A luz que te ilumina
Terra da cor dos olhos de quem olha
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar...
Miguel Torga
em Diário XII
A luz que te ilumina
Terra da cor dos olhos de quem olha
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar...
Miguel Torga
em Diário XII
Lá para o sul,
há um país que dá pelo nome de Alentejo.
Este é um livro que fala do Alentejo ou de quem gosta muito de morrer.
Tenho guardado,
há longo tempo, uma história de que não lembro o autor, tão pouco o sítio de
onde a tirei:
«Passou a santa vida a beber copos de cinco, no balcão
de pé. Mesmo tendo todo o tempo do mundo – como gostava de arrematar – nunca o
viram sentado na taberna. Dizia que gostava de estar à altura do momento. E
ria-se, ria-se escancaradamente de si mesmo enquanto cismava que afinal, era um
homem para consumo próprio.
Estimava igualmente sublinhar que, em coerência com o
consumo, era também dono de si próprio.
E assim parecia ser. Corria à boca cheia que sempre
que um patrão o tentou abeirar do vexame ou da desfeita: despediu-se. Alardeava
depois que não eram só os balcões que o conheciam de pé!
Como não tinha paciência para usar a vida a meias,
permaneceu solteirão. Quando a velhice tentou empurrá-lo para a dependência do
lar da misericórdia, bradou: serei até ao fim eu o meu único dono. Suicidou-se,
igualmente de pé!
(Desaforadamente, depois de morto, a estatística
usou-o como mero número para informar que o Alentejo é região contumaz no topo
de suicídios.)»
No seu Diário,
Miguel Torga tem esta frase:
«Foi a terra alentejana que fez o homem alentejano, e eu quero-lhe por isso. Porque não o degradou, proibindo-o de falar com alguém de chapéu na mão.»
Na contra capa
pode ler-se que os factos verdadeiros são os piores.
Mas que factos?
«Faz calor na
província dos suicidas. Dá vontade de rir: uma cidade em que até o coveiro se
mata… São estatísticas, tudo em números.»
Ou como disse o
poeta Mário de Sá Carneiro: «um pouco mais de sol - eu era brasa.»
Ao folhear o livro, lembra-se de ter dito de si para si: também o gosto de partilhar solidões…
“Aromas e Sabores”, foi um trabalho coordenado por Nádia Torres e que contou, para o texto e ilustrações, com a participação de alunos, professores e trabalhadores da Escola C+S de Mértola. Mais não é que um passeio sobre as comidas de Mértola. Aqui apraz-lhe citar Alexandre Pinheiro Torres: “Porque o Alentejo é o único sítio de Portugal onde se sabe tudo o que importa saber.”
Profusamente ilustrado, “Aromas e Sabores” prova, se necessário fosse, que a comida alentejana não é feita apenas de pão e coentros.
Na apresentação do livro Manuela Barros Ferreira escreve:
“Palavras não matam fome, nem que digam mil comidas. No entanto, as palavras são, para os poetas, pão do espírito, sementes lançadas ao vento, fermentos de mudança. Podem ser doces como mel, amargas como fel, picantes como pimenta. A comida exposta em palavras não é, certamente, um livro de poemas. Não há qualquer prazer espiritual na leitura de um livro de receitas. No entanto, para além dos prazeres adiados (e muito concretos) que encerra, pode conter, como este, tudo aquilo que permite a sobrevivência de uma população ao longo de anos e ao longo do ano.”
Tempo de Natal, este que atravessamos, no Olhar as Capas ocorreu-lhe reproduzir uma receita de filhós. Em
devido tempo experimentou a receita e achou delicioso aquele toque da
aguardente, coisa que a avó não punha nas filhós que fazia e que, apesar de, não
deixavam de ser deliciosas.
A tradição popular da minha avó, de todas as avós,
dizia-me que o «prometido é devido». Mais tarde aprendi no Alentejo o que eles
dizem de uma forma mais bonita:
«O
prometido é como jurado».
Quem
me conhece sabe de uma velha frase: «Não sou alentejano mas gostava de ser.»
No
seu Diário Inédito, Vergílio Ferreira
conta uma história sobre alentejanos.
Ele
escreveu história e não anedota, note-se.
«Évora,
10 de Abril de 1949
O
meu amigo A.M. contou-me esta história:
Um
dia, num passeio pelo campo, deserto, encontrou ele um homem sozinho, sentado
numa pedra, imóvel, como abandonado ao correr do tempo.
-
Ora boa tarde. Então que faz vossemecê por aqui?
-
Que faço… Vinha com um camarada que foi aí adiante. Disse-me que demorava pouco
e já aqui estou à espera há três dias.
O
Alentejo é assim.»
Este
Diário Inédito corresponde a uma
diarística que Vergílio Ferreira escreveu entre 1944 e 1949, e que regista a
evolução do autor como futuro escritor (estes textos quase diários começam com
a idade de 26 anos e terminam aos 32 anos, a 20 de Janeiro de 1949 revela que
concluiu o romance Mudança «não sei bem se o tema interessará mas a mim
diz-me muito, talvez por ter ainda à sua roda o calor com que o escrevi») e
que se podem considerar a base dos futuros Conta-Corrente.
São
os tempos em que anda à volta de filósofos como, entre outros) Hegel, Kirkegaard,
Gabriel Marcel, Julien Benda mas principalmente Jean-Paul Sartre.
Entrada
diarística de 21 de Março de 1944:
«Curiosa é a ignorância repousada dos nossos modernistas. Eles clamam por Sartre.Mas saberão que Sartre prega a verdade feita pelas mãos de cada um? Ou já sabem que o que vale em Sartre não e o que ele prega mas o que desgraçadamente realiza? Em todo o caso, vou rachar estes tipos qualquer dia, com um artigo.»
Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.
OLHARES
O 1º de Dezembro de 1996 calhou a uma sexta-feira.
Pela vez primeira fomos ao Chana do Bernardino, um tasco que descansa à beira da estrada na Serra d’Ossa, a um passo de anão da vila do Redondo.
Como sei o rigor da data?
Chegar, sentar à mesa e o Bernardino, com aquele seu ar chaplinesco, a colocar-nos aos pés um borralhinho, os senhores hão-de gostar, sim que o dia estava bonito de sol mas fazia um friozinho cortante.
Texto publicado em 1 de Dezembro de 2011.