Dorme, meu amor, que o mundo já viu
morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor —
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos — a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
Maria do Rosário Pedreira
em O Canto do Vento nos Ciprestes
quarta-feira, 29 de julho de 2026
DORME , MEU AMOR
quinta-feira, 23 de julho de 2026
AS MENINAS, SENTADAS SOBRE O MURO
As meninas, sentadas sobre o muro,
trazem
as mãos para a roda dos vestidos:
resguardam-se
do vento e, sem saber,
escondem
o corpo puro da violência do
amor.
Têm boquinhas frescas e vermelhas,
mas
nos seus lábios arrepiados de segredos
não
pousaram ainda os nomes que as
levarão
ao escândalo e à loucura. Nós
já
fomos assim; passámos as mãos pelo
nada
dos sentidos e pousámos beijos nas
paisagens.
E agora encosta-nos o vento
ao
cansaço dos muros e conhecemos apenas
línguas
mortas – nomes que, buscarmos,
teimam
em chegar cada vez menos.
Maria
do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
quarta-feira, 24 de junho de 2026
PAI, DIZEM QUE AINDA TE CHAMO
Pai, dizem-me que ainda te
chamo, às vezes, durante
o sono – a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí
nos encontramos, para
dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me
depois que é deste lado da
noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem
que o pesadelo é a vida
onde já não posso dizer o teu
nome – porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
terça-feira, 16 de junho de 2026
NUNCA SOUBE O TEU NOME
Nunca soube o teu nome.
Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se
eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava
cal aos muros,
um incêndio capaz de
devorar o coração do mundo.
Não te menti; levantei-me e
fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os
sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar,
disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me
outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter
mais do que uma vida.
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
segunda-feira, 4 de maio de 2026
QUANDO CHEGASTE
Quando chegaste, eu já tinha a morte
dentro do meu sono; e
só por isso não
sentia a pedra do
coração nem o corpo
quase tão frio. Tu não
notaste
que os corvos negros
carpiam já sobre
o meu telhado – e ninguém
te disse que
eu estava a morrer,
porque só eu sabia
que desistir é coisa de
um momento.
Juram, porém, que
ouviste o sangue
cansar-se nas minhas
veias e as larvas
estrebucharem rente à terra;
e que então
afirmaste, sem dominar
um grito, que o
quarto te cheirava
absurdamente a flores.
Não me contaram se
chamaste por mim,
Se pela morte. Mas fui
eu que acordei.
Maria
do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
DÊEM-LHE O QUE PEDIR
Dêem-lhe o que pedir – a mão aberta como
uma ave deitada no seu
peito, estancando a dor;
e beijos, muitos,
pequenos goles de água na sua
boca triste. Levem-no
para a luz e acendam
fogueiras nos seus
olhos, pois esteve cego para
o amor. E cantem-lhe ao
ouvido fados que o
tempo não possa
desmentir, dêem-lhe o que pedir –
sol, uma razão, os
vossos dedos mil vezes no seu
corpo, os meus dedos
cortados par despertar
um sonho na sua pele.
Rasguem-lhe as ligaduras
que nunca foram laços e
livrem-no dos vermes
que pastam nas suas
feridas. Deitem-no na neve
dos lençóis e
encostem-lhe aos lábios bagas de
sumo vermelho, leite, e
um pão que seja um seio
de mulher – o meu seio
amputado, se ele o pedir.
Segurem-lhe o rosto com
as mãos e soprem-lhe
os brancos do meio dos
cabelos. Protejam-no
da escuridão absurda da
noite roubando estrelas
e calem o silêncio
chamando o seu nome
devagar. Porém, não o
molestem nunca com
palavras – deixou a
meio demasiados livros e
há-de morrer exausto do
que não sabe; mas não,
não o deixem morrer
mais uma vez, levem-no
convosco aonde forem e
dêem-lhe o que pedir –
tempo, uma razão, o
vosso riso explodindo
mil vezes nos seus
lábios, as minhas lágrimas
cansadas para lavar a
terra dos seus olhos. Não
o amem em vão, nem
jurem amá-lo até ao fim,
porque, depois do fim,
não saberão o que fazer de
tanto amor. Guardem-no,
por isso, do bafo da
morte e dêem-lhe,
simplesmente, o que pedir –
o vosso sangue mil
vezes derramado nas suas
veias, o meu coração
arrancado para lhe bater
no peito, a minha vida
– sem ele ma pedir.
Maria
do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO
Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas
ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude
aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a
arquitectura fria do estaleiro
onde hoje me sentei a
perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se
acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo,
embora como um lume
de cera, lento e
brando, que já não derrama calor.
Tenho os olhos azuis de
tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os
pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo
cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte
começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre
as mulheres que se passeiam
no cais como se
transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os
seus passos
que vale a pena
esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se
junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está
cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por
isso, vou para casa
e aguardo os sonhos,
pontuais como a noite.
Maria
do Rosário Pedreira em O Canto do Vento nos Ciprestes
segunda-feira, 1 de setembro de 2025
DEIXEI DE OUVIR-TE
Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
Maria
do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
quarta-feira, 25 de junho de 2025
DE QUE ME SERVIU IR CORRER MUNDO
De que serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu
recusar esses mil homens, e os outros
mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti
que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,
mas tu partias sempre na véspera de eu
chegar.
Maria do Rosário Pedreira de Nenhum Nome Depois em Poesia Reunida
sexta-feira, 26 de julho de 2024
ARTE POÉTICA
Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena – que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.
Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão – por onde eu
bebo o mundo, em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.
No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
aonde nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.
No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
terça-feira, 4 de junho de 2024
NÃO TENHAS MEDO...
Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas de cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024
VEM A MORTE...
Vem a morte dizer-me segredos ao
ouvido. Avisa-me da dor, ou quer
levar-me mais cedo para me poupar?
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
terça-feira, 14 de novembro de 2023
O VERÃO DEIXA-ME OS OLHOS...
O verão deixa-me os
olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas – longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página:
em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio – nada
aconteceu
entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.
Maria do Rosário Pedreira em A Casa e o Cheiro do Livros
quarta-feira, 1 de março de 2023
QUE ESSA PRIMAVERA ERA OUTRA
Conta-me essa história, mas esquece deliberadamente
os nomes e as datas. Diz-me que essa primavera
era outra, muito mais antiga.
e agora lembrada sem querer ou por acaso. Conta-me
como foi, mas evita os pequenos detalhes intranquilos.
E, dos lugares, refere apenas os mais desconhecidos
e estranhos à memória. Não fales dos perfumes, dos desejos
ou dos demónios que de noite costumam enfeitiçar o corpo
e entretê-lo. E descreve todos os gestos hesitantemente,
como se fossem mesmo de outro tempo e deles
não mais guardasses que uma lembrança vaga e desprendida.
Conta-me de que falaram, mas escolhe, entre as palavras,
aquelas que pudesses não ter dito. E nunca escondas,
se os houve, os pensamentos tardios que, atrás delas,
tacteariam às cegas, sem destino. Conta-me essa história, sim,
se achares que deve ser, que tem de ser. Mas fá-lo sempre
com quem dela esqueceu a maior parte e não consegue
lembrar-se do desfecho, final feliz ou não.
Assim escutá-la-ei até ao teu silêncio
como um romance antigo, meio lido, perdido agora
entre outros numa estante e para sempre incompleto.
As outras histórias, de amanhã ou depois,
hei-de ouvi-las inteiras: são livros por escrever,
lugares distantes, coisas por inventar no tempo
que aí vem, nomes que não se adivinham nem magoam.
Maria do Rosário
Pedreira em A Casa e o Cheiro dos Livros
terça-feira, 7 de junho de 2022
SETE ANOS ME AGUARDAM DE INCERTEZAS
Sete anos me
aguardam de incertezas. O gato gordo,
sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
ficando, um livro abandonado no melhor
do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu
sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
incertos. Sete anos
para reler uma história demasiado conhecida ou
folhear um livro branco até ao fim. O gato já
desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
cama para desafiar a lua. Eu não, eu eu
fico.
Maria do Rosário Pedreira em A Casa e o Cheiro dos Livros
sexta-feira, 8 de outubro de 2021
VEJO BRILHAR UMA ESTRELA
Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim a
minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a
daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade
faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
domingo, 21 de março de 2021
AS PALAVRAS COMEÇAM A FICAR VELHAS
As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açucares mais lentos.
Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas — por amor,
talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que
ainda esperam por mim. Não sei se volto.
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
terça-feira, 22 de setembro de 2020
LEMBRAVA-SE
Lembrava-se dele
e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo
por amor: daria o
sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira
e por amor haveria
de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se
a desenhar o tempo
como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.
Maria do Rosário Pedreira em PoesiaReunida
quarta-feira, 8 de julho de 2020
VAMOS SER VELHOS
da casa; abrir a porta empenada de
tantos Invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a
chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha
sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.
Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida
sábado, 20 de junho de 2020
A INVENÇÃO DAS CLARABÓIAS
Construíram casas de pedra e lama, pequenos refúgios
onde não tardaram a sentir-se cada vez mais sós.
Sonharam que, um dia, um feixe de luz haveria
de afagá-los. E, fascinados pelo céu, desenharam
óculos pelos telhados.
Tiveram, desde logo, a companhia das estrelas.
Hoje os deuses ainda passam os olhos pelas casas
todas as noites, antes de adormecerem.

