Pelos idos de
67, o Em
Órbita lançou um convite aos ouvintes para que, por escrito,
enviassem ideias e que outras músicas entendiam deviam ser passadas no
programa.
O prémio consistia
numa visita aos estúdios da Sampaio e Pina para presenciar, in loco, a
realização do programa feito por nós e dito por mim.
Por esses
tempos, andava eu enredado na música brasileira, esperar não é saber,
quem sabe faz a hora não espera acontecer, contestação para um lado, Chico
Buarque para o outro, pelo meio Gilberto Gil, Nara Leão, Caetano.
Esgalhei um
arrazoado sobre essas músicas.
Os rapazes
gostaram e, nessa semana, mandaram-me aparecer por lá.
Lamentavelmente,
perdi esse texto, batido à máquina, na minha velha Erika, que ainda
está por aqui, como peça de museu.
Foi um belo
pedaço de fim de tarde e até calhei num dia em que o alinhamento não tinha sido
feito, os LPs foram saindo do armário colocados à papo seco, mas tudo aquilo
eram grandes canções e, enquanto os discos rodavam o Cândido Mota, com aquele
seu ar bem disposto, profissional de mão cheia, ia colocando os discos e
mostrava-me o último relógio de pulso que adquirira para a sua larga colecção.
Como convidado,
alinhei na votação dos melhores discos da semana. Tinha que escolher cinco mas,
hoje, apenas me recordo de Dedicated To One I Love dos The
Mamas and The Papas e o White Rabit dos Jefferson
Airplane.
Disseram-me que
aparecesse quando quisesse e assim foi acontecendo.
Numa das
conversas com o João, veio à baila a ideia que existia na equipa para
apresentar canções de artistas portuguesas, mas as dificuldades eram muitas, a
maior delas a obrigatoriedade de não fugir à qualidade do programa.
Falei-lhe,
então, do Adriano Correia de Oliveira, que nesse sábado iria realizar uma
sessão de canto (ainda não) livre, na Baixa da Banheira, em que também
participavam o Carlos Paredes e o José Carlos de Vasconcelos.
Acertámos em ir
falar com o Adriano.
Assistimos ao
concerto, alinhámos no convívio no bar da Sociedade, muita conversa, uns
queijinhos frescos, jarros de vinho tinto e aguardar o tempo para uma conversa
serena com o Adriano.
Só que o Adriano
era a imprevisibilidade em pessoa e no meio de tudo aquilo apareceu o escritor António
Borga a dizer à malta que o Fernando Lopes Graça estava
num fogo de campo na Costa da Caparica com o coro da Academia
dos Amadores de Música e foi a debandada quase geral. O Adriano
esqueceu a conversa.
Nada havia a
fazer.
Eu, o João e a mulher
regressámos a Lisboa no seu Carocha.
Não houve mais
oportunidade de voltar ao assunto.
Poucas semanas
depois dessa noite de sábado na Baixa da Banheira, assentei praça em Tavira.
É o sebastianismo colectivo que na lenda se retrata, a
ideologia negativista dos que se alimentam da crença irracional em coisas, em
valores, em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos
Messias do oportunismo e da mistificação.
Uma tentativa honesta e inédita de lançamento das bases de uma música popular
portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteira.
Temos para nós que o trecho que vamos apresentar preenche os requisitos mínimos
para a sua divulgação por este programa, com todas as implicações que a sua
transmissão através de "Em Órbita" acarretam.
Tendo por título "A Lenda De El-Rei D. Sebastião", é escrito por um
português tocado e cantado por portugueses.
Vamos apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo,
focando em especial os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e
vocais.
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente
inédito é que, em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma
história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros,
desenfeitados.
Conta-se uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular,
pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do
nosso país.
É um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal.
Nunca soube de
como se chegou ao Quarteto 1111.
Uma coisa é
certa: até hoje, não consegui digerir a escolha.
Legenda: a capa
do disco aparece aqui por cortesia de Mr. Ié-Ié.
Milhares
de mães não desculpam a Igreja por ter passado o Dia da Mãe de 8 de Dezembro, Dia da Imaculada Conceição,
para o primeiro domingo de Maio.
Segundo
o Instituto Nacional de Estatistica, o
número de crianças nascidas em Portugal aumentou 3,7% no ano passado, para
87.764, sendo que cerca de um terço dos bebés são filhos de mães estrangeiras.
anunciou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).
«O meu ponto é apenas chamar a atenção para um facto
chocante. Há quatro anos, convocados a escolher entre Montenegro e Moreira da
Silva para liderar o PSD, 26.975 militantes não hesitaram e votaram
massivamente no agora primeiro-ministro. O resultado foi claro: 72,5% para
Montenegro e uns curtos 27,5% para Moreira da Silva.
Há um fosso que separa Moreira da Silva de Montenegro: um tem carreira
profissional, percurso internacional (na Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Económico e, agora, na Organização das Nações Unidas) e
experiência governativa; o outro tem um passado apenas tribunício,
complementado, sabemos agora, pela promoção de uma empresa familiar com uma
carteira de clientes intimamente ligada ao seu percurso partidário regional.
Porque escolheram, então, os militantes do PSD Montenegro? Não foi certamente
por questões de posicionamento ideológico: Montenegro opunha-se a Rio, mas
escolheu para coordenar a sua moção o autor da moção do anterior líder, o agora
ministro Miranda Sarmento. Os motivos são outros. No que é uma lei de ferro, os
partidos de poder fecharam-se, desligaram-se da sociedade, não estão
interessados em líderes com percursos autónomos, e os critérios que organizam
as escolhas internas dependem de uma teia de cumplicidades irrelevante — quando
não perniciosa — para a governação, mas decisiva para conquistar o aparelho.
O desfecho não poderia ser outro: entre Moreira da Silva e Montenegro, a
escolha foi clara. Não surpreende, depois, que os resultados sejam os que se
veem — sobre Gaza, sobre Trump e Putin, e na governação do país.»
Será Bella Ciao,
ouvida ontem no final dos festejos do 1º de Maio na Alameda
Conta a
Wikipédia:
«"Bella
Ciao" (adeus, querida) é um canto popular italiano que se tornou um hino
global de resistência, liberdade e antifascismo, marcando a luta dos partigiani
contra o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Embora associada à resistência, a
letra original de autor desconhecido narra a despedida de um guerrilheiro que
antecipa a sua morte na luta contra as tropas nazifascistas.»
A provável letra original da canção tem como
tema as duras condições de trabalho nos arrozais padanos:
Stamattina mi
sono alzato, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, stamattina mi sono alzato,
ho trovato
I'invasor!
A lavorare
laggiù in risaia
Sotto il sol che
picchia giù!
E tra gli
insetti e le zanzare, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, e tra gli insetti e le zanzare,
duro lavoro mi
tocca far!
Il capo in piedi
col suo bastone, o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, il capo in piedi col suo bastone
E noi curve a
lavorar!
Lavoro infame,
per pochi soldi, o bella ciao bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, lavoro infame per pochi soldi
E la tua vita a
consumar!
Ma verrà il
giorno che tutte quante o bella ciao, bella ciao
Bella ciao ciao
ciao, ma verrà il giorno che tutte quante
Lavoreremo in
libertà!
Tradução em
português
Esta manhã, eu
me levantei, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, esta manhã, eu me levantei
e encontrei um
invasor!
Para trabalhar
lá no arrozal, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Para trabalhar lá no arrozal
Sob o sol que
nos derruba!
E entre os
insetos e os mosquitos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida, e entre os insetos e mosquitos,
Um trabalho
pesado que tenho que fazer!
O chefe está de
pé com uma vara, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! O chefe está de pé com uma vara
E nós curvados a
trabalhar!
Trabalhe infame,
por pouco dinheiro, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Trabalho infame, por pouco dinheiro
E tua vida a
consumir!
Mas chegará o
dia em que todos, adeus querida, adeus querida
Adeus, adeus,
adeus querida! Mas chegará o dia em que todos,
trabalharemos em
liberdade!
A versão
partigiana
Stamattina mi
sono alzato,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Stamattina mi
sono alzato,
ed ho trovato
l'invasor.
O partigiano,
portami via,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
O partigiano,
portami via,
ché mi sento di
morir.
Se io muoio da
partigiano,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
Se io muoio da
partigiano,
tu mi devi
seppellir.
E seppellire
sulla montagna,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E seppellire
sulla montagna,
sotto l'ombra di
un bel fior.
E le genti che
passeranno,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
E le genti che
passeranno,
Ti diranno «Che
bel fior!»
«Questo fiore
del partigiano»,
o bella, ciao!
bella, ciao! bella, ciao, ciao, ciao!
«Questo fiore
del partigiano,
morto per la
libertà!»
Tradução em
português
Nesta tradução,
a palavra «resistente» designa um membro de força militar irregular que se opõe
a um invasor externo ou a um exército de ocupação.
OS
MAIOS DAS CARRINHAS DE TINTA AZUL DA POLÍCIA DE CHOQUE
Se
agora lhe perguntassem o que fez depois da madrugada por que esperava, diria
que daí até ao 1º de Maio, necessariamente, terá dormido mas, do que lembra
bem, é que andou num turbilhão vertiginoso ao ponto de dizer que esse dia 25
não foi um dia, foram mais: que vai desde 25 de Abril até ao primeiro 1º de
Maio.
Dirá
então que acontecesse o que acontecesse – e muita coisa iria acontecer -
obviamente aquela festa de ilusões, aquele património, já ninguém lhe tirava.
Mais tarde dirá aos filhos que só quem viveu aqueles tempos de oásis, de
miragens, perceberá o que foi o 25 de Abril. E não mais esquecerá aqueles dias
luminosos em que tudo parecia ser possível.
Os jornais tentam dar notícia de tudo o que está acontecer, também do que virá.
Já
foi extinta a PIDE/DGS, a Legião e as Mocidades Portuguesas, o povo persegue os
pides nas ruas e, entregando-os às forças militares, agora encarcerados em
Caxias, nem todos, conhecem a casa mas agora olham-na com uma perspectiva bem
diferente, sabe-se que os funcionários públicos despedidos por motivos
políticos serão reintegrados, começam a regressar os exilados políticos, os desertores
querem voltar e pedem amnistia,
Tomás
e Caetano e outros ministros, já tiveram guia de marcha para o exílio em terras
brasileiras, os trabalhadores tomam conta dos seus sindicatos.
Neste
dia, há uma notícia que ofuscará tudo o resto, que encherá de alegria os
portugueses: a comemoração pública do 1º de Maio. Durante a ditadura, o 1º de
Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.
Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o
assinalar,
se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra
bastões, espingardas, carros de combate com tinta azul.
De repente, recordo-me
de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha
maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava
em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.
É
o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.
Ultimamente
tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma
Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.
Conhece-lhes
a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as
dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o
ímpeto de escrever como fuga à morte.
Correndo
atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro
livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me
interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais
devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha
eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a
eternidade de cada um de nós».
Liberdade e Paixão começa assim:
«Faz
com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a
ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a
rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o
cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as
roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência
de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo
do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas
nos caminhos».
Marguerite
Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura
fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.
«Não lhe interessam os
aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos,
ignorantes.»
«Aí está! Morrerei
cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados
gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também
me ensinaram que não valho quase nada.»
Das
dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias,
Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.
Yourcenar
conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios
extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito
nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir.
Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta
teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»
Há
gentes assim, repletas de loucas magias.
Lembro
o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em
mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».
Um
dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:
«Na América vivia numa
casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à
água.»
Tempo
de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:
«A partir de certa
idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os
apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»
Não. Os livros não se devoram. Os livros degustam-se.
Dá ideia de que um devorador de livros é um leitor cultíssimo,
variado, presente, sempre na crista da onda; alguém com um cérebro assimilador
e uma capacidade sempre esfomeada por livros.
O actor Jimmy Kimmel,
dois dias antes dos disparos no Hotel Hilton contra Trump & Cª, no seu
programa televisivo de humor, fez uma piada ao casal Trump.
O monólogo do comediante teve um sketch em que se simulava a presença do
Presidente e da primeira-dama no Jantar de Correspondentes da Casa Branca, e
nele o humorista saudou ficcionalmente a beleza da primeira-dama dizendo —“Sra.
Trump, tem um brilho como uma viúva de esperanças, ou se quiserem viúva
expectante".
No dia seguinte
ao interrompido jantar, Melania Trump escreveu no X que Kimmel é “cobarde” e
que a ABC devia tomar medidas, por seu turno Trump na sua rede TruthSocial que a piada de
Jimmy Kimmel foi um "apelo à violência", rematando que deveria ser
imediatamente despedido pela Disney e pela ABC.»
Jimmy Kimmel respondeu ao casal Trump esclarecendo que a piada pré-tiroteio “não
foi um apelo ao assassinato e eles sabem”
“Obviamente, era uma piada sobre a diferença de idades entre eles e a expressão
de alegria que vemos no rosto dela sempre que estão juntos. Era uma brincadeira
leve sobre o facto de ele ter quase 80 anos e ela ser mais nova do que eu. Não
era — de todo — um apelo ao assassinato."
Trump para além
de inculto e estupido, é um tipo indecente que nem sequer tem uma pontinha que
seja de sentido de humor.
Abençoados
cidadãos norte-americanos que presentearam o mundo com semelhante aberração!
«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O
Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume destes Cadernos. Melhor do que
outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter
compreendido porquê e para quem ando eu a escrever estas sinceridades. Ao
postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção
de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça
o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando
os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver
com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em
Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de
literatos marginais e de escritores malditos que nem chegam aos calcanhares
do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes
expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado permanece desconhecida
fora das fronteiras.»
«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa,
talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo
aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são
certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido por Luís Pacheco é ser vacinado contra o
grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a
metro para os prémios e outros afins.
Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e
do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito
sendo muito feliz.»
João Carlos
Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos
«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»
Luiz Pacheco
numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005
«Depois de o primeiro-ministro israelita ter pedido
desculpas publicamente e garantir que se tratava de um comportamento indigno
para um militar de Israel, o soldado que, no Líbano, destruiu uma estátua de
Jesus Cristo à marretada e o outro que fotografou o acontecimento, foram
condenados a 30 dias de prisão e “excluídos de operações de combate”.
Segundo a BBC,
Benjamin Netanyahu mostrou-se “chocado e triste” pelo incidente, enquanto o seu
ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, pediu desculpas a “todos os
cristãos que se sentiram ofendidos”.
Com tantos milhares de crianças mortas em Gaza, no Líbano e no Irão, atingidas
pelas bombas e balas de Israel, cujas forças armadas se arrogam o direito de
atingir escolas, hospitais, ambulâncias, jornalistas, de matar e matar civis
desarmados como se fossem alvos de prática de tiro, “a indignação e a tristeza”
de Israel está reservada a uma estátua de Jesus Cristo?
Não é porque ao Governo mais extremista de Israel lhe importe muito os
sentimentos dos cristãos – em 2023, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança
Nacional israelita, dizia que cuspir em cristãos era uma velha tradição
judaica. O que importa ao Estado de Israel é não alienar o apoio do seu melhor
amigo nas relações internacionais, a superpotência que lhe vende armas e lhe
empresta a sua sombrinha política internacional para fazer o que quiser.
Num tempo de falta de memória e de passado reescrito ou esquecido, o Governo de
Israel e os judeus que o apoiam estão sempre a cometer o pecado da arrogância
de se olvidarem das lições da História. Porque se é longa a tradição
judaico-cristã, base da civilização ocidental, como tanto dizem, os judeus
esquecem-se que, quando é preciso um bode expiatório, o hífen se quebra como um
cristal e os judeus terminam pendurados de uma árvore como Leo Frank, enforcado
por uma turba muito americana que o foi buscar à cela.
Mesmo com a II Guerra Mundial e o nazismo, entre 1940 e 1946, várias sondagens
mostravam que os judeus eram considerados a maior ameaça para os Estados
Unidos, mais do que qualquer outra religião, raça, etnia, nacionalidade.»
António
Rodrigues no Público de 24 de Abril de 2026
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
José Carlos Ary dos Santos
No Público de hoje pode ler-se que «a
Administração Trump assegurou um nível de segurança inferior para o jantar dos
correspondentes da Casa Branca ao garantido em outros encontros que contaram
com a presença das principais figuras governamentais, apesar de o Presidente e
muitos membros do executivo dos Estados Unidos estarem presentes.»
Nestas coisas
trumpianas fica sempre a grande dúvida:
Encenação?
Bluff?
Oportunidade
para Trump dizer que nada disto aconteceria, na Casa Branca, se não tivessem
interrompido as obras no salão de baile?
Publicação
patrocinada pelo Ateneu Cooperativo e por algumas cooperativas de consumo e
produção, Lisboa, Março de 1964.
Não se quer ganhar, quer-se servir; não interessa por
conseguinte tirar qualquer lucro para amontoar nos cofres ou para desbaratar
irregularmente mais tarde. É uma instituição honesta onde as coisas se fazem
com lisura e seriedade.
««1. Entre vir dos Estados Unidos e voltar ao Rio de
Janeiro, tenho estado na Rua da Esperança, Madragoa, Lisboa. Um grande amigo de
um grande amigo cedeu-me, pelo preço de um quarto, o terceiro andar de um
prédio antigo, daqueles com grades de madeira antes da porta de casa. No quarto
andar viveu Saramago muitos dos seus anos pré-Nobel. Soube assim, ao chegar,
que Baltasar e Blimunda tinham nascido por cima da minha alcova, pequena e interior
como manda o dicionário. É uma informação de peso, mas quanto a livrinhos o que
penso todos os dias é que a uma rua de mim vive o Vitor Silva Tavares.
2. Houve uma era, já depois do paleozóico, em que
existiram editoras e livrarias em Portugal. Não conglomerados com modelos de
negócio género 25 por cento de desconto nas novidades porque é Natal, terra da
fraternidade (e já agora isso acaba com os derradeiros independentes), mas
editoras e livrarias uma por uma seguindo o seu caminho. É verdade, isto
aconteceu mesmo. E os jornais tinham cadernos literários. E chegavam cartas
escritas à mão. E uma por outra vez na vida essas cartas traziam um manuscrito
do Vitor Silva Tavares (sem acento agudo, que ele não usa).
3. (Ele diria cartinhas, porque nisso é como os
mexicanos: folhas brancas, caneta preta, uma letra quase escolar de tão
legível, nos antípodas dos hieróglifos de Eduardo Lourenço, que também mandava manuscritos
para a redacção do PÚBLICO, mas por fax, um artefacto da época.)
4. Um manuscrito do Vitor é um suplemento de ferro,
tomem lá, ó esquálidos. Qualquer textinho lhe sai uma beleza, como se saísse
assim da boca dele, pardal de muita conversa e muito livrinho. Em suma, o mais
antigo editor paralelo em Portugal é toda uma língua. Paralelo, e não
alternativo, porque uma editora paralela nunca se encontra com as outras, faz o
seu caminho ao lado. No caso do Vitor, ao lado e subterrâneo. Não é uma metáfora,
é uma morada: & etc, rua da Emenda, 30, cave 3.
5. Vem tudo isto a propósito do livro “&etc
— uma editora no subterrâneo”, iniciativa da livraria Letra Livre,
coordenada por Paulo da Costa Domingos e lançada ontem no Teatro A Barraca,
para celebrar 40 anos de resistência de Vitor Silva Tavares. Um livro quadrado,
como os mais de trezentos da & etc, só maior e mais espesso (declaração de
interesses: inclui uma entrevista que fiz ao Vitor em 2007 para o PÚBLICO, na
versão longa que só saíra online). Revela inéditos, textos, desenhos, cartas e
outros documentos, sem esquecer o auto de busca da Polícia Judiciária à edição
de “O Bispo de Beja”. Foi a única vez que Vitor Silva Tavares fez uma
reimpressão. De resto, quem tem os livrinhos da & etc guarde-os bem, não
haverá outros iguais. E quem não tem, procure os há muito tempo não esgotados:
conservam-se inteiros, sem o risco da guilhotina. O Vitor não faz livros para
os destruir.
6. “Amante de livros e radicalmente livre”, diz o
primeiro texto deste volume-celebração a propósito de Vitor Silva Tavares.
Radicalmente livre é direito e dever, todo um programa solitário que dá
trabalhinho, a começar pela liberdade de não trabalhar, ou de trabalhar sem
alimentar o mercado. As páginas que contam esta história estão aí, é comprar o
livro, não vou contar. Mas para quem não conhece a & etc, ou seja, em que
consiste a resistência, cito desse texto inicial: “A singularidade da & etc
reside não apenas no formato peculiar dos seus livros, verdadeiros objectos de
arte negra, na riqueza literária do seu catálogo, em que pontificam a poesia e
a escrita dissidente, mas também no seu modo de produção ímpar: todos os
títulos têm apenas uma edição, com excepção única para ‘O Bispo de Beja’, obra
apreendida e destruída em 1980 pelas autoridades democráticas da época; os
autores abdicam tacitamente de cobrar honorários pelos seus direitos autorais;
a tiragem, embora tenha oscilado face aos hábitos de leitura, é igual para
todos os livros, independentemente do autor em questão; existe uma total recusa
de subserviência aos poderes culturais; os livros são editados sem qualquer
apoio institucional e impressos em pequenas tipografias e as formas de promoção
do livro contradizem as práticas comuns do mercado: sem saldos, sem lançamentos
ou ofertas aos críticos.”
7. Não é um modelo de desenvolvimento nem uma receita
colectiva, mas o caminho de um só homem, com os laços que ele vai atando e
desatando, do tipógrafo ao ilustrador. Contraposta a este pré-Natal de abusos
de posições dominantes, quase uma espécie de guerrilha, a força de um
homem livre.
Alexandra Lucas
Coelho, Público, 24 de Novembro de 2013
(Texto
publicado, por aqui, em 16 de Outubro de 2015).
A julgar pelas reacções internas recolhidas pelo
Público não há vontade nem contexto para que Pedro Nuno possa reassumir a
liderança do PS, o que reduz consideravelmente as suas opções políticas.
Na Biblioteca da Casa não existem mais volumes da
Colecção Poetas de Hoje, publicada pela Portugália, secção que iniciámos no dia
8 de «Março de 2025 e que concluímos no dia 18 de Abril de 2026.
Mas encontrei, num velho número da revista Ler esta ilustração, da autoria de Luís
Miguel Gaspar, de um poema de Ruy Belo que se encontra em O Homem de Palavras:
Está hoje um dia de
vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos
meus versos de todas as maneiras e
Na
manhã de domingo, pós os 52 anos do 25 de Abril de 1974, reproduzimos algumas
das centenas de cancões que elegem a data como um dia feliz e encimo o texto
com a imagem do I Encontro da Canção Portuguesa de 29 de Março de 1974, num
Coliseu a deitar fora e em que José Afonso, quando chegou a vez de actuar
disse:
«Os habituais
impedimentos que surgem nestas ocasiões, que aliás, são muito raras, obrigam-me
a ter de cantar uma canção que pelo menos pode ser cantada por todos nós, que é
a Grândola.»
Em
29 de Setembro de 2024, ainda lembrando os 50 anos do 25 de Abril, o Público, no
suplemento P2, publicou um trabalho de Sérgio B. Gomes, sobre o fotógrafo José
Carlos Nascimento. Nesse trabalho reproduzem-se várias fotografias tiradas no
dia 25 de Abril de 1974 e uma delas, a primeira desse dia, tirou-a enquanto
aguardava a chegada de uma colega sua, que entretanto apareceu em passo de
corrida e um grande sorriso, com as traseiras da Igreja da Graça em fundo.
Trabalhavam na agência de publicidade Praxis, Cooperativa de Estúdios Técnico,
com escritório/estúdio na Villa Sousa edifício onde existiu o Botequim da
Natália Correia.
Gosto
imenso desta fotografia e o suplemento está guardado nas páginas de recortes da
Biblioteca da Casa.
Reproduzo
a fotografia do Público e a imagem da exposição que José
Carlos Nascimento apresentou em 2024 com 50 fotografias do dia histórico,
tiradas desde a Graça, passando pelo quartel da legião na Penha de França,
pelas ruas de Lisboa até ao quartel do Carmo.
A
moça dirá ainda que foi o dia mais feliz da sua vida, como tantos de nós que
viveram este dia, e que são menos porque a lei da vida os tem levado.
A
alegria dos que sabem viver a liberdade que festejamos.
«Cada
pessoa na rua hoje vai mais do que comemorar, resistir. Resistir a quê? À
manipulação da memória da revolução do 25 de Abril, à cuidadosa transformação
da guerra colonial numa designação geográfica, a “guerra da África”, ou na
“guerra no Ultramar”, a comparações absurdas entre abusos pontuais e muitos
milhares de actos de violência e humilhação dia após dia, ano após ano, que
duraram 48 anos. Já para não falar dos massacres, execuções sumárias, “heróis”
assassinos que se especializaram em atirar granadas incendiárias contra
mulheres e crianças.
Resistir a quê? Ao Chega. As manifestações do 25 de Abril este ano serão contra
o Chega, contra o novo ambiente político de crueldade e agressão, e contra o
ataque à “revolução miserável” feito por aqueles que gostavam da
ditadura e das suas violências, por uma série de motivos, nenhum nobre e que
esconderam pela censura, corrupção e prepotências quotidianas.»
«A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos
muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros
verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada
borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto,
desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que
habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera
rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que
segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia
de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena.
Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho
histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.
A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo,
era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam
turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza
de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e
sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.
No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e
Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do
país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço
militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e,
de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade,
sem medo de regedores, de bufos da PIDE e da própria; e até de podermos dizer
mal de quem nos devolveu a dignidade e o sonho, como faz frequentemente o falso
cristão e proto fascista André Ventura, um filho ingrato da democracia.
Mal recebeu de Melo Antunes o célebre telegrama
enviado por Otelo — “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã.
Um abraço primo António.” —, Vasco Lourenço chamou alguns colaboradores, entre
os quais David Lopes Ramos, a quem, depois do jantar, perguntou: “Ó Ramos, você
sabe rezar?”. “Porquê? Porque me pergunta isso?”, respondeu-lhe David. “Porque,
se soubesse, mandava-o rezar!”, acrescentou o capitão. “Não me diga! Não me
diga que é hoje!”, exultou David, a tremer. “Sim, sim, é esta noite. Vamos
embora preparar tudo…”, confirmou-lhe Vasco Lourenço. Em memória de David, o
aspirante Ramos da Revolução de Abril
A partir das 3 da manhã, David Lopes Ramos foi para o
quartel e, contou Vasco Lourenço, “ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que
era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc.”.
Nessa noite, o aspirante Ramos teve uma outra tarefa: acordar Melo Antunes, que
fora dormir para o casarão da sogra. “Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e
nada. A certa altura, disse ao David: ‘Vá lá a ver se o consegue acordar e se o
traz’. Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o
Melo Antunes só me apareceu pelas sete ou oito da manhã, finalmente acordado
pelo telefone, que tocou toda a santa noite!”, recordou Vasco Lourenço.
Todos sabemos o que se passou em Lisboa e o que veio a
seguir. Por intervenção de Melo Antunes e Vasco Lourenço, David Lopes Ramos
viria a integrar o Movimento das Forças Armadas, tendo sido o adido de imprensa
de Vasco Gonçalves nos quatro governos provisórios que este general liderou,
entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Nesse tempo, era a David que todos os
jornalistas recorriam e “por quem tinham uma grande consideração e respeito”,
como recordou ao PÚBLICO o jornalista António Borga.
Após a queda do V Governo, David Lopes Ramos ingressou
no Diário de Notícias (DN). Por pouco tempo: ele e outros jornalistas foram
afastados logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Saiu do DN, mas nunca mais
abandonou o jornalismo. Esteve ligado à fundação do jornal Diário e viria, mais
tarde, a integrar a equipa inicial do PÚBLICO, primeiro como subeditor de
secção Cultura, depois como editor da Sociedade e finalmente como crítico de
gastronomia e vinhos, primeiro na revista de domingo e a seguir no suplemento
Fugas, onde se consagrou como um dos mais respeitados e reputados críticos de
gastronomia e de vinhos do país.
David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e
já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da
direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse
assistido ao debate televisivo entre Pacheco Pereira e o líder do Chega e à
tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os
excessos e desvios dos 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de
Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de
qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo.
Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram
sem castigo até hoje, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos ou movimento
de direita, como o MDLP, a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco
Amorim.
André Ventura também deve colocar David Lopes Ramos no
mesmo saco dos “criminosos” da Revolução de Abril. Mas o líder do Chega teria
de nascer três vezes ou mais para poder equiparar-se-lhe em honestidade,
correcção e bondade. Mais do que um grandíssimo jornalista e crítico
gastronómico, David era um homem intrinsecamente bom. Tê-lo conhecido e ter
sido seu amigo foi uma das grandes dádivas que o jornalismo me deu.
A seu pedido, David Lopes Ramos foi cremado e parte
das suas cinzas foram depositadas no cemitério de Pardilhó, Estarreja, a sua
terra natal, e onde na próximo sexta, dia 1 de Maio, alguns amigos e a família
irão fazer uma romagem. “O meu irmão faz-me muita falta”, suspira Arménio, o
seu único irmão, 70 anos, cara chapada de David no que este tinha de mais
virtuoso. A outra parte das cinzas foi espalhada na sua adorada ria de Aveiro,
a que sempre voltava, para recordar os seus mortos e partilhar com os vivos o
prazer simples de uma caldeirada de enguias, um peixe grelhado acabado pescar
pelos artesãos da arte Xávega ou um galo caseiro assado no forno.