modo preciso. E dizia: ‘É preciso encher o écran, ter gestos mais amplos, não abortar os movimentos’.”


Catherine Deneuve
 
“Com ele, era uma linguagem de paixão. Todos os actores dos filmes de Truffaut têm o tom Truffaut, inimitável. Basta ver o Léaud, ou o Denner: ‘Sim, então fazemos assim, hem, estás a ver?’. Para chegar a este tom, bastava escutá-lo, olhar para ele. […] O que ele fez com o Jean-Pierre Léaud, é absolutamente deslumbrante. Os seus filmes são uma espécie de cursos intensivos para jovens actores.”


Gérard Depardieu

Ver Programação aqui.

 

SOBRE AS ÁRVORES ENCOLHIDAS

Sobre as árvores encolhidas que gastavam
a ternura de tudo; severo,
o céu desajeitado avolumou-se.
Na testa do silêncio ao pé dos montes
as pedras adoecem entre o sangue
derrota que se imprime por palavras
se imite diminuta nos alqueives.
Sob a capa da terra e no alcance
dos dedos de fora inesperados
a rotura simples dum soluço
ferindo o estrume em breves plantas novas.
Ao longe o grito do abraço em pé
com as vergonhas cobertas de papel
os prumos os cabos o pão um ovo
o vinho deitado, aqui ao pé do choro.

Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

terça-feira, 30 de junho de 2026

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


  CANÇÕES DE BRUCE SPRINGSTEEN
  NA ESPLANADA DA CINEMATECA
                                                     

«Não é no cinema que pensamos quando se evoca o nome de Bruce Frederick Joseph Springsteen, nascido a 23 de Setembro de 1949 na pequena cidade de Long Branch, no estado de Nova Jérsia, bem perto de Nova Iorque mas do lado “errado”, do lado industrial e operário. Como é evidente, porque foi na música que ele se exprimiu, e foi através da música, dos vinte e um álbuns de estúdio que editou desde 1973 e Greetings from Asbury Park, N.J., que Bruce Springsteen se tornou uma das grandes figuras da cultural popular norte-americana. Hoje, quando já é septuagenário, adquiriu mesmo um estatuto ao alcance de muito poucos, pontuado por uma capacidade de intervenção pública e política que o tornam uma presença relevante dentro da sociedade norte-americana muito para além do domínio estritamente musical. Ou seja, não deve haver ninguém que tenha estado vivo nos últimos 50 anos a precisar que lhe apresentem Bruce Springsteen.
E este ciclo não é para isso, nem é para fazer a história de Springsteen. É para evocar um facto muito simples e muito incontestável: se não é no cinema que se pensa logo quando se fala de Springsteen, isso não quer dizer que Springsteen não pense no cinema, e que o cinema não pense em Springsteen. A cultura popular norte-americana é um sistema de vasos comunicantes, e já o vimos bem a propósito de Bob Dylan, quando (ainda antes do Nobel), dedicámos um vasto ciclo ao tortuoso labirinto da relação de Dylan com o cinema e do cinema com Dylan. É um pouco o mesmo jogo que praticamos agora com Springsteen, um jogo um pouco menos perverso, porque Springsteen, de certo modo, é uma versão franca, quase transparente, de Dylan, e porque bem menos perversa foi a sua relação com o cinema, mas não menos rica.
Porque sabemos a importância que o cinema teve enquanto inspiração de Springsteen, sobretudo no caso clássico do seu disco Nebraska, que começou a tomar uma forma no seu espírito depois de um visionamento do BADLANDS de Terrence Malick (sendo que “Badlands” é, justamente, o título de uma canção desse disco). Ou, no final dos anos 1990, o seu disco The Ghost of Tom Joad, que está perto de ser um “remake” musical do filme que John Ford extraiu ao romance de John Steinbeck.
O ciclo traz as inspirações de Springsteen, mas também traz Springsteen como inspiração. Outro caso clássico: STREETS OF FIRE, de Walter Hill, que em princípio seria um musical construido sobre as canções de Springsteen mas que, depois de um desentendimento entre o artista e a produção, deixou de ser, e ficou só o título. Ou ainda a curiosa obsessão de Peter Bogdanovich, que pretendia que a banda sonora de MASK fosse essencialmente composta por canções de Springsteen e, quando não o conseguiu, se “vingou” disseminando por TEXASVILLE, poucos anos depois, uma quantidade enorme de canções dele.
Investigamos neste ciclo, portanto, o trânsito em dois sentidos da relação Springsteen/cinema e cinema/Springsteen. A que não faltam, também, os paralelismos e os parentescos, os filmes nascidos e criados nos ambientes de Springsteen, que com ele podiam partilhar a sensibilidade, sobretudo os filmes que mostram e falam de Nova Jérsia, do subúrbio, da vida dos operários, dos “blue collars” – como quando, em COPLAND, James Mangold teve a intuição de pôr Sylvester Stallone (o homem do ROCKY ou de PARADISE ALLEY) em escuta das canções de Bruce.
Será um bom mês de esplanada, cinema e música. E como é Verão, nem falta uma piscina, a piscina da PALOMBELLA ROSSA de Nanni Moretti, onde um jogo de pólo aquático era interrompido para se ouvir, em ritual litúrgico, “I’m On Fire”.»

Programação aqui.

PERGUNTAS AOS ECONOMISTAS AOS MORALISTAS...

É tão bom ler os clássicos como Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett


«Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.»

NOTÍCIAS DO CIRCO

 A afirmação de mais um papagaio-falante-descoberta-dos canais-de notícias.

Começou na SIC. Ou na TVI?

Não importa, é aquele mundo de inutilidades.

Chama-se Sebastião Bugalho e o Público faz o retrato de palrador do PSD:

«Ao lado do busto de Francisco Sá Carneiro, na entrada da sede nacional do PSD, Sebastião Bugalho começou nesta segunda-feira a sua nova tarefa de porta-voz do partido. Com as bandeiras de Portugal, da União Europeia e do PSD atrás de si, o vice-presidente social-democrata anunciou que o grupo parlamentar vai chamar antigos governantes do PS ao Parlamento para explicar o aumento “sem precedente” da população estrangeira em Portugal revelado pela actualização das estatísticas oficiais do país. Sem detalhar a lista de personalidades que os deputados vão querer ouvir, “é natural” que José Luís Carneiro seja um dos nomes a ser chamado.»

Mais um contra os trabalhadores migrantes!

Numa qualquer pausa do vazio cerebral, não lhes dá para entender que esses trabalhadores são mesmo necessários, para nunca esquecer que são pagos miseravelmente por empresários sem qualquer ponta de escrúpulos, e explorados pelas redes de angariação laboral clandestina.

OLHAR AS CAPAS


Cartas a António de Azevedo Castelo Branco

Prefácio e notas de Adolfo Casais Monteiro

Antero de Quental

Edições Signo, Lisboa, Abril de 1942

A tua carta veio-me encontrar prostado sobre o leito dos antigos abatimentos, tão desgostoso e desalentado como se fosse a primeira vez que descobrisse no mundo misérias e tristezas e, sobre tudo, o seu grande vazio moral. Como custam a arrancar as últimas penas das asas da loucura ideal! Sabes como sou apreensivo, quasi até à mania. O mais pequeno sopro de desgosto levanta-me no espírito e encastela-me na alma um mundo de nuvens, de preocupações, de dúvidas, que n~ºao é possível mais ver um palmo de céu…

Eu TE GOSTO, VOCÊ ME GOSTA


Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 29 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo de mais aqui andamos a fingir de razões suficientes.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

Legenda: imagem Shorpy


OLHAR AS CAPAS


 Don McCullin

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Não gosto que me digam que sou um fotógrafo de guerra. Sou, simplesmente, um fotógrafo.

UM VERSO, PODE MUDAR O DIA


A Historia começou em Maio e chama-se «Um Verso, pode Mudar o Dia».
Que bom sabermos destas notícias, que bom encontrarmos poemas nas viagens que fazemos no metropolitano de Lisboa, nós que, de segunda a sexta-feira pelas 09,00 horas, colocamos nas pedras do cais, um poema:

«A poesia no Metro lembra-nos aquilo que a leitura pode fazer: inspirar e fazer parar.

Num momento improvável, num dia como todos os outros.

Esta nova iniciativa é um projeto que leva a leitura para dentro das carruagens, transformando o quotidiano das viagens num espaço de encontro com a palavra escrita. Há momentos em que uma palavra faz a diferença no nosso dia — e os versos têm esse poder.

Mais do que uma presença decorativa, os excertos literários agora visíveis nas carruagens foram pensados para surpreender, inspirar e criar um momento de pausa no ritmo acelerado do dia-a-dia. São textos que surgem sem aviso, mas que podem marcar — pela sua simplicidade, pela sua força ou pela forma como dialogam com quem os lê.

Os poemas e excertos apresentados resultam do envolvimento dos trabalhadores do Metro, que foram convidados a selecionar textos com significado pessoal. Esta dimensão colaborativa reforça a ligação entre a organização, a cultura e a experiência dos seus clientes.

A seleção final dos conteúdos contou com a curadoria de Manuela Pargana, Diretora de Departamento da Promoção da Leitura do EduQA, I.P., do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, assegurando a qualidade literária e a diversidade dos textos apresentados.

Esta ação pretende partilhar palavras que podem inspirar os nossos clientes.»

STATUS REPORT

sou comarca onde parou de chover

e quem não se lembra da sanguechuva

que foi em tempos este coração

 

já não tenho a vida toda (faço trinta

o mês que vem) e a verdade é que nem

na morte se pôde alguma vez confiar

 

muito mal contado, isso da morte

 

Miguel-Manso em Resumo: a poesia em 2010

domingo, 28 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO

Escolha um trabalho que ame e não terá de trabalhar um único dia da sua vida.

Confúcio

SOLTAS

De blogue em blogue, encontro no Bicho Ruim a fotografia e a respectiva legenda:

«A capa de hoje d' O Diabo foi feita de propósito para os arquivos Ephemera. O José Pacheco Pereira deve andar aos pulos de contente.»

1.

Faturação dos hospitais privados cresce para valor recorde em 2025: 2 790 milhões de euros.

2.

Lido em Página Um

«Luís Delgado tentou travar um novo processo na Justiça por dívidas da Trust in News ao Fisco, mas apenas conseguiu adiar o inevitável. Os três gerentes da dona da Visão vão, de novo, sentar-se no banco dos réus e arriscam ser condenados a pena de prisão efectiva. Em causa, uma dívida de 1,2 milhões de euros em prestações de IVA não entregues às Finanças entre 2021 e 2023.»

3.

Actualmente a esperança de vida à nascença em Portugal é de 81,8 anos, um aumento de 1,28 anos na última década,

 4.

A Meo solicitou ao Governo o estatuto de empresa em reestruturação, um passo que facilita a rescisão de contratos com os trabalhadores, já que permite ir além das quotas legalmente previstas nas saídas por mútuo acordo com atribuição de subsídio de desemprego. O estatuto foi concedido até ao fim deste mês e a empresa conta fechar 1200 saídas por via de acordo até ao fim do ano.

5.

Julian Barnes olha para o fim da vida com a serenidade de quem se cumpriu – “Pisei todas as massas de terra firme, exceto as congeladas. Por isso, prefiro voltar a vaguear pelas vilas e cidades europeias, observar o mar a partir da segurança de uma esplanada e as montanhas nevadas de uma distância em que não sinta frio” – e, por isso, recusa a derrota: “o obituário “Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta contra o cancro” deveria ser substituído por “Morreu depois de uma prolongada e corajosa luta que o cancro manteve com ele”.

A MERDA DO FUTEBOL, TAL COMO, UM DIA, DISSE MÁRIO DE CARVALHO



Carlos Queiroz não parece estar convencido com o actual formato do Campeonato do Mundo para 48 seleções, sublinhado sublinhou que a competição está a tornar-se "vulgar e comum".

“Quando tantas equipas se podem qualificar, o valor continua a ser raro? Isso parece-me discutível, mas é apenas a minha opinião. Quem é que não se qualificou na Europa? Os torneios de qualificação começam a perder o seu significado se quase todos se apuram. A qualificação devia ser séria, devia ser muito dura, muito competitiva. O Mundial devia ser algo com significado e relevância. Devia ser raro. Mas, como sabem, hoje em dia o dinheiro fala mais alto no futebol. Onde antes costumávamos falar de futebol, agora falamos de moneyball. 

À LUPA

Excelente o retrato de Portugal que Bárbara Reis nos deixa, hoje no Público.

Fica aqui o link, por favor leiam, e a Lupa saca este pormenor:

«Também lhes digo que Portugal é um país normal, com coisas boas e coisas más, problemas grandes e pequenos, com tradições péssimas e tradições maravilhosas.

Mas quando vou ao Mercado da Ribeira, o senhor a quem compro ovos diz-me que “Portugal morreu”.

É assim há anos. Eu digo: “Bom dia, como está?” E ele:

— Como é que haveria de estar?! Isto acabou. Tem alguma dúvida?! Portugal morreu!»

MÚSICA PELA MANHÃ


Neste domingo, situamo-nos no cinema para vos dar música pela manhã.

O cinema deixou-nos grandes músicas e grandes canções e há larga matéria para escolhas.

Ficamo-nos com:

Amado Mio do filme Gilda de Charles Vidor  com a espantosa Rita Hayworth

Barco Negro cantada por Amália Rodrigues no filme Os Amantes do Tejo de Henri Verneuil

Mrs. Robinson dos lendários Simon and Garfunkel em  A Primeira Noite filme de  Mike Nichols.  

Moon River de A Boneca de Luxo de Blake Edwards 

Por fim As Time Goes By do lendário Casablanca, filme de  Michael Curtiz.

Não se esqueçam de passar um bom domingo.





sábado, 27 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


A saudade é uma tatuagem da alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.

Mia Couto

Legenda: fotografia de Rui Ornelas

MÚSICA PELA MANHÃ


Fausto, o alquimista genial, deixou-nos com 75 anos e ficámos muito desemparados. Ao longo de mais de cinco décadas, firmou-se como marco fundamental da música portuguesa, mergulhando nas raízes da música tradicional, apondo-lhe uma marca autoral.

Há semanas, Luís Eme, no seu blogue o Largo da Memória, trouxe-nos a lembrança das canções de Fausto.

Apesar de tudo, ainda há blogues e o Largo da Memória é o mais antigo que frequento e já são muito poucos!

É este o texto do Luís Eme, a fotografia também é de sua autoria:

«A frase que escolhi para título (
"Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir...”) deste pequeno texto faz parte de uma das canções do Fausto. Escolhi-a porque é um retrato do mundo, andamos praticamente desde a nossa existência a cometer os mesmos erros (por pior que sejam...), que acabam por voltar sempre, de tempos a tempos...

Aparece sempre alguém, capaz de inventar uma guerra qualquer, com um único objectivo, servir os seus interesses pessoais, pouco preocupado com o rasto que deixa atrás de si, tanto de gente assassinada ou mutilada como de cidades completamente destruídas...

Nem a invenção dos deuses e das religiões apaziguaram esta ambição desmedida dos humanos...

Tenho à cabeceira um livro há mais de dois meses, o "Diário" de Hélene Berr (escrito de 1942 a 1944), escrito em Paris durante a ocupação alemã na Segunda Guerra Mundial, por uma jovem judia francesa, que morreu pouco tempo antes da libertação, em Auschwitz. 

Não o leio todos os dias, porque está longe de ser um testemunho agradável, por razões óbvias.

Há muitas partes do seu testemunho que podiam ser transpostas para os dias de hoje, onde a indiferença, se vai tornando reinante. Transcrevemos um exemplo sobre a actividade policial em duas frases:

«Polícias que obedecem a ordens expressas de ir prender um bebé de dois anos, a casa da ama, para a internar! Eis a prova mais pungente do estado de embrutecimento, da perda absoluta de consciência moral em que caímos. É isto que é desesperante.»

E umas linhas mais abaixo: «Que se tenha chegado a conceber o dever como uma coisa independente da consciência, independente da justiça, da bondade, da caridade, eis a prova da inanidade da nossa pretensa civilização.»

E não são precisas mais palavras...»



REGRESSO

Voltar ao Cais.

Voltar aos postais, aos candeeiros, às coisinhas costumeiras.

Voltar.

Colaboração de Aida Santos

SÍTIOS POR ONDE ELES ANDARAM

No passado fim-de-semana, fomos a Viseu ao aniversário de uma velha amiga e apanhámos um calorão infernal.

Foi no meio desse inferno que, entrando num quiosque para comprar o jornal, arregimentei este postal de um nevão em Aveiro. 

Dizem os visienses que a cidade é assim:  insuportavelmente, fria no Inverno e quente no Verão.

NOTÍCIAS DO CIRCO

A ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social garante que o Governo voltará a tentar aprovar uma reforma laboral, apesar do chumbo da proposta no Parlamento, considerando as alterações ao Código do Trabalho “algo de inevitável”. Tão inevitável “como o nascer do sol”, afirmou Maria do Rosário Palma Ramalho, em entrevista à SIC Notícias.na quinta-feira à noite.

As declarações surgem depois de a ministra ter deixado essa intenção no último fim-de-semana, durante o 43.º Congresso do PSD, quando, dirigindo-se a Luís Montenegro, afirmou: “Se bem o conheço, lá iremos outra vez fazer esta e outras reformas por Portugal e pelos portugueses.”

Lido no Público

sexta-feira, 26 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


 A minha riqueza são os livros.

Fernando Assis Pacheco

NOTÍCIAS DO CIRCO

Operadores da linha SNS24 [que prestam serviço através da Altice] perdem parte do salário quando vão à casa de banho.

Jornal de Notícias, 26 de Junho.

POEMA DITO DE AMOR

Uma corrosão de líquidos

no copo do teu riso: como se a tua boca

trouxesse as chuvas ácidas

da noite; e as tuas frases queimassem

a terra dos corpos.

 

Bebo-te, no entanto; e

ardes por dentro de mim. O teu amor

espalha-se-me pelas veias, sobe

até à cabeça, explode pelos olhos

e pelos ouvidos com que te

vejo e ouço.

 

O halo das ocasiões

envolve-nos. Até ao fim da noite,

e pelo meio da vida.

 

Nuno Júdice

quinta-feira, 25 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


O amor destrói. A amizade constrói.

Vergílio Ferreira

A NOITE LANÇAVA-SE NA ÚLTIMA VIAGEM

A noite lançava-se na última viagem.

Já bebida, a velha profissional 

engana-se nas redondilhas 

de um mouraria antigo

e o gestor turístico 

no seu azul e brilhante 

fato alpacatado

dentro do qual rebenta

solta no ar a praga impiedosa.

 

Amores de mãe tremiam 

na garganta vagarosa 

rescaldos de uma guerra erótica 

eram os mitos forçados 

do consumo.

 

Casais obesos descansavam nas mesas 

a digestão pesada, a paz 

tão transitória dos sentidos. 

Solerte ofício este de jogar na voz 

todas as noites, a fatalidade,

sob o olhar frio dos deuses 

tão mesquinhos.

As palavras amargas poderão ter 

a força duma chaga,

a cor nocturna da faca pitoresca, 

e a velha cantadeira 

pode deixar cair da boca 

as aves mortas que esconde no seu peito.

Porque eu não esqueço.

Ali, quando a noite arregaçava 

os braços no trabalho de parto indiferente,

sob as cinzas sujas da memória,

outro fado nascia abruptamente 

oculto e humilhado à luz do dia.

 

Armando Silva Carvalho

quarta-feira, 24 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Todos podemos controlar a dor, excepto aquele que a sente.

William Shakespeare

PAI, DIZEM QUE AINDA TE CHAMO

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono – a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome – porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

terça-feira, 23 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


É necessário sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós.

José Saramago 

DESTRUIÇÃO

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem:
Um se beija no outro, reflectido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.

Carlos Drummond de Andrade em Antologia Poética

segunda-feira, 22 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO

É sobretudo na solidão que se sente a vantagem de viver com alguém que saiba pensar.

Jean-Jacques Rousseau

QUOTIDIANOS

Há dias em que não devia ler jornais.

Um homem de 33 anos, com antecedentes de violência doméstica, e a filha menor morreram numa destas madrugadas, após a queda do oitavo andar, em Santarém.

A Polícia Judiciária confirmou que está em causa um "suicídio acompanhado de homicídio da filha em contexto de violência doméstica com objetivo de provocar sofrimento à mulher".

NÃO SEI SE ME INTERESSEI PELO RAPAZ

Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com as estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas

Adília Lopes

domingo, 21 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


O recorte é retirado de Os Beatles e a Censura em Portugal de Abel Rosa e marca oi conhecimento que muitos de nós passaram a ter deste rock and rol e de Bill Haley e os seus Cometas.


POEMAS AUTOGRAFADOS


Ontem apresentámos o poema autografado de João Cabral de Melo Neto, hoje fica o de Carlos Drummond de Andrade.

É o nº 18 de Colecção Poetas de Hoje. A selecção e o prefácio pertencem ao professor e ensaísta brasileiro Massaud Moisés que entendeu lembrar uma entrevista que o poeta deu O jornalista brasileiro Homero Senna:

«Minha vida não tem interesse algum e o que nela pode haver de importante já contei em duas autobiografias que escrevi para a Revista Acadêmica e para Leitura. Penso que a biografia do escritor deve ser dada a conhecer ao público quando é movimentada, rica de passagens curiosas e quando os vários lugares em que o mesmo esteve e as pessoas que conheceu influíram de algum mnodo na sua obra. Nasci em Itabira, no ano de 1902, de pais burgueses que me criaram no temor de Deus. Meu pai era fazendeiro e embora fosse pessoa que nem sequer o curso primário possuía completo, tomava conta muito bem dos seus negócios e escrevia suas cartas com correção. Em Itabira passei minha meninice e ali fiz meus primeiros estudos. Depois estive em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, e em Friburgo, com os Jesuítas. Primeiro aluno da classe, é verdade que mais velho que a maioria dos colegas, comportava-se como um anjo, tinha saudades da família e todos os outros bons sentimentos, mas expulsaram-me por “insubordinação mental”. A saída brusca do colégio teve influência enorme no desenvolvimento dos meus estudos e de toda minha vida. Casado, fui lecionar geografia no interior. Depois voltei para Belo Horizonte, onde passei a fazer jornalismo, tendo sido mais tarde levado para a burocracia por Mário Casassanta. Meu lugar efetivo é, mesmo, de redator do Minas Gerais, que é o jornal oficial do Estado. Desejando diplomar-me em alguma coisa (não fosse a interrupção dos meus estudos em Friburgo, eu seria bacharel em direito, como todo brasileiro) resolvi estudar farmácia. Não por qualquer inclinação especial, mas porque era o curso mais rápido, três anos apenas. E de fato sou farmacêutico, diplomado pela Escola de Belo Horizonte. Mas por que insistir nessas coisas?»

sábado, 20 de junho de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


PHILIPS - P 632.900 L - 1966

Lisboa, por esses anos 60, era uma cidade de um torpor quase provinciano.

Lembra-se de andar pelas ruas à noite, e de Lisboa ser um sítio acolhedor, não a ditadura.

Por um Maio de 66, mais precisamente no seu 31º dia, sem se saber muito bem como, o “TUCA - Teatro da Universidade Católica de São Paulo” aparece em Lisboa, também foram ao Porto, para apresentar, em espectáculos únicos, o poema de João Cabral de Melo Neto a que, em 1965, Francisco Buarque de Hollanda emprestara música.

Em Abril tinham ganho o Grande Prémio de Teatro Universitário de Nancy.

Mantém uma ponta de espanto de como a ditadura proporcionou, a quem o pôde ver, este belíssimo espectáculo. Ainda agora um pedaço de nostalgia se eleva do teclado onde escreve. Um verdadeiro luxo para ávida sede de conhecimento de então.

Circunstâncias pontuais, que agora não vêm ao caso, permitiram-lhe arranjar um bilhete de imprensa para o espectáculo. Nunca soube se as bilheteiras chegaram a abrir ao público.

Lembra-se dos enormes magotes de gente postados em frente do teatro, à espera de um qualquer passe de mágica que lhes permitisse assistir ao espectáculo.

Uma boa parte da sala, a rebentar pelas costuras, era constituída por agentes da PIDE.

Um espectáculo memorável, uma encenação simples, uma humildade de representação que fazia realçar todo o colectivo e em que se sentia toda a força do poema, a que a música de Chico Buarque emprestava, um viver e um sentir tão expressivos, e que a leitura do poema não permitiu, sequer, imaginar.

Passaram todos estes anos e nunca mais sentiu uma embriagues cultural como a daquela.

noite.

Ainda hoje não consegue alinhar meia dúzia de linhas decentes, apenas lhe saem banalidades.

Com o espectáculo a percorrer-lhe as veias, meteu pés por Lisboa fora, madrugada dentro, a falar sozinho ou, como dizia o José Gomes Ferreira, a falar com os fantasmas e a sua sombra.

Por um Dezembro-quase-Natal, de 1967, a descer a Rua do Carmo, viu na montra da Discoteca do Carmo, o disco de “Vida e Morte Severina”. Entrou, deparou-se com um preço-de-nota-preta.

Contou os tostões, o parco subsídio de Natal já tinha viajado para paragens outras, e os que pelo bolso viajaram, ficaram como sinal. Num ápice voltaria para finalizar o pagamento e, a certeza certa, que o resto do mês passaria a pão e água, salsichas Izidoro, mas que se lixasse: aquele gozo já ninguém lhe tirava.

Porque há coisas de que não podemos deixar passar ao lado.

Soube depois que o disco na montra era exemplar único, e já há alguns dias que por ali estava, sem ninguém nele reparar.

Por uma vez, sentiu-se um tipo com sorte!


 

Espectáculo patrocinado pelo Ministério da Educação Nacional, Ministério dos Negócios Estrangeiros e com a colaboração da Embaixada do Brasil.

 

Maio de 1966

 

O Xico nem precisa de letristas. Faz ele próprio. Mas tem graça que a primeira vez que o vi (tão menino ainda) a “letra” era do poeta João Cabral de Melo Neto. Produzia-se “Morte e Vida Severina” no Teatro Avenida. Xico, autor da música vinha integrado no TUCA (Teatro da Universitário da Universidade Católica de S. Paulo) e também representava. João Cabral, que acorrera propositadamente de Sevilha ou de Marselha para assistir (ver e dar assistência…), estava sentado a meu lado. Creio que nunca tinha visto “Morte e Vida Severina” em cena. Creio que estava a redescobrir o seu texto (pelo qual não devia já nutrir grande admiração, perfeccionista como é…) Quando, no final, os aplausos explodiram e começaram a chamar o autor ao palco, João, sem se virar, cada vez mais enterrado na cadeira, ia-me dizendo apavorado: “Não olha para mim! Não olha para mim!” Acabou por ter de ser. João Cabral foi coxia abaixo, pôs a mão no bordo da ribalta e com agilidade saltou para o palco. Abraços, agradecimentos ao público pela sua estrondosa ovação: João Cabral ao seu lugar. Digo-lhe: “V. saltou com uma facilidade!” E ele, com orgulho de rapazinho: “V. esquece que eu joguei futebol!


Alexandre O’ Neill em “Já Cá Não está Quem Falou”, Assírio & Alvim, Abril 2008.

POEMAS AUTOGRAFDOS


 Quando por aqui fizemos o registo dos poemas autografados da Colecção Poetas de Hoje, publicados pela Portugália Editora, por motivos que não consigo encontrar (?), faltaram dois volumes: um de João Cabral de Melo Neto, outro de Carlos Drummond de Andrade.

Hoje trataremos de Melo Neto, amanhã de Drummond.

É o nº 9 da Colecção Poetas de Hoje e para apresentação do poeta («apenas alguma indicações ao leitor comum»), a editora escolheu Alexandre Pinheiro Torres.

Quando Chico Buarque de Holanda, mais um grupo de universitários brasileiros, representaram em Lisboa Vida e Morte de Severina que vi no Teatro Avenida, já conhecia a peça de Melo Neto, pois faz parte desta antologia.

Diga-se que João Cabral de Melo Neto é um dos maiores poetas brasileiros, nascido em 1920 no Recife, estado de Pernambuco, que faz parte do nordeste brasileiro, e Alexandre Pinheiro Torres não hesita em dizer que Melo Neto é poeta de «génio autêntico».

sexta-feira, 19 de junho de 2026

POSTAIS SEM SELO


Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura.

Herberto Helder

Legenda: pintura de Silva Porto.

OLHAR AS CAPAS


 Francis Ford Coppola

Stéphane Delorme

Consultoria: Mário Augusto

Colecção Grandes Realizadores nº 7

Edição do jornal Público s/d

 

Podemos ficar parados no tempo.

Podemos ficar além do tempo.

Podemos ficar à frente do tempo.

Mas não podemos ficar sem tempo.

(…)

O tempo não espera por ninguém.

(Poema de Francis Ford Coppola tirado do seu Diário (18.09.1991).