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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DE VEZ EM QUANDO

O mar, se acaso alguém

fechando a mão o faz como se às praias

assim o subtraísse, o mar ligado

por cem mil cordas ao meu leito,

 

reduz-se a poucas vagas; porque há poros

na pele por onde o espírito goteja, há também quem

da parte envidraçada do seu espírito

de vez em quando as veja rebentar.

Luís Miguel Nava em Poesia

terça-feira, 16 de setembro de 2025

PAIXÃO

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais lonquínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.

Luís Miguel Nava em Poesia

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

NOS TEUS OUVIDOS

 Nos teus ouvidos isto explode

de amor, palavra ampola sob

os astros funcionando abril à boca das cidades, dos

imperturbáveis muros aos quais as crianças

que de cristais nos punhos acontecem passam,

seus chapéus brevíssimos, os indícios

de nada, o modo de ler, de acender um texto

de amor nos ouvidos, isto explode e entra

nesta página o mar da minha infância, meigo

no modo de lembrá-lo, lê-lo, de acender

de carícias um texto na memória. De astros

as ruas eram cheias que os cuspiam hoje

na minha mãe de outrora, nas crianças de água, nos

pensamentos nenhuns que eu punha em seus joelhos, em

seus amáveis joelhos a que os astros acorriam,

minha mãe que arranco ao sono, às areias virgens

das palavras, que amanhecido eu gero, as mãos

tão de repente em pânico nos muros.

Luís Miguel Nava em Poesia

quinta-feira, 5 de junho de 2025

PAISAGENS

São outras as paisagens quando alguém

as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando

com esse coração

a própria estrada está comprometida.


Luís Miguel Nava de Rebentação em Poesia

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

XADREZ

Às vezes entretenho-me a sentir cada palavra minha transformar-se em tantas quantas as pessoas que me escutam. As palavras multiplicam-se, irradiam, ficam-lhes no espírito como esses pássaros que, entrando em nossas casas, se debatem horas infinitas contra os vidros. É então que, com frequência, me apetece abrir o peito, expor todas as vísceras, os órgãos sobre os quais a luz do coração incide, e que, se acaso o sol me sobre na consciência, sinto os dedos regressarem lentamente às mãos. Trazem então consigo uma vontade imensa de jogar, de abrir de novo as vísceras, mostrar por dentro o corpo, esse magnífico xadrez de que o trabalho dos meus órgãos equivale à sucessão dos lances.

Luís Miguel Nava em Poesia

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

FALÉSIAS

Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha

memória, a casa a uma janela

da qual ele vem como um sabor à boca,

falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

 

Regresso assim ao mar de que não posso

falar sem recorrer ao fogo e as tempestades

ao longe multiplicam-nos os passos.

Onde eu não sonhe a solidão fá-lo por mim.

Luís Miguel Nave de Como Alguém Disse em Poesia

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

A FOME

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.

Luís Miguel Nava de Vulcão em Poesia

sexta-feira, 5 de abril de 2024

LAMPARINA

Agora que escurece, impregnam-me

a carne os sucos da memória, essa memória

que, pela sua força unicamente,

a ergue entre os destroços e a alumia

como uma lamparina

onde as lembranças fossem o azeite.

Luís Miguel Nava de Vulcão em Poesia

terça-feira, 19 de março de 2024

O AZUL DO MAR

O azul do mar desprende-se da água.

Dos ossos que cravei na realidade, onde pensava

que o mar se sustivesse e da qual  sempre

supus também que o mar se alimentasse (de tal forma

por vezes o sentimos

encher-se de realismo), nem um só, mesmo pintado,

subsiste agora

que o tempo tudo apaga à minha volta

Luís Miguel Nave de  O Céu Sob as Entranhas em  Poesia

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

RETRATO


A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurava proteção.

Luís Miguel Nava  em Poesia

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O ABISMO

Com a sua pele de poço, pele comprometida com o medo que no

fundo fede e a que, digamos, toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura, o branco da memória a alastrar

pelo corpo, um branco tão branco como o das noites em branco e

 sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua, pensos, ligaduras,

impregnados de memória, uma memória onde fulgura a lava dos senti-

dos que entram em actividade e lhe disputam os dias idos, assim ergue

a balança, onde sustém o abismo.

 

Luís Miguel Nava em Poesia

terça-feira, 3 de outubro de 2023

COMO ALGUÉM DISSE

Não é que eu seja sábio, como entre as de mármore alguém disse

ser sempre uma coluna de madeira,

mas creio já ter visto um livro brilhar como

se fosse o mar quem nele ao rebentar depositasse o texto.

Luís Miguel Nava de Como Alguém Disse em Poesia

quinta-feira, 16 de março de 2023

AO ACORDAR

Ainda mal tinha acordado, veio-lhe à memória

de súbito o rapaz que era costume

pagar na leitaria um copo a todos os amigos.


O dinheiro acendia-se-lhe

nas mãos antes de o pôr sobre o balcão.

 

Luís Miguel Nava em Poesia

sexta-feira, 17 de junho de 2022

CREPÚSCULO

Ao sol começa a faltar lenha, a rua

por onde agora eu sigo

vai só até onde a memória a conseguir abrir.

Luís Miguel Nava em Poesia

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

FREQUENTEMENTE


Frequentemente ao olhar uma paisagem tenho a plena consciência de que a estou a ver em português e de que, se outra fosse a minha língua, seria igualmente outra a paisagem que eu veria. À pergunta que é comum ouvirmos «em que língua pensas?, nesta perspectiva, sobrepor-se esta outra: «em que língua vês?»

Luís Miguel Nava em Poesia 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

NA PELE


O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar

ao longo das falésias, o que sempre

me traz a exaltação desses rapazes que circulam

por Lisboa no verão.

O mar está-lhes na pele. Partilho

com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas

a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista

da pedra onde o mar vem largar a pele.

Luís Miguel Nava em Poesia

quinta-feira, 3 de junho de 2021

SINTRA


As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.

Luís Miguel Nava em Poesia

sábado, 29 de maio de 2021

OLHAR AS CAPAS


Poesia

Luís Miguel Nava

Edição de Ricardo Vasconcelos

Capa. Fotografia de Pedro Silveira

Assírio & Alvim, Lisboa, Setembro de 2020


Sem Outro Intuito

 

Atirávamos pedras

à água para o silêncio vir à tona.

O mundo, que os sentidos tonificam,

surgia-nos então todo enterrado

na nossa própria carne, envolto

por vezes em ferozes transparências

que as pedras acirravam

sem outro intuito além do de extraírem

às águas o silêncio que as unia.