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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


A Condição Humana

André Malraux

Tradução e prefácio: Jorge de Sena

Capa: Bernardo Marques

Colecção Dois Mundos nº 40

Livros do Brasil, Lisboa s/d

- A única coisa que eu amava foi-me tirada, não é verdade, e quer que eu permaneça o mesmo. Julga que o meu amor não valeu o que vale o seu para si, cuja vida nem sequer mudou?

- Como não muda o corpo de um vivo que se torna um morto…

Ele pegou-lhe na mão:

- Conhece a frase: «São precisos nove meses para fazer um homem, e um só dia para o matar». Nós soubemo-lo tanto quanto se pode saber, um e outro… May, ouça; não são precisos nove meses, são precisos cinquenta anos para fazer um homem, cinquenta anos de sacrifícios, de vontade, de… tantas coisas! E quando esse homem está feito, quando nada mais há nele da infância, nem da adolescência, quando, verdadeiramente, ele é um homem, nada mais resta senão morrer.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SOLTAS


Ovelho recorte que há dias publicámos sobre o encerramento da Editora/Livraria Cotovia, revelava que o seu proprietário apenas publicava os livros de que gostava. O dinheiro era dele, a editora era dele, a escolha era dele e não estava para cedências, fossem elas quais fossem.

Nunca encontrei o livro, especificamente não sabia da sua existência, mas fiquei a saber que João André editou um livro sobre os começos dos poemas de Jorge de Sena e isso é tão importante quando se sabe que muitos poemas não têm título e apenas funciona o começo de cada poema.

Apesar de saber que os livros de Poesia do Jorge de Sena têm um Índice dos Primeiros Versos, achei a edição do João André uma coisa maravilhosa.

1.

Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu, ao mesmo tempo que se vai sabendo que o risco de pobreza ou exclusão social  ameaça 2,1 milhões de pessoas.

2.

Por vezes vem-me à memória os tempos do confinamento provocado  do Covid desce até nós.

As horas em que não sabíamos nada uns dos outros.

Há um Diário por aqui.

«Sexta-feira 13.

Dia de azar.

Feitiços. Bruxas. Gatos pretos. Não passes por debaixo de escadas. Não abras o chapéu-de-chuva dentro de casa. Não tenhas relógios parados dentro de casa.

Em tempo de pandemia valerá a pena falar de sextas-feiras 13?

Bluff absolutamente inútil?

O papel todo branco à espera, ninguém sabe bem de quê!...»

3.

Dom Quixote de Miguel Cervantes.

Está lá tudo.

Um livro impar que não é tão lido como se apregoa por aí.

Mas muito poucos, mesmo muito poucos admitem que não o leram.

5. Não se pode ser português e assim suave, sem se sentir, primeiro, alguma raiva e, depois, uma melancolia incurável. Disso se morre por vezes. Disso terá morrido o pintor Bernardo Marques, compadre o poeta José Gomes Ferreira

4.

Como dizia a mulher do tipo que se atirou do Viaduto Duarte Pacheco: a vida tem as suas compensações.

 5.

Existem 4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm contrato com o SNS. em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector público.

6.

«Sá de Miranda já falava do desconcerto do mundo, Camões aprofundou o desconcerto do mundo, Vieira sentiu na pele o desconcerto do mundo, Nicolau Tolentino denunciou em versos autocomplacentes o desconcerto do mundo, o desconcerto do mundo persegue-nos. Do renascimento ao barroco, da arcádia lusitana ao romantismo, do modernismo ao surrealismo, passando pelo neo-realismo e demais ismos, sempre o desconcerto do mundo, sempre esta sensação de injustiça, de premiação do mal e desprezo do bem. Ainda hoje, o desconcerto do mundo. Uma guilhotina suspensa por fios débeis sobre as nossas consciências.»

Hmbf  em Antologia do Esquecimento 

domingo, 6 de abril de 2025

OLHAR AS CAPAS


O Cego de Landim

Camilo Castelo Branco

Capa: Bernardo Marques

Colecção Mosaico nº 1

Edição de Fomento de Publicações, Lisboa s/d

Foi há treze anos, em uma tarde calmosa de Agosto, neste mesmo escritório, e naquele canapé que o cego de Landim esteve sentado. São inolvidáveis as feições do homem. Tinha cinquenta e cinco anos, rijos como raros homens de vida contrariada se gabam aos quarenta. Ressombrava-lhe no semblante anafado a paz e a saúde da consciência. Tinha as espáduas largas; cabia-lhe muito ar no peito; coração e pulmões aviventavam-se na amplidão da pleura elástica. Envidraçava as pupilas alvacentas com vidros esfumados, postos em grandes aros de ouro. Trajava de preto, a sobrecasaca abotoada, a calça justa, e a bota lustrosa; apertava na mão esquerda as luvas amarrotadas e apoiava a direita no castão de prata de uma bengala.

domingo, 26 de maio de 2024

COMEÇOS DE LIVROS


«O lendário Rio Grande, naquele trecho onde o cruzámos e naquela época do ano, não passava de um magro fio de água a escorrer melancólico pelo leito cor de cobre brunido.

- A seca – explica lacónico o chefe do comboio, sujeito baixo, de agudo perfil azteca.

A nossa composição – duas carruagens com pouquíssimos passageiros – era arrastada por uma velha locomotiva, lente e sem fôlego.

- Tu vês – murmurei para a companheira –nenhuma pessoa em seu juízo perfeito faz esta viagem de comboio…

- Os loucos viajam de avião – sorriu ela. – Até agora não tenho de que me queixar.»

Começo de México de Erico Veríssimo.

Teria os 13/14 anos, o meu pai encontrou-me num dos maples da Biblioteca da casa a ler este livro.

-Estás a ler um grande livro de um lindíssimo país.

Tinha toda a razão.

O epílogo do livro, com uma bonita capa de Bernardo Marque, compadre do poeta José Gomes Ferreira:

«É bom estar de volta. Tenho de confessar a mim mesmo que já sentia falta desta ordem, desta limpeza. Deste conforto.

Mas ai! O tempo passa, a saudade do México começa a assaltar-me com tanta frequência que termino numa confusão de sentimentos.

Eu sabia que o epílogo deste livro não podia ser feliz! Estou talvez condenado a oscilar o resto da vida entre esses dois amores, sem saber exactamente o que desejo mais, se o mundo mágico ou o mundo lógico. Só me resta uma esperança de salvação. É a de que, entre a tese americana e a antítese mexicana, o Brasil possa vir a ser um dia a desejada síntese.

Y quién sabe?»

A imagem deste texto, é um dos desenhos que Erico Veríssimo fez para ilustrar o seu livro. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

OLHAR AS CAPAS

Pedro

Manuel Mendes

Capa e Ilustrações: Bernardo Marques

Sociedade de Expressão Cultural, Lisboa 1954

Desceram as escadas, atravessaram o mercado por entre a multidão e os pregões das vendedeiras. À porta pararam um momento, porque chovia desabaladamente. Pedro, num gesto carinhosos, desapertou-lhe um pouco o xaile e pôs-lho pela cabeça, depois passando-lhe o braço por cima dos ombros, atravessaram a rua a correr e desapareceram por um beco estreito. Quem da porta os tivesse seguido, ter-lhe-ia perdido o rasto.

Mesmo antes de descer os degraus que davam para ataberna escura, ele encomendou com voz decidida e autoritária:

- Duas sopas quentes, e depressinha!...

terça-feira, 29 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Exílio e o Reino

Albert Camus

Tradução: Cabral do Nascimento

Capa: Bernardo Marques

Colecção Miniatura nº 85

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Pequenina mas insistente, havia já uns instantes que a mosca voava no autocarro, cujas janelas estavam todavia fechadas. Ia e vinha sem ruído, num voo fatigado. Era frio o ar, e o insecto parecia sentir arrepios a cada rajada de areia que estalava nas vidraças. O veículo, na luz débil da manhã de Inverno, rolava e avançava a custo, num estardalhaço de eixos e de latas. Janine olhou para o marido. Marcel tinha o aspecto de um fauno amuado, com o seu redemoinho de cabelos grisalhos a descer-lhe sobre a testa estreita, o seu nariz achatado, a sua boca irregular.

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

COISAS TRISTES DOS PEIXES

«Recordou-se da vez em que apanhara um espadarte, de um casal de espadartes. O macho deixava sempre a fêmea alimentar-se primeiro, e a fêmea, apanhada no anzol, lutou feroz e desesperadamente, tomada de pânico, e depressa ficara exausta; e durante todo esse tempo o macho estivera junto a ela, cruzando a linha e dando voltas à superfície. Andara por tão perto, que o velho temera que ele cortasse a linha, com a cauda afiada como uma foice e quase do mesmo tamanho e forma. Quando o velho a agarrara com o croque e lhe dera uma marretada, segurando o estoque e batendo-lhe no alto da cabeça até que a cor do peixe se tornara quase igual ao estanho dos espelhos, e depois, com o auxílio do rapaz, a içara para bordo, o macho ficara ao lado do barco. E então, enquanto o velho desenredava as linhas e preparava o arpão, o macho saltara muito alto fora de água, ao pé do barco, para ver onde estava a fêmea, e mergulhara profundamente, com as suas asas cor de alfazema, que eram as barbatanas peitorais desfraldadas e todas as listras cor de alfazema a brilhar. Era belo, recordava o velho, e tinha ficado.»

Ernest Hemingway em O Velho e o Mar

Legenda: ilustração de Bernardo Marques tirada do livro.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

OLHAR AS CAPAS

Desenhos

Ofélia Marques

Desenhos para Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo

Edição Comemorativa do Centenário do Nascimento de José Gomes Ferreira

Edição da Câmara Municipal de Lisboa, Novembro de 2000

Trata-se de uma caixa com 25 postais das ilustrações que Ofélia Marques,  em 1933, publicou em O Senhor Doutor para o livro de José Gomes Ferreira.

José Gomes Ferreira considerava que Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo o seu melhor livro.

Ofélia Marques, casada com Bernardo Marques, eram compadres de José Gomes Ferreira.

«Entretanto nascia-me um filho que o Bernardo e a Ofélia Marques apadrinharam, e as duas famílias decidiram instalar-se no enorme segundo andar do nº 6 da Calçada dos Cetanos ( o prédio onde morreram o Ramalho e o Oliveira.»

José Gomes Ferreira em A Memória das Palavras

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


A Boca Enorme

José Gomes Ferreira

Capa: Bernardo Marques

Edição de Fomento de Publicações, Lda, Lisboa s/d

Reparei nela, pela primeira vez, durante uma visita jornalística que eu e o desenhador Bernardo Marques – já lá vão muitos anos! – fizemos à Colónia Balnear Infantil da Cruz Quebrada, paraíso das crianças pobres de Lisboa, instalado num espaçoso barracão de madeira, mais tarde destruído por um ciclone.

Desse dia, trespassado de sol, com uma almoço ao ar livre, oferecido gentilmente por certa família pitoresca que parecia  desenhada pela imaginação do próprio Bernardo (senhoras a comerem sardinhas assadas de luvas calçadas,,, um menino chorão com ranho nos gritos, vagas hipóteses acerca das idades das actrizes… »A Lucília tem tantos anos», a «Amélia Rey Colaço é muito mais velha do que eu», etc), desse dia, esgarçado de sol, ficou-me apenas aquela figurita sardenta de boca enorme e olhos vivos, onde chamejavam duas brasas excepcionalmente verdes.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

TODOS ESTIVEMOS COMPROMETIDOS


Todos os princípios são difíceis, e os assuntos delicados ainda mais.

Quando os assuntos têm que ser tratados com pinças, há que inventar um abrir de prosa.

Lembrei-me de algo que Vitorino Magalhães Godinho disse em Outubro de 1974, citado por José- Augusto França nas suas Memórias:

«Num tão longo regime totalitário, quer se queira quer não, todos estiveram comprometidos. Salvo raras excepções em casos de sacrifício merecedores de respeito e de rendida homenagem, a grande maioria teve de acomodar-se. Viver…»

Volto a lembrar o que, aqui,  já deixei escrito:

 Ano de 1967, o Helder Pinho levou-nos a visitar a cave-casa-estúdio que o Bual possuía na Amadora, a dado ponto da conversa,  entre latas de atum, azeitonas, queijinhos frescos, pão alentejano, um garrafão de tinto, lembrei ao Artur Bual, a colaboração com o S.N.I.

 Muito calmamente respondeu: «Fomeca, meu caro, muito espaço no estômago».

 Não acrescentou nem mais uma palavra e eu fiquei, parvamente, a olhar.

 Como pude ser tão idiota, tão ordinário, tão estúpido, tão repugnante, tão mania de ser chico-esperto?

 Tinha o exemplo do senhor meu pai, e alguma vez o Artur Bual merecia que lhe perguntasse o que perguntei?

 E não há nenhuns 20 anos que desculpem uma imbecilidade daquelas!

 Mário-Henrique Leiria, meu mestre de gin, e não só, amiúde dizia que «posso morrer de fome mas não peço esmola», ou ainda «para vivir de rodillas vale más morir de pie.»

Mas isso era o Mário-Henrique Leiria, um louco genial, e não podemos exigir que todos fossem, ou sejam, como ele.

 José Gomes Ferreira entristecia-se quando se lembrava que os seus compadres e vizinhos, Bernardo Marques, sua mulher Ofélia Marques, para sobreviverem, aceitavam fazer capas e ilustrações para as publicações do S.N.I.

O meu pai foi funcionário do S.N.I. para a parte gráfica das suas publicações.

Sempre que saia uma qualquer das publicações do S.N.I., livros, revistas, catálogos, etc., levava um exemplar para casa. Isto durante anos a fio. Tudo se foi acumulando e começou a faltar espaço para acondicionar outros livros.

 Naquele tempo andavam homens e mulheres pelas ruas a comprar jornais, garrafas, outras velharias. Mais ou menos uma vez por mês, alguém ia lá a casa perguntar se havia algo para vender.

 Um dia, para arranjar o tal espaço para livros que começava a faltar, o meu pai decidiu  vender ao quilo as publicações do S.N.I.

 A minha costela anti-regime rejubilou e até ajudei a fazer os molhos e a atar cordas.

 Nesse monte estavam os muitos números da Panorama e também, entre muitos outros, Férias com Salazar, da jornalista francesa Christine Garnier com fotografias do pide Rosa Casaco.

Ao tempo, rumores-cor-de-rosa, dão a jornalista francesa como uma paixão assolapada pelo Botas de Santa Comba, e vice-versa, ao ponto de se ter divorciado.

 Pelos anos 80, comprei o livro editado por Fernando Pereira, mas sem as fotografias do pide Casaco, o que faz alguma diferença.

 Há uns anos, comprei, na Feira da Ladra, 4 exemplares da Panorama ao preço de 2,50 euros cada exemplar.

 Dessa pilhagem anti-S.N.I. restaram 29 volumes do “Notícias de Portugal” devidamente encadernados em carneira porque o SNI, ao fim de cada ano, enviava esses volumes para a Presidência da República, para o Conselho de Ministros, para todas as entidades gradas do regime.

 Outra história para contar.

 Legenda: no topo, capa de Bernardo Marques para a Panorama nº 8, Abril de 1942. A outra capa é da autoria de Manuel Ribeiro de Pavia para a Panorama nº 27 de 1946, sem indicação do respectivo mês.

sábado, 25 de julho de 2020

OLHAR AS CAPAS


Montanha Mágica

Thomas Mann
Tradução: Herbert Caro
Revisão: Maria Graça Fernandes
Capa: Bernardo Marques
Colecção Dois Mundos nº 32
Livros do Brasil, Lisboa, 1958

E assim, no tumulto, na chuva, no crepúsculo, perdemo-lo de vista.
Adeus, Hans Castorp, bravo menino mimado da vida! A tua história terminou, Acabámos de conta-la. Não foi nem breve nem longa, é uma história hermética. Contámo-la por amor a ela mesma, não por amor a ti, porque tu era simples. Mas, afinal, era a tua história, como te coube em sorte. Deves ter certas qualidades porque a viveste, não dissimulamos a simpatia pedagógica que, ao narrá-la nutrimos por ti, e que seria capaz de induzir-nos a tocar delicadamente o canto de um olho com a ponta do dedo, ao pensar que nunca mais tornaremos a ver-te nem ouvir-te.
Adeus! Agora vais viver, ou morrer! Tens poucas probabilidades. Este baile macabro a que foste arrastado durará ainda alguns anos criminosos e não queremos apostar muita coisa na tua possibilidade de escapar. Para falar com franqueza, não sentimos grandes escrúpulos ao deixar esta questão sem resposta. Certas aventuras da carne e do espírito, que educaram a tua simplicidade permitiram-te vencer no domínio do espírito aquilo a que não escaparás certamente no domínio da carne. Momentos houve em que nos sonhos que tu «governavas», viste brotar da morte e da luxúria do corpo um sonho de amor. Será que dessa festa da morte, dessa perniciosa febre que incendeia à nossa volta o Céu desta noite chuvosa, também o amor surgirá um dia?

sexta-feira, 15 de junho de 2018

OLHAR AS CAPAS


Gente da Sicília

Elio Vittorini
Tradução: Rosália Braamcamp
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº 112
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Eu andava, aquele inverno, sacudido por abstractos furores. Não direi quais, não é isso que me proponho contar. Mas é preciso dizer que eram abstractos, não heroicos, não vivos; de qualquer forma furores, por ver perdida a espécie humana. Isto há muito tempo, e andava com a cabeça caída. Via comunicados gritantes nos jornais e baixava a cabeça; via os amigos, durante uma hora, duas horas, e estava com eles sem dizer uma palavra, baixava a cabeça; e tinha uma rapariga, uma mulher que me esperava, mas nem sequer com ela dizia palavra, também baixava a cabeça. Ia chovendo e passavam os dias, os meses, e eu tinha os sapatos rotos, a água entrava-me nos sapatos, e não havia mais nada além disto: chuva, massacres nos comunicados dos jornais, e água nos meus sapatos rotos, amigos mudos, a vida em mim como um negro sonho, e nenhuma esperança, apenas calma.
O mal era esse: a calma na não esperança. Julgar a espécie humana perdida e não sentir desejo de fazer qualquer coisa contra isso, vontade de perder-me com ela, por exemplo.
Andava agitado por abstractos furores, mas não no sangue, e estava calmo, não tinha vontade de nada. Não me importava que a minha rapariga me esperasse; estar ao pé dela ou não, ou folhear um dicionário era para mim o mesmo; e sair a ver os amigos, os outros, ou ficar em casa era também para mim o mesmo. Estava calmo; era como se nunca tivesse tido um dia de vida, nem tivesse jamais sabido o que significa ser feliz, como se nada tivesse a dizer, a afirmar, a negar, nada de meu para pôr em causa, e nada a ouvir, a dar, e nenhuma disposição de receber, e como se em todos os meus anos de existência nunca tivesse comido pão, bebido vinho ou café, nunca tivesse estado na cama com um rapariga, nunca tivesse tido filhos, nunca tivesse dado um murro em ninguém, ou não julgasse tudo isto possível, como se nunca tivesse tido uma infância na Sicília entre as piteiras e as minas de enxofre, nas montanhas; mas revolviam-se esses abstractos furores, e achava a espécie humana perdida, baixava a cabeça. E chovia: eu não dizia palavra aos amigos, e a água entrava-me nos sapatos.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Lisboa e Outros Sapatos

José Carlos González
Prefácio: Urbano Tavares Rodrigues
Capa: José Araújo com base em desenho de Bernardo Marques
Colecção: O Campo da Palavra nº 10
Editorial Caminho, Lisboa Abril de 1980

Dístico

O poeta
é um homem que bebe imenso
o ar da vida.
Que entra tarde
e que sai cedo.
Que tem e que não tem medo
w só ser livre o ensina.

domingo, 3 de dezembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


A solidariedade é outra lei sagrada entre os homens que vivem à margem da vida.

José Rodrigues Miguéis em O Natal do Clandestino


Legenda: ilustração de Bernardo Marques

RELACIONADOS



O Natal do Clandestino é o primeiro livrinho que a Estúdios Cor começou a publicar, em cada Natal, com uma história de um autor e a capa e ilustrações a cargo de um pintor. A iniciativa prolongou-se até ao Natal de 1973.
A José Rodrigues Miguéis e Bernardo Marques seguiram-se:

O Sortilégio do Natal de Domingos e Monteiro e Manuel Lapa,
Noite Esquecida de Alves Redol e Luís Filipe de Abreu,
O Mundo Desabitado de José Gomes Ferreira e Júlio Pomar,
A Noite que Fora de Natal de Jorge de Sena e Paulo Guilherme,
O Viúvo de David Mourão-Ferreira e António Pimentel,
As Três Missas Rezadas de Alphonse Daudet e e Manuel Lapa,
A Samarra de Urbano Tavares Rodrigues e Cipriano Dourado,
Os Três Reis do Oriente de Sophia Mello Breyner Andresen e Manuel Lapa,
Já não há Salomão de Isabel da Nóbrega e Sá Nogueira,
Ao Menos um Hipopótamo de Natália Nunes e Lima de Freitas,
Ode (quase) Marítima de Augusto Abelaira e Maria Keil,
Tempo de Solidão de Manuel da Fonseca e Maria da Luz Lino,
História de Seu Tomé Meu Pai e Minha Mãe Maria de Odylo Costa Filho e Carlos Amado,
A Nostalgia do Senhor Lima de Manuel Ferreira e Cipriano Dourado,
Os Crânioclastas de João Palma-Ferreira e Catherine Labey,
O Embargo de José Saramago e Fernando de Azevedo.

Mais tarde, José Rodrigues Miguéis incluiria o Natal do Clandestino no livro de contos Gente de Terceira Classe com o título de O Viajante Clandestino.
Acima, reproduz-se uma das ilustrações de Bernardo Marques.
Destes livrinhos da Estúdios Cor, apenas possuo este Natal do Clandestino, o Mundo Desabitado de José Gomes Ferreira e O Embargo de José Saramago.

sábado, 2 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Natal do Clandestino

José Rodrigues Miguéis
Capa e desenhos: Bernardo Marques
Estúdios Cor, Lisboa, Natal de 1957

Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas do mar; onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração errante e solitário, como este apelo eterno do mar junto dos cais.
Foi a um destes molhes meio esbarrondados que o navio atracou pela manhã de 24 de Dezembro, vindo do sol, do mar aberto e azul da África e dos trópicos: era um velho cargueiro esgalgado, de alta chaminé enfarruscada, com grandes remendos no casco a desfazer-se em ferrugem, e a linha de flutuação alguns palmos acima das ondas: uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os mares do mundo, coxeando, em busca de freguês, com roupas mal lavadas a enxugar pelos cordames e alguns marujos esquálidos acotovelados nas amuradas a olhar a terra estranha. Um destes navios que podiam ter inspirado um conto triste a Joseph Conrad ou Pierre Mac Orlan.
Trazia uma carga pobre e variada: óleo de palma, cocos, bananas em mau estado, amendoim, uns fardos de algodão, e um macaco mais ou menos domesticado, que adoecera em viagem e gemia numa cama de trapos, queixoso do inverno.
Vinha a bordo, também, um passageiro clandestino de que não rezavam os livros de navegação, um só, que não pagara a passagem, entregue aos cuidados cúmplices de um ou dois marinheiros: escondido nas entranhas gemebundas do calhambeque, num cubículo sem ara e sem luz junto às carvoeiras.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Calígula seguido de O Equóvoco

Albert Camus
Tradução Raul de Carvalho
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº 100
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Calígula – Qual é o castigo reservado aos escravos preguiçosos?
Cesónia – O chicote, suponho.
Calígula – Vamos, a um ponto de aplicação! E método, sobretudo método! Parece que perderam as mãos.
Helicon – A bem dizer nunca as tiveram, a não ser para bater ou mandar. Precisamos de paciência, muita paciência. É necessário um dia para fazer um senador e dez anos para fazer um trabalhador.
Calígula – Receio bem que sejam precisos vinte para fazer um senador um trabalhador.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Férias de Natal

W. Somerset Maugham
Tradução: Leonel Vallandro
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº  11
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Charley hesitou. Não tinha sentimentos religiosos definidos. Fora educado na crença de Deus – mas ao mesmo tempo ensinavam-lhe a não pensar nele. Isso seria… bom, não seria precisamente má educação, mas um tanto pedantesco. Era-lhe difícil dar voz aos seus pensamentos, mas encontrava-se numa situação em que a linguagem mais mística chegava a parecer quase natural.
- O seu marido cometeu um crime e foi castigado. Isso parece-me justo. Mas você pode julgar que um… Deus misericordioso lhe exija expiação do mal feito por outra pessoa.
- Deus? Que tem Deus a ver com isto? Supões que eu possa ver a miséria em que vive a grande maioria da Humanidade e continuar a acreditar em deus? Supões que eu creia em Deus, que deixou os revolucionários matarem o meu pobre pai, um homem bom e simples? Sabe o que penso? Pois penso que deus está morto há milhões e milhões de anos. Penso que, depois de apanhar o Infinito e pôr em movimento o processo que resultou na criação do Universo, ele morreu, e que, pelos séculos fora, os homens têm buscado e adorado um ser que deixou de existir no próprio acto de lhes tornar possível a existência.

domingo, 6 de agosto de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Velho e o Mar

Ernest Hemingway
Tradução Jorge de Sena
Capa e Ilustrações: Bernardo Marques  
Edição Livros do Brasil, Lisboa Abril 2002

Sempre pensava no mar como la mar, que é o que o povo lhe chama em espanhol, quando o ama. Às vezes, aqueles que gostam do mar dizem mal dele, mas sempre o dizem como se ele fosse mulher. Alguns dos pescadores mais novos, os que usam bóias por flutuadores e têm barcos a motor, comprados quando os fígados de tubarão davam muito dinheiro, dizem el mar, que é masculino. Falavam dele como de um antagonista, um lugar, até um inimigo. Mas o velho sempre pensava no mar como feminino, como algo que entrega ou recusa favores supremos, e, se tresvariava ou fazia maldades era porque não podia deixar de as fazer. A lua influi no mar como as mulheres, pensava ele.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

COM O SAL BRUXO NAS SOMBRAS


27 de Agosto de 1969

O café do Sr, Cunha fechou – disse-me o Mário Dionísio a quem visitei em Cascais.
Outro!
Café por onde passa o nosso grupo, já se sabe, fecha.
Trazemos o sal bruxo nas sombras.
Nos últimos tempos, que me recorde, lancámos a maldição aos seguintes recintos onde nos reuníamos: Café Chiado, Martinho, Bocage, A Cubana, e, por fim, «a do Sr. Cunha».
Pergunta lancinante do Mário:
- E agora?

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.


Legenda: Brasileira do Chiado, desenho de Bernardo Marques. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Carlos Botelho, Ofélia Marques, o criado João franco, Sarah Afonso, José Gomes Ferreira, Bernardo Marques e José Bacelar.
«... meus filhos não nada a fazer... Isto é um país de merda!