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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Portugal Livre: 20 Fotógrafos da Imprensa Contam Tudo Sobre a Revolução das Flores

Textos de Adelino Gomes e Fernando Assis Pacheco

Fotografias de Abel Fonseca, Alberto Peixoto

Alfredo Cunha, António Xavier, Armando Vidal, Carlos Gil, Correia dos Santos, Eduardo Baião, Eduardo Gageiro, Fernando Baião, Francisco Ferreira, Inácio Ludgero, João Ribeiro, José Antunes, José Tavares, Lobo Pimentel Jr., Miranda Castela, Novo Ribeiro, Rui Pacheco, Teresa Montserrat

Capa: Luís Filipe da Conceição

Colecção: 25 de Abril, Os Dias da Revolução nº 1

Edição Fac-simile A Bela e o Monstro/Jornal Público

 …Foi no meio de apupos e cantos populares que o regime de Marcelo Caetano se desmoronou no Largo do Carmo, em Lisboa, sob o sol claro de uma tarde de Abril. O herdeiro de Salazar não se meteu no blindado da fuga sem uma derradeira formalidade – transmitir o poder a pessoa idónea para que não caísse na rua, como se afirma que afirmou a um interlocutor exasperado. Quanto à rua, essa, desdenhou todas as formalidades e logo ali armou a festa. Depois de tantos anos estava no seu direito.

Ter um povo, ou a parte sã de um povo, respondido à memória da violência somente com a alegria recém-descoberta, eis o que não acaba de maravilhar-me. Outros dias vieram depois, e já sabíamos que seriam ácidos e cortantes. Mas a explosão inicial continua nos meus ouvidos e nos meus olhos, intensíssima. 1385, 1640, 1910 foram assim? Permito-me duvidar.

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O 25 DE NOVEMBRO EXISTIU?


Durante a ditadura salazarista, o poeta António Gedeão, num poema, a que Manuel Freira colocou música, disse-nos que eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

Hoje, imensos jovens não sabem o que foi o 25 de Abril, muitos mais ainda, não sabem o que foi o 25 de Novembro.

A história do que foi o 25 de Novembro de 1975 ainda não está feita. Como se diz no Aqui de Setembro de 1976: «houve um golpe. É o mínimo em que há unanimidade de certezas.»

Diz a historiadora Raquel Varela,  Público 25 de Abril de 2011:

«Embora o encontro entre Álvaro Cunhal e Melo Antunes a 25 de Novembro esteja documentado, acredito que o acordo tenha decorrido alguns dias antes do golpe que pôs fim à crise político-militar e terminou com a duplicidade de poderes nas Forças Armadas. Até porque os Nove poderiam adivinhar que as unidades militares afectas ao PCP não deixariam de responder a uma insurreição militar, como acontecera a 28 de Setembro de 1974 e 11 de Março de 1975».

José Saramago que, muito bem sabia do que estava a falar, disse: «Perdeu-se em Portugal muita coisa desde o 25 de Novembro. Perdeu-se sobre tudo a vergonha».

Adelino Gomes no Público de 26 de Novembro de 2000:

«Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traiu os seus homens ou evitou a guerra civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações ao MDLP? Quantos grupos funcionavam dento do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (RMN) ou a Região Militar sw Lisboa (RML)?; o posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML, e Conselheiro da Revolução, Vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia?

0 25 de Novembro existiu?

segunda-feira, 20 de maio de 2024

sábado, 23 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Hoje, esta viagem começa com um toque de ordem pessoal.

Apesar de diversas tentativas, não consegui bilhete para o espectáculo de Patxi Andión no Coliseu no dia 23 de Março de 1974.

A verdade: o acto de cantar é um acto que responsabiliza a pessoa que canta e os que a escutam.

Isso, e algo mais, muito mais, era Patxi Andion, o mestre que cantava com todo o mar por trás.-

Tentou cantar duas vezes em Portugal mas puseram-no na fronteira.

Mas às três foi de vez. O semanário Cinéfilo, na secção “Sete Dias da Semana”, entre outras coisas tão abonatórias como justas, dizia que era um espectáculo, pela qualidade certa, a não perder.

Uma semana depois, também no Cinéfilo, Eduardo Guerra Carneiro, escrevia sobre o espectáculo:

«Quatro mil estavam no Coliseu. Silêncio, luzes e palmas. Toda a força possível: verde que te quiero verde. Estavam todos lá. Com ele. Assim, tudo poderia estar definitivamente em tudo. Todos estarmos em tudo e todos sermos afinal tudo, maneira de dizer: todos com todos. O que sentimos ao sentirmos tudo. Sentimento total.
A palavra exacta, minuto a minuto. Não perder o sentido, a exacta procura de todos, de tudo. A calma violência da total aventura: ondas e não uniforme paisagem. Patxi junto ao mar, a pequena aldeia, a mesa de madeira, o copo de vinho tinto, o sol, a tarde, o domingo a escorrer, como azeite, sobre os homens, as coisas, as palavras. Palavras claras de Patxi que podem corresponder a um copo que se oferece, a uma fatia de pão que se recebe.
Espectáculo? Total Participação? Comoção. Plenitude, talvez. O pão a crescer na terra, o corpo a corpo da poesia e da canção. Um homem simples frente a 4 mil portugueses.»

O escritor César Oliveira também esteve nessa noite no Coliseu, e deixou registo no seu livro de memórias Os Anos Decisivos:

«Este clima que andava no ar, este “sentir na pele” de que alguma coisa teria de acontecer, a seguir ao fracasso do 16 de Março, foi exemplarmente experimentado num espectáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com o cantor basco Patxi AndionA sala estava, literalmente, a abarrotar. Agentes da PIDE/DGS circulavam na sala, nos corredores, na rua do Coliseu. Perto, por detrás do Teatro Nacional, carrinhas da Polícia de Choque. Patxi Andión percebeu e sentiu o clima electrizante que se viveu e “puxou” e tornou a “puxar” pelo público. Ao cantar “El Maestro” – “al explicar una guerra/siempre se muestra remiso/explicando claramente/quien venció y fue vencido” – praticamente toda a vasta sala, desde a plateia aos camarotes, balcão e geral, estava de pé, punhos erguidos, soltando-se algumas vozes em “Viva a Liberdade! Abaixo o Fascismo!” Foi, sem sombra de dúvidas para qualquer espécie, um dos momentos mais altos e com uma carga dramática e épica mais intensa que até hoje pude ver num espectáculo musical.”

Patxi Andion morreu em 19 de Dezembro de 

No jornal Público de 23 de Março de 1984, fazia-se a evocação do mesmo dia, dez anos atrás. A coordenação pertencia ao jornalista Cesário Borga que deu a palavra ao radialista e jornalista Adelino Gomes:

«Um oficial procura-me na “Seara Nova”, Alguém lhe dissera que eu tinha trabalhado na RTP e que era um homem ligado à rádio. A pergunta veio directa: “É capaz de me fazer o croquis das instalações da Televisão do Lumiar»”. Fiz um sumário das instalações e o oficial instou-me para lhe dar pormenores sobre os polícias que lá prestavam serviço e as armas que usavam, as horas do fecho da e missão, o número indispensável para pôr uma emissão, no ar, etc., etc. Foi quando lhe perguntei para que era aquilo tudo. Prontamente o oficial respondeu: “vamos dar um golpe de estado dentro de dias e precisamos de ocupar a Televisão”.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO


Com o país mergulhado numa crise infernal:  falta paz, pão, habitação, saúde, educação, como cantava o Sérgio, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, não encontrou nada melhor, para enchouriçar o seu discurso de ontem, do que  determinar e mandar publicar que Lisboa irá fazer uma enorme e festiva comemoração sobre o 25 de Novembro.

E mistérios dos mistérios, os direitistas, nestes quase 50 anos, nunca organizaram qualquer manifestação comemorativa do 25 de Novembro, não por seguirem o exacto  grito lançado por  Maria Velho da Costa,  «ESTE DIA NÃO!, mas simplesmente porque  lhes faltam dedinhos para a fraca guitarra que possuem.

No Público de 26 de Novembro de 2000,  Adelino Gomes perguntava:

Quem desencadeou o 25 de Novembro? Quem deu ordem aos páras para ocuparem quatro bases aéreas? Otelo traíu os seus homens ou evitou a Guerra Civil? O PCP de que lado(s) esteve? Até onde chegavam as ligações aos MDLP? Quantos grupos funcionaram dentro do Grupo dos Nove? Qual foi a mais decisiva: a Região Militar do Norte (MN) ou a Região Militar de Lisboa (RML)?; o Posto Avançado da Amadora, comandado pelo então tenente-coronel Ramalho Eanes, ou o Posto de Comando Principal, montado em Belém, e onde ficaram o Presidente Costa Gomes e o comandante da RML e Conselheuro da Revolução, vasco Lourenço? Quantos 25 de Novembro houve naquele dia?

O 25 de Novembro existiu?

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Diz-lhe Que Estás Ocupado

Conversas com Alexandre O’ Neill

Edição e introdução organizada por Joana Meirim

Capa: V. Tavares

Tinta da China Editores, Lisboa, Julho de 2021

A preocupação mais constante.

Preocupa-me o destino de um país chamado Portugal. Isso preocupa-me, embora não tenha nenhum cargo de velar pelo país a que pertenço, mas, como sou português, penso nele e, efectivamente, preocupa-me o destino deste país. Porque eu acho que quando se chega a uma situação em que falta o essencial e se gasta o supérfluo há qualquer coisa que vai mal. É isto que eu penso.

Alexandre O’ Neill, tente, por favor, autorretratar-se em dez adjectivos, designadamente os aspectos políticos, profissional, existencial…

Político: político sou… considero-me um homem de esquerda. Não sei exactamente de que esquerda, mas sou com certeza um homem de esquerda. No que tenho orgulho, atenção! Profissionalmente, sou um publicitário.

Não é exagerado?

Não, não. Sou mesmo um publicitário. Quotidianmaente exerço essa profissão e faço o possível para não contribuir com essa minha actividade, para a lienação geral que grassa.

Um adjectivo para existencialmente? O que é?

Sou um angustiado. Um homem cheio de problemas, pessimista.

E religiosamente?

Religiosamente, sou ateu, se assim se pode dizer.

(de uma entrevista a Adelino Gomes, Janeiro de 1983, para a Rádio Comercial.) 

domingo, 19 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

E ENTÃO O QUE SE HÁ-DE FAZER?


A fotografia e o respectivo texto fazem parte da Auto-PhotoBiografia (não autorizada), escrita e montada pelo próprio Mário Viegas.

Seguimos a cronologia do Mário e terminamos hoje a evocação do 25 de Abril, nos dias de há 45 anos, para essa evocação utilizámos uma série de recortes de um dossier caseiro.

Mas não queremos findar a evocação sem ir buscar um texto, já aqui publicado, e que evoca um importante documento que regista as horas do começo da revolução, numa brilhante reportagem de Adelino Gomes.

Sobre as patentes militares e os muitos capachos que serviam a ditadura, os tenreiros, os cazais-ribeiro, existe este texto publicado, há 45 anos,  e de que desconheço o autor:

 «Massacravam-nos os ouvidos com afirmações de coragem.
Diziam que, se alguma vez o chamado estado Novo corresse perigo. Iriam dar tiros para a rua.
«Afirmavam-se prontos a morrer.
Juravam, rejuravam e trejuravam que o Povo só chegaria ao poder passando por cima dos seus cadáveres.
Gritavam aos quatro ventos que iriam vender cara a vida.
Consideravam-se soldados de uma guerra gloriosa.
Não perdiam uma ocasião de proclamar o desejo que tinham de provar a sua fidelidade vertendo, para tal o seu próprio sangue.
Arrotavam postas de valentia.
As suas permanentes gabarolices, infantis e monocórdicas, tinha-nos levado a crer que, no dia da mudança, iriam fazer qualquer coisa.
Dar um grito, por exemplo – um grito, um suspiro, um soluço.
Mas nem isso.
No dia vinte e cinco de Abril, os heróis do palavreado não cumpriram uma única das promessas que tinham feito.
Perderam o pio.»

Os militares, apoiantes do regime, mostraram a sua incompetência e desorientação.

No disco, existe um qualquer oficial a sugerir ao posto de comando a utilização de meios aéreos.


GUIDA DA MÚSICA DP 050/2
Edição conjunta Seara Nova e Sassetti
Reportagem: Adelino Gomes, Paulo Coelho, Pedro Laranjeira
Narração: João Paulo Guerra
Montagem: Pedro Laranjeira
Capa: Acácio Santos

Este disco é um documento histórico.

O pano de fundo, desde duplo álbum, é a reportagem que Adelino Gomes, Paulo Coelho e Pedro Laranjeira realizaram, no dia 25 de Abril de 1974, enquanto decorria o cerco, pelas tropas do capitão Salgueiro Maia, ao quartel do Carmo.

Um tempo em que não havia telemóveis nem directos televisivos.

Uma reportagem registada directamente para um gravador, ao sabor dos múltiplos e constantes acontecimentos, que marcaram aquele dia.

Adelino Gomes refere, várias vezes, a falta de informação com que se debate, mas regista tudo o que vê e ouve, e fá-lo com a emoção de ver arredados para o lado quarenta e oito anos de ditadura, se bem que no momento em que ele faz a reportagem nada fosse assim tão claro.

As pessoas vão entrando pelo Terreiro do Paço. Vê-se que as pessoas aderem a esta situação como uma festa, assim como uma pedra que sai de cima das pessoas, sentem-se aliviadas. Tudo isto é um pouco surrealista, à maneira portuguesa, as pessoas participam, assim como assistissem a uma peça de teatro, ou a um filme.

Ouve-se um popular dizer: isto é só o início. Um outro: porreiro, pá!, algo que muitos anos depois, um tal de José Sócrates, por ocasião da assinatura do Tratado de Lisboa, dirá a Durão Barroso.

Diariamente enchiam-nos os ouvidos com palavreado e grandes frases.

Diziam que, se alguma vez, o regime corresse perigo, iriam para a rua dar tiros, prontificavam-se a morrer, se necessário.

Soube-se, então, que não era a ditadura que era forte, a oposição é que era fraca.

Naquele dia 25 de Abril, não apareceram.

Fugiram para onde lhes foi possível.

Perderam a gabarolice, cagaram-se todos.

E os que apareceram estavam completamente desorientados.

É isso que ressalta das comunicações entre o Quartel-General e as poucas tropas, afectas à ditadura, que estavam nas ruas.

O repórter aborda dois soldados, fiéis ao regime.

Um diz: praticamente não sei o que estou aqui a fazer, praticamente não sei de nada.

O alarme tinha soado às 04,30 horas.

As ordens eram para disparar sobre qualquer acção inimiga que nos apareça.

Ninguém deu essas ordens, tão pouco sabiam quem  era o inimigo.

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa  posição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!


Completamente perdidos.

A revolução avançava. Em pleno clímax, Adelino Gomes pergunta a um tenente-coronel: não houve rendição por parte das forças que estão sitiadas. O oficial rápido: “Porra! Vocês são uns chatos, não deixam de fazer perguntas. Uma senhora está a dar à luz e vão perguntar à senhora se ela está com dores?

Assim mesmo, um repórter no meio de uma revolução a fazer o seu trabalho.

A reportagem regista ainda as palavras de Francisco Sousa Tavares, empoleirado numa árvore, no Largo do Carmo, megafone na mão:

Começamos hoje uma vida nova, uma vida de liberdade.

Seria o primeiro comício dos novos  tempos que despontavam.

Texto publicado no dia 2 de Maio de 2019

quinta-feira, 2 de maio de 2019

E ENTÃO O QUE SE HÁ-DE FAZER?



A fotografia e o respectivo texto fazem parte da Auto-PhotoBiografia (não autorizada), escrita e montada pelo próprio Mário Viegas.

Seguimos a cronologia do Mário e terminamos hoje a evocação do 25 de Abril, nos dias de há 45 anos, para essa evocação utilizámos uma série de recortes de um dossier caseiro.

Mas não queremos findar a evocação sem ir buscar um texto, já aqui publicado, e que evoca um importante documento que regista as horas do começo da revolução, numa brilhante reportagem de Adelino Gomes.

Sobre as patentes militares e os muitos capachos que serviam a ditadura, os tenreiros, os cazais-ribeiro, existe este texto publicado, há 45 anos,  e que desconheço o autor:

 «Massacravam-nos os ouvidos com afirmações de coragem.
Diziam que, se alguma vez o chamado estado Novo corresse perigo. Iriam dar tiros para a rua.
«Afirmavam-se prontos a morrer.
Juravam, rejuravam e trejuravam que o Povo só chegaria ao poder passando por cima dos seus cadáveres.
Gritavam aos quatro ventos que iriam vender cara a vida.
Consideravam-se soldados de uma guerra gloriosa.
Não perdiam uma ocasião de proclamar o desejo que tinham de provar a sua fidelidade vertendo, para tal o seu próprio sangue.
Arrotavam postas de valentia.
As suas permanentes gabarolices, infantis e monocórdicas, tinha-nos levado a crer que, no dia da mudança, iriam fazer qualquer coisa.
Dar um grito, por exemplo – um grito, um suspiro, um soluço.
Mas nem isso.
No dia vinte e cinco de Abril, os heróis do palavreado não cumpriram uma única das promessas que tinham feito.
Perderam o pio.»

Os militares, apoiantes do regime, mostraram a sua incompetência e desorientação: no disco, existe um qualquer oficial a sugerir ao posto de comando a utilização de meios aéreos.


GUIDA DA MÚSICA DP 050/2
Edição conjunta Seara Nova e Sassetti
Reportagem: Adelino Gomes, Paulo Coelho, Pedro Laranjeira
Narração: João Paulo Guerra
Montagem: Pedro Laranjeira
Capa: Acácio Santos

Este disco é um documento histórico.

O pano de fundo, desde duplo álbum, é a reportagem que Adelino Gomes, Paulo Coelho e Pedro Laranjeira realizaram, no dia 25 de Abril de 1974, enquanto decorria o cerco, pelas tropas do capitão Salgueiro Maia, ao quartel do Carmo.

Um tempo em que não havia telemóveis nem directos televisivos.

Um reportagem registada directamente para um gravador, ao sabor dos múltiplos e constantes acontecimentos, que marcaram aquele dia.

Adelino Gomes refere, várias vezes, a falta de informação com que se debate, mas regista tudo o que vê e ouve, e fá-lo com a emoção de ver arredados para o lado quarenta e oito anos de ditadura, se bem que no momento em que ele faz a reportagem nada fosse assim tão claro.

As pessoas vão entrando pelo Terreiro do Paço. Vê-se que as pessoas aderem a esta situação como uma festa, assim como uma pedra que sai de cima das pessoas, sentem-se aliviadas. Tudo isto é um pouco surrealista, à maneira portuguesa, as pessoas participam, assim como assistissem a uma peça de teatro, ou a um filme.

Ouve-se um popular dizer: isto é só o início. Um outro: porreiro, pá!, algo que muitos anos depois, um tal de José Sócrates, por ocasião da assinatura do Tratado de Lisboa, dirá a Durão Barroso.

Diariamente enchiam-nos os ouvidos com palavreado e grandes frases.

Diziam que, se alguma vez, o regime corresse perigo, iriam para a rua dar tiros, prontificavam-se a morrer, se necessário.

Soube-se, então, que não era a ditadura que era forte, a oposição é que era fraca.

Naquele dia 25 de Abril, não apareceram.

Fugiram para onde lhes foi possível.

Perderam a gabarolice, cagaram-se todos.

E os que apareceram estavam completamente desorientados.

É isso que ressalta das comunicações entre o Quartel-General e as poucas tropas, afectas à ditadura, que estavam nas ruas.

O repórter aborda dois soldados, fiéis ao regime.

Um diz: praticamente não sei o que estou aqui a fazer, praticamente não sei de nada.

O alarme tinha soado às 04,30 horas.

As ordens eram para disparar sobre qualquer acção inimiga que nos apareça.

Ninguém deu essas ordens, tão pouco sabiam quem  era o inimigo.

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa  posição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!


Completamente perdidos.

A revolução avançava. Em pleno clímax, Adelino Gomes pergunta a um tenente-coronel: não houve rendição por parte das forças que estão sitiadas. O oficial rápido: “Porra! Vocês são uns chatos, não deixam de fazer perguntas. Uma senhora está a dar à luz e vão perguntar à senhora se ela está com dores?

Assim mesmo, um repórter no meio de uma revolução a fazer o seu trabalho.

A reportagem regista ainda as palavras de Francisco Sousa Tavares, empoleirado numa árvore, no Largo do Carmo, megafone na mão:

Começamos hoje uma vida nova, uma vida de liberdade.

Seria o primeiro comício dos novos  tempos que despontavam.

sábado, 13 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO



Quero eu dizer na minha que estas crónicas são também os dizeres de um fala-só. De modo que fala-sós somos todos: os loucos, que começaram, os poetas, por gosto e imitação, e os outros, todos os outros, por causa desta comum solidão que nenhuma palavra é capaz de remediar e que tantas vezes agrava.

José Saramago em A Bagagem do Viajante.

Segundo livro de crónicas de José Saramago, as crónicas que publicou em A Capital e no Jornal do Fundão.

Ensaios, passos tímidos, outros decididos para o que virá a ser toda a sua obra.

Salvar a inteligência.

«Ora, se me permitem, gostaria de exprimir aqui um voto: o de que chegue a este
País o dia em que todos os seus habitantes sejam intelectuais, o dia em que o
exercício continuado da inteligência seja, não um privilégio de poucos mas a
natural realização de todos. Não vejo porque há-de ser sempre incompatível o
desempenho de um ofício dito manual com o estudo contínuo, o esforço da
inteligibilidade, que caracterizam (ou deverão caracterizar) o intelectual. Não
vejo por que não há-de ser precisamente intelectual o actor que contra o
intelectual faz rir o público.
Longe de mim, evidentemente, a ideia de considerar intocáveis os «profissionais
da inteligência»;. Merecem, como qualquer outra gente, ser expostos no palco da
revista (que deveria ser pelourinho moral, e não o é), mas por motivos que nada
teriam que ver com o facto de serem intelectuais: o oportunismo, o
compromisso, a falta de carácter - quando destas mazelas sofram. Então, sim,
implacavelmente, porque são males do espírito e não apenas contra o espírito.
Não haverá grandes probabilidades de nos salvarmos, se não salvarmos a
inteligência. Até ao dia em que já não farão falta os intelectuais, porque todos o
serão.»

Legenda: capa de A Bagagem do Viajante publicado pela Porto Editora.A caligrafia da capa é da autoria do jornalista Adelino Gomes.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

PORTO DE LISBOA, 1967


Adelino Gomes, Público, 23 de Fevereiro de 1992

terça-feira, 26 de abril de 2016

E ENTÃO O QUE SE HÁ-DE FAZER?



A ditadura vivia as suas últimas horas de estertor.

Marcelo Caetano, mais alguns ministros, no Quartel do Carmo, que se encontrava cercado de povo e pelas tropas de Salgueiro Maia, se não choravam, estavam no limiar de lágrimas derramadas.

Que se há-de fazer?, perguntava um qualquer general para um outro qualquer general, ambos na cidade cercada, sem perceberem muito bem o que lhes estava a acontecer.

O extraordinário disco, protagonizado por Adelino Gomes – magnífico Adelino Gomes! -  que relata o que ia acontecendo, guarda o desespero desses tais generais:

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa aposição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!

Vale a pena voltar a ouvir:

…não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável.

Era este tipo de gente que, durante quase meio século, cerceou as nossas vidas e as nossas liberdades

Até que chegou o Dia das Surpresas.

sábado, 5 de dezembro de 2015

OS IDOS DE DEZEMBRO DE 1975


O olhar de Adelino Gomes sobre o 25 de Novembro de 1975, publicado na Gazeta da Semana de 25 de Novembro de 1976.

sábado, 21 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


 21 de Novembro de 1975

Depois da destemperada decisão do governo de se auto suspender, o dia seguinte trouxe ainda mais confusão ao já confuso panorama da vida portuguesa.

No Ralis, com a presença do Chefe de Estado-Maior do Exército, general Carlos Fabião, assistia-se a um revolucionário juramento de bandeira de 170 recrutas.

O compromisso rompia com a tradição do código militar.

De punho fechado os recrutas gritaram:

Nós, soldados, juramos ser fiéis à pátria e lutar pela sua liberdade e independência. Juramos estar sempre, sempre, ao lado do povo, ao serviço da classe operária, dos camponeses e do povo trabalhador. Juramos lutar com todas as nossas capacidades, com voluntária aceitação da disciplina revolucionária, contra o fascismo, contra o imperialismo, pela democracia e poder para o povo, pela vitória da Revolução Socialista.

Um comunicado do Conselho da Revolução informa que Vasco Lourenço substitui Otelo no comando da Região Militar de Lisboa.

Sobre esta decisão é importante ler o que José Gomes Mota escreve no seu livro A Resistência quando realça que Otelo teria que sair do comando da Região Militar de Lisboa por um oficial do Movimento:

A situação anárquica a que tinham chegado as unidades do Exército aquarteladas em Lisboa, praticamente com a excepção das que eram fieis ao Movimento, impunham que o oficial a ser escolhido pelo Movimento tivesse um prestígio e uma coragem à prova das mais duras contingências. Ninguém melhor do que Vasco Lourenço – o o eterno Capitão de Abril -, preenchia estes requisitos e daí que o seu nome tenha surgido naturalmente a toda a gente.
A exoneração de Otelo da Região Militar de Lisboa, ainda que continuasse a exercer o Comando do Copcon ou viesse a ser mesmo nomeado para o cargo de Vice-Chefe do EMGFA, representava seguramente um golpe brutal do suporte militar dos dissidentes, particularmente neste caso, nos românticos e anárquicos copconistas.

Entretanto uma delegação de sargentos e oficiais dos comandos esteve, no Forte de S. Julião da Barra, para entregar uma moção de solidariedade ao VI Governo.

A ANOP, citava fontes de que o coronel Jaime Neves acompanhara a delegação.

Em entrevista ao Diário de Notícias, Otelo Saraiva de Carvalho afirmava que a preocupação maior do VI Governo era eliminar a esquerda.


É tornado público um manifesto dos oficiais do COPCON, dirigido aos Soldados e Marinheiros, à Classe Operária e ao Povo Trabalhador.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- A Resistência de José Gomes Mota

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

OS IDOS DE NOVEMBRO DE 1975


20 de Novembro de 1975

Apenas hoje, Pinheiro de Azevedo revelou a Costa Gomes a suspensão do VI Governo Provisório.


Reunidos no restaurante Chocalho, em Santos-o-Velho, militares afectos ao Grupo dos Nove, Mário Soares, chegam à conclusão que a auto-suspensão do VI Governo Provisório talvez seja um caminho para resolver a situação do País.

Dão conta da decisão a Pinheiro de Azevedo, que concorda com ela.

Às 15 e 30 começa no Palácio de Belém, sob a presidência de Costa Gomes, uma reunião do Conselho da Revolução para decidir da viabilidade, ou não, do VI Governo Provisório continuara em funções.


Milhares de populares começam a concentra-se frente ao palácio protestando contra a atitude tomada pelo governo de se auto suspender. Os manifestantes exigem a demissão imediata do governo e a instauração do poder popular.




Os manifestantes exibem cartazes ode se lê: O SEXTO ESTÁ ROTO. BASTA!

Já perto da meia-noite o Presidente Costa Gomes fala aos manifestantes:


As posições estão extremadas.

Pinheiro de Azevedo, depois da audiência com Costa Gomes e, perante os jornalistas e as câmaras de televisão, disserta:

Estou farto de brincadeiras. Fui sequestrado duas vezes, já chega! Não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia!... Está convocada uma manifestação de trabalhadores para as quinze horas aqui em frente de Belém… Eu julgo que é de apoio ao senhor Presidente da República contra o VI Governo, que é o costume deles… Eu não tenho nada que ver com o sr. General Otelo! Não me interessa coisa nenhuma. O senhor general Otelo não me resolve coisa nenhuma! A mim não me interessa nada.
Cerca das 2 horas do dia 20 de Novembro o Conselho de Ministros emite um comunicado onde dá a conhecer aos portuguesas a suspensão do exercício da sua actividade governativa até que S. Exª o Presidente da República e Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas lhe possa garantir as condições indispensáveis ao exercício das suas funções e autoridade, em ordem a assegurar o cumprimento do seu programa de Governo em todo o território nacional.

Sobre a decisão, Sá Carneiro afirma: a posição assumida pelo Governo é uma clara intimidação aos mais altos responsáveis militares.

Editorial de A Luta, jornal afecto ao Partido Socialista, presumivelmente, escrito pelo seu director, Raul Rego:


Comentário do jornalista Manuel de Azevedo, publicado na última página do Diário de Lisboa:


No livro Portugal Depois de Abril pode ler-se este fait-divers:

Quando no dia seguinte, em reuniões sucessivas entre os dirigentes militares, Melo Antunes propõe a Otelo que assuma o poder, já que não apoia o governo, isto era uma provocação, a consumação do processo aberto. Já se sabia que Otelo não queria o poder para nada, respondendo a sorrir:

- Tá bem tomo o poder…

- E depois? – pergunta Melo Antunes.

- Depois… faço-te primeiro-ministro – foi a resposta de Otelo, desfazendo com humor a grande jogada.

De facto, era a grande jogada para fazer saltar a esquerda.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- A Resistência de José Gomes Mota
- Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975


7 de Setembro de 1975

Fim do V Governo Provisório, o governo de passagem, tal como lhe chamou Costa Gomes, no dia em deu posse a Vasco Gonçalves.
Não teve mais de um mês de vida.

Mário Murteira no seu livro Depois das Revoluções:

 Para quem, como o autor destas linhas, teve a honra de ser colaborador do general Vasco Gonçalves durante o IV e V Governos Provisórios, é bem claro que o “gonçalvismo” como sistema de poder, ou concepção do seu exercício, não existiu. Em rigor, acrescente-se, só pode voltar a falar-se de “poder político em Portugal (verificado o desmantelamento do regime anterior ao golpe do MFA) precisamente depois do 25 de Novembro de 1975. E qualquer pessoa razoavelmente objectiva e informada sabe que o II, III, IV e o V Governos Provisórios, todos tendo Vasco Gonçalves como primeiro-ministro, foram bem distintos entre si, por corresponderem a diferentes fases do processo português desencadeado (inadvertidamente?) pelo 25 de Abril. A análise deste faseamento, e da sua lógica interna e externa, está por fazer, e esperemos que não sejam – uma vez mais – estrangeiros a explicar-nos o que se passou em Portugal nos anos febris de 1974 e 75. Aliás, quem poderá gabar-se de tê-lo já totalmente apreendido, em rigor e profundidade, para além das propagandas? (…)
O chamado gonçalvismo nunca existiu. Existiu, sim, no Portugal recém-libertado, um movimento social anti-capitalista que entre Março e Novembro de 1975 atingiu o clímax. Em 16 de Novembro desse ano, no Terreiro do Paço, entre algumas centenas de milhares de manifestantes, pareceu-me que a revolução era possível. Mas tratava-se de um equívoco. A revolução é em última análise, uma questão de poder. E o poder não estava nas ruas de Lisboa ou nos campos do Alentejo.

Editorial do Jornal Novo, da autoria de Artur Portela Filho:



 Opinião de Armando Pereira da Silva publicada no Diário de Lisboa:


A FRETILIN propôs a Portugal a abertura de negociações sobre a independência de Timor.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

terça-feira, 10 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


Os Dias Loucos do PREC

Adelino Gomes e José Pedro Castanheira
Prefácio: Gonçalo M. Tavares
Coordenação: Paulo Paixão
Concepção gráfica: Alcides Pinto
Editores Expresso-Público, Lisboa Abril de 2006

Os autores têm consciência dos riscos que correram ao tomarem a imprensa da altura como fonte principal (no caso do trabalho do Público quase exclusiva) desta revisitação, As histórias, relatos, opiniões que nela ecoam foram escritas por homens e mulheres que ao mesmo tempo aprendiam a liberdade enquanto profissionais e enquanto cidadãos. Aos constrangimentos e limitações da actividade jornalística – de toda a actividade jornalística, mesmo quando exercida em ambiente de estabilidade social e política – somava-se o clima de agitação, instabilidade e paixão que caracterizaram a época. O que explica presenças excessivas, ausências só assim justificadas e até lacunas de factos.
A tal, nenhum português terá conseguido manter-se alheio. As primeiras páginas da imprensa da época, como o leitor comprovará, mostram que os jornais cederam demasiadas vezes à tentação de adequar a realidade aos desejos e interesses dos que editavam e escreviam. Há, por isso, claros enviesamentos (em várias direcções, aliás, e não poucas contradições nas crónicas jornalísticas do PREC (Processo Revolucionário em Curso).
Este não é, pois, um livro da história, Antes pretende ser um mergulho num capítulo da história de Portugal contado no presente pelos que o vão vivendo e interpretando, ao longo de um período extenso. Tendo essa revisitação como cicerones dois jornalistas, por definição inseridos no palco mediático em análise.

(Da introdução de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira).

quinta-feira, 18 de abril de 2013

À CONVERSA...


Perguntaram-lhe:

Fala também na morte, algo que está presente na sua obra. O que aprendeu sobre ela, neste livro, Tristão Morre, ao vestir a pela de alguém a 30 dias de morrer?

Respondeu:

Este livro aproximou-me muito da ideia da morte. É uma das maiores desgraças que pairam sobre o mundo moderno. As pessoas que estão no poder, sobretudo, devem pensar que nunca vão morrer. É por essa razão que são tão estúpidas. A modernidade elidiu a ideia da morte. É uma omissão incrível. Deveria ensinar-se aos miúdos, na escola, da maneira mais natural, que temos de morrer. Mas a nossa sociedade escondeu totalmente a ideia da morte. Em compensação, porém, estamos cheios de cadáveres. É só abrir a televisão. Como pode funcionar bem uma sociedade em que há muitos cadáveres mas não há a ideia da morte?

Antonio Tabucchi, entrevista concedida a  Adelino Gomes e publicada no Público.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O HOMEM QUE SABIA OUVIR


Chamava-se Michel Giacometti, nasceu em Ajaccio, na Córsega, era etnomusicólogo. 
      
Em Paris conheceu uma portuguesa com quem se casaria. Vieram passar a lua-de-mel a Portugal e apaixonou-se ao ponto de por cá ficar e ter percorrido, de lés-a-lés, o país recolhendo músicas e cantares portugueses, Um trabalho que contou com a colaboração de Fernando Lopes Graça, e que constitui a mais completa documentação do Cancioneiro Popular Português.

No mundo existem poucos homens como Michel Giacometti, com paixão por aquilo que fazem, que vivem para os outros esquecendo-se de si próprios. Desaguou em Portugal e trabalhou em condições de grande precariedade. Em lugar de lhe darem meios e condições para o seu trabalho, a ditadura só lhe colocou problemas e entraves.

“ Nunca tive os meios, mal conseguia sobreviver”, disse numa entrevista a Adelino Gomes.
Mais tarde, já quase em final de vida, e para sobreviver, venderá à Secretaria de Estado da Cultura, os arquivos sonoros, a colecção de instrumentos musicais, e  à Camara de Cascais a biblioteca.

“Penso se tudo isto terá valido a pena. Penso que posso morrer e o material desaparece; que não fui capaz de deixar, não digo discípulos, mas pessoas capazes de continuar o trabalho”, disse ainda na entrevista a Adelino Gomes.

Michel Giacometti deixou dito, que no Alentejo existe um gosto pelo canto, único no mundo. 

Quando morreu em 24 de Novembro de 1990, quis ser sepultado na pequena aldeia de Peroguarda no concelho de Ferreira do Alentejo. 

Tinha 61 anos.

Legenda: Michel Giacometti com Fernando Lopes Graça