Quando cegaste foi de vez. Sem aviso prévio e dos dois olhos em simultâneo.
Não foi de um dia para o outro, foi mais
o que se chama de um momento para o outro.
De um momento para a noite, melhor
dizendo.
Quando cegaste foi como se na casa uma
espécie de morte tivesse dado sinal de vida, essa sua espécie de vida.
Pois quantas vezes é assim, absurda e traiçoeira,
que ela vem. E se instala.
Tu, indeciso e desorientado, andavas sem
rumo pela casa às topadas a móveis, sacos de plástico, pilhas de livros.
Não foi um espetáculo bonito de se ver,
acompanhado com miador que eram verdadeiros gritos de dor, de aflição, ou de
cólera.
Ou, mais provável, tudo isso junto.
Grande ironia do destino, pensei na
altura, logo os teus olhos.
Que eram amplos, redondos, curiosos,
sempre alerta e cheios de luz.
Uns olhos de fazer inveja a muita gente
que eu cá sei.
E gritaste, durante uns bons minutos
gritaste.
Um som não ouvido até então, um novo som
arrancado à natureza, ou ao mais fundo da tua animal sinceridade.
Um som que percutia os tímpanos com a
sua nota de urgência e pânico.
Sabia-se de onde ele vinha, o som, não
para onde ia.
Sim, para onde, se é que ia para algum
lado? A quem se dirigia, se é que era dirigido a alguma coisa ou alguém?
A mim não seria: sabias, com a tua
antiga e animal sabedoria, que eu nada te podia valer.
A Deus também não seria: os gatos, é
coisa bem conhecida, não vão em trapaças.
Resta o puro NADA como hipótese, resta a
GRANDE PUTA QUE A TODOS NOS PARIU!
Rui Caeiro
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