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terça-feira, 1 de setembro de 2026

OLHAR AS CAPAS


Textos Avulsos, Inéditos e Dispersos

Luiz Pacheco

Edição de Rui Sousa e Sofia A. Carvalho

Com apoio à edição de Pedro Meneses e Sofia Casaleiro Roque

Capa: P. Serpa

Edições Tinta-da-China, Junho de 2026

Há só mar e sol no meu país. O Senhor fez as contas todas e deu‑ -nos isto: mar e sol. Nos mais pobrinhos (para o abençoarmos), piolhos para catar e muita ignorância e muita paciência que o tempo sobra. Saio à rua de manhã quando o sol já aquece. Sabe tão bem um calorzinho destes! (obrigado). Coisa maravilhosa: ao fundo no largo enorme canta um menino, o menino do cego. Sou positivo: nunca dou esmolas a cegos, por mais cegos, que toquem mal, assim como assim ser cego-tocador é uma profissão como outra e requer duas coisas: Ser cego (secundária, basta a aparência e a gente comove-se que aquilo podia ser conosco); tocar (essencial, pago a música donde ela me vier). Ora, coisa maravilhosa: aquele cego guitarreava estupendamente e a criança cantava um fadinho com a sua vózita de menina, mas tão pura nos seus agudos e tão entoada. Venham os tais os que duvidam do povo: estava toda a gente enlevada no cego com o menino, estava toda a gente diferente. E para fechar o quadro, só mais isto: veio o vèlhote e disse: — Então tu não cantas a tua cantiguinha? (era a altura do menino receber as esmolas e o vélhote viera atrasado). Mas o menino iria repetir o fadinho logo ali na outra esquina. A rua encheu-se outra vez de beleza. Que tudo isto aconteceu.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

OLHAR AS CAPAS


Cartas ao Léu

Luiz Pacheco

Correspondência de Luiz Pacheco

Para João Carlos Raposo Nunes

(1990-2003)

Edição: António Cândido Franco

Capa: Luís Henriques

Maldoror, Lisboa, Junho de 2020


2º feira, 11 de Novembro 2002

Dia de S. Martinho!


Meu caro Raposão

És capaz de já saber. No dia 23 deste mês, um sábado, é lançado aqui na Livraria Ler Devagar, no bairro Alto, um livrinho meu, um conto de Natal. Gostava que viesses. A distribuição é da Editorial Notícias. Tens crédito lá? Para mim é uma ALEGRIA. O Carlos Curto organiza uma Performance, com o actor João LAGARTO; é um BOM actor, conheço da televisão. Eu andava à rasca e talvez assim equilibre as finanças.

Esteve aqui um velho Amigo meu que mora ao lado do teu pai, na Graça. É o Benjamim Monteiro, ilusionista e grande

PÂNDEGO

Ele falou com o teu Pai. Vou escrever-lhe para ele assistir ao lançamento.

Aquele MARAU do Capêlo tem aparecido? O Carlos Dutra contou-me uma cégada em Évora com ele e com o escritor que é irmão do Orlando Vitorino (ou estarei enganado? o Telmo.

Aparece

Abraços castos do

Luiz Pacheco

terça-feira, 4 de agosto de 2026

OLHAR AS CAPAS


Ser Livre em Português

Uma Antologia

Luiz Pacheco

Edição: Rui Sousa e Sofia A. Carvalho

Com apoio è edição de Jessica Dias, Pedro Meneses e Sofia Casaleiro Roque

Capa: P. Serpa

Tinta-daChina, Lisboa Junho de 2026

Chamo-me Luiz José Machado Gomes Guerreiro Pacheco, ou só Luiz Pacheco, se preferem, casado. Lisboeta, português. Estou na cama de uma camarata, a seis paus a dormida. É asseado, mas não recebo visitas. A Ninguém. Estou bastante só. Perdi muito. Perdi quase tudo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Bater Sempre Também Cansa… Mas às Vezes até é Pouco: Como Um Jornal de Economia Salvou Luiz Pacheco

Luiz Pacheco e Nicolau Santos

Capa: Ilídio J.B.Vasco

Guerra E Paz Editores, Lisboa, Agosto de 2025

Setúbal, 24 de Julho de 1995

Meu Caro Nicolau Santos,

Vai mais uma artigalhada. O calor não apoquenta só o Mário Viegas, que foi às gavetas buscar retalhos do Mário-Henrique Leiria para compor (?) a crónica dele. Também me lixa a mim; estou a escrever às sete da matina. Daqui para mais tarde a minha capoeira transforma-se num micro-ondas e eu, sem ar condicionado e as duas ventoinhas, era um Pacheco de Churrasco.

Atenção, isto não é uma reclamação. Apenas um esclarecimento.

Um forte abraço

Luiz Pacheco

domingo, 8 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


30 COPLAS

de pé quebrado compostas, musicadas, cantadas por Delfim Costa

O Cangalheiro da Cidade

Luiz Pacheco

Colecção O Prato do Dia

Contraponto, Santarém. 1965


Delfim da Costa, senhores,

Inda não está reformado.

Entre alegrias e dores,

Resolveu cantar o fado.

 

Em Coplas de pé quebrado

Dizendo só a Verdade

- eis o fado humorado

Do Cangalheiro da Cidade.

Delfim da Costa

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Bloco

Coordenação de Luiz Pacheco e Jaime Salazar Sampaio

Colaboração de Jaime Salazar Sampaio, José Cardoso Pires, Poesia Mário Ruivo

                            Ferro Rodrigues, Maria Natália Duarte Silva, Matilde Rosa

                            Araújo e Luiz Pacheco

Capa: Castro Rodrigues

Ilustração de Daniel de Morais

Biblioteca da Censura nº 17

Edição Fac-simile do jornal Público, Agosto de 2023


Epitáfio

Passou a vida a

A procurar saber

O que os outros pensavam dele.

 

Chegou até aqui

Em caixão de mogno.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Firmamento é Negro e Não Azul

António Cândido Franco

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Janeiro de 2023

Conheci Luiz Pacheco, Luiz Machado Gomes Guerreiro Pacheco, nomeado neste livro Luiz José, na Feira do Livro de 1972 na Avenida da Liberdade, tinha ele 47 anos e era eu imberbe e quase miúdo. Foi o ano em que pela primeira vez andei sozinho na Feira do Livro, então na ala interior da Avenida da Liberdade, do lado de quem sobe. Nos escaparates apresentava-se uma novidade, Exercícios de Estilo, com fotografia do rosto do autor em toda a extensão da capa. Foi assim que fiquei a saber de um escritor português chamado Luiz Pacheco. A sua figura real, que vi de relance a esgueirar-se para o tráfego da rua, impressionou-me. Alto e míope, embrulhava-se num farrapo branco, desmedido para o desarmado e encurvado tronco, prendia as calças na cintura com uma corda e enrolava-as nos joelhos deixando ao léu parte das pernas esqueléticas. Nos pés, uns sapatos pretos esburacados, sem meias, deixavam-lhe à mostra os tornozelos ossudos e feridos. Um colar reluzente de pústulas magoava à luz crua do Sol. Movia-se entre os carros da avenida como um animal acossado por paus e pedras; levantava os magros braços ao céu e olhava baixo e desconfiado para os lados. Rosnava – Mais receoso que feroz. 

segunda-feira, 20 de junho de 2022

OLHAR AS CAPAS

O Grilo na Varanda

Luiz Pacheco para Laureano Barros

(Correspondência, 1966-2001)

Transcrição, Introdução e Notas: João Pedro George

Capa: V. Tavares

Edições Tinta da China, Lisboa Junho de 2017


Cadeia Civil das Caldas da Raínha, 8/6/67

Prezado Amigo

Depois de um período de lutas e depressões, alguma bem desagradáveis, paraece que lhe posso  dar hoje duas boas notícias: o meu livro está imprimir (duas tiragens: 300 a 50$00; esgotada – optimismo meu – esta, 1500 a 20$00); e talvez consiga sair afiançado por meio de caução bancária – mas só mesmo saindo estas portas me acredito. E se a sorte ma ajudar, saio antes do dia 27, em que terei marcada audiência no Plenário da Boa-Hora, processo do Sade.

Quanto aos Textos Locais, tenho desde 1966 reservados dois exemplares para o Sr. Dr., os números, respectivamente, 70 e 71. Ora se se confirma a hipótese de o Sr. Dr. me poder colocar aí alguns exemplares, pedia-lhe duas finezas:

1 – se me informava, com a possível urgência, quantos exemplares pensa poder colocar e de qual tiragem, se da especial, se da comum, convindo-me, como atrás digo despachar a especial primeiro (depois quem lhe pega?)

2 – se poderia abonar-me, também com a possível urgência, algum dinheiro sobre esta venda. Terei de pagar emolumentos de Justiça (recurso para a Relação; imposto de fiança ou não sei que mais) e todo o dinheiro é pouco.

Desculpe-me incomodá-lo com todas estas lamentações.

Muito grato, Luiz Pacheco.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS

 


Carta-Sincera a José Gomes Ferreira

Com uma Nota do Autor Por Causa da Província

Luiz Pacheco

Colecção A Antologia em 1958 nº 5

Edição de Autor, Lisboa 1958

Ex.mo Senhor Doutor José Gomes Ferreira

A presença desta carta, tal como o seu conteúdo, vão parecer estranhos a V. Exª, dado que entre nós apenas existem as relações (ou as razões) que podem existir entre um escritor e o seu público. Estas me bastam, porém, e lastimo profundamente o abismo – de interesses, de sentimentos, de familiaridade – que em Portugal separa o público do escritor, e de que este, não sendo o único responsável (demais o sabemos), é afinal a maior vítima.

Em países onde eu nunca fui, mas V. Exª conhecerá com certeza, uma carta como esta, dum leitor para o Poeta que se admira, que se aplaude ou reprova, seria um caso banalíssimo da vida literária. Ora, em Portugal, não é bonito repeti-lo mas é facto patente, não há vida literária. Há sim por aí uma coisa, uma gente que escreve, uma gente que lê, alguns senhores-poetas (médicos, advogados exquisitos).

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Textos de Circunstância

Seguido de "A Pide Nunca Existiu"

Luiz Pacheco

Capa: Jorge Alvarez

Colecção Direito à Cultura nº 5

Editorial Fronteira, Amadora, Maio de 1977

Pides salvaguardados em Caxias, recebendo ordenado por inteiro; pides contestatários, na Penitenciária: pides foragidos, às dezenas, de Alcoentre; pides libertados, escamoteados, reintegrados, impacientes, recalcitrantes, canonizados um dia, quem sabe?, isto é mau, isto é péssimo, ó senhores do P.R.E.C. que ainda estejam a tempo de agir. É que, chegando aqui, desmobilizam-se as consciências, sente-se um vazio, uma tristeza, uma injustiça, a descrença. Quando democratas antifascistas jazem enterrados, cada vez mais esquecidos talvez, e os seus carrascos alevantam a grimpa, aguçam a sai sanha.

(1976)

segunda-feira, 20 de julho de 2020

OLHAR AS CAPAS


Comunicado ou Intervenção da Província

Luiz Pacheco
Capa e «hors-texte»: Ferreira da Silva
Edições Contraponto, Caldas da Raínha, 1966.

O Cesariny é o Poeta do Corpo e toda a cidade queimada o manifesta toda a sua poesia desde Corpo Visível o revela, glosa esse tema inalterável, com uma sinceridade e uma violência que no-la afirmam muito mais do que um simples inventado exercício de ritmos e rimas, aliás superiormente dotado e laborado, mas com uma revolta do sangue, a voz de uma pessoa indomada e indomável. Direi também: um orgulho e um desafiop ao Tempo, principalmente ao nosso tempo.
Porque NÂO VOS ESQUEÇAIS! estamos enterrados desde há perto de dois mil anos numa civilização, a nossa por nosso azar, que despreza o corpo, o castiga com torpezas várias, trabalhos inúteis, o crucifica à martelada sendo precisos, o consome estupidamente fora e abaixo das suas próprias funções e beleza – até à chegada infalível do cangalheiro.
ÓDIO AO CORPO!
É o que eles ensinam e comandam desde os bancos de escola.
AMOR AO CORPO!
É o que o poeta quer e recomenda e pratica, mesmo no fundo cárcere, até nos silêncios entre as suas palavras.
Ora já me parece que vai sendo altura de perdermos a timidez ou a vergonha    O MEDO    e fazendo muitas figas e TOMAS! aos  carrascos do corpo e aos apressados coveiros que nos rodeiam, usarmos o nosso corpo e o alheio a bel-prazer, e conforme melhor nos apeteça. Não proponho a luxúria, que é a desordem dos sentidos, mas a libertação do medo, Seguirmos as lições de SADE, a estratégia de LACLOS, o à-vontadinha de MILLER, os requintados pas-de qautre do DURREL PORQUE ALEXANDRIA ESTÁ ONDE NóS QUISERMOS!
e tanto e tão fácil na velha Baixa pombalina, como por aqui no Parque das Caldas, ou nessa pacata Rua Dona Estefânea, onde nasci. Basta querermos… mas nada de exibicionismos, cuidado muito cuidado, que a BASTILHA DA PÊJOTA é numa esquina aí perto… e os seus calabouços, pelo que vi, têm má ventilação.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Textos Sadinos

Luiz Pacheco
Prefácio: Baptista-Bastos
Epitáfio: Ângela Caires
Capa e ilustrações: Rui Mesquita
Plurijornal, Setúbal 1991

Pronto. É uma história de amor, triste como o costume. As histórias de amor alegres não são para contar. As verdadeiras acabam sempre mal, duma maneira ou doutra. Com a Irene ao lado, algures em Setúbal, meti n’Os Namorados três parágrafos melancólicos. É tudo o que me resta da Fátima.

sábado, 26 de janeiro de 2019

UMA VIDA UM BOCADO ATRIBULADA...


Na entrevista que Luiz Pacheco deu a João Pedro George fala-se do livro «Mano Forte», dezassete cartas que Luiz Pacheco escreveu a António José Forte:

E o livro Mano Forte, a correspondência para o António José Forte?

Quem conheça um pouco da minha vida sabe que eu tive uma vida  atribulada, com fugas de casas, de terras, de mulheres, de calotes e cobradores, da polícia e até dos ladrões, de ambientes… eu sempre tive o cuidado, quer em Setúbal, quer nas Caldas da Rainha, quer na Macieira, quando aparecia uma ameaça de ser preso ou ter que mudar rapidamente de casa, de não andar carregado com dossiers cheios de tralha… ficou-me muita tralha perdida para aí… ainda bem que ficou…

Mas gostas do resultado final do livro?

Dali não vem mal ao mundo. Podia vir se isto fosse uma edição que não tivesse venda. Isto é muito cuidado. Se teve venda alguém ganhou, ganhou a tipografia, ganhou a fábrica de papel, ganhou também o editor… Eu tenho uma certa cagança nisto. Repara, eu estou aqui no quarto, não saio à rua há mais de um ano e de repente estou na montra da FNAC… é uma maneira de sair daqui.

Lembras-te de ter escrito aquelas cartas e aqueles postais?

Não me lembrava de nada. Publiquei cartas minhas para na cadeia do Forte de Caxias e do Forte para mim no Pacheco versus Cesariny. Isto é nem mais nem menos o resultado de um gajo que teve uma vida fodida, ou variada, salta de Lisboa para Setúbal, de Setúbal salta para as Caldas da Rainha, salta para Almoinha, Sesimbra, salta para Vieira do Minho. As cartas também são para vários sítios porque como o Forte era funcionário das bibliotecas itinerantes andava por Vieira do Minho, Portalegre, Santarém, Tomar…

Qual a memória que guardas do António José Forte?

O que não está aqui feito e também agora não interessa fazer era valorizar, dar o seu justo valor à figura do Forte. Eu tentei convencer o Bernardo Sá Nogueira... não quis, achou que não… O Forte nunca foi um gajo de se evidenciar muito, de se por em bicos de pé… é claro que este livro era uma boa oportunidade de chamar a atenção para o Forte… Olha, não quero falar de mortos. Aqui no lar já há muitos mortos. Aqui está tudo morto. O gajo da cadeira de rodas… Quando passa aqui o cortejo, à hora de almoço, à hora de jantar…

Como é que esta correspondência aparece passados tantos anos?

Um tipo sabe que fulano, António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais, guardou, morreu, foi parar às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra… repara, é uma edição de 1000 exemplares a um preço, mais 100 a outro preço, numerados, com mais 30 a outro preço, numerados também, uns em romanos e outros em árabe. É o intuito do alfarrabista a valorizar as cartas que lá tem. Seja como for, o livro está cheio de disparates. Passaram a vida a foder-me.

Como por exemplo?

O título, desde logo o título. Eu não conheço as cartas nem os postais, mas duas dezenas de cartas e três postais nunca podem ser “cartas fortes”, que era como o Bernardo, no início, lhe queria chamar… há uma carta maior, mas o resto são tudo cartas pequeninas… O Bernardo Sá Nogueira diz sobre estes postais que era “escrita premeditada no pressuposto de publicação”. Isto é um disparate, é a armar em esperto. Quem vê os postais que vêm ali, em fax-simile… então um gajo escreve um postal destes a pensar que vai ser publicado? Eu agora quase não escrevo postais com o objectivo de não serem publicados. Escrevo muito poucos postais e cartas, então, é um caso sério. Aqui já não é o interesse amigo de guardar um papel de um gajo que lhe mandou, aqui é já o interesse meramente mercenário de fazer dinheiro com o papel. No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo. Ainda mais nessa altura, no tempo do antigamente, do fascismo, a carta era uma expressão livre, claro que os gajos muitos cautelosos nem cartas nem postais escreviam. Agora eu escrevia imenso… Este livro é uma golpada. É evidente. Por exemplo, a fotografia na capa… é uma maluqueira como outra qualquer… Dá ideia que eu é que sou um exibicionista, que gosta de vir nas capas… é para chamar, para vender mais… Isto faz vender. A fotografia e o nome fazem vender…

sábado, 11 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS


Literatura Comestível

Luiz Pacheco
Capa: Soares Rocha
Editorial Estampa, Lisboa, Novembro de 1972

Durante anos e anod não publiquei nada meu, publicando outros, que considerava e considero ainda com muito mais talento do que eu (exemplo: o Cesariny, O Manuel de Lima). Se há coisa que me encha de cagança é essa minha actividade de Editor, a qual excede de longe a de Autor e lanço daqui mesmo um desafio: não pode haver em Portugal nenhuma bibliotecazinha decente que não tenha lá um livro editado por mim – poesia ou teatro, cinema, ficção, ensaio.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


O Libertino Passeia Por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor

Luiz Pacheco
Contraponto, 1970

Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Gêninha jamais esquecida. A Super-Super-Gêninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Figuras, Figurantes e Figurões

Luiz Pacheco
Selecção e prefácio: João Pedro George
Capa: André Carrilho
O Independente, Lisboa, 2004

Estive até aqui a ver se me distraía… e não posso. Morreu a semana passada o Fernando Assis Pacheco. A coincidência do nome não é o que me preocupa. Mas a perda de uma Amigo, numa Amizade velha de muitos anos e nunca desmentida, nunca traída. O Fernando era prosador de qualidade (como poeta não o apreciava tanto) e o seu último romance (ganhou no público um êxito que não logrou dos júris dos prémios) uma obra notável. Eu, que digo mal de tudo, se bem me lembro, escrevi-lhe uma carta, com justos louvores, porque gostei do livro. Tirando isso, que era muito e nada vulgar, menos vulgar ainda era a cordialidade, a simpatia, o entusiasmo que o Fernando punha no seu noticiário cultural, nas entrevistas, numa atenção eufórica perante a coisa literária e os coitados da República das Letras, sempre ansiosos por um conforto, uma palavrinha de ternura. Quanto a mim, posso e devo acrescentar: deu-me trabalho e razoavelmente remunerado, n’ O Jornal, quando eu andava por aí aos caídos.
Podendo, falarei talvez melhor do Fernando Assis Pacheco daqui a uns tempos, desculpem.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Exercícios de Estilo

Luiz Pacheco
Editorial Estampa, Lisboa, Julho de 1971

Tenho Amigos até 1 copo. Tenho todos os meus Amigos tabelados: a cincos (o Edmundo Bettencourt, o Jaime Salazar Sampaio, por ex.), a vintes (são a grande maioria), a cinquentas (o Mário Alberto, etc.), a cemzes, a quinhentos (o Artur Ramos), a miles (destes últimos convém não abusar, é só para as grandes aflições). A vintes cada bebedeira são á bicha, bêbedas que apanhamos eles a pensarem neles e no que mais lhes interessa ou por um bocado de companhia ou por um ouvido irmão para desabafar; eu a pensar nos vintes que lhes vou cravar à despedida, na hora das emotivas efusões em que a fraternidade é lei. Tenho Amigos que dão vintes mesmo sem vinho – e sabe-se lá porquê? Tenho Amigos que dão a gravata a camisa a calça curta ou comprida cachecóis lenços de assoar a esferográfica deles, todos os trocos miúdos das suas algibeiras, com uma careta ou um riso satisfeito, tanto me faz. Tenho ainda Amigos que me levam uma vez por ano à praia de popó e me dizem insistem para que molhe ao menos os pés, lave as ventas na água salgada, insistem por pura amizade para eu respirar fundo «qu’ali é qu’é bom». O iodo. As brisas atlânticas. As beldades carnudas bem à mostra. Tenho outros Amigos que me põem a ouvir a última gravação que compraram do Brell e oiço Les Timides, Les Vieux e choramingo, na hora dos copos qualquer pretexto (me serve) lachrima triste à esquerda (veio decerto directa do coração), lagrimeta condensada na pupila à direita pelos tintos, forma de arroto vínico irreprimível subido do fígado inchado que se enganou no caminho natural talvez sugestionado pelo Brell. Tenho Amigos-amigos, Amigos-negócios à parte e Amigos-meio a atirar pró torto, da onça. De todos preciso e assim-assim de todos gosto à minha maneira porque a solidão e o silêncio são causas de morte, são a morte. O meu maior Amigo, digo: aquele que me tem feito sofrer mais, sou eu. Por isso, talvez, também que o prefira (e me gramo). Entre todos os Amigos às vezes me prefiro e tiro mais, carrasco e vítima de mim mesmo, e bebo e drogo-me para o esquecer, o desconhecer, e ainda às vezes tanto asco lhe voto e desespero que o matava logo ali – a não ter tanto medo da polícia Eu).

domingo, 15 de janeiro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Uma Admirável Droga

Luiz Pacheco
Posfácio: Isabel Segorbe
Capa: Victor Hugo
Ilustrações A.S.L.
Quarteto Editora, Coimbra, Fevereiro 2001

Se eu tive um destino singular, na modéstia que todos temos um único, original e nosso e apenas isso, mas repito se, em comparação com muita gente que me rodeia, lhe posso ainda, aqui comigo e nas histórias lendárias ou veras que de mim contam (algumas tenho ouvido, espantado sem acreditar; doutras nem já me lembrava mas foram mesmo), esse meu destino, é singular, porque será? Interrogo (-me) e não sei capaz, não lhe (me) sei responder. A doença em pequeno? a devoradora leitura, alargando uma imaginação já de si exagerada, neurótica? uma degenerescência familiar de que fiz bastante para me salvaguardar, procurando outros rumos, novos projectos, caras felizes? um  acentuado pendor para a contradição ou atenção crítica que começa no querer ver como é, saber ouvir, ler muito e variado, e desconfiando sempre? Porque desconfio, duvido, amontoando hipóteses, alterando dados na aparência irrefutáveis e, em frieza quase absoluta, distinguindo os meus sentimentos ternos pelas pessoas da análise implacável do que elas são ou de como aas queria? e repelindo-as ou chegando-me a elas, na convivência forçada ou fascinante que temos de aceitar com o outro?
Conheço-me? não me conheço? estou baralhado de todo? Ou fui sempre? 

sábado, 17 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS


Mano Forte

Luiz Pacheco
Apresentação de Bernardo de Sá Nogueira
Livraria Alexandria, Lisboa, Fevereiro de 2002

Mano Forte:

Está feito o negócio! A Ulisseia vai-me editar tudo, tudo. E para já o volume, amálgama, dos textos críticos ou raivosos. 7200$00! (Precisas de dinheiro? Se sim, avisa depressa: devo estar totalmente, alegremente teso domingo ou segunda. O dinheiro dá azar!) Como terás ocasião para ler, a Crítica de Circunstância só é um livro porque mantém, ao longo de quase vinte anos, uma certa unidade de pensamento, uma certa intransigência. Uma atitude. O outro, Exercícios de Estilo, é obra mais deliberada. E tenciono agarra-me a ela, com unhas e dentes.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

OLHAR AS CAPAS



O Uivo do Coiote
Entrevistas

Luiz Pacheco
Prefácio: Acácio Barradas
Capa: Paulo Curto
Contraponto, Setúbal, Fevereiro de 1997

Uma vez pediu ou pensou pedir uma bolsa à Gulbenkian para uma biografia do Bocage. Não escreveu isso?

Não, para isso nunca. Pedi uma bolsa à Gulbenkian e disseram-me que não era costume dar bolsas para escritores; já houve essa discussão, só há bolsas para pintores. A conversa do costume, que «era estimular a preguiça», mas para mim, como «não era exigente», talvez se arranjassem dois ou três contecos por mês. Eu nessa altura quase não via nada e precisava de uns óculos, pensei então que, em vez de dois contos, podia pedir para os óculos. Faço então uma petição à Gulbenkian para pagarem os óculos, com uma grande choradeira, que estava quase ceguinho… Eu com estes já só consigo ler o «Estrela-Gomes Freire» a 30, 20 metros. Passados dois meses mandaram-me um conto de réis, porque eu podia esperar. Agarro numa fotocópia da petição, saio do Curry Cabral e vejo numa montra o Padre Cruz e santinhos e um postal do Sousa Martins, que é o «santo» do Campo Santana, e mando ao perdigão a cópia a dizer: «Pedi para aí uma bolsa já há tantos meses, para uns óculos, que estou quase cego. Já me agarrei ao São Calouste, ao São Perdigão, vamos lá a ver se agora o Sousa Martins me faz o milagre.» Carta registada, aviso de recepção. Tive como resposta um pedido para enviar o orçamento do oculista, «sem compromisso desta Fundação». Empenhei uns binóculos que tinha, fui ao médico, passou-me a receita e fui ao Pereira do largo do rato. Fizeram-me o orçamento. Fiquei a saber que não foi a Fundação, mas o Presidente, que pagou o0s 35 contos e quinhentos por estes óculos, italianos. Disseram-me que ele tinha um fundo pessoal para essas coisas.