A morte essa é um maravilhoso número indivisível.
Alexandre
Pinheiro Torres
Um livro que se encontra no Outro Lado das Estantes, que apresentámos en 29 de Julho, irá servir-nos para reproduzir alguns cortes que um conjunto de censores-militares-analfabetos exerceram no jornal Expresso, bem como em outros jornais portugueses.
O Sol, no dia
em que, por breves instantes, a Lua o escondeu, deixou-nos às 20h34m.
Legenda: fotografia tirada do sítio do costume.
João Carlos
Raposo Nunes, nasceu em Lisboa, em 1955 é livreiro e alfarrabista na baixa de
Setúbal, perto da Câmara Municipal.
O Raposão
passou a ser um dos comparsas do Luiz Pacheco e que amiúde lhe mandou, durante
13 anos bilhetes-postais, cartas, o que calhava.
Convém
lembrar, se há escriba que deram largo trabalho aos Correios portugueses, Luiz
Pacheco está em lugar de topo.
Segundo João
Pedro George, Luiz Pacheco sofria «de compulsão epistolar.»
O próprio
Pacheco escreveu:
«No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que
o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica
com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo».
Postal de Pacheco para o poeta Zé Gomes
Ferreira em 14 de Abril de 1968:
«Chego a Lisboa de Albarraque e encontro
um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz
Pacheco a pedir-me 50 escudos.
«Encontro-me numa fase em que não me
repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um
empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome.
Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao
Queneau.»
Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.
Do prefácio:
«No entanto, talvez seja através das
suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito
de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das
suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou
das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no
percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se
coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por
ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado
apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias
entrevistas e depoimentos que se conhecem.»
Temos, pois, mais um livro de cartas do Pacheco.
Luiz Pacheco
Correspondência de Luiz Pacheco
Para João
Carlos Raposo Nunes
(1990-2003)
Edição:
António Cândido Franco
Capa: Luís Henriques
Maldoror,
Lisboa, Junho de 2020
2º feira, 11 de Novembro 2002
Dia de S.
Martinho!
Meu caro
Raposão
És capaz de
já saber. No dia 23 deste mês, um sábado, é lançado aqui na Livraria Ler
Devagar, no bairro Alto, um livrinho meu, um conto de Natal. Gostava que
viesses. A distribuição é da Editorial Notícias. Tens crédito lá? Para mim é
uma ALEGRIA. O Carlos Curto organiza uma Performance, com o actor João LAGARTO;
é um BOM actor, conheço da televisão. Eu andava à rasca e talvez assim
equilibre as finanças.
Esteve aqui
um velho Amigo meu que mora ao lado do teu pai, na Graça. É o Benjamim
Monteiro, ilusionista e grande
PÂNDEGO
Ele falou com
o teu Pai. Vou escrever-lhe para ele assistir ao lançamento.
Aquele MARAU
do Capêlo tem aparecido? O Carlos Dutra contou-me uma cégada em Évora com ele e
com o escritor que é irmão do Orlando Vitorino (ou estarei enganado? o Telmo.
Aparece
Abraços
castos do
Luiz Pacheco
Enquanto o sol arrefece
Aproveitemos o tempo,
Pois nem sempre o que acontece
Muda o sentido do vento.
Abraçamos – de mãos postas –
A esperança da redenção,
Mas se há vento pelas costas
Mudamos de direcção…
Espada de ferro temperado
As limalhas no cinzeiro,
Como o vento moderado
Pode atrasar um veleiro…
A Terra tem duração,
Como embalagem perdida,
O nosso mundo é balão
Ameaçando descida…
Não te detenhas e esquece
O peso desta ameaça,
Enquanto o sol arrefece,
Fica no tempo que passa!
Lisboa,
24 de Janeiro de 1997
Henrique Segurado em Resumo: a poesia em 2012
Um livreiro é alguém que tem de ser um
bom leitor antes de tudo, tem de ter alguma cultura e sabendo que é uma
profissão para empobrecer alegremente. É alguém que acredita que um mundo sem
livros seria um mundo muito mais pobre.
José Antunes
Ribeiro
Legenda: cena do filme What´s New Pussycat? De Clive e Donner, 1965, com Woody Allen e Romy Schneider.
Tanta gente para, ao longo do país, olharem a lua
tapar o sol.
A Maria
Judite de Carvalho, num dos seus livros, diz: «Todos estamos sozinhos,
Mariana; Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém
vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma
esperança.».
As
televisões, com a mediocridade, a banalidade habituais, com que abordam tudo o
que tocam, ocuparam todo o tempo, do antes e do depois, do eclipse do sol.
A cmtv colocou
em «alerta»: «o eclipse está a fascinar os portugueses».
Algures, um
português diz ao repórter: «a graça disto, deixa um gajo maravilhado!»
O
primeiro-ministro, ainda antes do eclipse, afirmou, em Cascais, aos
jornalistas:
«O governo trabalha todos os dias,
24 horas por dia, sete dias por semana", deixando ainda um pedido, uma reflexão à
comunicação social sobre as suas prioridades.
E, ternamente, voltei a ouvir falar de Rio de Onor, uma aldeia com 43 habitantes, que recebeu centenas de visitantes, pois era aí que o eclipse se mostraria a 100%.
«Além de ser uma notícia com carga emocional positiva, é um fenómeno irrepetível para muitos de nós, pelo menos em Portugal: o último (total) foi em 1912- e o próximo será em 2144. A excepção são os caçadores de eclipses, que andam pelo mundo à procura de ver a Lua ensombrar o Sol: alguns podem ficar-se apenas pela Península Ibérica (caçadores parciais) e terão a sorte de poder assistir a três entre 2026 e 2028 — e temos alguns desses nesta redacção.
A corrida aos óculos, que a 24 horas do eclipse surgiam à venda com preços que iam dos 10 aos 100 euros em plataformas de revenda online, comprova que há um certo fascínio na escassez e que fenómenos destes são imperdíveis.
Logo à tarde, haverá milhares, quiçá milhões, de telemóveis apontados ao céu.
Teremos apenas 20 segundos, um minuto ou quase dois de eclipse total, consoante
o sítio onde estivermos. Numa altura em que fotografamos tudo aquilo que
receamos esquecer, do mais banal prato de comida ao nascimento de um filho,
deixo-vos um dilema muito contemporâneo: quanto desse (breve) tempo queremos
passar a olhar para um ecrã?»
Do editorial de Sónia Sapage no Público de hoje
Writer's block issues out of fear
– but of what?
Dawn Raffel,
The Truth about Writer’s Block
«Li
no Público um
conjunto de testemunhos de reformados que escolheram (puderam escolher)
continuar ativos profissionalmente. Impressionou-me a declaração de um deles
sobre o que sentia quando estava inativo: “Acordava de manhã e não via qualquer
sentido em começar o dia.”
Enquanto
reformado, e com um título que evoca festas e prazeres (“jubilado”),
confronto-me com o meu próprio projeto ideal, que toda a vida concebi para esta
situação, e com os múltiplos sentidos que se abrem ao começar o dia. E existe,
felizmente desde há pouco tempo, um elo que falta nesta corrente, um propósito
que me é concedido ou negado com uma arbitrariedade que nega qualquer sentido:
a escrita da poesia.
Eu
sempre pensei que a escrita literária viria preencher toda a minha necessidade
de atividade plena e de sentido para os dias. E assim foi, no princípio. Mas,
depois de oito anos passados fora de funções oficiais, e com quatro livros
entretanto publicados, encontrei-me de repente com o chamado “bloqueio da
escrita” e recordei a lição de Rilke (“pergunte a si próprio, no íntimo da sua
noite, se conseguiria viver sem escrever poesia”) e o exemplo do meu amigo Nuno
Júdice, todos os dias trabalhando na sua luta com as palavras. E
interroguei-me, com algum susto, sobre o sentido de algo que preenchera tanto a
minha vida e os meus projetos.
Nada
há mais solitário do que escrever. Blanchot dizia que era como uma experiência
da morte, mas não é preciso ser tão radical para reconhecer que este ofício
implica uma solidão radical, que pode ser “jubilosa” ou hostil, conforme os
acasos da nossa mente (havia uma canção chamada The Windmills of Your Mind, lembram-se?) e a nossa mente
encanta-se com coisas que nos parecem absurdas e é capaz de desanimar nas mais
felizes conjunturas. Um verdadeiro catavento...
Não
sei que interesse poderá ter para os meus leitores esta confissão pessoal, que
posso ainda enfeitar com pedantes citações, recordando que Aristóteles, na
sua Metafísica, estabelece
que “toda a potência é ao mesmo tempo impotência, pois supõe a potência de não
passar ao ato”, o que muito bem Melville representou no seu Bartleby: podemos “preferir não
fazer”. Mas essa preferência, neste caso, não vem da nossa vontade esclarecida,
do nosso ego: vem de forças obscuras que trabalham o nosso inconsciente, o
nosso id, e que só o dr. Freud nos saberia explicar.
O
vazio do reformado é um encontro em forma simplificada com esse vazio em que
ousa mover-se a escrita e a poesia. Vazio que permitiria à poesia, nos termos
de Agamben, realizar “uma operação na linguagem que desativa e desliga as suas
funções comunicativas e informativas para as abrir a um novo uso possível”; ou,
nos termos de Espinoza, “o ponto em que a língua, ao desativar as suas funções
utilitárias, repousa em si mesma e contempla a sua potência de dizer”.
Então
será só a poesia que me faz esperar em silêncio, no meio de toda esta
jubilação, procurando apenas o melhor momento para fazer a sua entrada.»
Luís
Filipe Castro Mendes, crónica no Diário
de Notícias
Discussão entre vendedores de louro prensado na Baixa de Lisboa, acaba com homem a puxar de pistola e atirar contra rival. Falhou o alvo, mas acertou numa mulher sueca que estava a comprar pastéis de nata.
Quando me sentei na mesma mesa de café
em que o pessoa tomava café, no martinho
da arcada,
e o eléctrico que passava era oi mesmo
que ele apanhava para ir trabalhar,
tinha
uma dúvida se não tivesse com ele algum papel
para escrever o poema que tinha na
cabeça,
conseguiria escrevê-lo no bilhete,
parindo
do princípio de que se consegue meter
num bilhete
de eléctrico, uma ode, mesmo que não
seja
tão triunfal como a outra? E apanhei o
mesmo
eléctrico que ele, embora não tivesse
a certeza de que me estava a sentar
no mesmo banco em que ele se sentava,
e comecei a escrever nas costas do
bilhete
uma ode inteira:
Um poema não precisa
de caber num bilhete, se um bilhete
nos levar para o poema.
Na realidade,
a ode coube no bilhete, só não sei
se o bilhete chegou para me levar
onde eu queria.
Nuno Júdice
em Primeiro Poema
Soube-se agora.
Donald Trump,
o presidente do país mais poderoso do mundo, depois da cimeira da NATO, no mês
passado, saiu de Ancara num avião secreto, numa operação simulada e
desencadeada por uma alegada ameaça de assassinato por parte do Irão, avança o
The Washington Post.
De acordo com
informações avançadas pelo jornal norte-americano, a operação envolveu três
aeronaves diferentes. Donald Trump embarcou em Ancara, para seguir para
Mildenhall, no Reino Unido, num primeiro momento e diante das câmaras, no avião
Air Force One, tendo depois sido transportado para uma outra aeronave militar
secreta - um Boeing 757. O presidente dos EUA foi levado até à aeronave num
camião de catering, geralmente utilizado para transporte e serviços de
alimentação.
Ao mesmo tempo, jornalistas e funcionários da Casa Branca também embarcaram no Air Force One, acreditando que Donald Trump estava a bordo. Relatos apontam que os passageiros foram previamente instruídos a baixar as persianas das janelas. Depois de chegar a Mildenhall, como previsto, os fotógrafos registaram imagens de Trump a desembarcar do avião presidencial, sugerindo que reembarcou no Air Force One fora da vista do grupo de jornalistas que pensavam estar a viajar com ele. Em declarações aos jornalistas, Trump referiu a ameaça iraniana, mas não mencionou a troca de aviões.
Após a breve
visita à base em Mildenhall, Trump embarcou no novo Air Force One para seguir
viagem até Washington.
Quando
questionado sobre as ameaças do Irão, Trump respondeu: "Bem, recebo
ameaças a toda a hora. Sou o número um na lista deles, antes de vocês",
disse.
Com Donald Trump tudo pode acontecer!
José
Afonso
org.
e pref. José Viale Moutinho
capa de Sousa Pereira s/ fotog. de Viseu Caldeira
Porto,
1972
Livraria
Paisagem
1.ª
edição
200
mm x 125 mm
128
págs.
exemplar
em muito bom estado de conservação; miolo irrepreensível
35,00
eur (IVA e portes incluídos)
Reunião
de notas críticas e de textos de apoio à edição dalguns discos de Zeca Afonso,
em que avultam os nomes de Urbano Tavares Rodrigues, Fernando Assis Pacheco,
Bernardo Santareno, António Cabral, etc. O compilador, José Viale Moutinho,
completa o volume acrescentando-lhe uma longa antologia de poemas para as
canções e uma dezena de inéditos. Daqui, o poema «Fui à Beira do Mar» (que veio, posteriormente, a surgir cantado
no disco Eu Vou Ser Como a
Toupeira, tendo sido substituído o termo «arfar» por «lavrar»)
«Fui
à beira do mar
Ver
o que lá havia
Ouvi
alguém cantar
Que
ao longe me dizia
Ó
cantador alegre
Que
é da tua alegria
Tens
tanto para andar
E
a noite está tão fria
Desde
então a arfar
No
meu peito a alegria
Ouço
alguém a bradar
Aproveita
que é dia
Sentei-me
a descansar
Enquanto
amanhecia
Entre
o céu e o mar
Uma
proa rompia
Desde
então a bater
No
meu peito em segredo
Sinto
uma voz dizer
Teima,
teima sem medo»
pedidos
para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089 [chamada para rede móvel
nacional]
Este livro de José Afonso encontra-se na Biblioteca da Casa desde Setembro de 1972 e
foi comprado na Livraria Opinião de saudosa memória, agora num tempo em que as
livrarias já quase desapareceram da cidade.
CASA DAS
IMAGENS LAURO ANTÓNIO
Rua da Velha Alfândega,
N. 8.
2900-660-
Setúbal
Telefone:
969754116
«A Casa das Imagens Lauro António –
Biblioteca, Mediateca e Arquivo, inaugurada a 8 de maio de 2021, reúne o acervo
doado pelo cineasta e crítico de cinema Lauro António à cidade de Setúbal.
A Câmara Municipal de Setúbal adquiriu e
adaptou um edifício da Baixa, com uma localização privilegiada, para consulta e
fruição pública de todos os que nos visitam e têm interesse pela sétima arte.
Tem por missão a recolha, proteção,
preservação, conservação, divulgação e dinamização do património audiovisual,
promovendo em permanência a construção do conhecimento sobre a sua história,
atualidade e futuro.
Neste espaço cultural reúne-se um acervo
relacionado com a imagem – com publicações de cinema, audiovisuais e televisão,
assim como de banda desenhada e cartoons, revistas especializadas de cinema,
DVD, cartazes, documentação e arquivo pessoal de Lauro António reunido durante
uma vida.
Na Casa das Imagens encontra-se uma
biblioteca especializada na temática da imagem, com foco especial no cinema, e
uma sala de audiovisuais, que alberga mais de 3500 filmes.
Afirma-se como espaço de fruição do
cinema e do audiovisual, nas suas múltiplas vertentes, promovendo exposições
temporárias, ciclos de cinema temáticos, tertúlias com atores, realizadores e
outras atividades em torno do cinema, da imagem e do audiovisual, para
diferentes públicos.»
«Quando tomei a iniciativa de propor à Câmara
Municipal de Setúbal a oferta da minha biblioteca e de grande parte do recheio
da minha casa particular, muitos me perguntaram porquê Setúbla?
Desde logo por ser terra de que sempre
gostei (..) mas estou ligado a Setúbal por uma série de efemérides, desde o
facto de ter sido um dos fundadores, juntamente com o Manuel Costa e Silva, do
Festival Internacional de Cinema de Tróia, até à encenação de uma peça minha “A
Encenação”, no TAS, a convite do saudoso Carlos César, ainda no velho Luisa
Todi»
Lauro António, 18 de Agosto de 2020
«Tem sido uma verdadeira corrida aos óculos de sol para poder observar em segurança o eclipse solar desta quarta-feira. Nas últimas semanas, têm sido muitos os portugueses que procuraram óculos de sol nas farmácias e óticas, primeiro os gratuitos, disponibilizados pela Ciência Viva - e que esgotaram no final da semana passada, mesmo após reposição de ‘stock’ - e posteriormente os de venda, com preços a rondar 3 euros por unidade, que têm esgotado em vários estabelecimentos.»
Correio da Manhã
Amanhã chegaste a minha vida
e disseste bom dia e era noite lá fora
puseste-me na mesa o prato da comida
acenaste-me adeus e não te foste embora.
E como era manhã vestiste o meu pijama
Tomaste um comprimido para dormir
acordada
como era hora de almoço chamaste-me para
a cama
como era hora da ceia bebeste-me
ensonada.
E quando temos frio aquecemos à lua
as mãos que penduramos na corda de secar
quanto mais roupa trazes mais eu te
sinto nua
e quanto mais te calas mais te sinto
cantar.
António Lobo
Antunes em Livro de Poemas
«Em 15 anos, as piscinas na Charneca de Caparica quase duplicaram. A análise feita pelo PÚBLICO mostra que, entre 2011 e 2026, o número desses equipamentos passou de 1786 para 3469 nesta zona de Almada, que foi aquela em que o consumo de água mais subiu em 2026, o ano em que o concelho tem tido cortes no abastecimento. Não foram só estas infra-estruturas que aumentaram: há mais habitantes, licenciamentos para nova construção e edifícios concluídos.»
Público, 10 de Agosto
A conclusão de tudo é só a morte
e não há mais epílogo nem finda.
Não se termina o verso nem o curso
mudamos à conversa interrompida.
Não findamos o verso nem acaba
o desfazer-se o mar contra esta praia.
A conclusão de tudo é só a morte,
nem o silêncio quebra a sua amarra.
Sequer há conclusão? Sequer há morte
nas palavras deixadas pelos recantos
mais sujos e perdidos do seu norte?
Amor que nos moveu no desalento,
a pátria destes versos foi só pura
imaginação por dentro da memória.
(Mas já outras canções nos estremecem:
longe do coração começa a História.)
Luís Filipe
Castro Mendes em Poemas Reunidos
Lembram-se
daquela gentinha que, nos tempos áureos do BES, nos dizia que iam para aComporta «brincar aos pobrezinhos»?
Sim, adeptos
incondicionais do vazio, da estupidez, daquilo a que se entende chamar «estação
estúpida».
Coisas e
coisinhas que me colocam no limiar do vómito.
Aqui se
apresentam 4 capas de revistas ditas cor-de-rosa.
Gente de que
nunca ouvi falar, gente de que ouvi falar, a maior parte, por péssimas razões.
Uma tristeza
muito grande.
Há muitos anos
que somo assim e sem qualquer luzinha ao fundo de um túnel que nos possa dizer
que vamos mudar.
Muito pelo contrário!
Hoje, fui
buscar um EP de Mário Lanza, de que gosto muito.
Colaboração de
Aida Santos.
Silenciar é pior que dizer mal, é matar em
vida.
A beleza não está na cara nem no corpo, mas
sim no coração.
A gentileza dos desconhecidos.
Seremos sempre cúmplices do silêncio.
Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza.
Ficar a saber que ninguém tem a última
palavra.
São assim as mais pequenas histórias do
mundo.
Uma cabala nunca vem só.
Quando Ana Cristina Leonardo, volta e meia, conta esta
história do seu pai, apresto-me a reproduzi-la:
«No final da década de 40, inícios de 1950, os EUA e o sonho americano tinham
mais fãs do que muitos imaginam dentro das fileiras dos que lutavam contra o
regime de Salazar. Numa reunião de oposicionistas em Olhão, uma arrebatada
plateia criticava a miséria portuguesa enquanto exaltava o progresso do
Eldorado americano onde toda a gente tinha emprego, casa e viatura própria. E
foi no meio dos gritos de “Um Cadillac para cada olhanense!” que o descansado
do meu pai pediu a palavra e, tentando acalmar os ânimos, contrapôs: “Para já,
uma bicicleta a pedais para cada português. Os Cadillac, logo se verá”».
1.
Estrangeiros conseguem pagar em média mais 43% por uma casa em Portugal, inflacionando o mercado imobiliário, agravando a sobrevalorização e os problemas de acessibilidade da habitação no país
Jornal de Notícias, 27 de Maio
2.-
Duplo emprego atinge máximo num mercado de trabalho instável e de baixos salários. O número de trabalhadores com com dois ou mais empregos em Portugal tem vindo a crescer e atingiu em 2025 o seu recorde com um afluxo superior a 267 mil pessoas.
Jornal de Notícias, 1 de Maio
3.
À boleia do disparo dos preços do
petróleo nos mercados internacionais, a Galp Energia registou uma melhoria de
44% dos lucros nos primeiros seis meses do ano.
4.
«Portugal registou quase 700 mortes
acima do esperado este Verão
Até ao momento "foram identificados três períodos onde ocorreram mortes em
excesso" durante o Verão, dos quais resultaram 680 mortes acima do
esperado para a época, segundo as estimativas da Direcção-Geral da Saúde e do
Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Os valores observados
"ficaram abaixo do impacto na mortalidade estimado pelo Índice
Ícaro", um sistema que estima o possível impacto das elevadas temperaturas
na mortalidade. Vários países europeus estão por esta altura a enfrentar
novamente temperaturas excessivas, mas para já Portugal está a escapar à
situação. As autoridades de saúde mantêm-se atentas.»
Público 7 de Agosto
5.
Os
técnicos do INEM fizeram 365 mil horas extras em 2025.
6.
O número de moradores da avenida da Liberdade passou de escassa meia centena de pessoas há 15 anos para cerca de um milhar hoje em dia.
Hoje, ficamos com Elgar.
«Ao longo dos tempos, o meu pai foi um
atento espectador das transmissões televisivas dos “Concertos para Jovens” de
Leonard Bernstein, dos “Concertos Promenade”, dos “Concertos de
Ano Novo.”
Dos “Concertos Promenade” gostava
particularmente da última noite, onde infalivelmente, aparecem
a "Marcha de Pompa e Circunstância" de Elgar, o “Rule,
Britannia”, e “Jerusalem", com toda a sala a cantar em coro. Nunca
conseguiu encontrar um disco, ao vivo, de uma das últimas noites dos Proms, mas
ouvia, com regularidade, a “Marcha de Pompa e Circunstância”.
Lembro-me do dia em que telefonou a dizer que comprara o disco na “Discoteca
Melodia” e que isso merecia uma garrafinha.
Comovia-se com os “Concertos de Ano
Novo”, principalmente quando o maestro se dirigia ao público, na Grande
Sala do Musikverein cheia de glamour e flores, e aos milhões de espectadores
espalhados pelo Mundo, gritava o seu “Prosit Neujahr”, a habitual
saudação de Ano Novo.
E nos anos em que, juntamente com o meu
pai, vi o concerto, lá estava ele a informar que os bilhetes para o
concerto do ano seguinte esgotavam logo nos primeiros dias de Janeiro.
Curiosamente, na entrevista que, em finais
de Outubro, António Lobo Antunes concedeu a Ricardo Araújo Pereira, e publicada
pela “Visão”, ele diz:
“Eu vejo sempre o concerto de Ano Novo, com música do Strauss, e comovo-me ate
às lágrimas.”».
Um tribunal federal de recurso decidiu, esta sexta-feira, que a administração de Donald Trump deve interromper a construção do salão de baile de 400 milhões de dólares na Casa Branca, alegando que o projecto não tem apoio do Congresso. O presidente já confirmou que vai recorrer para o Supremo Tribunal.
O Autómato
Alberto Moravia
Tradução: Manuel Martins de Sá
Capa: Vítor Ribeiro
Colecção: Os Livros das Três
Abelhas
Publicações Europa-aAmérica,
Lisboa Novembro de 1964
- Para mim, minha irmã é como se tivesse morrido – disse inesperadamente
Marco.
Mas eu não compartilhava desta sua tristeza; a inutilidade dos seus esforços fazia-me quase sorrir, como aquelas leves angústias que nunca se sabe muito bem se trazem prazer ou sofrimento.
para o Miguel Martins
Não estejas só. Tu também és
o que já foste e o que esperaste
vir a ser . A manhã que se aproxima
há-de passar, não importa. Para já,
os diligentes aviões da madrugada
sobrevoam o desenho das colinas
de Lisboa – e cá dentro, muito fundo,
numa redoma de música, os amigos
ainda bebem para esquecer
o futuro, que outro remédio
não têm, se a hora não se repete
e a vida é só espuma
Rui Pires
Cabral em Resumo: a poesia em 2012
Chamou-se Ponte
Salazar até ao dia da madrugada clara e limpa, e passou a chamar-se Ponte 25 de
Abril.
Oliveira
Salazar nunca concordou com a obra e nem por escassas horas um dia se dignou
visitar as obras.
Calcula-se que
cerca de 150 mil veículos e 174 comboios passam diariamente na Ponte 25 de
Abril, totalizando mais de 300 mil pessoas.