Mostrar mensagens com a etiqueta António Gedeão Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Gedeão Poemas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

FORMA DE INOCÊNCIA

Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.

Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ver igual.

António Gedeão em Obra Completa


segunda-feira, 13 de abril de 2026

POEMA DA MORTE NA ESTRADA

Na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
estão quinhentos mortos com os olhos abertos.

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos.
Nem tiveram tempo para fechar os olhos.

Eles bem sabiam dos bancos da escola
como os homens dignos sucumbem na guerra.
Lá saber, sabiam.
A mão firme empunhando a espada ou a pistola,
morrendo sem ceder nem um palmo de terra.

Pois é.
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis,
não lhes deu tempo para serem heróis.

Eles bem sabiam que o último pensamento
devia estar reservado para a pátria amada.
Lá saber, sabiam.
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento.
Não lhes deu tempo para pensar em nada.

Agora,
na berma da estrada, nuns quinhentos metros,
são quinhentos mortos com os olhos abertos.

António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

sexta-feira, 27 de março de 2026

POEMA DA NOITE PLÁCIDA

A multidão em fúria

passeia placidamente nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

enquanto os homens que orientam placidamente

a multidão em fúria

que placidamente passeia nas ruas da cidade.,

procuram furiosamente

as soluções plácidas

que orientarão a multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

de mente plácida,

plácida mente,

e os sábios buscam furiosamente

as fórmulas plácidas

que, placidamente,

resolverão as dificuldades da multidão em fúria

que passeia nas ruas da cidade

de mente plácida

plácida mente,

e todos, todos em suma,

placidamente,

procuram furiosamente,

de todas as formas plácidas,

atender às inquietações e aos anseios plácidos

da multidão em fúria

que, placidamente, passeia nas ruas da cidade,

e placidamente se assenta nos plácidos bancos das

                                                                    avenidas,

bebendo o ar plácido da noite,

e esperando, placidamente,

as soluções plácidas

para os seus anseios e inquietações furiosas.


António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

POEMA DA PRAÇA PÚBLICA

 Pobre de quem procura e não encontra.
Infeliz de quem espera e não alcança.

Movem-se os olhos,
apuram-se os ouvidos,
e quando as mãos se agitam numa esperança
afundam-se nos bolsos e emudecem.

A  máquina da História, que fabrica
os dias do futuro
com a sucata das horas do presente,
alimenta-se de ecos, de palavras,
de vozes fátuas, de melífluos cantos,
do bafo morno das gargantas pródigas
em bordados, em rendas, em matizes.

Olho em redor
e vejo os homens todos separados
em grupos, cada um da sua cor.
São vermelhos, são verdes, são cinzentos,
alguns são amarelos como o oiro,
todos na mesma praça, aglomerados,
mas cada um voltado ao seu quadrante.

As vozes interferem-se, e o conjunto
é um estentor de vozes,
de baixos, de barítonos, de tenores,
sopranos e contraltos.

Desço também à praça
e nela me diluo e me confundo.
E aqui estou. Por aqui deambulando,
ouvindo e observando
o próximo e o distante,
perscrutando,
tentando adivinhar o pensamento alheio,
olhos postos nos olhos,
procurando,
buscando aqueles cujas mentiras
mais se aproximam das minhas verdades.

 

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa 

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

POEMA DO GATO

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.


Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

 

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

COMO SERÁ ESTAR CONTENTE?

Como será estar contente?

Lançar os olhos em volta,

moderado e complacente,

e tratar toda a gente

sem tristeza nem revolta?

Sentir-se um homem feliz,

satisfeito com o que sente,

com o que pensa e com o que diz?

Como será estar contente?

 

Deve haver alguma mecânica,

qualquer retesada mola

que se solta e desenrola

no próprio instante preciso,

para que um homem de carne,

de olhos pregados no rosto,

possa olhar e rir com gosto

sem estranhar o som do riso.

 

Na minha tosca engrenagem,

de ferrugenta sucata,

há qualquer mola de lata

que não se distende bem,

qualquer dessorada glândula

ou nervo que não se enfeixa,

qualquer coisa que não deixa

deflagrar essa girândola

de timbres que o riso tem.

 

Não ter riso e não ter casa,

nem dinheiro nem saúde,

não se conta por virtude

que a miséria é ferro em brasa.

Mas ter casa, ter dinheiro,

ter saúde e não ter riso,

flagelar-se o dia inteiro

como se o sangrar primeiro

fosse um tormento preciso,

tê-lo sempre forte e vivo,

espantado a todo o momento,

isso sim, será motivo

de grande contentamento.

 

António Gedeão em Poesias Completas

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

AMADOR SEM COISA AMADA

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.

 

António Gedeão de Máquina de Fogo em Poemas Completos

quinta-feira, 15 de maio de 2025

PAISAGEM DO OUTRO LADO

Somos confusos como as florestas.

Tu, e eu (e todos nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.

Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena despida,
infância desprevenida
sem roupas nem atavios.

Anda.
Rasga esta verde espessura
com teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta. Penetra
neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.

Entra e serve-te. Verás
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos
que em silêncio morderás.
Teus dentes lhes darão sumo,
teus lábios lhe darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.

Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.

De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

 

António Gedeão de Máquina de Fogo em Poesias Completas

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

ROSA BRANCA AO PEITO

Teu corpinho adolescente cheira a princípio do mundo.

Ainda está por soprar a brisa que há-de agitar a tua seara.

Ainda está por romper a seara que há-de rasgar o teu solo fecundo.

Ainda está por arrotear o solo que há-de sorver a água clara.

Ainda está por ascender a nuvem que há-de chover a tua chuva.

Ainda está por arder o sol que há-de evaporar a água da tua nuvem.


Mas tudo te espera desde o princípio do mundo:

a doce brisa, a verde seara, o solo fecundo.

Tudo te espera desde o princípio de tudo:

a água clara, a fofa nuvem, o sol agudo.


Tu sabes, tu sabes tudo.

Tu és como a doce brisa, a verde seara e o solo fecundo

que sabem tudo desde o princípio do mundo.

Tu és como a água clara, a fofa nuvem e o sol agudo

que desde o princípio do mundo sabem tudo.

O teu cabelo sabe que há-de crescer

e que há-de ser louro.

As tuas lágrimas sabem que hão-de correr

nas horas de choro

Os teus peitos sabem que hão-de estremecer

no dia do riso.

O teu rosto sabe que há-de enrubescer

quando for preciso.


Quando te sentires perdida

fecha os olhos e sorri.

Não tenhas medo da Vida

que a Vida vive por si.

Tu és como a doce brisa, a verde seara e o solo fecundo

que sabem tudo desde o princípio do mundo.

tu és como a água clara, a fofa nuvem e o sol agudo.

A tua inocência sabe tudo.

António Gedeão de Teatro do Mundo em Poesias Completas

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

UM SORRISO PARA CIBELE

Aqui não há nada, Cibele,
a não ser uma alameda estreita
com renques de flores à esquerda e à direita.

As flores são daquelas que eu não gosto, Cibele.
Pretensiosas.
Zinias, dálias, crisântemos, margaridas e rosas.
As flores de que eu gosto são das que ninguém planta nem semeia,
daquelas que a gente passa e diz: “Olhe, faz-me favor.
Sabe-me dizer como se chama esta flor?”

Não gosto delas, não,
mas à falta de melhor, Cibele,
é nelas que cevo a minha solidão.

Todas as manhãs quando aqui passo para as ver
acaricio-as á flor da pele
e balbucio as palavras que ficaram por dizer.

Assim se vai passando o tempo, Cibele.

António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

POEMA DO LIVRE-ARBÍTRIO

Há uma fatalidade, intrínseca, insofismável,

inerente a todas as coisas e nelas incrustada.

Uma fatalidade que não se pode ludibriar,

nem peitar, nem desvirtuar,

nem entreter, nem comover,

nem iludir, nem impedir,

uma fatalidade fatalmente fatal,

uma fatalidade que só poderia deixar de o ser

para ser fatalidade de outra maneira qualquer,

igualmente fatal.

 

Eu sei que posso escolher entre o bem e o mal.

Eu sei que posso fatalmente escolher entre o bem e o mal.

 

E já sei que escolho o bem entre o mal e o bem.

Já sei que escolho fatalmente o bem.

Porque escolher o bem é escolher fatalmente o bem,

como escolher o mal é escolher fatalmente o mal.

O meu livro arbítrio

conduz-me fatalmente a uma escolha fatal.

 

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

ARMA SECRETA

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dipara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

António Gedeão de Máquina de Fogo em Poesias Completas

quinta-feira, 18 de julho de 2024

MINHA ALDEIA

Minha aldeia é todo o mundo.

Todo o mundo me pertence.

Aqui me encontro e confundo

com gente de todo o mundo

que a todo o mundo pertence.

 

Bate o sol na minha aldeia

com várias inclinações.

Ângulo novo, nova ideia;

outros graus, outras razões.

Que os homens da minha aldeia

são centenas de milhões.

 

Os homens da minha aldeia

divergem por natureza.

O mesmo sonho os separa,

a mesma fria certeza

os afasta e desampara,

rumorejante seara

onde se odeia em beleza.

 

Os homens da minha aldeia

formigam raivosamente

com os pés colados ao chão.

Nessa prisão permanente

cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro

ligam tudo ao mesmo centro

numa inquebrável cadeia.

Longas raízes que emergem,

todos os homens convergem

no centro da minha aldeia.

 

António Gedeão de Teatro do Mundo em Poesias Completas

quinta-feira, 16 de maio de 2024

POEMA DA MULHER DOS CABELOS BRANCOS

A mulher dos cabelos brancos estava à janela do primeiro andar
com os antebraços poisados no parapeito.
Tinha um xaile de malha sobre os ombros,
cruzado à frente e as mãos metidas nele.

Quentinha, a mulher dos cabelos brancos.

Postada à janela,
muito ocupada em fazer coisa nenhuma,
com os antebraços poisados no parapeito,
a mulher dos cabelos brancos
só seguia com os olhos quem passava na rua.
Ela nunca tinha ouvido falar no Aristóteles,
nem no Descartes, nem no Sigmund Freud,
mas sabia coisas concretas que a vida prática lhe ensinara.
Sabia que Eva tinha sido feita
de uma costela de Adão,
o que se prova
por os homens terem uma costela a menos do que as mulheres.
E também sabia que o Sol anda à volta da Terra
como é evidente,
e que as salamandras vivas,
postas no fogo,
não morrem nem sequer se queimam,
o que não é evidente mas é certo.
E por saber todas estas coisas,
e muito mais,
a mulher dos cabelos brancos sentia-se muito quentinha
com os antebraços poisados no parapeito.

Eis que, porém,
o relógio do tempo despertou-a.
Então,
pausadamente,
a mulher dos cabelos brancos ergueu o busto,
fechou a janela,
e foi sentar-se na cadeira do costume,
aconchegadinha,
a ver televisão.

António Gedeão de Novos Poemas Póstumos em Obra Completa

sexta-feira, 22 de março de 2024

HORA H

A Primavera cheira a laranjas.

(Há umas granadas de mão, redondas e pequenas, a que chamam laranjas.)

O cheiro das laranjas enche a noite luarenta de mistérios.

(Dizem que as noites de luar são as melhores para bombardeamentos aéreos.)

António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

POEMA DA MEMÓRIA

Havia no meu tempo um rio chamado Tejo

que se estendia ao Sol na linha do horizonte.

Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia

exactamente um espelho

porque, do que sabia,

só um espelho com isso se parecia.

 

De joelhos no banco, o busto inteiriçado,

só tinha olhos para o rio distante,

os olhos do animal embalsamado

mas vivo

na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.

 

Diria o rio que havia no seu tempo

um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,

onde dois grandes olhos,

grandes e ávidos, fixos e pasmados,

o fitavam sem tréguas nem cansaço.

Eram dois olhos grandes,

olhos de bicho atento

que espera apenas por amor de esperar.

 

E por que não galgar sobre os telhados,

os telhados vermelhos

das casas baixas com varandas verdes

e nas varandas verdes, sardinheiras?

Ai se fosse o da história que voava

com asas grandes, grandes, flutuantes,

e poisava onde bem lhe apetecia,

e espreitava pelos vidros das janelas

das casas baixas com varandas verdes!

Ai que bom seria!

Espreitar não, que é feio,

mas ir até ao longe e tocar nele,

e nele ver os seus olhos repetidos,

grandes e húmidos, vorazes e inocentes.

Como seria bom!

 

Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,

(tão simples isso)

não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.

 

António Gedeão de Poemas Póstumos em Obra Completa

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

POEMA DA BUGANVÍLIA

Algum dia o poema será a buganvília

pendente deste muro da Calçada da Graça.

Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,

e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.

 

Mas antes desse dia há-de secar a buganvília

e o varredor há-de levar as flores secas para o monturo.

Depois cairá o muro.

E como o tempo passa

mesmo contra a vontade,

também há-de acabar a Calçada da Graça

e o resto da cidade.

 

Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso

que é o mais leve de tudo que se pode supor,

será esse o momento de o poema ser flor,

mas já não é preciso.


António Gedeão d Linhas de Força em Obra Completa 

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

POEMA DAS COISAS

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.

Abre-se a porta e o próprio ar nos fala.
As cortinas de rede, exactamente aquelas,
a cadeira onde a memória está sentada,
a mesa, o copo, a chávena, o relógio,
o móvel onde alguém permanece encostado
sem volume e sem tempo,
nós próprios, quando os olhos indignados
nas pálpebras se encobrem.

Põe-se a pedra na mão, e a pedra pesa,
pesa connosco, forma um corpo inteiro

Fecha-se a mão, e a mão toma-lhe a forma,
conhece a pedra, entende-lhe o feitio,
sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão, e a mesma pedra avulta.

Se fosse o amor dos homens
quando se abrisse a mão já lá não estava.

António Gedeão de Poemas Póstumos em Obra Completa


domingo, 23 de maio de 2021

POEMA DO HOMEM SÓ


Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem

 

Nesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de outro se refracta,

nehum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, e dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concreto,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarçe,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se, e desflorar-se,

é nosso de mais ninguém.


António Gedeão de Teatro do Mundo em Poesias Completas

domingo, 9 de maio de 2021

MÃEZINHA


A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
43 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai desde o berço até à puberdade.
28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (Oh nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que, por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que meu pai percorria,
tranquilamente, no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
Uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
Chamava-se Rosinha.
Foi essa a que meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.

António Gedeão de Linhas de Força em Obra Completa

Legenda: Rosinha, mãe de António Gedeão aos 64 anos. Fotografia retirada de Memórias.