A noite lançava-se na última viagem.
Já bebida, a velha profissional
engana-se nas redondilhas
de um mouraria antigo
e o gestor turístico
no seu azul e brilhante
fato alpacatado
dentro do qual rebenta
solta no ar a praga impiedosa.
Amores de mãe tremiam
na garganta vagarosa
rescaldos de uma guerra erótica
eram os mitos forçados
do consumo.
Casais obesos descansavam nas mesas
a digestão pesada, a paz
tão transitória dos sentidos.
Solerte ofício este de jogar na voz
todas as noites, a fatalidade,
sob o olhar frio dos deuses
tão mesquinhos.
As palavras amargas poderão ter
a força duma chaga,
a cor nocturna da faca pitoresca,
e a velha cantadeira
pode deixar cair da boca
as aves mortas que esconde no seu peito.
Porque eu não esqueço.
Ali, quando a noite arregaçava
os braços no trabalho de parto indiferente,
sob as cinzas sujas da memória,
outro fado nascia abruptamente
oculto e humilhado à luz do dia.
Armando Silva Carvalho
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