Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Filipe. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Filipe. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

GENTE MINHA, MINHA GENTE

O Armindo descobriu o Daniel Filipe quando, aos 39 anos, o poeta morreu.

Não que os jornais tivessem feito um cântico da sua morte, mas porque os amigos do Daniel Filipe desataram a passar os seus poemas de mão em mão.

Um dia subindo a Rua do Carmo, na grande montra da Discoteca Melodia, vi, em destaque, o Lp  A Invenção do Amor de Daniel Filipe.

«Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares, um cartaz denuncia o nosso amor.»

Assim começa o belíssimo, o extraordinário poema de Daniel Filipe:

«Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com carácter de urgência»

Nos tempos cinzentos, trágicos do salazarismo/caetanismo, Daniel Filipe fez parte de uma longa lista de gente que me ajudou a enfrentar esses dias – Gente Minha, Minha Gente.

Daniel Filipe lutou contra o obscurantismo, a opressão, a ignorância, a insensibilidade. A cidade sufocante, a placidez burguesa dos que faziam por não ver, dos que denunciaram, dos que traíram, a angústia, os amigos presos - «não posso amar serenamente com tantos amigos na prisão», escreveu. Fernando Assis Pacheco, cantou Adriano Correia de Oliveira.

Daniel Filipe foi um homem perseguido e torturado pela Pide,

privado de voz durante o período da ditadura.

«Se um homem de repente interromper as pesquisas e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão já sabeis o que tendes a fazer. Matai-o. Amigo Irmão que seja. Matai-o. Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.»

Levou o tempo que teve de levar, mas escaparam.

Por mais que levantassem os muros.

A censura salazarista proibiu romance de Daniel Filipe O Manuscrito na Garrafa, publicado em 1960.

Proibido por ser considerado “inconveniente, sob os aspectos político, social e moral. As passagens assinaladas nas págs. 11, 36 a 38, 46, 49, 52, to, 73,75, 77, 79, 89, 91, 119 a 121, 123, 125, 126, 133, 134, 141, 149, revelam a sua índole.”

Um tal José de Sousa Chaves, coronel-trambolho da censura, foi implacável e proibiu o livro: «entendo que não deve ser autorizado a circular no país».

Esta gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira, capacho-mor-do-botas-santa-combista, foram os polícias do nosso pensamento, da nossa liberdade.

Quase meio século de obscurantismo, uma luta desigual, porque os que combatiam estes trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que cortassem a raiz ao pensamento, mas sabia-se que as cantigas podem ajudar, mas não eram armas e o tempo crescia como um deserto e com ele a dor, o desespero, a cólera.

José Osório de Oliveira, escreveu o prefácio do Discurso Sobre a Cidade, livro de crónicas de Daniel Filipe e esgalhou este maravilhoso, perfeito pedacinho:

 «Possuo uma faculdade que tem sido a minha melhor defesa, senão a única de que disponho para não sofrer: a de matar, no meu espírito, aquilo ou aquelas pessoas que passaram a repugnar-me».

RELENDO DANIEL FILIPE

Desertar do céu deste inverno a andorinha

bem pouco diz talvez não o notar

Mas não a ver nem quando o sol domina

que terra tenho eu para me perdoar?

Ruy Belo em Transporte no Tempo (1973) em Todos os Poemas

terça-feira, 8 de julho de 2025

REOLHARES


 PRIMUS INTER PARES

(Texto publicado em 28 de Outubro de 2011)


Há no Porto um café onde se pensa. Há no Porto um café onde se escreve. Há no Porto um café onde se discute. Há no Porto um café onde se é intelectual pelo preço acessível, a qualquer bolsa, de meia de leite e torrada bijou.

Tem um ar recatado, simples: o aspecto, doce e calmo, de um domingo de Novembro. Mas não se iludam, amigos: confesso que este café me preocupa e intimida. Que me suam as mãos, quando lá entro. Que me sinto mesquinho e sem valia, quando me atrevo a mergulhar na mansuetude quase líquida da sala.
Nesse 
café do Porto, os intelectuais contam-se pelo número de clientes. Há-os verdadeiros e de pacotilha, circunspectos e irreverentes, académicos e revolucionários. Há-os de todas as escolas e matizes, novos, velhos, morenos, bexiguentos, altos, ínfimos, com rendosas conezias ou dificuldades de dinheiro. Escrevem, pintam, dissertam, analisam, definem. Sobretudo definem, quer dizer: classificam de acordo com a morfologia conveniente, etiquetam, intitulam, fossilizam. É um café virado do avesso, onde as janelas dão para o íntimo da pequenez das coisas: só por se estar olhando a rua através das cortinas ondulantes, a rua e o seu sentido hieroglífico tornam-se perigosamente inexistentes. Depois, quando se vem, de novo, para a alegria do sol, é indispensável e urgente reinventar a rua sem limites até ao mais inútil e inofensivo dos disfarces. E para quê, afinal?
Pois, senhores, é bem fácil a resposta: para que, à mesma hora do mesmo dia igual, qualquer cliente possa fechar os olhos à presença do mundo, pensando, discutindo, escrevendo. E registe-se, para uso dos iletrados irrecuperáveis, e nosso próprio conforto espiritual, que isto de latim é uma bela coisa.

 

Daniel Filipe em “Discurso Sobre a Cidade” 

 

Legenda: são lindíssimos os cafés do Porto. Alguns ainda resistem.

Segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nesta crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.

Andei à procura de uma fotografia do Rialto, mas não encontrei.

A que ilustra o texto é do Café Majestic, um ex-libris da cidade.


segunda-feira, 25 de setembro de 2023

RETRATOS SOLTOS


Não conheci pessoalmente Luís Veiga Leitão, mas Marta Cristina Araújo, que com ele privou, falou-me da sua extrema sensibilidade, da sua cultura, da sua luta política contra o fascismos, dos maravilhosos desenhos, com que ilustrou alguns dos seus livros.

Daniel Filipe tem um bonito texto sobre os cafés do Porto e segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nessa crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.

Na Biblioteca da Casa havia pouquíssimos livros de poesia: Bocage, Luís de Camões, José Régio, Cardoso Marta, pouco mais.

Os poetas que nos impingiam nas Selectas Literárias, por onde estudei, eram uma treta. Falei ao meu pai sobre a necessidade de alargar horizontes que falassem de futuro, amanhãs, revolta, liberdade, esperança, luta, paz.

Pôs-se em campo e sugeriram-lhe os diversos poetas da Colecção Poetas de Hoje editada pela Portugália.

Foi aí que, entre outros, conheci Luís Veiga Leitão, o nº 16 da Colecção, Ciclo de Pedras, com prefácio de Fernando Guimarães.

O poema que hoje se publica pertence a Noite de Pedra.

Em 30 de Março de 1952 Luís Veiga Leitão foi preso pela PIDE e ficou em Caxias cerca de um ano. Na cela 13 do Aljube, incomunicável, iniciou a redacção mental dos poemas que memorizava, dizendo-os repetidas vezes em voz alta e foi-os guardando na memória, os guardas a ouvi-lo chegaram a pensar que estava louco. Veiga Leitão considerou esses poemas, ao todo 20 poemas, um diário de prisão, e um itinerário das cadeias por onde passou: Pide do Porto, Aljube e Caxias. Viria a publicá-los em 1955 num livro com o título Noite de Pedra - imagens da noite fascista e que foi apreendido e proibido pela censura.

Este livro contém outros dois lindíssimos poemas: A Uma Bicicleta Desenhada na Cela e Manhã.

A UMA BICICLETA DESENHADA NA CELA


Nesta parede que me veste
da cabeça aos pés, inteira,
bem hajas, companheira,
as viagens que me deste.

Aqui,
onde o dia é mal nascido,
jamais me cansou
o rumo que deixou
o lápis proibido...

Bem haja a mão que te criou!

Olhos montados no teu selim
pedalei, atravessei
e viajei
para além de mim.

MANHÃ

-Bom dia. Diz-me um guarda.
Eu não ouço...apenas olho
das chaves o grande molho
parindo um riso na farda.

Vómito insuportável de ironia
Bom dia, porquê bom dia?

Olhe, senhor guarda
(no fundo a minha boca rugia)
aqui é noite, ninguém mora,
deite esse bom dia lá fora
porque lá fora é que é dia!

Eduardo Guerra Carneiro em Homenagens, do seu livro Contra a Corrente, inclui  um poema dedicado Luís Veiga Leitão.

Luís Veiga Leitão é o pseudónimo de Luís Maria Leitão que nasceu em Moimenta da Beira a 27 de Maio de 1912 e morreu em Niteroi a 9 de Outubro de 1987, onde se encontrava de visita a convite do presidente José Sarney. Tinha 75 anos.

Foi escriturário da 7.ª Brigada Cadastral da Federação dos Vinicultores da Região do Douro, mas foi demitido por ser contra o regime salazarista. Foi delegado de informação médica de vários laboratórios farmacêuticos.

Para além de poesia, escreveu crónicas de viagens e de costumes. Foi também artista plástico, dedicando-se ao desenho.

Talvez seja possível encontar os seus livros em feiras de oacasião ou alfarrabistas mas, em Setembro de 2005, a Editora Asa publicou a Poesia Completa de Luís Veiga Leitão.

Um poeta a (re)descobrir.

Legenda: Auto-Retrato de Luís Veiga Leitão.

sábado, 6 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


tínhamos pouco dinheiro

e havia um barco à nossa espera inevitavelmente.

Daniel Filipe

sábado, 16 de maio de 2020

PAPÉIS DATADOS


No dia 22 de Julho de 2005, ocorreram quatro atentados bombistas no metro de Londres.
A polícia não conseguiu matar ou prender todos os terroristas.
Um indício material, encontrado em mochilas dos terroristas, que não explodiram, levou os investigadores a um bloco de apartamentos de três andares em Scotia Road, Tulse Hill. A missão era encontrar alguém com aparência de somali ou etíope.
No dia seguinte, viram Jean Charles de Menezes, brasileiro, sair desse bloco de apartamentos que se dirigia para o seu trabalho diário como electricista, pois recebera uma chamada telefónica da empresa onde trabalhava, para ir reparar um alarme de incêndio em Kilburn.
Apanhou um autocarro e o metro na Stockwell Station. A polícia seguia-o.
Como vestia um blusão de cabedal, a polícia entendeu que poderia carregar explosivos. Um qualquer gesto do trabalhador brasileiro, levou a polícia a atirar sobre ele.
Cinco tiros na cabeça deram-lhe morte imediata.
A polícia britânica levou largo tempo a revelar que se tratara de uma precipitação dos perseguidores.
O chefe da Scotland Yard pediu desculpa e declarou que a polícia londrina aceitava total responsabilidade pelo sucedido e que a família iria ser indemnizada.
Ninguém disse ao senhor oficial da polícia londrina, que a luta contra o terrorismo é uma luta difícil, mas não pode valer tudo, muito menos a execução sumária de pessoas inocentes, apanhadas no local errado no momento errado.
Passagem por alguns dos versos de Daniel Filipe em A Invenção do Amor:

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado.

Tal como Jean Charles de Menezes que, apenas, se dirigia de sua casa para o emprego e se terá assustado com os gritos da polícia londrina


18 de Agosto de 2005

sexta-feira, 15 de maio de 2020

UM LIVRO INCONVENIENTE


O senhor major José de Sousa Chaves, aos 7 de Outubro de 1960, do alto da sua imensa ignorância e capachismo-mor, determinva que, por diversos aspectos, o livro O Manuscrito na Garrafa, da autoria de Daniel Filipe, não devia ser autorizado a a circular no País.

Esta gente era de uma ignorância gritante, de uma maldade rasteira.

Foram estes os polícias do nosso pensamento, da nossa liberdade.

Quase meio século de obscurantismo, uma luta desigual porque os que combatiam estes trastes, eram em reduzido número. Cantava-se que não havia machados que cortassem a raiz ao pensamento. As cantigas podem ajudar mas não eram armas.

E o tempo a crescer como um deserto, a dor, o desespero, a cólera.

Pegando no livro do Daniel Filipe e desenbocando, ao acaso, numa das páginas (52) que o major-palhaço entendia inconvenientes, pode ler-se:

«As mãos ganharam vida propria, correram-lhe o corpo, definiram-lhe os contornos, desnudaram-na. E, de novo, o quarto se encheu de rumores luminosos, de gemidod, de palavras ciciadas. E foram, uma vez mais, a Primeira Mulher e o Primeiro Homem de um mundo sùbitamente acontecido.»

O CANSAÇO DA VIAGEM


A noite pesava-lhe nos ombros, aumentando o cansaço da viagem. "Aqui estou, aqui venho - pensou - ao reencontro da infância; e tudo isto me é estranho: estes muros, esta casa, estas janelascerradas e misteriosas. Imaginei tantas coisas, tão diferentes... Reencontrar a dimensão
perdida, a pureza dos gestos, a gratuitidade das acções: ser feliz e sabê-lo. Comer três refeições por dia, roubar fruta, impor-me pela força, ouvir histórias de mouras encantadas. Ser simples, à maneira das crianças; ser natural, como os adultos: cavar a vinha, discutir o preço da azeitona, adormecer pesadamente ao fim da ceia. Como um animal saciado e sem angústia".

Daniel Filipe em O Manuscrito na Garrafa

Legenda: Daniel Filipe

quinta-feira, 22 de março de 2018

OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 3

Direcção literária: Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Xilogravuras: Altino Maia
Porto, Dezembro de 1957

Aos Homens Que Virão
Trad. M.D.E.

Nós, que haveis de entender, no futuro, o trabalho
como o doce sabor da desejada festa,
quando ele for para vós arte, paixão, vitória,
- quando o poeta vê no seu próprio poema –

pensai, então, em nós com carinhosa estima;
em nós que, trabalhando como bestas de carga,
entregues a tarefas monótonas, iguais,
deixamos que a tristeza marcasse o nosso olhar.

Ah!, como vós – sabei – nós amamos a vida
e, apesar disso, deste inferno, não quisemos
chorar lágrimas vãs, deixar morrer a esperança.

Ah, sim! Profundamente amamos a alegria,
como vós – as pequenas e grandes alegrias
de que a maior foi abrir-vos o caminho.

Poema de Guillevic

terça-feira, 2 de junho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Porque, acreditava-o firmemente, não fora dita ainda a palavra derradeira: a selva ali estava, aliciante, misteriosa, traiçoeira mas prometedora. Como sempre a sonhara: difícil, grata, livre. Talvez fosse possível desvendá-la. Descobrir a ilha que vinha nos mapas. Encontrar a floresta sem árvores. Mandar o manuscrito na garrafa, à espera de que alguém, numa praia longínqua ou muito próxima, soubesse avaliar o seu peso de esperança.

Daniel Filipe em O Manuscrito na Garrafa

Legenda: não foi identificar o autor/origem da fotografia.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO


Que outra coisa pedira, senão poder voltar a ser aquele que dá o pontapé na pedra solta e ri por isso, o que larga papagaios no ar e corre pela verdura dos montes, o que toma o seu café nas tardes calmas, contente de si mesmo, o que ama sem outras consequências que não sejam o próprio amor?

Daniel Filipe em O Manuscrito na Garrafa

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 28 de abril de 2015

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO


Série de nove "fascículos de poesia" publicados no Porto, entre 1957 e 1961, sob a direção de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro. Incluíam poesia empenhada, que se insurgia contra o mundo circundante (a violência, a injustiça, a falta de liberdade) e afirmava o valor da solidariedade com o próximo.
A designação da revista, retirada do título de um poema de Egito Gonçalves, publicado no 4.° fascículo de Árvore, remete para um programa de poesia de resistência, aludindo metaforicamente ao cerco a que estavam submetidos os intelectuais portugueses.
Sem apresentar texto programático, nem textos de crítica ou teoria poética, a publicação reúne criação poética de autores com opções estéticas diversas (além da direção, Jorge de Sena, Casais Monteiro, Miguel Torga, Afonso Duarte, António José Fernandes, Vasco Costa Marques, Mário Henrique Leiria, Maria Almira Medina, João Ribeiro Melo, Orlando da Costa, José Fernandes Fafe, António Reis, Daniel Filipe, Joaquim Namorado, João Rui de Sousa, Alexandre O'Neill, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, José Augusto Seabra, Pedro Alvim, Maria Teresa Rita, Gastão Cruz), mas que colaboram sistematicamente com composições subordinadas a um intuito de denúncia e combate. Cada fascículo incluía, ainda, nas últimas páginas, tradução de poetas estrangeiros (Brecht, Guillevic, Stephan Hermlin, Jorge Carreara Andrade, Jean Todrani, Nicolau Vaptzarov). Os fascículos 6 e 8 são dedicados a poetas moçambicanos e angolanos.

Da Infopédia, Porto Editora

Este é o poema Notícias do Bloqueio de Egito Gonçalves, do livro A Viagem com o Teu Rosto (1958) e reunido em Os Arquivos do Silêncio:

NOTÍCIAS DO BLOQUEIO

Notícias do Bloqueio

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos...
tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos - contrabando - aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
- único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima...

Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam
aumenta a raiva
             e a esperança reproduz-se 


Esta é a canção Let My People Go cantada por Paul Robeson e referida no poema de Noémia de Sousa Deixa Passar o Meu povo

quarta-feira, 4 de março de 2015

QUOTIDIANOS


Aos domingos iam até à Outra Banda, às caldeiradas do Ginjal. Comiam na varanda debruçada sobre o rio, olhando em frente o pano de fundo da cidade colorida. Depois, de mãos dadas, como dois namorados adolescentes, seguiam a estrada que levava a Almada ou derivavam pela borda d’água, a ver os barcos e as gaivotas. Num desses devaneios de domingo, Carmo apeteceu a Costa da Caparica, a largueza do pinheiral bravio, a presença do mar a «sério, não este produto de substituição que aqui temos».

Daniel Filipe em O Manuscrito na Garrafa

Legenda: o Ginjal visto da Bica, numa tarde de nevoeiro.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

DANIEL FILIPE


Há 90 anos, na Ilha da Boavista em Cabo Verde, nascia Daniel Filipe.

Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares um cartaz denuncia o nosso amor.

É assim que começa o belíssimo poema a Invenção do Amor.

Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com caracter de urgência.

Apenas em alfarrabistas – e é necessário ter um grão de sorte – é que é possível os livros deste poeta de quotidianos de homens e mulheres que tinham olhos, coração e fome de ternura.

Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.

Escaparam.

Com dificuldades múltiplas até que chegou aquele dia inicial inteiro e limpo em que olhámos a cidade prometida e esperámos por ela tanto tempo.


Pátria, Lugar de Exílio

Neste ano de 1962
não como Nazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamerite
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a urna esquina da estação do Rossio
 esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo

aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto do aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
apesar de tudo farto
eu
neste ano de 1 962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio

domingo, 2 de novembro de 2014

E É INÚTIL MANDAREM-NOS CALAR




Esta é a capa de um livreco, passado a stencil, com o título Eu Canto Para Que Os Desertos Fiquem à Sombra e publicado em tempos de ditadura.

Uma antologia que reúne poemas e canções, entre outros, de Manuel Alegre, José Saramago, Daniel Filipe, José Gomes Ferreira, José Afonso, Manuel Freire, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cilia.

Curiosamente os autores incluíram a letra da canção Prá Não Dizer que Não falei das Flores.

A abrir, como epígrafe, palavras de Manuel Alegre tiradas da Canção Tão Simples cantada por Adriano Correia de Oliveira com música de António Portugal.

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

No interior há uma folha solta que diz:





E na contra capa pode ler-se:

Erguei-vos, levantai a cabeça porque a vossa libertação está próxima – Lucas 21-28. 


sexta-feira, 25 de abril de 2014

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe

quarta-feira, 18 de abril de 2012

POSTAIS SEM SELO


E digo-vos senhores é findo o vosso tempo, o jogo terminou ainda que não o pareça.

Daniel Filipe em Pátria Lugar de Exílio, Editorial Presença, Lisboa s/d

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PRIMUS INTER PARES


Há no Porto um café onde se pensa. Há no Porto um café onde se escreve. Há no Porto um café onde se discute. Há no Porto um café onde se é intelectual pelo preço acessível, a qualquer bolsa, de meia de leite e torrada bijou.
Tem um ar recatado, simples: o aspecto, doce e calmo, de um domingo de Novembro. Mas não se iludam, amigos: confesso que este café me preocupa e intimida. Que me suam as mãos, quando lá entro. Que me sinto mesquinho e sem valia, quando me atrevo a mergulhar na mansuetude quase líquida da sala.
Nesse
café do Porto, os intelectuais contam-se pelo número de clientes. Há-os verdadeiros e de pacotilha, circunspectos e irreverentes, académicos e revolucionários. Há-os de todas as escolas e matizes, novos, velhos, morenos, bexiguentos, altos, ínfimos, com rendosas conezias ou dificuldades de dinheiro. Escrevem, pintam, dissertam, analisam, definem. Sobretudo definem, quer dizer: classificam de acordo com a morfologia conveniente, etiquetam, intitulam, fossilizam. É um café virado do avesso, onde as janelas dão para o íntimo da pequenez das coisas: só por se estar olhando a rua através das cortinas ondulantes, a rua e o seu sentido hieroglífico tornam-se perigosamente inexistentes. Depois, quando se vem, de novo, para a alegria do sol, é indispensável e urgente reinventar a rua sem limites até ao mais inútil e inofensivo dos disfarces. E para quê, afinal?
Pois, senhores, é bem fácil a resposta: para que, à mesma hora do mesmo dia igual, qualquer cliente possa fechar os olhos à presença do mundo, pensando, discutindo, escrevendo. E registe-se, para uso dos iletrados irrecuperáveis, e nosso próprio conforto espiritual, que isto de latim é uma bela coisa.

Daniel Filipe em “Discurso Sobre a Cidade” Sagitário, Porto 1957


Legenda: são lindíssimos os cafés do Porto. Alguns ainda resistem.
Segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nesta crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.
Andei à procura de uma fotografia do Rialto, mas não encontrei.
A que ilustra o texto é do Café Majestic, um ex-libris da cidade.

sábado, 30 de julho de 2011

JANELA DO DIA


 1.

Anos idos, quando ficar significava perecer, o saltar fronteiras na busca de qualquer coisa diferente, deixada, por exemplo, num poema de “Pátria Lugar de Exílio” de Daniele Filipe: “onde os trigais amadurecem, está tua saudade da cena familiar –  pais, irmãos, campos, casa, noiva. Lá, falam de ti, serenos, sem chorar…” ou Miguel Torga, no seu “Diário” dizendo até onde podia chegar o aviltamento humano:

“- Entegas-me as peles em Moiros?

- A que horas?

- Às onze.

As peles eram emigrantes clandestinos.”

Milhares de emigrantes começaram a chegar a casa para as tais férias do querido mês de Agosto e  afirmam saber, como disse um emigrante à reportagem do “Jornal de Notícias”: “que a crise está instalada em Portugal", mas alguns reconhecem, sem rodeios, que nos países onde trabalham a situação "não vai melhor". "Lá pode não se sentir tanto, porque os salários são maiores, mas também se sentem os problemas",  

2.

De Acordo com dados do governo As pensões mínimas, que abrangem cerca de um milhão de idosos em Portugal, devem subir entre seis e 13 euros por mês no próximo ano.

No debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, prometeu "proceder ao desbloqueamento, isto é, à actualização das pensões mínimas para o ano de 2012". "Isto corresponderá a um esforço financeiro considerável, mas é a única maneira que nós temos de mostrar aos portugueses que fazemos aquilo que dizemos".

3.

Sérgio Lavos no “Arrastão”:

“Quanto maiores forem as desigualdades sociais de uma nação, menos democrática ela é. Em 2011, Portugal é um país que caminha em direcção ao Terceiro Mundo. As classes média e baixa vão perdendo cada vez mais poder de compra; as classes mais altas vão acumulando mais riqueza. O capitalismo é isto, e é isto que troika quer, que a União Europeia prefere, que o Governo PSD/CDS vai incentivar. A velha história do Robin dos Bosques invertida. Roubar aos pobres para dar aos ricos. Até quando poderemos tolerar a situação?”

sexta-feira, 9 de abril de 2010

NÃO HÁ MACHADO QUE CORTE

TAGUS TG 112
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Dedicatória - Fernando Miguel Bernardes/Manuel Freire
Livre - Carlos Oliveira - Manuel Freire
Eles - Manuel Freire
Pedro O Soldado - Manuel Alegre/Manuel Freire

TAGUS TG 121
Acompanhamento viola: Fernando Alvim

Lutaremos Meu Amor - Daniel Filipe/Manuel Freire

Trova do Emigrante - Manuel Alegre/Manuel Freire
Trova - Manuel Alegre/Manuel Freire
O Sangue Não Dá Flor - Manuel Freire


ZIP ZIP  30.001/S
Arranjos e Supervisão - Thilo Krasmann

Pedra Filosofal - António Gedeão/Manuel Freire
Menina dos Olhos Tristes - Reynaldo Ferreira/Manuel Freire

Quando, em 1969, Manuel Freire aparece noZip-Zip”, a cantar Pedra Filosofal” de António Gedeão, não era totalmente um desconhecido. Era um companheiro de viagem, dos que, país fora, andavam por sociedades recreativas a dizer, a quem os quisesse ouvir, que haveria de chegar o dia das surpresas.
Em 1969 publicara o EP “Manuel Freire Canta Manuel Freire”, que inclui “Livre”, poema de Carlos de Oliveira, que passámos a saber de cor e que, por aqueles dias, em qualquer circunstância, se cantava ou murmurava.
Depois um outro EP, “Trovas,Trovas,Trovas”, que inclui o belíssimo poema de Daniel Filipe, "Lutaremos Meu Amor" disco que, de imediato, foi apreendido pela PIDE.
Uma simples mensagem: “na aparência sozinhos multidão na verdade, lutaremos meu amor", punha o regime a tremer.
Claro que a passagem pelo “Zip-Zip” projecta Manuel Freire para um outro tipo de público, e muito mais gente ficará, então, a saber que o sonho comanda a vida, que o mundo pula e avança.
Uma mera curiosidade: Manuel Freire nasceu a 25 de Abril de 1942.

“Livre”

“Não há machado que corte
a raíz ao pensamento:
não há morte para o vento,
não há morte.

Se ao morrer o coração

morresse a luz que lhe é querida,
sem razão seria a vida
sem razão.

Nada apaga a luz que vive

num amor num pensamento,
porque é livre como o vento
porque é livre”.