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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

SOLTAS

Hoje, para abrir, detemo-nos numa frase de Karl Marx, citada por Ana Cristina Leonardo na crónica das sextas-feiras no suplemento ípsilon do Público:

 

         PRIMEIRO A TRAGÉDIA, DEPOIS A FARSA

 

1.

Portugal é o 3.º país da UE com maior índice de envelhecimento: um rácio de 182 idosos por cada 100 jovens.

2.

António Guerreiro, na sua crónica no Ipsilon do Público, aborda o populismo. 

Há uma grande conveniência em que seja lida:

«A noção de populismo, que surgiu nos anos 80 do século XX, tornou-se actualmente um conceito vazio, uma palavra que significa tudo e não significa nada, como aquelas a que Lévi-Strauss, lendo Marcel Mauss, chamou “significantes flutuantes”. Sob essa condição vazia, o populismo não passa de uma “coisa”.
Originalmente, ele foi designado como uma ideologia fraca, sem espessura (uma “
thin ideology”, dizem os teóricos de língua inglesa), caracterizada pelo apelo de um chefe carismático a um antagonismo político e moral, eminentemente maniqueísta, entre dois campos: de um lado, o “povo”, simples e puro; do outro, as “elites” maléficas e corruptas. O populismo, na sua acepção primeira, é um fascismo em potência: tem alguns traços do fascismo, mas evita deslizar completamente até aí. Tal como o fascismo, ele participa de uma metafísica; e tal como o fascismo, opera através da mobilização reaccionária de um povo que ele próprio fabrica.»

3.

Limite de voos nocturnos em Lisboa só foi cumprido em duas semanas de 2026.

4.

O governo, a uma só voz, defende o ministro Luís Neves. O mesmo não acontece nas sedes do PSD, em que pelos corredores, em surdina, ou não, se critica largamente o ministro.

5.

A frase da secção Escrito na Pedra do Público, de hoje, pertence a Simone de Beauvoir.

«O homem sério é perigoso, pode transformar-se em tirano».

6.

«DANÇAR È REZAR COM AS PERNAS».

sábado, 8 de agosto de 2026

SOLTAS

Quando Ana Cristina Leonardo, volta e meia, conta esta história do seu pai, apresto-me a reproduzi-la:
«No final da década de 40, inícios de 1950, os EUA e o sonho americano tinham mais fãs do que muitos imaginam dentro das fileiras dos que lutavam contra o regime de Salazar. Numa reunião de oposicionistas em Olhão, uma arrebatada plateia criticava a miséria portuguesa enquanto exaltava o progresso do Eldorado americano onde toda a gente tinha emprego, casa e viatura própria. E foi no meio dos gritos de “Um Cadillac para cada olhanense!” que o descansado do meu pai pediu a palavra e, tentando acalmar os ânimos, contrapôs: “Para já, uma bicicleta a pedais para cada português. Os Cadillac, logo se verá”».


1.

Estrangeiros conseguem pagar em média mais 43% por uma casa em Portugal, inflacionando o mercado imobiliário, agravando a sobrevalorização e os problemas de acessibilidade da habitação no país

Jornal de Notícias, 27 de Maio

2.-

Duplo emprego atinge máximo num mercado de trabalho instável e de baixos salários. O número de trabalhadores com com dois ou mais empregos em Portugal tem vindo a crescer e atingiu em 2025 o seu recorde com um afluxo superior a 267 mil pessoas.

Jornal de Notícias, 1 de Maio

3.

À boleia do disparo dos preços do petróleo nos mercados internacionais, a Galp Energia registou uma melhoria de 44% dos lucros nos primeiros seis meses do ano.

4.

«Portugal registou quase 700 mortes acima do esperado este Verão
Até ao momento "foram identificados três períodos onde ocorreram mortes em excesso" durante o Verão, dos quais resultaram 680 mortes acima do esperado para a época, segundo as estimativas da Direcção-Geral da Saúde e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Os valores observados "ficaram abaixo do impacto na mortalidade estimado pelo Índice Ícaro", um sistema que estima o possível impacto das elevadas temperaturas na mortalidade. Vários países europeus estão por esta altura a enfrentar novamente temperaturas excessivas, mas para já Portugal está a escapar à situação. As autoridades de saúde mantêm-se atentas.»

Público 7 de Agosto

5.

Os técnicos do INEM fizeram 365 mil horas extras  em 2025.

6.

O número de moradores da avenida da Liberdade passou de escassa meia centena de pessoas há 15 anos para cerca de um milhar hoje em dia.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

OS DIAS VISTO DO CAFÉ DO MONTE

Ana Cristina Leonardo preguiçando pelos alentejos-quase-espanha- pouco mais de 200 metros de largura de água fluvial a separar os dois países –:

«A vida decorre, pois, sem novidade, e só o preço da gasolina e das frutas e hortaliças nos relembra que há guerras a decorrer no mundo.»

terça-feira, 21 de abril de 2026

RETRATOS


               O humor é uma coisa muito séria.

                Penso que é uma das maiores e mais antigas riquezas nacionais

                que devem .ser preservadas a todo o custo.

                                                    James Thurber

A coisa mais negligente, para não dizer a mais feia, que podemos fazer, é descobrirmos um tesouro e não badalarmos logo esta descoberta a amigos e conhecidos, para que dela também possam beneficiar. É tão criminoso como descobrir o chocolate e ficar calado. Não se faz! O que é bom é para repartir.

Dei com a Ana Cristina Leonardo, quando o meu filho João Luís me ofereceu o seu pícaro e fabuloso romance O CENTRO DO MUNDO, que desafia a imaginação do mais pintado. Depois, apareceram as suas crónicas no suplemento ´IPSILON, do PÚBLICO, de tal modo cintilantes de inteligência, verdadeira cultura e humor sonso, fininho e manhoso (os ingleses chamam-lhe humor “sly”, que talvez se possa também traduzir por sacaninha), que achei francamente ranhosa a periodicidade com que eram publicadas. Resmunguei com os meus botões: “Se o PÚBLICO desse conta do valor destas crónicas, publicava-as semanalmente.” Acontece que o PÚBLICO ou deu conta ou ouviu o meu resmungo enviado para o éter.

E passámos a ter, todas as semanas, à sexta feira, o prazer e o privilégio de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, que são sérias, da maneira mais séria e competente que há de o ser: recheadas daquele humor que os lusíadas cultivam tão pouco, com excepção de gente (pouca) com o talento de um José Sesinando.

Dos humoristas tem-se dito muita coisa, mas o mais frequente – e tem um fundo de verdade – é dizer-se que não são, em geral, uma tribo feliz. O notável crítico e ensaísta literário britânico, Cyril Connolly, autor do muito conhecido ENEMIES OF PROMISE, punha a coisa nestes termos: ” Os humoristas não são homens felizes. Como Beachcomber e Saki e Thurber, eles ardem enquanto Roma toca violino.” 

Ser humorista é uma profissão de alto risco, sobretudo se exercida num milieu de gente com pouca vocação para o humor e que mais depressa afina do que ri. É precisa uma grande arte, para gozar fininho, todo o tempo, com o parceiro, e sair incólume desse exercício. Era isso mesmo que avisava George Bernard Shaw, quando dizia: “Mark Twain e eu estamos muito na mesma posição. Temos de pôr as coisas de tal maneira, que levem as pessoas que, normalmente, nos teriam enforcado, a acharem que estamos só a brincar.”

Ana Cristina Leonardo exercita-se, da maneira mais culta e atrevida, nesta arte de ensinar, divertindo-nos com o seu finíssimo senso de humor e pisando galhardamente a fronteira do risco. E quem não gosta de arriscar-se é melhor não se meter nestas andanças.

Se, como sugere Connolly, ela também pertence à tribo dos infelizes, não sei, porque não tenho o privilégio de a conhecer pessoalmente. Mas sempre direi que, quando leio o seu discurso recheado de ensinamentos e humor sacaninha, prefiro pensar que talvez ela desminta o aforismo do autor de ENEMIES OF PROMISE.

 

Eugénio Lisboa, Novembro de 2022

sexta-feira, 27 de março de 2026

DAS CITAÇÕES


 Sempre entendi que quando há quem diga as coisas melhor do que possa dizer, não hesito em fazer citações.

«"Um país maluco de andorinhas / tesourando as nossas cabecinhas /de enfermiços meninos, roda-viva / em que entrássemos de corpo e alegria! Do humor visionário
Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.

Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre jeito. De pois há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizado.»

Ana Cristina Leonardo, Público 20 de Fevereiro

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi

Legenda: Ilustração de Willard Metcaff

sábado, 21 de fevereiro de 2026

CONVERSANDO


Das citações.

A opinião de Eduardo Prado Coelho:

«Citas muito, dizem. Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado pelas modas «que vêm do estrangeiro».

Gostaria de tornar bem claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas – isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.

Por outro lado, a citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»

Por mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo, não hesito: cito.

São diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.

Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.

 Deste modo:

«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona, 3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.

Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon acabaria mesmo por morrer de pneumonia.

Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”, pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”) —, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»

A prosa sobre citações já vai longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na edição do Público de ontem:

«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»

segunda-feira, 26 de maio de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE


 A crónica de Ana Cristina Leonardo no Ipsilon de sexta-feira, como habitualmente, tem muito interesse.

A pergunta é:

Se os algarvios tivessem um hospital decente, os resultados eleitorais manter-se-iam os mesmos?

E a cronista adianta:


«Tudo começou lá muito atrás, era 2002 (vá lá, já foi no século XXI). Primeiro veio o despacho, um ano depois o mesmo ministro aprova a escolha do terreno; ainda em 2003 é celebrado um Acordo Estratégico, seja lá isso o que for. Em 2004, é a quinta prioridade dos hospitais a construir pelas parcerias público-privadas. Em 2005 há novo estudo e em 2006 passa a segunda prioridade. No mesmo ano, nomeiam-se grupos de trabalho em barda. 2007: mais despachos. 2008: preparação do concurso e apresentação pública do novo hospital (uf!). Refreie-se o optimismo! Chega 2009 e mais um despacho. 2010: seleccionam-se duas propostas e em Setembro “inicia-se a fase de negociação, que ainda decorre” (sic).

Isto, podendo não ser gozar com quem trabalha, é decerto gozar com quem está doente.»

Mais um pedacinho da crónica:

«Se apelidar alguém de gordo pode ser interpretado como discurso de ódio, se questionar a participação de mulheres trans em competições desportivas femininas pode ser (e geralmente é, que o diga J. K. Rowling…) visto como transfobia, se recusar a chamada linguagem inclusiva que multiplica casos e casinhos pode ser entendido como discriminatório, se optar por usar a palavra deficientes em vez da designação pessoas com deficiência pode ser lido como prova de insensibilidade, se contar uma piada passou a ser razoável apenas e só se a piada não ofender ninguém, se… se… se… Já aparecer nas televisões e nos jornais a afirmar mentirosamente (desmentido pelos serviços hospitalares e pela PSP) que os ciganos o queriam matar, ou a expressar ideias boçais que nem na taberna de Eco, como fez o deputado Pedro Pinto (Deputado! Por Toutatis!) — “Não podem querer que André Ventura vá para uma cama onde ao lado esteja, por exemplo, alguém de etnia cigana” — passou a ser admissível e, além de admissível, aceitável.
Repare-se, porém, no detalhe (e o Diabo, é sabido, está nos detalhes): Pedro Pinto, recorrendo, até ele, e apesar da boçalidade, ao politicamente correcto — um entendimento linguístico que nos conduziu à ideia de que é possível mexer na merda sem sujar as mãos… —, não diz ciganos, diz alguém de etnia cigana. É o progresso!»

terça-feira, 6 de maio de 2025

À LUPA


«Uma coisa muito simples (felizmente Robert Wyatt não é sociólogo): “É óbvio que ao capitalismo não interessa que toda a gente morra à fome porque aí desaparecem os consumidores. Basta que as pessoas tenham dinheiro para comprar Coca-Cola, hambúrgueres e discos da Britney Spears”.»

Robert Wyatt citado numa crónica de Ana Cristina Leonardo 

Legenda: Robert Wyatt

sábado, 26 de abril de 2025

À LUPA


«A existência de Trump, Vance, Putin e André Ventura é um forte argumento a favor da inexistência de Deus».

Tirado de um comentário à crónica de Ana Cristina Lourenço no Público de ontem.

sábado, 12 de abril de 2025

À LUPA

«Como não me canso de dizer: o mundo está confuso. Assim sendo, talvez devesse até seguir a sugestão de um leitor que me aconselhou a escrever apenas sobre amêndoas, amendoeiras, figos e figueiras.

Pus-me a pensar nisso mais a sério quando li que Marine Le Pen se comparou a Martin Luther King. On aura tout vu! — como dizem os franceses.»

Ana Cristina Leonardo, na crónica do Público de 11 de Abril.

domingo, 30 de março de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

As meditações de Ana Cristina Leonardo no Café do Monte, mais as suas crónicas no Público.

Final da crónica de ontem:

«Confesso que esta nova realidade me confunde. Acrescento não acreditar que seja a única baralhada. Aliás, com excepção da presidente da Comissão Europeia e de Nuno Rogeiro (este sempre na posse de umas informações ultra-secretas que não pode partilhar…) e poucos mais — uns com conhecimentos de estratégia militar, outros versados na psicologia dos russos — creio haver pouca gente com certezas.

Uma esperança me acalenta, porém, e eu não sou optimista.

Se for verdade que a História, à segunda, transfigura-se em farsa e abandona as vestes da tragédia, nada nos garante que isto não seja tudo a brincar. No fim, Ursula von der Leyen irá tomar conta dos seus póneis na sua quinta na Alemanha e António Costa voltará para a sua casa em Benfica, onde escreverá as suas memórias dedicadas a Mário Soares. Putin retirar-se-á para a sua datcha, Trump para a Gronelândia e Zelensky voltará ao humor televisivo.

Tudo estará bem porque acaba bem. A não ser que venha aí uma nova pandemia ou algum meteorito colida com a Terra.»

sexta-feira, 21 de março de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

«Cavaco Silva, José Sócrates, Luís Montenegro. Alguém devia estudar esta obsessão dos políticos lusitanos pelo imobiliário.

Uns dizem que a frase foi proferida por um anarquista mexicano, outros garantem tê-la ouvido pela primeira vez da boca de Che Guevara.

Para quem não sabe, Che Guevara, de seu nome de baptismo Ernesto Guevara de la Serna (não confundir com o espanhol Ramón Gómez de la Serna​ de quem aproveito para recomendar todos os livros traduzidos entre nós — e são vários), foi um revolucionário argentino com papel preponderante na luta cubana contra o ditador Fulgencio Batista – após o derrube do governo de Batista, chegou a ministro do novo governo dirigido por Fidel Castro – acabando por ser executado em território boliviano em Outubro de 1967, capturado pelas Forças Especiais da Bolívia assessoradas pela CIA. Enterrado, então, em parte incerta, as mãos decepadas enviadas para os EUA para confirmação de identidade, sobreviveria por vários anos em T-shirts e posters onde vinha impresso o seu rosto em grande plano coroado pela inevitável boina, pendurados, os posters, nas paredes dos quartos de adolescentes e jovens adultos que lhe admiravam, e invejavam, a rebeldia e coragem.»

Ana Cristina Leonardo na crónica de hoje publicada no Público.

domingo, 16 de março de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

A crónica de Ana Cristina Leonardo, publicada ontem no Público com o título Dúvidas Metódicas, lembra uma das muitas histórias que a rapaziada do ar condicionado em gabinetes na Comissão Europeia que envolviam frutas e vegetais que necessariamente obrigava a determinados tamanhos, bem como a não utilização de colheres de pau nos restaurantes e nas nossas casas e também os galheteiros nos restaurantes, as bolas-de-berlim vendidas na praia, o pão duro (que mais tarde alguém veio lembrar ser indispensável às açordas), as chávenas de café em louça nas esplanadas, a marmelada à fatia, etc., etc. Contas feitas, em nome da higiene e segurança alimentares, punha-se em risco tudo o que fosse artesanal, dos queijos de Azeitão à sopa de couves confeccionada com legumes colhidos directamente do quintal ao lado não registado nas Finanças.

Tal como escreve Ana Cristina Leonardo:

«A mudança foi radical e deu-se numa dúzia de anos. Estávamos em Julho de 2009 quando a comissária europeia para a Agricultura e Desenvolvimento Rural, a dinamarquesa Mariann Fischer Boel, que exerceria o cargo entre 2004 e 2010, anunciava a reabilitação dos produtos hortícolas defeituosos: “Trata-se de um exemplo concreto dos nossos esforços para eliminar burocracia desnecessária. (…) Na actual conjuntura de preços elevados dos produtos alimentares e de dificuldades económicas generalizadas, os consumidores devem poder escolher entre a mais vasta gama de produtos possível. Não tem qualquer sentido eliminar produtos de perfeita qualidade, apenas porque têm uma forma errada”.»

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

Sejamos claros: o problema não é o que Elon Musk escreve no X: o problema são os cheques que ele depois passa quando vai para casa. Sem cifrões – palavra que foi perdendo crédito entre nós após a conversão de Portugal ao euro – os pontos de vista de Musk não teriam sequer cotação na bolsa de valores da opinião pública. E, sim, até onde a minha vista alcança, nunca como hoje foi tão absolutamente visível que money makes the world go round, de resto um facto bastante anterior ao dueto de Liza Minnelli e Joel Grey em 1972 no Cabaret de Bob Fosse. Em 1914, o norte-americano de origem alemã, Adolf Philipp, um nome então bem conhecido da Broadway, compôs canção de título idêntico para a comédia musical Two Lots in the Bronx e, sem nos desviarmos do tema, recorde-se que o primeiro volume de O Capital de Marx foi publicado ainda antes, em 1867. Há mais de 150 anos que andamos à volta do mesmo.

Parecer actual e irrefutável: os ricos estão a ganhar! E nem o mais pobre de entre nós ousará dizer o contrário.

Da crónica de Ana Cristina Leonardo no Público de 10 de Janeiro.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

Portanto isto da idade não conta para se ser ou não milionário (o que não faltam, aliás, são milionários de nascença).

Mas falávamos do fascínio exercido pelo dinheiro, apesar dos maus resultados que tal fascínio vem arrastando. Houve uma altura em que se citava uma frase atribuída aos Cris, uma etnia índia ainda hoje numerosa no Canadá:

«Só quando for cortada a última árvore, pescado o último peixe, poluído o último rio, as pessoas perceberão que não podem comer dinheiro.»

Ana Cristina Leonardo de uma crónica no Público de 13 de Dezembro

domingo, 5 de janeiro de 2025

POSTAIS SEM SELO

 Eu era jovem e acreditava que os livros podiam mudar o mundo.

Ana Cristina Leonardo

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

OLHARES


 O governo de direita-ultra-liberal de Luís Montenegro, nos poucos meses em que vem actuando, tem-nos dado atitudes e imagens verdadeiramente lamentáveis.

A exibição policial na Rua do Benformoso terá sido a mais execrável.

«A noção de necropolítica foi introduzida por Achille Mbembe​ para designar as operações cirúrgicas praticadas sem anestesia no corpo das populações, em que as intervenções, comportando uma boa dose de violência efectiva e, ainda mais, de violência simbólica, são sempre político-cirúrgicas. A necropolítica usa a necropolícia para realizar a cirurgia política.
Tem “necro” no nome porque governa a partir da produção da morte, física ou social, e está ancorada no estabelecimento de uma hierarquia dos vivos. O conceito de necropolítica engloba, portanto, o direito de impor a morte social ou civil, a submissão incondicional e diversas formas de violência política. Uma imensa fila de corpos encostados à parede pela necropolícia, numa rua de um bairro da cidade habitado maioritariamente por migrantes, serve para mostrar corpos que perderam todo o seu poder, socialmente mortos. É isto a política do medo, longamente testada noutras ocasiões históricas.»

António Guerreiro no Público de 27 de Dezembro

«Fugindo à gritaria, o que mesmo importa é a pergunta que nos deixou Pacheco Pereira: “se fosse eu a caminhar pela rua, teria sido encostado à parede e revistado?”

E a isso, claro, não respondeu o primeiro-ministro. Fazendo prova de uma lógica rebuscada – talvez Marcelo Rebelo de Sousa lhe chamasse lógica urbano-ó-rural, numa palavra, rústica – veio Luís Montenegro afirmar, justificando o aparato: "Muitas vezes não é preciso que haja muitos crimes para que as pessoas se sintam inseguras".


Tem toda a razão. Entre realidade e percepção da realidade existem muitas diferenças. O que me encanitou na frase foi a conclusão a que ela obriga. Considerados os resultados práticos da operação – escassíssimos, to say the least – terá redundado do espectáculo do alinhamento a convicção de que, afinal, há mesmo poucos crimes na zona e podemos todos sentirmo-nos seguros? Os mais velhos, chegando a acrescentar: “Ó Ernestina, vamo-nos embora qu’ isto foi tudo uma grande aldrabice!”?»


Ana Cristina Leonardo no Público de 27 de Dezembro

sábado, 14 de dezembro de 2024

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 E chegámos a isto!...

1.

O lento caminhar em busca de natais suportáveis. 

Ainda é possível?

2.

Tóquio adopta semana de quatro dias para tentar o aumento da natalidade.
A partir de Abril de 2025, os trabalhadores da administração pública de Tóquio irão trabalhar apenas quatro dias por semana. A medida é mais um dos passos para reverter as baixas taxas de natalidade do Japão nos últimos anos. O país está a caminho do 16.º ano de declínio da população.

3.

As fortunas mundiais superiores a mil milhões de dólares aumentaram 121% entre 2015 e 2024 e o número de multimilionários passou de 1757 para 2682, segundo o relatório anual sobre grandes patrimónios elaborado pelo banco UBS.

4.

De uma crónica Gonçalo M. Tavares no Expresso:

«Um escritor uma vez disso: “Há dois tipos de pessoas. Evite os dois».

5.

Mil dias da invasão russa por terras da Ucrânia.

Lido por aí: concluir que nem Joe Biden, nem a NATO alguma coisa fizeram para evitar a guerra, antes pelo contrário: desejaram-na!

6.

Platão, citado por Mia Couto:

«Há três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar.»

7.

De uma crónica de Ana Cristina Leonardo publicada no Público:

«O divertissement implica tempo, claro. Um tempo parado, contemplativo, contrário ao tempo da aceleração exponencial. E as brincadeiras dos cães lembraram-me agora uma história. Uma história por demais conhecida. Contava-a António Alçada Baptista:
Andava o Padre Anchieta por terras do Brasil. Com pressa no chegar, pede o jesuíta aos índios que lhe transportam a tralha que sejam despachados no passo. O destino fica longe, a dias de caminhada. No primeiro dia os índios foram céleres, assim como no segundo. Inesperadamente, ao terceiro descansaram. Surpreendido, pergunta-lhes o padre pelo motivo da pausa. A explicação chegou rápida e era simples: “Temos vindo demasiado depressa e a nossa alma ficou para trás. Temos de esperar por ela para podermos continuar”.»

8. 

 


Recorte retirado da página de Economia do Expresso de 22 de Novembro.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

OS DIAS VISTO DO CAFÉ DO MONTE

«É verdade: gosto de me posicionar contra Sartre a favor de Camus. A História viria a dar razão ao segundo e ainda hoje pagamos o preço de não termos dado ouvidos a Koestler. Talvez até aproveite a canícula para ler à noite, quando o cérebro supera da letargia, O Peso da Responsabilidade – Blum, Camus, Aron e o século XX francês de Tony Judt (Edições 70, 2018), ensaio sobre três homens que acabariam renegados pelo seu tempo, um pouco à semelhança do próprio Judt, que não conseguiu escapar ao rótulo de self-hatred-jew.»

Ana Cristina Leonardo, crónica no Público de 28 de Junho.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

OS DIAS VISTO DO CAFÉ DO MONTE

«O divertissement implica tempo, claro. Um tempo parado, contemplativo, contrário ao tempo da aceleração exponencial. E as brincadeiras dos cães lembraram-me agora uma história. Uma história por demais conhecida. Contava-a António Alçada Baptista.

Andava o Padre Anchieta por terras do Brasil. Com pressa no chegar, pede o jesuíta aos índios que lhe transportam a tralha que sejam despachados no passo. O destino fica longe, a dias de caminhada. No primeiro dia os índios foram céleres, assim como no segundo. Inesperadamente, ao terceiro descansaram. Surpreendido, pergunta-lhes o padre pelo motivo da pausa. A explicação chegou rápida e era simples: “Temos vindo demasiado depressa e a nossa alma ficou para trás. Temos de esperar por ela para podermos continuar”.»


Ana Cristina Leonardo numa das suas crónicas no Público