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terça-feira, 21 de abril de 2020

ALGUÉM LHES DIRÁ O QUE SOFREMOS...


Continuo com os murais que, após o 25 de Abril, foram aparecendo nas ruas de Lisboa.

Sacuntala de Miranda, militante anti-salazarista, exilada política em Londres, no seu livro «Memórias de um Peão nos Combates da Liberdade», lembra, o como era possível que tanta gente viesse para a rua, naquele 1º de Maio, vitoriar o fim da ditadura, quando éramos tão poucos os que tínhamos lutado para que o 25 de Abril viesse a acontecer.

Foi possível mesmo.

Passados os primeiros dias – não importa quantos… - muita dessa gente, que calcorreou ruas, regressou à sombra dos dias, marcando o aparecimento do camaleonismo.

Sim, porque, dizem os livros, o camaleão, está na sua própria natureza, não muda de cor uma só vez.

Que é feito do sol que aquela madrugada anunciava?

Como canção que então ouvíamos, escolhi «Canto Moço» de José Afonso, faixa 3 do lado A de «Traz Outro Amigo Também», editado em 1970, terceiro álbum de José Afonso.

 Filhos da madrugada, navegando de vaga em vaga, sem saber de dor nem mágoa, pelas praias do mar nos vamos, à procura da manhã clara.



Legenda: o título é tirado de um poema de Egito Gonçalves.

domingo, 5 de maio de 2019

OLHAR AS CAPAS


Memórias De Um Peão Nos Combates Pela Liberdade

Sacuntala de Miranda
Capa: António Eduardo Borges de Sousa
Colecção Garajau nº 100
Edições Salamandra, Lisboa, Abril de 2003

Foi o Zé quem, em Setembro de 1957, me levou à Seara Nova, na Rua Luciano Cordeiro, onde começava a preparar-se a campanha para a apresentação de uma lista de deputados da oposição por Lisboa, sob a orientação do velho Câmara Reis, um senhor calvo, ainda cheio de alegria e boa disposição, não obstante a sua avançada idade. Não havia candidatos, a não ser Câmara Reis, e os estudantes que se ofereceram para ajudar foram destacados para ir, em grupos de três ou quatro, pedir a várias personalidades notáveis que acedessem a candidatar-se. A mim coube-me, entre outras, a tarefa de ir, com o Luís Bernardino e com o Ernâni pinto Basto, visitar Ferreira de Castro e pedir-lhe que se candidatasse à Assembleia Nacional na lista da Oposição. O velho escritor olhou-nos com infinita simpatia, sorriu e perguntou: “Vocês já têm vinte anos? (Na verdade, dos três, só eu tinha mais de vinte anos.) São umas crianças. Queriam que eu fosse para a Assembleia Nacional? Nem pensem nisso. Eu não nasci para fazer política.” E despediu-nos com o mesmo sorriso paternal e muitas pancadinhas nas costas.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

O DIA MUNDIAL DO PUNHO ERGUIDO


Há 45 anos foi aquele primeiro 1º de Maio, aquele navio de sonho, aquela nave de loucos.

As fotografias, os filmes que existem daquele longo dia, não conseguem mostrar tudo.

Quem não viveu esse dia não conheceu a doçura da nossa revolução.

O tempo em que nos pareceu abraçar a felicidade.

Sabemos agora o que aconteceu ao povo que se dizia unido.

Tempos atrás, no Chile, após a vitória de Salvador Allende, também se gritava que o povo unido jamais seria vencido. Um vendaval de morte e terror caiu sobre os chilenos.

Sobre aquele 1º de Maio de 1974, duas memórias:

Maria Eugénia Varela Gomes em Contra Ventos e Marés:

«Quer dizer. no 1º de Maio juntou-se tudo: os que tinham perdido o medo, os que eram fascistas e queriam desaparecer ou disfarçar... veio tudo para a rua e as motivações eram, evidentemente, as mais diversas. Uma coisa era certa, se aquela multidão de gente fosse mesmo antifascista, todos eles, o regime já tinha caído há muito tempo.»

Sacuntala de Miranda em Memórias De Um Peão Nos Combates Pela Liberdade:

«Num estado de enorme exaltação, participei na grandiosa marcha do 1º de Maio, procurando em vão ver caras conhecidas e perguntei-me mil vezes como era possível que tanta gente viesse para a rua vitoriar o fim do regime, quando éramos tão poucos os que tínhamos lutado contra a ditadura.»

José Gomes Ferreira em Intervenção Sonâmbula

«De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.»

terça-feira, 1 de maio de 2018

O PRIMEIRO 1º DE MAIO EM LIBERDADE


Frei Bento Domingues em entrevista ao Diário de Notícias:

«Não me recordo bem porque foi um baralhanço total. O que aconteceu para mim de surpreendente foi o 1.º de Maio, foi uma experiência má. Pensava: isto é um país de revolucionários, de repente! Um dos meus ofícios era ajudar pessoas a sair do país, e era uma trabalheira porque eram raros os que se comprometiam. De repente estava tudo na rua. Aqui há batota, pensei.»

Maria Eugénia Varela Gomes em Contra Ventos e Marés:

«Quer dizer: no 1º de Maio juntou-se tudo: os que tinham perdido o medo, os que eram fascistas e queriam desaparecer ou disfarçar... veio tudo para a rua e as motivações eram, evidentemente, as mais diversas. Uma coisa era certa, se aquela multidão de gente fosse mesmo antifascista, todos eles, o regime já tinha caído há muito tempo.»

Sacuntala de Miranda no seu livro Memórias de Um Peão nos Combates pela Liberdade:

«Num estado enorme de exaltação, participei na grandiosa marcha do 1º de Maio, procurando em vão ver caras conhecidas e perguntei-me mil vezes como era possível que tanta gente viesse para a rua vitoriar o fim do regime, quando éramos tão poucos os que tinham lutado contra ditadura.»

Éramos tão poucos…

E como revelam estes velhos recortes, pegados ao acaso, era assim que lutávamos, poucos mas bons, dizia o Helder.

E corríamos à frente da polícia, levávamos porrada, pontapés e cacetadas, mangueiradas de tinta azul, uns presos, estudos interrompidis, profissões perdidas ou prejudicadas, alguns, lembrando Jorge de Sena, não chegaram a ver a cor da liberdade.

Em todos os primeiros de Maio da ditadura. José Gomes Ferreira saía à rua com uma gravata vermelha, percorria as ruas da cidade gritando em silêncio, sabedor-sonhador que um dia, esse grito seria mesmo um ENORME GRITO. 



Época, 1 de Maio de 1973



Diário Popular, 2 de Maio de 1973