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quarta-feira, 10 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Zuckerman Libertado

Philip Roth

Tradução: Francisco Agarez

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote

Lisboa, Agosto de 2023

E entretanto deixa de comer em restaurantes manhosos. És um homem rico.

- Quem diz que eu como em reaturantes manhosos?

 O News ou o Post?

- Digo eu. E não é verdade? Compras frango assado a escorrer gordura nessas churrasqueiras infectas e come-lo com as mãos nesse apartamento miserável. Escondes-te no Pastrami Haven do Shloimie fazendo-te passar por um inofensivo zé-ninguém de nenhures. E agora tudo isso começa a perder o encanto excêntrico, Natahan, e a cheirar decididamente a paranoia. Afinal qual é a tua ideia?

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

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A Conspiração Contra a América

Philip Roth

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Henrique Cayatte

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2008

O medo preside a estas memórias, um medo perpétuo. Embora infância alguma esteja isenta dos seus terrores, pergunto-me se teria sido um rapaz menos assustado se Lindbergh não tivesse sido presidente ou se eu não tivesse sido filho de judeus.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

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Engano

Philip Roth

Tradução: Francisco Agarez

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 2013

O senhor faz parte da massa de homens que vêm infligindo às mulheres grande sofrimento e extrema humilhação… humilhação de que só agora começam a ser libertadas, graças à ação incansável de tribunais como este. Porque é que publicou livros que infligem sofrimento às mulheres? Não pensou que esses livros podiam ser usados contra nós pelos nossos inimigos?

- A única coisa que posso dizer é que essa vossa suposta democracia da igualdade de direitos tem propósitos e objetivos que não são os meus como escritor.

- Por favor, o tribunal não está interessado em ouvir mais uma das suas lições de literatura. Na sua obra, todas as mulheres são estereótipos maliciosos, Era esse o seu propósito como escritor?

- Há muita gente que lê a obra de maneira diferente.

quinta-feira, 18 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


O Fantasma Sai de Cena

Philip Roth

Tradução: Francisco Agarez

Capa: Henrique Cayatte

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2008

Tinha passado estes onze anos sozinho numa casinha à beira de uma estrada de terra batida do interior profundo, tendo decidido viver assim isolado de tudo uns dois anos antes de me ser diagnosticado o cancro. Vejo poucas pessoas. Desde a morte, há um ano, do meu vizinho e amigo Larry Hollis, podem passar-se dois, três dias em que não falo com ninguém além da mulher-a-dias que vem todas as semanas fazer a limpeza e do marido dela, que é o meu caseiro. Não vou a jantares, não vou ao cinema, não vejo televisão, não tenho telemóvel nem gravador de vídeo ne, leitor de DVD nem computador. Continuo a viver na Idade da Máquina de Escrever e não faço ideia do que seja a World Wide Web. Já não me dou ao trabalho de ir votar. Escrevo durante quase todo o dia e muitas vezes pela noite dentro. Leio, principalmente, os livros que descobri em estudante, as obras-primas da ficção cujo poder sobre mim não é menor, e em alguns casos é ainda maior, do que foi nos meus primeiros e exaltantes encontros com elas.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

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O Animal Moribundo

Philip Roth
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 2010

A grande partida biológica que nos pregam é que nos tornamos íntimos antes de sabermos alguma coisa acerca de outra pessoa. No momento inicial compreendemos tudo. Inicialmente, somos atraídos para a superfície um do outro, mas também intuímos a dimensão mais plena. E a atração não tem de ser equivalente: ela é atraída por uma coisa, nós pela outra. É a superfície, é a curiosidade, mas depois, zás!, pela dimensão. É agradável que ela seja de Cuba, é agradável que a sua avó tenha sido isto e o seu avô aquilo, é agradável que eu toque piano e tenha um manuscrito de Kafka, mas tudo isso é um mero desvio no caminho para chegarmos aonde vamos. Faz parte do encantamento, suponho, mas é a parte que me faria sentir muito melhor se pudesse dispensá-lo. O sexo é todo o encantamento necessário. Os homens acham as mulheres assim tão encantadoras uma vez excluído o sexo? Alguém acha alguém de qualquer sexo assim tão encantador, a não ser que tenha comércio sexual com essa pessoa? Por quem mais nos sentimos assim encantados? Por ninguém. 

domingo, 22 de dezembro de 2019

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Teatro de Sabbath

Philip Roth
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho 2010

E foi assim que se passou. Cinco meses depois da morte de Drenka, não foi preciso mais nada para ele desaparecer, deixar Roseanna, encontrar finalmente forças para deixar o lar de ambos, na medida em que assim se lhe podia chamar, meter-se no carro e partir para Nova Iorque para ver qual era o aspeto de Linc Gelman.

domingo, 1 de dezembro de 2019

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A Humilhação

Philip Roth
Tradução: Francisco Agarez
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

Tinha perdido a magia. O ímpeto estava esgotado. Nunca tinha falhado no teatro, tudo quanto tinha feito fora forte e bem-sucedido, e então aconteceu p terrível: deixou de saber representar. Subir ao palco tornou-se uma aflição. Em vez da certeza de que ia ser espantosos, sabia que ia fracassar. Aconteceu três vezes seguidas, e na última já ninguém estava interessado, ninguém apareceu. Não conseguia chegar ao público. O seu talento estava morto.
É claro que quem alguma vez o teve terá sempre alguma coisa que o distingue de todos os outros. Eu sempre me hei-de distinguir de todos os outros, disse Axler para consigo, porque eu sou quem sou. Transporto isso comigo – e disse sempre as pessoas se irão lembrar. Mas a aura que ele tivera, todos os seus trejeitos e excentricidades e especifidades pessoais, o que tinha resultado bem em Falstaff e Peer Gynt e Vânia – o que tinha valido a Simon Axler a reputação de ser o último dos grandes actores americanos teatro clássico. Tudo quanto tinha resultado para fazer dele o que era resultava agora para fazê-lo parecer louco. Tomava consciência da pior maneira possível de cada momento que estava em cena. No passado, quando representava não pensava em nada. Aquilo que fazia bem fazia-o por instinto. Agora pensava em tudo, e aniquilava tudo o que era espontâneo e vital – tentava controlá-lo com o pensamento e em vez disso destruía-o. Pronto, pensou Axler para consigo, estava a travessar um período mau. Apesar de já ter entrado nos sessenta, talvez aquilo passasse enquanto ainda era inquestionavelmente igual a si mesmo. Não seria o primeiro actor experiente a passar por aquilo. Muitos passavam pelo mesmo. Eu próprio já passei, pensou, portanto hei-de arranjar maneira de sair disto. Não sei como irá ser desta vez, mas vou conseguir. Isto vai passar.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

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Casei Com Um Comunista

Philip Roth
Tradução: Ana Maria Chaves
Capa: Miguel Imbiriba
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2001

- Todas as suas diatribes dirigia-as o Ira contra si próprio. Como é que esta farsa podia ter-lhe arruinado a vida? Tudo o que passava ao lado do que era realmente fulcral, todas as coisas periféricas da existência contra as quais o camarada O’Day o tinha avisado: Lar. Casamento. Família. Amantes. Adultério. Toda essa merda burguesa! Porque é que ele não tinha feito como o O’Day? Porque não tinha ido às prostitutas como o O’Day? Prostitutas a sério, profissionais de confiança que conhecem as regras, e não amadoras desbocada como a sua massagista estónia.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

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A Mancha Humana

Philip Roth
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Julho de 2007

Foi no Verão de 1998 que o meu vizinho Coleman Silk – que, antes de reformar dois anos atrás, fora professor de estudos clássicos no Athena College durante vinte e tal anos, além de ter servido dezasseis como reitor da faculdade – me confidenciou que, aos 71 anos, tinha um caso com uma empregada de limpeza de 34, que trabalhava na universidade. Duas vezes por semana também fazia a limpeza do posto dos correios rural, uma pequena construção de madeira que poderia ter abrigado uma família Okie dos ventos da Dust Bowl nos anos 30 w que solitária e desamparada defronte da estação de serviço e do armazém-geral, hasteia a bandeira americana no cruzamento das duas estradas que assinalam o centro comercial desta cidade da encosta da montanha.

Coleman vira-a pela primeira vez a lavar o chão do posto dos correios quando lá fora ao fim de um dia, poucos minutos antes da hora de encerramento, buscar a sua correspondência. Era uma mulher alta, magra e angulosa, com o cabelo louro a encanecer puxado para trás e preso num rabo-de-cavalo e o género de feições duramente vincadas que costumamos relacionar com as donas de casa dominadas pela igreja e sobrecarregadas de trabalho que sofreram as agruras dos duros primeiros tempos da Nova Inglaterra, colonas austeras, tolhidas pela moral vigente e obedecendo-lhe. Chamava-se Faunia Farley e, fossem quais fossem os sofrimentos que suportava, escondia-os atrás de um daqueles inexpressivos rostos ossudos que não escondem nada e denunciam uma imensa solidão.

sábado, 5 de dezembro de 2015

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O Complexo de Portnoy

Philip Roth
Tradução: Ana Luísa Faria
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junhio de 2000


No Verão ele fica na cidade enquanto nós três vamos passar um mês num quarto mobilado à beira-mar. Irá depois ter connosco, para as duas últimas semanas, quando tiver férias… há dias, no entanto em que Jersey City fica tão saturada de humidade, tão fervilhante dos mosquitos que lançam os seus ataques aéreos a partir dos pântanos, que no fim do dia de trabalho ele faz sessenta e cinco milhas, pela velha estrada de Cheesequake – a estrada de Cheesequake! Santo Deus! As coisas que uma pessoa aqui se lembra! – faz sessenta e cinco milhas para passar a noite connosco no nosso quarto arejado de Bradley Beach.
Chega já depois de nós termos jantado, mas o jantar dele fica à espera enquanto ele despe as roupas citadinas encharcadas com que andou todo o dia a fazer o circuito das cobranças e veste o fato de banho. Desce a rua até à praia, com os sapatos desapertados a matraquear o asfalto, e eu levo-lhe a toalha. Trago vestido uns calções lavados e uma camiseta imaculadamente limpa. Já tomei um duche para tirar o sal da pele, e o meu cabelo – ainda o meu cabelo pré-palha-d’aço de rapazinho, macio escovável – está muito bem penteado, de risca bem feita. Há um varão de ferro carcomido que corre ao longo da passadeira de tábuas, e é nele que me sento; lá ao fundo ainda calçado, o meu pai atravessa a praia deserta. Vejo-o poisar a toalha muito direita, ao pé da água. Guarda o relógio num sapato, os óculos no outro, e está pronto para a sua entrada no mar. Ainda hoje entro na água como ele me aconselhava: mergulhar primeiro as mãos, depois molhar as axilas, depois uma mão-cheia de água na testa e na nuca… ah, mas devagar, sempre devagar. Assim a pessoa refresca-se, evitando ao mesmo tempo que o organismo sofra um choque. Refrescado, sem ter sofrido qualquer choque, ele vira-se para mim, acena comicamente em direcção ao sítio onde julga que eu estou, e deixa-se cair de costas, boiando de braços abertos. Oh, como ele fica imóvel quando bóia – ele trabalha, trabalha tanto, e para quem senão para mim? -, e depois, finalmente, depois de se pôr de bruços para dar meia dúzia de braçadas nervosas que não o levam a parte nenhuma, volta a patinhar para a areia, o tronco compacto e molhado a brilhar dos últimos raios de luz puríssima que descem, por sobre os meus ombros, do interior, da sufocante Nova Jérsia a que estou a ser poupado.

quinta-feira, 17 de março de 2011

OLHAR AS CAPAS



Pastoral Americana

Philip Roth
Tradução: Maria João Delgado e Luísa Feijó
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote
Lisboa, 2010

Ela desistiu porque há coisas que para ela são mais importantes do que as letras B-b-b.A. num bocado de papel. Chamas a isto extremismo? Não, eu acho que extremismo é continuar a viver como se nada fosse quando existe este tipo de loucura, quando as pessoas são exploradas à esquerda, à direita e ao centro, e a gente continua a enfiar o fatinho e a gravata e a ir todos os dias para o emprego. Como se nada se passasse. Isso é que é extremismo. É de uma estupidez extrema, é o que é.