segunda-feira, 2 de novembro de 2026

PEQUENOS CADERNOS


Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos. 

OS VELHOS E OS MORTOS


Velho recorte de um belíssimo texto do Mário Castrim, escrito com a sua letra, lembrando que Castrim, entre tantas outras coisas, foi professor de Caligrafia na Escola Francisco de Arruda.

PARA TODOS A MORTE TEM UM OLHAR


Aos poucos vamos deixando para trás o culto dos mortos.

Por este dia de finados, os caminhos para os cemitérios já não se encontram tão pejados de carros e pessoas como há uns anos atrás.

Os cemitérios já são pouco visitados.

Lembro que a Rua Morais Soares, caminho para o Cemitério do Alto de São João, há uns anos atrás, era um mar de gente com vendedoras de flores ao longo dos passeios.

Aos poucos, vai-se perdendo o culto dos mortos.

A incineração emprestou ao ritual da morte, outros olhares.

José Gomes Ferreira, no dia 2 de Novembro de 1968, escrevia nos seus Dias Comuns

«Hoje, dia de esquecer os mortos… De calcá-los bem na cova – com missas, crepes, luto, flores para coroar caveiras…»

A minha avó marcava o dia de finados acendendo, numa grande cómoda, de madeira muito antiga, lamparinas que se reduziam a um pires com azeite e um paviozinho, colocadas junto aos santos de devoção e às fotografias dos seus mortos.

O  meu avô exasperava-se com esta devoção. Dizia-me que o que devemos é respeitar e amar as pessoas enquanto andam ao nosso lado, o resto é hipocrisia e os fantasmas devemos deixá-los em seu sítio.

Muitos anos depois, hei-de ler em Dóris Graça Dias:

«Apaixonamo-nos pelas pessoas, quando as escutamos. Amamo-las. E só deixamos de as desejar quando deixamos de as ouvir.»

Creio que foi em José Tolentino Mendonça que li a interrogação:

E se pensar na morte fosse a melhor maneira de dar valor à vida?

Escreveu ainda:

À beira do fim há sempre tanta coisa que começa! 

Mas o poeta russo, Vladimir MaiaKovski, expressava:

Não é difícil morrer. Viver é muito mais.

Outro russo, Anton Tchekov:

«Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde estará ela? Qual morte” Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
- É então isto? – disse ele de súbito em voz alta. Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. “Acabou-se a morte – disse a si mesmo – Já não existe.”
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.»

Há aquela fala na Grande Paz de Edward Bond:

«Se eu pudesse tirar o ar do corpo dos mortos com o cuidado de quem põe um grão de areia em cima de outro, quando o ar lhes saísse da boca talvez as línguas deles falassem e me dissessem porque razão vivemos e sofremos e porque vivemos nesta terra e somos enterrados nela.»

Legenda: pintura de Jakub Schikaneder.


O título do texto é um verso de Cesare Pavese.

A MEU PAI

                                                                          A Meu Pai

                                                                          No Santo Dia de Finados

Pai! quando às horas do findar do dia,
A bruma vaga cobre, triste, o Espaço
E a mim me envolve na melancolia…

Pai! Diz-me: sabes que secreto laço
Me prende, a mim, que vago n’este mundo,
Triste, avergado sob o atroz cansaço,
A ti, que pairas lá no céu profundo?…

Pai! sou teu filho! – sou teu filho, sinto…
Não me renegues – sou teu filho, oh! Pai!…
Vês como eu vago n’este labirinto,
Perdido, triste, alucinado, – aí! –
Tal como a nave em que Israel vagou,
E, erma, ao acaso, sobre as aguas vai,
Sem já saber que força me guiou,
Sem que me guie já vontade alguma,
N’esta derrota que seguindo vou?

Pois, como à nave que não tem nenhuma,
Nenhuma sombra de tripulação,
Sorri ainda Vésper, de entre a bruma…
Tal ao meu enlutado coração,
Que já não guia nem um só anseio,
Sorri, ao longe, de entre a cerração,
Oh! Pai! O afecto do teu nobre seio!

Pai! meu sincero, meu finado amigo!…
Dormes, no Nada majestoso e triste,
Ou vives ‘inda, como a Dor existe?…

Pai! quem me dera, logo, ir ter contigo!…

Pai! A Desgraça se enlaçou comigo,
Desde que, um dia, oh Pai! tu me fugiste!…
Pai!, se, n’um voo, pelo céu, partiste,
Dize-me o rumo, quero ver se o sigo…

Pai! Tua pobre campa, tão singela,
Talvez não tenha, como as outras têm,
No dia de hoje, quem n’a enflore a ela…

Ai! que é tão triste não se ter ninguém!

Ao menos, Eva, o nosso encanto, – vê-lá? –
E Pedro, e Vasco… São contigo além!

 

Ângelo de Lima

domingo, 1 de novembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Aquele momento em que alguns dizem que há algo para lá e os que, pura e simplesmente, dizem que não há nada.

Autor desconhecido

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

MÚSICA PELA MANHÃ

Ontem, a polícia voltou a carregar violentamente sobre manifestantes em Lisboa e no Porto.

Diana Andringa talvez lembre que continuam a partir o espelho dos sorrisos de Abril, ou José Gomes Ferreira na sua Intervenção Sonâmbula: «Estamos no fim da Revolução», mesmo Mário-Henrique Leiria:

 «Porque foi isto assim possível? propomos a explicação de que houve, como "originalidade" típica, muito improviso no processo revolucionário, que esqueceu a sua defesa, criando a alastrando a angústia na pequena burguesia, camada significativa na sociedade portuguesa, a que até muitos trabalhadores as piram por força das motivações que o obscurantismo fascista teve longo tempo para semear.

Angústia semelhante à que agora ressurge com o agravamento das condições de vida, a subida arrogante da reacção, a incerteza do futuro que tem que ser construído de novo.
O Povo terá pois que teimar para que respeitem a sua vontade de acabar com a exploração do homem trabalhador pelo homem esperto. Para que as condições de vida sirvam as classes desfavorecidas. Para que acabem as perseguições aos que olham o futuro sem medo da mudança. porque a justiça social deixe de ser uma miragem evangélica no mundo dos mortos. Para quem produz trabalhando, exerça o poder, Para que sejamos verdadeiramente um país Democrático.»


Legenda: Celeste dos Cravos

NOTÍCIAS DO CIRCO


Os manifestantes pela habitação, por um futuro melhor, não desistem, a polícia não aprende, não se civiliza, não tem ponta de bom senso, e voltou a atacar, barbaramente, os manifestantes em Lisboa e no Porto.

«Desde já, quero deixar bastante claro que haverá participação criminal contra o ministro e contra o director da PSP pelo que eles fizeram esta noite. Uma noite negra para a história da democracia portuguesa. É absolutamente ultrapassado, intolerável. Ultrapassou todos os limites”, disse, em declarações às televisões presentes no local.»

Sá Fernandes, advogado 

Graça Castanheira, hoje, no Público:

«Anuncia-se para breve uma greve geral. Que bem poderia ser vivida como um ensaio para esse grandioso boicote futuro. Um dia de treino da imaginação política, feito de piqueniques na relva, de passeios, de puro lazer, de um ócio ativo e militante. Um dia de conversas boas, de beijos e de abraços, com uma passagem pela manifestação, mas sem ficar lá o tempo todo porque protestar é ainda uma forma de relação: quem grita continua a pedir que alguém ouça. A vila não voltou a pedir nada a Boycott; ignorou-o. É isso que adoraria começar a ensaiar: estarmo-nos mesmo nas tintas, à séria, para o capitalismo rentista. Hoje, por um dia. Um dia, para sempre.»

sábado, 31 de outubro de 2026

NOITES ESTRELADAS


As maravilhosas noites estreladas de Van Gogh.

As noites.

As bruxas.

A noite das bruxas.

Ninguém acredita que existam, mas que as há, há, pelo menos os espanhóis assim o dizem.

As noites da Azinhaga, aldeia ribatejana, a avó de José Saramago a dizer-lhe que tinha tanta pena de morrer:

 «Josefa, avó de José Saramago, sentada na soleira da porta, aberta para a noite estrelada, para o céu de que nada sabia e por onde nunca viajaria, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disse, com a serenidade dos seus noventa anos e o fogo duma adolescência nunca perdida: “O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer". Assim mesmo e disto se sabe por que Saramago estava lá nessa noite estrelada e, com ternura, deixou testemunho nas suas Pequenas Memórias.»

Pena de morrer, fazer passagem para Ernest Hemingway, no seu Por Quem Os Sinos Dobram:

«O mundo é um belo sítio pelo qual vale a pena lutar, e eu detesto ter que deixá-lo.»

As maravilhosas noites estreladas de Van Gogh.

As noites.

As bruxas.

A noite das bruxas.

Alguém escreveu que algumas cidades só deviam existir à noite. 

CONVERSANDO


 Fumar um charuto.

 Às vezes.

Quando o rei fazia anos, tem longa vida, ainda faz anos, mas não mais fumou charutos.

Também já não cachimba.

Falta de pulmão.

Raramente, muito raramente mesmo, fumou cigarros.

Lembra-se do pai que fumava  "Unic", tabaco negro, uns maços de cor azul, recorda-se perfeitamente. Depois fumou "CT", "SG" e "Ritz". Um dia apanhou um cagaço e cortou com os cigarros. Isso permitiu-lhe viver mais anos do que aqueles que viveria se continuasse a fumar.
Volta e meia, maquinalmente, metia a mão ao bolso à procura do maço de cigarros. Gostava que fumassem ao pé dele. Sabia-lhe bem aquele cheiro...
Morreu aos 78 anos com um enfizema pulmonar.

A vida é sempre um risco, com ou sem tabaco!

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

POSTAIS SEM SELO


O modo como, tranquilo, o tempo decorria era a lua altíssima passando pelo céu.

Clarice Lispector em A Maça no Escuro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

TRUMPALHADAS

Donald Trump, insultou um jornalista da Reuters que o questionou sobre o seu estado de saúde e a decisão de cancelar uma deslocação ao Kansas. Trump respondeu ao repórter garantindo que se sente "perfeito" e insultando o jornalista.

«Você é repugnante. Está com um aspeto horrível», disse.

PEQUENOS CADERNOS


 Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

À LUPA

A Lupa, inclina-se num trabalho de Nuno Pacheco, no Público, sobre o novo disco de Cristina Claro, e copia:

«As mulheres são as grandes transmissoras, tanto nas canções como nas histórias».

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A editora Tinta-da-China colocará nas livrarias, a partir de 19 de Novembro, uma Antologia Fotográfica de Augusto Cabrita, um dos grandes fotógrafos portugueses do Século XX.

«O legado de Augusto Cabrita é de sobremaneira singular. Nenhum outro autor português do século XX desenvolveu atividade simultânea na fotografia, no cinema e na televisão com conjunta qualidade e profusão. Este livro de fotografia reflete o seu elevado sentido estético, a sua mundividência e cultura visual.»

— Augusto António Cabrita, coordenador editorial do álbum que custará 45,00 euros.

«A tarefa do fotógrafo é «aprisionar a luz». E como era difícil — confessava Cabrita — levar o Sol para casa, «encaixotado» dentro de uma câmara escura. Tinha que «ser ‘amansado’, ‘domesticado’, na sua explosão petrificada, quando quer[ia] ‘nascer’ para fora do ampliador». […] Das janelas da sua casa no Barreiro (um quarto andar na Rua Almirante Reis), desfrutava uma vista magnífica sobre o rio. Não queria cortinas nas janelas, nada que se interpusesse entre ele e a luz.»

Jorge Calado sobre Augusto Cabrita, parafraseando a célebre formulação de Louis Daguerre sobre a fotografia.

ÁGUIA

As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas:

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

 

Carlos de Oliveira em Poesias

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


O homem só é profundamente o que aparenta.

José Gomes Ferreira

PEQUENOS CADERNOS


Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

TUDO BONS RAPAZES!...


A família Bolsonaro é um enorme conjunto de trastes.

Flávio Bolsonaro, não reconheceu a vitória de Lula da Silva, fugiu do Brasil e escreveu uma carta declarando-se “presidente eleito do Brasil”, mas voltou atrás declarando-se, apenas "líder" e não "presidente».

Donald Trump que pessoalmente, ou através dos seus “rapazes”, patrocinou a fuga bolsonarista, acha que a família Bolsonaro são boas pessoas.

Flávio Bolsonaro está a ser investigado por corrupção, branqueamento de capitais e evasão fiscal no Brasil.

O povo brasileiro reconheceu, a tempo, que Lula da Silva não será o melhor presidente do Brasil mas está muitíssimos furos acima do que aconteceria se Flávio Bolsonaro  tivesse vencido as eleições de domingo.

COMEÇOS DE LIVROS


 O maravilhoso começo de O Velho e o Mar de Ernest Hemingway:

«Era um velho que pescava sozinho num esquife na Corrente do Golfo, e saíra já por oitenta e quatro noites sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente “salao”, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro»

O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta

Original é o poeta

que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta

noutro pasmo ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse um abismo

e faz um filho às palavras

na cama do romantismo.

Original é o poeta

capaz de escrever um sismo.


Original é o poeta

de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não é de lugar algum.

O que gera a própria arte

na força de ser só um

por todos a quem a sorte faz

devorar um jejum.

Original é o poeta

que de todos for só um.


Original é o poeta

expulso do paraíso

por saber compreender

o que é o choro e o riso;

aquele que desce á rua

bebe copos quebra nozes

e ferra em quem tem juízo

versos brancos e ferozes.

Original é o poeta

que é gato de sete vozes.


Original é o poeta

que chegar ao despudor

de escrever todos os dias

como se fizesse amor.


Esse que despe a poesia

como se fosse uma mulher

e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.

José Carlos Ary dos Santos de Resumo em Vinte Anos de Poesia

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

RETRATOS

Magro, de olhos azues, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste da facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno.

Incapaz de assistir n'um só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura,
De zelos infernaes lethal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) n'um só momento,
E sómente no altar amando os frades,

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Sahiram d'ele mesmo estas verdades
N'um dia em que se achou mais pachorrento.


Bocage em Sonetos

POSTAIS


 O postal não tem data, nem origem, mas tem texto:

«Olhando para o rosto dos miúdos, milagre de hoje, esperança de amanhã.»

Colaboração de Aida Santos

PEQUENOS CADERNOS

                              

Mais livros de Viagens.

Colaboração de Aida Santos.

LÁPIDE NO FRIO DUMA PEDRA

«Morri…

E, em vez de me enterrarem na Lua,

longe da Guerra

e do Cárcere,

atiraram-me para aqui

onde o meu drama continua…

 

Pois hoje pertenço à Terra

e o planeta há-de vingar-se»

 

José Gomes Ferreira em Poesia II

terça-feira, 27 de outubro de 2026

PEQUENOS CADERNOS

Limpa-se o pó aos livros, limpa-se o pó aos discos, limpa-se o pó aos jornais.

O Outono é o tempo dessas limpezas.

Os jornais estão na arca, junto aos Pequenos Cadernos.

Nos jornais que por lá se encontram está um suplemento do Público: Fugas.

Está datado de 27 de Fevereiro de 2021.

Guardei o suplemento por mera curiosidade.

Alguns dos livros fazem parte da Biblioteca da Casa, a maior parte não estão por cá.

Entretanto fui desafiada para ir reproduzindo por aqui todos - eles disseram todos! – os livros que o Público apresentou.

Assim vai ser, e assim começo.

OLHAR AS CAPAS


O Velho Que Lia Romances de Amor

seguido de

Mundo do Sem Fim

Luís Sepúlveda

Tradução: Pedro Tamen

Círculo de Leitores, Lisboa, Abril de 1997

Com as primeiras sombras da tarde desatou-se o dilúvio, e poucos minutos depois era impossível para ver para além de um braço estendido. O velho deitou-se na rede à espera que chegasse o sono, agitado pelo violento e monocórdico murmúrio da água omnipresente.

Antonio José Bolívar dormia pouco. Quando muito cinco horas de noite e duas à sesta. Bastava-lhe isso. O resto do tempo, dedicava-o aos romances, a divagar acerca dos mistérios do amor e a imaginar os lugares onde aconteciam as histórias.

NOTÍCIAS DO CIRCO


O bornal do viajante que raramente é, está cheio, a transbordar mesmo, de gente que o desiludiu, sejam políticos, escritores, outras gentes.

Velho que já é, causa-lhe, agora, um certo engulho um tal Luís Neves, ministro da Administração Interna aqui do reino, antes polícia-mor da Judiciária do mesmo reino.

Mais ainda quando um tal Luís Montenegro, primeiro-ministro, também do reino, o mantém como horrível personagem governamental.

Conclusão básica:

O reino está ingovernável!

DIGO LISBOA

Digo: “Lisboa”

Quando atravesso – vinda do sul – o rio

E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse

Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna

Em seu longo luzir de azul e rio

Em seu corpo amontoado de colinas –

Vejo-a melhor porque a digo

Tudo se mostra melhor porque digo

Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência

Porque digo

Lisboa com seu nome de ser e de não-ser

Com seus meandros de espanto insónia e lata

E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro

Seu conivente sorrir de intriga e máscara

Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata

Lisboa oscilando como uma grande barca

Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência

Digo o nome da cidade

– Digo para ver.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


O mundo seria mais pacífico se fôssemos todos ateus.

José Saramago

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Ontem, mudou a hora no relógio da cozinha, também no velho despertador, tão velho como ele, que está na mesa de cabeceira ao lado de livros para ler.

Lembra-se que ainda não contou a história de, há muitos longos anos, não usar relógio de pulso, ou qualquer outro.

Há-de contar.

Por um destes últimos dias escreveu por aqui que os livros são muitos e após a 1ª leitura, voltamos a pegar neles, alguns para releituras, outros por circunstâncias várias.

Agora pegou em Por Saramago, por todos os motivos, um livro muito, mas mesmo muito bonito com que Anabela  Mota Ribeiro entendeu homenagear, em Novembro de 2018, o nosso único Nobel da Literatura e que começa assim: 

«Como uma pedra que faz círculos num rio de águas paradas. Uma reverberação lenta, um murmúrio longínquo e ainda assim audível. Tenho esta estranha sensação (de irrealidade) quando recupero a primeira entrevista que fiz a José Saramago. O escritor tinha 84 anos, o ponto de partida e columa da entrevista era um livro de memórias, a minha primeira pergunta apontava para uma despedida».

Lembra-se que esteve uma única vez com José Saramago, porque nunca o encontrou na rua, nunca foi a uma apresentação dos seus livros, estar na fila para um autógrafo, o encontro único aconteceu na Festa do Avante de 1977, aguardávamos vez para comer uma sandes de presunto, beber um copo de vinho da região, no pavilhão de São Pedro do Sul, terra do Carlos Carvalhas. Proveitosa conversa, apesar de curta, disse que estaria na cidade do livro para autógrafos. Já tinha todos os livros de Saramago, mas comprou O Ano de 1993, para aproveitar o registo do encontro e da conversa.

Agora vai reproduzir os sublinhados que fez no livro da Anabela Mota Ribeiro: 

 

A pergunta apontava para o que, em circunstâncias normais, comovia Saramago:

«Se for ali na rua com o seu marido, noivo, irmão, a sua mãe, e se você, ou um deles, lhe puser a mão no ombro, esse gesto tão simples pode comover-me. Não estou a afalar do abraço erótico.O abraço, os braços que rodeiam o corpo do outro, essa proximidade entre dois seres, comove-me. Comovem-me as grandes tragédias, silenciosas ou não. Sou realmente uma pessoa sensível. A gente com a idade torna-se mais frágil, está tudo à flor da pele, ao contrário daquilo que se crê, que com a idade se endurece. Pelo menos não é o meu caso.» (pág. 27).

«E os meus amigos e todos os que me conhecem podem confirmá-lo. Não tenho pose. Gosto muito quando vou na rua e as pessoas me param: “É só para o cumprimentar, como vai?, gosto muito daquilo qu escreve.” São pequenas glórias praticamente quotidianas.» (pág. 30).

«Limito-me a dizer aquilo que penso. Se tenho algum motivo de orgulho, e creio que tenho direito a tê-lo, é poder dizer que a mim ninguém me cala.

(…)

No outro dia estava na Itália e disse, com grande escândalo do Vaticano, que achou que era uma provocação infame, mais uma da minha parte, que o mundo seria mais pacífico se fôssemos todos ateus.»

(pág. 36).

«O Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: «A tua vida é um milagre.» E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.» (pág.38).

CONTINUA

Legenda: Ilda Reis, então mulher de Saramago, a filha Violante.


O IMPOSSÌVEL SONHO, ACONTECEU!


 O Brasil, após a vitória de Lula da Silva, canta nas ruas, dança, ri brinda.

É esse o tempo.

Outros se seguirão, de certeza muito complexos.

Lula da Silva disse, ontem, que irá modificar sua maneira de governar.

Esperemos que sim.

O traste Flávio Bolsonaro, vai exigir a anulação das eleições, e talvez peça refúgio em braços trumpistas!                                                                     

COMPANHEIRA TE CHAMAMOS

                                                                                  Para Maria Lamas


Porque trazes na voz a voz das companheiras
Companheira te chamamos

 

Porque no teu olhar se alargam os olhos que semeiam e vigiam
o sol a todas as alturas, o sol dos meninos e das colheitas
Porque nele se tornam mais límpidos os olhos das namoradas
Companheira te chamamos

 

Porque nele gelam as lágrimas do medo e da dor
Gelam e estalam desfeitas num pranto de calor

Porque nos teus olhos continuam acesos os olhos vendados de encontro às paredes

 

Porque trazes no peito o sopro das nossas irmãs
O sopro resoluto do trabalho, o verde e dourado sopro que branqueia o pão
O sopro das que amam
E amando crescem e envelhecem ao nosso lado
Das que amam
E amando tombam em cada dia num só momento por milhões partilhado

 

Porque caminhas na terra dividida
Por uma estrada aberta pelo esforço dos povos
Onde cada presença é um apelo e cada apelo uma conquista
Porque até o sol remoça na neve tranquila dos teus cabelos
E o vento sopra-te com a mesma força que a nós
Companheira te chamamos

 

Porque as palavras na tua boca
Têm a medida do mundo e a face dos mortais
Porque no teu ventre a fome e a vida se completam
Porque no teu rosto fala o tempo até nós
Mãe te chamaríamos
Companheira te chamamos.

Orlando da Costa

domingo, 25 de outubro de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO


Algo está podre no reino da polícia portuguesa!

Títulos e palavras:

Polícia volta a avançar sobre manifestantes pacíficos em protestos pela habitação

Houve 31 detenções, 11 pessoas feridas de acordo com a PSP. Foram retiradas tendas.

Sinto vergonha do meu País: manifestante emociona-se a descrever intervenção policial durante protestos em Lisboa

31 pessoas foram detidas e pelo menos 11 ficaram feridas, na madrugada deste domingo

"O que eu vi foi força física para fazer cumprir a lei", afirma Luís Neves sobre carga policial nas manifestações pela habitação.

O presidente daquela coisa defende a intervenção da polícia nas manifestações e volta a criticar silêncio de Montenegro.

José Luis Carneiro exige ao primeiro-ministro que quebre o silêncio e que assuma "a sua responsabilidade".

O porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho, defendeu que existiu proporcionalidade na resposta policial às manifestações desta madrugada pelo direito à habitação e acusou o secretário-geral do PS de irresponsabilidade e hipocrisia.

Afirmou ainda que o PSD recusa "uma falsa clivagem" entre a autoridade dos polícias e a liberdade de expressão dos manifestantes, dizendo que houve arremesso de objetos por parte dos segundos contra a polícia.

Em reação às críticas de José Luís Carneiro, que exigiu esclarecimentos ao primeiro-ministro, o porta-voz do PSD Bugalho disse que Luís Montenegro "não entra em torneios de conferências de imprensa" com deputados ou líderes partidários.

Alexandra Leitão, dirigente do PS, também pede a intervenção do presidente da República António José Seguro.

sábado, 24 de outubro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Falemos de casas como quem fala da sua alma,

Entre um incêndio,

Junto ao modelo das searas,

na aprendizagem da paciência de vê-las erguer

e morrer com um pouco, um pouco

de beleza».

Herberto Helder