quarta-feira, 23 de setembro de 2026

OS PÁSSAROS VOLTARÃO EM MARÇO


Assistir à chegada do Outono e entramos por ele dentro com temperaturas de 30 graus.

Faz calor e se não fossem as noites chegarem cada vez mais cedo,  diríamos que os dias eram outros.

Nos meus tempos, as aulas começavam no dia 1 de Outubro, apresentação no ginásio do Liceu Gil Vicente: alunos, pais, o reitor, os professores, o comissário da Mocidade Portuguesa.

As aulas da Primária começavam a 7 de Outubro.

Já se andava de camisolas de gola alta, gabardines e sobretudo.

Chovia quase todos os dias.

Agora as aulas começam no meio de Setembro e chegamos a Outubro envergando as roupas de Verão.

Quando Outubro começava já a minha avó tinha feito o doce de tomate e tudo aquilo que gira em volta dos marmelos: a marmelada, a geleia, marmelos cosidos aos quartos com açúcar que se guardavam em grandes frascos de vidro.

Outubro quente traz o diabo no ventre.

Em Outubro pega tudo.

Outubro sisudo recolhe tudo.

Quem planta no Outono, leva um ano de abono.

Vindima em Outubro, que S. Martinho to dirá.

E como alguém diria: os pássaros voltarão em Março.


Legenda: fotografia de Lia Faria

HAIKAI DE OUTONO

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?

Mário Quintana

terça-feira, 22 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Que o 25 de Abril não se torne uma memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe.

Jorge Palma

LIVROS AUTOGRAFADOS


Comprei O Secreto Adeus num qualquer alfarrabista. ou num qualquer vão de escada de bairro que já desapareceram.

Dois escritores que estimo: Baptista-Bastos e Eduardo Valente da Fonseca. 

Amiúde encontrava-os no Bar Expresso no Largo da Trindade.

A estranha sensação de como este exemplar oferecido ao Eduardo, aparece perdido por aí. 

Alguém se desfez da biblioteca do Eduardo?

 O livro foi roubado?

Ou emprestado e nunca devolvido?

Frases sublinhadas:

«A democracia é um mito inventado por políticos falhados».

«Todos sabemos o que se tem praticado em nome da ordem».

«Então, porque bebo? «É o medo de estar lúcido.»

Palavras do poeta José Gomes Ferreira na contra capa do livro:

«Testemunho ardente que veio desvendar-me as razões fundas por que certa juventude – por certo a mais consciente e digna – vive afogada, dir-se-ia que provisoriamente, numa desregra de exageros sexuais. Afinal, segundo revelação perturbadora deste depoimento em forma de romance, essa juventude sofre de «saudade de heroísmo impossível».

JORGE PALMA (1950-2026)


Morte de Jorge Palma aos 76 anos.

Que dizer?

Um tipo sem classificação, mas sujeito às tretas do costume: a música portuguesa, ou Portugal  ficam mais pobres.

Como ele dizia:

«Deixa-me rir!»

Em Setembro de 1973 recusa-se cumprir o serviço militar obrigatório e foge para a Dinamarca:

«Com licença, meus amigos, mas para a guerra não vou!» 

São assim os pássaros rebeldes!

A GENTE VAI CONTINUAR

Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou, ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há de ter mais cartas pra dar

E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém, não
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem

Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Jorge Palma

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Chove no poema há alguns anos. O poeta abre, finalmente, o chapéu de chuva.

Nuno Júdice

NOTÍCIAS DO CIRCO

 Ana Sá Lopes, no Público de hoje, escreve que Montenegro será o pai, a mãe e a tia da austeridade.

«O tom soturno de Luís Montenegro na comunicação ao país de quinta-feira, aqui e ali com laivos de desespero não habituais num homem frio, foi uma metáfora acabada do momento que se vive na economia portuguesa (e mundial).
Estamos tramados. Todos os que viveram os choques petrolíferos dos anos 70 – e o racionamento da gasolina –, o programa do FMI de 1983-1985 e, finalmente, a intervenção da troika têm prática de crises. Ter prática não é grande consolo. Tudo o que se passou foi muito mau, houve muito sofrimento que, agora, está prestes a repetir-se.»

Consta por aí que os dias estão muito difíceis. Também se diz que vão piorar.

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Um dia de Julho de 1968, José Cardoso Pires numa entrevista, a Mário Ventura, disse:

«Sou um escritor que pensa muito com o aparo.»

Exactamente 18 títulos em 50 anos!

Em Lavagante, José Cardoso Pires aborda o ambiente opressivo de Portugal no início dos anos 60, marcado pela censura e a acção policial. A história, que se desenrola num contexto de perseguições e prisões políticas, acompanha o romance entre um médico oposicionista e uma jovem estudante, destacando a influência da repressão na vida privada e nos relacionamentos pessoais. O livro utiliza a imagem do lavagante — um crustáceo — para ilustrar a natureza primitiva e a falta de refinamento do país.

Uma pré-publicação começou por ser publicada na revista O Tempo e o Modo, nº 11 do ano de 1963, como excerto de um futuro livro de Cardoso Pires, o que não veio a acontecer.

Mais tarde, Nelson de Matos, em Fevereiro de 2008, nos 10 anos da morte de José Cardoso Pires publicou o livro na sua nova editora - Edições Nelson de Matos, teve sete edições.

Em Setembro de 2025 a Relógio d’Água, que está a publicar a obra completa de José Cardoso Pires, publicou Lavagante

O livro, provavelmente, estará datado, nunca teve revisão de Cardoso Pires, mas está lá  o timbre da prosa que sempre o caracterizou.

Páginas a reter, principalmente no Capítulo XI, uma Lisboa a viver na dita «primavera marcelista», após um 1º de Maio em que a polícia de choque exerceu a costumada violência, perseguindo barbaramente os manifestantes:

«No dia 2 de Maio, quarta-feira, e para ser mais exacto, num fim de tarde, Cecília saiu do metropolitano nos Restauradores e dirigiu-se a certo snack-bar da rua da Prata.

De pois meses e meses de chuva cerrada, a Primavera, com uma persistência vegetal, secreta, conseguia vencer o manto húmido que pesava sobra a cidade. Nas últimas semana, o ar estava ligeiro, aliviado, e era Primavera, finalmente a Primavera, tal como costumava chegar a Lisboa depois de muitas hesitações e de muito trabalho para vencer as nuvens da costa.

As pessoas mal dão por isso. Um belo dia sentem a necessidade de olhar o céu, vêem azul, um azul fino, alegre, e dizem: “ Já sei.”. Depois descobrem as pombas do Rossio e as colinas pousadas diante do rio, cobertas de uma luz macia, feminina; descobrem uma nova expressão no andar das mulheres e um novo perfume – nelas e na cidade. E todos regressam mais tarde aos autocarros e a casa. É isso a Primavera: um novo sentido no olhar, uma nova velocidade. “Já sei”, dizem as pessoas.»

OLHAR AS CAPAS


Lavagante

José Cardoso Pires

Fixação de texto: Ana Cardos Pires

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio d’Água, Lisboa, Setembro 2025

Fresco e impecável, o barman, está do outro lado balcão com um sorriso divertido. Bebe e fuma com modos repousados, e entretanto contempla do alto da sua serenidade o jornalista atormentado. Esse homem que ali tem sacode a cabeça dianta duma taça de vinho, estrebucha e fala dos seus sonhos frustrados.

- Viciámo-nos. Agora temos a censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?

POSSIBILIDADE

Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos da margem do rio Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a mim, que quero bem às pessoas, a mim, que amo a humanidade.
Prefiro ter à mão agulha e linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar que o intelecto tem culpa de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair antes.
Prefiro falar com os médicos de outras coisas.
Prefiro as velhas ilustrações tracejadas.
Prefiro o ridículo de escrever poesias ao ridículo de não as escrever.
Prefiro no amor os aniversários que não são redondos, para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que não me prometem nada.
Prefiro uma bondade perspicaz a uma demasiado crédula.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas dos Grimm às primeiras páginas.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com a cauda não cortada.
Prefiro os olhos claros, porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não mencionei a muitas outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros desordenados aos alinhados numa quantia.
Prefiro o tempo dos insectos àquele sideral.
Prefiro bater na madeira.
Prefiro não perguntar por quanto ainda nem quando.
Prefiro tomar em consideração até a possibilidade de que o ser tenha uma razão.

Wislawa Szymborska

 

Este poema foi publicada pela jornalista Bárbara Reis no Público de 12 de Setembro de 2026.

domingo, 20 de setembro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 Domingo, e eu às voltas com as canções para a manhã de hoje.

Capa de um velho disco comprado na Grande Feira do Disco na Rua do Forno do Tijolo no dia 10 de Setembro de 1966. Olha como o tempo passa!...

Quando os Festivais de Canções eram uma outra coisa…

E o resto são outras velhinhas canções.




sábado, 19 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


As crianças nascem com uma coragem que perdem.

Jorge de Sena

Legenda: imagem Shorpy

SOLTAS


 Seis meses de guerra no Irão já custaram 43,6 mil milhões de dólares aos Estados Unidos.

1.

Voltamos ao vinho:


«Viticultores do Douro que deixem uva por vindimar receberão 1125 euros por hectare
viticultores que não encontrem comprador para as suas uvas e que, por isso, as deixem ficar nas videiras receberão um apoio máximo do Estado de 1125 euros por hectare, o que equivale a assegurarem escoamento para a produção de três pipas, pouco mais de 1500 litros de vinho, como de resto tinha antecipado o cronista Pedro Garcias, na rubrica que assina semanalmente na Fugas.

Os 12 milhões de euros do Governo para o Douro são uma ofensa e um desperdício
Chegou, finalmente, o dia da vergonha e da humilhação no Douro. Não foi nenhuma surpresa, não surgiu do nada. Estava escrito na pedra há muito tempo. Mas nem isso diminui a vergonha e a humilhação. Ficará para os anais: na vindima de 2026, no dia 4 de Setembro, o Governo de Portugal, liderado por Luís Montenegro e cujo ministro da Agricultura se chama José Manuel Fernandes, aprovou a concessão de 12 milhões de euros do Orçamento Geral do Estado para pagar aos durienses que deixem as uvas maduras na vinha.»

O curioso, assim como quem diz que é, o governo dá milhões de euros para que os viniticultores não apanhem as uvas, e nos supermercados, estamos a comprar uvas, vindas de toda a parte, menos Portugal, a preços incomportáveis e de qualidade duvidosa, enquanto as excelente uvas do Douro ficam a olhar a paisagem.

2.

Um leitor do Público, por causa do cómico Jerry Seinfeld, lamenta-se:

« Não me levam a mal, mas a conclusão de que Israel está a cometer genocídio consta dos relatórios da Comissão Independente da ONU, da Associação Internacional de Estudiosos do Genocídio, ou de organizações de direitos humanos como a Amnistia Internacional, o Centro Europeu de Direitos Constitucionais e Humanos, o Human Rights Watch, o Médecins Sans Frontières e ainda de prestigiadas ONG's israelitas como a B'Tselem e a Physicians for Human Rights. Também são da mesma opinião dois especialistas israelitas judeus: Omer Bartov, "I’m a Genocide Scholar. I Know It When I See It", NYT, e Amos Goldberg, "Holocaust Memory in a Time of Genocide". Sem dúvida há sempre jornalistas do Público e leitores aqui que o negam. Respeito as suas opiniões. Porém, nunca nenhum apresentou um estudo a apoiá-las.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias:

«Recordo, para quem ande esquecido, que esta posição de Seinfeld é discutida num contexto em que o Governo israelita massacra a população de Gaza, destrói as condições da sua sobrevivência e pratica atos que a Amnistia Internacional classificou como genocídio. A desproporção em relação aos ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro de 2023 é evidente. Esses crimes não justificam matar civis, provocar fome ou destruir um território. As vítimas palestinianas não são responsáveis coletivamente pelos crimes do Hamas.»

3.

Um estudo da Marktest indica que três em cada quatro portugueses adultos consome bebidas alcoólicas.

4.

A electricidade fica mais cara em Outubro no mercado regulado por causa da guerra no Irão. São mais 0,005 euros por kWh, a aplicar a partir de 1 de Outubro de 2026.

5.

Portugal registou o maior aumento anual do custo da habitação entre 57 países analisados num estudo internacional, tendo-se verificado um aumento de 15,2% em apenas um ano, enquanto o preço das casas, em termos mundiais, caíu 1,2% no mesmo período.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Volta e meia há que ir ao Outro Lado das Estantes, e nem sempre acontece.

Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que, rigorosamente não sabia o que etava a vender.

Uma colecção, ainda, não lida, apenas folheada, mas a que há que voltar.

Assim irá acontecendo.

OLHAR AS CAPAS


 Os Celtas

Juliette Wood

Tradução: Ana Maria Pinto da Silva

Capa. José Neves

Colecção: Cultura e Civilizações

Círculo de Leitores, Lisboa, Dezembro de 2005

Há mais de dois mil anos, a Europa, a norte de Mediterrâneo era dominada pelos Celtas, um conjunto de povos que partilhava tradições de língua, arte e cultura.

MÚSICA PELA MANHÃ


Segundo Luís Pinheiro de Almeida, na sua Biografia do Ié-Ié, Daniel Bacelar foi pioneiro do rock português, o primeiro a gravar um disco de rock, indefectível fã de Richy Nelson, consideravam-no o «Ricky Nelson português», nasceu a 26 de Maio de 1943 e faleceu a 29 de Setembro de 2017, com 74 anos.

Colaborou com vários conjuntos portugueses de então, e no dia 1 de Agosto de 2009, Rita Redshoes convidou Daniel Bacelar para partilhara consigo o palco do Festival dos Oceanos que se realizou nos jardins da Torre de Belém, em Lisboa. Foi um verdadeiro espectáculo de rock, estávamos lá, mas nos últimos tempos o Daniel apenas cantava para amigos mas escusava-se sempre a interpretar Marcianita, bem como os seus temas em português que são pioneiros do rock nacional.

Após a sua morte, João Rato editou, para os amigos do Ié-Ié, um disco com 18 versões de Marcianita, obviamente com a versão do Daniel Bacelar.

Daniel Bacelar deixou-nos há 9 anos.

Lembramo-lo agora.




sexta-feira, 18 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


 Eu não mudei, apenas os tempos mudaram.

Paulo Castilho em Fora de Horas

Legenda: Bob Dylan

TRUMPALHADAS

Donald Trump, disse, hoje, na Casa Branca que irá proibir os órgãos de comunicação social CNN, MS NOW e Politico de entrar na Casa Branca, queixando-se da cobertura que fazem das suas actividades numa publicação nas redes sociais, acrescentando que anunciaria os nomes de outros órgãos de comunicação social em breve.

OLHAR AS CAPAS


A Derradeira Palavra

Rex Stout

Tradução L. Almeida Campos

Capa: A. Pedro

Colecção Vampiro nº 448

Livros do Brasil, Lisboa 1984

 - Não creio que… - Deixou a frase suspensa por um momento, depois acrescentou: - Mas, o senhor é Archie Goldwin.

Acenei com a cabeça.

- E a senhora é Althea Vall. Dado que não tem encontro marcado, tenho de informar o Sr. Wolfe do assunto sobre que quer falar com ele.

-Preferia ser eu própria a dixer-lhe. É muito confodencial e muito urgente.

DE VEZ EM QUANDO

O mar, se acaso alguém

fechando a mão o faz como se às praias

assim o subtraísse, o mar ligado

por cem mil cordas ao meu leito,

 

reduz-se a poucas vagas; porque há poros

na pele por onde o espírito goteja, há também quem

da parte envidraçada do seu espírito

de vez em quando as veja rebentar.

Luís Miguel Nava em Poesia

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Um pessimista é um optimista bem informado.

Mark Twain

OLHAR AS CAPAS

Ensaios

António Sérgio

Tomo 1

Atlântida, Coimbra, 1949

Porque se efectuou a tomada de Ceuta?

Donde proveio a iniciativa do empreendimento?

Não parece que os historiadores se tenham detido neste problema; detenhamo-nos nós, que o não somos (senão que ensaísta sobre temas de história, como o havemos sido sobre tantos outros): talvez provoquemos uma actividade crítica, talvez acertemos com uma hipótese útil. Por la boca de una sierpe de piedra sale un caño de agua.

CENSURAS, SOMBRAS E RAIVAS


Durante 48 anos perseguiram, prenderam, espancaram, mataram, quem neste país queria ter liberdade de pensar.

Naqueles tempos Adriano Correia de Oliveira cantava Manuel Alegre:

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

Meu pensamento
Quebrou amarras
Partiu no vento
Deixa guitarras.

Meu pensamento
Por onde passas
Estátua de vento
Em cada praça.

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

Foi à conquista
Do novo mundo
Foi vagabundo
Contrabandista.

Foi marinheiro
Maltês ganhão
Foi prisioneiro
Mas servo não.

Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.

E os reis mandaram
Fazer muralhas
Tecer as malhas
De negras leis.

Homens morreram
Chamas ao vento
Por ti morreram
Meu pensamento.

A imagem que acima se reproduz, faz parte de um trabalho que, a seguir ao 25 de Abril, a revista Cinéfilo publicou e em que mostraram como fomos censurados.

No dia 22 de Setembro, pelas 19,30 horas, a Cinemateca apresentará um filme de Manuel Mozos sobre cortes de cinema executados pela comissão de censura do Estado dito Novo:

 

  « ALGUNS CORTES: CENSURA III

de Manuel Mozos

Portugal, 2014 - 50 min

M/12

sessão apresentada por Manuel Mozos e Margarida Sousa e seguida de conversa após projeção

A partir de várias horas de cortes realizados pela Comissão de Censura durante as décadas de cinquenta e sessenta conservados pela Cinemateca, Manuel Mozos assina um filme de montagem através do qual se dá a ver a violência da censura enquanto negação da possibilidade de olhar estas imagens. 
Ao contrário do anunciado, será apresentado o terceiro filme de montagem (de 2014), dedicado a cortes feitos de acordo com o que a Comissão estabeleceu como critérios morais, na sua relação com os comportamentos das mulheres e com a sua imagem, e não o primeiro (de 1999).»

CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena em Poemas Escolhidos 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Mas a história é uma série de interrogações não de respostas. respostas.

Alberto Pimenta

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Num tempo em que os nossos políticos são de uma pobreza franciscana, recorde-se Vasco Gonçalves. Não por um qualquer tique passadista – saudades, só do futuro, como diria o Zé Gomes Ferreira – mas numa tentativa, possivelmente vã, de com Vasco Gonçalves lembrar que, após o 25 de Abril tivemos políticos de gabarito, inteligentes, cultos, generosos, concorde-se ou não com eles: Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Melo Antunes, Margarida Pintasilgo, outros mais.

«Insistiram muito em que eu estaria ligado ao Partido Comunista porque eles sabem que em Portugal fazer uma política anticomunista é rentável, pois os sentimentos de anticomunismo estão ainda profundamente enraizados no nosso povo.» (entrevista de Vasco Gonçalves à revista Hebbo em Outubro de 1975.).

Não, não somos um país decente.

Ainda há dias, na Assembleia da República, durante um voto de censura ao governo de Luís Montenegro, provocado por «aquela coisa», o jornalista Eduardo Dâmaso escrevia:

«Afinal, o gato encontrou uma nova vida. A metáfora de Ventura sobre Luís Neves saiu-lhe pela culatra. Neves, o gato, na retórica do Chega, saiu reforçado da audição e da moção de censura. Luís Montenegro desmanchou a estratégia do Chega dando a centralidade que lhe interessava ao debate. Levou o bónus aos pensionistas, a promessa de descer o IRS até ao 6.º escalão, falou do trabalho do governo nas várias frentes, encaixou a conversa no que interessa aos portugueses, a sua vida e a estabilidade da governação. Rebentou com o debate sobre Neves. Montenegro foi muito eficaz e esta foi a sua verdadeira ‘rentrée’ no ano político. Pelo meio, ainda ganhou, também ele, um bónus. Ficou a nu, impiedosamente, a fragilidade política do Chega, do discurso e dos seus deputados, que acabaram por mostrar-se incapazes de superar o primarismo argumentativo da comparação de Neves com traficantes, bandidos e xerifes. Como se não bastasse, a cena final, de mau perdedor, com a gritaria instalada no parlamento, mostrou ainda como os profetas da pureza originária, que querem “limpar” e “salvar” Portugal, só gostam da democracia quando ganham e podem confundir isso, sem limites, com a humilhação do adversário. Ontem, correu-lhes mal. Pelo resultado mas, sobretudo, pela exibição.»

OLHAR AS CAPAS


Vasco Gonçalves: Perfil de Um Homem

Fernando Luso Soares

Capa: Soares Rocha

Gleba, Lisboa, Outubro de 1979

Assim direi que, tal como acontece com a Crítica, também a História deve ser a cabeça da paixão, não a paixão da cabeça. Por outras palavras: se a figura humana do Companheiro nos enternece, devemos tomar, relativamente a ela, um distanciamento que elimine ou evite a cegueira.

RETRATOS


 E outros momentos. Soltos. Deslumbrantes na opaca escuridão do que não volta mais. Cada um terá os seus, a sua história privada, a sua respira­ção. A última reunião da Comissão de Escritores do MUD, a que tinha pertencido toda a gente (fal­tavam às vezes cadeiras) e a que, por fim, já só compareciam, inutilmente renitentes, três pessoas: a Manuela Porto, o Flausino Torres, eu. Que coor­denava o sector desde a própria ideia de o formar. Como o dos artistas (arquitectos, pintores, esculto­res, desenhadores, fotógrafos, publicitários) que, a partir de 46, fizeram juntos as suas Exposições num clima de entusiasmo e unidade como nunca houvera no país nem sei se, exactamente assim, te­rá voltado a haver.

 Momentos soltos lucilando na distância. O José Cardoso Pires a bater-me à porta com o seu pri­meiro original. O Piteira a paginar comigo, em minha casa, à noite, a Gazeta musical e de todas as artes.

 A Manuela Porto foi quem primeiro declamou a «Ode Marítima», como nunca mais ninguém faria. E, antes (ou depois?), a nossa poesia que mal ainda despontava, no velho Salão de O Século, com uma palestra introdutória do Armando Bacelar. Vejo-a a beijar, num pé, a minha filha então de meses: «Posso? E um milagre!» E, a seguir, na redacção da Eva, que ela chefiava e onde a vi pela última vez. Estava assente que eu passasse por lá para lhe dar a senha de contacto com o MUNAF, organiza­ção ilegal a que resolvera aderir. Era um prodígio de vontade e de coragem aquela mulher tão frágil, delicada, toda ela poesia. Mas tinha no gabinete, inesperadamente, alguém que não me devia ver, a directora da revista. Vem lá de dentro, à pressa, sorridente. Traz nas mãos as Cartas a um jovem poeta. Deixa a porta entreaberta, só o bastante para que a ouçam bem. «Desculpe não poder hoje rece­bê-lo. Está aqui o livro. Gostei muito». Mímica apressada a explicar porquê o livro e aquela con­versa. Dois dias depois suicidava-se.

 E vejo o Flausino também, muito mais tarde, com o seu arcaboiço de camponês, grossa samarra de gola levantada, já a noite caíra, à porta da sua casa de Tondela, em pleno campo, com os braços estendidos e os olhos molhados: «Tu é que tinhas razão». Enquanto eu, durante o abraço demorado e apertado, retomava um convívio interrompido du­rante anos: «E era preciso ires tão longe?»

Regressara de Praga, depois da invasão. Passara por lá as passas do Algarve nas mãos de uma co­nhecida dirigente, dessas de «antes quebrar que torcer», que se deslocava em luxuosos automóveis de Estado, vivia em bons hotéis por lá e anda agora por aí, nos períodos eleitorais, a fazer a propa­ganda de tudo o que seja de Direita.

Exactamente a mesma. Quando, em 42, fiz a minha conferência na Universidade Popular sobre arte moderna, essa expressão acabada da «burgue­sia decadente», foi ela que comentou: «Que grande desilusão!» Mas não se referia à qualidade da con­ferência. A minha grande falha ideológica é que a deixara desolada...

Varrer o lixo. Sem descanso. Conservar o que nos foge por entre os dedos, como fumo.

Mário Dionísio em Autobiografia

Legenda: Manuela Porto

COM FÚRIA E RAIVA

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 15 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

É disso que os amigos falam: do que a vida poderia ter sido se não fosse a filha da puta de vida que foi.

José Carlos Barros

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Não há livros inúteis.

Este retrato de Marcelo Caetano deixa-nos perante aquilo, após a morte do ditador de Santa Comba, a que se chamou «primavera», uma espécie de esperança que, como teria que ser, durou breves fogachos de tempo.

Foi um mito e por ali residiram frustradas expectativas liberalizantes mas Marcelo Caetano não conseguiu, limitações pessoais acima de tudo, libertar-se da teia de oportunistas e corruptos que constituíam

que Salazar deixou constituir à sua volta e de que tanto necessitava.

Tudo começou com a sua posição perante a guerra colonial:

 «Portugal não pode ceder, não pode transigir na luta que se trava no Ultramar.»

Ao tomar posse não fez qualquer ruptura com a política salazarista, talvez por não estar preparado ou porque não a desejar.

Fazer depender a sobrevivência do regime com a continuação da guerra, iniciou o caminho sem qualquer saída.

Aparentemente, não esperava suceder a Salazar, outros serviriam para isso.

Um dia terá confidenciado à sua filha Ana Maria Cardoso:

«A pessoa que suceder a Salazar é para abater».

Palavras finais do Retrato de Salazar escrito por António Araújo:

«No final da manhã de 26 de Outubro de 1980, domingo, por volta das 12,30 horas, enquanto lavava as mãos na casa de banho do seu apartamento na Rua Cruz de lima, nº 8, aguardando que a irmã Olga o chamasse para o almoço, Marcello Caetano foi acometido de uma violenta dor no peito, que em minutos o matou.»

OLHAR AS CAPAS


 Marcelo Caetano

António Araújo

Colecção: Retratos Políticos nº 2

Medialivre, Lisboa, 2024

Não percebo porque é que me foram buscar. Isto não tem saída. Porque é que não foram buscar o Antunes Varela, o Franco Nogueira, esses sabem o que querem fazer… Isto não tem solução.

RECICLAGEM PARA C.

O deus do Eugénio

é muito mais verde

quando lido pelos teus olhos.

David Teles Pereira

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO


Sabemos como a vida imita os filmes.

Paulo Teixeira

VOLTEMOS ÀS GREGUERÌAS

Mais um regresso às Greguerias de Ramón Gómez de la Serna:

O mau do molho de tomate é que tenta irresistivelmente o pão.

Franzimos o sobrolho porque queremos agarrar com pinças um grande pensamento que se nos escapa.

Os móveis com bicho ganham ouvido e até ouvem o que diz o silêncio.

O mais maravilhoso da espiga é como leva bem feita a trança.

Os que não querem que se fume no vagão não compreendem que, se a locomotiva não fumasse, o comboio não se movia.

Era um dia tão bom que todas as chaves foram dar um passeio.

O sofá foi feito para receber pedidos de casamento.

Os crocodilos são falsos porque nunca os ouvimos chorar.

Nas caixas de lápis guardam os meninos os seus sonhos.

O maior desejo do abre-livros é ficar perdido entre as páginas, como um peixe num aquário.

Há especialistas em  pedir o único prato que se acabou na ementa.

OLHAR AS CAPAS


Nome de Toureiro

Luís Sepúlveda

Tradução: Pedro Tamen

Capa: João Machado

Edições Asa, Lisboa Setembro de 1997

Deixei umas moedas em cima da mesa e, coxeando, saí do bar. A cidade continuava triste, embora fosse Verão, embora nem uma nuvem se interpusesse entre os homens e o céu, embora nenhum pássaro negro planasse sobre a minha cabeça e assim comecei a atravessar a rua, pensando, Verónica, meu amor, pensando porque é que temos tanto medo de olhar de frente para a vida, nós que já vimos as áureas cintilações da morte.

O MINISTÉRIO LÍRICO

o ministério lírico, o mais grave e equívoco, o dom, não o tenho,
espreito-o, leitor,
por cima do ombro de outros,
rítmico, manuscrito,
porque sofro do erro,
porque me não equilibro nas linhas,
palavras sim insubstituíveis mas
tão pouco sustentáveis,
sei contudo de alguns dançando à beira do abismo,
que tusa surreal!
ou fodem murcho?
a mim, que não creio em Deus, pátria ou família,
em teorias gerais da linguagem,
na vida eterna,
na gramática,
na foda estrita,
em prática técnica nenhuma,
na glória da língua,
não há apoio de inserção que me valha,
e os poemas talvez não passem porque há muitos cães que ladram,
morro faz já bastante tempo,
ou não ganhei a mão esquerda certa,
ou não perdi a razão suficiente,
Bernardim, Gomes Leal, Ângelo de Lima, os loucos,
para-me de repente o pensamento,
luzia a lusa língua,
se era o mesmo o ministério voltava sempre ao começo,
exasperado, lúcido,
o mais música de câmara possível,
o recôndito,
o córrego,
tão virgem nele se bebia a água,
e lisa, límpida, ligada,
e fria se revolvia nas chagas cruas da boca,
o ministério lírico era o de ferir palavras ou de ferir-se com elas,
oh terror e deslumbre,
acqua alta!

Herberto Helder de Ofício Cantante em Resumo: a poesia em 2009

domingo, 13 de setembro de 2026

POSTAIS SEM SELO

Nem todos os sonhos precisam de ser concretizados. Era isso o que o Fred costumava dizer. Conseguimos realizar coisas que nunca ninguém virá a saber.

Patti Smith em M Train

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Volta e meia há que ir ao Outro Lado das Estantes, e nem sempre acontece.

Esta colecção do Círculo de Leitores adquiri-a, por meia dúzia de euros na Feira da Ladra. Tinham todo o ar de terem sido, por alguém, roubados e vendidos, também por tuta e meia, ao velhote que, rigorosamente não sabia o que etava a vender.

Uma colecção, ainda, não lida, apenas folheada, mas a que há que voltar.

Assim irá acontecendo.

OLHAR AS CAPAS


 Os Índios Americanos

Larry J. Zimmerman

Tradução: Ana Maria Pinto da Silva

Capa. José Neves

Colecção: Cultura e Civilizações

Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 2006

Quando os Europeus pisaram pela primeira vez a América do Norte, descobriram, para sua grande surpresa, que afinal o continente já era habitado por seres humanos. Na verdade, os povos indígenas prosperaram na região; a população ascendia a uns significativos vinte milhões de indivíduos e desenvolveram-se civilizações tão diversas como as que existiram em qualquer outro lugar da terra.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Há vozes quase únicas. António dos Santos é uma dessas vozes.

Vamos, hoje, recordá-lo.

Colaboração de Aida Santos.