sábado, 5 de setembro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ



Dolly Parton morreu no dia 28 de Agosto após uma breve batalha contra um cancro. Tinha 80 anos.

David Pontes, no editorial do Público, deixou bem vincado:

 «O mundo era melhor com Dolly Parton».


“Gigante” foi como o Libération titulou a figura de Dolly Parton, sobre uma fotografia que ocupava toda a primeira página deste diário conotado com a esquerda, dois dias depois do óbito. Evidentemente, o jornal inclinava-se perante o enorme talento da cantora e compositora country, mas há muito mais para além da música que justifica as homenagens de gente que, tradicionalmente, não pertenceria à sua tribo de fãs.

Aquela que ganhou a alcunha de “Santa Dolly” praticava de forma radical qualidades que são hoje muito raras, e fazia-o de uma forma que, no ambiente que vivemos hoje, é quase revolucionária. Num espectáculo de Dolly, como em todas as suas posições públicas, eram tão bem-vindos os sulistas “deploráveis” (na infeliz expressão de Hillary Clinton) como as “drag queens” e, quando ela partiu, ambos os lados do espectro sentiram a perda.

Não era só inclusão que Dolly professava. Numa altura em que todos se sentem impelidos a pertencer a algum clube ideológico e a cavar trincheiras, ela seguia o mais rigoroso apartidarismo. No seu primeiro mandato, por duas vezes Trump tentou homenageá-la com a Medalha da Liberdade, e uma vez, por causa da covid, e outra, por o marido estar doente, ela não pôde aceitar. Quando, de seguida, Biden tentou fazer o mesmo, também não aceitou, porque pressentiu que, “se agora aceitasse, estaria a fazer política”.

Mas não fazer política não significa não ter princípios e a cantora tinha-os bem vincados e nunca se importou de ser usada como bandeira de alguns deles: dos direitos das mulheres, das pessoas LGBT+ e de outras comunidades marginalizadas, da educação e da leitura, nomeadamente através do seu notável programa Imagination Library, que distribuiu mais de 300 milhões de livros a crianças. A filantropia, vinda de quem nasceu de uma família muito pobre, estendeu-se a muitas áreas e uma das mais surpreendentes é talvez a da ciência. Propagandista da vacinação, temos de lhe agradecer o seu contributo para ter surgido tão rápido uma vacina para a covid-19, já que doou um milhão de dólares, em 2020, utilizados nos primeiros passos de investigação da Moderna.

Há ainda uma outra característica notável de Dolly Parton. As suas origens, o seu aspecto físico, a sua forma de vestir, a acentuada pronúncia que nunca abandonou despertavam a sobranceria classista e quase insultuosa de muitos entrevistadores. Sem nunca deixar de afirmar o que era e aquilo em que acreditava, a todos ela conseguia responder com candura, com empatia e com simpatia. Tudo qualidades de que o mundo anda tão falho.»

Quando deixei de poder vestir o meu velho casaco de lã, lembrei-me da canção de Dolly Parton:

 

ADEUS POR UM CASACO

 

«É tempo de dizer, agora que o Verão chegou e está um calor de ananases, que o meu velho casaco de lã, fez o seu último Inverno.

Pela Primavera agora finda, ainda o vesti porque o sol andou por ela dentro com uns farrapos meio parvos e à noite apetecia uma lãzinha.

Comprei-o na primeira Festa do Avante realizada, em 1990, na Quinta da Atalaia, no pavilhão de Vila do Conde e sempre me cheirou a mar.

Quando senti que andava a dar as últimas, tentei, por diversas vezes, encontrar um outro semelhante, mas nunca consegui.

Olhava-os mas sentia logo que não correspondiam à imagem e cheiro do meu velho casaco.

Nos últimos invernos, a Clementina, minha sogra, foi-o gatando com uns pedaços de lã e linha, disfarçava, mas não vai dar mais.

A minha neta Maria, já no passado ano, dissera: o avô anda tão mal vestido.

Tentei explicar-lhe que me sentia maravilhosamente bem dentro daquele casaco mas ela mandou-me um tá bem abelha!

O próximo Inverno já não me encontrará com ele vestido.

Não sou de lágrima fácil, mas senti necessidade de lhe deixar, como profundo agradecimento, um adeus e acrescentar-lhe esta velha canção da Dolly Parton.

Também a esperança que um dia encontre um substituto à altura do seu conforto.

Pelo andar da carruagem, débil esperança…

Ou por outra: resta-me a desesperança de não mais entrar num casaco assim.»


 

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