Mostrar mensagens com a etiqueta Revisão da matéria dada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Revisão da matéria dada. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de maio de 2019

REVISÃO DA MATÉRIA DADA


Hoje, começa mais uma Feira do Livro.

 Chega-se a esta minha idade e existem na biblioteca livros comprados e ainda não lidos.

E há sempre o suave ímpeto de comprar mais livros.

A Feira do Livro é, acima de tudo, a lembrança daquela noite, em redor das taças de água do Rossio, em que o meu avô me comprou o primeiro livro de Emílio Salgari. Curiosamente não me inclinei para qualquer Sandokan, ou o Pirata Vermelho, antes Os Pescadores de Pérolas, sei lá bem porquê.

Depois, a pouco e pouco é que vieram os restantes salgaris que, continuo a considerar, na devida idade, um dos melhores estímulos para hábitos de leitura.

Já escrevi:  um dia emprestei a um primo meu – santa ingenuidade!... -  todos os livros que possuía de Emílio Salgari.

Passados uns tempos, quando os quiz de volta, fiquei a saber que tinham sido vendidos que redundaram, se para tanto chegaram, em rebuçados da bola e uma qualquer ida à matinée do Cine-Oriente.

Tenho por aí dois ou três exemplares adquiridos em alfarrabistas a preço baixo.

Um dia, num daqueles alfarrabistas que estacionam, nos sábados, na Rua Anchieta, ao Chiado, pediram-me uma exorbitância por Os Pescadores de Pérolas.

Fiquei a olhar assim um tanto para o surpreendido, mas o livreiro logo atalhou: «É pegar ou largar!».

Não gostei do preço e da fanfarronice e… «larguei.»

A Feira é um gosto muito meu.

Os livros, os jacarandás, o Tejo muito lá ao fundo.

sábado, 20 de abril de 2019

REVISÃO DA MATÉRIA DADA


Um dos livros herdados da biblioteca do meu pai, é um calhamaço, mais de 700 páginas, da Editorial Inquérito: A História das Religiões de Chantepie de la Saussaye.

Tinha os meus 17 anos, passei os olhos, apanhei o que consegui entender e, passados uns tempos, não lembro quanto tempo, comecei a ler o Albert Camus.

Quanto a religiões fiquei vacinado.

Respeito a fé, as crenças, tudo, de quem entenda a isso dedicar-se.

Gostaria que respeitassem o facto de não frequentar deuses, mas não acontece facilmente.

«Só Deus sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros.»

Sobre Deus há um poema dramático de António Rego Chaves:

«Olhava o mar
As ondas
O último esgar
Dos afogados.

Dizia: não salvo.
Vejo e contemplo.
Como se fosse Deus.»

Parto para outras citações:

«Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!»

Alberto Caeiro

«Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.»

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

«Muitos não o perceberam: a grande acusação que José Saramago faz a Deus é Ele não existir, a não ser criado pelos homens.»

José Manuel dos Santos

Alguns fundamentalistas católicos citam:

«Deus não é silencioso. Nós é que somos surdos.»

«O que censuro ao cristianismo, é ser uma doutrina de injustiça.»

Albert Camus

«Um milhão de velas ardendo pela ajuda que nunca veio.»

Leonard Cohen

«não creio como eles creem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam…
morrerei
como eles morrem.»

Marguerite Yourcenar

A Bíblia refere a pergunta de Jesus:

«Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?»

(Transcrição de um texto publicado em  8 de Dezembro de 2016)

terça-feira, 16 de abril de 2019

REVISÃO DA MATÉRIA DADA


Há livros, lidos há muito tempo, caídos no esquecimento e que voltamos a pegar, por vezes olhar, só quando, por uma qualquer assombração, uma campainha toca, e dizemos:

- Eh pá! Eu já li isto!

A campainha que tocou, encontrei-a no livro do Mário de Carvalho Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão.

Escreve Mário de Carvalho:

Muito curiosas as primeiras linhas de Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, com a obsessão enumerativa que prepondera em todo o romance: «Faz hoje trezentos e quarenta e oito anos seis meses e dezanove dias que os parisienses despertaram com a barulheira de todos os sinos a badalar…



O livro, dois volumes, o primeiro com 294 páginas, o segundo com 352 páginas, cheias de uma letra minúscula e que pertencem à Colecção Lusitânia da Livraria Lello & Irmão, sem data de edição, sem indicação do tradutor, apenas a nota «Tradução Cuidado», foi-me oferecido, em 1958, por ocasião dos meus 13 anos, pelo António Colaço, um amigo do meu pai.

Que leva alguém a oferecer, a um puto, um livro destes?

Que o leia, naturalmente.

Senão aos 13, aos 50, aos 75 anos, mas que o leia.

Ficou de lado à espera de uma qualquer vontade.

Lembro-me de o ler, não recordo com que idade, mas de certeza antes dos 22 anos.

Naquele tempo era a leitura o que restava, mas poucos eram os privilegiados.

Não havia televisão, apenas cinema ao sábado à noite ou domingo à tarde, futebol de 15 em 15 dias e como não era possível andar sempre a jogar à bola nas ruas, lia-se tudo, passavam-se livros de mão em mão, assim um pouco, como, maravilhosamente, contou Dinis Machado no capítulo Os rapazes dos livros, das fitas e da bola, de Reduto Quase Final

Recordo a leitura encantantória de Nossa Senhora de Paris, principalmente a partir do livro Sétimo, quando o autor decreta dos perigos de confiar um segredo a uma cabra.

Quasímodo, o Corcunda enclausurado de Notre Dame, Esmeralda, a bela cigana, a história do louco amor dele por ela, e apenas a  amizade dela por ele. Também o arcediago de Notre Dame, D. Claudio Frollo , também ele , esquecendo Deus, perdido de amores pela bela cigana.

O entusiasmo pelo livro teve um acalentamento suplementar, transformado em grata memória, quando, no Cine-Oriente, princípios dos anos sessenta (1962?) vi o filme que Jean Delannoy adaptou ao cinema, com a participação de Jacques Prévert, espaço assombroso para uma deslumbrante Gina Lolobrigida e um excelente Anthony Queen.


Com os dois volumes nas mãos, uma leve tentação para voltar a ler, mas aquela letra miudinha fez desfalecer o pitosga que já sou.

Assim, en passant, como dizem os franceses, perdi umas horas a (re)ler algumas páginas, e deu-me para respigar da pág. 175 do 2º volume:

No dia seguinte pela manhã descobriu, ao despertar, que tinha dormido. Já havia tanto tempo que se desabituara de dormir! Um alegre raio de sol nascente entrava pelo postigo e vinha beijar-lhe o rosto. Ao mesmo tempo que o Sol, viu nesse postigo um objecto que a encheu de medo; era o desventurado rosto de Quasímodo. Involuntàriamente fechou os olhos, mas debalde; parecia estar sempre a ver através das suas pálpebras cor-de-rosa aquela máscara de gnomo, cego dum olho, com os dentes de fora. Então, conservando sempre os olhos fechados, ouviu uma voz rude que dizia com muita meiguice:
- Não tenhais medo. Sou vosso amigo. Que eu venha ver-vos dormir não vos faz mal, não é verdade? Que vos faz que eu esteja aqui quando tendes os olhos fechados? Agora vou-me embora. Vede, pus-me por detrás do muro. Podeis abrir os olhos.

Mais um pormenor sobre a Nossa Senhora de Paris.

Durante anos, o Paulo Rodrigues, que foi actor saído da Guilherme Cossoul, foi meu colega de trabalho e, volta e meia, entre as diversas secretárias, percorria o espaço da grande sala, fazendo de corcunda e coxo e a dizer:

«Mon seigneur.»
   
Um pormenor que não diz nada a ninguém, mas que, agora que o lembro, me faz sorrir de ternura.