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segunda-feira, 20 de abril de 2026

REOLHARES

UM VIVA A REPÚBLICA EM CASA DE RESPEITO

Um tasco em Almoçageme, no dia 5 de Outubro de 1966.

Mais tarde, esse tasco daria lugar à adega «Toca do Júlio», sucesso e sucesso, mais tarde mudou-se para a Estrada do Rodízio a caminho da Praia das Maças, o mesmo sucesso, mas a perca de certo aconchego que num tasco é coisa fundamental.

Mas voltemos àquele 5 de Outubro.

Entramos no tasco e antes de se pedirem os copos, o Helder Pinho lança um sonoro «VIVA A REPÚBLICA!»

Lança-se o tasqueiro numa corridinha ao longo do balcão e com cara de mau a dizer ao Helder, futuro D. Pipas:

- Aqui não se admitem coisas dessas, isto é uma casa de respeito.

quarta-feira, 25 de março de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Junho de 1966.

Ou 67?

O Helder Pinho a dizer-nos: o Cine-Clube do Barreiro vai dar Ladrões de Bicicletas.

 Quem alinha?

Alinharam seis.

O Cine-Clube era dirigido pelo Cortez, militante comunista, enfermeiro e barbeiro com loja aberta na Rua Castelo Branco Saraiva, sala a abarrotar.

O neo-realismo italiano visto na margem sul, a fita não ajudava, a projecção não foi a melhor, mas oportunidade, quase única, de então ver Ladrões de Bicicletas, em sessão quase clandestina.

O último barco do Barreiro para Lisboa acontecia à meia-noite. O filme batia quase o horário do barco, mas antes, já um camarada pegara na bicicleta, e acelerara para o cais,  dizer ao pessoal de bordo que aguentassem uma migalha, que havia uma malta numerosa de Lisboa, a sair do Cine-Clube e precisava de ir para Lisboa.

Solidariamente, o mestre aguentou a migalha necessária,  e o camarada da bicicleta, ficou a ver a malta a chegar e entrar para o barco e lançou um punho no ar de adeus.

Porra! Há que dizer que estávamos na margem sul e o Barreiro eram operários das fábricas do Alfredo da Silva.

O barco traz-nos para Lisboa na noite de Primavera.

O Helder olha a cidade, diz-nos que gosta da palavra cineclube, que não há nada como o neo-realismo seja ele português, ou italiano, palavras soltas, gestos inacabados.

Ainda há cineclubes?


CINEMATECA PORTUGUESA–MUSEU DO CINEMA HISTÓRIAS DE OBJETOS, OBJETOS NAS HISTÓRIAS 15 e 18 de setembro de 2021 LADRI DI BICICLETTE / 1948 (Ladrões de Bicicletas) um filme de Vittorio de Sica Realização: Vittorio de Sica / Argumento: Cesare Zavattini, segundo o romance de Luigi Bartolini; adaptação: Cesare Zavattini, Vittorio de Sica, Oreste Biancoli, Suso Cecchi d’Amico, Adolfo Franchi, Gherardo Gherardi, Gerardo Guerrieri / Fotografia: Carlo Montuori / Direcção Artística: Antonino Traverso / Música: Alessandro Cicognini / Montagem: Eraldo Da Roma / Intérpretes: Lamberto Maggiorani (Antonio Ricci), Enzo Staiola (Bruno Ricci), Lianella Carell (Maria Ricci), Elena Altieri, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Michele Sakara, Carlo Jachino, Nando Bruno, Fausto Guerzoni, Umberto Spadaro, Massimo Randisi. Produção: “P.D.S.” (Produzione De Sica) / Cópia: Leopardo Filmes, dcp, preto e branco, legendado em português, 90 minutos / Estreia Mundial: Roma, em 24 de Novembro de 1948 / Estreia em Portugal: Tivoli, em 20 de Novembro de 1950 / Reposição: Estúdio 444, em 26 de Junho de 1969. Grande Prémio Internacional do Festival Mundial do Filme e das Belas Artes, Bélgica, 1949 Prémio Social do Festival de Cinema de Locarno, 1949 Grande Prémio Saint Michel do Festival de Knokke, Bélgica, 1949 Fita de Prata, Roma, 1949 Prémio da Crítica de Nova Iorque para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949 Oscar da Academia de Hollywood para o Melhor Filme Estrangeiro, 1949.


Nem o nome de De Sica, o impacto do seu filme anterior, Sciuscià, ou a nova lei do cinema que entra em vigor em 1947 e impõe a exibição de filmes italianos durante (pelo menos) 20 dias por ano em cada cinema, serviram de muito para o projecto do actor-realizador adaptar o romance de Luigi Bartolini Ladri di Biciclette. Em Itália ninguém se interessou apesar do chamado “neorealismo” estar na moda, em França também não, o que os ingleses ofereciam não chegava para mandar cantar um cego (ou confundiam já “neo-realismo” com “miserabilismo”). Será com o seu próprio dinheiro e o de um grupo de amigos, os advogados Graziadei e Bernardi, e o conde Cicogna, que De Sica poderá levar a cabo o filme que ficará como a sua obra-prima, e que durante uma década esteve na lista dos dez melhores filmes da história do cinema. Ao tempo Ladri di Biciclette causou um impacto maior que os primeiros filmes de Rossellini, tornando-se o modelo frequentemente invocado do “verdadeiro” neo-realismo, que esteve na origem dos equívocos que o rodearam, e que levariam à sua marginalização com o esgotamento da fórmula. Se o equívoco lhe deu fama foi também a sua desgraça, o que a uma revisão se afigura extremamente injusto. Ladri di Biciclette é, antes de mais, um belíssimo filme sem necessidade de adjectivos de “verismo” ou “realismo”. Não se passa nada durante o filme e, no entanto, passa-se tudo. O “fait-divers” (o roubo da bicicleta a um homem que com ela conseguira, finalmente, trabalho nos anos de crise do pósguerra em Itália) transforma-se numa história de suspense. É inegável que ele existe pois todos estamos suspensos do encontro ou não da bicicleta e o filme não é mais do que a história da sua busca, através dos mais variados lugares. E é este percurso que está na base do equívoco (aceite naturalmente, e nunca contestado, porque era um movimento de “vanguarda”) erigido em “escola” por Zavattini. A captação do “real”, com as filmagens em exteriores, actores não profissionais e uma fotografia próxima da das actualidades, são o embrulho sobre o qual se coloca a etiqueta do “neo-realismo”. Mas todo o filme de De Sica manifesta em germe a sua própria negação (a que nem o próprio Umberto D escapa, e que passa a primeiro plano em Miracolo a Milano e L’Oro di Napoli: um desejo de ficção (o tema da busca) e de encenação (a belíssima e cuidada sequência do almoço de pai e filho no restaurante, com uma fotografia mais trabalhada do que o resto do filme). Um dos tais sinais de “realismo” é, no fim de contas, uma fórmula usada com uma certa frequência no cinema em geral: captar “um rosto na multidão”(que será o título de um filme de Kazan), entre os anónimos habitantes da cidade, o que traz logo à memória as comédias e melodramas americanos do fim do mudo, em particular The Crowd e Lonesome (e já agora o genial número de Busby Berkeley para o primeiro Gold Diggers: “Remember My Forgotten Man”). E o final segue o mesmo modelo, com a multidão anónima rodeando aquele que se tornou “intérprete” de um drama colectivo, neste caso o desemprego que estava no ponto mais alto na altura da realização do filme (apesar da recuperação da economia que se começava a verificar com o apoio do Plano Marshall). E o início do filme de De Sica é ainda mais sugestivo: António Ricci não engloba a massa que se aglomera à volta do funcionário que distribui empregos ocasionais. Está à margem dela, e é preciso que um outro corra a chamá-lo para que a câmara nos mostre Ricci isolado e sentado no chão, como um homem marcado pelo destino. Destino absurdo que tem a sua dimensão kafkiana na loja de penhores, onde a trouxa de lençóis se vai misturar com milhares de outras, cruzando-se, num sugestivo plano, com a bicicleta que lhe é devolvida. Mesmo contaminado por estes momentos simbólicos, esquecidos na altura pois apenas se quis ver as suas características de “pedaços da vida”, Ladri di Biciclette é até aqui ainda um filme de forte conotação “realista” (para continuarmos a usar o chavão), com o retrato da vida do casal e da sua casa. Tudo muda, porém, no “dia seguinte”, aquele em que Ricci vai começar a trabalhar. E não deixa de ser curioso que De Sica apenas neste momento nos apresente a outra figura central do drama, Bruno, filho de Ricci que, com o pai, parte também para o trabalho. De facto, e esta é outra marca anti-“realista” do filme, a verdadeira história é a da relação entre os dois (repare-se que, durante todo o filme o garoto procura o pai com o olhar), e a pesquisa que irão fazer no outro dia, é da mesma ordem das “viagens iniciáticas” dos jovens no cinema americano. O roubo da bicicleta é o momento em que tudo vacila e tudo começa. Se serve para apresentar, de forma documental, o estado de coisas da sociedade italiana de então (a crise económica, o desemprego, a superstição, a miséria e a promiscuidade, segundo uma fórmula de testemunho que Zavattini erigirá, tardiamente, em programa em L’Amore in Città), o que mais fica desta peregrinação exemplar, quase crística (houve quem comparasse o percurso de Ricci à Via Sacra) é o que se passa entre pai e filho, testemunhado nos três momentos maiores do filme:a sequência da bofetada e a desaparição de Bruno com a angústia do pai ao ouvir os apelos de ajuda ao afogado; a sequência do restaurante, de reconciliação, a que não falta o toque de humor com o menino “bem” na outra mesa comendo a sua “pasta” com ar afectado, mas onde, pela primeira vez, no filme, o pai dá conta dos seus sonhos ao filho (sonhos que o roubo vem por em causa); e a última, que possui uma carga simbólica que o afasta da mera referência realista onde se teima em inclui-lo: António desceu ao ponto mais baixo, procurando, por sua vez, roubar uma bicicleta, mas é apanhado e humilhado. Será a mão do filho que se estende para a sua, crispada, que lhe transmitirá de novo a força. E o “fait-divers” adquire a forma de uma tragédia sobre a condição humana. 

Manuel Cintra Ferreira 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

CONVERSANDO


 Dando destino aos jornais e revistas que se vão acumulando por aqui e por ali, dei com um Fugas do Público de 23 de Julho de 2022 em que Edgardo Pacheco escrevia o obituário de Maria de Lourdes Modesto.

«Conheci Maria de Lourdes Modesto, que morreu esta terça-feira aos 92 anos, em meados dos anos de 1990, num dos Congressos de Gastronomia do Minho, organizados por Francisco Sampaio e Nuno Lima de Carvalho. Eram encontros estupendos porque, entre debates sobre papas de sarrabulho e as estratégias para o turismo termal, havia sempre tempo para se chegar a estados etílicos alegres e em diferentes escalas, tais eram as solicitações das adegas da região para a aferição da qualidade do Alvarinho, do presunto e dos enchidos variados.

O grupo de Lisboa ia para o Minho num autocarro fretado. À frente, os palestrantes, a meio, uns eruditos (com o jornalista António Valdemar à cabeça) e, atrás, a maralha, liderada por esse pândego cativante que era o Hélder Pinho – conhecido no universo gastronómico como Dom Pipas (Capital).»

Guardei o recorte porque a sua morte mandou-me para os tempos dos meus 13/14 anos em que determinados programas, na televisão Nordmend, a preto e branco, não tinham outros assistentes que não o avô, eu e o gato Trafaria.

Ali ficávamos os dois, o Trafaria, ronronando, aconchegado nos joelhos do meu avô, olhando as habilidades culinárias da então colaboradora semanal da televisão-canal-único, a sua simpatia, o trato fácil, excelente comunicadora, era professora no Liceu francês, os seus gestos, o seu grande sorriso, o gosto pela cozinha alentejana, Beja a viu nascer, um tempo em que não havia «chefs», apenas cozinheiro(a)s que falavam do que portuguesmente queriam saber, e José Quitério no seu  Histórias e Curiosidades Gastronómicas, chamou a Maria de Lourdes Modesto, uma das cada vez mais raras Guardiãs do Fogo.

Mas o recorte também ficou guardado porque Edgardo Pacheco falava do Helder Pinho, meu grande amigo, jornalista, desde os primeiros números, de A Capital, das andanças e trangalhadanças de D. Pipas.

Saudades.

Curiosamente, há dias, guardei uns recortes em que Jorge Pereirinha Pires, no «Expresso» escrevia sobre os portugueses na Califórnia («O primeiro europeu a chegar à costa da actual Claifónia foi, como, como se sabe, João Rodrigues Cabrilho. Natural da freguesia de Cabril, perto de Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre.») e onde era referido o nome de Helder Pinho e o livro, Portugueses na Califórnia, que reuniu as reportagens que realizou para A Capital», com prefácio de Jorge de Sena.



Do prefácio de Jorge de Sena, e sabe-se que Sena não era homem de elogio fácil:

«Pede-me Helder Pinho algumas palavras de apresentação do seu livro sobre os portugueses na Califónia que ele publicou por Abril e Maio do corrente ano (1977), no jornal A Capital, e que representavam a soma das suas pesquisas e contactos de jornalista consciencioso e lúcido como poucos, para tão complexo tipo de reportagens jornalisticas e/ou literárias. Pelo que até aqui já vai dito é óbvio que os contactos que com ele tive já vai dito é óbvio que os contactos que com ele tive, o modo como o vi actuar, o que ouvi da actuação dele junto das várias pessoas, e os textos que li atentamente e com prazer e enorme proveito (quem de todos nós faz deste estudos brilhantes e ao mesmo tempo da funda seriedade e sólida documentação, se escreve de gentes e lugares que foi ver só para escrever deles?), me fazem julgar o autor como um admirável e os artigos que ele publicou como nada de efémero, e sim como essencial base documental para entender-se o problema dos portugueses e seus descendentes no estrangeiro, e em particylar na América do Norte.»

Conversando, o meu amigo Helder Pinho, Jorge de Sena, o meu avô, o gato Trafaria, Maria de Lurdes Modesto, a rara Guardiã do Fogo, como lhe chamou José Quitério, uma televisão Nordmend, a preto e branco, comprada a prestações, que levou anos e anos a pagar, e o primeiro programa que nessa televisão vi, «Nat King Cole Show» e em boa hora isso aconteceu, memórias e mais memórias…

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

UM VIVA A REPÚBLICA EM CASA DE RESPEITO

Um tasco em Almoçageme, no dia 5 de Outubro de 1966.

Mais tarde, esse tasco daria lugar à adega «Toca do Júlio», sucesso e sucesso, mais tarde mudou-se para a Estrada do Rodízio a caminho da Praia das Maças, o mesmo sucesso mas a perca de certo aconchego que num tasco é coisa fundamental.

Mas voltemos àquele 5 de Outubro.

Entramos no tasco e antes de s se pedirem os copos, o Helder Pinho lança um sonoro «VIVA A REPÚBLICA!»

Lança-se o tasqueiro numa corridinha ao longo do balcão e com cara de mau a dizer ao Helder, futuro D. Pipas:

- Aqui não se admitem coisas dessas, isto é uma casa de respeito.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

QUANDO CHEGOU O CANSAÇO...


No poema que hoje se publica, José Carlos Vasconcelos lembra os juízes dos tribunais plenários, e pergunta: que direis no dia do vosso julgamento?

Nada disseram porque deles não se fez qualquer julgamento.

Deles, dos pides, de todas as ratazanas que, durante, perto de meio século, nos infernizaram a vida.

Provavelmente, muitos deles continuaram, não naquelas funções, mas noutras, as suas vidinhas na justiça. Hoje, por ventura, ainda gozam chorudas reformas, bons carros, casas na praia, nada lhes perturba o sono pela simples razão de não serem gente… apenas isso…

Como puderam estes abutres julgar homens?

Homens que apenas lutavam por um país limpo.

Que foi feito dos abutres?

Sim, somos homens de justiça e não de vingança, mas foi um crime deixá-los impunes!

As sombras que envolvem, hoje, a nossa justiça, tiveram gente desta como eventuais mentores, disciplinadores.

A perpetuação da ditadura verificou-se, durante tanto tempo, porque muitas foram as instituições que a protegeram: forças armadas, pide, censura, tribunais plenários.

E o medo, sim o medo.

Era terrível a nossa vida, mas grande parte da população, com a sua inércia, com o seu medo, permitiu que aqueles monstros sobrevivessem, se multiplicassem.

O Helder Pinho, chateado por terem sido os miliares a fazerem aquele 25 de Abril, tinha razões, muito suas, por dentro – as forças armadas cansaram-se da guerra.

No dia em que esse cansaço ganhou espaço, meio caminho ficou feito. 

quarta-feira, 24 de março de 2021

OLHARES


O Armindo dizia sempre que era no Tagarro que se comiam as melhores pataniscas de bacalhau.

O Helder Pinho dizia que ao Tagarro não ia porque havia lá uma empregada que era informadora da PIDE.

A tristeza invadia o rosto do Armindo, que acrescentava que comíamos só as pataniscas, não falávamos de política.

O Helder perguntava como se podia jantar sem falar de política.

Tudo acabava na cave de um tasco que havia ali ao fundo da Calçada do Carmo, junto àquelas escadinhas que dão acesso à Rua 1º de Dezembro, o «Adriano», chamava-se o tasco. Nunca havia pataniscas, e o Helder falava sempre dos planos para, num ápice, deitar o Salazar abaixo.

O Armindo para fugir à guerra, deu o salto para Grenoble e nunca mais dele ouvimos falar.

O Salazar, por um Verão, batera com a cabeça no chão da esplanada de um forte junto ao Tejo, pancada de que veio a morrer.

Foram uns militares que, cansados de muita coisa, deitaram o Marcelo abaixo.

Quando depois encontrei, na rua, o Helder mandou-me à cara que tinha que ser a merda dos militares!

Tive a vaga ideia de saber o que ele queria dizer, mas não me lembro do que então lhe disse. Ainda não lera Philip Roth:

«Ninguém sabe a verdade de uma pessoa, e com muita frequência a própria pessoa menos do que as outras.»

domingo, 14 de fevereiro de 2021

POSTAIS SEM SELO


O Alexandre tem um truque: os amigos não morrem, hoje é que não podem vir.

Rui Cardoso Martins

Legenda: Helder Pinho em Dezembro de 1967

EM NOME DA AMIZADE


 

Já lá vão 52 anos.

As vezes que se lembra do Helder Pinho.

Saudades de Dom Helder, já escreveu aqui, e também já lembrou as petiscadas  na Rua doCrucifixo, com o Armindo, o Zé Ferraz, a dar voltas à conversa larga para o derrube de uma ditadura.

O Helder a dizer ao Freitas:

-Eh pá!, mas eu sei Latim!...

- Exactamente 4,5, dizia o Armindo naquele sorriso humorado, pois tinha sido a nota do Helder no exame de Latim.

Quando o Helder lhe deu o livro do Hemingway, já era repórter de A Capital onde entrou desde o 1º número. Foi ele que inventou o Leão de Rio Maior que deu, durante largas semanas, primeiras páginas do jornal.

Um jornalista está sempre ao serviço da notícia, tinha como máxima, e percorria as ruas da cidade a esfarrapar crónicas e notícias que estavam frente aos olhos de todos, mas que só ele via.

O pormenorzinho como gostava de dizer.

Apaixonado pela comida e pela bebida, escreveu durante anos crónicas gastronómicas, nunca lhe chamou críticas, em A Capital.

Quando deixou o jornalismo foi criar borregos e porcos, cultivar hortaliças e batatas para o Ribatejo, velho sonho, igual ao de ser repórter.

Quando o dinheiro se esgotou, tornou-se «free-lancer».

Homem de excessos, devido a uma miocardiopatia, morreu aos 55 anos e exigiu que as suas cinzas fossem lançadas ao Tejo, para que pudesse continuar a ouvir a ronca dos barcos em dias de nevoeiro, ou no último dia de cada ano.

Por vezes, quando procura um livro, e não o encontra na biblioteca da casa, sorri e fica a saber que, num qualquer dia, o Helder o pediu emprestado para todo o sempre.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

TODOS ESTIVEMOS COMPROMETIDOS


Todos os princípios são difíceis, e os assuntos delicados ainda mais.

Quando os assuntos têm que ser tratados com pinças, há que inventar um abrir de prosa.

Lembrei-me de algo que Vitorino Magalhães Godinho disse em Outubro de 1974, citado por José- Augusto França nas suas Memórias:

«Num tão longo regime totalitário, quer se queira quer não, todos estiveram comprometidos. Salvo raras excepções em casos de sacrifício merecedores de respeito e de rendida homenagem, a grande maioria teve de acomodar-se. Viver…»

Volto a lembrar o que, aqui,  já deixei escrito:

 Ano de 1967, o Helder Pinho levou-nos a visitar a cave-casa-estúdio que o Bual possuía na Amadora, a dado ponto da conversa,  entre latas de atum, azeitonas, queijinhos frescos, pão alentejano, um garrafão de tinto, lembrei ao Artur Bual, a colaboração com o S.N.I.

 Muito calmamente respondeu: «Fomeca, meu caro, muito espaço no estômago».

 Não acrescentou nem mais uma palavra e eu fiquei, parvamente, a olhar.

 Como pude ser tão idiota, tão ordinário, tão estúpido, tão repugnante, tão mania de ser chico-esperto?

 Tinha o exemplo do senhor meu pai, e alguma vez o Artur Bual merecia que lhe perguntasse o que perguntei?

 E não há nenhuns 20 anos que desculpem uma imbecilidade daquelas!

 Mário-Henrique Leiria, meu mestre de gin, e não só, amiúde dizia que «posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Mas isso era o Mário-Henrique Leiria, um louco genial, e não podemos exigir que todos fossem, ou sejam, como ele.

 José Gomes Ferreira entristecia-se quando se lembrava que os seus compadres e vizinhos, Bernardo Marques, sua mulher Ofélia Marques, para sobreviverem, aceitavam fazer capas e ilustrações para as publicações do S.N.I.

O meu pai foi funcionário do S.N.I. para a parte gráfica das suas publicações.

Sempre que saia uma qualquer das publicações do S.N.I., livros, revistas, catálogos, etc., levava um exemplar para casa. Isto durante anos a fio. Tudo se foi acumulando e começou a faltar espaço para acondicionar outros livros.

 Naquele tempo andavam homens e mulheres pelas ruas a comprar jornais, garrafas, outras velharias. Mais ou menos uma vez por mês, alguém ia lá a casa perguntar se havia algo para vender.

 Um dia, para arranjar o tal espaço para livros que começava a faltar, o meu pai decidiu  vender ao quilo as publicações do S.N.I.

 A minha costela anti-regime rejubilou e até ajudei a fazer os molhos e a atar cordas.

 Nesse monte estavam os muitos números da Panorama e também, entre muitos outros, Férias com Salazar, da jornalista francesa Christine Garnier com fotografias do pide Rosa Casaco.

Ao tempo, rumores-cor-de-rosa, dão a jornalista francesa como uma paixão assolapada pelo Botas de Santa Comba, e vice-versa, ao ponto de se ter divorciado.

 Pelos anos 80, comprei o livro editado por Fernando Pereira, mas sem as fotografias do pide Casaco, o que faz alguma diferença.

 Há uns anos, comprei, na Feira da Ladra, 4 exemplares da Panorama ao preço de 2,50 euros cada exemplar.

 Dessa pilhagem anti-S.N.I. restaram 29 volumes do “Notícias de Portugal” devidamente encadernados em carneira porque o SNI, ao fim de cada ano, enviava esses volumes para a Presidência da República, para o Conselho de Ministros, para todas as entidades gradas do regime.

 Outra história para contar.

 Legenda: no topo, capa de Bernardo Marques para a Panorama nº 8, Abril de 1942. A outra capa é da autoria de Manuel Ribeiro de Pavia para a Panorama nº 27 de 1946, sem indicação do respectivo mês.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

OLHARES


Leu um texto no Largo da Memória e deixou um comentário, porque lhe veio à memória as noites de domingo quando o Helder Pinho, que veio a ser um excelente repórter de A Capital, esteve por lá desde o primeiro número, fez de tudo, até crítica a restaurantes como D. Pipas, acompanhava a Aida até Cacilhas, donde partia a camioneta que o levava até à recruta militar em Tavira, saía de Cacilhas à meia-noite, chegada a Tavira às 7 da manhã, ficávamos por ali a petiscar e ele sempre de livro de poesia na mão, a recitar, alto, poemas nos tascos e está nítida ainda essa noite, já lá vão 54 anos, em que levou os Poemas de Bertold Brecht e entre um penalty de tinto, molhando pão no molho dos berbigões à Bulhão Pato, e, olhando os restantes clientes do tasco, recitou alto:

 Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

O Luís Eme haveria de publicar a fotografia que encontrara numa barca no Olho de Boi.

Como um dia disse o poeta: isto anda tudo ligado!

Legenda: fotografia de Luís Eme

segunda-feira, 1 de junho de 2020

CONVERSANDO


Há livros únicos. Por isto e por aquilo.

O livro do Dinis Machado, O Que Diz Molero, é um desses livros.

Um êxito inultrapassável que paralisou, imobilizou, o autor, no fundo dos fundos o grande projecto que ele tinha de escrever um livro memorável.

Conseguiu.

Dinis Machado já tinha andado em aquecimento com três policiais com a assinatura de Dennis McShade, a que pouca gente não deu a necessária atenção, talvez por serem romances policiais. E de repente salta este Molero escrito com um sentimento de puro arraso, uma infinita ternura pelas palavras.

Depois deste livro, escreveu outros, não muitos, mas longe deste grande mergulho no mar da loucura daquele final de década de 70


O Helder Pinho, brilhante repórter, desde o seu 1º número, de A Capital, andava com um exemplar dentro do bolso, largamente riscado e anotado. Sempre que chegava ao café, olhava a malta, sacava do livro e lia uma citação e a conversa alongava-se. Dizia ele que cada um lê um livro com os olhos que tem, ou seja, lê-o a sua maneira e rematava que o livro nascera no sótão da infância do Dinis (os cigarros fumados às escondidas, meter golos com a trapeira nas janelas da vizinhança, os concursos para ver quem mijava mais longe, as alcunhas, os concertos das campaínhas dos prédios), um livro que só poderia ser escrito em Lisboa e por quem a conhece muito bem, por dentro e palmo a palmo.

Foi Luiz Pacheco quem abriu as hostilidades, que escreve uma crítica ao livro com expressões como «um livro-bomba, uma obra d’arromba, uma cavalgada furiosa de episódios, uma feira, um tropel de gente, uma festa popular da malucos e malucas, tudo chalado, uma alegria enorme quase insensata.»

E Eugénio de Andrade que não se metia nestas coisas apareceu a dizer: «Este livro é uma alegria» e a frase foi logo apanhada para as badanas do livro.

O meu Molero não está tão anotado como o do Helder, mas está bem riscadinho e, volta e meia, pego-lhe.

Este pedacinho é da página 26:

«O que poderá levar um homem a destravar uma cadeira de rodas?, perguntou Mister De Luxe num tom de voz muito baixo. «A monotonia, a solidão, os sonhos espremidos até ao osso, o falhado desejo louco de correr até o coração saltar pela boca», sugeriu DeLuxe, «acho que é  cadeira de rodas, ela mesmo».

Falta a gargalhada do Helder, a sua loucura, o momento em que depois sorria sorriria e logo percorreria outras passagens, acompanhadas por uma filosofia resplandecente de ternura, tudo isto no «país de cristal, os momentos da nossa inocência perdida.»

Legenda: cartaz da adaptação teatral de Nuno Artur Silva do livro de Dinis Machado.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram publicados.

UMA TARDE NA CAVE DO BUAL

Foi por finais de 1966, que, pela vez primeira, fui até à Amadora. Deixava-se a estação do comboio e em tudo à volta, só se viam quintas e mais quintas, e hoje deparamos com aquele triste e horrível mundo de cimento e mais cimento.

Os pais do Armindo tinham um pequeno tasco no nº 299 da Avenida Elias Garcia.

Aos almoços frequentado por operários, aos jantares por gente idosa com estatuto de comensais, tudo numa atmosfera a lembrar os romances do José Rodrigues Migueis. Foi nesse tasco que, por uma noite de ingénuas conspirações para derrubar o regime, comi a mais saborosa e suculenta mão de vaca de jardineira que em minha vida inteira ao dente me chegou. Tudo num sossego, um devagar nos tempos, rematado com um café de saco, um bagacinho caseiro, uma cigarrilha Alto.

As conversas com o Armindo eram abrangentes e, amiúde, pelo meio improvisava poemas, conversas soltas, algumas intermináveis, como uma sobre o “Herzog” do Saul Bellow, que nunca se concluiu porque, de repente, me apanhei na recruta em Tavira e nesse lapso o Armindo, para fugir à guerra colonial, deu o salto para França. Apenas um postal ilustrado de Grenoble a dizer que chegara, e depois não mais notícias do Armindo, nem do Zé Ferraz que com ele seguira viagem. Ficou o som das conversas, imagens outras, aquele vocativo que os homens dão ao que não conhecem. Também um abraço constante, nas grandes distâncias e no breve tempo.

Mais ou menos por esses tempos também frequentei a cave-estúdio-casa do pintor Artur Bual.

Uma vez, mais o Helder e o poeta e pintor Hugo Beja chegámos pelas duas da tarde e acabámos por perder o último comboio para Lisboa. Quem desfez o galho onde nos enfiámos foi o poeta~pânico Karlos Faria, que foi ter connosco à estação da Amadora onde, sentados, aguardávamos a passagem do primeiro comboio para Lisboa. Cada um dos três com um quadro que o Bual insistira que trouxéssemos.

O meu ainda hoje é presença marcante nas paredes aqui da casa.

Ao lado da cave do Bual, numa rua vulgar da Amadora, havia um tasco onde por diversas vezes o palhinhas foi-se enchendo de tintol. Cada um a pagar o seu, o do Bual foi para o rol.

O Artur Bual morreu em 11 de Janeiro de 1999. Tinha 72 anos.

Autodidacta, gostava de dizer que nunca se preocupara em aprender.

 Preocupavam-no sim, um bom bacalhau assado, um rosto de mulher, os jogos do Benfica que ouvia numa telefonia. Chamaram-lhe pintor maldito, tal como ao Luiz Pacheco chamaram escritor maldito. Não gostava de críticos e borrifava-se no que diziam. As exposições passavam-lhe ao lado.

O impulso é que é o grande estado de beleza da interioridade.

Naquela enorme tarde-noite de um Maio de 1967 não conseguimos que o Bual nos desse uma resposta sobre a sua obra. Uma apenas.

- Eh pá, não me chateiem a tola!

O Helder, on road para o excelente repórter que haveria de ser em A Capital, onde fez de tudo, até crítico gastronómico sob roupagem de Dom Pipas, cheio de ingenuidade, dizia-lhe que era uma pena ele andar a esbanjar tanto talento e o Bual, pegando no copo de tinto, a lançar-lhe um

- E se fosses chatear o c…!

Acabou por sair uma reportagem-entrevista completamente chalada, publicada no Diário de Lisboa, mais de metade cortada pela censura, e que está para aí  perdida nas caixas que hei-de um dia abrir, amanhã é que vai ser, e será o dia de são nunca à tarde, um qualquer 30 de Fevereiro.

Eu já devia ter avisado que sou um dispersivo, perguntam-me as horas começo por dizer como se fabricam os relógios na Suiça. Vim aqui para colocar um poema do Armindo Miranda sobre a velha Amadora e meti-me por becos e atalhos. e já não atino com o fim à meada. Como o paleio se foi estendendo,  o poema vai em post à parte, um golpe de asa, um terno, ao mesmo tempo cínico, pequeno retrato de uma Amadora onde um apartamento custava cento e trinta e cinco contos, “pois, pois, J. Pimenta!”, como dizia o anúncio dos Parodiantes de Lisboa.

Texto publicado em 18 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A RONCA DOS BARCOS NO TEJO


O Diário de Notícias revelou que há uma semana a ronca de uma barco-graneleiro fundeado no Tejo, causa mal-estar às noites de quem vive junto ao rio, mais concretamente frente ao mar da Palha.
O graneleiro Western Miami emite o sinal sonoro como sinal de reconhecimento para os cacilheiros que atravessam o rio. Nos últimos dias, os nevoeiros matinais e nocturnos têm sido uma constante e a má visibilidade pode provocar abalroamentos.
Existem reclamações dos habitantes mas a Capitania do porto de Lisboa esclareceu que terá de ser assim. Segundo as regras internacionais, o Western Miami não só pode fazer soar a sirene a qualquer hora, como o deve fazer.
Lembrei-me novamente do Helder Pinho que na passagem do ano de 1972,  telefonou, maravilhado,  para casa do meu pai porque os barcos no Tejo faziam soar as roncas para saudar o novo ano.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Portugueses na Califórnia

Helder Pinho
Prefácio: Jorge de Sena
Posfácio: Eduardo Mayone Dias
Capa: João da Câmara Leme
Editorial Notícias, Lisboa, Outubro de 1978

A saudade e a solidariedade foram as duas características bem portuguesas que mais nos revelaram os nossos compatriotas. Elas aprendidas e assimiladas no berço natal, constituem em muitos dos casos a razão de ser da ligação do emigrante
À pátria que o viu nascer.
- É a maior catástrofe do açoriano, a saudade. Ele não é capaz de esquecer nada, quando emigra, leva tudo consigo: a ilha, o pai, a mãe, os gatos, os cães, os coelhos… As ilhas, aquelas queridas ilhas, andam sempre às costas com ele, açoriano, e, quando volta a pisar terra portuguesa a primeira coisa que faz é perguntar: ó minha mãe onde é que está isto e aquilo que ali estava?...

terça-feira, 23 de maio de 2017

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Uma das muitas vezes que vi Belarmino, filme-reportagem de Fernando Lopes. foi na noite de 10 de Outubro de 1972, na televisão a preto e branco da ditadura.

O filme fechava um breve ciclo dedicado ao cinema português.

Guardo o recorte do Diário Popular desse dia e onde Baptista-Bastos deixou uma breve evocação:

Era uma vez um filme à procura de espectadores. Foi há tantos anos que muitos dos que nele participaram só de vago se recordam: os dias vararam os meses, outra década surgiu, e o que figurava como imprecação e cólera – é, apenas, a ingénua aspereza de um protesto. O tempo sugere estas direcções inesperadas: o índice moral altera-se e as porções de coisas que entendêramos como verdades inarredáveis irão, sempre, obedecer a outros estatutos, «Belarmino» (é necessário dizê-lo) nasceu de projectos asseados e da urgência que tínhamos em cometer alguns desacatos. Gente considerável viu no seu comovido inconformismo um panfleto contra a fome e o desespero de um homem – quando era, tão-sòmente, a forma humilde de manifestarmos a incomodidade de termos trinta anos e de viver em Portugal perfilados na mesma coragem de ser campeões sem murro, poetas sem rima, cronistas sem coluna, bebedores sem bebida. Amantes sem amor. O filme procurava os espectadores que jamais teve: estreado num cinema de bairro, apoiado pela grita e pelo entusiasmo dos cineclubes – essa noite foi um alvoroço e uam discreta esperança. A peregrinação das conversas, entre o Vává, o Ribadouro e o Monte Carlo, num esquerdismo festivo que desejava áulicos e trompetistas da nossa efémera glória, cumpriu-se durante alguns meses. Mas «Belarmino», no Aviz era a desolação e o riso; um filme à procura daquela gente para quem Belarmino-o-homem afinal se dirigira sempre: «às vezes as palmas apeteciam-me mais do que as bolas de Berlim com que enganava a fome.» O recado que queríamos dar foi apressado, certamente; foi tosco, desajeitado e parvo, talvez. Mas esta noite, quando a Televisão fizer correr o filme para dois milhões de espectadores, há uma que estará a dobrar o cansaço para aquém do tempo, a sonhar as mesmas cóleras e as mesmas imprecações. E, talvez, a pensar que os miúdos desta cidade se recusam, hoje, a ser campeões. Campeões de quê? Campeões de quê?
Responde lá, ó Belarmino…



O Helder Pinho foi o responsável por vender a ideia ao Mário Castrim para que o Belarmino fizesse parte de um dos Encontros do Diário de Lisboa-Juvenil:

O retrato de um antigo lutador de boxe, Belarmino Fragoso, através das suas deambulações por uma Lisboa que já não existe. A solidão, o medo e a derrota cruzam-se num filme que baralha o documentário, a ficção e a entrevista num passeio por antigas salas de cinema e clubes nocturnos.

Para um catálogo da Cinemateca dedicado a Fernando Lopes, escreveu Manuel Monzos:

O Fernando fez um dos filmes que mais estimo e admiro. É o Belarmino. Apesar de não o achar perfeito, tenho por ele um enorme carinho, não somente pelo filme em si, mas, e talvez principalmente, por aquilo que pude sentir e aprender do que pode ser também o cinema.
A primeira vez que o vi foi há muitos anos, ainda era um miúdo e desde então recordo-o pela estranha sensação de surpresa e espanto com que fui confrontado com algo tão directo, tão próximo e tão real.
Foi um dos meus tios que nos fez vê-lo, a mim e aos meus primos, porque para além do que ele gostava do filme, trabalhavam nele dois dos seus amigos, o Manuel Jorge Veloso e o Augusto Cabrita.
Isso para mim já era divertido, pois através do meu tio eu também os conhecia.
Mas o que realmente me impressionou foi o próprio filme. Tudo o que nele se encontrava me era próximo. Era Lisboa, a Baixa e mesmo o meu bairro, a Mouraria. As ruas por onde andava, as pessoas com quem me cruzava.
Era o estádio do meu clube e o clube do bairro, a Barros Queirós, o Arcádia, o largo de São Domingos, onde muitas vezes encontrei Belarmino Fragoso, um tipo a quem eu até cumprimentava quando nos cruzávamos.


Pela primeira vez via um filme que me dava a sensação de poder estar lá, era um mundo palpável de coisas reais e que eu conhecia. E isso era fantástico. Essa possibilidade que descobria com aquele filme, daquilo que o cinema permitiria.
Nessa época ainda não pensava vir a dedicar-me ao cinema, mas dos fi lmes que via nos cinemas de bairro, como o Royal, o Rex, o Liz, o Cine-Oriente, ou nas grandes salas como o Império, o Monumental, o Tivoli, o Alvalade, o
Avis, os cinemas da rua dos Condes, nas escolas, salões paroquiais ou no Centro Espanhol, nesses primeiros filmes que via apenas com a emoção inocente de quem «vê» uma história, entre eles recordo bem o Belarmino por isso.
Essa capacidade de usar e reproduzir o real. E também o modo como era feito, mesmo sem perceber nada disso nessa altura, aquilo usava a montagem de um modo novo e surpreendente para mim e não tinha nada a ver com
o que eu vira até então. Aquilo foi forte e marcou-me. Mesmo hoje é um filme que revejo com enorme carinho e considero dos melhores filmes Portugueses.

Belarmino é um dos Amigos Pensados que o Alexandre O’ Neill deixou estampado na Feira Cabisbaixa:

TIVESTE  jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito,
é a nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Belarmino:
Quando ao tapete nos levar
a mofina;
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

Uma das perguntas do Baptista-Bastos no filme do Fernando Lopes:

- Belarmino, tu és um homem ou um animal?


- Um pugilista é sempre um homem.


Belarmino Fragoso morreu a 19 de Abril de 1982.

Baptista-Bastos escreveu a notícia, o requiem por aquele bailarino em pleno ringue, um movimento perpétuo, um vigor que não se estilhaçava, um vulcão de poder e de força.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A TERRA É O PROVÁVEL PARAÍSO PERDIDO


Na hora da sua morte, encontrar um texto do Bastos para aqui colocar, teria que ser da Cidade Diária e, mais concretamente, este Então que é isso, ó Vitinha?!

O Helder Pinho andava sempre com o livro debaixo do braço, um livro todo riscado, com as margens cheia de ideias e comentários e chegou a ter de cor este Vitinha e uma outra crónica Sobre Domingo,ele que vivia perto do rio, na Rua da Manutenção, junto a Xabregas e sabia da ronca dos barcos no Tejo em noites de nevoeiro, e sempre que a malta se juntava, recitava:

Ao domingo entendemos que somos feitos de muitas almas, que dissemos «sim» à inutilidade aparente das coisas e às coisas definitivamente inúteis, que não escolhemos o nosso modo de existir, ele aconteceu e assim terá de ser até à soma final dos dias, que vivemos punidos, unidos, solitários, mas sempre e sobretudo com os outros – o que será a avulsa dor da nossa glória.

Os mestres encontravam-se pela noite, num qualquer bar entre Bairro Alto e o Largo da Trindade. O Eduardo Valente da Fonseca, que, a qualquer hora do dia, da noite, vagabundeava entre a redação do República e os tascos e bares em redor, acabava sempre por dizer onde estava o Bastos. Normalmente o poiso certo poiso era o Expresso Bar. Ali no Largo da Trindade.

Bebíamos e falávamos na noite, tal como escreveu o BB numa outra volta que até mete o Manuel da Fonseca.

Ou como escreveu o Ângelo Granja, numa saudação, publicada no Diário Popular, a Capitão de Médio Curso, livro do Bastos de 1978:

Precisamos falar, capitão. se trouxeres contigo o Baptista-Bastos, ficaremos, como dirá o teu armador, à bebida e à conversa, falando, se calhar. De jornais e jornalistas, de mulheres e amor, de vinho e bebedeiras, e, isso sem falta, de livros e escritores. Precisamos falar, capitão, porque homem calado não faz viagem, é como os barcos de qualquer curso, logo sem curso, emergindo destroços num mar de palha, por aí qualquer.

Tudo isto, ainda a faltar algum tempo para o Bastos desatar a perguntar: onde é que estavas no 25 de Abril?

O Bastos dizia: Sou louco. Toda a gente diz que sou louco. É a minha felicidade. Muitas vezes que as pessoas consideram loucura é uma busca desesperada de sinceridade.

Pelo Outono de 1995, numa entrevista à revista Ler, mostrou-se cansado das mesmas conversas de bares. Ele envelhecera. Os outros também.

Sempre fui um homem de bares, de tertúlias, de grupos de amigos. Sempre fui um homem de beber, fiz estas coisas de uma forma excessiva: beber excessivamente, amar excessivamente, ainda hoje faço isso. Na bebida tive de cortar um bocado…

Gosto muito desta crónica do Baptista-Bastos, mesmo muito.

Numa das últimas vezes que estive com o Helder Pinho, sempre a mudar de amores, de casas, desprendido de tudo e mais alguma coisa, ainda lhe perguntei se não me queria vender o seu exemplar anotado da Cidade Diária. Respondeu-me que já não sabia por onde o livro ficara. E se ainda o tivesse, não mo vendia, dava-mo.

O Helder era como o Bastos: fazia tudo excessivamente e por um Agosto quente do ano de 2003, o coração disse-lhe que já não aguentava mais.

As cinzas foram lançadas ao Tejo para que ele pudesse continuar a ouvir a ronca dos barcos do Tejo, em noites de nevoeiro, tal como contava o Bastos, coisas que sugerem a vontade do sossego e da paz.

Legenda: o título é de um poema do Lorca que o BB, amiúde, citava, e o recorte é uma notícia do Expresso de 23 de Março de 1988.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CRAVOS E VERDI


Nos últimos anos da ditadura, o Teatro São Carlos estabeleceu uma parceria com o Coliseu dos Recreios de modo a que as óperas que Eram representadas no São Carlos também pudessem ser vistas na velha sala das Portas de Santo Antão.

Era a possibilidade de um vasto leque da população, sem dinheiro, nem fraque, nem jóias para frequentar São Carlos, pudessem usufruir desses espectáculos, como que dando seguimento à célebre frase de António Silva de que a ópera é música para operários.

Quando, nessa noite,  24 de Abril de 1974, perto de cinco mil pessoas aplaudiram freneticamente os artistas, com Alfredo Kraus e Joan Sutherland à frente do elenco, que representaram La Traviatta de Verdi, já as senhas do Movimento das Forças Armadas tinham sido transmitidas pela rádio.

A reportagem do Diário de Notícias dava conta que, no meio das ovações intermináveis, cravos foram lançados das frisas.

Regressando a suas casas, desconheciam que esse começo de 25 de Abril não era mais um dia do calendário, um dia como outro qualquer.

Um regime decrépito, que nos massacrava os ouvidos com afirmações de coragem e heroicidade, que se as forças do mal atentassem contra a  ordem estabelecida, vinham  para as ruas dar o peito às balas.

Em escassas horas, o senil regime esfrangalhou-se.

Não soltaram um pio.

Como disse o Hélder: foi um ar que lhes deu.

A partir desse dia, protagonistas de uma grande esperança, nem nos pesadelos mais negros, admitimos que viríamos a ser invadidos por um desencanto sem nome.

Aconteceu!

Encharca-nos os dias.


Mas é bom não esquecer que há coisas que não têm fim: a esperança num mundo melhor, por exemplo, e a luta por consegui-lo. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

SAUDADES DE DOM HELDER


Anos e anos e anos de conversas com o Helder Pinho. 

Os dedos de uma mão chegam para dizer as vezes em que essas conversas não eram bem regadas.

Numa dessas noites, a conversa girava à volta do Luiz Pacheco e, a determinado ponto, o Helder deixou dito, preto no branco, que para compreender e sentir o Luiz Pacheco era preciso ter passado fome.

Ficámos a olhá-lo.

Ninguém esboçou qualquer comentário.

Quando o Helder Pinho desencantava saídas destas, ficava tão feliz como se lhe tivessem oferecido uma bicicleta pelo Natal.

Legenda: fotografia de Helder Pinho da autoria de Maurício Abreu.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes
 ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio
 de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma
 feição pesada e caseira de restaurante de vila sem
 comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo
 pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se
 tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de
 apartes na vida 

                 Fernando Pessoa em Livro do Desassossego                                                

Ao fim de 61 anos o Restaurante Palmeira, na Rua do Crucifixo, fechou portas na antevéspera de Natal.

Não mais as abrirá.

A câmara vendeu o prédio em hasta pública e os novos donos deverão ter em perspectiva a construção de um hotel.

É o que está a dar na baixa lisboeta.

O Palmeira era um dos últimos tascos de Lisboa onde se podia usufruir daquilo que se chama comida caseira.

Um balcão, como deve ser um balcão dum tasco, comprido, à direita de quem entra.

Comida a saber a comida.


Uns fabulosos pastéis de bacalhau, dobrada, cozido à portuguesa, feijoada à transmontava, mão de vaca com grão, favas à portuguesa, ervilhas com ovos e, todos os dias, um prato diferente de bacalhau.

Sabe-se que há, pelo menos, cem maneiras de cozinhar bacalhau.

No Verão, os caracóis.

E sempre o grito do Helder, citando Luiz Pacheco: caracóis, dizem, faz tesão.

A minha memória do Palmeira é mais de antes do 25 de Abril.

Ali aportava, mais o Helder Pinho, o Armindo, o Zé Ferraz, mais uns quantos, para o petisco e para elaborar planos para o derrube da ditadura.

Planos sem-fim.


Apenas romantismo e cavaqueira.

Para derrubar a ditadura, outros tiveram que meter mãos à obra.

Mas, naquelas mesas, ficaram muitas memórias, camaradagem, sonhos.

Jorge Sampaio, enquanto presidente da Camara, amiúde almoçava no Palmeira e a clientela metia estudantes das Belas Artes, magistrados do Tribunal da Boa Hora, trabalhadores de diversas profissões, ricos e pobres, mas tudo gente de bom gosto, que sabem o que é comer e beber de uma maneira que cada vez acontece menos em Lisboa.

E não só!


Passei por lá no findar do dia de encerramento.

Cheio que nem um ovo, à porta, em trabalhos de preparo, uma camara de reportagem de uma qualquer televisão.

Entrei só para fazer os bonecos que ilustram o texto.

Não me apeteceu comer, nem beber.

Odeio despedidas.

sábado, 10 de agosto de 2013

MARGEM SUL


Como prenda de casamento o Helder Pinho deu-nos três EPs: Masschussets dos Bees Gees, Baladas do Dr. José Afonso e Rosa de Sangue do Adriano Correia de Oliveira.
Neste último, o Adriano incluiu  um poema de Urbano Tavares Rodrigues: Margem Sul.
Quando os amigos, as pessoas de quem gostamos, chegam a uma certa idade, estamos sempre à espera que num qualquer dia partam.
Mas por muito que se aplaine o caminho, nunca estamos preparados para essa partida.
A morte de Urbano Tavares Rodrigues deixou-me muito triste.
Pela pessoa delicada, sensível que era, pelo escritor que é.
Gosto muito de o ler.

Este é o poema Margem Sul, cantado pelo Adriano Correia de Oliveira:



Ó Alentejo dos pobres,
reino da desolação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.