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quarta-feira, 3 de setembro de 2025

REOLHARES

NOS MARES DO FIM DO MUNDO

Guardo da infância-quase-adolescência a imagem do estuário do Tejo, frente  à Praça do Império, pejado de lugres bacalhoeiros, embandeirados em arco, aguardando a partida para a Terra Nova e Gronelândia.

Porque foi de Belém que partiram as armadas em demanda de novas terras e o regime pretendia que a faina bacalhoeira fosse a epopeia desses dias.

Acontecia por princípios de Abril e coincidia quase sempre com o tempo de Páscoa.

As muralhas pejavam-se de gente, na sua maioria famílias dos pescadores.

Os pescadores nos seus dóris vinham dos barcos até à margem para assistirem, aos actos religiosos que se realizavam no Mosteiro dos Jerónimos.

Após a cerimónia, dois pescadores deslocavam-se a casa do Senhor Presidente do Conselho, em nome de todos os outros trabalhadores do mar, apresentar cumprimentos de despedida.

Os jornais testemunhavam, então, que Salazar recebia-os com muita simpatia, demorava-se alguns minutos a conversar com os pescadores e desejava-lhes boa viagem e boa pesca.

Brindava-se com Vinho do Porto, comiam-se amêndoas.

Em 12 de Abrl de 1952 o Notícias de Portugal referia as palavras do Senhor Arcebispo de Mitilene.:

Amigos, boa viagem e até à volta! Que o Senhor vos leve e que o Senhor vos traga!

O regresso acontecia por alturas de Setembro-Outubro, a tempo dos portugueses terem o bacalhau à mesa da consoada.

Em 1955, foi construído, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a mando do Grémio de Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, comandado pelo tenebroso e corrupto Almirante Henrique Tenreiro, O Gil Eannes, navio-hospital que esteve ao serviço da frota bacalhoeira até 1973.

Nesse ano de 1955, Portugal tinha uma frota pesqueira de 70 barcos e cerca de cinco mil homens.

Em Dezembro de 2002 a frota rondava os 15 barcos e apenas dois/três por cento do bacalhau que consumíamos, era pescado por portugueses.

Foi com os pescadores portugueses que os noruegueses aprenderam a preparar o bacalhau, e em 2007, Portugal absorvia 40% das exportações de bacalhau da Noruega.

Tem largos e largos anos o contacto dos portugueses com o bacalhau.

Em Lisboa, na Praça da Figueira, a Antiga Casa do Bacalhau vende bacalhau há cerca de 150 anos.

O escritor Bernardo Santareno, médico de profissão, na campanha de 1957 prestou assistência a bordo do arrastão David Melgueiro, e na campanha de 1958, a bordo do Senhora do Mar e do navio-hospital Gil Eannes.

Dessa experiência de Santareno, resultou a peça de teatro O Lugre, publicada em 1959.

Fala do Capitão: Tenho muita pena do António Nazareno. Era um bom rapaz e um bom pescador.  Tenho muita pena… Resta-nos a consolação de termos feito tudo para o salvar. Tudo. Gostaria mais de o sepultar em terra mas 4stamos longe e a lei não permite a arribada. Por isso o corpo do Nazareno será dado ao mar. Eu bem sei que numa cova funda, coberta com boa terra firme, um homem descansa mais em paz, que a mulher ou os filhos ou os pais o terão lá, anos e anos, quieto… Depois, na terra duma campa nascem flores e ervas de cheiro: giestas e malmequeres, rosmaninho e alecrim… Gostava, só Deus sabe como eu gostava!, de sepultar o António Nazareno em terra. Mas não posso. Era um grande prejuízo. Sei bem que todos vocês têm pena… Mas lembrem-se de que aqui, num destes portos da Terra Nova, ele não teria nem giestas, nem rosmaninho… nada disso! Seriam outras flores que a gente não conhece, que ele Nazareno, nunca viu em vida! Até a terra, até a terra que o cobriria, seria diferente da nossa: com outra cor, com outro cheiro. Isto é assim: e por assim ser, não devemos ter pena de deitar ao mar o corpo do Nazareno. Aqui nestes bancos da Terra Nova, ele fica menos só. Fica, fica mais acompanhado nestes mares. Se todas as vezes e em todos os sítios que este oceano matou um pescador português, houvesse, como é de uso na nossa terra, uma alminha iluminada… ai, então estes mares estariam cheiinhos de luzes, cheios a perder de vista! Vocês sabem que é verdade isto que eu lhes digo: alguns têm cá o pai, ou um irmão, ou um filho… É ou não assim, João das Almas. Estou a mentir, Zé Sol? O nosso companheiro António Nazareno ficará portanto neste mar. Que descanse em paz. (1).


Ainda sobre as vidas e trabalhos dos pescadores de bacalhau, Bernardo Santareno publicou, em 1959, o livro de narrativas Nos Mares do Fim do Mundo, de onde ressalta as condições em que um único homem, num dóri, pescava à linha, até encher o pequeno barco, regressar ao navio-mãe e começar a descabeçar os peixes, escalar e colocá-los para salga no porão.

Entre as frotas bacalhoeiras de outros países, eram os portugueses os que trabalhavam nas piores condições.

Uma vida miserável, que o regime queria que fosse epopeia.

Este é o começo de Nos Mares do Fim do Mundo:

Enquanto o “David  Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos  abertas ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento...(2).


(1)   Bernardo Santareno, O Lugre, em Obras Completas, Editorial          Caminho, Lisboa 1984.


(2)   Bernardo Santareno, Nos Mares do Fim do Mundo, Edições Ática, Lisboa Junho 1999.

(Texto publicado no dia 8 de Abril de 2012)

TEU PAI UM POTRO DE SANGUE

Teu pai um potro de sangue

emprenhou uma gazela

tu nasceste mas exangue

a vencida foi sempre ela.

 

A pouco e pouco cresceste

nos túneis da liberdade

nos túneis porque nas ruas

era bem outra a verdade.

 

Um povo inteiro pagava

o tributo de existir

e servia a quem mandava

agonizar a sorrir.

 

Depois menino batido

por tantas feras à solta

foste aprendendo o sentido

da vingança e da revolta.

 

Em ti deitaste raiz

tronco fino mas não frágil

e inventaste um país

maior mais livre e mais ágil.

 

De tudo te disfarçaste

cigano vadio actor

mas nunca te amordaçaste

nem português nem escritor.

 

Escrevendo com sangue e letras

entraste na grande guerra

e dos operários poetas

que escreveram esta terra.

 

Hoje a luta recomeça

mas já de igual para igual

muito obrigado Bernardo

Santarém de Portugal.

 

José Carlos Ary dos Santos

 

NOTA DO EDITOR:

Este poema/canção faz parte da peça Português, Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade de Bernardo Santareno, representada pela primeira vez em 5 de Julho de 1974 no Teatro Maria Matos, numa encenação de Rogério Paulo. A música é de Fernando Tordo.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

NESTE DIA


No ficheiro ideográfico da Biblioteca da Casa, Nos Mares do Fim do Mundo de Bernardo estava classificado nos Diários.

O volume que então existia, era a 1ª edição das Edições Ática, datada de 1959.

O meu pai, durante a ditadura salazarista/marcelista, emprestava livros aos companheiros que estavam nas cadeias da PIDE. Nunca vi o meu pai registar a quem emprestava os livros. Uns regressaram às estantes, outros não. Uma tarefa política como esta, não pode, não tem que ter registo, dizia-me e o meu avô, silenciosamente, concordava

Só por volta do ano de 2001 consegui encontrar uma edição do livro, mais uma vez editada pela Ática, mas sem as fotografias da 1ª edição.

Recentemente, por iniciativa da E-Imprimatur, Fevereiro de 2016, saiu uma nova edição, com fotografias de Nos Mares do Fim do Mundo.

Da publicidade da editora:

«Na história da literatura portuguesa do século XX, este livro é um objecto estranho e raro, onde a poesia e a realidade dão as mãos num cenário de natureza inóspita que realça o elemento humano.

«Nos Mares do Fim do Mundo foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão "David Melgueiro", na primeira campanha de 1957, a primeira também em que eu servi na frota bacalhoeira portuguesa, como médico. Mas depois desta, tomei parte numa segunda, em 1958, agora a bordo do "Senhora do Mar" e do navio-hospital "Gil Eannes", em que assisti sobretudo aos barcos de pesca à linha: assim pude de facto conhecer, por vezes intimamente, todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia, e completar este livro.»


A PARTIDA


«Enquanto o “David Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa,
eu surpreendo-me com as mãos abertas ao vento,
para nele colher um certo olhar negro e patético,
ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima,
ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado,
ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura,
ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim…
Com as minhas longas mãos abertas ao vento…»

 

Bernardo Santareno é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX.
Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova. Esta experiência deu origem, no imediato, a uma colecção de textos escritos em pequenos blocos de notas e que mais tarde resultariam no presente título. Mas também nalgumas das suas mais famosas peças O lugre ou A promessa.
Bernardo Santareno iniciou-se na escrita como poeta sendo os seus três primeiros livros coleções de poesia. A partir de 1957, o teatro foi registo de eleição, tendo escrito 15 peças. Bernardo Santareno é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX.
Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova. Esta experiência deu origem, no imediato, a uma colecção de textos escritos em pequenos blocos de notas e que mais tarde resultariam no presente título. Mas também nalgumas das suas mais famosas peças O lugre ou A promessa.
Bernardo Santareno iniciou-se na escrita como poeta sendo os seus três primeiros livros coleções de poesia. A partir de 1957, o teatro foi registo de eleição, tendo escrito 15 peças.

Bernardo Santareno muitas vezes, durante a dura luta junto da frota bacalhoeira, se interrogou se seria capaz de cumprir a tarefa:

 

«Serei capaz? São mil e tantos homens entregues aos meus cuidados, confiantes na minha proficiência médica… Estarei eu preparado para tal? Terei ue me habituar a decidir, rápida e eficazmente, nos casos de urgência: serei capaz? Sou tão doentiamente indeciso! Sinto a vontade anestesiada pela penumbra tépida dos cinemas, envenenada pelo aromas das rosas nocturnas de sombra, desgrenhada pelo desespero agudo de tantas horas amarelas e inúteis… 

 Tenho que me endurecer: habituar-me a morder os «talvez» e os «depois se verá»; mudar saliências redondas em ângulos acerados; fazer de curvas insinuadas e subtis, rectas simples e firmes, tensas de energia!..

Serei capaz? E se eu desistisse, se voltasse para Lisboa? Pretexto? Uma neurose, por exemplo… Isso seria aumentar a cobardia, a irresponsabilidade. Não quero. Lutarei e hei-de vencer!

A sombra contínua que, dentro de mim, nunca deixa que a madrugada seja simplesmente madrugada e que persiste mesmo no risos solar do meio-dia, essa sombra (ou cicatriz dum estigma sagrado, ou nostalgia de não sei que pomar maldito…) há-de fugir de mim para sempre: e eu ficarei livre e transparente, despovoado e jovem.

As sonâmbulas presenças ambíguas, os gestos babados, os veludos asfixiantes, os metais de «jazz» que pesam nas rugas do meu rosto… o mar, o vento e a neve os hão-de lavar: e de novo a minha face ficará pura e lisa, pronta a receber o verbo, aquela palavra única entre mil escolhida…

- Senhor doutor, um doente chama-o!

Como Jesus lavando os pés aos apóstolos, assim eu queria servir esta gente.»

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

CANTARES DO ANDARILHO


ORFEU STAT 002

Editado em 1968

Capa de Fernando Aroso

Acompanhamento à viola: Rui Pato

Som e mistura: Moreno Pinto


Face 1


Natal dos Simples – Letra e Música José Afonso

Balada do Sino – Letra e Música José Afonso

Resineiro Engraçado – Letra e Música de uma canção popular da Beira Alta

Canção de Embalar – Letra e Música José Afonso

O Cavaleiro e o Anjo – Letra e Música José Afonso

Saudadinha – Letra e Música canção tradicional dos Açores


Face 2

O Tecto na Montanha – Letra e Música José Afonso

Endechas a Bárbara Escrava – Letra Luis de Camões Música José Afonso

Chamaram-me Cigano –Letra e Música José Afonso

Senhora do Almortão – Letra e Música do folclore da Beira Baixa

Vejam Bem – Música e Letra José Afonso

Cantares de Andarilho – Letra de António Quadros (pintor) Música José Afonso

O poeta António Cabral, numa introdução às Canções de José Afonso a determinado passo cita Luis Góis: «fado de Coimbra nunca existiu. Existiu, sempre, isso sim, um estilo de interpretar próprio de Coimbra.» e quase de imediato cita o próprio José Afonso: «designei as minhas primeiras canções por baladas não porque soubesse exactamente o significado desse termo, mas para as distinguir do fado de Coimbra que comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação.»

É dentro deste espírito que surge Cantares do Andarilho e pode dizer-se que este disco é um vendaval que desaba sobre a música portuguesa, que transforma a balada numa arma interveniente contra a ditadura. Tal como escrevera Manuel Alegre:

«só cantando se pode incomodar
quem à vileza do silêncio nos obriga.
eu venho incomodar.
trago palavras como bofetadas
e é inútil mandarem-me calar.


Mas foram eles, aqueles a quem, depreciativamente, chamaram baladeiros que abriram janelas onde nem paredes havia.


Palavras de Urbano Tavares Rodrigues na contra capa:

« A noite das lágrimas e da raiva. A madrugada das carícias e do sorriso. O dia claro da festa colectiva. Tudo isso se encontra na poesia cantada de José Afonso, cantada por José Afonso. A luminosa gargalhada do povo, o seu suor de sangue, nas horas de esforço ingrato e de absurda expiação. O lirismo primaveril e feminino das bailias que não morreram. E o orvalho da esperança. E os ecos de um grande coro de fraternidade sonhada e assumida. José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que toma o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã. No tumulto da contestação, na marcha de mãos dadas, com flores entre os lábios, é ele a figura de proa, o arauto, o aedo, o humilde, o múltiplo, o doce, o soberbo cantador da revolta e da bonança. Singelo José Afonso do Algarve doirado, dos barcos de vela panda, do Alentejo infinito sem redenção, dos pinhais da melancolia, dos amores sem medida, do sabor de ser irmão... José Afonso é a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, é a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova.»

Uma prosa de Gonçalo Frota, citada no site da Associação José Afonso, conta que José Afonso concorreu ao Festival da Canção da Televisão:

«Um dos temas incluídos em Cantares do Andarilho, "Vejam Bem", havia sido pensado originalmente para participar no Festival RTP da Canção. Os mesmos amigos de A Brasileira que assistiram ao nascimento de um novo Zeca Afonso, haviam de incentiválo a concorrer e como a resposta do músico aconteceu sob a forma de pergunta "o que é preciso fazer?", a resposta seguinte foi colocada nas mãos de Rocha Pato. O jornalista telefonou aos colegas do Primeiro de Janeiro em Lisboa e estes informaramn o que era necessário enviar uma cassete e uma partitura dentro de um envelope sem nome. "Partitura?!" – olharam uns para os outros. "Mas quem é que pode saber fazer uma partitura?". Talvez o senhor Pires, vendedor numa loja de electrodomésticos da cidade, a quem frequentemente Zeca e Rui Pato compravam uns discos. Acontece que o homem tocava saxofone na banda da Pampilhosa – o que, desde logo, indiciava alguns conhecimentos mínimos de teoria musical. Chegados à loja, cumprimentaram o vendedor e logo fizeram soar um "Oh senhor Pires, se a gente lhe cantarolasse uma cantiga você passava isso a partitura?". "Então não passava!". O resto vem pela voz da memória de Rui Pato: "O Zeca sentou-se lá na loja dos frigoríficos, comigo e com o senhor Pires a ouvir, ele ia cantando e eu com a viola ia ajudando, e o tipo escreveu aquilo tudo". A música acabou por não ser seleccionada, num ano (1967) em que o vencedor foi Eduardo Nascimento com "O Vento Mudou". E o vento, de facto, começava a mudar. Na vida de Zeca Afonso, na sua música, em toda a que se fazia à sua volta e, em breve, no seu país.»

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

RELACIONADOS


De entre os temas que Carlos Paredes escreveu para peças de teatro e filmes, encontra-se António Marinheiro de Bernardo Santareno.

Esse tema faz parte do álbum Movimento Perpétuo.

É sempre tão estimulante, tão bonito, tão inebriante voltar a Carlos Paredes, «talvez esta mão que se desgarra(com garra com garra)esta mão que nos busca e nos agarra e nos rasga e nos lavra com seu fio de mágoa e cimitarra.», como escreveu Manuel Alegre.

Rui VieiraNery chamou-lhe Príncipe.

Um Príncipe de uma humildade arrepiante.

«Em 1958, é preso pela PIDE por fazer oposição a Salazar, é acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, do qual era de facto militante, sendo libertado no final de 1959 e expulso da função pública na sequência de julgamento. Durante este tempo andava de um lado para o outro da cela fingindo tocar música, o que levou os companheiros de prisão a pensar que estaria louco - de facto, o que ele estava a fazer, era compor músicas na sua cabeça.» 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

OLHARES


Por princípios de Abril, o Tejo era palco do desfile dos embandeirados arrastões da pesca do bacalhau que partiam para as longas e penosas campanhas na Terra Nova e na Gronelância.

«Formam uma verdadeira procissão no mar» disse D. Manuel Trindade Salgueiro, Arcebispo de Mitilene, que durante anos e anos presidiu à missa, no Mosteiro dos Jerónimos e à bênção dos lugres, no ano de 1952.

Nesse ano de 1952, partiram 2.800 pescadores e o Arcebispo terminou a cerimónia, dizendo:

«Amigos, boa viagem e até à volta! Que o Senhor vos leve e que o Senhor vos traga!»

Henrique Tenreiro, um-dos-donos-disto-tudo-em-tempo-de-ditadura, escolhia um grupo de pescadores, as suas camisas de flanela aos quadrados, que visitavam Salazar que os recebia «com muita simpatia, demorando-se alguns minutos a conversar com os pescadores» e lhes oferecia amêndoas e cálices de Vinho do Porto.

Todos os anos recortava essas notícias e guardava-as.

Perdi esses recortes. Como tantos outros, sobre outros temas, que fiz por esses tempos.

Tinha-os guardado, em caixas, na dispensa em casa de meus pais. Um dia, minha mãe com a sua mania de limpezas e arrumações, sem me de dizer nada, considerou tudo aquilo lixo e para o lixo foram.

Se quiser encontrar uma explicação por este interesse sobre notícias referentes à pesca do bacalhau, talvez a situe na leitura maravilhada que, tinha para aí uns 15 anos, fiz do livro Nos Mares do Fim do Mundo, de Bernardo Santareno.

Foi deste modo  empolgante que o jornalista do Notícias de Portugal, no ano de 1953, abria a reportagem sobre a bênção e a partida dos bacalhoeiros.

Legenda: a fotografia de Salazar com os pescadores é tirada do Notícias de Portugal de 9 de Abril de 1966. 

terça-feira, 19 de abril de 2016

TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM



Traz Outro Amigo Também

ORFEU STAT 005

Editado em 1970

FACE A

Traz Outro Amigo Também - Maria Faia -Canto Moço - Epígrafe Para a Arte de Furtar - Moda do Entrudo - Os Eunucos - José Afonso

FACE B

Avenida de Angola - Canção do Desterro -Verdes São os Campos - Carta a Miguel Djeje - Cantiga do Norte 

Todas as faixas têm letra e música de José Afonso , excepto:

Maria Faia - canção popular da Beira-Baixa
Epígrafe Para a Arte de Furtar - poema de Jorge de Sena
Moda do Entrudo - canção popular da Beira-Baixa
Verdes São os Campos - poema de Luís de Camões

Capa: José Santa-Bárbara

Acompanhamentos:

Carlos Correia (Bóris)
Filipe Colaço

Texto que Bernardo Santareno escreveu para fazer parte do disco:

«A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a “pureza” a nota maIor desta arte: Pureza de voz, pureza no poema, pureza na música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: Trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. E o ouvinte fica tonificado, «limpo», cheio de graça, com mais vigor para a luta. No chiqueiro velho e saudosista, insignificativo e feio da música ligeira do nosso país, José Afonso surgiu como um renovador: De riso claro e leal, com punho duro de diamante, terno e gentil sem maneiramentos. Limpou crostas, desatou amarras, descolniu ramos verdes e ocultos, abriu janelas na parede bolorenta do fatalismo lusíada. E como esta arte pura e viril habitava já, nebulosamente, nos anseios da Juventude que tanto pechisbeque musical mórbido e paupérrimo a traz nauseada, José Afonso conseguiu rapidamente uma enorme audiência. Ele é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade. Por isto, todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza a recompensa e a glória de José Afonso. Nem tudo está podre no reino da Dinamarca.»

segunda-feira, 12 de maio de 2014

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Gosto de pegar em jornais antigos e desaguar na página de espectáculos.

Este é um pormenor do Depois das Nove do Diário Popular de 13 de Maio de 1967.

Boa parte destes cinemas e teatros já não existem.

Dos que ainda não foram demolidos, ou transformados noutras artes, encontram-se o Teatro ABC, Maria Victória, Villaret, Tivoli, Roma, Condes, Politeama, Cinearte, São Jorge, Odeon, e Mundial.

Algumas curiosidades:
                                          
No canto inferior direito pode ler-se parte do anúncio do Cinema Lido na Amadora.

Exibia, para adultos, Os Ambiciosos filme de Ricahrd Quine, com Rod Taylor, Catherine Spaak, Merle Oberon, um grande êxito desta época cinematográfica.

O Cinema Lido, em Fevereiro de 1969, foi completamente destruído por um incêndio.

O São Luiz e o Alvalade, que exibiam A Irmã Sorriso, tinham um aviso curioso: fazendo parte da programação era exibido o documentário Gil Vicente e o Ministério da Educação providenciou que fosse concedido 50% de desconto aos estudantes, maiores de 12 anos, sendo necessária a apresentação do cartãso dos Serviços Sociais da Universidade oiu de uma credencial passada pelo director do estabelecimento de ensino.

Os espectadores tinham ainda o privilégio de poder assistir à representação de duas peças de Bernardo Santareno: no Monumental A Promessa com Laura Alves, Ruy de Carvalho e José de Castro, numa encenação de Paulo Renato e no Maria Victória António Marinheiro com Eunice Muñoz, Maria Lalande, João Perry,e Canto e Castro.

Destaque para a peça, em representação no Teatro Vasco Santana, o original de Luzia Maria Martins, Bocage – Alma Sem Mundo, com Helena Félix e Joaquim Rosa, Mário Sargedas, Carmen Mendes e Vasco Lima Couto.

Ainda pode olhar-se um anúncio à Pastelaria Colombo que deu lugar a essa pífia vulgaridade que são os Mc Donalds, e outro ao Night-Club Sanzala, que pertencia ao Duo Ouro Negro, e onde mais tarde se instalou o Bingo do Sporting.

domingo, 8 de abril de 2012

NOS MARES DO FIM DO MUNDO


Guardo da infância-quase-adolescência a imagem do estuário do Tejo, frente  à Praça do Império, pejado de lugres bacalhoeiros, embandeirados em arco, aguardando a partida para a Terra Nova e Gronelândia.

Porque foi de Belém que partiram as armadas em demanda de novas terras e o regime pretendia que a faina bacalhoeira fosse a epopeia desses dias.

Acontecia por princípios de Abril e coincidia quase sempre com o tempo de Páscoa.

As muralhas pejavam-se de gente, na sua maioria famílias dos pescadores.

Os pescadores nos seus dóris vinham dos barcos até à margem para assistirem, aos actos religiosos que se realizavam no Mosteiro dos Jerónimos.

Após a cerimónia, dois pescadores deslocavam-se a casa do Senhor Presidente do Conselho, em nome de tosos os outros trabalhadores do mar, apresentar cumprimentos de despedida.

Os jornais testemunhavam, então, que Salazar recebia-os com muita simpatia, demorava-se alguns minutos a conversar com os pescadores e desejava-lhes boa viagem e boa pesca.

Brindava-se com Vinho do Porto, comiam-se amêndoas.

Em 12 de Abrl de 1952 o Notícias de Portugal referia as palavras do Senhor Arcebispo de Mitilene.:

Amigos, boa viagem e até à volta! Que o Senhor vos leve e que o Senhor vos traga!

O regresso acontecia por alturas de Setembro-Outubro, a tempo dos portugueses terem o bacalhau à mesa da consoada.
.
Em 1955, foi construído, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a mando do Grémio de Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, comandado pelo tenebroso e corrupto Almirante Henrique Tenreiro, O Gil Eannes, navio-hospital que esteve ao serviço da frota bacalhoeira até 1973.

Nesse ano de 1955, Portugal tinha uma frota pesqueira de 70 barcos e cerca de cinco mil homens.
Em Dezembro de 2002 a frota rondava os 15 barcos e apenas dois/três por cento do bacalhau que consumíamos, era pescado por portugueses.

Foi com os pescadores portugueses que os noruegueses aprenderam a preparar o bacalhau, e em 2007, Portugal absorvia 40% das exportações de bacalhau da Noruega.

Tem largos e largos anos o contacto dos portugueses com o bacalhau.
Em Lisboa, na Praça da Figueira, a Antiga Casa do Bacalhau vende bacalahau há cerca de 150 anos.

O escritor Bernardo Santareno, médico de profissão, na campanha de 1957 prestou assistência a bordo do arrastão David Melgueiro, e na campanha de 1958, a bordo do Senhora do Mar e do navio-hospital Gil Eannes.



 Dessa experiência de Santareno, resultou a peça de teatro O Lugre, publicada em 1959.

Fala do Capitão: Tenho muita pena do António Nazareno. Era um bom rapaz e um bom pescador.  Tenho muita pena… Resta-nos a consolação de termos feito tudo para o salvar. Tudo. Gostaria mais de o sepultar em terra mas 4stamos longe e a lei não permite a arribada. Por isso o corpo do Nazareno será dado ao mar. Eu bem sei que numa cova funda, coberta com boa terra firme, um homem descansa mais em paz, que a mulher ou os filhos ou os pais o terão lá, anos e anos, quieto… Depois, na terra duma campa nascem flores e ervas de cheiro: giestas e malmequeres, rosmaninho e alecrim… Gostava, só Deus sabe como eu gostava!, de sepultar o António Nazareno em terra. Mas não posso. Era um grande prejuízo. Sei bem que todos vocês têm pena… Mas lembrem-se de que aqui, num destes portos da Terra Nova, ele não teria nem giestas, nem rosmaninho… nada disso! Seriam outras flores que a gente não conhece, que ele Nazareno, nunca viu em vida! Até a terra, até a terra que o cobriria, seria diferente da nossa: com outra cor, com outro cheiro. Isto é assim: e por assim ser, não devemos ter pena de deitar ao mar o corpo do Nazareno. Aqui nestes bancos da Terra Nova, ele fica menos só. Fica, fica mais acompanhado nestes mares. Se todas as vezes e em todos os sítios que este oceano matou um pescador português, houvesse, como é de uso na nossa terra, uma alminha iluminada… ai, então estes mares estariam cheiinhos de luzes, cheios a perder de vista! Vocês sabem que é verdade isto que eu lhes digo: alguns têm cá o pai, ou um irmão, ou um filho… É ou não assim, João das Almas. Estou a mentir, Zé Sol? O nosso companheiro António Nazareno ficará portanto neste mar. Que descanse em paz. (1).



Ainda sobre as vidas e trabalhos dos pescadores de bacalhau, Bernardo Santareno publicou, em 1959, o livro de narrativas Nos Mares do Fim do Mundo, de onde ressalta as condições em que um único homem, num dóri, pescava à linha, até encher o pequeno barco, regressar ao navio-mãe e começar a descabeçar os peixes, escalar e colocá-los para salga no porão.

Entre as frotas bacalhoeiras de outros países, eram os portugueses os que trabalhavam nas piores condições.

Uma vida miserável, que o regime queria que fosse epopeia.

Este é o começo de Nos Mares do Fim do Mundo:

Enquanto o “David  Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos  abertas ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento...(2).


(1)   Bernardo Santareno, O Lugre, em Obras Completas, Editorial Caminho, Lisboa 1984.

(2)   Bernardo Santareno, Nos Mares do Fim do Mundo, Edições Ática, Lisboa Junho 1999.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Se bem que a fotografia seja muito anterior a 1967, já há alguns anos que os amarelos da CARRIS não circulavam nos Restauradores, esta é a imagem que o Eden apresentava, quando, por lá, vimos o “Bonnie &Clyde”.

Aqui pelo burgo, “Bonnie Clyde”, provocou uma longa e acesa polémica, em que andaram ao barulho alguns intelectuais da praça: Eduardo Prado Coelho, como não poderia deixar de ser, Mário Dionísio, Natália Nunes, Bernardo Santareno, Nuno Bragança, José Régio, aparecido de Portalegre, cidade do Alto Alentejo, cercada
de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros, também botou opinião e Agustina Bessa Luís desceu do seu recanto-chá-das-cinco-tripeiro  para escrever no “Diário Popular” algo que assim começava:

"Eu não pensava dedicar a este assunto uma só linha, mas acho injusto e leviano não o fazer."


A chinfrineira foi de tal ordem que quase fez passar ao lado o bonito filme de Arthur Penn,, excelentes interpretações de Warren Beatty e Faye Dunaway, diga-se.

À viva força, umas almas penadas, quiseram deixar vincado, sem qualquer sucesso, que o filme instigava os jovens à violência.

“Eles são jovens, estão apaixonados e matam gente.”

O lindíssimo edifício do Cinema Eden, foi concebido pelo arquitecto Cassiano Branco,

Abriu as portas no dia 1 de Abril de 1937 e, a 31 de Dezembro de 1989, com o filme “Os Deuses Devem estar Loucos”, encerrou-as, como cinema, para sempre.

Sim, é só loucos podiam estar, para terem permitido, que uma sala como aquela,  fosse fechada, mas a especulação imobiliária, sem rei nem roque, a isso obrigou.


A Câmara Municipal de Lisboa tentou, por diversas vezes, manter o “Eden” como espaço para iniciativas de carácter cultural, mas os prometidos mecenas nunca chegaram a aparece com os cheques na mão.

Recuperado pelo Arquitecto Frederico Valsassina, é, hoje, um hotel e onde, naquele tempo, estava o “Café Aviz”, tem porta aberta uma “Loja do Cidadão”

Richard Branson, o extravagante dono da “Virgin”, no dia 28 de Novembro de 1996, abriu por ali loja, mas, passado pouco tempo, teve de dizer au revoir, enchanté de vous connaitre.

O império do mal, que dá pelo nome de FNAC, começava a secar tudo em volta e arredores.

Legenda: não foi possível identificar o autor da fotografia do antigo cinema, tão pouco a data em que foi tirada.

A outra fotografia, é o edifício do Eden como hoje o podemos ver.