Mostrar mensagens com a etiqueta Ruben A. Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruben A. Livros. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

OLHAR AS CAPAS

Silêncio para 4

Ruben A.

Círculo de Prosa nº 4

Moraes Editores, Lisboa, Julho de 1973

- Achas que sou uma pessoa difícil? Diz lá, agora que falamos de tudo, que estamos a falar pela primeira vez.

- O quê? Pela primeira vez? E o que temos estado a falar este tempo todod, o que temos dito um ao outro durante estes anos? O que é isso? É amor!

- Acreditas que é amor? Forma cómoda.

- Amor é a possibilidade de duas pessoas não se aborrecerem uma à outra.

- Só isso?

- Pouco mais.

- É a impossibilidade de uma pessoa viver sem a outra, a força que leva, conduz a outra pessoa, isso é amor. Percebes? Aborrecimento nada tem que ver. Amor está muito longe dessa receita que tu deste agora, é muito mais fundo…

terça-feira, 2 de junho de 2020

OLHAR AS CAPAS


O Mundo À Minha Procura
Vol. II

Ruben A.
Assírio & Alvim, Lisboa, 1993

A coisa que mais me custa na vida é ser normal. E sou obedientemente normal, dramaticamente normal. Todos os dias faço esforços heroicos para ser normal. Preparava-me para a vida sem saber o que era a vida, mas sempre na certeza de que eu era capaz de realizar. Arrancar, acordar o morto País cujo cemitério pisava todos os dias. Triste ilusão! E como iam aso soluços desabando os entusiasmos. E sem perceber, sem nada que me pudesse dar indícios – como se apresentava claro o caso poético da Sophia, flagrante, do cerne – eu era dirigido para a matéria escrita, ia ser escritor, por falhar naquilo que era a minha verdadeira vocação – uma carreira de homem público.

domingo, 24 de maio de 2020

OLHAR AS CAPAS



 A Torre da Barbela

Ruben A.
Capa: Rui Ligeiro
Editorial Presença, Lisboa, 1983

«Assim ficava a Torre, isolada nas suas aventuras, adormecida pelos tempos. Parecia um mundo trivial, sem mais nem menos, sem amores e ódios. O que estava, estava à vista. O resto ninguém via. Quase cruel aquele destino do caseiro e dos visitantes. Os filhos do caseiro andavam meio nu e, ao pé, um rafeiro, preso a uma cadeia de arame, ladrava de rabo espetado. Iam à feira a Ponte do Lima às duas vezes por mês, na charrette do Manhosos e, quanto ao mais, nada se passava de anormal. Os trabalhos agrícolas seguiam-se no ritmo milenário e saber se os Barbelas existiam ou não, era assunto que a ninguém parecia interessar. Coisas velhas, sem história ou riqueza. Para quê indagar do passado? Pedras e mais pedras e o Jardim dos Buxos, jardim de delícias onde os vivos do passado e não os fantasmas do presente viriam redimir os insultos dos profanos que visitavam a Torre. Tudo se transformaria com a noite dos séculos. Ali, hibernando ou não, a história teria de recomeçar. Mesmo que o rio ficasse silencioso, a excitação dos ventos caía no fim da tarde pelas cristas mais salientes do milho. O patético cobria as últimas pedras e nas faces pouco expressivas dos turistas a pergunta repetia-se: «Porque é que esta torre é triangular, quando todas as outras são em quadrado? Porque é que os Barbelas já não habitam o solar?»
E na resposta o mundo diluía-se sem perder tempo. Tudo ficava parado. Viria a noite e então o acordar surgia imponente, radiante nas suas andanças ao luar da História.
Ao fim da tarde, antes do crepúsculo cantar as suas loas e sem descortinar a realidade, apoderava-se da Barbela um sentido incógnito da existência. Forte como as nacionalidades e rija com a têmpera da lâmina do Xasco, o maior escanhoador da Ribeira Lima, a Torre preparava-se para o banho noctívago na sua vida de séculos. Existissem ou não estrelas, fosse breu ou luar a jorros pelos campos marginais, o mundo abria-se então dividindo o tempo. De um lado o espaço entre o crepúsculo da tarde e o da manhã; pela outra banda, o dia do caseiro e a visita habitual dos passantes em romagem ao monumento nacional. No entanto, nada de comum entre a noite da Barbela e o dia do calendário caseiro.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Kaos

Ruben A.
Posfácio de José Palla e Carmo
Capa: Armando Alves
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Novembro de 1981

Sabes, meu amigo, somos mouros, ou saloios, ou árabes, ou lá o que é. Orgulhosos da nossa incapacidade.
Talvez.
Arrogantes do nada.
Em Portugal gastam-se energias produtivas a desfazer asneiras e muitas vezes a emendar os erros dos outros. É uma máquina, uma locomotiva que anda para trás. Um país, assim, progride como os cágados.
É tudo uma cagada. Ah! Perdão minhas senhoras.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


O Mundo à Minha Procura
Vol. I
Ruben A.
Assírio &Alvim, Lisboa Novembro 1992
Se pensar bem, vejo que nada encontrei na vida que se compare ao Natal do Campo Alegre. Era um Natal nórdico, alimentado pela combustão germânica e dinamarquesa da família de meus avós, aperfeiçoado pelos requintes trazidos ao seu brilho pelas minhas tias que, através do casamento ou por feitio, capricharam mais em festejar a data do nascimento de Cristo sob a forma tradicional das antigas lendas do Reno, do que segundo os cânones da consoada portuguesa.O Natal no Campo Alegre era o máximo na nossa vida anual. Nada se lhe comparava, nada, no decorrer da vida, me vibrou tanto como aquela noite de 24 de Dezembro em que se acertavam as medidas eufóricas dos presentes, deitar tarde, bons petiscos e liberdade de acção nas salas menos povoadas da casa.Foi nos anos que vivi em Inglaterra, que percebi bem o Natal no Campo Alegre. Em Inglaterra, o Natal começa em Outubro. No Campo Alegre, e para nossos temperamento isto já é formidável, o Natal começava nos últimos dias de Novembro, quando se preparavam medidas de prendas, projectos de decorações, de encomendas para o jantar e de muitas coisas que mais adiante se relatará.